Diversidade na F1: Quem foi o único piloto gay de que se tem notícia?

Mike Beuttler teve uma carreira relativamente curta na Fórmula 1: foram 28 largadas entre 1971 e 1973, com uma March, operada pelo time Clarke-Mordaunt-Guthrie (um título bastante incomum, que vinha dos sobrenomes dos sócios). Por cinco vezes Beuttler chegou entre os 10 primeiros, tendo o sétimo lugar no GP da Espanha de 1973 como seu melhor resultado, embora, na época, isso não lhe garantisse pontos. Naqueles tempos, inclusive, o GP da Espanha era no perigosíssimo circuito de Montjuic.

Beuttler corria com a licença britânica, mas nasceu no Cairo, Egito. Era filho de um um coronel britânico e vinha de uma família nobre escocesa por parte de mãe.

Não é por nada disso que Beuttler é o personagem desta coluna sobre diversidade. Ele era gay. Um piloto de F1 homossexual.

Colocando a história de Beuttler no contexto, era uma época em que, até mais do que hoje, era desejável que o piloto personificasse a ideia do machão, que vivia rodeado de mulheres e não tinha medo de nada. E, de preferência, falasse frases de efeito como ‘’sexo é o café da manhã dos campeões.’’ No Reino Unido, inclusive, não fazia muito tempo que as pessoas deixaram de, aos olhos da justiça local, cometerem um crime ao amar alguém do mesmo sexo. A homossexualidade só foi legalizada por lá em 1967.

Nesta época, Beuttler já era piloto, tendo passado pela Fórmula 3 e pela Fórmula 2, aparecendo internacionalmente quando venceu em Vallelunga em 1971. E teve a chance de estrear na F1, no meio do campeonato daquele ano, no GP caseiro na Grã-Bretanha.

Em sua curta carreira na categoria, Beuttler acabou não ganhando boa fama, mas isso não tinha nada a ver com sua orientação sexual. Ele ganhou o apelido de ‘’blocker’’, porque sempre reagia de forma muito agressiva quando alguém tentava ultrapassá-lo. Mas foi a crise do petróleo de 1973 que acabou tirando-o da F1, por falta de recursos de seus patrocinadores.

Pouco tempo atrás, a BBC publicou uma matéria com a história de Mike, contada por um jornalista da época, Ian Phillips, que conheceu o piloto em 1970 e se tornou amigo dele. ‘’Eu sabia que ele era gay, mas aquilo não importava para mim dentro do meu próprio mundo. Ele dava tudo de si na pista, tinha talento natural, e também trabalhava muito duro. Fora das pistas, ele era um cara mais quieto em comparação com o James Hunt ou o Mike Hailwood e era muito amigável, mas por trás disso havia uma determinação imensa e ele levava o automobilismo muito a sério.’’ 

Ian acredita que a história de Mike poderia ter sido diferente na F1 caso ele tivesse chegado com mais experiência. Mike chegou a correr com o carro oficial da March uma vez, no GP do Canadá de 1972, mas não estava maduro o suficiente. 

‘’Ele provavelmente não estava pronto para a F1 quando chegou, mas tinha bons patrocinadores. Ele compensava com sua determinação: toda vez que ele saía do carro dava para ver que ele tinha trabalhado, estava suando e com os olhos esbugalhados’’, contou Phillips à BBC.

Muitos sabiam que ele era gay e, como o jornalista, não achavam aquela informação minimamente relevante, mas ainda assim Beuttler sentia a necessidade de estar rodeado por mulheres para evitar comentários a respeito de sua sexualidade, prática muito comum no automobilismo até hoje. Mike preferia apresentar uma amiga, Anne Ries de Loen, como sua namorada.

Vale lembrar que Mike é o único piloto de F1 assumidamente gay de que se tem notícia, mas isso não quer dizer que ele era abertamente gay na época ou que ele tenha sido o único homossexual a correr na F1. Longe disso.

Mas ficamos sem ter testemunhos do próprio piloto sobre como isso era encarado na época: depois de perder os patrocinadores e sair da F1, Mike Beuttler simplesmente desapareceu do mapa automobilístico. ‘’Ele desapareceu completamente. Não conheço ninguém que tenha tido contato com ele, a não ser sua família.’’

O que Ian soube depois foi que Mike se mudou para a Califórnia. ‘’Imagino que era mais fácil para ele ter o estilo de vida que queria em Los Angeles e San Francisco na época, porque ser gay em Londres era uma coisa mais secreta. Ele provavelmente quis encontrar um lugar em que poderia ser aberto e livre’’, disse Phillips, que só viria a ter notícias ao receber um triste telefonema mais de uma década depois.

Era a irmã de Mike Beuttler, dizendo que o ex-piloto tinha morrido vítima de AIDS, em Los Angeles, dia 29 de dezembro de 1988.

‘’Ele era um cara tão bacana.’’

4 comentários Adicione o seu

  1. Fernando disse:

    Oi Ju, tirando o Mark Webber e a Britney na F1 atual quais seriam os demais suspeitos… nao que faca alguma diferenca mas …jah nao deveriam ter pilotos dentro do closet nao ? Russel , Ocon , Schumacher….

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  2. Alfredo disse:

    Are you Ju?

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  3. Paulo Alexandre Teixeira disse:

    Conheço há eras a história do Beuttler, sabia perfeitamente da sua ida e carreira, e seu triste fim. O que não sabia era do seu total desaparecimento depois de sair da Formula 1, em 1973. O que também sabia era que o March privado na Formula 1 tinha sido obra de amigos na Bolsa que fizeram uma “vaquinha” para adquirir um 731.

    Mas também houve gente que gostava de pessoas do mesmo sexo a correr por lá. Só há pouco tempo é que descobri a orientação sexual de Lella Lombardi e de como a sua companheira ajudou muito na sua carreira, sempre nos bastidores e de forma bem discreta.

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  4. Gabriel Fraga disse:

    Muito interessante a matéria! Acho que ainda tem certo tabu sobre isso na F1 até hoje. Tenho minha suspeitas no Grid atual haha. Acho difícil nunca ter tido outro piloto não hétero em todos esses tempos.

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