Memórias de 10 anos de F1 e todos os lados de Interlagos

Minha relação com o GP do Brasil não começou da melhor maneira, embora minha felicidade de ter conseguido comprar o ingresso para ir só no domingo na arquibancada A em 2008 era tão grande que, no dia, tudo o que aconteceu ficou gravado como parte da aventura. Só depois eu fui processar o abuso que tinha sofrido, quando um grupo de homens bem mais velhos do que eu, que estavam atrás de mim, tinham tirado fotos (notadas pela minha irmã, que me acompanhava) com um salame (?) apontado para meu corpo e tentaram desamarrar minha blusa, o que só percebi quando saímos dali. Anos depois, quando finalmente tive coragem de contar a história, justiceiros da internet vieram dizer que era invenção. 

Dentro do paddock, já trabalhando como jornalista, a situação não melhorou. Toda mulher que chega é vista como “a nova carne do pedaço” e muitos se sentem quase na incumbência de tentar alguma coisa. E foi assim que acabou a admiração por tantos ídolos e referências do passado, e o respeito por tantos outros mais.

Tanto, que eu lembro mais desse tipo de comportamento no paddock quando comecei do que de outro episódio, também no meu primeiro ano cobrindo a categoria, em 2011. No domingo, saímos tarde depois de terminar a maior parte do trabalho – tomando a precaução de fazer o que era somente necessário e não ficar até perto da meia-noite, como fazíamos em outras pistas, por segurança. Logo no primeiro semáforo, éramos o segundo ou terceiro carro da fila, cercados por todos os lados, inclusive por jovens armados. Com uma arma apontada para a cabeça, lá se foi todo o trabalho do fim de semana, as entrevistas, anotações, tudo.

Dali em diante, as coisas só podiam melhorar. E foi em São Paulo que tive acesso pela primeira vez ao grid (o que sempre é uma experiência especial em Interlagos e onde vivi momentos incríveis, literalmente falando com as arquibancadas por meio da rádio e vendo a realização nos olhos da Aninha e da Bia em 2019).

Essa se tornou uma grande marca do GP Brasil para mim, maior do que qualquer perrengue de quem, algumas vezes, dormiu no carro no estacionamento depois de pegar carona com quem que resolvia madrugar para não pegar trânsito (eu trabalho de madrugada tranquilamente, mas realmente não sou uma pessoa matutina!). Ou que só conseguiu chegar em um jogo de futebol no segundo tempo porque seus amigos gringos ficaram com medo, de última hora, de enfrentar o metrô e se apavoraram, obviamente, no mar de carros.

Ah, os gringos, quanto trabalho eles não deram! Tímidos quando os levamos para um samba, confusos com os pedaços de pizza (isso é uma coisa brasileira, geralmente se você pede uma pizza, come ela inteira) e empolgados pela possibilidade de pedir dois sabores diferentes na mesma pizza (também uma coisa nossa). Ainda mais confusos com as comandas individuais nos bares. Levando bronca por deixar para tirar dinheiro à noite e ainda ficarem em dúvida, diante do caixa eletrônico, de qual quantia sacar. Fazendo as perguntas mais variadas, até cotação de garotas de programa “400 libras (na época, uns 2 mil reais) é razoável? É que ouvi uma moça conversando com um cara no bar e achei que talvez seja um pouco de mais…” 

Isso me lembrou de uma conversa com Verstappen, no alto de um arranha-céu em um evento da Red Bull. Enquanto fala comigo, ele observa um avião voando baixo e me pergunta: “Mas o aeroporto é aqui perto? Não pode ser! Eu fiquei horas no trânsito e meu hotel é perto!”. O cálculo estava certo, já que ele desceu em Guarulhos e estávamos perto de Congonhas. Contei que tinha um aeroporto ali, no meio dos prédios, e que não era qualquer piloto que podia pousar lá. “É verdade? Ah, é nesse mesmo que eu quero descer da próxima vez”. Pilotos…

Mas ninguém supera o assessor de imprensa Alex Hocking, o fã mais maluco do Michael Jackson que existe. Lendo sobre a conexão entre seu ídolo e o Brasil, ele ficou sabendo que havia um mural pintado em São Paulo em homenagem ao cantor. Era isso que ele sabia: numa cidade do tamanho de São Paulo, em uma avenida grande (o que dava para ver na foto), havia um mural de Michael Jackson. Ele perguntou para todos os taxistas desde a sua chegada se eles sabiam de onde era aquela foto, e um até ficou algumas horas rodando com alguns deles procurando. Até que, em uma das noites, já depois de algumas caipirinhas, ele sentou num Uber e falou: “ok, nós não vamos sair desse carro até acharmos o mural, não importa, eu pago o quanto for.” E não é que eles acharam? É claro que ele colocou um pin no celular dele e deu uma outra passadinha antes de embarcar de volta para casa.

5 comentários Adicione o seu

  1. Fernando Piccione disse:

    Ju me da vergonha ler isso e ter vivido isso desde 1994 ate 2006…despois me mudei pro Mexico e nao sei se foi sorte ou nao mas aqui esse tipo de estupides na arquibancada nao existe. Felizmente….sinto saudades de Interlagos mas nao do setor A e do G…..

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  2. Josianne Cerasoli disse:

    O texto é de minha irmã, competente jornalista. Sensível, atenta. E doeu. O Brasil é um lugar exigente demais. Difícil confirmar que vale quanto pesa… Lamento muito por cada desconforto…

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  3. Felipe Souza disse:

    Espero que esse comportamento inadequado dos homens em Interlagos tenha mudado em 2021, ainda mais agora com oa novos fãs, do qual muitas – talvez a maioria – seja de mulheres.

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  4. Arthur Barbosa disse:

    Frequento Interlagos desde 2006, vitoria do Massa bem no meu aniversário de 22 anos, sempre nos setores G e A, os mais ‘acessiveis’.

    Os fatos lamentáveis relatados pela Ju obviamente procedem. Desde insinuações de que toda e qualquer mulher desacompanhada passando pela arquibancada necessariamente seria garota de programa, até mesmo casais héteros que, tendo chegado ao autódromo com os assentos praticamente ocupados, eram contemplados com os cânticos “a gostosa sobe, o viado desce!” ou simplesmente “sóóócio”.

    Pela minha limitada percepção, este cenário foi lentamente mudando ao longo dos anos, e depois de um hiato de idas a Interlagos entre 2016 e 2018, tomei coragem na retomada e pela primeira vez levei minha esposa à pista justamente no G, numa sexta-feira tatica e tradicionalmente pouco movimentada de 2019. Zero ocorrências, em nada remetendo aquele outro Interlagos.

    2021, voltamos ao setor A, eu e meu amigo de todos os GP’s. Ao buscarmos lugar e ângulo diferentes pra assistir a Sprint Race – mais à direita, próximo aos últimos colchetes do grid com direito a um inesperado Hamilton na P20 – qual não foi nossa compartilhada surpresa ao notar a predominância de mulheres e meninas ao nosso redor, e para alívio de todos, mais uma vez nenhum constrangimento, pelo contrário.

    A ponto de, no domingo, conhecendo a lacuna de sinal de dados móveis do setor, eu ser a única pessoa no entorno que acompanhava a transmissão da BandTV – num celular antigo com tela trincada e TV Digital – sendo tranquila e continuamente indagado por estas mesmas meninas sobre posições de pista, evolução do Lewis e distância em segundos entre ele e Max, ou numero de voltas pro final.

    Além de Interlagos, acompanho este blog/site há um bom tempo, e seguramente credito esse movimento também à representatividade e quase pioneirismo da Ju ao retratar, alem de questões técnicas e estratégicas, transmissões em diferentes idiomas nas TVs mundo afora, e aspectos do entorno dos autódromos aos mochileiros, a sagacidade do olhar feminino num ambiente desde sempre machista.

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  5. Nicholas disse:

    Eu tenho a infelicidade de meu trabalho ser basicamente aos fins de semana e perder a cobertura “ao vivo” do todo…mas leio depois de passado o evento. Esse seu relato sobre sua experiência no GP Brasil de 2008 é absurdamente contrastante com a minha primeira vez (tbem 2008 setor M)….e a ida da Aninha e a Bia em 2019 foi lindo de ler e ver aqui….de longe, do meu lugar de privilégios só consigo agradecer imensamente por acesso a textos escritos por uma mulher com uma sensibilidade impar e uma força admirável….grande abraço!!

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