Planejamento. Essa é a palavra-chave para o sucesso na Fórmula 1, ainda que muitos dos que ficaram pelo caminho no ramo teimassem em jogar dinheiro fora impacientemente. Porém, só é possível ter planejamento quando se tem uma boa gestão. E é atrás disso que a Ferrari corre a partir de agora.
As últimas três grandes “dinastias” da Fórmula 1 devem servir de exemplo. A mais longa, o dream team justamente da Ferrari, formado por Jean Todt no comando, Ross Brawn na chefia técnica, Rory Byrne nos projetos dos carros e Michael Schumacher ao volante, demorou 6 anos para “vingar”. E depois comandou a categoria por cinco e criou a base para os outros títulos, de 2007 e 2008. Os últimos de Maranello.
Quando Todt chegou, em 1993, não saiu contratando para mostrar serviço. Primeiro avaliou as áreas em que o time, que vivia uma seca de títulos desde 83, precisava de reforço e foi formando seu dream team aos poucos. Primeiro um grande piloto, Michael Schumacher, e depois a trupe responsável pelos carros do bicampeonato do alemão na Benetton. O projeto sobreviveu às críticas, foi evoluindo passo a passo até o título de construtores de 99. E o resto é história.
Realidade parecida viveu a Red Bull. Tida como uma equipe puramente marqueteira quando Dietrich Mateschitz comprou a Jaguar no final de 2004, contratou o então desacreditado Adrian Newey, que vinha perdendo espaço na McLaren justamente pela ascensão da Ferrari. Junto do inglês, foram chegando outros profissionais e as ferramentas da fábrica foram sendo adaptadas para uma Fórmula 1 que caminhava para limitações nos testes. Criatividade e eficiência passaram a dar resultado logo na primeira grande mudança de regulamento pela qual a Fórmula 1 passou após o surgimento da equipe, em 2009. Exatamente no momento em que surgiria uma oportunidade de nivelar o conhecimento sobre as máquinas, eles estavam prontos.
Nesse meio tempo, não foram poucos os que falharam em seguir a cartilha. A Toyota gastou rios de dinheiro sem nunca ter dito a que veio. A BMW não resistiu ao primeiro tropeço de 2009 após constantes evoluções e a Honda teria o mesmo destino da Red Bull, não tivesse reagido de forma imediatista à crise econômica de 2008. Afinal, foram os japoneses que comandaram o brilhante projeto da Brawn no ano seguinte.
Brawn, que sobreviveu ao baque de perder praticamente todo seu investimento de 2008 a 2009, para hoje ser a gigante Mercedes. Os alemães decidiram apostar na Fórmula 1 quando outras montadoras fugiram do esporte, investiram na fábrica, contrataram profissionais para áreas-chave – chegou Wolff para gerir o negócio, Lowe para comandar a área técnica e Costa para projetar o carro – e lucraram em um momento no qual a integração motor-chassi é fundamental. Isso, no quarto ano de investimento.
Se quiser voltar a qualquer coisa parecida com a era Todt, é nesses exemplos que a Ferrari tem de focar. As melhorias na fábrica estão em curso, o corpo técnico e dupla de pilotos não deixam a desejar na comparação com nenhuma das rivais. O que falta é uma gestão sólida, sem imediatismos. Há quem diga que, em se tratando de Ferrari, isso é pedir muito, mas a história recente está aí para servir de lição.
