A F1 precisa da FIA?

GP de Abu Dhabi de 2019. Eu sei, parece que tudo aconteceu décadas atrás: há um problema no sistema do DRS, que fica por algumas voltas desativado até que os servidores voltem a funcionar corretamente. Na coletiva que sempre dá após as corridas, o diretor de prova, Michael Masi, tenta explicar o que aconteceu aos jornalistas. Sentada ao lado dele, percebo que ele escolhe muito bem as palavras e, constantemente, olha além da rodinha de colegas que o cerca. Também na sala, ouvindo atentamente, estão vários homens de camisa branca e o logo da F1 no peito.

Todos eles são contratados pela Liberty Media. Masi é da FIA. Usa a camisa também branca, mas com o logo da federação, e calças azuis.

Uma das grandes dúvidas dos jornalistas era de quem é o tal sistema? Liberty ou FIA? E é justamente ao responder que o erro foi “coletivo” que ele olha sem parar para os homens do uniforme branco e calça preta.

A cena evidencia como a Liberty Media tem colocado o papel da FIA na F1 em xeque.

No início do milênio, Bernie Ecclestone comprou da FIA o direito de explorar a F1 comercialmente, por 300 milhões de dólares. Tal contrato vale até 2113 (isso mesmo!) e muito possivelmente foi o melhor negócio já feito por um homem cujo combustível sempre foi levar vantagens em negócios. Para vocês terem uma ideia, só o valor atual do contrato da Sky Sports britânica é muito superior a essa soma. 

Então foi isso que a Liberty Media comprou: o controle comercial da Fórmula 1. E o que a FIA tem? A chancela do campeonato. Seu papel é dar legitimidade ao chamar a competição de FIA Formula One Championship, ligando-o a uma federação esportiva. E é isso.

Sob o comando de Ecclestone, havia uma divisão de responsabilidades. Ao seu pessoal, da FOM, cabia cuidar das TVs, patrocinadores e calendário. À FIA, cabia gerenciar as regras e a segurança. Dentro deste cenário, à medida que o nível tecnológico foi aumentando a ponto de a FIA sempre estar um passo atrás, os times foram tomando conta do processo decisório das regras. O grupo de estratégia, por exemplo, formado nos anos 2000, era composto por engenheiros das equipes e suas simulações eram feitas pelos próprios times, ou seja, ficava difícil ter alguma mudança que, efetivamente, resolvesse problemas de competitividade. Vide 2009.

No início de 2017, a Liberty assumiu o controle. 

O choque cultural era inevitável. A FIA é estruturalmente francesa, burocrática, complicada, exageradamente política. Tudo o que passa pela federação é demorado e pouco transparente. E, com o passar dos anos, após o péssimo negócio feito com Ecclestone, passou a ser um elo fraco na governança da F1 também financeiramente, com a saída de profissionais importantes da área mais técnica, como Laurent Mekies (que foi para a Ferrari) e Marcin Budkowski (agora na Renault). E o último grande buraco na organização foi deixado por Charlie Whiting após sua morte repentina, em março de 2019.

Enquanto isso, a Liberty foi ocupando os poucos espaços que cabiam à FIA. Primeiro, vamos corrigir algo importante: eles não gostam de ser chamados de Liberty, muito menos de FOM. Eles (e é, inclusive, o que está escrito no tal uniforme) são a F1. E ponto. 

Uma das primeiras ações dos norte-americanos foi criar uma divisão técnica, chefiada por Ross Brawn. Essa divisão tem outros nomes, como Pat Symonds, Rob Smedley, entre tantos outros, e cuida dos aspectos técnicos e esportivos. Com o dinheiro que a FIA não tem, a F1 (vamos atualizando o nome!) desenvolveu seus próprios simuladores para ajudar no desenho de novas pistas, novos carros, testar ideias de novas regras esportivas. Isso tirou o poder (especialmente dos times grandes) de ditar o tom das regras, ainda que todas as equipes sigam fazendo parte do processo decisório. E a FIA? Eles também sentam à mesa, mas com muito menos instrumentos para colaborar no processo.

Reparem como foi interessante o anúncio das novas regras, com Todt completamente deslocado (e claramente morrendo de sono):

Ao longo dos últimos anos, e não por acaso, a FIA vem tentando se promover no campo da segurança e, de fato, tem um departamento forte nesse sentido, de prevenção e estudo de acidentes de todas as modalidades de esporte a motor. Mas, na F1, até nisso eles ganharam uma companhia, com a empresa privada Formula Medicine, sob as garras da Liberty, ampliando seu papel. São eles, inclusive, que vão prover os testes de coronavírus que serão feitos pelo menos nas primeiras etapas com todos os envolvidos.

Voltando ao caso lá de Abu Dhabi, o nervosismo de Masi para não falar algo comprometedor tinha uma explicação: a FIA (ainda) comanda o sistema de DRS, mas depende dos dados enviados pelas câmeras onboard (e quando eu falo dados, não quero dizer apenas as imagens, pois o sistema envolve tudo, de cronometragem ao que vemos na transmissão, por exemplo, velocidade, marcha, degradação de pneus). E este sistema é controlado pela F1, ou seja, é mais um item em que a FIA depende da Liberty.

Então, se toda a parte técnica e esportiva, e cada vez mais a parte médica também, estão nas mãos da Liberty/F1, o que sobra para a FIA? Na prática, só o nome do campeonato mesmo. E não surpreenderia ninguém se as três letrinhas iniciais sumissem a médio prazo. É só a Liberty apertar o gatilho.

3 comentários Adicione o seu

  1. Paulo Moreira disse:

    Pois é. A FIA cada vez esta mais posta de lado e por culpa própria.
    Respondendo à sua pergunta. Eu acho que a F1 não precisa da FIA. Mas a FIA precisa da F1.

    Cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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  2. Taris Henrique disse:

    Belo post Ju…

    Nessa história toda quem ganhou mesmo foi a galera que recebeu os 300 milhões do Tio B..

    Mas a parte política da FIA enterrou ela mesma nos últimos anos. Max Mosley só servia para brincar de político com o Bernie. O Bernie também só utiliza a a FIA para política, quando ele queria forçar as equipes a algo apelava para a FIA. Mas quando as equipes davam uma moralzinha para ele, colocava a FIA. Exemplo desse atraso na dupla FIA/Bernie eh que o conteúdo digital da F1 só alavancou com a Liberty, antes disso era um limbo numa categoria do mais alto nível tecnológico no mundo.

    Também entendo que a tendência da FIA seja se envolver em outras categorias da Europa e se regionalizar. Talvez entrar de vez na Fórmula E, ou seria até uma boa assumirem o DTM e tentar dar alguma vida para o campeonato.

    Outra batalha feia perdida pela FIA foi no WTCC. Que depois da FIA querer insistir em não aderir ao regulamento do TCR viu o campeonato desmantelado e teve que virar o WTCR, que no fim das contas a FIA também só entra com o nome.

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  3. Leandro Lima disse:

    Excelente matéria. Que ótima visão que nos passou, através de uma matéria. Parabéns!!!

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