Os pontos que deram o 3º lugar para a McLaren

(McLaren)

Uma combinação entre um tema muito bem delimitado e interessante, e uma análise baseada em dados: a  Denise Vilche (@DeniseVilche) abre essa última semana do Blog Takeover mostrando como a McLaren terminou em terceiro mesmo sem ter o terceiro melhor carro em 2020.

O box da McLaren vibrou como se tivesse acabado de vencer o campeonato quando Lando Norris cruzou a linha de chegada em 5º, em Abu Dhabi, com seu companheiro de equipe, Carlos Sainz, logo atrás. O terceiro lugar no Mundial de Construtores é considerado uma vitória para a equipe inglesa e mostra a sua evolução nos últimos anos.

O sucesso da McLaren começou com a reestruturação que trouxe Andreas Seidl para o comando do time. Sob a liderança descontraída de Zak Brown, a equipe se desfez das amarras do passado e criou um ambiente mais prazeroso de se trabalhar. Juntou-se a eles uma dupla de pilotos entrosada, cuja amizade passou das pistas para a vida real. Assim foi formada a receita do sucesso.

Há quem acredite que o terceiro lugar da equipe não é merecido, já que a Racing Point foi punida e perdeu preciosos 15 pontos na tabela, que selaram o desfecho do campeonato. Contudo, o segredo do terceiro lugar da McLaren não reside nos quinze pontos perdidos pela rival, mas sim em um conjunto de fatores.

Mudança de direção

Até 2009, a equipe era regida por Ron Dennis. Conhecido por ser linha dura, os últimos anos de seu mandato foram marcados por escândalos de espionagem e a conturbada relação de Fernando Alonso com o time. O substituto de Dennis seria Martin Whitmarsh, que comandou o time de Woking entre 2009 e 2013. Apesar de sempre figurar entre as três primeiras no começo de sua gestão, logo os resultados começaram a piorar e ele foi substituído por Éric Boullier, que liderou a equipe nos anos em que a Honda foi a fornecedora de motores. Os resultados foram de mal a pior, com a equipe amargando a penúltima posição no campeonato em 2015 e 2017. Para complicar a situação, foi divulgado que os funcionários que batiam a meta dentro do prazo, mesmo trabalhando dia e noite para isso, ganhavam um chocolate que custava centavos como bônus de agradecimento. A insatisfação dos componentes da equipe se refletia no mau desempenho da equipe na pista.

Com a volta dos motores Renault, a McLaren passou por uma mudança de gestão, com Zak Brown entrando para comandar a equipe. Com seu jeito descontraído e sua paixão por automobilismo, Brown, junto com o brasileiro Gil de Ferran, transformou a McLaren ao trazer o alemão Andreas Seidl para ser o chefe de equipe em 2019. Juntos, eles mudaram o astral dentro da garagem e os resultados começaram a surgir, com a McLaren conquistando o quarto lugar no campeonato de Construtores em 2019, com direito a um pódio de Sainz, no GP do Brasil. 

Carlando

Junto com a mudança no gerenciamento da equipe, vieram dois novos pilotos, Carlos Sainz e Lando Norris. A dupla, apelidada pelos fãs de Carlando, mostrou logo de cara uma afinidade incomum para a categoria. Amigos também fora das pistas, Carlos foi uma espécie de irmão mais velho para o caçula entre os pilotos, Lando, que fez sua estreia na F1 em 2019 aos 19 anos. Sem rivalidade, os dois pilotos se uniram para tirar proveito dos dados um do outro. Essa colaboração entre os dois, dentro e fora das pistas, ajudou a equipe a crescer. 

E o bom relacionamento dos pilotos com o time também ajudou a criar um clima mais familiar. Não é raro ver Lando ajudando os mecânicos e desmontar o carro após as corridas e quanto ao chocolate de agradecimento, neste ano veio estilizado em formato do troféu da Áustria, acompanhado de um cartão de agradecimento, oferecido por Lando Norris. No ano anterior, os dois pilotos já tinham presenteado todos os funcionários da McLaren com uma garrafa personalizada com o logo do piloto inglês junto ao nome de todos os funcionários e um chaveiro com o número do carro do espanhol.

Last Lap Lando

Logo na primeira corrida, na Áustria, Lando Norris estava em quarto na corrida e precisava diminuir os cinco segundos de diferença para Hamilton, punido com o acréscimo desse tempo. Bater uma Mercedes parecia impossível, mas nesse momento nascia a lenda do Last Lap Lando, já que o piloto inglês fez uma última volta voadora e chegou a 4,8s do contemporâneo, conseguindo assim seu primeiro pódio na F1 e ainda de quebra, a volta mais rápida, somando 4 pontos além do esperado. A McLaren ainda lucraria com o 5° lugar de Sainz. O resultado conjunto lhe rendeu 26 pontos logo de cara, ficando apenas atrás da Mercedes na tabela. A equipe apenas perdeu a segunda posição no campeonato na terceira corrida, quando foi ultrapassada pela Red Bull.

Em comparação com a Racing Point, a McLaren começou a temporada de 2020 com desempenho melhor, ajudada ainda por mais uma volta mais rápida, cortesia de Carlos Sainz na Estíria. Nessa corrida também entrou em ação o Last Lap Lando, que saiu do 8° para o 5° lugar ao ultrapassar Ricciardo e os dois pilotos da Racing Point nas duas últimas voltas. Em uma temporada acirrada para o pelotão intermediário, cada ponto pode fazer a diferença no final. 

Analisando os dados das primeiras quatro corridas da temporada, antes do anúncio da punição da Racing Point, a McLaren tinha 51 pontos no campeonato, contra 42 da Racing Point. Uma diferença de nove pontos que se mostraria importante no final da temporada.

CORRIDAMCLARENRACING POINT
Áustria268
Estíria1314
Hungria218
Grã-Bretanha102
Total de pontos5142

Total de pontos obtidos pelas duas equipes nas quatro primeiras corridas do campeonato.

Carreras son carreras

Como já dizia o pentacampeão Juan Manuel Fangio, “carreras son carreras”. E nesse quesito, a McLaren conseguiu se desenvolver um pouco melhor do que a Racing Point, principalmente se levarmos em conta o ano de 2019. 

Comparando todas as corridas em que os pilotos das duas equipes cruzaram a linha de chegada, a McLaren foi a que teve o melhor aproveitamento, levando em consideração chegar ao final da corrida em posição igual ou superior ao da largada. Das 17 corridas em que Sainz cruzou a linha de chegada em 2019, ele terminou a corrida em posição igual ou superior ao da largada em 12 delas, com uma média de 70,58% de aproveitamento. Em 2020, Sainz continuou com um bom ritmo e das 14 vezes que viu a bandeirada, em 11 delas ele foi igual ou melhor que sua posição inicial, com 78,57% de média, mostrando uma leve melhora em relação ao ano anterior.

Mas a maior evolução viria do carro número 4. Fazendo sua temporada de estreia, Lando Norris pecou pela  inconsistência. Depois de 6 abandonos, o inglês só viu a bandeirada em 15 das corridas disputadas, terminando apenas 6 delas em posição igual ou superior ao da largada, uma média de 40%. 

Nas férias de inverno, Lando passou a trabalhar com seus engenheiros para corrigir seus erros. As horas de estudo deram certo. Das 16 corridas completadas em 2020, o inglês aumentou essa média para 68,75%, conseguindo igualar ou melhorar sua posição final em 11 corridas, mostrando toda a evolução do piloto inglês. 

Já em termos de pontos, Sainz passou de 96 pontos em 2019, para 105 em 2020. Já Norris passou de 49 para 97, quase o dobro de pontos de um ano para o outro. 

PILOTOCORRIDAS TERMINADAS(2019/2020)CHEGADA = OU SUPERIOR(2019/2020)PORCENTAGEM (2019/2020)  PONTOS(2019/2020)
Carlos Sainz17 / 1412 / 1170,58 / 78,5796 / 105
Lando Norris15 / 166 / 1140 / 68,7549 / 97
Sergio Pérez19 / 1316 / 984,21 / 69,2352 / 125
Lance Stroll18 / 1115 / 783,33 / 63,6321 / 75

Comparação entre o rendimento dos pilotos ao terminar a corrida em posição igual ou superior ao da largada, levando em consideração apenas corridas completadas.

Já os pilotos da Racing Point tiveram uma leve piora em relação a 2019, com a média caindo devido ao baixo número de corridas terminadas, apesar de terem mais do que dobrado o número de pontos em relação ao ano passado.

Em termos de corridas sem pontuar, as duas equipes se equiparam. Enquanto a RP teve oito abandonos durante a temporada de 2020, a equipe papaya teve apenas quatro. Em 17 corridas, os pilotos da McLaren só ficaram de fora da zona de pontuação em cinco corridas, nove se somados os abandonos. Já na Racing Point, que também foi prejudicada quando seus dois pilotos contraíram o vírus do Covid, só ficou uma vez de fora dos pontos, mas somando os oito abandonos, também se iguala com nove. 

A maior diferença está na posição final de seus pilotos. Apesar da Racing Point ter uma vitória, a McLaren conseguiu mais 5°lugares.

POSIÇÃOMCLARENRACING POINT
01
11
12
34
72
44
24
21
33
10°23

Número de vezes em que os pilotos das duas equipes terminaram a corrida entre os 10 primeiros. 

Com as duas equipes equiparadas, o final da temporada de 2020 seria decisivo.

Recuperação da Racing Point

Já punida com a perda de 15 pontos, a Racing Point começou a ter resultados melhores, inclusive com um pódio de Stroll na Itália. Do outro lado, na garagem laranja, o rendimento começou a cair com as atualizações feitas no carro. Em um raro bom momento no GP da Itália, Carlos conseguiu o segundo pódio da equipe na temporada e por muito pouco, não saiu de Monza com a vitória, com Lando chegando em 4°. 

O baixo desempenho da McLaren foi a oportunidade perfeita para a Racing Point, que foi mais constante nos pontos, se recuperar e encerrar essa segunda fase igualada na tabela, ambas indo para a Turquia com 134 pontos. Naquele momento, quem se recuperou melhor foi a Renault, que superou as duas e assumiu o terceiro lugar no campeonato, com apenas um ponto de vantagem.

CORRIDAMCLARENRACING POINT
70 Anos214
Espanha922
Bélgica63
Itália3016
Toscana810
Rússia012
Eifel1016
Portugal86
Emilia Romagna108
Total de pontos83107

Total de pontos obtidos pelas duas equipes nas nove corridas do meio do campeonato.

(McLaren)

Smooth Operation

Empatadas, as últimas quatro corridas da temporada seriam o momento da decisão. No GP da Turquia, o bom ritmo de corrida mostrado pelos pilotos da McLaren também renderam bons resultados, um deles até inesperado. Enquanto Sainz estava tranquilo no 5° lugar, Lando voltou em 11º, após fazer sua parada. Vinte e cinco segundos atrás de Ricciardo, chegar na zona de pontuação parecia impossível, ainda mais com a maioria dos pilotos reclamando do desgaste dos pneus na recém asfaltada pista turca. Mas o dono do carro número 4 não só conseguiu tirar toda essa diferença, mas também tirou os 15 segundos que o separaram de Stroll, terminando a corrida em 8º e levando mais uma vez a volta mais rápida da corrida. Só nessa corrida foram cinco pontos a mais que pareciam perdidos. Apesar do bom resultado, a Racing Point se saiu melhor, conseguindo o 2° lugar com Pérez, superando o time laranja e assumindo o terceiro lugar entre os construtores.

A McLaren se recuperou no Bahrein e marcou 22 pontos contra nenhum da RP, que sofreu com o abandono de seus dois pilotos. No Sakhir, foi a vez da Racing Point dar o troco e conseguir dois pódios, com o 3° lugar de Stroll e a vitória de Pérez, retomando a posição perdida na corrida anterior e abrindo dez pontos de vantagem, faltando apenas uma corrida para o fim. 

E foi a consistência da McLaren que deu à equipe o tão festejado terceiro lugar no campeonato. Depois de uma classificação forte, que viu Norris conseguir a 4ª posição no grid após ficar muito perto do tempo da pole, a equipe papaya viu sua rival largar com Pérez do 20° lugar, depois de uma punição por troca de motor. O mexicano ainda abandonaria a prova, deixando a RP apenas com Stroll para barrar a McLaren. Depois de largar em 8º, Stroll precisava acumular o maior número de pontos para manter o terceiro lugar para sua equipe. Sem ritmo, o piloto canadense acabou perdendo a posição para Gasly e Ocon no final da corrida e em 10°, marcaria apenas um ponto.

Já o time papaya mostrou um bom ritmo durante a corrida e sem ser ameaçado, terminou a corrida em 5° e 6°, somando 18 pontos e selando o terceiro lugar no campeonato a favor da McLaren. 

CORRIDAMCLARENRACING POINT
Turquia1520
Bahrein220
Sakhir1340
Abu Dhabi181
Total de pontos6861

Total de pontos obtidos pelas duas equipes nas quatro últimas corridas do campeonato.

Resultado final: McLaren 202, Racing Point 195

Com um carro inspirado na vencedora Mercedes, a Racing Point tinha tudo para conseguir bons resultados. Mesmo punida e perdendo seus pilotos principais por algumas corridas, a equipe conseguiu se recuperar a ponto de se colocar novamente na disputa. Mas toda a evolução da McLaren nesses dois anos, começando por sua mudança de mentalidade e passando pela evolução de seus pilotos, renderam à equipe de Woking, a consistência necessária para alcançar o posto de terceira melhor equipe no campeonato.

4 comentários Adicione o seu

  1. Paulo Salles disse:

    UAU!!! Que belo trabalho…. quando que um tal de Reginaldo trouxe algo assim em 600 anos de F1!? PARABÉNS!!!!

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  2. Paulo Moreira disse:

    Belo trabalho e excelente texto sobre uma das maiores equipas de sempre da história da F1.

    cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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  3. Drunk Tsundere disse:

    Ocon e Stroll também foram fundamentais para esse terceiro lugar da McLaren, que foi a única das três concorrentes a ter dois pilotos fazendo boa temporada.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Ótimo.post, parabéns.
    Vamos ver como vai ser entrosamento do Riccardo com o Norris.

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