Turistando na F-1: Perrengues e causos de 2017

Teve perrengue na Hungria, mas também teve esse pôr-do-sol

Muitos temas técnicos e de estratégia passaram pelo blog neste ano, mas para encerrar as postagens de 2017 e já em clima de saldão de final de ano, escolhi um tema mais light: um turistando diferente, quase um lado B das viagens.

Sim, porque viagem sem perrengue não tem graça. E somando viagem e cobertura então, nem se fala.

 

Na fila do “SUS” na China: Lá fui eu ter um cálculo e infecção renal na China. Senti a pontada familiar ainda na quinta à noite, trabalhei com febre, por pouco não desmaio de dor no cercadinho. Na segunda vou com o colega chinês Frankie Mao ao hospital. Na sessão de estrangeiros não há urologista, então me encaminham para a fila normal. Pensem em um hospital superlotado no Brasil, mas com a população na China. Frankie me convence que jamais seria atendida. Estávamos desistindo, andando meio sem rumo na fila, quando vejo uma clínica particular. Saiu caro, mas nunca fui tão bem atendida na vida. Em uns 2 dias já estava 100%.

 

O glamour do grid de Mônaco: Não existe teste que você possa fazer para a conexão para o grid: na hora o sinal sempre estará mais fraco. Eu tinha dois celulares, com opções online e via ligação mesmo, e simplesmente nada funcionava. Na verdade tinha um pequeno espaço em que conseguia conexão, mas lá não conseguiria entrevistar ninguém. Qual a saída? Gravar entradas via whatsapp e ir correndo até a área de boxes para conseguir enviar para a rádio. Haja glamour!

 

A aventura das reservas de hotel em Baku: Vamos para o interior do Japão, onde obviamente a cultura é bem diferente da ocidental. Para o Oriente Médio, ainda que em lugares mais liberais, como Bahrein e Abu Dhabi. Mas acho que o grande choque é o Azerbaijão. O povo lá não parece entender que seja possível uma mulher viajar sozinha a trabalho. E os hoteis também não compreenderam que a maioria das pessoas que trabalha na F-1 faz com muita antecipação suas reservas. Pois, bem. Eu tive que mudar de reserva depois que a minha original foi cancelada, ainda em novembro. Achei um hotel muito perto da pista, preço ótimo. Até que, em maio, começo a receber mensagens no meu whatsapp (o número estava na reserva do booking.com) perguntando se eu ia mesmo para lá. Não quis dar muitos detalhes por problemas que tive no ano anterior, mas no final das contas tive que dizer que trabalharia no GP. “Mas você deve conhecer homens muito poderosos, não precisa ficar no nosso hotel”. Eu juro que essa foi a resposta.

Depois de MUITOS problemas para confirmar a reserva e ligações em vídeo que jamais atendi e uma mudança no tom depois que o sujeito que me mandava as mensagens percebeu que aquilo não daria em nada, decidi correr o risco: como me foi pedido pelo dono do hotel, cancelei a reserva no booking e confiei que ele me buscaria de graça no aeroporto e cobraria menos pelo quarto. E foi isso mesmo que aconteceu. Claro que tudo tem um porém e tive que responder com o máximo de educação possível convites para jantar e coisas do tipo. Para o ano que vem, reservei dois hoteis, diferentes dos de 2016 e 2017. Um já cancelou.

 

Londres sempre de pé

Londres atacada: A cada atentado feito na Europa neste ano, meu pai simplesmente ligava para minha irmã, sem falar nada. Ela atendia já dizendo “ela não está lá”. Ainda bem que, na única vez em que realmente estava perto eu consegui avisar antes. Foi no ataque na London Bridge. Era dia da final da Champions League e estava em um pub no centro com amigos. O retorno para casa não foi fácil, pois havia vários boatos de outros ataques, não confirmados, mas me chamou a atenção a calma e o preparo dos policiais e a cabeça erguida com que todos andavam na rua, quase como num ato de resistência inconsequente. Ao entrar no metrô, um homem tocava “Imagine”. Todos os que iam entrando lhe deixavam uma moeda. Todos queriam imaginar um mundo de paz.

 

O furto da Hungria: Há várias europas dentro da Europa e a Hungria não está entre as mais ricas e civilizadas delas, algo que se nota facilmente ao andar nas ruas. Confesso que, logo que li as instruções para entrar no apartamento que alugara no Booking.com já não gostei muito: três portas abertas por um mesmo código e depois uma chave que estava na caixa de correio. Como estava dividindo o apartamento com outras pessoas e só tínhamos uma chave, deixávamos a chave lá. Até que muito provavelmente nossos vizinhos (que eu inclusive tinha ajudado pouco tempo antes) entraram no apartamento e roubaram uma boa quantia em dinheiro e meus cartões. Tentei fazer boletim de ocorrência mas o descaso da polícia era óbvio. “Espere 2h aí e pode ser que alguém chegue”. E foi bem naquele fim de semana da indisposição do Felipe.

 

Pela Europa de carro: Quando a temporada já está do meio para o final e você não aguenta mais ver aeroporto na frente, a ideia de fazer os GPs da Bélgica e Itália de carro parece uma boa ideia. A ida de Londres até Spa não é das piores: são umas 6h incluindo a balsa de Dover a Calais, na França, e várias opções de cidades charmosas para parar no caminho sem desviar muito, como Bruges e Aalst. Sem vaga no carro para seguir viagem até Monza, peguei uma carona até Colônia e um trem até Stuttgart para visitar um amigo. De lá, voei para Milão (via Amsterdam!) e adivinhem… perderam minha mala dentro do aeroporto de Linate. Demoraram um dia para achar e me entregar (na verdade eu só consegui pegar a mala porque saí correndo atrás da mulher que fazia as entregas, uma vez que a campainha não estava funcionando e ela não quis me ligar por ter visto um número britânico e não saber falar inglês). Para voltar a Londres, primeiro cruzamos a Suíça ainda no domingo à noite (o que acabou sendo uma maratona de quase 5h devido a obras na pista). Chegamos ao hotel às 2h e saímos às 8h da segunda-feira para cruzar uma parte bem sem graça da França, pegar o eurotúnel de volta e chegar em casa lá pelas 23h. A nhaca de avião virou também nhaca de carro.

 

“Oi, eu sou o Mika”: As noites em Cingapura sempre são memoráveis e neste ano não foi diferente. Estava morta de cansaço, mas o amigo Heikki Kulta tinha me chamado umas 500 vezes para seu aniversário. Apareci às 3h da manhã (eles tinham saído da pista lá pela 1h) e a mesa estava morta, todos já acima (alguns bem acima) dos 50 anos falando que estavam na última cerveja. Saímos de lá umas 7h, mas isso é outra história. O melhor foi que Mika Hakkinen apareceu do nada, no último lugar que você esperaria ver um campeão do mundo: falei no turistando de Cingapura do grande sujinho, onde compramos cerveja e comida barata em “barracas” e bebemos em mesas na rua. Mika viu Heikki, que o acompanhou por toda a carreira, e foi cumprimentá-lo pelo aniversário. Para mim, estendeu a mão e disse “oi, eu sou o Mika”. Ficou um pouco com a gente, tomou sua cerveja, e foi embora.

1h30 de engarrafamento para 45min de futebol em SP: Tentei avisar milhares de vezes que tínhamos que sair cedo para ver um jogo do São Paulo às 20h no Pacaembu. Mas os colegas ingleses insistiram em parar calmamente para comer e pegar um Uber por volta das 19h. Resultado: chegamos para o segundo tempo. Pelo menos eles viram a reação ao time, que estava perdendo de 1 x 0 para a Chapecoense e empatou em 2 x 2 no final, enquanto eu mandava mensagens a meu pai pedindo que não me deserdasse. E eles adoraram o estádio “que parece o Olímpico de Berlim”, tomaram Skol com gosto e ficaram curiosos com a embalagem de catuaba.

7 comentários sobre “Turistando na F-1: Perrengues e causos de 2017

  1. Julianne, parece que um ótimo meio de economizar, é verificar as taxas nos sites do tipo booking ou expedia e sepois contactar direto o hotel escolhido eles podem fazer um bom desconto em relação ao preço do site. Não acho uma boa fazet isso em Baku como vc mesmo disse mas nos outros lugares pode ser uma boa. No Canadá por exemplo, onde estou, os hotéis estão incentivando muito aos clientes para fazer isso.

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  2. E a gente de fora achando que sua vida é só glamour hein Julianne rsrsrsrs
    Parabéns pela excelente cobertura.
    Eu já frequentei outros blogs mas de uns tempos pra cá o seu é o único em que faço questão de comentar. Infelizmente a Internet virou terra de ninguém e para algumas pessoas é difícil aceitar opiniões contrárias e argumentar com o mínimo de educação. Aqui eu me sinto a vontade para expor minha opinião e debater no bom sentido com os demais colegas. Desejo um ótimo Natal a todos e espero ansiosamente pela próxima temporada!!!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Muito bom você compartilhar essas histórias, pois mostra que a vida de um jornalista de Fórmula-1 está muito longe de ser um glamour. Baku que o diga!

    Mal comparando, quando vivi na Europa, vivia de viagens com aéreas low cost e couchsurfing, mas felizmente não tive problema algum com isso, pelo contrário: só fiz amizades.

    Feliz Natal e próspero ano novo, Ju! Até 2018!

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  4. Muito legal este post. Fechando o ano muito bem.
    Obrigado pelos seus ótimos posts e pela informação que nos passa. Descanse bastante, mas volte a postar logo.
    Feliz natal e um ótimo ano a você e todos os colegas deste blog.

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  5. Agradecer por seu profissionalismo é o minimo que posso fazer, Ju. 😉 No mais, bom descanso, paz saude e mt dinheiro pois trabalhamos para colher os frutos, kkkkk

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