Diversidade na F1: um engenheiro ‘outsider’ que virou chefe na McLaren

Randeep Singh, à direita, em reunião com Carlos Sainz e o engenheiro de pista Tom Stallard

Ele não tem nem 40 anos e é o chefe de estratégia e diretor esportivo da McLaren, além de comandar o programa de estágio do time inglês. Randeep Singh é responsável pela estratégia não só de corrida e classificações em si, decidindo quando parar, quais pneus colocar, etc (obviamente, apoiado por um time de estrategistas que analisa os dados). A decisão final é dele, por exemplo, sobre quando trocar de unidade de potência durante uma temporada e quais as áreas em que o time deve focar em termos de desempenho.

Como se não fosse complexo o bastante, Randy, como é conhecido, também assumiu a direção esportiva da McLaren mais recentemente. Ele basicamente tem de saber o regulamento esportivo de cor para evitar que o time ou os pilotos cometam alguma infração. E, quando um piloto é chamado a se explicar aos comissários, também é ele quem vai lá como representante da equipe.

Nem é preciso dizer o quão raro é – eu não me lembro de ter visto isso no passado recente – ter alguém que acumule duas funções tão importantes para o time.

E, como o nome deixa transparecer, mesmo sendo britânico, de Birmingham, Randy vem de família indiana. Não é, portanto, daqueles rostos que se espera ver na F1. E nem trilhou o caminho de formação mais comum. É com a história dele (que ele contou em mais detalhes neste ótimo podcast) que vou começar uma série sobre histórias de diversidade no esporte, que vão se misturar com minhas próprias memórias de 10 anos de paddock ao longo da temporada.

Não é de hoje que a McLaren tem grupos de diversidade que buscam ampliar sua gama de funcionários para além do óbvio: homens brancos formados em universidades britânicas de engenharia mecânica ou aerodinâmica/aeronáutica. Mas qual o interesse da equipe? É muito simples: eles perceberam que trazer pessoas de origens e vivências diferentes só vai colaborar para que ideias diferentes surjam dentro da organização.

Para isso, eles buscam pessoas nas universidades ao invés de ficar só passivamente recebendo os currículos, até porque o que vai chegar para eles é o mesmo tipo de gente que sempre chegou. Curiosamente, Randy (que também comanda esse processo de seleção) conta que, quando eles fazem essas apresentações nas universidades, a maioria das perguntas vem de mulheres e pessoas de minorias étnicas, ou pessoas mais pobres, e são bem semelhantes: ‘’essa/esse sou eu, minha formação é essa, será que eu tenho chance? Isso serve para mim?’’ É por isso que se bate tanto na questão da representatividade: até para você considerar um sonho, é muito importante se ver dentro dele, e isso é algo meio difícil para um homem branco entender, porque ele tem esse tipo de exemplo ao seu redor o tempo todo. 

Foi assim para Randy também. Os pais dele não têm formação universitária e colocaram isso como uma prioridade para ele. Sua mãe o encorajou a tentar a grammar school, que é um tipo de escola focada em formar, desde a adolescência, futuros acadêmicos. Para entrar numa escola dessas, é preciso passar por um teste. Randy passou raspando, e era um dos piores da turma. Depois foi aceito também raspando na universidade (se inscreveu em Oxford achando que não teria chance nenhuma porque não via outros como ele chegando a uma universidade tão tradicional, e entrou) e era um dos piores da turma. Ou seja, ele carregou a falta de estudo e de privilégios dos pais imigrantes com ele, foi compensando isso como podia. No caminho, teve mil dúvidas se deveria sequer tentar uma vaga da F1 por não achar que era bom o suficiente. Continua achando isso ao ver as mentes brilhantes ao seu redor.  

Voltando à história, desde a escola Randy percebeu que tinha facilidade em matemática e tentou ir para o caminho que lhe pagasse melhor e em que poderia usar essa facilidade com os números (aqui vale a observação de que, na Inglaterra, o aluno vai escolhendo as matérias para já forjar sua formação mesmo na escola, e elas são mais específicas que no Brasil). E, na universidade, também há mais liberdade, então ele acabou tendo uma formação bastante aberta, indo da engenharia à biomédica, passando por administração e estatística, e com uma forte pegada em finanças. O foco dele era fazer o que lhe interessava (e em que ele, consequentemente, era bom), não o que ele pensava que o levaria à F1. O esporte, inclusive, não foi uma paixão de infância para ele: Randy só foi gostar da categoria perto dos 16 anos, porque jogava no videogame e resolveu assistir.

Randy comanda a estratégia desde o pitwall da McLaren durante as corridas

Em seu último ano na faculdade, em 2009, contudo, ele decidiu que tentaria trabalhar no esporte: escreveu cartas marcadas com um CONFIDENCIAL para todos os CEOs das equipes. E foi chamado para seis entrevistas!

Foram vários ‘’não’’ até que ele conseguiu um estágio de seis meses na Williams, na área de estratégia, que era aquela de que ele mais gostava no esporte. Acabou não tendo a chance de ser efetivado, não havia vagas, e a vida dele mudou completamente: teve uma chance de emigrar para a Austrália com outra empresa, trabalhou com consultoria financeira e até desenvolveu um sistema de aprendizado para crianças do outro lado do mundo.

Não poderia estar mais longe do sonho da F1 quando recebeu uma ligação da Williams. E em três semanas estava de volta à Inglaterra para ficar dois anos no time de Grove. Depois de uma passagem rápida, de 6 meses, pela Force India, se firmou na McLaren, onde trabalha desde a metade da temporada de 2015 e hoje chefia uma equipe que vem acertando bem mais do que falhando nas estratégias na pista.

4 comentários Adicione o seu

  1. Pedro Paulo disse:

    A ideia da nova série de textos é bem legal, parabéns pela iniciativa. Eu sempre me interesso em saber um pouco da vida das pessoas e acho que essa série vão mostrar isso muito bem.

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  2. Rodrigo Rocha disse:

    Legal demais essa história. Só alguém com o seu conhecimento e sensibilidade poderia nos trazer algo assim, parabéns!

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  3. Uauuu, muito legal essa história.
    Parabéns por estar sempre inovando e nos trazendo postagens interessantes.

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  4. Paulo Moreira disse:

    Excelente história e um belo exemplo para os jovens de hoje em dia.
    Afinal nada é impossível e se sonhamos em alcançar algo na vida, temos que lutar por isso.

    cumprimentos

    visitem: https://estrelasf1.blogspot.com/

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