Sessão nostalgia entre carros irregulares e asfalto derretendo

 

A Tyrrell é daquelas equipes que os saudosistas costumam lembrar com carinho, especialmente quem acompanhou apenas a parte final da história do time, sofrendo para se manter na rabeira do grid. Afinal, era um dos garagistas que começaram pequenos, ainda nas categorias de base, e foram subindo até conseguirem fazer seus próprios carros de F-1, chegando ao título em 1971 com um timaço formado por Jackie Stewart e François Cevert. De lá até 79, a Tyrrell conseguiu se manter no top 5 da F-1, mas iniciou seu declínio na década de 80 e acabou ao final de 1998.

De uma forma um pouco indireta, contudo, o time acabou renascendo e se tornando o que é hoje a Mercedes. Isso porque, para entrar na F-1, a BAR comprou a licença da Tyrrell, mas passou a usar uma nova fábrica e instalações diferentes. A BAR se tornaria equipe de fábrica da Honda, depois Brawn GP e, por fim, Mercedes.

Mas o que muita gente que nutre o tal carinho pelo romantismo da Tyrrell talvez não saiba é que seu dono, Ken Tyrrell, era conhecido como uma das pessoas mais sem escrúpulos do grid, um pouco como Frank Williams. Esses garagistas faziam tudo para vencer e, volta e meia, eram pegos no flagra (o que também costumava acontecer, ou não, por motivos mais políticos do que técnicos, em uma época na qual era tudo menos profissional e o controle não era tão grande).

Foi o que aconteceu com a própria Tyrrell quando o time chegou ao GP dos EUA em Dallas, há 35 anos – a corrida em si foi uma loucura, chegarei lá! Em 1984, eles eram o único time usando motores aspirados e, depois de Martin Brundle ser segundo com um carro que não era lá essas coisas em Detroit, na corrida anterior, a federação decidiu agir.

A história começa em 82, quando Brabham e Williams usavam uma tática para andar abaixo do peso mínimo, instalando freios resfriados a água. Seus tanques de água começavam a corrida cheios e, obviamente, se esvaziavam durante a corrida, tornando o carro mais leve mas, como a regra na época era de que o carro seria pesado com os fluídos, a água era recolocada antes da pesagem e o carro parecia estar legal. A estratégia da Tyrrell era similar, mas usando um sistema de injeção a água no motor.

Como o time tinha sido o único a bloquear uma mudança no limite de combustível que beneficiava todas as demais equipes, que usavam motores turbo, a politicagem falou mais alto e isso foi usado para excluir os resultados da Tyrrell do campeonato de 84, e sua participação nas três últimas etapas. Com a equipe já não indo tão bem das pernas, foi um golpe do qual a Tyrrell não conseguiu se levantar, embora tenha vivido alguns brilharecos com Jean Alesi no começo dos anos 90.

Corrida Maluca

Mas e o GP de Dallas? Tudo começou com a grande ideia de correr no verão em pleno deserto, numa pista de rua, com asfalto normal. Quando os carros de Fórmula 1 passaram por lá, o asfalto começou a ceder de tal forma que os organizadores tiveram (outra) brilhante ideia de recapear algumas partes, sob sol escaldante de mais de 40 graus, a menos de 24h da corrida. Para ajudar, por conta do calor, o asfalto não ficou totalmente pronto e acabou cedendo, também, durante a corrida. 

A somatória do calor e o asfalto sem condições acabou pegando muitos pilotos desprevenidos e, dos 26 que largaram, 18 ficaram pelo caminho, sendo que 14 deles abandonaram depois de bater no muro. Foi naquela corrida, inclusive, que Ayrton Senna bateu e disse que o muro tinha mudado de lugar, história contada pelo então diretor técnico da Toleman, Pat Symonds.

Mas quem manteve a cabeça fria, literalmente, foi o finlandês Keke Rosberg. Ele usou uma espécie de gorro de gelo debaixo do capacete, algo usado na época por pilotos da Nascar, e parecia estar em uma outra categoria em relação aos rivais – talvez a experiência com solos pouco aderentes na Finlândia tenha ajudado também!

Por fim, outra imagem tradicional daquele GP é de Nigel Mansell empurrado sua Lotus e desmaiando na linha de chegada. Foi ou não foi uma corrida maluca?

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3 comentários Adicione o seu

  1. Antonio Carlos Mello Cesar disse:

    Apesar do ótimo e interessante texto, sabedor que o termo “garagista” faz parte do dicionário da categoria, considero o adjetivo injusto, pois eram construtores de altíssimo nível, capazes de vencer times oficiais de montadoras, tais como Renault, Honda, Ferrari, Alfa Romeo etc.
    À época manipulavam orçamentos semelhantes as das equipes de fábrica, graças às verbas generosas da indústria do tabaco. Suas amplas instalações eram organizadas, limpas, utilizavam-se dos mais modernos instrumentos, fermentaria e materiais disponíveis naquele tempo, um número razoável de mecânicos, técnicos, engenheiros além de brilhantes projetistas.
    Dizem que nesse tempo, a Ferrari era bastante desorganizada, óleo pelo chão, tudo bagunçado, sem muita hierarquia e justificavam-se, tendo como desculpa o jeito italiano de ser, totalmente opostos aos times ingleses de ótima organização, tudo em seus devidos lugares.
    Os tais “garagistas” já foram considerados gênios ou magos como Colin Chapman, inventor do chassis monocoque, do carro asa campeão de 1978. Willians, suspensão ativa, McLaren, chassis de fibra de carbono, Tyrrell, carro de seis rodas e por aí afora.

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  2. SERGIO MAGALHÃES disse:

    Lembro-me bem desta corrida, Ju, e de uma frase do Keke depois da cerimônia do pódio: “Um cigarro, alguém tem um cigarro”? Pois é, naqueles tempos pilotos não tinham muitas regras, e Keke era um fumante.

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  3. Marcos Barni disse:

    Gostei dessa matéria, lembro dessa corrida mas as “malandragens ” das equipes a gente não ficava sabendo Parabéns

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