Entendendo a F1

A evolução do peso do carro da F1

A F1 passou longe da dieta nos últimos 10 anos. De 2013 para cá, o peso do carro da F1 passou de um mínimo de 642kg para chegar a 795kg em 2022 com o novo regulamento. E não dá para cravar que a categoria atingiu seu limite.

Desta forma, como os carros largam com cerca de 110kg de combustível, isso significa que os eles estarão com 900kg nas primeiras voltas dos GPs. Não é muito menos que carros de rua pequenos como o Nissan March e o Fiat Mobi, com tanque vazio. Mas é claro que há uma diferença gritante: 1000cv de potência e uma aerodinâmica pensada não para o conforto dos passageiros, mas sim para andar rápido.

Mesmo assim, os pilotos reclamam. Lewis Hamilton lembra bem de seu primeiro título, em 2008, quando tinha em mãos um carro tão leve que a McLaren tinha que jogar com lastros de 50 a 60kg para que o conjunto carro + piloto chegasse nos 600kg regulamentares. Ou seja, 195kg (ou quase 25%) a menos que os carros a partir de 2022.

Lewis Hamilton é um dos grandes críticos do aumento do peso do carro da F1. Ele correu com os carros de 600kg dos anos 2000.
Foto: McLaren

“Só precisam tornar os carros mais leves. Eles são super pesados. Eles eram ótimos com 600kg, bons e ágeis. Isso é melhor para os pneus, que não estouravam. Quanto mais pesado o carro, mais força os pneus recebem, então será pior para eles.”

Lewis Hamilton

Como funciona a regra do peso do carro da F1?

Primeiro, vamos entender a regra: o peso considerado é do carro + piloto com todo o equipamento (capacete, macacão, luvas, tudo). E o piloto tem de responder por pelo menos 80kg do total.

A pesagem é feita em vários momentos, como durante a classificação e no final das corridas, então o combustível não entra na conta.

Não existe um peso máximo, mas é claro que ninguém quer ter um carro pesado porque ele seria mais lento. Na verdade, nos últimos anos, chegar no peso mínimo tem sido uma dificuldade para equipes médias. Já entre os grandes, a busca é por ficar abaixo do mínimo para poder jogar com lastros, que ajudam a equilibrar melhor o carro.

A pressão pelos lastros costumava ficar em cima dos pilotos até a adoção do peso mínimo de 80kg ser adotada, em 2019. Afinal, quanto mais leves eles fossem, mais lastro poderia ser usado em áreas estratégicas. Agora, mesmo se um piloto pesa 70kg, por exemplo, os 10kg restantes para chegar no mínimo de 80kg têm de ser colocados junto ao cockpit.

E, fica o spoiler, nenhum piloto chega nos 80kg na F1.

Ah, então agora você entendeu por que os pilotos da F1 se pesam quando saem do carro, certo? O peso registrado é impresso naqueles papeizinhos que o pessoal da FIA dá para eles. E esta é a base para as equipes colocarem os lastros.

Por que o peso mínimo dos carros da F1 aumentou tanto?

  • 1961 – 450kg

  • 1966 – 500kg (quando a F1 passou dos V8 1.5 para 3l)

  • 1969 – 530kg

  • 1972 – 550kg

  • 1973 – 575kg

  • 1981 – 585kg

  • 1982 – 580kg (estas reduções dos anos 1980 estão relacionadas a adoção dos motores turbo e também à diminuição do peso dos chassis devido ao uso de materiais mais leves como a fibra de carbono)

  • 1983 – 540kg

  • 1987 – 500kg

  • 1991 – 505kg

  • 1994 – 515kg

  • 1995 – 600kg (É quando o peso passa a ser calculado incluindo o piloto)

  • 2003 – 605kg

  • 2010 – 620kg (quando o reabastecimento foi banido)

  • 2011 – 640kg (o sistema de recuperação de energia KERS, o “pai” mais pesado do ERS-K, passou a ser obrigatório)

  • 2012 – 642kg

  • 2014 – 691kg (introdução do V6 turbo híbrido)

  • 2015 – 702kg (ajuste ainda devido ao peso da unidade de potência)

  • 2017 – 728kg (adoção dos pneus mais largos)

  • 2018 – 734kg (adoção do halo)

  • 2019 – 743kg (novas dimensões das asas e adoção de peso mínimo de 80kg para o piloto)

  • 2020 – 746 kg (ajuste + introdução do segundo medidor de fluxo de combustível)

  • 2021 – 752kg (para encorajar o uso de materiais renováveis)

  • 2022 – 795kg (novo regulamento técnico)

Uma questão de segurança

A primeira imposição de peso mínimo na F1 foi adotada em 1961 e era de 450kg. Isso veio depois de várias fatalidades nos anos anteriores: apenas em 1958, morreram Peter Collins, Luigi Musso e Stewart Lewis-Evans. Eram tempo em que até colunas de direção tinham furos para economizar peso.

Não demorou para começarem as reclamações: Colin Chapman, famoso por se preocupar mais com a velocidade do que com a segurança, argumentava que um carro mais pesado era mais difícil de parar e, com isso, mais perigoso.

Mas os pedidos do projetista não foram ouvidos. Pelo contrário, o peso mínimo seguiu subindo juntamente com a adoção de medidas para aumentar a segurança dos carros e chegou perto de 600kg no início dos anos 1980. Nos 15 anos seguintes, houve algumas flutuações mais relacionadas à era turbo e ao uso de materiais mais leves, como a fibra de carbono.

O peso do carro da F1 na época do primeiro título de Ayrton Senna era apenas 500kg
O peso mínimo da época do primeiro título de Ayrton Senna era apenas 500kg
Foto: McLaren

As mortes de Senna e Ratzenberger em 1994 foram fundamentais para que medidas de segurança fossem adotadas. O controle ficou mais rígido, o piloto passou a entrar na conta e o mínimo voltou aos 600kg, algo que se manteve até 2009.

A última atualização de segurança que mexer bastante no peso mínimo foi a adoção do halo, em 2018. Mas isso só explica parte da “engorda” dos carros.

Reabastecimento e energias renováveis

O peso mínimo começou a aumentar em 2009 para quem optasse por usar o KERS, que passou a ser obrigatório em 2011. Nesta época, os tanques já tinham aumentado, com o banimento do reabastecimento no final de 2010.

Mas o grande salto foi em 2014, quando as unidades de potência atuais começaram a ser usadas. Para acomodar as baterias e todo o sistema de resfriamento dos V6 turbo híbridos, o peso mínimo passou para 691kg.

Uma coisa foi puxando a outra: um carro mais pesado e tão potente estressa mais os pneus, que foram ganhando peso nos últimos anos. E a busca por materiais mais ecológicos também pressionou o peso para cima.

O mais interessante disso tudo é que a geração de carros aposentada em 2021 é a mais rápida da história, mesmo sendo a mais pesada. Ao mesmo tempo, não dá para cravar que as disputas na pista seriam melhores com carros mais leves, já que os pneus não sofreriam tanto e as zonas de freada diminuiriam devido à potência dos freios atuais. Por outro lado, com menos carga nos pneus, os pilotos poderiam andar mais no limite.

O peso do carro da F1 chegou no limite?

O aumento do peso mínimo de 2022 tem muito a ver com os pneus de 18 polegadas e as calotas: só por conta disso são 11kg a mais. E o restante tem a ver com ma segurança, com melhorias feitas na estrutura do chassi.

Na teoria, a F1 ficará com este regulamento técnico, com os pneus de 18 polegadas e as atuais unidades de potência (cujo desenvolvimento será congelado neste ano) até o final de 2025. Ou seja, o peso não deveria aumentar. Mas vimos nos últimos anos que ajustes foram necessários de um ano para o outro, mesmo sem grandes mudanças.

Mas e no próximo regulamento? A F1 já estuda qual o próximo passo, e as notícias não são animadoras: Ross Brawn indicou que as dimensões podem diminuiur. Mas os quilinhos a mais vieram para ficar.

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