Por dentro da F1: A Anatomia de um Acidente

O halo é o aparato de segurança mais óbvio aos olhos, mas é impressionante o que se tem feito sem tanto estardalhaço para diminuir ao máximo as consequências de acidentes na F-1. E, nesse quesito, a analogia feita pelo Presidente da Comissão Médica da FIA, Dr. Gerard Saillant – aquele mesmo que operou Ronaldo Fenômeno e que mais recentemente cuidou da recuperação de Neymar antes da Copa de 2018 – é perfeita: toda a evolução feita depois da morte de Senna seria o mesmo que um velocista baixar seu tempo de 12s para 10.5s para 100m rasos, algo que não é difícil de fazer. Agora, o desafio e chegar abaixo de 10s. E aí o buraco é mais embaixo.

Hoje em dia, os cockpits podem suportar impactos equivalentes a 250 toneladas, passando por testes de colisão cada vez mais exigentes, inclusive nas laterais, que absorvem colisões frontais de mais de 200km/h. Já o piloto usa luvas biométricas e acelerômetros que registram impacto e informações médicas, e têm câmeras de alta velocidade apontadas para sua cabeça para mostrar o movimento exato do pescoço. E agora está sendo desenvolvido um novo dispositivo, que entrou em fase de testes no GP do Brasil do ano passado, e usa uma câmera colocada no carro médico e informações de satélite para tornar mais rápida a comunicação entre a direção de prova e a equipe médica para economizar aqueles 10 a 20s que poderiam ser cruciais para salvar uma vida.

Falando nestes dispositivos de segurança que vão além do halo, a imitação de chinelo não foi a única que enfrentou resistência inicial dos pilotos ano passado. Usadas desde o início de 2018 de forma optativa e obrigatórias a partir desta temporada, as luvas biométricas (luvas que têm um sensor de 3mm no dedo para medir os sinais vitais, foram recebidas sob desconfiança.

Os pilotos primeiro reclamavam que a sensação ao volante não era a mesma com a nova luva, mas logo se acostumaram, como contou o Dr. Ian Roberts, aquele que fica no carro médico nos GPs. “Recebemos uma reclamação de que uma equipe não tinha as luvas, mas, quando verificamos, os pilotos já as estavam usando e não sabiam!”

Mas as desconfianças não pararam por aí. Os pilotos queriam saber quem teria acesso a seus dados físicos. Temiam que os rivais o vissem e que detalhes como seu batimento cardíaco fossem divulgados à imprensa. E só ficaram mais tranquilos quando souberam que os dados sequer seriam guardados, o que acontece apenas após um acidente, ou seja, quando eles passam de pilotos a pacientes.

Se bem que, pensando bem, seria bem bacana ter os batimentos cardíacos nos gráficos de uma corrida dentro de uma luta por posição, por exemplo. Quem viu Senna correndo sabe do que estou falando!

Voltando à realidade atual, no final das contas apenas duas equipes se recusaram a usar as luvas (e Dr. Roberts não quis revelar quais), mas não terão escapatória em 2019.

Os dados das luvas são usados ​​em conjunto com as câmeras de alta velocidade instaladas em 2016. Como elas são apontadas para o piloto, é possível ver como a cabeça se move e qual é o impacto nos encostos de cabeça. “Em alguns acidentes, a câmera mostrou um movimento na própria viseira devido às diferentes forças envolvidas”, disse Dr. Roberts. Um desses acidentes foi o de Fernando Alonso em Melbourne, logo na estreia dessa câmera. Mais recentemente, outro acidente em que a viseira abriu foi o de Marcus Ericsson, em Monza.

Esses dados jamais seriam obtidos sem essa câmera e se unem a outro dispositivo, este extremamente importante do ponto de vista médico: o acelerômetro, colocado nos auriculares dos pilotos e que mede as forças que pressionam ambos os lados da cabeça. Desde sua introdução, ele tem mostrado como essas pressões variam de um lado para o outro, indicando que houve rotação da cabeça. E, como esse é um cenário muito mais preocupante para os médicos em termos de lesões cerebrais, é importantíssimo ter essa informação antes de iniciar o tratamento.

Falando em informação, o foco mais recente da FIA é melhorar a comunicação entre o carro médico e a direção de prova. Usando dados de satélite e o feed de vídeo do carro médico, um novo dispositivo, que ainda está em fase de testes, fornece dados imediatos sobre o acidente, como a velocidade do carro no momento do impacto. Esta informação estava disponível antes, mas o dispositivo automático torna todo o processo mais rápido. “Isso permite que a direção de prova entenda imediatamente o que está acontecendo no local do acidente para que os recursos possam ser mobilizados mais cedo, o centro médico fique em modo de espera por um motivo específico e permite que tudo seja executado de forma mais rápida e confiável em termos de informações”, explica Dr. Roberts. Mais um dispositivo “invisível” que pode ajudar a salvar uma vida.

5 comentários Adicione o seu

  1. Thiago Silveira disse:

    Linda matéria Ju!

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  2. Dennis disse:

    Segurança é importante e tal. Mas esses carros com o halo jamais serão bonitos.

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  3. Ricardo Talarico disse:

    Parabéns Julianne.
    Matéria excelente.

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  4. Alexandre Ramacciotti disse:

    Sempre nos surpreendendo.
    Parabéns.

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