Entendendo a F1

Tudo sobre o teto de gastos da F1

O regulamento é dividido a partir de agora em três conjuntos de regras diferentes, com a adição de um documento de 47 páginas que define as regras do teto de gastos da F1. As outras duas partes são o regulamento técnico e o esportivo. Esse longo documento mostra como é o controle do teto e como funciona o sistema de penas para eventuais transgressões. E muita coisa não é exatamente o que parece.

A começar pelo valor: se o teto orçamentário é de 140 milhões de dólares em 2022, diminuindo nos anos seguintes, isso quer dizer que todas as equipes vão gastar ‘só’ isso? Definitivamente, não.

Qual o valor real do teto orçamentário das equipes da F1? 

São 140 milhões de dólares por ano para uma temporada de 21 corridas. A cada corrida a mais, o valor aumenta em 1.2 milhão. E o Pacto da Concórdia válido de 2021-2025 prevê um máximo de 24 GPs por temporada. A cada ano, esse valor base vai diminuindo. Pelo menos de momento, seriam 135 milhões em 2023.

No entanto, há uma regra que estabelece que, se a inflação for maior que 3% em setembro do ano anterior, o valor pode mudar. A cada sprint, os times podem acrescentar 150 mil dólares a mais. E, se o carro sofre uma quebra ou acidente na sprint, mais 100 mil dólares.

O mais curioso é que, enquanto algumas equipes lutam para entrar dentro do teto, outras brigam por ter 140 milhões de dólares em seu orçamento total!

O que não entra na conta do teto orçamentário?

O mais importante para se entender sobre o teto de gastos da F1 é que ele não determina o quanto cada equipe pode gastar. A ideia é limitar o quanto se coloca no desenvolvimento do carro e na operação da equipe. Com isso, há uma tentativa de diminuir os gastos, sim, mas também que que o diferencial seja mais a capacidade dos engenheiros.

Então, é uma ferramenta para cortar gastos a princípio. Mas também serve para convergir a performance mantendo os carros diferentes.

Assim, fica mais fácil entender porque é necessário usar quase todo o alfabeto para listar o que está excluído dessa conta (os itens vão de A até Y). Além dos salários e gastos com pilotos e com os três funcionários mais caros, fazem parte das exclusões: custos com marketing, como manutenção e testes dos carros antigos, contas de previdência social dos empregados, a parte jurídica, de recursos humanos e as taxas de inscrição.

@Steve Etherington/Mercedes

Há outras exclusões interessantes. Como tudo o que a fábrica precisar comprar para funcionar e os custos de manutenção – que não sejam para fazer as peças do carro. E os gastos para comprar unidades de potência, contando que eles fiquem limitados pelo que determina o regulamento esportivo. Os custos de fabricação e desenvolvimento de motores também não entram.

E o regulamento tem ainda alguns pontos interessantes, como os 200 mil dólares que são adicionados à conta final por cada dia de testes de pneus feitos a pedido da fornecedora.

Algo que não está na lista de exclusões e que está custando caro às equipes é o cargo. Há um acordo com a DHL, mas ele não cobre todos os gastos, que aumentaram muito com a pandemia e a guerra da Ucrânia. Isso, sem contar na inflação.

Como as equipes vão comprovar que estão dentro das regras?

Ao final de cada ano, cada equipe tem de apresentar seus registros financeiros para a mesma firma de auditoria independente que controla todo o regulamento. E estas contas passam pela avaliação do Painel de Teto Orçamentário.

E, para quem se pergunta como uma equipe que compra a caixa de câmbio, por exemplo, de uma rival demonstra suas contas. O regulamento prevê as diferentes maneiras de se calcular tudo isso para que seja justo para todos.

Como funciona a investigação e as penas?

Esse ponto não é diferente de qualquer outro tipo de suspeita: há uma auditoria nas contas. Ao mesmo tempo, um rival pode questionar os gastos do outro para fazer com que a FIA passe um pente fino. Ou seja, o sistema é semelhante ao que acontece com os carros, inclusive, com protestos.

Tais protestos precisam ter evidências, não podem ser somente ‘’olha lá a conta desse time porque aí tem coisa’’. Novamente, é igual com a parte técnica: as rivais nunca protestaram o motor da Ferrari em 2019 por exemplo, já que não se tinha certeza do que eles estavam fazendo. Ao invés disso, cercaram a FIA para que eles investigassem.

Aliás, já se vê isso desde o início da temporada 2022: as equipes anotam tudo o que os rivais fizeram nos carros e vão fazendo uma lista. O cálculo é que um time grande gaste 10% do seu orçamento (ou seja, 14 milhões de dólares) com o desenvolvimento de novas peças. E não é difícil estimar o quanto o rival gastou.

Mas há algo diferente: o protesto pode vir de delações premiadas, garantindo imunidade a quem denunciar (e são mais de duas páginas só estabelecendo as regras disso). 

Quais as punições para quem não cumprir o teto de gastos da F1?

A gama de punições é grande e algumas delas são interessantes. Há uma tolerância de 5%, dentro da qual o time sofreria ‘’penas esportivas menores ou multa’’. E as penas ficam mais pesadas se for constatado que a equipe fez algo de propósito. Por outro lado, cooperar com as investigações ou alegar que houve um erro ajuda a diminuir a pena.

A gama de punições é, no mínimo, interessante:

  • dedução de pontos do campeonato de construtores e também de pilotos
  • diminuição do teto no ano seguinte
  • diminuição da quantidade de testes aerodinâmicos
  • suspensão de provas do campeonato
  • exclusão do campeonato

Qual o impacto do teto de gastos da F1 para os times?

@Ferrari

Uma das grandes brigas quando os detalhes do teto orçamentário estavam sendo debatidos era como garantir que uma mão de obra tão especializada e forte como a das equipes da F1 ficaria com toda essa situação. As leis trabalhistas italianas principalmente eram um empecilho e as próprias equipes também não vão querer se desfazer de profissionais altamente capacitados e que conhecem muitos detalhes internos. Sob o risco deles serem irem parar nos rivais.

Então, embora exista uma grande preocupação com o corte de funcionários, as equipes vão tentar de tudo para absorver quem não puder mais trabalhar no projeto de F1 em outras áreas dentro da própria empresa (inclusive criando/ampliando) a participação em outras categorias. Isso porque, embora os custos com benefícios dos empregados não entre nas contas do teto, o salário conta. Foi isso que a Ferrari fez com a Haas, por exemplo, e desenvolvendo projetos paralelos para não perder profissionais.

Teto de gastos pode trazer desdobramentos interessantes para o final do campeonato

Também espera-se que o teto traga um impacto na quantidade de peças de reposição das equipes, e também na sua vida útil. E talvez pilotos sendo mais cautelosos especialmente na parte final do campeonato, cujos treinos livres devem ser mais esvaziados.

Mas o mais interessante de tudo isso é que a própria receita para ser grande na F1 pode mudar. E dou um exemplo concreto: ouvindo as histórias do desenvolvimento do motor de 2014 da Mercedes, fica claro que todas as vezes que Brixworth apontou para Stuttgart que o orçamento estava estourando, tiveram o sinal verde para continuar e isso acabou sendo fundamental. O que a Mercedes fez, efetivamente, em 2013 foi construir um motor totalmente voltado para ser confiável e outro focado em performance, para depois chegar em um terceiro que tentava juntar o melhor de ambos. 

É um tipo de abordagem que já não foi possível para o carro de 2022. Toda a questão risco/recompensa foi reavaliada, e equipes tiveram que seguir adiante com conceitos sem que eles fossem totalmente validados antes disso. De qualquer maneira, como os pilotos costumam dizer, é o mesmo para todos. E o mais eficiente, leva.

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