Espiral do silêncio

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Estava em Spa-Francorchamps quando as equipe foram surpreendidas pela primeira grande medida de restrição à comunicação via rádio. Enquanto alguns se mostraram perplexos pela impossibilidade de se preparar adequadamente a curto prazo para algo tão abrangente, outros torciam para que, na realidade, a FIA fizesse vista grossa na hora de aplicar as novas regras. Mas a sensação de todos era a mesma: eles não têm noção das consequências práticas de limitar as conversas entre pilotos e engenheiros.

Ainda mais em tempos de unidades de potência. Fernando Alonso definiu bem quando disse que “primeiro eles são naves espaciais para controlarmos e depois nos tiram as informações”. Isso é algo forte vindo de um piloto que recentemente foi chamado de ‘GPS humano’ pela própria McLaren pela clareza do que está acontecendo ao seu redor durante as corridas. E esse deveria ser o trabalho do piloto: gerir bem uma corrida nunca foi só acelerar, mas sim entender o quanto e quando forçar seu equipamento, sentir as reações de seus pneus e, não menos importante, escolher bem suas brigas.

Deixemos o trabalho do engenheiro com o o engenheiro e o do piloto, com o piloto.

Pois, bem. As restrições do rádio – que acabaram sendo bastante aliviadas em 2014, mas continuaram em pauta até voltarem com tudo nesta temporada – ganharam força com a ideia de que o piloto hoje tem vida fácil. De fato, para os mais leigos, ouvir alguém perguntar a todo momento sobre seu consumo de freio ou qual configuração de motor deveria usar passa a ideia de que o engenheiro praticamente pilota para quem está no carro, embora isso esteja longe de ser verdade.

E, também, de ser novidade. Os engenheiros já interferiram muito mais no carro, quando havia a telemetria bidirecional, até 2003, e era possível fazer alterações no carro diretamente do pitwall. Aquela F-1 mais rápida que tivemos no início dos 2000 também era a menos humana, ainda que muitos ignorem isso.

Com o banimento deste tipo de prática, junto de vários sistemas eletrônicos nos anos seguintes, a pilotagem voltou a ser mais humanizada, ainda que tenha encontrado outro obstáculo nos últimos anos: com o reabastecimento e os pneus de alto desgaste, o nível de exigência físico caiu – e todos sabemos que, quando corpo é levado ao limite, mais trabalho a mente tem para minimizar a chance de erros.

No campo dos rádios, aquelas informações que poderiam simplesmente ser geridas do pitwall tiveram de ser passadas aos pilotos. Porém, durante muitos anos, a transmissão simplesmente não usava esse material, dando a impressão de que ele não existia. A partir do momento em que começamos a ouvir as tais mensagens, ficou claro o nível de informação que os engenheiros passavam.

Funciona como uma das teorias da comunicação, chamada espiral do silêncio, segundo a qual se a mídia não trata um determinado tema, ele automaticamente deixa de existir no imaginário coletivo.

E o rádio saiu dessa espiral do silêncio.

Com o advento das unidades de potência, as queixas de que as mensagens eram exageradas aumentaram devido a sua complexidade e uma certa histeria vinda da queda da audiência fez com que a comunicação via rádio de repente se tornasse um grande problema.

Com a restrição, o grande obstáculo é quando as tais unidades de potência saem dos trilhos, como vimos com Hamilton e Raikkonen em Baku. Como existem tais regras atualmente, é claro que cabe aos pilotos e equipes se adaptarem – e eles estão cheios de colas nos volantes justamente por isso. Mas também vale a pena olhar para o futuro: se queremos ver um piloto ter sua corrida comprometida porque não sabe remediar uma configuração que saiu errada dos boxes. Dosar o equipamento sempre fez parte do automobilismo, ainda que se possa questionar qual o limite disso. Mas comandar nave espacial, não.

8 comentários sobre “Espiral do silêncio

  1. Julianne disse:

    “Dosar o equipamento sempre fez parte do automobilismo, ainda que se possa questionar qual o limite disso. Mas comandar nave espacial, não.”

    Fantástica Julianne o seu arremate final! Há muito que estes dirigentes (sem noção) da FIA tomam as suas decisões ditatoriais, e depois querem respostas do “por que” da baixa audiência da categoria! Estas questões dos controles no cockpit e a comunicação com os engenheiros fazem parte de uma realidade que envolve alta tecnologia e que precisam sim do auxilio do pit wall para garantir o melhor funcionamento destas maquinas. E há de se lembrar, que as equipes investiram um-punhado-de-milhões-de-dólares para que elas possam alcançar o seu objetivo: serem competitivas e ganhar o campeonato. De duas uma: ou falta sensibilidade (bom senso mesmo) para estes dirigentes ou, outros motivos obscuros estão por traz destas esdrúxulas medidas.

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  2. eu vi muita gente criticando os pilotos, chamando-os de mimadinhos e enaltecendo os pilotos passados.

    Ora bolas! Isso é o desejo de todo piloto atual, pilotar como antigamente! Onde a única responsabilidade era de virar o volante e apertar o botão pra beber água! Piloto foi treinado pra ser piloto, você não vê aulas de MGUK MGUH e mais de 100 configurações tecnológicas no kart. Vejo com ceticismo ainda esse banimento.

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  3. Pilotar e achar o botão certo do volante para apertar não deve ser fácil. Agora ter que pilotar, acessar o computador do carro e descobrir o que está errado é um absurdo. É igual pedir para uma pessoa digitar mensagem no celular enquanto dirige.

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  4. Se sai errado do box, bem… É um erro da equipe. Deveríamos então bonificar um piloto quando acontece algo como Riccardo/Red Bull em Mônaco?

    O problema com Hamilton e Raikkonen tem sido mais a exceção que a regra…

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  5. JULIANNE expôs magistralmente toda a incoerência que cerca essa questão do uso do rádio. Em decorrência disso, nesse caso específico da corrida de BAKU ocorreu um fato que foge totalmente às características de LEWIS: ele se viu TOTALMENTE sem condições de lutar e optou por se acomodar e até poupar o propulsor, nesse clima de cerceamento geral que é imposto aos pilotos. Resultado: uma perda para os aficionados, para o espetáculo, pois se ele tivesse condições CERTAMENTE iria se lançar à luta, MESMO CORRENDO O RISCO DE BATER NOVAMENTE ou COMETER QUALQUER TIPO DE ERRO que viesse a prejudicá-lo. Quando se vê alguém indomável e impetuoso como HAMILTON agindo assim, SE CONFORMANDO, é porque realmente há algo errado e que precisa ser revisto com urgência.

    Muitos gostam de desmerecer os pilotos atuais da F 1, dizendo que os carros são fáceis de pilotar, que não exigem esforço físico, que qualquer garoto pode correr na F 1, blá blá, blá e tal; tem até aqueles críticos e comentaristas por aí que se dizem capazes de fazer tudo o que os pilotos de F 1 fazem, porque são “bambas” nos games e simuladores etc. etc. etc. sem atentar para um negócio seríssimo que é a transferência de peso na vida real, e sem atentar para gente como JAN MARDENBOROUGH e LUCAS ORDONEZ, cobras dos campeonatos virtuais da NISSAN, que na prática, DENTRO DA PISTA e com um carro de verdade, se revelaram UM FIASCO. Desconhecem que MONOPOSTOS – em sua essência – por mais bem acertados ou sofisticados que sejam ou estejam, na prática são muitíssimo mais nervosos e exigem reações mais rápidas do que os seus equivalentes em potência mas de carroceria fechada, e que, assim, evidenciam limites dos pilotos, evidenciam quem é quem.

    Além de “550” botões no volante e a necessidade de saber fazer todas as combinações certas, eis que há menus e submenus, FICO PERPLEXO como os pilotos de hoje ainda conseguem extrair um ÚNICO MILÉSIMO a menos que o adversário, (milésimo esse que muitas vezes significa a pole position e a possibilidade de vitória), tendo que ouvir INSTRUÇÕES BUZINADAS em seus ouvidos muitas vezes no meio de uma curva de alta, a 250 por hora, de raio variável e complexa, que requer CONCENTRAÇÃO TOTAL. Não há COMO subestimar a capacidade dos pilotos de hoje, que guiam o que lhes dão para guiar e da maneira que lhes é pedida, quando, como bem observou o ISRAEL lá em cima, TUDO O QUE MAIS ANSEIAM seria se dedicarem somente à pilotagem em si, para dela obterem diversão para si e para nos brindarem com o espetáculo do domínio do Homem sobre a Máquina contra as Leis da Física.

    ALONSO, inclusive, está colocando isso – o prazer – como condição para continuar na F 1 a partir dos novos regulamentos, em 2017. Tem toda a razão, esse mesmo ALONSO, que com a linda barata FERRARI 375 da década de 50 (de propriedade de Mr. Ecclestone), em 2011, com apenas uma volta pra valer já a inseria em four wheel drift nas curvas de Silverstone (a partir de 5min. e 30s). Foi essa barata 375 que deu a primeira vitória à FERRARI na F 1, pelas mãos de Froilán González, o “Touro dos Pampas”, um piloto de estilo vigoroso e agressivo, ali mesmo em Silverstone, no longínquo 1951.

    Na minha insignificante opinião, os pilotos de hoje NADA FICAM A DEVER AOS DO PASSADO E VICE-VERSA. Cada época com suas peculiaridades, mas a F 1 obviamente se sofisticou em excesso e não deveria incorrer em incoerências, já que a retaguarda de uma Equipe de F 1 hoje parece aquelas salas de controle de lançamentos da NASA, com dezenas de técnicos e engenheiros, fora o pessoal de box, na linha de frente. Hoje o cansaço não é físico, é mental.

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  6. Ficar endeusando os pilotos de antigamente e ridicularizando nos de hoje, é coisa de gente que não entende nada de F1, nem mesmo gostam de automobilismo.
    Comparando:
    Antigamente – o piloto entra na curva, aperta embreagem, muda a marcha, desacelera.
    Sai da curva, aperta a embreagem, muda a marcha reacelera.
    Hoje em dia – o piloto entra na curva, frea, sai da curva, aciona MGU-K, aciona MGU-H e se sair a menos de 1S do carro da frente, tem que ter um dedinho disponível pro DRS.
    Quem faz essas críticas aos pilotos, apenas percebem que a forma mudou, mas está tudo lá!
    Outra coisa que não percebem:
    Até os anos 90 as disputas eram em SEGUNDOS.
    A partir dos anos 2000 as disputas passaram a ser em MILÉSIMOS DE SEGUNDOS!
    Se um piloto hoje em dia ganha 1 milésimo de segundo, isso deve equivaler a 1 ou 2 segundos do passado.
    Só cego não vê, oubquem realmente não conhece o esporte.
    Adorei o tema do post Ju!
    Abraços proa meninos e bjs pras meninas!

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  7. E ainda tem mais, (gostaria até de saber o seu ponto de vista, JULIANNE, sobre o que digo adiante, eis que você escreve ou já escreveu sobre atletismo, preparação física): será que os pilotos de outrora, com o preparo físico que tinham e ostentavam (a meu ver deficiente, comparado com o que se faz hoje) teriam condições de aguentar as exigências da pilotagem da Fórmula 1 atual? Onde a Força G produzida pela maior velocidade dos carros atuais É MAIOR que a aquela gerada pelos carros de outrora?

    O cansaço, estresse mental hoje é levado a extremos, até porque há a necessidade de se cuidar (o que requer TOTAL CONCENTRAÇÃO) da obtenção de LINHAS DE TRAJETÓRIAS perfeitas ou quase perfeitas, pois está praticamente provado que os carros de hoje requerem uma PILOTAGEM “EM CIMA DO TRILHO” para os tempos virem, serem competitivos, menores. Isso sem falar da necessidade de uma pilotagem ABSOLUTAMENTE DOSADA EM TODOS OS ASPECTOS, por exemplo, economia de pneus, de gasolina. Os carros de antigamente eram mais permissivos. Hoje é tudo milimetricamente PRECISO, o que gera desgaste mental. E quanto MAIS SOFISTICADA A CATEGORIA, MAIORES AS EXIGÊNCIAS. A F 1 é O TOPO, muito do que se requer nela não é requerido em categorias de acesso (se bem que a GP 2 já se aproximou bastante da F 1 em vários quesitos).

    E, SEM EM ABSOLUTO querer desmerecer os pilotos de outrora, mas para realçar as exigências de hoje com os pilotos, volto a dizer que fico realmente em dúvida sobre a performance FÍSICA (aqui não estou falando do TALENTO, da HABILIDADE NATURAL) dos pilotos de antigamente nos carros de hoje, que deslocam Força G elevadíssima, que requerem intenso preparo físico; os ases de hoje são só músculos e ossos, estão PERMANENTEMENTE em treinamento físico/atlético, com fortalecimento do pescoço inclusive), ao contrário dos ases de antigamente, os quais, embora muitas vezes apresentassem compleição física até bem forte, não refletiam um tipo físico atlético (alguns na década de 50 exibiam cinturas até bem adiposas) . . .

    Então, a meu ver, não procedem as alegações de muitos, de que hoje TUDO É MAIS FÁCIL, cada ÉPOCA COM SUAS PECULIARIDADES.

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