Julianne Cerasoli

Xadrez com luta livre

promo291822731

Até o início da última volta, o GP da Áustria tinha um cenário único: mesmo largando em sexto, Nico Rosberg estava próximo de bater um Lewis Hamilton que saíra da pole e não tinha tido nenhum contratempo. Seria uma conquista forte e importante do piloto alemão em um momento capital do campeonato, em que o próprio inglês já começava a entregar os pontos, dizendo que “pode ser que este seja o ano dele”.  

Rosberg sabia tanto disso que tentou caprichar na volta final, cortando ao máximo a primeira curva. Mas acabou exagerando e bateu na zebra interna, perdendo o equilíbrio na saída e dando a chance perfeita para Hamilton, que vinha com mais ação por ter pneus melhores, atacar. O inglês escolheu o lado de fora e Rosberg foi até (além do) limite para tirar o espaço do companheiro. Ninguém cedeu, como era de se esperar em uma última volta.

Mas o acidente acaba desviando a atenção de alguns pontos bastante interessantes. O primeiro stint de Hamilton com os ultramacios foi algo especial, resultado, segundo dele, de muito estudo para entender quais as melhores linhas para preservar os pneus em um circuito no qual ele é o primeiro a reconhecer que não anda bem. O plano original era ir até o final e, sabendo que Rosberg faria duas paradas, o inglês só se preocupou quando se viu atrás do companheiro quando a Mercedes decidiu dar a mesma tática para ambos.

Mas havia uma diferença que seria fundamental para o desfecho da corrida: Hamilton tinha dois jogos novos de macios, e Rosberg não. “Sabia que isso seria uma grande vantagem para ele”, disse o alemão, que teve de tentar fazer os supermacios durarem até o fim. E não conseguiu.

Mesmo que o jogo de xadrez tático rapidamente tenha se tornado luta livre na última volta, é impossível não imaginar o quanto da abordagem mais esportiva da Mercedes esteja sendo fundamental para que tenhamos um campeonato tão cheio de alternativas.

O mais interessado em que toda essa liberdade interna na Mercedes acabasse em um abandono duplo era mais uma vez Max Vestappen que, depois de algumas corridas fracas, por pouco não viveu um repeteco de Barcelona. Parando uma vez a menos, muito em função da boa decisão de Red Bull e Ferrari de largar com os supermacios, ele teve a mesma ameaça de Kimi Raikkonen e conquistou um merecido segundo lugar em uma corrida em que geriu os pneus de maneira muito melhor que Daniel Ricciardo.

Falando em Raikkonen, não deixa de ser significativo que o finlandês esteja empatado com o companheiro Sebastian Vettel após nove etapas. Ele pode estar devendo em classificação, mas suas performances justificam mais, inclusive, uma renovação de contrato do que há 12 meses.

Outra performance que chamou a atenção foi a de Felipe Nasr. Pela segunda vez seguida, o brasileiro fez uma corrida bastante competitiva, desta vez com direito a duas belas brigas com Jenson Button. “Quando você está entre os 10 primeiros, você tem uma briga boa, limpa”. Só está faltando um resultado, que nesta vez foi prejudicado muito em função de um SC na hora errada. Mas a boa notícia é que a Sauber melhorou sua situação financeira e um update mais do que necessário para o carro está para chegar após o GP da Inglaterra.

Nasr precisa muito que essa melhora realmente venha e seja significativa. Com o mercado de pilotos no mesmo estágio de ebulição que a briga da Mercedes, chegou a hora de aparecer.

Sair da versão mobile