Por dentro da F-1 e o porquê dos carros mais pesados

Um dos assuntos que roubou a cena nas primeiras etapas da temporada foi a dificuldade da Mercedes em conseguir chegar perto do peso mínimo de 728kg, chegando a fazer com que Lewis Hamilton dispensasse sua garrafa de hidratação, que pesa cerca de 1kg.

A questão do peso da Mercedes não é que o carro está acima do limite mínimo, mas que eles não conseguem ficar abaixo o suficiente para jogar da melhor forma possível com os lastros, ajudando no equilíbrio do carro e gerando melhores tempos de volta e menor desgaste de pneus, por exemplo. Mas isso também expõe algo que é apontado por muitos – pelo próprio Hamilton, inclusive, como um ponto falho dos carros atuais: mesmo que a potência esteja perto dos 1000cv, de que adianta tudo isso com um equipamento tão pesado?

Os carros atuais têm largura e pneus com dimensões comparáveis aos carros de 1991, por exemplo, mas são pelo menos 150kg mais pesados – isso sem falar que o motor atual é o V6 1500cc, enquanto o de 1991 era o V12 3500cc. De onde vem toda essa diferença?

Segurança

A primeira imposição de peso mínimo na F-1 foi adotada em 1961 e era de 450kg. Afinal, nos anos anteriores, várias fatalidades haviam marcado o esporte: apenas em 1958, morreram Peter Collins, Luigi Musso e Stewart Lewis-Evans, em tempos nos quais até colunas de direção tinham furos para economizar peso.

As reclamações acerca da restrição também datam da mesma época: Colin Chapman, que nunca se preocupou muito com a segurança, argumentava que um carro mais pesado era mais difícil de parar e, com isso, mais perigoso.

Mas os pedidos do projetista não foram ouvidos. Pelo contrário, o peso mínimo seguiu subindo juntamente com a adoção de medidas para aumentar a segurança dos carros e chegou perto de 600kg no início dos anos 1980, mas deixou abaixou novamente na era turbo, quando voltaram aos 500kg.

As mortes de Senna e Ratzenberger em 1994, contudo, foram fundamentais para que uma série de medidas fosse adotada e o peso mínimo voltasse aos 600kg, algo que se manteve até 2009, quando começou uma sucessão de aumentos relacionados ao uso de energias renováveis e outras mudanças no regulamento até que chegamos aos carros mais pesados da história da F-1 em 2017.

Tanto, que Hamilton defendia ano passado que a mudança de regulamento simplesmente voltasse a diminuir o peso dos carros, e não aumentar sua velocidade por meio da aerodinâmica. O inglês queria ter de volta os primeiros carros com que competiu, em 2007 e 2008. “Eles só precisam tornar os carros mais leve. Eles são super pesados. Eles eram ótimos com 600kg, bons e ágeis. Isso é melhor para os pneus, eles não estouravam antes. Quanto mais pesado o carro, mais força os pneus recebem, então será pior para eles.”

Reabastecimento e energias renováveis

A mudança proposta por Hamilton, contudo, depende de muitas mudanças para realmente acontecer. O peso mínimo começou a aumentar em 2009 por causa do KERS – aumento que não foi suficiente, fazendo com que a maioria das equipes desistisse da tecnologia, que era bem mais ‘desajeitada’ do que hoje – e em 2010 pela necessidade de tanques maiores devido ao fim do reabastecimento, ainda que o combustível em si não entre na conta.

O terceiro aumento foi em 2011, agora para garantir que todos usassem o Kers. Aí já estávamos em 640kg e chegaram a 642kg em 2013 devido a um aumento no peso dos pneus.

Mas o grande salto foi em 2014, quando as unidades de potência atuais começaram a ser usadas. Para acomodar as baterias e todo o sistema de arrefecimento necessário para os V6 turbo híbridos, o peso mínimo passou para 691kg.

O ganho sem precedentes na história de termoeficiência foram fazendo, de 2014 para cá, que as atuais unidades de potência ganhem cavalos, chegando perto dos 1000cv – e sejam superiores neste quesito em relação aos V8, cujo desenvolvimento estava congelado por questões financeiras e cuja potência ficava perto dos 750cv. Com isso, mesmo sendo mais pesados, os carros atuais são mais velozes.

Trata-se de um caminho aparentemente sem volta, tanto pela ótica da segurança – ainda mais com saídas como o shield sendo estudadas, o que deve aumentar ainda mais esse limite mínimo – quanto pelo uso da F-1 como plataforma ‘verde’. Mas vale o exercício de imaginação: como seriam carros do meio dos anos 1980, com motores de 1500cv e limite de 565kg, com a tecnologia e aerodinâmica de hoje?

2 comentários sobre “Por dentro da F-1 e o porquê dos carros mais pesados

  1. Fiquei curioso em saber como o peso do carro é distribuído entre seus componentes… Por exemplo: Motor, pneus, chassis, célula de sobrevivência, elementos da suspensão e “penduricalhos’ aerodinâmicos.
    Assim, o peso mínimo poderia ser sem o motor, por exemplo. Assim a segurança seria mantida, e as equipes teriam mais uma área p/ desenvolver….
    O problema que vejo é a logística p/ medição. É bastante simples pesar o carro complete (sem fluídos, não é?) Do que pesar o carro *sem motor*….
    Idéia boa no papel, terrível na prática! :~S

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