No papel, o GP da Hungria seria uma oportunidade de ouro para Lewis Hamilton descontar pontos em relação a Kimi Antonelli: o heptacampeão tem um de seus melhores retrospectos justamente no Hungaroring, a Ferrari é muito forte em curvas circuitos mais travados e era o único carro ousando a atacar mais as zebras agressivas da pista, e a McLaren estava introduzindo um grande pacote e poderia roubar pontos da Mercedes.
Na realidade, foi o time papaya que otimizou o fim de semana – ou quase, após a quebra de Oscar Piastri – enquanto a Scuderia e Hamilton colecionaram erros e terminaram apenas em quinto. Pior: perderam mais pontos para Antonelli.
Punições para Hamilton e Antonelli
Essa dinâmica começou na classificação. O asfalto do Hungaroring estava inconsistente, e o vento mudando de direção também complicou a vida dos pilotos. Neste cenário complicado, quem brilhou foi Lando Norris, enquanto a Ferrari perdia o primeiro round quando os pilotos não conseguiram melhorar em suas últimas tentativas. O caso de Hamilton foi ainda pior quando ele atrapalhou a volta rápida de Piastri, em uma falha de comunicação com o engenheiro.
O inglês se classificou em segundo e largou em quinto, o que só não foi um prejuízo maior porque Antonelli também foi punido, por não respeitar bandeiras amarelas, e saiu do sétimo lugar.
O domingo foi o dia mais quente do fim de semana, de longe, e as equipes foram para a corrida sem saber muito bem qual seria a melhor estratégia. A prioridade seria para duas paradas, mas o rendimento do composto macio e a posição de pista poderiam significar que uma parada seria possível, ou que três pit stops seriam o melhor caminho. De qualquer maneira, a tática precisava ao mesmo tempo dar pista livre para quem tinha ritmo, e dar posição de pista no final. Afinal, a pista da Hungria é uma das que exigem um dos maiores deltas da temporada para a ultrapassagem.
Piastri pula na frente na largada
A bird's-eye view of the race start from the helicopter 🚁🎥#F1 #HungarianGP pic.twitter.com/UNlXEJBkL1
— Formula 1 (@F1) July 27, 2026
Na largada, Piastri surpreende e passa Leclerc e Norris para assumir a liderança. Verstappen e Hamilton também superam o monegasco, enquanto o motor de George Russell entra no anti-stall e ele vai parar em último. Com isso, Antonelli pula para sexto.
Nunca ficando a mais de 2s de Piastri, Norris deixa claro que tem mais ritmo, enquanto Hamilton tenta de tudo para pressionar Verstappen, sem conseguir passar. Antonelli se distancia do grupo da frente, poupando pneus.
O primeiro a parar é Hamilton, conseguindo um undercut em Verstappen. Mas o holandês fez uma grande ultrapassagem logo depois, voltando a ficar na frente da Ferrari. Na ponta, Piastri para uma volta antes de Norris e mantém a liderança. E Antonelli consegue levar o primeiro jogo de pneus até a volta 22, construindo um offset para atacar no final da prova.
Bold and brilliant 💪#F1 #HungarianGP @Max33Verstappen pic.twitter.com/ysh5ZjTl9L
— Formula 1 (@F1) July 26, 2026
Ferrari arisca, McLaren responde, Red Bull espera
A Ferrari arrisca novamente na volta 30, chamando Hamilton aos boxes com 40 voltas ainda para o final. A ideia era obrigar Verstappen a parar também, mas a Red Bull decide não responder.
Na verdade, quem sente a necessidade de cobrir a parada de Hamilton é a McLaren, que chama o líder Piastri três voltas depois, quando ele já tinha perdido 4 dos 7s de vantagem que tinha para o britânico.
A parada também serve para liberar Norris, que estava pedindo por ordens de equipe por sentir que estava mais rápido que o companheiro. Era a hora de demonstrar isso, e o britânico ganha dois décimos sem o australiano a sua frente.
Norris foi chamado aos boxes seis voltas depois. Seria uma saída apertada, não fossem os dois segundos perdidos por Piastri quando Carlos Sainz ignorou sua presença quando estava levando uma volta.
A pane das banedeiras azuis
Sainz 💥 Piastri: the team radio edition 😠#F1 #HungarianGP pic.twitter.com/OCYAotlyQQ
— Formula 1 (@F1) July 26, 2026
Aqui é preciso fazer um parênteses. Desde a volta 6, deu a louca no sistema de bandeiras azuis. Normalmente, o retardatário recebe um sinal luminoso no volante e vê, no painel, a luz azul piscando com seu número. Na Hungria, o sistema do volante e dos números não estavam funcionando, e vários pilotos estavam vendo a luz azul piscando nos painéis o tempo todo. Então ninguém sabia o que era uma bandeira azul real e o que era um problema.
A FIA mudou para o sistema manual quando percebeu o erro, e sobrou ainda para os engenheiros de pista, chamados de Teletubbies por Toto Wolff por falharem em avisar seus pilotos que os líderes estavam chegando.
Para Piastri, isso significou a perda da liderança e qualquer chance de vencer, já que Norris tinha mesmo um ritmo melhor. E a dobradinha da McLaren foi por água abaixo quando o australiano teve uma quebra de câmbio na volta 55, a 15 do final da prova.
Parar ou não parar no VSC?
O cenário era o seguinte: Norris na frente, com 14s6 para Hamilton, que estava vendo Verstappen se aproximar com pneus 11 voltas mais novos. O holandês estava a 3s dele. Leclerc estava a 8s de Verstappen e prestes a ser ultrapassado por Antonelli, que tinha acabado de parar e vinha 2s por volta mais veloz que as Ferrari.
Exposta pelo risco que assumiu na metade da prova ao antecipar principalmente a parada de Hamilton, a Ferrari calcula que é melhor perder a posição com Verstappen e ter pneus melhores para que Lewis se defenda contra Antonelli.
É aí que aparecem mais erros de execução: Hamilton para fora de suas marcas e o pitstop é lento. Na saída, sabendo que estaria muito perto de Antonelli, o inglês desliga o limitador de velocidade fracionalmente antes da linha, e é punido por excesso de velocidade nos boxes. Pior: ele volta à pista atrás de Antonelli, então não tem a possibilidade nem de tentar abrir os 5s para ficar à frente do rival.
Na ponta, Norris ainda pode se dar ao luxo de parar e voltar em primeiro, com Verstappen custando a acreditar que conseguiu colocar um carro com o qual brigou por todo o fim de semana em segundo, e Antonelli conseguindo superar ambas as Ferrari em terceiro sem grandes atualizações no carro há tempos e em uma pista sem as curvas de alta velocidade em que a Mercedes brilha.
Hamilton ainda perde a quarta colocação para Leclerc, com a Ferrari relutando a pedir ao monegasco que administrasse o ritmo para que a punição de Hamilton não afetasse sua classificação final. Hadjar foi o sexto e Russell, o sétimo.
Mais um round de Racing Bulls x Audi
Racing Bulls e Audi protagonizaram uma boa briga tática pelas últimas posições nos pontos. Hulkenberg tinha largado entre Lindblad e Lawson, enquanto Bortoleto sofreu na classificação e largou em 14º.
O brasileiro passa as primeiras 13 voltas preso atrás de Ocon. Quando passa o francês, seu ritmo aparece, e ele passa a andar 1s por volta mais rápido que Hulkenberg, chegando no grupo liderado por Lawson (que tinha passado Nico e Lindblad na largada).
A Audi chama Hulkenberg para tentar um undercut. A Racing Bulls para seus dois pilotos nas duas voltas seguintes e defende a ofensiva do time alemão. Como o ritmo de Bortoleto segue forte, eles decidem ir para o plano C, de uma parada.
Bortoleto para na volta 29 e retorna à pista 14s atrás de Hulkenberg. Nove voltas depois, quando o alemão faz sua segunda parada, o brasileiro já estava a 11s do companheiro.
Aqui a Racing Bulls divide as estratégias: Lawson faz a segunda parada três voltas depois de Hulkenberg, e Lindblad fica com a dura missão de fazer 50 voltas no mesmo jogo de pneus, para responder à tática de Bortoleto.
Antes do VSC, Bortoleto estava chegando em Lindblad, os dois pilotos que tinham pneus mais novos estavam chegando nos dois que tentavam fazer uma parada. Seria uma batalha entre posição de pista e borracha mais nova. Aliás, foi para defender a tese (abandonada pela Ferrari) de que a posição de pista é o principal na Hungria que Racing Bulls e Audi não desistiram da parada única quando tiveram a chance no VSC.
Talvez pela velocidade mais lenta adotada quando a corrida foi neutralizada, Bortoleto sentiu uma queda tão brusca de desempenho que chegou a achar que algo tinha quebrado no seu carro. Nisso, foi ultrapassado por Lawson e Hulkenberg e saiu da zona de pontuação.
Mas ainda havia esperança, com as nove voltas de vantagem de pneu que tinha em relação a Lindblad. Ele abriu a última volta a 0s1 do inglês, mas não conseguiu passar. Com isso, Lawson foi o oitavo, Hulkenberg fez seus primeiros pontos do ano em nono, e Lindblad conseguiu sobreviver com pneus velhos para fechar o top 10.
Outro destaque do GP da Hungria, ainda que fora dos pontos, foi a Aston Martin. A lanterna absoluta das corridas anteriores levou um carro B para a Hungria e colheu seus primeiros frutos, com Fernando Alonso chegando ao Q2 e terminando um GP com apenas três abandonos em 14º.


No comment yet, add your voice below!