Por dentro da F-1 e o que aconteceria se o reabastecimento voltasse

Volta e meia vemos o debate sobre o retorno do reabastecimento na Fórmula 1 aparecer. Ele foi permitido de 1994 a 2009, tendo sido tirado do regulamento por questões de segurança e gastos. Partidário da ideia, o presidente da FIA, Jean Todt, fala que os gastos seriam irrisórios, de cerca de 50 mil euros por ano. Os chefes de equipe, no entanto, falam em 1 milhão. Ainda assim, em uma categoria que luta para implementar o teto orçamentários de 150 milhões, não é muito. Mas é algo que só seria bem-vindo caso trouxesse claros benefícios para o esporte. E não é bem esse o caso.

A questão da segurança também pode ser contestada, uma vez que hoje tecnologicamente falando a F-1 poderia desenvolver sistemas mais seguros. No entanto, nada pode ser comparado com simplesmente banir o reabastecimento.

Primeiro, vamos voltar um pouco na história: Fangio venceu sua última corrida, o GP da Alemanha de 1957, fazendo um pitstop para reabastecimento. Acabou sendo uma prova emocionante, com o argentino só voltando à liderança na última volta depois de um início tranquilo. E justamente pela parada ter transformado uma vitória tranquila em uma aventura, ninguém mais tentou isso por décadas.

Isso, até Colin Chapman perceber que o reabastecimento poderia ser uma boa para os motores turbo no início dos anos 80, pois eles precisavam usar mais combustível que os aspirados. Porém, demorou para a tática dar certo por conta da péssima confiabilidade dos Brabham em 82. Foi só em 83, no GP do Brasil, que Nelson Piquet conseguiu vencer fazendo um pit stop para reabastecer. Na mesma corrida, contudo, a Williams tentou fazer o mesmo e seu carro pegou fogo. Então, na temporada seguinte, os reabastecimentos estavam proibidos por questões de segurança. Voltariam só em 94, com direito a trapaça da Benetton, cujo sistema permitia um fluxo maior que o regulamentar e resultou nas imagens impressionantes do fogo no carro de Jos Verstappen no GP da Alemanha daquele ano.

Mais velocidade, menos ultrapassagens

Mas e se o reabastecimento voltasse hoje? O lado positivo seria o ganho de velocidade: hoje os carros largam com 100kg de combustível no tanque e, quando carregam menos peso, têm de lidar com o desgaste de pneus. Com o reabastecimento, portanto, estaríamos vendo as corridas mais rápidas da história, ainda que haja dúvidas quanto a isso.

Carros mais rápidos colocam mais estresse nos pneus e também em todos os componentes, especialmente o motor. Na F-1 atual, os pneus são feitos para se degradarem e os motores, para durarem. Então fica a dúvida de quanto o reabastecimento efetivamente mudaria a cara das corridas, pois a necessidade de poupar equipamento continuaria alta.

A própria diferença de velocidade não seria assim tão grande, uma vez que a unidade de potência atual é perto de 40% mais eficiente que os antigos V8 ou V10. Com esses motores, o tanque chegava a ter 180kg. Um cálculo simples usando como parâmetro um circuito como de Barcelona, em que 10kg de combustível equivale a 0s3 por volta, leva a crer que um carro que larga com 50kg seria 1s5 mais rápido por volta do que o atual.

O grande problema trazido pelo reabastecimento, contudo, é seu efeito negativo nas ultrapassagens. Os números de 94 a 2009 são muito claros: foi a época em que as corridas tiveram menos manobras na história, sendo que a única variável que se manteve neste período foi justamente o reabastecimento. Houve mudanças nos carros, nos pneus, nos motores, e uma mistura de temporadas de domínio claro de uma equipe e anos mais competitivos em termos de performance. Mas nunca em termos de ação na pista.

Durante estes campeonatos, as grandes variáveis aconteciam quando alguma equipe arriscava largar bastante leve ou o contrário, mas, com o passar dos anos, houve uma padronização de estratégias que levou várias corridas a serem decididas nos boxes. Esse elemento continua existindo de maneira muito forte devido ao desgaste dos pneus, porém a diferença entre uma corrida decidida na estratégia de combustível e de pneus é que a segunda está muito mais nas mãos do piloto. Afinal, dependendo do desenrolar de uma corrida, ele pode economizar pneu e retardar sua parada, ou o contrário. Mas se o plano inicial era parar, digamos, na volta 14 por conta do combustível, a corrida fica muito mais na mão dos engenheiros. Não há dúvidas que as estratégias ficam mais abertas quando definidas pelos pneus e não pelo nível de combustível no tanque.

Há quem diga que o reabastecimento colocaria mais uma pimenta nas estratégias, mas provavelmente aconteceria o contrário: enquanto mudanças sutis na temperatura do asfalto, por exemplo, podem mudar a história de uma corrida, como vimos recentemente no atual campeonato, a quantidade de combustível no tanque é algo exato, então as estratégias ficariam, na verdade, mais engessadas.

Há, também, a questão do impacto que mais uma variável estratégica teria na captura de novos fãs, uma vez que tornaria o esporte ainda mais difícil de ser seguido pelo expectador não habitual. Que o diga a regra pela qual os pilotos classificavam com o nível de combustível com o qual largariam, o que serviu mais para confundir novos fãs do que efetivamente criar resultados inesperados. Sim, víamos uma Toyota ou uma Renault na primeira fila, mas aquilo não era real e rapidamente isso ficava claro.

Outro fator é do acerto e da própria filosofia dos carros. É muito mais complexo tentar fazer um carro bom em classificação e em corrida quando se tem uma diferença tão grande entre uma volta lançada e o início da prova. E isso é destacado pelo parque fechado, que limita muito as mudanças. Novamente, o reabastecimento diminuiria o efeito disso.

E tornar as corridas mais humanas e menos complicadas para novos fãs é tudo o que a F-1 vem buscando.

16 comentários sobre “Por dentro da F-1 e o que aconteceria se o reabastecimento voltasse

  1. Excelente texto Julianne. A reintrodução do reabastecimento na F1 pela Brabham no início dos anos 80 foi revolucionária. Contudo, não tenho saudade nenhuma da 2a metade dos mais 90 e anos 2000 quando as estratégias de reabastecimento limitavam o livre desenrolar das provas. Considero haver questões muito mais urgentes para a F1 resolver hoje do que o retorno do reabastecimento.

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  2. Concordo quando dizem que as asas móveis permitem ultrapassagens artificiais, mas aquelas corridas decididas nos pits para reabastecimento eram muito ruis… me lembro que só acompanhava com o live time na mão, nem olhava pra tv direito. Se voltar o reabastecimento, arrisco dizer que seria a pá de cal…

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  3. Naquela época de treinar com o combustível que largava fazia que largar na terceira fila com mais combustível era melhor que largar na pole, em 2009 a Red Bull aproveitou da velocidade de Vettel para colecionar poles, na Alemanha depois de perder a vitória para Webber ele deu o grito de liberdade reclamando publicamente da extrategia, a partir daí teve sempre uma volta a mais de combustível, a parada dependia do combustível, ele não poderia fazer o que faz com certa frequência, fazer os pneus durarem e parar depois dos demais.

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  4. Sugiro uma matéria sobre a cronometragem, só você poderia fazer uma matéria dessa, a evolução foi enorme, hoje temos resultados em tempo real, antigamente era tudo manual e aberto a erros, a vitória de Gran Hill em Indianápolis foi contestada, teriam esquecido de uma volta de Clark, hoje conseguem acompanhar quarenta carros em Daytona, tudo junto e com tudo mudando o tempo todo, uma loucura. O chato de usar o App é ter o tempo final bem antes da imagem, o carro entrou na reta é você já sabe que foi pole.

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  5. Colin Chapman no inicio dos anos 80 estava morto, precisamente 16 de Dezembro de 1982, e ele nada teve com a equipe Brabham. Foi sim um gênio na F1, mas em outros quesitos. Aliás, sou contra o reabastecimento, como Julianne disse, as corridas ficaram engessada.

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  6. Existem tantas discussões de como tornar a F1 mais atraente ao público.
    Reabastecer ou não, pneu assim ou assado, limite de motores por temporada, asa móvel etc…, acho que nada vai adiantar.
    Sugestões esdruxulas para as corridas, ficarem mais legais:
    1- As equipes com piores resultados largam, nas primeiras filas, Ferrari, Mercedes, Red Bull, saem dos boxes.
    2- Para compensar, os treinos classificatórios dariam pontuação aos 10 primeiros.
    3- Coisa mais simples, podemos excluir Ferrari, Mercedes e Red Bull da temporada, afinal a disputa de Hass, Renaut, para baixo, anda bem interessante e Vettel, Riciardo, Max, Hamilton. poderão substituir, Hardley, Ericson, a dupla da Willians.
    4- Não sendo possivel aplicar as regras acima, instalar regadores de jardim, ao longo de todas as pistas, mantendo o asfalto molhado, durante a prova.
    Que tal?????????

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  7. Acredito que a F1 deveria deixar as coisas mais difíceis para os pilotos, hoje temos carros quase automáticos, com controles disso é daquilo e regras que engessam a categoria.
    Talvez um passo para trás alguns avanços tecnológicos seria mais interessante, com possíveis redução de custo.
    Falta competividade a F1, a distância monetária entre as equipes é monstruosa, e por conta disso cada diaais temos pilotos pagantes e não pilotos competidores, veja o exemplo da Williams.
    Esta na hora dos novos donos da F1 buscarem em outras categorias algo que possa ser utilizado na F1 para aumentar essas competividades.

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  8. Tornar simples e interessante… vejamos.

    – Classificacao – pneus de classificacao e gasolina livre, pode ser um litro ou tanque cheio.
    – Warm-up pelas manhas de domingo com pneus de corrida e tanque cheio.
    – Corrida – pneus pra uma corrida inteira e paradas para reabastecimento. Tanques com capacidade para 100kg de gasolina. Tempo minimo para reabastecimento: 5 segundos.

    Por favor Julianne, passa essas dicas pro Ross Brawn… ele esta’ esperando… thanks,

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  9. Muito legal esse post Julianne! Era a favor da volta do reabastecimento até lê-lo, agora dou totalmente contra, parece que não trará nada de bom pra F1 que por si só já é uma categoria complicada.
    Talvez encontrar a medida certa da aerodinâmica e e utilizar mais da parte mecânica já deixe a categoria mais atrativa, mas se eles forem mesmo simplificar a categoria, seria interessante trazer os treinos classificatórios aonde cada piloto fazia uma única volta lançada e dali eram determinadas as posições de largada.
    Esse título da Benetton e de Schumacher em 94 dá um belo post hein Julianne? Poderia aproveitar e enteevistar o Jos Verstappen para falar sobre esse ano.
    Rs
    Grande abraço a todos do Blog!

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  10. Nunca gostei do reabastecimento. Sempre achei as ultrapassagens com diferentes níveis de combustível mentirosas, afinal eram ultrapassagens tão banais quanto as da asa móvel. Poderiam simplificar: 01 motor por corrida sem essa história de poupança, além é claro do fim dessas gambiarras elétricas de reaproveitamento de energia, simples assim! Reitero: a indústria automobilística mundial NÃO PRECISA da F1 para desenvolver tecnologia.

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    1. Wagner, concordo plenamente.
      Se me permite, alguns comentários, corroborando seu texto:
      Os conceitos tecnológicos estão mudando radicalmente, hoje a industria busca desenvolver veículos seguros e talvez num futuro, não muito distante, os carros sejam auto dirigiveis. Atualmente encontramos dispositivos que entram em ação independente da vontade do motorista, como freiar na eminencia de uma colisão, manter distância pré estipulada do carro a frente, air bags externos evitando ferir pedestres em caso de atropelamento, além de que as penalidades para quem ultrapassa os baixos limites de velocidade, são cada vez mais severas mundo afora..
      Os super esportivos, são vistos somente estacionados na porta de luxuosos restaurantes e quase nunca nos ultrapassando numa estrada a mais de 200 por hora. A função primordial é exibir estatus.
      Modelos fast- backs, tão populares no anos 70/80, cujo desenho lembrava veículos de pista, foram substituidos, no gosto do consumidor, pelos SUV, a ponto das montadoras com forte apelo de esportividade e velocidade, estarem lançando seus SUV, para sobreviver no mercado, Maseratti, Porshe, Alfa Romeo.
      A F1 deveria ater-se ao espetáculo, como grandes lutas valendo título, campeonatos internacionais de futebol, torneios mundiais de tenis, onde ha competitividade, certa igualdade de forças e condição mais ou menos iguais para os participantes.

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  11. Podem criticar por diversos motivos, mas custo?…segurança?…pensei que a F1 fosse a categoria mais rica e mais moderna, mas não conseguem bancar, financeira e com segurança, um procedimento realizado na Indy e na stock??….

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