Drops do GP do Brasil e as almas boas

Não sou uma pessoa que se emociona facilmente. Na Fórmula 1, lembrava de ter segurado as lágrimas só duas vezes. Uma na primeira vez que tive acesso ao grid, em Interlagos, em 2012,

e vi meus amigos, aqueles que tinha conhecido justamente lá na arquibancada A, acenando de volta para mim. Na outra foi quando encerramos, eu e o Ico, a transmissão do GP de Abu Dhabi de 2016, em que ele, um irmão para mim, fez seu discurso de despedida e de “passada de bastão” para mim na Band.

Então sei lá o que deu em mim no último domingo, no que foi meu 100º GP cobrindo a F-1 in loco. Um misto da energia positiva que recebi de todo mundo que se apertou lá no nosso encontro da sexta, e por todo fim de semana, e da ajuda que tive de algumas das boas almas do paddock que são o que vale a pena rodar o mundo e que confiaram em mim para fazer outras boas almas brilharem. A homenagem ao Ayrton me tocou demais, assim como ver a Bia e a Aninha levantando a galera no grid.

Na manhã de domingo tinha ido até onde o MP4/4 estava – infelizmente, bem longe do paddock a contragosto da Liberty Media, e é por detalhes como este que eles levam tão a sério a proposta do Rio mesmo com as questões que pairam sob a construção do autódromo por lá – e, na volta, passei pelo local onde estavam expostos vários capacetes e troféus de Ayrton. Na caminhada de volta ao paddock, ouço o Tema da Vitória com narração do Galvão ao fundo. Sabe a famosa saudade do que a gente não viveu? Imaginei como seria estar me preparando para entrar no ar com ele no grid.

Fui correndo acompanhar o carro da mureta, com as arquibancadas cantando o olê olê olê olá, Senna, Senna. E vejo primeiro Caio Collet, com seus 17 anos, fazendo o mesmo. Caminho um pouco mais e avisto um senhor baixinho, em cima de um banquinho, olhos marejados fixos na pista mesmo quando o carro estava do outro lado. Era Josef Leberer, treinador de Senna de 1988 a 1994 e hoje na Alfa Romeo. Não há ninguém no paddock hoje em dia que tenha tido uma conexão mais forte com Ayrton do que ele. Só dei um abraço nele e o deixei viver seu momento.

 

Logo depois seria a hora de entrar com a Ana Luiz Kalil e a Bia Rosenburg no grid, numa história que começou ano passado. Foi a Bia que entrou em contato comigo ano passado, se não me engano, para eu tentar fazer com que o Daniel Ricciardo ficasse sabendo da história da Aninha, que tinha participado de um concurso que ele estava fazendo desafiando seus fãs a fazerem shoeys.

As duas tinham participado: Bia comemorando sua formatura (num vídeo que eu já tinha mostrado ao Daniel e que ele tinha amado) e a Aninha, o sucesso do seu transplante, parte do tratamento de um câncer raro em adultos.

Por sorte, eu tinha uma exclusiva marcada com o Ricciardo, e comentei com ele que a doença tinha voltado e a Aninha está tendo de passar pela quimio outra vez. Na hora eu nem sabia o que esperar dele. Ele quis saber se ela viria ao GP e pediu para conhecê-la.

Tive a ideia de não falar diretamente com ela. Faria uma surpresa com a ajuda da Bia, mas no fundo queria tentar levar as duas para o paddock, sabendo que ambas adorariam conhecê-lo. Naquele momento achei que conseguiria o passe por algumas horas, na sexta, com a própria Renault.

Mas acabei comentando da história com o produtor da F1, Jason Swales, que na hora disse que eles mesmos cuidariam dos passes. A história rapidamente chegou a Sean Bratches, que aprovou, inclusive, a ida ao grid. Tudo isso seria feito sem câmeras, a pedido de Ricciardo.

Quando fui buscá-las no portão, a Bia só sabia sabia que a Aninha conheceria o Daniel. Vocês tinham que ver a cara delas quando falei que as duas tinham VIPs para os três dias!

Durante o primeiro tour, passei para perguntar algo ao assessor da Racing Point, Will Hingis, e ele logo ofereceu dar acesso a nós três para o box da equipe durante o primeiro treino livre. Fomos logo depois do tal encontro com o Ricciardo, um fofo como de costume.

Elas viraram celebridades instantaneamente no paddock, mas nem sabiam o que estava por vir. Domingo de manhã, receberam a notícia de que iriam ao grid. Fiz questão que elas fossem comigo, não ia perder essa, e qual foi minha surpresa quando vi a arquibancada A toda acenando para elas, logo depois de terem ouvido a história pelos auto-falantes? Sim, depois teve toda aquela corrida sensacional, mas para mim tudo já tinha valido a pena.

Sei que essa coluna geralmente é mais recheada de informações dos bastidores do que de histórias. E eles estão mais quentes do que nunca na questão do futuro do GP Brasil. Esta é uma semana decisiva para uma decisão que tem diversas vertentes. Tem dinheiro, política, velhas e novas táticas de mostrar qual o projeto mais robusto e muitas dúvidas não só sobre onde será o GP, mas quem o mostrará – e se o mostrar – na TV. Já vou avisando que os drops de Abu Dhabi devem ser quentes…

14 comentários Adicione o seu

  1. Luis disse:

    Lindo texto, testemunhal. Bom ter este lado… “humano” … Ah, e este ponto, sobre TV?

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  2. Paulo Salles disse:

    É Jú num meio tão cheio de egos, vc que já nos trás uma F1 como ninguém nunca nos trouxe, agora vem com esse coraçãozão aí…e nos deixa pra lá de emocionados…muito obrigado querida!

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  3. Gabriel disse:

    Foi sim uma corrida especial e um texto como esse só vem coroar esse FDS incrível.
    Realmente muito emocionante!
    Parabéns pela cobertura. 👏

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  4. Acompanhei o GP no Setor A. Inesquecível!

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    1. Sensacional!!!
      Parabéns!!!
      Você pertence ao lado humano da F1!

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  5. joao disse:

    que linda historia da bia e da ana !! que grande coração tens, Ju, parabéns !!

    parabens também pelas tuas ótiams reportagens !!

    #GoGirl

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  6. Fábio Andrade disse:

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  7. licianerossetto disse:

    Borrei a maquiagem aqui!

    Lindo demais Ju!

    Gratidão pelo que você fez pela Aninha e pela Bia! Adoro elas! Foram super parceiras no início do Girls Like Racing (que eu não pertenço mais)

    Tenho muito orgulho de você garota!

    Super beijo

    Lici

    Cordialmente,

    Liciane Rossetto, Dra
    Sócia Diretora
    24H Escritório de Viagens
    Av Plinio Brasil Milano, 162 – Porto Alegre / RS
    +55 51 3516-0098
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  8. Danilo Rocha disse:

    Continue voando baixo menina Ju (:

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  9. Mais um texto maravilhoso, relatando momentos maravilhosos.
    Só uma pessoa especial para trazer humanidade em um esporte tão competitivo e, muitas vezes, frio.
    Parabéns por ser como você é. Pode ter certeza que tem aqui um novo fã.

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  10. Kyle Long disse:

    Parabéns!

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  11. Ju,

    Parabéns pela iniciativa de proporcionar estes momentos para a Bia e a Ana! Continue assim com esse seu lado carinhoso e nos trazendo um outro lado da F1. Seu trabalho é excelente!

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  12. Paulo H. disse:

    Q dia incrivel Ju, nossa deu pra sentir daqui toda essa emoçao… e qta generosidade… ao ambiente estava diferente msm..q Dia!

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  13. Kalixtu disse:

    Parabens Ju
    Valeu por dividir isso conosco

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