Turistando off-season e as aventuras do Oriente Médio

Sem grana e vontade de voltar para o Brasil entre os GPs da China e do Azerbaijão, com vontade de conhecer mais do Oriente Médio – na verdade cheguei a cogitar ir à Geórgia e, arriscando (já que a relação com o Azerbaijão é péssima e teria que explicar o carimbo até renovar meu passaporte, que era novinho) uma ida à Armênia – e sem abrigo na Europa, resolvi comprar um voo de ida e volta Dubai-China (ano passado a China foi dobradinha com o Bahrein) e seguir viagem até a Jordânia. De lá, iria para Israel, de onde pegaria um voo direto para Baku.

Mal sabia quando aterrissei em Amam que seria uma das viagens mais intensas que já fiz na vida.

A jornada começou com uma longa viagem de carro cortando a Jordânia para chegar até o deserto de Wadi Rum, ao sul do país. Lá eu ficaria em um acampamento de beduínos, por 40 reais. Quando cheguei, percebi que era a única hóspede de Nadjah, o beduíno que fez de tudo para eu me sentir confortável naquela situação.

Fui ao deserto ver o céu estrelado na verdade, e não podia imaginar a paz que te inunda a alma quando você está lá. Nadjah foi me levando a outros acampamentos, onde sempre havia beduínos em volta de sua fogueira de chá, em meio a paisagens bem diferentes daquele deserto que vemos em filmes – Wadi Rum é conhecido pelas formações rochosas e a areia tem um colorido diferente, alaranjado. À noite, ele preparou um cozido de frango feito num forno enterrado no chão para usar o calor da areia, e me levou para tomar leite fresco de camelo. Juro, tinha uns 60 camelos em um lugar, e o homem que tomava conta deles tirou o leite na hora e me deu. Aprovado.

Mesmo fazendo de tudo para eu me sentir segura – e com sucesso – Nadjah não podia deixar de dizer que eu valia pelo menos uns 200 camelos. Meu pai até hoje pergunta se a oferta ainda vale!

Saindo desse lugar onde o tempo parece nunca ter andado, fui à grande atração turística da Jordânia, Petra. E toda a calmaria ficou para trás. O lugar é impressionante, realmente, e fiquei hospedada na casa de uma inglesa muito simpática que se apaixonou por um jordaniano e deixou tudo para trás (e o que eu gosto mesmo quando viajo é ouvir as histórias das pessoas, então…). Mas a agressividade dos vendedores/pedintes e afins dá uma estragada no lugar.  

De lá cruzei a fronteira com Israel a pé, o que foi uma experiência por si só. Você vai saindo do deserto e dos prédios simples do lado jordaniano da fronteira e logo avista a grama verdinha do outro lado, árvores, flores, funcionários sorridentes e super prestativos. Mas fortemente armados. E, passando por cima de sua cabeça, caças vão e voltam dando as boas-vindas.

Perdi a conta de quantas vezes mudei de opinião sobre aquele lugar, e saí com a única convicção de que aquele nível de militarização só pode indicar que há algo de errado com aquele Estado.

Pois, bem. Entrei por Eilat, uma cidade praiana que não tive tempo de conhecer, infelizmente. Meu taxista era uruguaio, morava em Israel há 30 anos, e dizia que “aqui as coisas são organizadas, não como lá na nossa terra”. Em Eilat, parecia mesmo um mundo encantado.

Peguei um ônibus a Jerusalém. Mesmo para uma não-crente, a cidade tem um poder inquestionável. É como se a crença de tantas pessoas de que aquele lugar é especial o tornasse o tal. Mas infelizmente os conflitos não permitem que você vá em todos os lugares. Sem poder cruzar ao lado muçulmano, o lugar mais forte para mim foi o Muro das Lamentações. Uma energia fora do comum.

Nos dois dias seguintes, fui à Palestina (usando transporte público, blindado, e cheio de soldados israelenses que voltavam a seus postos de metralhadora na mão, ou seja, um dia normal por lá) e o lugar mais impressionante certamente é Hebron, uma cidade dividida que parece cenário de guerra, com direito a checkpoints em que o soldado israelense pode simplesmente não te deixar passar – ou tirar algum sarro da sua cara para se divertir. E a cada pessoa que ouvia, mais denso, complicado e fascinante ficava o cenário político.

Confesso que voltei da fronteira revoltada com o Estado de Israel. E sentei para conversar no albergue com um casal alemão que tinha conhecido no café da manhã. Por coincidência, o marido era judeu e um grande financiador de Israel. Resolvi só ouvir. E percebi que estava simplificando demais as coisas.

Em meu último dia antes de seguir a Baku, decidi voltar ao deserto, desta vez visitando a fortaleza Masada, construída entre 37 e 31 a.C no topo de uma formação rochosa, para ver o nascer do sol, e depois não podia deixar de conferir qual é a desse tal de Mar Morto. Cheguei com zero expectativas e me diverti bastante criando novos estilos de natação flutuante. E minha pele saiu parecendo um bebê!

Teria mais mil coisas para contar, como os quilos que ganhei com comidas maravilhosas e todas as vezes que as pessoas falavam hebraico comigo e não acreditavam quando eu dizia que não era judia. O que será que não me revelaram na família?

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6 comentários Adicione o seu

  1. Gostei muito do teu relato sobre o Oriente Médio, uma região ao mesmo tempo, complexa e fascinante do globo.

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  2. Bob Robson disse:

    “Saí com a única convicção de que aquele nível de militarização só pode indicar que há algo de errado com aquele Estado”. Talvez você não queira comentar o fato de Israel estar cercada por uns 150 milhões de árabes cuja maioria não aceita o Estado de Israel e houve varias tentativas de invasão pelos exércitos árabes, como a “Guerra dos seis dias” ou a do “Yom Kipur”, tentativas essa que tinham o objetivo de expulsar os judeus da região. Então nada mais natural do que se prevenir, inclusive dos palestinos do Hamas que vivem lançando foguetes contra o território judeu .

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    1. Então Bob, cheguei lá com essa ideia, mas vi tantas demonstrações de que são essas divisões e armas que incitam violência de ambos os lados. Por isso não vejo como solução a longo prazo.

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  3. Alexandre disse:

    Muito legais estes posts.
    Daria um belo livro.

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  4. Sergio Magalhães disse:

    Viajei com seus riscos relatos neste post, Ju. Imagino quão incrível deve ter sido essa experiência quê você teve de uma região cercada de culturas e mistérios diferentes do resto do planeta. Tenho vontade de um dia conhecer esses lugares. Parabéns pelo texto!

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  5. Marcelo disse:

    Boa tarde, me diverti principalmente com a história dos 200 camelos, e imaginando o que seu pai faria com os mesmos.
    Parabéns pelas ótimas materias.

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