Dinheiro não é garantia de felicidade na F1

É comum ter os times que lutam pelo campeonato encabeçando a lista dos maiores gastadores a cada temporada, o que leva à conclusão inicial de que dinheiro é fundamental neste negócio. Porém, isso não é regra. A invasão das montadoras na categoria, que marcou a primeira década dos anos 2000, foi a demonstração prática de que um grande orçamento não é prova de sucesso. Os japoneses da Toyota e da Honda, para citar os exemplos mais claros, gastaram os tubos e abandonaram a “brincadeira” de mãos abanando.

Os maiores times têm mais recursos porque atraem mais patrocinadores e gastam mais porque têm os melhores profissionais a bordo e continuam desenvolvendo o carro, em paralelo à concepção do modelo do ano seguinte, até a última prova, caso estiverem lutando pelo título.

Um time médio até gostaria de gastar todo o possível, mas o normal é que tenha mais dificuldade em atrair patrocínio e investimento. A não ser, é claro, que ele seja controlado por uma grande empresa disposta a investir o que for preciso para promover sua marca.

Os mais otimistas podem dizer que a Red Bull sempre teve a vitória em seu DNA

Ainda mais se esta empresa for uma montadora de carros: qual a valia para quem trabalha com automóveis manter uma equipe de F1 que não vence? Qual a mensagem que você mandaria para seus possíveis consumidores se andasse no meio do pelotão?

Paralelamente a isso, a manutenção do investimento no esporte está interligada ao desempenho financeiro da montadora fora dele. A Ford, dona da Jaguar, foi a primeira a pular fora do barco. Seu investimento não era dos maiores – estima-se que, depois de comprar a Stewart por cerca de US$ 100 milhões, investiu cerca de US$ 160 milhões por ano, praticamente uma barganha quando o assunto é F1. Não coincidentemente, caiu do 4º lugar que o time do tricampeão Jackie Stewart havia conseguido em 1999 para o 9º lugar no ano seguinte, com apenas 4 pontos marcados. Não melhorou muito nas temporadas seguintes, marcando uma média de 11,25 pontos por ano até vender a equipe para o milionário Dietrich Materschitz, dono da fabricante de energéticos Red Bull. Pouco tempo antes, quedas nos lucros da Ford foram anunciadas.

A história recente também mostrou que, assim como a economia, a abundância também não é garantia de sucesso. A Honda percorreu o mesmo caminho da Jaguar: começou fornecendo motores para a BAR e tomou o controle definitivo da equipe em 2005. O orçamento da BAR-Honda já não era dos mais enxutos: US$ 225.1 milhões em 2002, por exemplo, mas chegou perto dos US$ 400 milhões em 2008.

Após um começo animador, com o 4º lugar entre os construtores em 2006 e um ótimo campeonato de Jenson Button, o time caiu drasticamente de produção e marcou apenas 20 pontos se somados os dois anos seguintes. Em meio a notícias de prejuízos da montadora, os japoneses anunciaram sua saída da F1 no final de 2008.

Japoneses deram dois exemplos de como não fazer na F1

Curiosamente, apostando todas as suas fichas num grande pacote de mudanças nas regras, o time havia contratado Ross Brawn, um dos pilares da era Schumacher na Ferrari, e concentrara seus investimentos e esforços, que incluíam a utilização simultânea de 2 túneis de vento, no projeto de 2009. Desistiram meses antes de ver o fruto de todo esse esforço detonar a concorrência e dominar o campeonato, sob o nome de Brawn.

Especula-se que o estilo de gestão japonês, mais horizontal, e a consequente demora na tomada de decisões tenha sido o fator chave para o fracasso da Honda, teoria que ganhou força com a ainda mais desastrosa experiência da Toyota na categoria.

Eles estouraram todos os limites do que se imaginava ser possível gastar na F1: com um orçamento beirando os US$ 450 milhões anuais, marcaram em média 34,8 pontos em cada um de seus 8 anos na categoria. Em outras palavras, gastaram quase US$ 13 milhões por ponto! A média é alavancada pelos 88 pontos de 2005, um ano atípico para quem nunca passou do 2º lugar em nenhuma das 276 oportunidades que teve (contando ambos os carros).

O fato de terem insistido em pilotos experientes que nunca tiraram aquele algo a mais do carro, como Olivier Panis, Ralf Schumacher e Jarno Trulli, ou a falha em formar um corpo técnico mais eficiente são algumas das explicações plausíveis para o insucesso da Toyota, que contou com investimento e paciência de sobra. Mas o fato é que o time viveu uma montanha-russa de resultados e, já sem a concorrente Honda fazendo-lhe sombra, decidiu abandonar seu projeto ao final de 2009. E a verdade é que não fez falta.

7 comentários sobre “Dinheiro não é garantia de felicidade na F1

  1. Belo post Julianne, dias desses tinha escrito algo no mesmo sentido (http://www.corridadeformula1.com/conheca-uma-f1-que-vai-alem-do-dinheiro-das-equipes-parte-iii/).

    Hoje, se você pensar, a Red Bull tem apenas o quarto orçamento do grid e segue fazendo um carro imbatível. Algo que Honda e Toyota, com todo o seu dinheiro, não conseguiram.

    HRT e Force India, por exemplo, possuem gastos semelhantes – mas olha o abismo que existe entre elas. É questão de planejamento e saber investir, como em qualquer negócio, na verdade.

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  2. Gostei muito da matéria… ouvi um boato sobre a VW querer entrar no circo da F1, será? Será que ela está querendo ficar sujeita a situação de ter seu nome vinculado em não ser lider em algo que faz? Ou teriamos alguma surpresa… vamos ver!

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    1. Os exemplos recentes mostram que o melhor para uma montadora seria se associar a uma estrutura já existente. Talvez a Williams se interesse numa parceria, talvez a McLaren. O fato é que, com o novo regulamento de motores de 2013, mais alinhado à indústria, é possível que as montadoras voltem com tudo.

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      1. Resta saber, se com esse novo regulamento, as montadoras tbm, mudarão a mentalidade habitual, e não abandonarão o barco, como fizeram Honda, Toyota, e BMW, afinal para se investir em f1, tem que ser um pouco louco, pois o maior prêmio para os bem sucedidos, são os títulos, as vitórias, o marketing para os loucos, é consequência do trabalho em pista, algo que não dá para saber se as montadoras asimilarão. Os loucos, apaixonados, como Willians por exemplo, não se dobram facilmente, afinal é a sua vida, ao passo que vendo tanto gasto, sem retorno dentro e fora das pistas, o prejuíjo é dobrado para as montadoras. A sensação que fica de Honda e Toyota principalmente, é a visão distorcida que tinham da f1, afinal, seus referenciais eram apenas a disputa japonesa, algo que se mostrou equivocado perante a disputa com as grandes.

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  3. Hehe, esse título é forte tanto para o esporte, quanto para a vida. Em um ambiente tão competitivo quanto a f1, é mt difícil separar vitória e investimento, apesar que pode acontecer alguns acidentes de percurso, como a Brawn em 2009. É uma das poucas excessões da f1 moderna. Como é um trabalho conjunto, a estrutura financeira deve amparar bons profissionais, trabalhando em sintonia, algo que temos que aprender e mt, com nossas amigas formigas. Quer maior demonstração de trabalho em equipe? Uma coisa é inegável: -Tanto fora, quanto dentro do carro, f1 exige talento e transpiração. Tem que ser do ramo e possuir competição no sangue.

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