As desventuras de Otto Stuppacher: o pior piloto da história?

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Paulo Abreu

Houve um tempo na F1 em que era relativamente fácil disputar um GP. Comprando um chassi de linha corrente (Marchs, Brabhans, Lotus e Tyrrells), com um bom motor Ford Cosworth, um punhado de pneus Goodyear ou Firestone, era uma questão de se inscrever e tentar a sorte contra os melhores pilotos daquela época. Isso foi muito comum quando a Fórmula 1 visitava regularmente a África do Sul nos anos 60 e 70 para realizar seus GPs. Pilotos privados compravam e/ ou alugavam carros e se inscreviam para disputar o GP. E isso não era apenas na África do Sul. Na maioria dos países por que a categoria passava, sempre havia pilotos locais que usavam essa “facilidade” para poderem correr seu GP local. No GP da Áustria de 1976, um desses casos tornou-se um dos mais cômicos – ou bizarros – da história da categoria. O nome do piloto: Otto Stuppacher.

Nascido em Viena em 3 de março de 1947, Stuppacher teve uma carreira formada basicamente em provas de subida de montanha na Áustria, onde conseguiu certo sucesso. Arriscou a sorte em provas de longa duração, mas a sua melhor colocação nesse tipo de corrida foi na inauguração de Zeltweg, em julho de 1969, quando chegou em terceiro ao volante de um Porsche 906, logo atrás do vencedor Andrea de Adamich e de Jo Bonnier. Em 1970, lá mesmo em Zeltweg, dividiu um Porsche 910 do Bosch Racing Team com Niki Lauda. Largaram em 17º e encerraram a prova em 21º. Otto ainda tentou algo em outras categorias de turismo e endurance e nas provas de subida de montanha, sem conseguir nada de concreto. Em 1972, ele abandonou o automobilismo, mas retornou em 75 para disputar provas de endurance.
No GP da Áustria de 1976, o time local, a ÖASC Racing Team, resolveu disputar a corrida e alugou junto à Tyrrell um velho 007 que a equipe havia usado até a temporada de 75. Era um bom carro, que quase levara Scheckter ao título de 74, e ainda foi um bom carro na temporada de 75. Qualquer bom piloto poderia levá-lo, pelo menos, a largar no meio do grid. Otto foi inscrito para aquele GP, mas os comissários recusaram sua entrada por entenderem que ele não tinha nada de interessante em seu currículo. Inconformado, Otto tentou um abaixo-assinado com os demais pilotos para que pudesse correr. Mas isso não aconteceu e ele ficou de fora da corrida. Seu compatriota Karl Oppitzhauser, pilotando um March 761, conseguiu treinar, mas não obteve uma marca suficiente para largar.

Dois GPs mais tarde, o nome de Otto reapareceu na lista dos pilotos que iriam disputar o GP da Itália. Desta vez, ele conseguira se inscrever e persuadiu a equipe da ÖASC a disputar as últimas corridas daquele ano. Monza é um circuito rápido e, de certa forma, simples. O piloto não tem um trabalho brutal como para correr, por exemplo, em Mônaco ou até mesmo em Nurburgring, em que a técnica conta muito. Em Monza, a velocidade é vital para o sucesso. Mesmo assim, isso não facilitou a vida de Otto. No treino classificatório, ele conseguiu ser 13s97 mais lento que a pole daquele GP, que foi de Laffite com a marca de 1min41s35 e Stuppacher, assim, não conseguiu a qualificação. Mas o melhor estava por vir. Mais tarde, Hunt e Mass pela Mclaren e Watson pela Penske foram desclassificados por irregularidades no combustível e isso abriu a chance para Merzario e Otto poderem correr o GP italiano. Mas o desafortunado do austríaco tinha voltado para a Áustria no mesmo dia, e assim não pode desfrutar desse “presente”. Em um desses casos obscuros da F1, a CSI acabou permitindo a volta de Hunt, Mass e Watson para o grid saindo das últimas três posições

A prova seguinte era o GP do Canadá e nada mudou com relação ao que tinha sido apresentado em Monza. Stuppacher conseguiu outra volta extremamente lenta, ao ficar 12s695 atrás da pole feita por Hunt com o tempo de 1min12s389. Resultado: mais uma vez fora do grid de largada. E nem o fato de Chris Amon e Harald Ertl serem retirados antes do início da corrida, após se acidentarem durante o warm up, fez com que Otto pudesse participar. Enquanto seu nome já virava piada pelo paddock e alguns sugeriam seu retorno para sua belíssima Áustria (ele estampou no bico do seu Tyrrell uma bandeira da Áustria com os dizeres “Austria is Beautiful” e daí surgiu a piada feita por um comissário “Se a Áustria é tão bonita, por que ele não volta para lá?”).

Se em Monza e em Mosport a exibição tinha sido penosa, o que dizer de sua performance em Watkins Glen, na semana seguinte? Para ser mais justo, as comparações têm que ser feitas com os seus rivais pelas derradeiras posições: os tempos marcados por Lunger (Surtees), Merzario (Wolf) e Pescarollo (Surtees) fizeram, respectivamente, 1min51s373, 2min00s932 e 2min05s211. Pois bem, são tempos extremamente altos, visto que a pole de Hunt foi feita em 1min43s622. Mas na última posição, para variar, aparece Otto e o que mais impressiona é o tempo que ele marcou: 2min11s070! Eram gritantes 27s448  mais lento que James – que ainda é recorde de diferença entre o primeiro e último colocado de um grid de largada. A CSI, como era de esperar, não autorizou a sua participação no GP.

A experiência que a ÖASC teve com Otto foi pavorosa. Um gasto danado que não surtiu em nada e talvez por isso, não tentaram nem ir para o GP do Japão. Mais tarde surgiu um fato que acabou explicando a sua lentidão durante os treinos: ele se preocupava mais em olhar os retrovisores para não atrapalhar quem viesse logo atrás. Com o seu humor ácido, Niki Lauda, então líder do mundial de 1976 e na luta contra James Hunt pelo título, lamentou a não ida de seu conterrâneo a Fuji dizendo “que Otto poderia ajudá-lo a atrapalhar Hunt na pista”.
Stuppacher desapareceu da cena automobilística ainda em 76 e só reapareceu em 2001 quando foi noticiada a sua morte em Viena, aos 54 anos.

1 comentário Adicione o seu

  1. WAGNER DE ALMEIDA disse:

    Sei não , ainda tem muito cara ruim que ainda pode engrossar esse caldo rsrsrs… Luca Badoer, Ukio Katagrama, Yuji Ide, Gastón Mazzacane, Alex Yoong, Paul Belmondo, Adrian Campos, Esteban Gutierrez… Stroll? Quem mais? Rsrsrs… Abraços.

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