
Nos últimos anos, somo essa função à editoria esportiva em jornais diários. Ou seja, basicamente, futebol. E é essa a imprensa que passa quatro anos atrás de 22 jogadores e uma bola que, de repente, se torna porta-voz de um sem-número de modalidades.
Quem gosta de F-1 logo percebe quem não é espectador/leitor/ouvinte costumeiro da categoria e começa a dar palpite. O mesmo ocorre com tantos outros profissionais que se dedicam a modalidades olímpicas. E digo: se há um culpado pela atual onda de críticas ao desempenho dos atletas brasileiros é o total descompasso entre expectativa e realidade, gerado por pura ignorância em relação à cada esporte. E, de quebra, falta de compreensão do que uma competição como a Olimpíada representa.
No judô, apenas quatro atletas que ocupavam a primeira colocação no ranking mundial confirmaram o favoritismo e chegaram ao ouro. A japonesa Haruna Asami, por exemplo, é uma das 10 que ficaram pelo caminho, na categoria em que a brasileira Sarah Menezes venceu. Na ginástica artística, a norte-americana Jordyn Wieber despontava como a principal candidata ao ouro no individual geral e sequer se classificou para a final.
No atletismo, há mais exemplos, sendo o maior deles até o momento Yelena Isinbayeva, que abusou da confiança no salto com vara e acabou com o bronze. Por outro lado, o domenicano Felix Sanchez, tido como acabado, renasceu das cinzas para vencer os 400m com barreiras com folga, em meio a tantas outras surpresas que ainda nos esperam até o final dos Jogos.
Não que um erro justifique o outro ou que atuações como de Fabiana Murer, campeã mundial e dona da terceira melhor marca do ano – com a qual ganharia o ouro em Londres – não sejam passíveis de críticas, mas é preciso um mínimo de conhecimento de causa. Mas questionar o saltador Mauro Vinícius, em sua primeira olimpíada e despontando agora, após uma séria cirurgia no joelho, por ser o sétimo melhor do mundo, foge de qualquer justificativa lógica. Da mesma forma, esperar muita coisa de Diego Hipólito, vindo de uma série de lesões, ou Daiane dos Santos, em fim de carreira, é passar por cima da grandeza de uma Olimpíada. É como esperar, por exemplo, que Felipe Massa, após 3 anos e meio sem vitória, irá ressurgir como num passe de mágica, ou apostar em um pódio da Toro Rosso como naquela encharcada Monza-2008, esquecendo-se que oito equipes têm se mostrado melhores na atual temporada. Voltando aos Jogos, está claro que o Brasil precisa de uma elite mais representativa, pois nem todos os ‘ouros certos’ virão. Pasmem: há concorrência.
Uma competição dessa magnitude dá diversos significados à vitória. Quando se disputa um campeonato de tiro curto contra os melhores do mundo, muitas vezes chegar a uma final é um feito e tanto. Se buscássemos mais informação – e digo isso como jornalista e espectadora – saberíamos o valor exato das conquistas. Veríamos com outros olhos a luta impressionante de Del Potro por uma medalha para a Argentina diante de Fereder e Djoko, ou o último lugar de Pistorius na semifinal dos 400m. São dois dos grandes vencedores de Londres.
Quem prefere ficar em sua ignorância, questionando ‘o que eles fazem com nosso dinheiro?’ ou generalizações do tipo, sem considerar o investimento – não só financeiro – a longo prazo feito pelas grandes nações do esporte, que hoje têm uma estrutura que lhes permite buscar qualidade e quantidade quase simultaneamente, que continue a espera dos grandes heróis virtuosos. Só resta questionar de quem é o fracasso.