Julianne Cerasoli

Um retrocesso e uma incógnita nas novas regras

A FIA explicou melhor o pacote de mudanças no regulamento que anunciou semana passada. Depois de um ano em que os pilotos tiveram mais liberdade para disputar posições, mais parece um retrocesso que a regra fale em punição quem forçam o outro para fora da pista durante uma ultrapassagem – para atacar ou defender. A pista é determinada pelas linhas brancas, ou seja, zebra não vale.

Sem isso explicitado no regulamento, prevalecia o bom senso. Se o piloto mudava a linha para atrapalhar o outro, era punido; caso desse a tradicional espalhada, não. Pelo visto, se espalhar e o adversário sair das linhas brancas, os comissários têm uma série de punições para escolher, desde um drive through até a exclusão na próxima corrida. Outro tipo de manobra que não será mais permitida é a ultrapassagem no pitlane – pelo menos na saída, pois o regulamento nada fala a respeito da entrada do pit –, assim como a mudança de direção para a defesa da posição (isso foi reforçado devido às tentativas de Hamilton quebrar o vácuo de Petrov na Malásia).

Faz-me lembrar do GP da Alemanha de 2008 – e certamente há outros exemplos –, quando a McLaren quase tirou, por um erro estratégico, uma vitória tranquila do mesmo Hamilton. A equipe deixou o piloto numa situação um tanto incômoda, tendo que passar Kovalainen (o que foi prontamente resolvido com um recado pelo rádio, seguido de um “erro” do finlandês), Massa e Nelsinho. O inglês venceu a corrida mas, no jeito que o fez, não pode mais – e a da Toro Rosso (seria Vettel?) em Alonso, outra do mesmo vídeo, também não.

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As asas explicadas

Algumas perguntas a respeito das asas traseiras móveis foram respondidas no regulamento. Haverá locais pré-determinados em cada circuito nos quais, se um piloto passar a menos de 1s do rival que vai à frente, receberá um sinal de luz em seu volante e poderá apertar o botão que fará sua asa estolar, dando-lhe mais velocidade. Quando ele tocar no freio, o sistema automaticamente fará a asa voltar ao normal. A FIA reconhece que ouvirá os competidores sobre um possível ajuste dessa distância de 1s.

O dispositivo não poderá ser utilizado nas duas primeiras voltas da corrida ou das relargadas. As regras, contudo, nada falam sobre como o público saberá se quando ela for acionada ou a possibilidade de 3 ou mais carros estiverem lutando por posição. Provavelmente, todos poderão utilizar a asa móvel, menos o 1º da fila.

As asas podem ser móveis, mas o flexibilidade para por aí. Há uma preocupação para que os movimentos tipo Red Bull não voltem a acontecer. Para isso, os testes de flexibilidade ganharam em rigor e mais partes do carro foram adicionadas à lista dos que devem ser fixos.

O banimento àqueles apêndices aerodinâmicos disfarçados de retrovisores foi oficializado – algumas equipes, incluindo Red Bull, Ferrari e Williams, foram forçadas a mudar seus projetos no início desse ano – e a célula de sobrevivência ganhou um teste desde baixo. Há ainda mais restrições em peças que possam causar furos nos pneus dos adversários.

As equipes não poderão trabalhar nos carros às sextas e sábados, por um período de 6h, contando desde a meia-noite até 4h antes das sessões de treinos livres. Os times poderão quebrar essa regra e passar as madrugadas trabalhando apenas por 4 vezes durante a temporada. Como prometido, a regra dos 107% – o carro só poderá largar se seu tempo de classificação estiver abaixo de 7% do pole – volta. E, como os câmbios terão que durar 5 corridas consecutivas a partir de agora, apenas em 2011 será tolerada a 1ª troca do ano sem punição.

A FIA não quer mais saber de noitadas dos mecânicos no boxes

Vejo uma tendência da nova direção da FIA em corrigir o regulamento, mais do que em promover ideias mirabolantes, mas há uma premissa sustentando todo o pensamento de Todt que incomoda: o francês acredita que as regras técnicas devem limitar os custos/aumentar as ultrapassagens e essa é uma queda de braço que só vai levar a mais pontos de vista oportunistas, como vimos neste ano com o teste que a Ferrari fez antes de Valência, com a justificativa de gravar um vídeo comercial, ou com o duto aerodinâmico.

Não seria mais simples adotar um teto de gastos, incluindo marketing, folha de pagamento, tudo, e liberar os engenheiros para pensar? Há certamente várias diferenças entre o período de ouro das ultrapassagens e agora e, certamente, uma delas é o fato de termos tido, no passado, carros efetivamente diferentes.

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