Um pouco de perspectiva sobre o mito


Ao avaliar os feitos de um piloto, a questão do conjunto nunca pode faltar. E não apenas do conjunto carro/piloto, mas englobando ainda a equipe e as regras. Afinal, não há apenas homens que parecem mais poderosos do que são na verdade quando dotados de grandes máquinas, como há personalidades que se encaixam melhor em determinados ambientes e regulamentos que servem melhor a certos estilos.

E não dá para negar que o conjunto Schumacher/Ferrari do início dos anos 2000 dificilmente será replicado. E que o conjunto Schumacher/Mercedes do início dos anos 2010 foi um fracasso. O mito sai arranhado destes três anos de retorno, mas antes de questionar a qualidade do piloto, é preciso entender por que o alemão venceu tanto em sua primeira carreira.

Schumacher conquistou nada menos que sete títulos em 13 temporadas. Antes disso, já aparecia como jovem promessa, mostrando serviço desde que levou a fraca Jordan ao sétimo lugar no grid de largada daquele GP da Bélgica de 1991. De lá para cá, em dezenas de oportunidades mostrou qualidades como velocidade pura, constância, atenção ao detalhe. Isso é inegável.

Mas, e o mito? E o piloto que venceu 91 GPs, praticamente dobrando o recorde anterior no quesito, estabelecido por Alain Prost, com 51? Que chegou a sete títulos quando mesmo os cinco de Juan Manoel Fangio pareciam irreplicáveis?

A segunda carreira de Schumacher serviu para relativizar as coisas. Durante a maior parte de sua carreira, o alemão contou diversas variáveis estáveis: a dupla Rory Byrne e Ross Brawn cuidando das máquinas, chefes que sabem jogar o jogo político da F-1 – mais Jean Todt do que Flavio Briatore –, testes ilimitados, um regulamento que privilegiava o piloto que conseguisse andar consistentemente no limite e a complacência dos companheiros, conquistada com um modelo de trabalhar internamente na equipe com base em muito trabalho e muita pressão.

Na segunda carreira, teve apenas Brawn, divido entre os setores técnico e administrativo e falhando em ambos. E é lógico que todos seus “superpoderes” foram se esvaindo junto das limitações orçamentárias, da grande safra atual de pilotos, do fornecedor único de pneus, das regras que privilegiam o piloto “econômico”. Esse conjunto de fatores torna o ambiente atual da F-1 – e da Mercedes – hostil ao modelo Schumacher de trabalho.

Modelo esse que nasceu na Benetton e depois foi transferido para a Ferrari, onde encontrou um porto seguro. Modelo esse que é perfeito em tantos aspectos, tão bem amarrado, que dificilmente será reproduzido. Mas, se estes três anos após o retorno do alemão serviram para alguma coisa, foi para provar que talvez o impacto do heptacampeão como piloto seja menor do que muitos acreditavam. Ele obviamente era peça importantíssima em um dos maiores domínios que o esporte já viu. Uma das peças.

De certa forma, é como a parcela de Michael Jordan no sucesso estrondoso do Chicago Bulls nos anos 1990. Tudo o que o maior jogador da história do esporte fez após a segunda aposentadoria não manchou o brilhante período em que comandou o time que foi seis vezes campeão da NBA. Só deu o reconhecimento devido ao papel de homens como Phil Jackson e Scottie Pippen.

Os três anos entre alguns lampejos, como no Canadá ano passado ou na classificação do GP de Mônaco deste ano, e falhas de principiante, como a sequência de batidas por puro erro de julgamento nos três anos em que correu em Cingapura, não diminuem os feitos do passado do velho craque. Só colocam o mito sob perspectiva.

9 comentários Adicione o seu

  1. Carlos Tavares disse:

    Imparcial, racional e brilhante.

    Obrigado pelo texto. Era o que eu precisava ler.

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  2. Dé Palmeira disse:

    Bela análise. Como sempre.
    Obrigado.

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  3. wagner vieira alves disse:

    Professora Ju, colocando os pingos nos is. Brilhante como sempre. Concordo com vc, pois cada campeão se encaixa em cada projeto e época de forma única. Afora as divagações sobre caráter que a mídia nacional gosta tanto de focar, Shumacher era osso duro de roer na pista, fora-de-série!

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  4. Bruz disse:

    Qual que é?? O cara voltou pra se divertir porque estava de saco cheio e com falta da adrenalina que gera a F1, até que a diversão terminou enchendo seu saco de novo. Assim de simples!!
    Saravá Shumi, foi tarde.

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  5. Rodriguera disse:

    Oi Ju. E sobre a concorrência? Porque pra mim Schumacher não teve concorrência forte e quando teve, Hakkinen e Alonso, perdeu!

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    1. juliannecerasoli disse:

      É claro que hoje vivemos um momento especial, reunindo alguns nomes que prometem entrar para a história, mas me pergunto se essa noção de que ele não teve rivais não é fruto exatamente do nível alcançado pelo conjunto Schumacher. Da mesma forma, quando Villeneuve, Hakkinen e Alonso o bateram, a Ferrari não era tudo isso (em 2006, até próximo da metade do ano, é verdade). Mais uma prova de que um homem só não faz verão.

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      1. Augusto disse:

        Exatamente. O mesmo mito que se quer fazer do Alonso, grande piloto, mas que de Renault em 2009 não ganhou nenhuma. Agora dizem que faz milagre sem carro. Faz nada. O carro da Ferrari é muito é bom, só não é o melhor em todas as provas.

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  6. Chinaski disse:

    Perfeita análise! Embora muita gente alegue que contra números não há argumentos, sempre achei os recodes do Schumacher superdimensionados.

    Para efeito de comparação, poderemos ver num futuro não muito distante, um Hamilton se aposentando com apenas 1 título mundial (que ele quase perdeu) e umas 30-40 vitórias… números muito inferiores aos de Schumacher, embora considere Hamilton tão rápido quando o alemão.

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  7. Hermes Leandro disse:

    Querida Ju , o único problema que o grande Scummy enfrentou nesse retorno foi a evolução do esporte através da juventude , Valentino tbm foi o melhor de sua época , mas não conseguira ser o nelhor além dela , Villeneuve , Hill , e Hakkinen bateram o alemão com muita dificuldade e com um equipamento muito superior , basta comparar os tempos de classificação dos seus companheiros de equipe com os de Irvine , já em 2006 , Schummy foi derrotado por um jovem mais veloz que ele , graças a uma punição em Mônaco e uma quebra na penúltima etapa é verdade , porém Schummy se aposentou porque não queria a concorrência de Kimi na Ferrari , esse foi seu maior erro na carreira pois assim como bateu Massa ele bateria Kimi com relativa facilidade tbm , entretanto pilotos como Alonso , Hamilton , Vertappen , Ricciardo , Rosberg , Vettel e Hulkenberg estão para o alemão como Marquez esta para Rossi . É a evolução natural do esporte Ju.

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