
“No próximo GP vocês vão ver uma nova Ferrari”. Não foram apenas uma ou duas vezes que ouvimos o chefe da equipe, Maurizio Arrivabene, repetir essa frase. E, ainda que a Scuderia tenha demonstrado força em alguns GPs até aqui, é a coleção de falhas que chama a atenção. E faz com que, meses antes de uma extensa mudança de regulamento, poucos apostem no time italiano como a equipe a ser batida a partir de 2017.
Os problemas têm aparecido em diversas áreas. Inclusive na administração de Arrivabene, de muito discurso e pouca ação, muitas vezes atribuindo à falta de sorte fatores que poderiam ter sido previstos.
Tanto que, comparando a Ferrari com seus rivais hoje, não há nenhum ponto em que a Scuderia se destaque positivamente: a crônica falta de criatividade do setor aerodinâmico não foi resolvida nem com o fim do velho problema de correlação do túnel de vento; as estratégias têm sido conservadoras demais e a leitura da evolução de pista, pobre.
Some-se a tudo isso uma falta de confiabilidade maior em relação a anos anteriores, especialmente no câmbio, e temos uma Ferrari que não é particularmente fraca em nenhuma área, mas simplesmente não se mostra forte e consistente o suficiente para brigar com Mercedes ou Red Bull, mesmo que os rivais também estejam longe de fazer temporadas perfeitas – a primeira pecando mais em termos de confiabilidade, e a segunda, por vezes arriscando demais em estratégia.
As táticas talvez tenham sido o fator mais visível para a perda de pontos importantes, como nas duas vezes em que Sebastian Vettel foi aos boxes antes dos demais e entregou a liderança, na Austrália e no Canadá. A impressão é de que os estrategistas do time italiano ficam muito focados em um plano pré-estabelecido e não conseguem ler bem o desenrolar da prova.
Mas as falhas táticas podem estar relacionadas a um outro problema importante do time neste ano: a má leitura da evolução da pista, especialmente quando há variações de temperatura do asfalto entre os treinos livres de sexta-feira e o domingo. Isso afeta tanto a escolha do melhor composto e a avaliação de sua durabilidade, quanto o acerto.
Além da temperatura, a Ferrari não parece lidar bem com as pressões de pneus mínimas estabelecidas neste ano pela Pirelli, algo também ligado à dificuldade que o time parece ter em prever o rendimento da borracha italiana. Há quem diga, inclusive, que a grande fonte dos problemas do time de Vettel e Raikkonen foi a lentidão em criar um plano de ação específico para melhorar a compreensão dos compostos, algo que os rivais fazem há anos. Novamente, um erro cuja fonte é administrativa.
Por fim, o carro também não ajuda. Nas curvas de alta velocidade de Silverstone, com compostos mais duros, pressões de pneus altas e vento, condições que escancaram a falta de pressão aerodinâmica, as deficiências do modelo ferrarista ficaram evidentes. Com compostos mais macios, calor e uma pista em que a tração/aderência mecânica faz mais diferença, como Hungaroring, a situação deve melhorar, mas de maneira alguma apaga a necessidade de evolução.
O único setor que parece estar trabalhando bem é o de motores, que se revolucionou para diminuir consideravelmente a diferença para a Mercedes e conseguiu, mesmo após o início da temporada, resolver em grande parte os problemas de turbo. Criatividade não parece faltar para quem está a cargo das unidades de potência, já que os italianos foram os que mais gastaram tokens até aqui. O mesmo, contudo, não se pode dizer do resto do time.