Muito tempo. Nem tanto conteúdo

22 Eles só sorriem pra pergunta boa, claro

Tudo partiu de uma conversa com o repórter da Globo Guilherme Pereira durante a sempre longa espera no cercadinho, a zona de entrevistas de TVs e rádios, no domingo na Espanha: vindo do futebol, o colega, que fazia sua segunda prova, estava impressionado com o tempo o qual os pilotos ficam à disposição da mídia durante um final de semana de GP.

Fora eventos de patrocinadores, os pilotos basicamente têm 8 dias de trabalho com a mídia por mês, contando a média de dois GPs por mês. E, de fato, o acesso da imprensa é infinitamente maior que o de jogadores badalados na Europa e mesmo no Brasil, onde eles são mais blindados. Após conversas com colegas e de juntar com meus dados aproximados e os exatos da Williams, cheguei à conclusão de que um piloto fala, em média, por seis vezes mais tempo com a imprensa por mês que um jogador de futebol. Os detalhes estão na matéria publicada no último sábado no UOL Esporte.

E nem vou entrar no mérito da chance incrível que temos de falar com os pilotos no grid.

Claro que há alguns adendos a se fazer. A quantidade de mídia presente no paddock se assemelha mais a uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada do que a uma partida do Campeonato Brasileiro. E, a exemplo destes eventos, são vários idiomas a serem contemplados. É claro que eu na Rádio Bandeirantes ou a Globo não vamos usar Felipe Massa falando em inglês – e esses pilotos cuja língua-mãe não é o inglês costumam ficar um pouco mais sobrecarregados. Outro fator é o número gigante de emissoras de TV, todas elas com contratos caríssimos para ter direito ao uso da imagem. E todas querendo exclusividade no cercadinho.

Não é por acaso que todas as mudanças feitas pela equipes e pela própria F-1 ultimamente visam agradar às TVs: cada vez mais os times resumem ou extinguem sessões para a mídia impressa, enquanto a coletiva de imprensa oficial de quinta-feira – que é transmitida pela TV, tornando seu conteúdo praticamente inútil para a mídia impressa, para a qual ela seria direcionada – está sendo dividida em duas e, enquanto metade dos pilotos escalados fala na oficial, adivinhem com que o restante está falando de forma mais exclusiva?

Isso, porém, não tem ajudado em nada o conteúdo. Imagine que você é Fernando Alonso e acabou de fazer um teste na Indy. Na coletiva, vão lhe perguntar sobre isso. No cercadinho, você vai parar em 10 a 15 TVs e cada uma delas vai querer saber disso. E, no caso da McLaren, há ainda uma outra coletiva para a mídia impressa. E um vai querer uma resposta mais interessante para a mesma coisa. Não vão ter.

Outro problema decorrente dessa necessidade de agradar as TVs durante quatro dias seguidos de atividades – e ter muitas delas para agradar – é que uma grande parcela das opiniões que ficam rodando a mídia por dias foram colhidas assim que os pilotos saíram do carro, no calor do momento, sem qualquer análise posterior. Isso é diferente na maioria das sessões de mídia impressa – não no caso da Ferrari, que leva os pilotos do cercadinho direto para estas entrevistas, então as aspas costumam ser bastante cruas – mas a tal política de agradar as TVs vem fazendo com que os assessores de imprensa cortem o tempo de trabalho de mídia de seus pilotos justamente por estas sessões. Os pilotos da Red Bull e da Williams, por exemplo, não falam com os jornalistas de impresso, que não podem entrar no cercadinho, após a corrida.

Não é por acaso que, mesmo com este acesso que parece gigantesco, há muita reclamação. Dos pilotos, cansados de ouvir as mesmas perguntas, e dos jornalistas, cansados de ouvir as mesmas respostas. Mais um problema criado pela Era Bernie e seu apetite feroz por contratos de TV.

6 comentários sobre “Muito tempo. Nem tanto conteúdo

  1. Artigo interessante. Fora do normal que se ve por ai. Enhorabuena.

    Imagino a dificuldade de ter que aparecer com perguntas interessantes e que carreguem o risco do desconforto fazendo com que o piloto comece a fechar semblante para o reporter. Ou para a reportara como diria a ostra-mor.

    Varios pilotos e celebridades esportivas considerados limoes ja falaram varias vezes que adorariam conversar por horas com jornalistas que soubessem o que estao perguntando ou que tivessem mais cuidado nas perguntas.

    Jornalista serio e inteligente precisa tirar leite A da pedra agradando aos chefes (pageviews estao baixos!!!!) e os entrevistados. E a remuneracao ao contrario do que pensamos, OH!

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