
Pode parecer um pouco estranho pensar que a Mercedes teve que iniciar um plano de emergência depois de sofrer nos testes de pré-temporada. Isso porque as mudanças de regras de 2021 não chegam perto da revolução que vai acontecer em 2022, e eles dominaram o último campeonato com facilidade – aumentando, inclusive, sua vantagem em relação a 2019. Mas houve dois pontos que tiraram parte da folga do time. E outros dois pontos em que a Red Bull evoluiu.
Não que os heptacampeões mundiais estejam perdidos. O próprio chefe de engenharia, Andy Shovlin, foi bastante claro após a vitória no GP do Bahrein:
“Nós temos um carro com o qual podemos vencer o campeonato se tomarmos decisões inteligentes com ele, e se o operarmos bem ao longo do ano”
Andrew Shovlin
Isso significa algumas coisas: que o time vai ter que usar parte de sua alocação de desenvolvimento aerodinâmico (que já é menor que os rivais, pelo menos até 30 de junho, quando as proporções serão resetadas) para focar no carro deste ano. E erros de estratégia, pit stops (como já aconteceu no Bahrein com Bottas) e deslizes com as regras (Monza e Rússia 2020 vêm à mente) terão de ficar para trás. O time tem de ter um desenvolvimento de Red Bull e uma execução de McLaren.
Mercedes x Pneus de 2021
Pelo menos, como também já deu para perceber em Sakhir, eles podem contar com Lewis Hamilton e sua impressionante simbiose com os pneus Pirelli. Isso, mesmo quando o carro já não casa tão bem com os pneus deste ano, cuja construção foi reforçada. E isso nos leva ao primeiro problema da Mercedes em 2021.
A suspensão era um dos pontos fortes do W11. Mesmo parecendo um carro mais rígido, de certa forma ele funcionava melhor com os complacentes Pirelli. Com a construção mais robusta dos pneus deste ano, mecanicamente houve uma mudança no equilíbrio das forças e a Mercedes já entendeu que terá de acertar seu carro de maneira diferente. Prendendo muito a dianteira, como fazia em 2020, a traseira vai escapar. Tanto, que os pilotos experimentaram bastante com diferencial e equilíbrio de freios nos treinos livres – além dos experimentos de acerto que certamente ocorreram. Na corrida, o carro não estava tão nervoso, mas ele certamente não funciona da mesma forma que o do ano passado.
Mercedes x Regras de 2021
Outro ponto já bem documentado é a maior dificuldade que os dois carros do grid que usam a filosofia do rake baixo – Mercedes e Aston Martin – para recuperar a pressão aerodinâmica tirada pelas novas regras de assoalho, difusor e dutos de freios traseiros.
Para a Mercedes, tudo começa nos sidepods, que possuem uma queda bem dramática em direção ao assoalho, de forma a alimentar o difusor. Mas isso não tem o mesmo efeito agora que as pequenas barbatanas do final do difusor diminuíram de tamanho, então a equipe já começou a estudar como compensar isso. E, já para o Bahrein, encontrou uma solução até relativamente longe de onde está o problema, na asa traseira, como explicou Craig Scarborough:
A rush of wind tunnel work helped resolve Mercs aero issues between testing & R01
— Craig Scarborough (@ScarbsTech) April 1, 2021
It transpires the extreme downwash sidepods were robbing the rear wing of airflow. As the sloped pods help flow to the diffuser, at the cost of the rear wing flap's onset flow being Out of Limits. pic.twitter.com/4PZonPrLn8
As mudanças terão de ser aerodinâmicas mesmo, já que a Mercedes não entregou onde, mas deu a entender que usou suas fichas de desenvolvimento. E obviamente não dá simplesmente para subir a traseira do carro e adotar um rake alto da noite para o dia, já que essa decisão é conceitual e envolve vários outros elementos do carro, começando lá pelo bico.
Mercedes x Red Bull (e Honda)
Por fim, a equipe tem como rival um time que usou a temporada 2020 para acabar com os problemas de correlação com o túnel de vento que vinham comprometendo os inícios de campanha anteriores. E que faz a tal operação citada por Shovlin muito bem, incluindo o desenvolvimento do carro ao longo do ano. É claro que isso não será tão visível neste ano, uma vez que o foco já está em grande medida em 2022, mas não deixa de ser um fator.
E o que foi notável no Bahrein é o crescimento da Honda, ao passo que o motor de 2022 da Mercedes parece vir com alguns comprometimentos em relação ao arrefecimento. E, na classificação, ficou sem potência vinda do que é recuperado para as baterias antes da unidade de potência japonesa, numa inversão em relação ao que acontecia até o ano passado. Na corrida, a própria Honda admitiu que poderia ter sido mais agressiva em relação às configurações, ou seja, quanto mais eles conhecerem sobre este novo motor, mais poderão forçá-lo ao longo do ano.
Não é por acaso que o chefe de engenharia da Mercedes disse com todas as letras que seu conjunto “não tem vantagens”, pelo menos neste momento, em relação à Red Bull. No cockpit, eles têm em Hamilton um piloto mais experiente e consistente que Verstappen e, na fábrica, uma equipe bastante afinada para encontrar soluções. Os ingredientes estão aí para um campeonato, pelo menos, diferente.
3 Comments
Outro fator muito importante são os US$ 250 milhões a menos para o seu desenvolvimento que a Mercedes terá esse ano, para corrigir seus problemas.
Estou loucamente esperando por um campeonato pelo menos imprevisível! Pois tá ficando monótono. BTW, adorei a “peitada” que Hamilton deu no diretor de provas! Parece que ele aprendeu, depois de Russia 2020, a ler e entender as regras… Good for him!
A Mercedes este ano não se pode dar ao luxo de cometer aqueles erros infantis que cometeu no ano passado e que foram referidos no seu texto.
Deixo só uma questão. Será que a luta entre a Mercedes e a Red Bull, que pode prolongar-se até ao final da temporada, não vai atrasar o programa do novo carro de ambas as equipas para o próximo ano?
Cumprimentos
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