Memórias de 10 anos de F1 (e de como o início foi cheio de dúvidas)

Vou guardar para sempre a primeira vez que cruzei a Ponte das Correntes, a principal, apoteótica e belíssima ponte de Budapeste, que também é até hoje a capital europeia que mais me impressionou. É claro que isso sempre está ligado às expectativas, e eu não tinha tido tempo, naquela viagem, para criar nenhuma. Era 2012, e o GP da Hungria seria apenas a minha quinta corrida in loco.

Naquela época, e eu sempre conto e essa história porque, embora eu tenha começado direto na F1, o que não é comum, tive no meu caminho cinco anos em que eu sentia que estava forçando uma situação que simplesmente nunca iria acontecer “de verdade” – e sei que tem muito jovem com muita pressa (eu também tinha, muita) querendo seguir os mesmos passos. Eu aproveitava os dias de férias do meu emprego de carteira assinada, também como jornalista, para ir para algumas corridas, pagando do próprio bolso (por isso a sensação de que eu não ia às corridas por mérito, mas sim por meu próprio capricho). Isso numa época em que cheguei a ter três empregos que, juntos, digamos que não me deixaram exatamente rica.

Então eu vivia cada momento, cada GP, como se fosse o último. E cada viagem também. Porque realmente poderia ser!

Naquele julho de 2012, tinha ido primeiro para o GP da Alemanha, em Hockenheim. De lá, eu e Felipe Motta seguimos junto com Luis Fernando Ramos para sua casa, em Viena, outro lugar que eu não conhecia. Passamos a noite lá e seguimos para Budapeste. 

A Alemanha era o que eu esperava – lembro que fomos à cidade natal de Vettel, Heppenheim, e minha irmã comentou minha foto dizendo que eu não “precisava ir até Blumenau para fingir que estava indo pro GP da Alemanha”. Quem tem irmãos sabe como é, a zuera nunca tem limites! Viena também era como eu esperava, clássica, ainda que tenha aprendido depois a apreciar mais como é uma cidade que funciona, que é gentil com quem mora por lá. E me lembro vagamente de ouvir comentários sobre Budapeste ser mais suja, obviamente mais pobre.

Só não me avisaram que não deve existir nenhum lugar tão mágico e decadente, tão lírica e mundana na mesma medida quanto Budapeste. Foi esse o sentimento ao passar por aquela ponte. E pela ópera, pelo mercado municipal, pela estação de trem e mais um sem número de prédios cujo nome eu nem ouso tentar pronunciar.

Não é um lugar bonito, não é um lugar limpo, não é um lugar tranquilo. É sem filtros. E tem lá seus momentos menos líricos. Mais de uma vez fiquei em dúvida se dei a nota certa no táxi – são tantos zeros e elas são tão semelhantes para os olhos menos treinados que não é incomum você se confundir, pagar uma corrida de 1.700 (1 real são 59 forints húngaros) com uma nota de 20.000. E, se fizer isso, suas chances de receber o troco certo não são muito grandes.

Na minha segunda visita ao Hungaroring, em 2014, eu ainda pagava pelas viagens do bolso. Mal sabia que receberia uma ligação do UOL alguns meses depois…

Mas eu nunca me senti tão perto de casa em Budapeste (não no bom sentido) quanto no dia em que fui prestar queixa de um furto para a polícia local. Sabe aquele tom de “vamos registrar aqui porque você veio, mas esquece?”. Tínhamos alugado um apartamento e, para entrar, era necessário colocar códigos em duas portas, que davam para um pequeno corredor com dois apartamentos. Uma das pessoas que ficaria conosco não iria todos os dias para a pista, e não me lembro exatamente como foi o acordo, mas tivemos a ‘brilhante’ ideia de esconder a chave ali.

Bem naquele fim de semana, aconteceu algo raríssimo: um cliente me pagou em dinheiro, em euros. Eram uns 3 ou 4 mil (prefiro não forçar a memória para lembrar direito), que sumiram da minha mala.

Mas, se a polícia não quis saber da história, pelo menos algumas mãos se estenderam rapidamente para mim naquele fim de semana no paddock. Tão logo eu contei a história, uma amiga não falou nada, só abriu a bolsa, pegou um bolo de dinheiro e colocou na minha mesa. “Me avise se não for suficiente até segunda.” E é por isso, na verdade, que estou contando esse capítulo pouco glorioso da minha relação com Budapeste: uma das regras não ditas fundamentais dentro do paddock é que um cuida do outro. É inevitável que, passando por tantos lugares, algo de errado vá acontecer. E você só lida com isso sozinho se quiser.

É óbvio que minhas precauções de segurança lá se multiplicaram após esse ocorrido. É tão bom poder viver sem o medo com o qual, inconscientemente, convivemos no Brasil, que é fácil esquecer que o mundão não é um mar de rosas. Mesmo tendo lá sua poesia.

3 comentários Adicione o seu

  1. Wesley Andrade disse:

    Uau! Que história tensa, Julianne. De fato, o mundo não é um mar de rosas, mas o que você faz com ele é o que te define.

    Saudações!

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  2. Muito legal!
    Conte mais histórias suas.
    Quem sabe um livro vem por aí.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Paulo Moreira disse:

      Ora aí está uma boa ideia, essa do livro.

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