Viagens e bastidores

Drops dos bastidores do GP (e de como foi estar na Arábia Saudita)

Centro histórico de Jeddah é uma imagem bem diferente do que se imagina de um país tão rico

Com cerca de 24h para os hóspedes da F1 chegarem, dois hotéis foram pedidos pela família real que, é claro, tem prioridade. Pior para um grupo de quatro jornalistas alemães que tiveram que ficar procurando onde ficar durante a madrugada quando chegaram, já que estavam voando quando o hotel mandou um email falando que eles estavam sem-teto. Acabaram achando dois quartos, para três homens e uma mulher (que não podia dividi-lo com nenhum deles por não ser casada). Imagine passar o dia em aeroporto e avião e depois passar por um perrengue desses!

Foi uma experiência estranha embarcar no voo de Jeddah na minha conexão em Manama. Viajando sozinha, eu era a única mulher, fora as comissárias de bordo, que usava roupas ocidentais e não cobria a cabeça. Embora tivesse recebido instruções da F1 de que isso não seria necessário, fiquei pensando “e para essas pessoas?”. Não ajudou o fato de o saudita, de túnica branca e lenço vermelho e branco na cabeça, bufar quando eu pedi licença para sentar no meu lugar. Por ironia do destino, ele depois pediu minha ajuda para fazer seu sistema de entretenimento funcionar, e me fiz de desentendida. 

O anúncio da F1 no aeroporto, enquanto o pessoal que chegava não parecia muito interessado: estes trajes são os tradicionalmente usados quando os muçulmanos vão a Meca, que fica perto de Jeddah. Uma das regras que os muçulmanos mais praticamentes têm de seguir é visitar Meca pelo menos uma vez na vida

Não desembarquei no terminal novo e brilhante em que o pessoal da F1 chegou, e sim em um lugar velho e bagunçado, em que nem as telas que mostram onde estão as malas funcionava. Todos os voos que chegavam lá vinham do mundo árabe, e eu agora era a única de TODO o terminal com roupas ocidentais. Mesmo assim, ninguém parecia se importar muito com a minha presença. Na verdade, sentia que as pessoas me desprezavam tanto que nem se importavam. O banheiro? Só aquele tradicional muçulmano mesmo, com um buraco no chão ao invés de uma privada. E o motorista do Uber não achou adequado sair de seu carro para ajudar uma mulher sozinha com a mala, mas tentou ser simpático durante a viagem, mesmo sem falar inglês. 

Saí para dar uma volta, e fui vendo que era tudo menos conservador do que eu imaginava, pelo menos nos arredores da pista. Não fui importunada ou me senti correndo qualquer tipo de risco em momento algum, via mulheres sozinhas ou com seus filhos andando pelas ruas, os restaurantes permitiam que homens e mulheres comessem juntos, e vi várias mulheres muçulmanas com a cabeça descoberta e muito mais rostos femininos que imaginava. Nas ruas e nos supermercados, as ruas e marcas às quais estamos acostumados. Em que pese todo o atraso das leis (não existe um código penal, já que o que manda é a sharia, o código de punições seculares que estão no Corão) e as inúmeras questões que se pode levantar sobre direitos humanos, não era um país tão alienígena assim (o que não deixa de ser assustador). É claro que tudo isso depende de qual seu conceito inicial. Eu já tinha estado em seis países do Oriente Médio, na maior parte do tempo viajando sozinha, entre trabalho e turismo, e sempre apreciei muito a hospitalidade do povo daqui. Como disse aqui, os únicos problemas mais sérios que tive foram em Jerusalém.

Palacetes de mercadores ricos hoje estão quase abandonados, mas dá para notar sua beleza

Com os dias, fui entendendo tudo um pouco melhor. Toda a cultura aqui é do não confronto, por mais estranho que isso possa soar. As pessoas (não o governo) preferem fingir que nada está acontecendo a te questionar, mesmo se tiverem razão. Isso aconteceu comigo até mesmo na imigração, quando me deixaram passar (depois de várias conversas paralelas) sem que eu apresentasse toda a documentação. Era só me pedir, eu tinha tudo!

Hora de ir para a pista. Duas horas da tarde de quinta-feira, um sol para cada um, e Michael Masi encharcado de suor checava cada detalhe da pista bem antes da maioria dos pilotos, que só puderam fazer a volta de reconhecimento a pé horas depois, terminando de madrugada (quando teve ultrapassagem, inclusive, de Lewis Hamilton em cima de Max Verstappen, mas sem equipamentos iguais: o inglês estava com seu patinete). Aliás, imagino que muitos de vocês saibam que Hamilton não gosta de track walks. Assim como não gosta de simulador. Mas, neste ano, deixou essas “tradições” de lado.

Um momento curioso foi quando estas modelos faziam poses sensuais ao lado do Medial Car (que estava mais verde que o normal, dizem, porque Lawrence Stroll quer que a Aramco patrocine-o) enquanto locais de shemagh (aquele lenço vermelho e branco que eles usam na cabeça) e túnica branca passavam por ali mesmo sem jeito

Sabendo das queixas a respeito de condições de trabalho de imigrantes nestes países árabes endinheirados e vendo indianos, paquistaneses, bangladeshis aos montes chegando para turnos tarde da noite, dá para ter uma ideia de como eles conseguiram levantar um circuito em oito meses, um recorde absoluto para a F1. Mesmo quem chegou na segunda-feira para montar os equipamentos não acreditava que seria possível ter uma corrida no domingo e, ao longo do final de semana, o paddock foi ganhando adendos, como bancos e plantas.

Como estava na quinta-feira x como ficou pelo resto do fim de semana

Apesar de ser uma estrutura provisória, como toda pista de rua, ela não será desmontada antes da segunda corrida na Arábia Saudita, que será já no fim de março. E aí veremos como será tudo quando terminado.

Não podia ir a Jeddah e ficar só na parte do circuito, que fica a uma meia hora do centro da cidade. Fui visitar o centro velho, Al Balad, fundado no século XII. Como fui avisada por quem já tinha ido que eles não viram mulheres sozinhas e com roupas ocidentais, achei por bem usar a abaya que comprara em Londres basicamente para evitar ter que comprar calças e blusas mais largas que sei que não iria usar em outros lugares. Não me pareceu algo totalmente necessário, mas me ajudou a passar mais despercebida, que era o que eu preferia. Lá em Al Balad era até difícil ver homens com roupas ocidentais, então era um mundo diferente dos arredores da pista e dos shopping centres.

Por conta dos horários de atividade de pista, só tinha a manhã para perambular pela cidade, o que não é o ideal porque tudo acontece de noite na cidade. É normal ver crianças pequenas acordadas até de madrugada, já que durante o dia o melhor a fazer mesmo é ficar longe das ruas. Mesmo assim, deu para ver como a parte histórica de Jeddah, um porto importante e porta de entrada para a sagrada Meca, hoje é casa de imigrantes pobres, vivendo em antigos e mal conservados palacetes seculares. Um lugar único, belo à sua própria maneira, mas com muito mais pobreza do que era de se esperar de um país tão rico, que pouco ousam se opor a ele.

4 comentários em “Drops dos bastidores do GP (e de como foi estar na Arábia Saudita)”

  1. Fiquei impressionado com a “realidade” da Árabia, mais uma vez meus parabéns e obrigado por ser tão ousada…

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