Corridas e análises

Raio-X do GP da Emilia Romagna

Duas voltas para o final da sprint, Max Verstappen atacou Charles Leclerc de forma decidida e passou. Nenhum dos dois poderia saber o quanto aquele momento seria tão importante para o GP da Emilia Romagna. Afinal, o holandês largaria não apenas da pole no domingo, como também do lado esquerdo, muito mais emborrachado. Sergio Perez também estaria do lado “certo” depois de escalar o pelotão do sétimo ao terceiro lugar na sprint, e os dois desapareceram na frente para devolver, na casa da Ferrari, o golpe pela derrota da Austrália.

Largar do lado esquerdo da pista fez mais diferença do que normalmente por um conjunto de fatores. A chuva que caiu à noite lavou a pista, que foi novamente emborrachada pelas corridas das categorias de base. Mas só o lado direito, da trajetória normal dos carros. Quando choveu de novo, o lado emborrachado estava pior que o outro. E, em uma corrida que ficou por muito tempo sem DRS também por conta da chuva, e numa pista em que é difícil ultrapassar, isso selou o destino de vários pilotos na corrida.

A Red Bull era mais veloz em Imola?

A Red Bull aparentou ter uma vantagem em termos de ritmo, ajudada pela dieta de cerca de 4kg que conseguiu fazer no carro, e provavelmente por um acerto que protegia mais o pneu, mas não dá para cravar o quanto. Na sprint, Leclerc tinha tomado a ponta com uma largada ruim de Verstappen, mas sofrera com graining no pneu macio, muito em função da tentativa de escapar da zona de DRS de um carro tem quem mais velocidade de reta. Como ele aqueceu muito rapidamente os pneus, eles acabaram granulando, e isso deu a chance de Verstappen atacar no final.

No domingo, ironicamente, Leclerc não teve o DRS para atacar Perez depois de patinar na largada e perder também a segunda colocação. O dispositivo ficou desligado pelas primeiras 33 voltas, já que a pista demorava para secar e havia a lembrança do que ocorreu ano passado quando a asa foi liberada talvez cedo demais. Quando os pilotos finalmente puderam usar a asa, os pneus de todos estavam muito desgastados para termos ação na pista e só havia um trilho seco.

Leclerc chegou a superar Perez quando todos trocaram os pneus intermediários pelos slick, movimento iniciado por Daniel Ricciardo, mas o mexicano logo recuperou a posição. Novamente, a Red Bull tinha mais velocidade no fim das retas, o que tem a ver com a maneira como o sistema de recuperação de energia é configurado nos motores Honda em relação aos Ferrari, que ganham na retomada de velocidade.

Mais adiante na corrida, a Ferrari até tentou algo diferente, chamando Leclerc para o box na volta 49 e, com isso, obrigando as duas Red Bull a pararem. Com isso, a diferença, que chegou a ficar em 3s, diminuiu. Leclerc queria fazer uma linha mais agressiva nas últimas curvas para chegar mais colado na curva 2 e tentar a ultrapassagem, pegou muita zebra, e rodou, quebrando sua asa dianteira. O líder do campeonato voltou à pista em nono a 9 voltas do final, e escalou até a sexta posição.

Sabemos que o graining, que afetou negativamente o desempenho da Ferrari no sábado, ocorre mais com o pneu macio, então ficou a dúvida se, caso não tivesse ficado preso atrás de Perez, Leclerc poderia ter andado na mesma tocada de Verstappen. Mas coube ao holandês ter um fim de semana perfeito, fazendo a pole sob condições difíceis na sexta, atacando na hora certa na sprint e apenas administrando o ritmo no domingo. Assim, ele levou todos os 34 pontos em jogo e está a 27 de Leclerc.

Quem poderia tirar a dúvida sobre o rendimento da Ferrari ficou pelo caminho logo na primeira volta. Carlos Sainz novamente deu a impressão de estar se sentindo melhor com o carro, mas pegou água na zebra e escorregou na classificação, foi de décimo para quarto na sprint e, largando mal do lado direito, acabou acertado por Daniel Ricciardo.

Naquele momento, ele já tinha sido ultrapassado por Lando Norris, que pulou para quarto e herdou a terceira posição após o erro de Leclerc, mostrando que a McLaren está se encontrando com seu carro que, diga-se de passagem, sempre foi bem em curvas mais rápidas.

As dificuldades da Mercedes

O quarto lugar ficou com George Russell, em um resultado que a Mercedes não apostaria antes da largada. O carro tem dois problemas básicos, muito provavelmente relacionados: o porpoising, que obriga os pilotos a comprometerem seu acerto, e a dificuldade de aquecer o pneu para uma volta lançada. Isso tem obrigado os pilotos a fazerem duas voltas rápidas seguidas para obter o melhor rendimento.

Em Imola, Russell e Hamilton tinham feito a primeira volta no Q2, que seria somente para aquecer o pneu, quando Sainz rodou e causou uma das cinco bandeiras vermelhas da classificação. Quando a pista foi liberada, estava chovendo e eles não tiveram a chance de melhorar.

A Mercedes tinha um ritmo muito melhor do que os 11º e 13º lugares em que Russell e Hamilton ficaram. Mas a sprint mostrou que eles teriam vida difícil porque, justamente devido ao porpoising, a velocidade de reta deles não é boa o suficiente para ir abrindo caminho no pelotão. Após 21 voltas, eles terminaram em 11º e 14º.

O mesmo aconteceu na corrida, com o agravante da falta do DRS por boa parte da prova. Mas então por que Russell apareceu em quarto e Hamilton não passou de 13º? A resposta está na largada, em que George ganhou cinco posições: de Alonso e Mick Schumacher, que se tocaram, de Carlos Sainz e Daniel Ricciardo, que também se tocaram, e de Valtteri Bottas, que teve de tirar o pé para evitar bater também. Na volta 12, Russell ultrapassou Kevin Magnussen, que se tornaria presa fácil também para Bottas e Vettel, e depois ganhou uma posição com a rodada de Leclerc.

Não que a tarde de Russell não tenha seus méritos. Ele já estava com um carro dianteiro com os pneus intermediários, comportamento que só piorou quando ele colocou os pneus de pista seca e a equipe não conseguiu ajustar sua asa dianteira na parada. Mesmo assim, ele ainda conseguiu se manter à frente de Bottas e agora é o único piloto que terminou todas as corridas no top 5, em um excelente começo para ele na Mercedes.

Bottas e Vettel nos pontos

Também é preciso destacar o trabalho de Bottas, que perdeu a segunda sessão de treinos livres, em que as equipes focaram em entender os pneus, depois que a quebra do escapamento danificou o chassi. Mesmo assim ele largou em oitavo na sprint, escalou até a sétima posição e chegou em quinto com a Alfa Romeo.

Outro piloto que lucrou na largada foi Sebastian Vettel, que pulou de 13º para nono e, com isso, se tornou o líder de um trenzinho que ficou junto por boa parte da prova e que incluía Hamilton. Ele subiria para sétimo depois do abandono de Alonso e de passar Magnussen, e com nove voltas para o final foi superado por Yuki Tsunoda e por Leclerc logo depois, mas pelo menos tirou o zero da tabela da Aston Martin na quarta etapa do ano.

4 comentários em “Raio-X do GP da Emilia Romagna”

  1. Também merece destaque o Tsunoda, fez uma corrida sem erros numa pista traiçoeira e atacou com decisão quando preciso

  2. Muitos culpam a falta de ultrapassagens com a “demora” em liberar o DRS, mas será que é proibido ultrapassar sem DRS? Esses pilotos estão se acomodando e muitos espectadores e imprensa acham normal só ter ultrapassagens se tiver DRS… mas o carro novo não foi feito pra seguir de perto mais facilmente? Eu achei bom não ter DRS, quem tem braço dá um jeito de passar… tanto que depois alguns não conseguiram ultrapassar porque ficaram presos nos trenzinhos de DRS…

Deixe uma resposta