Estratégia do GP da Rússia e o problema duplo de Hamilton

FIA Pool

 

A tarde de Lewis Hamilton já seria complicada de qualquer maneira depois do drama que ele viveu para passar do Q2 no sábado na Rússia, em parte por um erro na primeira tentativa, e tendo também contado com o azar de estar a duas curvas de completar sua volta quando a sessão foi interrompida pela batida de Sebastian Vettel. O resultado disso seria largar com o pneu macio, que se desgastaria mais rapidamente que o composto médio de seus rivais diretos Max Verstappen, segundo no grid, e Valtteri Bottas, terceiro.

O único jeito de conseguir a vitória seria manter a ponta na largada. Comandando da ponta, ele poderia tentar ditar um ritmo mais lento para preservar ao máximo seus pneus e torcer para que, estando no ar turbulento, Verstappen e Bottas acabassem com sua borracha e, assim, não pudessem apertar o ritmo assim que ele parasse.

Para isso, largar bem seria fundamental, e Hamilton estava totalmente focado nisso. A posição do pole em Sochi é sabidamente exposta a ataques, já que a primeira freada é só na curva 2, 890m depois da primeira posição do grid. E o ataque geralmente vem do terceiro colocado, já que é muito sujo do lado par para que o segundo tracione bem. Como o terceiro era justamente Bottas, a vida da Hamilton estava mesmo complicada.

Ele, então, queria se certificar de que faria os ensaios de largada mais representativos possíveis, e não o fez onde todos os outros estavam fazendo, justamente porque sabia que, ali, havia muito mais borracha depositada no asfalto (gerando muito mais aderência) do que na sua posição do grid. Ele foi, então, um pouco mais à frente. Pelo que Andrew Shovlin, diretor de engenharia de pista da Mercedes disse, ele fez isso sem perguntar à equipe, contrariando a versão que a FIA usou para tirar os pontos da sua “CNH”.

“Não vimos a primeira. Quando vimos a segunda, achamos que os comissários poderiam não gostar, mas não achamos perigoso porque ele estava no canto da pista. Achamos que seria ambíguo o bastante para só levarmos uma bronca. Mas não foi uma surpresa para nós que eles não tenham gostado.”

Os comissários julgaram que ele tinha ganhado uma vantagem esportiva ao ensaiar a largada ali, o que, de fato, aconteceu: ele sabia que fugir da borracha dos outros o ajudaria a configurar melhor sua embreagem. E o fato de ele ter largado muito bem e mantido a ponta só corrobora com a decisão dos comissários, ainda que a pena em si tenha sido dura.

Aliás, tudo leva a crer que a decisão inicial era de dar 5s para cada infração e DOIS pontos também para cada, o que levaria Hamilton e ser suspenso em Nurburgring. Pelo menos foi isso que um dos comissários, Mika Salo, vazou para a mídia finlandesa (antes que queiram fazer escândalo em cima disso, é beeem mais normal do que deveria e a FIA sabe que acontece e faz vista grossa). Por mais que dê para entender por que Hamilton foi punido, levar quatro pontos por buscar levar vantagem na largada (que foi, efetivamente, o motivo pelo qual ele recebeu a pena) seria muito, mas muito difícil de justificar. 

Tanto, que depois de muitas críticas de absolutamente todos os pilotos que foram questionados sobre isso (como mostrei acima, a desculpa de que foi instrução da equipe não cola), os pontos foram retirados.

É dada a largada

Só então, a corrida começou. Bottas, como esperado, se livrou rapidamente de Verstappen, e não deixou Hamilton ditar um ritmo tranquilo para ele. O inglês estava em uma posição bem incômoda, já que sabia que tinha que forçar para abrir os 10s que perderia com a punição, mas não tinha pneus para isso.

Hamilton reclamou ainda do que entendeu ser uma parada antecipada. Ele contou que o plano inicial era parar na volta 16, então contando as cinco voltas do Safety Car, imaginava que iria até a 21. O piloto achava que poderia fazer “mais umas cinco voltas”, mas a Mercedes o chamou na volta 16 porque especialmente seu traseiro esquerdo tinha pouca borracha sobrando. Na pista de Sochi, pela natureza do asfalto liso e das curvas de média, os pilotos não conseguem sentir tão bem quando um pneu está a ponto de acabar, porque os níveis de aderência se mantêm mais ou menos estáveis até caírem de uma hora para a outra e, no cálculo da Mercedes, isso aconteceria com Hamilton em uma ou duas voltas.

Mas será que ele poderia ter ganho não fosse a punição? É provável que sim, por dois fatores: o Safety Car longo no começo e o fato de o pneu duro ter rendido melhor do que era esperado, algo que ficou claro logo de cara devido ao ritmo de Daniil Kvyat, que apostou largar com o composto C3. Esse rendimento teve a ver com a temperatura mais alta da pista, em um dia sem nuvens em Sochi, ao contrário de quando as últimas simulações tinham sido feitas no sábado pela manhã.

Bottas até pôde deixar Hamilton escapar 2s na ponta no primeiro stint porque sabia que ele estava fora da briga, e assim conseguiu cuidar de seus pneus e acelerar quando ele parou. Dificilmente seus pneus estariam em condições tão boas se tivesse seguido o inglês de perto. Mas é lógico que isso é apenas uma suposição. 

Com Hamilton fora de combate devido à punição, e Max Verstappen sem ritmo para acompanhar especialmente com o pneu médio (com o qual sofreu por falta de aderência), e um pouco menos com o duro, Bottas venceu pela segunda vez no ano. E o fato de Verstappen ter voltado de sua parada 6s à frente de Hamilton e ter terminado 15s, em que pese o fato de os pneus do inglês terem 9 voltas a mais, também indica que Lewis pôde economizar seu motor na corrida e nem tentou buscar o segundo posto.

(Dan Mullan/Getty Images/FIA Pool)

Duas corridas no meio do pelotão

O incidente na largada jogou Norris e Albon para o fundo do pelotão, em uma briga que durou a corrida toda, mesmo que a Red Bull tivesse, em teoria, um ritmo melhor. Sabendo disso e lutando pela última posição nos pontos, a McLaren decidiu arriscar deixar Norris na pista até o final para ver se seria possível fazer só uma parada, mas quando Pierre Gasly foi para o box para uma segunda troca com 11 voltas para o final, voltou atrás dos dois e os passou com facilidade, tamanha a vantagem dos pneus, o time teve de chamá-lo ao box e a terceira colocada no mundial acabou zerada na Rússia.

Mais à frente, aconteceu o que se previa em relação aos últimos pilotos do top 10 no grid: com os pneus macios, eles ficaram expostos a quem vinha atrás. Charles Leclerc se viu em oitavo ao final da primeira volta, ganhou a posição de Gasly justamente porque pôde estender seu primeiro stint, e também de Esteban Ocon, que relatou ter perdido totalmente a confiança no carro com os pneus duros (caiu de quarto para sétimo) na segunda parte da prova, e terminou em sexto. 

Na outra Ferrari, mais uma vez Vettel foi para a coletiva segurando um papel, como fez na Inglaterra quando sentiu que sua estratégia não tinha sido das melhores. A impressão foi de que ele foi deixado na pista com pneus já muito desgastados para segurar Ocon e ajudar na estratégia de Leclerc. Algo triste de ver para um tetracampeão, mas que faz sentido do ponto de vista da equipe, já que o ritmo de Vettel não o ajuda: eles largaram, com o mesmo composto médio, em 10º e 14º e na volta 28, quando Leclerc parou (dois giros antes de Seb), ele era terceiro e o alemão, nono, e o monegasco era mais de 0s5 por volta mais rápido.

Outra estratégia de destaque foi a de Kvyat, levando os duros até a 30ª volta com um bom ritmo para pular de 11º no grid para oitavo na corrida. Perez, quarto, e Ricciardo, quinto, tiveram ritmo bom o suficiente para ficarem à frente destes pilotos que adotaram estratégias melhores, e esquentaram ainda mais a briga pelo terceiro lugar no mundial: a McLaren tem 106, a Racing Point, 104 e a Renault 99 pontos. E, sim, a Ferrari é sexta e está descolada deste grupo, com 74.

9 comentários Adicione o seu

  1. Paulo Salles disse:

    Menina, que luz que vc jogou sobre este GP num texto brilhante!!!!
    Luz…brilhante… ; – )
    Parabéns pelo trabalho, pelas pesquisas e pelas fontes!!!
    Então o Lewis poderá ser chamado de : MIGUÉ HAMILTON

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  2. Mauricio Gangi disse:

    O Hamilton é muito bom gerenciando pneus, ainda mais liderando e tendo ar limpo. Creio que sem a punição, mesmo que ele tivesse feito a parada algumas voltas antes do Bottas, teria muita chance de vitória.

    Curtido por 1 pessoa

  3. cmterio disse:

    Ótima resenha, sem duvidas uma das mais esclarecedoras que eu vi no final de semana em respeito a corrida! Essa punição ao Hamilton foi bem complicada, em primeiro momento não entendi o pq a FIA ter punido o Hamilton por “vantagem” mas depois que li seu texto me clarificou bastante.

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  4. Mais um ótimo post.
    Ainda não tinha lido uma explicação tão completa da punição do Hamilton.

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  5. GABRIEL R V CRUZ disse:

    juh, uma punição foi por largar no final da saída dos boxes, certo. mas qual a outra? a primeira tentativa de largada ele largou no lugar delimitado, deu pra ver no vídeo. não entendi isso.

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    1. Foram dois ensaios de largada no mesmo lugar. A qual vídeo você se refere?

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    2. Bslnew disse:

      O ensaio de largada foram em dois pontos diferentes da pista. O primeiro na saída dos boxes, e o segundo? Onde foi?

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      1. Dá uma olhada no meu insta por favor, @myf1life. Lá tem o indicado o único lugar em que ele poderia fazer. Os dois foram pra frente disso.

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  6. Observador disse:

    Ju, o Vettel pode está sendo sabotado pela Ferrari exemplo andando com um carro desatualizado ?

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