Ativismo e a eterna cobrança sobre Lewis Hamilton (e o negro)

22 anos, natural de Aracaju-SE, negro, recém-formado em jornalismo e apaixonado por automobilismo. É assim que Eduardo Costa se apresentou para mostrar seu texto, que vem quase de mãos dadas com o vídeo do Felipe. Representatividade é um troço poderoso, ainda que alguns tentem relativizar todo e qualquer avanço.

Quinta-feira, 5 de novembro de 2020. A notícia que cada vez mais circulava pelos veículos enfim se tornou oficial: a Fórmula 1 confirmou a entrada do Grande Prêmio da Arábia Saudita em 2021. A prova já estava incluída no calendário provisório da categoria, mas ali foi fechada de vez. O GP noturno será em Jeddah, no litoral do Mar Vermelho.

Assim que saiu o anúncio, vieram vários questionamentos. O reino comandado por Mohamed bin Salman desde 2015 tenta passar para o mundo uma imagem de moderno. Internamente, a realidade é de perseguições a ativistas ou críticos do regime. Desaparecimentos e mortes de jornalistas denunciantes de violações também são registrados.

Isso sem contar a questão de gênero: relatório do Fórum Econômico Mundial em 2016 mostra que a Arábia Saudita tem a quarta maior desigualdade de gênero entre 144 países analisados. O regime considera ateísmo, feminismo e homossexualidade como atos de extremismo.

Diante disso tudo, em meio até mesmo a manifestações da Anistia Internacional alertando a Fórmula 1 sobre o uso de um GP como “cortina de fumaça” para o governo saudita, Lewis Hamilton foi questionado sobre o assunto. O heptacampeão mundial se tornou um grande ativista na luta antirracista nesta temporada 2020, e muitos esperavam um posicionamento enfático sobre o novo assunto. Mas além de dizer que não sabia “exatamente qual é o problema”, ainda respondeu:

“O movimento Black Lives Matter me motivou muito. Precisamos usar essa plataforma incrível que temos. Nós vamos para todos esses países onde isso é um problema… não há necessidade de isolar esses lugares. Precisamos entender como podemos interagir mais, usar esta plataforma para encorajar e promover mudança”.

A manifestação de Hamilton gerou repercussão automática, em especial nas redes sociais. E não foram poucos os comentários de pessoas deslegitimando a luta antirracista do inglês. Frases como “quando envolve dinheiro ele muda o discurso”, “só inocente se engana com Hamilton”, “ele só quer lacrar e lucrar”, “todo esse ativismo é marketing” e tantos outros pensamentos enlatados foram jogados ao vento.

E isso leva a uma reflexão importante e extremamente necessária, que vai muito além do automobilismo: por que Lewis Hamilton, único piloto negro da extremamente elitista Fórmula 1 e militante antirracista, tem que ser questionado e falar sobre tudo?

Em 2020, Hamilton foi quem encabeçou protestos na Fórmula 1 diante do movimento Black Lives Matter, que ganhou o mundo. Ele se ajoelhou antes das corridas, mostrou camisas de protesto até mesmo no pódio e cobrou mais organização da F1 sobre o assunto. A atitude conscientizou vários pilotos que deram apoio ao heptacampeão.

No grid, 14 dos 20 pilotos costumavam se ajoelhar em favor ao movimento antes das provas. Nomes como Sebastian Vettel, Romain Grosjean, Daniel Ricciardo e Sergio Pérez também se manifestaram publicamente ao longo desse tempo.

Em se tratando da Arábia Saudita, os crimes contra a humanidade cometidos pelo país deveriam, em teoria, assustar e conscientizar a todos os pilotos, além da raça. A questão é: por que os outros pilotos (como alguns dos citados) não são questionados sobre isso? Por que suas opiniões não rendem tanta repercussão? Por que a fala de Hamilton, o único negro, é a única que vira manchete e gera críticas?

A cobrança vai além de uma simples questão, e atinge qualquer posicionamento. Podemos lembrar que Hamilton, por exemplo, é um forte ativista do meio ambiente, tanto quanto na causa racial.

Ele se tornou vegano; abriu em 2019 a “Neat Burger”, rede de hambúrgueres feitos a base de vegetais; participou do documentário “The Game Changers”, falando sobre o impacto positivo de uma dieta à base de plantas no esporte; e é uma voz ativa contra a poluição, o desmatamento e a emissão de carbono, até mesmo na Fórmula 1.

O que obviamente gera críticas por “incoerência”. O motivo é óbvio: Lewis Hamilton é heptacampeão mundial da Fórmula 1. E a indústria automobilística, em especial no esporte, não tem como uma grande bandeira o cuidado com o meio ambiente. Por isso, não é incomum ler que o desejo de mudança expresso por ele nada mais é do que “marketing” ou “lacre”.

E claro, isso respinga na luta antirracista. Hamilton entrou na F1 em 2007, sendo o primeiro piloto negro nos 57 anos (!!) da categoria. Na época, ele não costumava se manifestar sobre tal questão. Na verdade, passou muitos anos alheio ao assunto. E já afirmou abertamente que se arrepende de tal fato.

Tal problemática envolve algo que nem todos estão dispostos a entender: o racismo que mata é o mesmo que silencia. E dependendo do meio, é ainda pior. Em um esporte como o automobilismo, altamente elitista e, consequentemente, branco, tal posição costuma ser silenciada. Tanto que Hamilton foi o primeiro negro da F1. Hoje é o único do grid. É impossível imaginar quantas vezes ele já foi silenciado.

E com mais movimentos da causa antirracista ganhando espaço, é natural que mais pessoas se engajem e comecem a entender o tema. E com isso, revejam posicionamentos e questionem mais o problema. Ou seja: o argumento de “ele nunca defendeu isso e agora fala porque está na moda” é infundado.

As pessoas aprendem com o passar do tempo, e se sentem mais aptas para falar. É assim com qualquer causa: se uma mulher que sofre assédio denuncia o fato, outras se sentem mais encorajadas; se uma pessoa do grupo LGBTQIA+ é agredida e registra queixa, outras veem que podem fazer o mesmo. Representatividade é tudo.

As manifestações, ao mesmo tempo que fecham portas, também podem abrir mentes. Quantas crianças negras pelo mundo não veem as mensagens e a representatividade de Hamilton e desejam ser como ele? Quantos garotos e garotas não se inspiram no que ele faz para seguir em frente e abraçar a causa?

(Nota pessoal: não só crianças. Este que vos fala, negro, passou a ver a F1 de outra forma com os posicionamentos de Lewis Hamilton)

Mas não apenas na Fórmula 1, como também na sociedade, o negro sempre será questionado. A dúvida, o olhar torto, a crítica, a insinuação negativa sempre (ou quase sempre) será pautada nele. E se o negro ainda é abertamente ativista e questiona os problemas da sociedade, pior ainda.

Lewis Hamilton sabe disso. Mas está disposto a enfrentar de frente. Ao UOL Esporte em 2019, ele afirmou:

“Faço o que eu faço porque amo, mas também porque acho que isso pode criar uma plataforma para eu gerar mudança. Não vou mandar nas pessoas, mas há coisas que eu estou descobrindo, porque agora estou pesquisando mais, e é chato para mim não ter aprendido tudo isso antes. Agora quero usar minha plataforma para destacar essas áreas”.

Lewis Hamilton

O heptacampeão entendeu sua responsabilidade, sua importância e sua voz no mundo. Também por isso caminha rumo a ser o maior piloto da história. Além de gênio dentro das pistas, um desbravador fora delas. Com certeza, os posicionamentos de Lewis Hamilton estão fazendo a categoria e o público repensarem muitas coisas. Temas que jamais ganharam voz no automobilismo estão ganhando espaço por conta dele.

Obviamente, o posicionamento e a representatividade trazem o lado negativo da desconfiança e do questionamento com o negro. Uma parte do público simplesmente prefere não questionar.

Se o negro opina sobre racismo, irão questionar por que nunca opinou antes. Se ele não fala sobre um caso de racismo específico, irão questionar por que não comentou. Se ele se manifesta sobre uma causa B, irão questionar por que não falou nada sobre a causa C. Se ele prefere não se manifestar porque não conhece o suficiente, irão questionar o silenciamento. Isso já aconteceu com outro piloto na história?

Com certeza vários outros pilotos têm a acrescentar nos debates, e deveriam abraçar várias causas de forma mais firme. Mas por que apenas Lewis Hamilton vira manchete? A resposta é clara – ou nesse caso, “escura”.

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