O que muda na F1 em 2021: tudo sobre o teto de gastos

O regulamento da Fórmula 1 passa a ser dividido em três conjuntos de regras diferentes, com a adição de um documento de 47 páginas que define todas as regras do teto orçamentário, como é seu controle e como funciona o sistema de penas para eventuais transgressões. Com tantos detalhes, haja entrelinhas, e muita coisa não é exatamente o que parece.

A começar pelo valor: se o teto orçamentário é de 145 milhões de dólares, isso quer dizer que todas as equipes vão gastar ‘só’ isso? Definitivamente, não.

TUDO SOBRE A F1 2021:

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Qual o valor real do teto orçamentário das equipes da F1? 

São 145 milhões de dólares por ano para uma temporada de 21 corridas. A cada corrida adicionada, o valor aumenta em 1.2 milhão – lembrando que o Pacto da Concórdia válido de 2021-2025 prevê um máximo de 25 GPs por temporada. Esse valor base vai diminuindo (140 milhões ano que vem, 135 em 2022).

O regulamento fala em ‘’eventos que aconteçam’’, não que estejam previstos. É claro que a diferença é pequena e existe justamente para cobrir custos de viagem basicamente, mas, efetivamente, isso quer dizer que, em um ano de pandemia, as equipes vão para o campeonato sem saber exatamente quanto poderão gastar.

O que não entra na conta do teto orçamentário?

O mais importante para se entender sobre o teto orçamentário é que ele não determina o quanto cada equipe da F1 pode gastar. A ideia é limitar os gastos de desenvolvimento do carro, tentando fazer com que o diferencial seja mais a capacidade dos engenheiros do que seja lá o que for que o dinheiro possa comprar para ajudar o carro a ser mais rápido.

Tendo isso como base, fica mais fácil entender porque foi necessário usar quase todo o alfabeto para listar o que está excluído dessa conta (os itens vão de A até Y). Além dos salários e gastos com pilotos e com os três funcionários mais caros e custos com marketing, estão excluídos itens como manutenção e testes dos carros antigos, contas de previdência social dos empregados, água, luz, a parte jurídica, de recursos humanos e as taxas de inscrição.

@Steve Etherington/Mercedes

Mas as exclusões mais interessantes que não costumam ser comentadas são de tudo o que a fábrica precisar comprar para funcionar e os custos de manutenção – que não sejam para fazer as peças do carro – e os gastos para comprar unidades de potência, contando que eles fiquem limitados pelo que determina o regulamento esportivo.

Esse foi um ponto que gerou briga por anos, principalmente por parte da Red Bull, que queria se certificar de que seus concorrentes diretos não pudessem esconder gastos dos carros em suas divisões de motores. Então tudo é totalmente dividido.

E o regulamento tem ainda alguns pontos interessantes, como os 200 mil dólares que são adicionados à conta final por cada dia de testes de pneus feitos a pedido da fornecedora.

Como as equipes vão comprovar que estão dentro das regras?

Ao final de cada ano, cada equipe tem de apresentar seus registros financeiros para a mesma firma de auditoria independente que controla todo o regulamento, e estas contas são avaliadas pelo Painel de Teto Orçamentário.

Há uma tolerância de 5%, dentro da qual o time sofreria ‘’penas esportivas menores ou multa’’. E as penas ficam mais pesadas se for constatado que a equipe fez algo de propósito. Por outro lado, cooperar com as investigações ou alegar que houve um erro ajuda a diminuir a pena.

Outro ponto interessante é que será adotado o que é chamado no regulamento de ‘’soft implementation’’, ou seja, nem tudo começa a valer logo de cara para que as equipes possam se adaptar. Então há alguns pontos, especialmente ligados aos prazos de entrega e ao que tem de ser apresentado, que começam com o verbo ‘’devem’’ e, nos próximos anos, se tornam ‘’precisam’. E, em 2021, as equipes terão até a metade do ano para realocar funcionários para se adequar à nova realidade.

E, para quem se pergunta como uma equipe que compra a caixa de câmbio, por exemplo, da outra pode ser julgada de maneira semelhante, o regulamento prevê as diferentes maneiras de se calcular tudo isso para que seja justo para todos.

Como funciona a investigação e as penas?

Esse ponto não é diferente de qualquer outro tipo de suspeita: as contas serão auditadas, assim como a FIA checa se os carros estão legais, mas checam de maneira muito mais detalhada se um rival aponta algo que acredita estar fora das regras. Então o sistema é o mesmo, com protestos. 

Tais protestos precisam ter evidências, não podem ser somente ‘’olha lá a conta desse time porque aí tem coisa’’. Novamente, é igual com a parte técnica: as rivais nunca protestaram o motor da Ferrari por exemplo, já que não se tinha certeza do que eles estavam fazendo. Ao invés disso, cercou a FIA para que eles investigassem.

Mas há algo diferente: o protesto pode vir de delações premiadas, garantindo imunidade a quem denunciar (e são mais de duas páginas só estabelecendo as regras disso). 

A gama de punições é grande e algumas delas são interessantes, como a diminuição do teto para quem for pego. As penas vão desde o âmbito financeiro até punições esportivas (de diminuir a quantidade de teste aerodinâmico até a exclusão do campeonato).

Qual o impacto do teto orçamentário para os times?

@Ferrari

Uma das grandes brigas quando os detalhes do teto orçamentário estavam sendo debatidos era como garantir que uma mão de obra tão especializada e forte como a das equipes da F1 ficaria com toda essa situação. As leis trabalhistas italianas principalmente eram um empecilho (bem-vindo, diga-se de passagem) e as próprias equipes também não vão querer se desfazer de profissionais altamente capacitados e que conhecem muitos detalhes internos – sob o risco deles serem contratados pelos rivais.

Então, embora exista uma grande preocupação com o corte de funcionários, as equipes vão tentar de tudo para absorver quem não puder mais trabalhar no projeto de F1 em outras áreas dentro da própria empresa (inclusive criando/ampliando) a participação em outras categorias. Isso porque, embora os custos com benefícios dos empregados não entre nas contas do teto, o salário conta.

Também espera-se que o teto traga um impacto na quantidade de peças de reposição das equipes, e também na sua vida útil. Então é possível que vejamos treinos livres esvaziados com equipes querendo economizar peças, e um número bastante limitado de atualizações (especialmente em conjunto com a mudança de regulamento de 2022 e uma porcentagem bem menor de peças que podem ter seu desenvolvimento continuado).

Mas o mais interessante de tudo isso é que a própria receita para ser grande na F1 pode mudar. E dou um exemplo concreto: ouvindo as histórias do desenvolvimento do motor de 2014 da Mercedes, fica claro que todas as vezes que Brixworth apontou para Stuttgart que o orçamento estava estourando, tiveram o sinal verde para continuar e isso acabou sendo fundamental. O que a Mercedes fez, efetivamente, em 2013 foi construir um motor totalmente voltado para ser confiável e outro focado em performance, para depois chegar em um terceiro que tentava juntar o melhor de ambos. 

É um tipo de abordagem que não seria possível agora para o carro de 2022. Toda a questão risco/recompensa terá de ser reavaliada. De qualquer maneira, o mais eficiente, leva.

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