Por dentro da F-1 e o desafio logístico de Mônaco

Era para ser um pitstop de rotina para Daniel Ricciardo, líder do GP de Mônaco de 2016. A pista já dava claros sinais de que estava seca e o australiano trocaria seus pneus intermediários pelos supermacios. O problema é que eles não estavam lá, a parada foi demorada, e Ricciardo voltou à pista vendo o carro de Lewis Hamilton passar na sua frente para vencer.

Erros de pitstop acontecem em qualquer corrida, certo? Mas aquela falha da Red Bull pode ser colocada no saco das “coisas de Mônaco”. Neste caso, coisas que só acontecem com a logística maluca de Mônaco. Os mecânicos estavam preparados para colocar os pneus macios, mas os estrategistas decidiram de última hora que o supermacio deveria ser usado. Isso não seria um problema em qualquer outro circuito, porque os jogos de pneus disponíveis para a corrida ficam na garagem, mas não em Mônaco. Lá, os pneus ficam na parte de trás da garagem e apenas são trazidos para a parte da frente, onde são feitos os pit stops, perto das paradas. Os estrategistas tinham esquecido que Mônaco é Mônaco.

Imagine um país que tem 0s4km/2 a mais que o Parque do Ibirapuera e possui uma população de 38 mil habitantes de repente ver 200 mil pessoas chegarem para uma corrida de carros que, em si, já vai ocupar espaço por natureza. A montagem da pista começa apenas seis semanas antes do evento, e consiste na colocação de 1200 toneladas em arquibancadas, 1000 toneladas para a construção da região dos pits, 20.000 metros quadrados de fios, 3000 pneus para os muros de proteção e quase 34km de guard rails. Esse material chega por trens e mais de 500 trailers, vindos de galpões na França e na Itália. Sabe quantos engenheiros fazem a instalação? 50. Só do lado do Automóvel Clube de Mônaco são mais de 2000 pessoas trabalhando no GP.

Pois bem. Aí chegam as equipe, seus trailers e materiais. A maioria traz os motorhomes, que ficam em um apertado paddock. A Red Bull se instala em um iate gigantesco. A parte “em terra” é tão apertada que os pilotos estacionam as scooters que costumam usar no Principado na parte de fora, ou seja, têm de passar pelos fãs para chegar a elas. E nós jornalistas também, pois Mônaco é uma das poucas provas em que trabalhamos fora do paddock.

Você atravessa uma ponte daquelas de patrocínio e chega no pitlane. Os boxes têm dois andares graças a uma reforma de 2004, mas ainda assim o espaço é reduzido. No andar de baixo, ficam os carros e o equipamento mais básico possível. Todo o restante vai para o andar de cima, inclusive o “pitwall”. E é comum ver empilhadeiras fazendo “entregas” para a parte de cima pela janela mesmo. Os motores, por exemplo, são montados no andar de cima.

O aperto é tanto que é normal as equipes levarem menos peças de reposição para Mônaco. E isso mesmo com a possibilidade maior de acidentes. Os mecânicos também têm de se virar com menos ferramentas do que o normal.

E quem vai ao GP pode ver esse aperto todo de perto por conta de outra particularidade do GP de Mônaco: mesmo com muita atividade de pista, uma vez que é um final de semana que tem outras categorias além da F-1, trata-se do único circuito que é aberto durante o final de semana de corrida. Como os treinos livres acontecem, excepcionalmente, na quinta-feira, no dia seguinte, inclusive, todo o circuito é reaberto ao tráfego normal de carros. Nos demais dias, são poucos os carros que passam pela parte do porto, mas o restante está totalmente liberado.

Isso também exige um esforço logístico. As vias são fechadas às 6h da manhã de quinta-feira para a instalação das últimas barreiras, e são reabertas às 19h. Isso acontece todos os dias (a não ser na sexta, quando as vias ficam totalmente abertas. Depois da corrida, a liberação acontece ainda mais cedo, às 18h. Ao mesmo tempo, começa o trabalho de desmontagem de todo o aparato, feito de madrugada. Em três semanas, não há mais sinal de que houve um GP ali.

6 comentários sobre “Por dentro da F-1 e o desafio logístico de Mônaco

  1. A corrida de mônaco tinha que ser na chuva todo ano. Com chuva você tem alternativas, como foi em 2008, 2016, etc. Sem chuva infelizmente a corrida é uma procissão. Acho que a pirelli deveria fazer uma edição especial de borracha só pra Mônaco, aumentando o desgaste dos pneus, pra gerar mais paradas.

    É legal de ver a corrida dentro da cidade e tudo, mas, do ponto de vista de ultrapassagem é complicado. Mas é F1, então vale a pena … hahaha

    Ju, como são os preços daí ? é caro ?

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  2. Incrível o clima do GP de Mônaco, deve ser fantástico estar nele.
    Julianne, não li o turistando sobre esse GP então preciso me repetir, fica caro o ingresso para Mônaco?
    E uma dúvida que surgiu agora, em 2016 ao ver o erro sobre os pneus, que estavam longe e indisponíveis na parte de trás do box, teria sido bem melhor para a RedBull utilizar os pneus macios mesmo no carro de Daniel correto? Faltou um pouco de raciocínio rápido para mudar a estratégia de novo ou algo a mais aconteceu nesse sentido?
    Grande abraço a todos do Blog!

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  3. Ju, dá até angústia ler esse seu relato.
    Dá pra sentir a dificuldade de “fazer acontecer” o evento GP de Mônaco.
    Obrigado mais uma vez.

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  4. Julianne, como fica então a corrida da F2 na sexta-feira, se o circuito é reaberto neste dia ? Se jâ tem tão pouco espaço para a F1 como fica então para as equipes de F2, tem uma outra área nas proximidades do circuito para essa categoria?

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    1. Na sexta a pista fica fechada na parte da manhã, é liberada logo depois que a F-2 termina. O curioso é que os pilotos saem do traçado no final e pilotam até onde fica o paddock deles, que é atrás do paddock da F1. E durante a corrida eles usam os boxes da F1, como acontece sempre

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