Do fundo do baú: Na redenção de Senna, F1 vê nascer uma estrela

O GP dos Estados Unidos de 1990 não parecia ter os ingredientes para se tornar um clássico, mas dois nomes mudaram a história da prova disputada em um circuito com traçado sem nenhum atrativo em Phoenix (que, não coincidentemente, só recebeu a F-1 por três vezes, entre 1989 e 1991).

Um deles era Ayrton Senna, que não estava para brincadeira e isso não era por acaso. O brasileiro vinha em guerra aberta com o então presidente da FISA, Jean-Marie Balestre, devido à condução da decisão do título do ano anterior, no Japão. Duramente criticado por Senna, o chefão ameaçou tirar a superlicença do piloto da McLaren caso ele não se desculpasse. E isso não aconteceu. Mas Ron Dennis tinha um plano: inscreveu Jonathan Palmer como titular e colocou Senna como seu substituto. Quando Balestre tentou impedir o brasileiro de correr, Dennis ameaçou processá-lo. E ficou por isso mesmo.

O outro nome daquele domingo seria Jean Alesi. Mais do que isso, a Fórmula 1 deixou o Arizona crente que tinha visto a primeira grande performance de um piloto que viria a ser campeão do mundo. O francês de origem italiana já tinha impressionado antes, ao chegar em quarto logo em sua estreia, que aconteceu no meio do campeonato, substituindo Michele Alboreto, ao mesmo tempo em que ele ainda disputava a F3000. 1990 seria sua primeira temporada completa, e não poderia ter começado melhor.

Como pano de fundo, os relatos da época destacavam as arquibancadas vazias e eram críticos à política caça-nível que Bernie Ecclestone adotou, trocando Watkins Glen por Phoenix em 89. A prova não “pegou” e logo saiu do calendário, gerando um hiato do GP dos Estados Unidos que duraria até o retorno a Indianápolis em 2000 – e sabemos como isso acabou.

Voltando à pista, o grid acabou ficando bagunçado pois não havia muita aderência no circuito de rua e os pilotos que usavam o pneu Pirelli saíram beneficiados. Isso fez com que a Minardi conseguisse ficar na primeira fila, com Pierluigi Martini, Andrea de Cesaris colocasse a Dallara em terceiro no grid e o jovem que viria a ser a grande estrela do dia, Jean Alesi, se classificasse em quarto com a Tyrrell. A pole ficou com Gerhard Berger, de McLaren com pneus Goodyear, e seu companheiro Senna teve problemas elétricos e largou em quinto.

Embora tivesse dito nas entrevistas antes da corrida que lhe faltava motivação para correr por toda a confusão com Balestre, Senna mostrou no domingo que estava “mordido”, e não deixaria Alesi levar aquela corrida.

O francês de 25 anos fez uma largada incrível e pulou de quarto para primeiro. Como a expectativa era de que o pneu Pirelli se desgastasse mais rapidamente, ninguém esperava ver o que se seguiu nas voltas seguintes: Alesi foi obtendo uma boa margem na frente enquanto Senna ia abrindo caminho no meio do pelotão.

Não demorou para faixas pretas aparecerem no pneu da Tyrrell, mas mesmo assim Alesi foi se segurando por 34 voltas, até Senna chegar e iniciar uma disputa que se tornou épica. O francês vendeu muito caro a liderança, e a batalha que se seguiu nas duas voltas seguintes foi um show de ataque e defesa.

No final, deu a lógica e Senna venceu até com facilidade, mas quem comemorou mais efusivamente foi Alesi, segundo colocado. Bastante agressivo e bom na chuva, o francês teria outras corridas fortes, como o GP de Mônaco naquele mesmo 1990, e seria adorado pelos italianos na passagem pela Ferrari, entre 1991 e 1995. Mas sua trajetória foi mais de brilharecos que consistência, e ele encerrou a carreira em 2001 com apenas uma vitória – no GP do Canadá de 1995 – no bolso.

4 comentários Adicione o seu

  1. Allen Robinson disse:

    Que saudade dessa época.

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  2. Dennis disse:

    Duas pequenas correções: Senna emitiu um comunicado onde não pedia desculpas claramente mas deixava subentendido. Isso contentou Balestre. E a corrida saiu de Detroit, onde Senna foi tri entre 1986 e 1988, e não Watkins Glen para ir para Phoenix.

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    1. Estava me referindo ao GP dos EUA. Detroit nunca teve esse nome. Mas a questão interessante é a história de que foi o comunicado de Senna que encerrou a questão. Isso é uma narrativa da imprensa brasileira, que não encontrei em nenhuma outra fonte.

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      1. Dennis disse:

        interessante sua explicação, não sabia que oficialmente o GP em Detroit não era tratado como GP dos EUA embora na época, no Brasil sempre a referencia sobre esse GP era em relação ao pais. Mas o que me fez escrever foi sua referencia a uma troca de Watkins Glen que teve sua última corrida em 1980 por Phoenix, que teve sua primeira em 1989.Esses 9 anos não representa bem uma “troca”, nào acha? Sobre a narrativa da imprensa brasileira lembro de ter visto a tradução da carta, no Estadão ou Folha. Possivelmente até no Jornal Nacional. Foi bem comentato da época pq a Globo tinha medo de perder seu maior atrativo nas corridas de F1, talvez tenha até conversado com Senna sobre isso, para a produção da tal carta. Foi um misto de revolta, por ele ter cedido e alivio pela solução da questão.

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