Como é (na real) cobrir os testes de pré-temporada da F1

Julianne Cerasoli

Ver os carros de perto antes de todo mundo e aproveitar um clima mais relaxado no paddock. Olhando de fora, é isso o que cobrir os testes de pré-temporada parece ser. Algo que também foi vendido para mim pelo pessoal das antigas.

Imagino que, em um passado não muito distante, tenha sido assim mesmo. Hoje, o clima dos testes já não é tão aberto como já foi, e neste ano houve um controle ainda maior, agora que eles passaram para as mãos da Fórmula 1 (leia-se, Liberty Media). Tudo é mais pensado para as TVs, uma vez que elas são uma das grandes fontes de renda do esporte, e isso serve aos interesses das equipes, felizes em limitar o máximo possível o acesso.

Foi ano passado que começou uma história de “fulano não vai dar entrevista porque não há nada para dizer”. Logo agora que os fãs estão sedentos por material e a categoria ganha muito apelo para se expor – mesmo se o tal fulano só comentar o que fez nas férias. E o que era um prato cheio para entrevistas exclusivas se tornou uma sequência de coletivas superlotadas, uma vez que, como disse, a necessidade por material novo é grande e é relativamente barato viajar para Barcelona nesta época do ano.

E que tal usar o fato de já te conhecerem no paddock para ter um papo mais reservado? Os mesmos de sempre vão parar para falar com você, até porque o paddock está montado da mesma maneira (diferentemente do que acontecia no passado): quem quiser se esconder no motorhome, não tem muita dificuldade em fazê-lo.

E ver os carros? O acesso de jornalistas ao pitlane (que era uma das melhores partes do teste até o ano passado) ficou para trás, ou seja, novamente o teste ficou com mais cara de GP.  E se você quiser ver os carros na pista tem que ser um dos 50 sortudos que consegue o colete – número que era ilimitado antes. Pode parecer bastante gente mas, como os testes atraem muita cobertura pelos motivos já citados, não é suficiente.

Feitas as introduções, vou tentar levá-lo/a a um dia de cobertura de testes. Melhor, ao primeiro dia de “volta às aulas”, em que você chega cedo para não perder os lançamentos dos carros (sempre tem algum começando às 8h). Logo pula para o outro, tenta abastecer suas mídias sociais e corre para se posicionar e conseguir uma boa foto da primeira luz verde do ano.

Lá pelas 9h, a fila para pegar seu lugar na sala de imprensa ainda é grande, então o melhor é começar a trabalhar e garantir seu posto depois. Nos testes, lhe darão um adesivo para colocar no lugar que escolher, processo mais simples do que nas corridas, em que você tem de “se inscrever”.

Frankie e seu chocolate quente “suado” (Julianne Cerasoli)

No primeiro dia, não há muitas coletivas. Você tenta caminhar pelo paddock para ver se encontra alguém, mas eles estão escondidos nos motorhomes. E qualquer história vira uma avalanche, como o fato da McLaren ter proibido que pessoas que tenham estado na China nos 15 dias anteriores sequer entrasse em seu motorhome. E lá vou eu pegar um chocolate quente do patrocinador da McLaren para meu amigo chinês Frankie Mao, evitado por alguns no paddock (inclusive vocês tinham que ver a cara de Christian Horner quando ele percebeu que Mao estava ao seu lado na coletiva). Voltando ao chocolate, a McLaren não usa mais copinhos descartáveis, então primeiro pego um na Williams, e depois o chocolate na McLaren. Frankie (que é de Xangai, onde a epidemia está bem controlada, por sinal) está satisfeito com seu Husky.

Olhando em retrospecto, talvez tivesse sido recomendável para a McLaren banir os italianos também.

Faz frio nas manhãs em Barcelona, então é hora de caçar um café. Com os motorhomes mais restritos até do que nas corridas, nada de espresso na Ferrari ou cappuccino na Mercedes. O negócio mesmo é fazer fila na máquina da Red Bull, que vira e mexe fica sem grãos, tamanha a demanda. E nem é tão boa assim. Pelo menos o time, que usa o motorhome gigante que vai também para as corridas, tem algumas frutas e bolachas, que vão salvar o almoço.

Porque sim, não dá para almoçar na pista nos testes. Nenhuma equipe mais oferece e o circuito, também não. E serão 13h de trabalho no mínimo, então certo está o colega Giles Richards e sua indefectível tupperware gigante de salada.

Ficar na sala de imprensa não é uma opção: existe algo, não sei se no ar condicionado/aquecimento daquela sala em Barcelona, ou se é a tela mesmo, ou se é tudo isso e a lotação de sempre dos testes e do GP (novamente por conta dos preços mais baixos para cobertura): ninguém em sã consciência aguenta ficar muito tempo por lá. Entre o segundo e o penúltimo dias, o ritmo das entrevistas coletivas é frenético, com pilotos, chefes de equipe, diretores técnicos. No primeiro e no último, é mais uma caça por assuntos para escrever do que qualquer outra coisa. E quando o teste termina, já ao entardecer, basicamente todas as entrevistas acontecem ao mesmo tempo e você tem de fazer suas escolhas.

Claro que tem de sobrar tempo para ver carro na pista. Essa é uma prioridade nos testes, já que o comportamento dos carros mostra mais que a tabela de tempos. Gosto de ir na parte final do circuito, na freada da 10 em diante, e também na saída da 3 – para ver os carros na parte mais sinuosa e na mais rápida. É incrível como dá para perceber quando se trata de uma tentativa de buscar tempo, e quando o carro está mais pesado. Aprende-se com os dois. Até aqui, vi a Mercedes muito mais fácil de pilotar do que há 12 meses, quando Hamilton e Bottas estavam sofrendo. Vi Verstappen absurdamente regular, colocando o carro onde bem entendia. Vi uma Racing Point equilibrada até nas mãos de Stroll – que ainda segue mais reagindo do que pilotando o carro, mas pelo menos agora tem menos trabalho. E uma Williams que finalmente parece um carro de corrida. E lá na beirada da pista que você se lembra por que, por mais um ano, decidiu trabalhar 12, 13h por dia não nas melhores condições e sem acesso a todo conteúdo que queria.

5 comentários Adicione o seu

  1. rafaelprrocha disse:

    Continue esse trabalho incrível Ju! Estás de parabéns pelo empenho e dedicação.

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  2. Reginaldo disse:

    Julianne bom dia! Parabens por mais um post sensacional, onde viajamos para dentro do mundo da F1, tamanha a sua habilidade de narrar os fatos!!

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  3. Pietro disse:

    Parabéns, moça! Tenha noção de que seu trabalho é único, espero que seja bem retribuída por isso 🙂

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  4. Luis Armando disse:

    Julianne, seus textos são excelentes, são leituras prazerosas! Os seus esforços e dedicação não são em vãos. Que você e nós tenhamos uma excelente temporada. Grande Abraço e toda sorte do mundo!

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  5. Show.
    Você consegue sempre fazer excelente postagens.

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