Julianne Cerasoli

Só a “sorte” explica a corrida de Vettel em Abu Dhabi?

A decepção do sábado deu uma chance a Vettel, e ele a aproveitou

“Ele deve ser a pessoa mais sortuda da Fórmula 1”, riu Lewis Hamilton. “O Safety Car ajudou muito”, emendou Felipe Massa. Mal terminou o GP de Abu Dhabi e os rivais se apressaram em diminuir os feitos de Sebastian Vettel, que ganhou 21 posições em relação à largada para chegar em terceiro.

Há duas maneiras de olhar o feito: os detratores apontarão sorte e um carro configurado para ultrapassar; os admiradores, a prova cabal de que o bicampeão sabe ultrapassar e se dar bem largando mais atrás. Contudo, nenhuma delas explica completamente a corrida do alemão. Uma grande parcela de competência o colocou em posição de desfrutar da sorte. Algo que compararia à corrida de Alonso em Valência: o espanhol teve seus méritos ao escalar o pelotão, ter ritmo forte quando precisava, ultrapassar sem pestanejar, para depois herdar a vitória. Vettel veio de (muito) mais de trás e teve tantos méritos (e sorte) quanto seu rival.

Passemos um pente-fino na corrida do alemão, que contava com um equipamento preparado para ultrapassar após a primeira grande decisão da Red Bull após o mal-explicado erro do combustível (cuja culpa, segundo o time, é da Renault): largar do pitlane. Além de dar 10km/h a mais de reta a Vettel por meio de configurações de asa e câmbio, o tirou de uma primeira volta que seria das mais complicadas: Rosberg, Grosjean, Di Resta e Senna foram parar atrás de Vettel – o brasileiro chegou a tentar devolver a posição, em disputa que custou a primeira parte da asa dianteira da Red Bull – e Hulkenberg ficou pelo caminho. Com isso e se livrando das nanicas em 8 voltas, Vettel subiu a 13º, a 23s do líder.

Mas havia uma preocupação: seu ritmo não era semelhante ao dos líderes quando tinha ar livre, mesmo considerando que estava com os pneus médios. Seria pela asa ou o pneu macio era o melhor para a corrida? Essa questão teve uma solução apressada pelo segundo golpe, causado pelo mal entendido com Ricciardo atrás do Safety Car. E provou que o pneu macio seria o mais rápido e durável.

A primeira parada tão cedo não estava nos planos, nem mesmo a equipe sabia se os pneus aguentariam. Mas não havia escolha. Na relargada, Vettel usou muito bem a aderência (pelo pneu novo) e temperatura a mais (por não tê-lo aquecido atrás do SC) para escalar rapidamente, passando, além das nanicas, Di Resta, Grosjean, Senna novamente, as Toro Rosso com óbvia facilidade e Schumacher. Ganhou 10 posições em 11 voltas, todas na pista, antes que a rodada única de pit stop começasse.

A grande “sorte” de Vettel é que o primeiro SC o tirou do “confronto direto” com carros que seriam mais difíceis de passar pois fatalmente encontraria as Sauber e Massa e perderia mais tempo que, somado aos 23s que levava do líder na oitava volta, tornaria a diferença irrecuperável para alcançar o pódio. Mas, com 25 voltas completadas, Vettel estava a 22s do líder, com a parada custando cerca de 19s.

Passada com louvor a fase das ultrapassagens, o alemão adotou o ritmo da ponta, sendo alçado à segunda posição após os pit stops. Mais importante: os três primeiros haviam colocado mais de 12s nos demais pela “barreira” chamada Grosjean, que tentava ir até o final com pneus tão usados quanto os de Vettel e limitava os avanços de Maldonado, Perez e companhia, abrindo uma janela importante atrás de Button.

Isso deu margem de manobra para a Red Bull: se os pneus de Vettel acabassem, terminaria em quarto. Se o parassem, quarto seria o pior cenário. Resolveram dar uma chance para o alemão repetir a estratégia de Montreal e conseguiram mais três pontos com a ultrapassagem sobre Button.

Dificilmente esta ultrapassagem teria acontecido sem o segundo Safety Car. Vettel teve três voltas com ar livre após passar Button, e foi 0s5 mais rápido em uma e 1s nas duas últimas. Não dá para saber o quanto o inglês estava forçando. E o bicampeão havia voltado da parada 15s de Jenson, com 18 voltas para o final, diferença dizimada pelo Safety Car.

O saldo é de oito ultrapassagens descontando as nanicas e ritmo forte quando necessário. Carro voando na reta? Pneus melhores? Desde que o mundo é mundo ninguém sai passando todo mundo na F-1 só com o braço. Vettel fez um trabalho irretocável e teve seu resultado final aumentado pelas circunstâncias. Em um campeonato de oportunidades, colocou-se, mais uma vez, em posição de aproveitá-las. No equilíbrio entre sorte e competência, prefiro a abordagem pragmática do próprio líder do campeonato. “We had the chance to fuck it up but we didn’t.” Simples assim.

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