Os recordes que marcaram o ano

Quem acompanhou a temporada de 2010 no FasterF1 já sabe: na semana seguinte a cada GP, são compilados os recordes e curiosidades que cercaram o evento. Ao final, esta será a temporada em que tivemos o campeão do mundo mais jovem da história, o 1º título de construtores da Red Bull, o 1º piloto a alcançar a marca de 300 largadas… enfim, foi um ano cheio de surpresas e números interessantes. Por meio destas marcas, dá para contar um pouco da história desse campeonato.

Bahrein

Alonso vence em sua estreia na Ferrari, tornando-se apenas o 3º na história a conseguir o feito. Antes dele, apenas Nigel Mansell e Kimi Raikkonen debutaram logo no lugar mais alto do pódio.

Foi o GP de estreia de Vitaly Petrov, Nico Hulkenberg, Bruno Senna, Karun Chandhok e Lucas di Grassi. Dois brasileiros e um alemão ao lado de pilotos vindos dos mercados emergentes da Rússia e Índia. Não coincidentemente, estes dois países foram anunciados neste ano como novos promotores de GP.

Barrichello se tornou, ao lado de Graham Hill, o piloto que mais temporadas consecutivas iniciou: 18.

Austrália

A corrida de Melbourne não começou bem para Webber e não terminou bem para Vettel: a dobradinha se transformou em 2 pontos

Quem diria, foi a 1ª vez em sua breve história de 6 temporadas que a Red Bull fechou a 1ª linha do grid de largada.

Malásia

Indicando que esta seria uma temporada daquelas, pilotos de 3 equipes diferentes – Ferrari, McLaren e Red Bull – venceram as 3 primeiras provas da temporada pela 1ª vez desde 1990 (McLaren, Ferrari e Williams). Isso por cortesia de duas quebras de Vettel.

Com o erro de avaliação da chuva, Hamilton largou de pior posição – 20º – em sua história de 4 temporadas na F1.

China

É a estreia da dobradinha de Button e Hamilton pela McLaren – a última da equipe havia sido em Monza-2007, com Alonso e Lewis. Desde a última vez em que dois britânicos ocuparam os lugares mais altos do pódio lá se vão 11 anos: Coulthard e Irvine no GP da Austrália de 1999.

Espanha

Mark Webber liderou uma prova de ponta a ponta pela 1ª vez na carreira. Lembrando que o australiano estreou na F1 em 2002 e tem exatamente o mesmo número de largadas de Alonso. Aliás, esta não é a única semelhança entre os dois.

Mônaco

Não coincidentemente, após 2 vitórias incontestáveis, Webber chega à liderança do campeonato de F1 pela 1ª vez na carreira.

Turquia

A prova que marcou os 800 GPs da história da Ferrari, mesmo num circuito que tantas alegrias já deu para a Scuderia – 3 vitórias, todas de Felipe Massa, em 5 anos – foi o ponto mais baixo do ano em termos de performance: 8º e 12º no grid, com o brasileiro a 0.8s do pole Webber, e 7º e 8º na corrida.

Canadá

Na 8ª etapa do campeonato, Hamilton se torna o 5º líder diferente da classificação, um recorde na história da F1.

Europa

Sinal dos tempos para Schumacher, que obtém sua pior posição de chegada na carreira: incrivelmente, um 15º lugar – e olha que o alemão completou 269 GPs ao final do ano!

O domingo de Valência foi um dos dias mais traumáticos para Schumi em 2010

Inglaterra

Um toque entre os companheiros que resultou num pneu furado para Massa na 1ª volta, somado a uma punição na pior hora possível – junto de um Safety Car – para Alonso fizeram com que os 14º e 15º lugares de Silverstone fossem o pior resultado da Ferrari desde o GP da França de 1978.

Alemanha

A Williams alcançou uma marca negativa em Hockenhein: foi o 100º GP seguido sem vitórias do time inglês, e as perspectivas de mudar esse quadro a curto prazo são mínimas. A última vitória foi no GP do Brasil, em 2004, com Montoya.

Hungria

Uma prova antes de Barrichello completar 300 GPs e no mesmo ano que a Ferrari comemorou 800, a jovem Red Bull “soprou as velinhas” pela 100ª corrida da equipe na F1. E, não fosse o vacilo de Vettel, o faria com uma dobradinha convincente.

Bélgica

A homenagem ficou bonita

Ele já é o piloto com maior número de largadas desde o ano passado, mas, mesmo com mais festa que tempo de pista na corrida nº 300, Barrichello mostrou que ainda tem fôlego para andar de igual para igual com meninos que vestiam fraldas quando ele já era campeão no kart.

Itália

Coroando seu ano de lua de mel com a Ferrari, Alonso se tornou o 1º piloto desde Niki Lauda, em 1974, a fazer a pole e vencer na estreia pelo time em Monza

Cingapura

Novamente Alonso foi o nome do final de semana ao ser o 21º piloto na história da F1 a conquistar o grand chelem: pole, volta mais rápida, e vitória liderando todas as voltas da corrida. O último a ter alcançado o feito foi Schumacher (pela 5ª vez!), com sua imbatível Ferrari de 2004, na Hungria.

Nos tempos da alta tecnologia, a velha pitboard diz tudo

Japão

Schumacher esteve na zona de pontuação pela 200ª vez na carreira, o que lhe dá uma média de pontuar em cerca de 75% das corridas em que largou.

Coreia

Começou de dia, terminou à noite e, mesmo sem muita luz, vimos as 55 voltas programadas: com 2h48min20.810, este foi o GP mais longo em 50 anos na F1.

Brasil

Na prova com maior número de carros classificados desde o GP da Inglaterra de 1952, a Red Bull conquistou seu 1º título de construtores da história. Curiosamente, foi o 2º novo integrante seguido a entrar na lista, depois da Brawn em 2009. Uma sequência como essa havia acontecido pela última vez entre 62 e 63, com BRM e Lotus.

Abu Dhabi

Para ninguém esquecer que ainda é um menino

Vettel quebra mais um recorde de precocidade – já é o pole e vencedor mais novo da história da categoria. Agora, também é o campeão mais jovem, com 23 anos, 4 meses e 11 dias. O alemão conseguiu o feito ao alcançar, a última prova do ano, a liderança da tabela pela 1ª vez na carreira e se torna o 3º piloto a chegar na decisão do campeonato com 2 rivais mais bem colocados e, mesmo assim, conquistar o título, emulando Giuseppe Farina e Kimi Räikkönen.

A temporada 2010 em números

Os números mostram muito bem a temporada que poderia ter sido: as poles, a posição média de largada e o número de voltas na liderança dão a medida da superioridade técnica da Red Bull.

Fica claro também o prejuízo de Hamilton com os abandonos na parte final do campeonato – sua média de posição de chegada é melhor que de Webber, mas estas 3 provas – e ainda o acidente no finalzinho do GP da Espanha, quando vinha em 2º –  relegaram ao inglês o papel de coadjuvante nas últimas provas.

A falta de confiabilidade da Sauber – ajudada pelos 4 abandonos por acidente de Kobayashi – só pode ser comparada às equipes novas. Curiosamente, entre as estreantes, a mais lenta foi a mais confiável: o Hispania quebrou 9 vezes, contra 10 da Lotus (sendo a grande maioria dos problemas relacionados ao câmbio, e daí a importância da parceria com a Red Bull para ano que vem) e impressionantes 13 do carro “feito em computador” da Virgin.

Outra estatística interessante é da diferença de tempo média entre os companheiros de equipe na classificação. Para quem ficou curioso, a distância entre Alonso e Massa pós-Alemanha foi menor do que nos 10 GPs anteriores – excluindo-se a classificação de Mônaco, da qual o espanhol não participou, e contando a de Hockenhein: até lá, Alonso era, em média, 0.347s mais rápido que Massa aos sábados – e o placar entre os dois. mostrava 8 a 2.

Vitórias

PilotoVitórias
Fernando Alonso5
Sebastian Vettel5
Mark Webber4
Lewis Hamilton3
Jenson Button2

Poles

PosPilotoPoles
1Sebastian Vettel10
2Mark Webber5
3Fernando Alonso2
4Lewis Hamilton1
5Nico Hülkenberg1

Voltas mais rápidas

PosPilotoVoltas mais rápidas
1Fernando Alonso5
2Lewis Hamilton5
3Sebastian Vettel3
4Mark Webber3
5Jenson Button1
6Robert Kubica1
7Vitaly Petrov1

Pódios

PosPilotoPódios
1Mark Webber10
2Fernando Alonso10
3Sebastian Vettel10
4Lewis Hamilton9
5Jenson Button7
6Felipe Massa5
7Nico Rosberg3
8Robert Kubica3

Voltas completadas

PosPilotoVoltas
1Fernando Alonso1120
2Felipe Massa1074
3Sebastian Vettel1066
4Jaime Alguersuari1045
5Mark Webber1043
6Rubens Barrichello1030
7Nico Rosberg1029
8Michael Schumacher1023
8Jenson Button1023
10Adrian Sutil1002
11Lewis Hamilton1001
12Robert Kubica995
13Vitaly Petrov939
14Heikki Kovalainen926
15Nico Hülkenberg923
16Sebastien Buemi891
17Vitantonio Liuzzi832
18Timo Glock821
19Jarno Trulli816
20Lucas di Grassi769
21Kamui Kobayashi720
22Bruno Senna700
23Pedro de la Rosa537
24Karun Chandhok479
25Sakon Yamamoto331
26Nick Heidfeld269
27Christian Klien149

Voltas na liderança

PosPilotoVoltas
1Sebastian Vettel382
2Mark Webber317
3Jenson Button145
4Fernando Alonso126
5Lewis Hamilton100
6Felipe Massa42
7Nico Rosberg16
8Sebastien Buemi1

Abandonos

Abandonos após 90% da prova completados não são considerados

PilotoMecânicaAcidenteTotal
Bruno Senna729
Timo Glock729
Kamui Kobayashi448
Lucas di Grassi628
Pedro de la Rosa527
Jarno Trulli707
Vitantonio Liuzzi156
Heikki Kovalainen325
Sebastien Buemi145
Vitaly Petrov235
Nico Hülkenberg134
Adrian Sutil224
Lewis Hamilton123
Robert Kubica303
Sebastian Vettel213
Karun Chandhok022
Jaime Alguersuari202
Jenson Button112
Rubens Barrichello112
Nico Rosberg112
Mark Webber022
Michael Schumacher112
Sakon Yamamoto101
Fernando Alonso011
Christian Klien101
Nick Heidfeld011
Felipe Massa011

Posição média de largada

PosPilotoPosição média de largada
1Sebastian Vettel2.0
2Mark Webber2.5
3Lewis Hamilton5.2
4Fernando Alonso5.8
5Jenson Button6.9
6Robert Kubica6.9
7Nico Rosberg7.4
8Felipe Massa7.8
9Rubens Barrichello9.4
10Michael Schumacher9.9
11Nico Hülkenberg11.2
12Adrian Sutil12.2
13Nick Heidfeld13.4
14Kamui Kobayashi13.9
15Vitaly Petrov14.2
16Pedro de la Rosa14.4
17Sebastien Buemi14.8
18Vitantonio Liuzzi15.1
19Jaime Alguersuari15.3
20Heikki Kovalainen18.8
21Jarno Trulli18.8
22Timo Glock20.1
23Lucas di Grassi21.9
24Bruno Senna22.3
25Sakon Yamamoto22.7
26Christian Klien23.0
27Karun Chandhok23.5

Posição média de chegada

PosPilotoPosição média de chegada
1Sebastian Vettel3.63
2Lewis Hamilton3.75
3Mark Webber4.00
4Jenson Button4.47
5Fernando Alonso4.56
6Robert Kubica5.94
7Nico Rosberg6.53
8Felipe Massa7.11
9Michael Schumacher8.65
10Kamui Kobayashi9.27
11Adrian Sutil9.80
12Rubens Barrichello9.88
13Vitantonio Liuzzi11.23
14Nick Heidfeld11.25
15Vitaly Petrov11.43
16Pedro de la Rosa11.57
17Jaime Alguersuari11.88
18Nico Hülkenberg11.93
19Sebastien Buemi12.07
20Heikki Kovalainen15.31
21Karun Chandhok16.88
22Jarno Trulli17.27
23Bruno Senna17.44
24Lucas di Grassi17.60
25Timo Glock17.60
26Sakon Yamamoto18.17
27Christian Klien21.00

Diferença entre os companheiros em classificação

Diferença média no ano entre os companheiros, levando em consideração a última sessão (Q1, Q2 ou Q3) de que ambos participaram.

PosPilotoDiferença média
1Timo Glock-1.86
2Robert Kubica-0.75
3Adrian Sutil-0.69
4Christian Klien-0.58
5Bruno Senna-0.54
6Kamui Kobayashi-0.33
7Fernando Alonso-0.30
8Nico Rosberg-0.28
9Lewis Hamilton-0.16
10Rubens Barrichello-0.14
11Jarno Trulli-0.08
12Sebastien Buemi-0.05
13Sebastian Vettel-0.05
14Mark Webber0.05
15Jaime Alguersuari0.05
16Heikki Kovalainen0.08
17Nico Hülkenberg0.14
18Jenson Button0.16
19Sakon Yamamoto0.21
20Michael Schumacher0.28
21Felipe Massa0.30
22Nick Heidfeld0.33
23Pedro de la Rosa0.34
24Vitantonio Liuzzi0.69
25Vitaly Petrov0.75
26Karun Chandhok1.00
27Lucas di Grassi1.86

O que está por trás da F1 “verde”

Energias reaproveitáveis, motores “de carro comum”. Não é difícil ver que a F1 se encontra numa encruzilhada. Em seu DNA, a missão de ser a mais tecnológica e desenvolvida das categorias do automobilismo. Em sua realidade, uma brincadeira cada vez mais restrita. As mudanças anunciadas para os próximos anos – KERS, biocombustíveis, motores de quatro cilindros com capacidade volumétrica de apenas 1.600 centímetros cúbicos – são uma mensagem clara do caminho escolhido: a mudança em nome da sobrevivência.
Os fãs podem – e vão – reclamar do som dos novos motores e, para os amantes dos carros, um F1 sem cavalos e mais cavalos de potência faz pouco sentido. No entanto, o caminho escolhido pela FIA visa o futuro e, por mais que pareça um retrocesso, a ideia é  continuar fazendo da categoria escola para a indústria automobilística. A utilização de energia renovável nos veículos é a saída para sobreviver à onda de sustentabilidade e a diminuição – ainda tímida – de 35% no consumo de combustível nos motores de 2013 visa atrair esses fabricantes para usar a categoria como tubo de ensaio. É o futuro da indústria. Resta saber se é o da F1.

Fica a lembrança dos V10 antes do congelamento do desenvolvimento desfilando pelas ruas de Mônaco:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=OLPmMNS6_MI]
A Ferrari, é claro, foi a primeira a chiar. Luca di Montezemolo já disse que nunca haverá um modelo de rua da marca italiana com 4 cilíndros e ameaçou, novamente, sair da categoria – a McLaren também não deve estar muito animada, já que está entrando no mercado dos supercarros e pretende fazer seus próprios motores ao final do contrato com a Mercedes, em 2015. Nos bastidores, afirma-se que é uma ideia para agradar uma marca especificamente. Seria a Renault, cuja má vontade de continuar como equipe foi mais que evidenciada pela desesperada tentativa de Briatore em Cingapura.
Mas os franceses, cujo mercado é quase totalmente voltado aos carros “comuns”, não são os únicos interessados. Os japoneses, especialmente a Honda – que traria na esteira a Toyota – , ensaiam um retorno como fornecedores de motores, assim como a Volkswagen. A rendição às energias renováveis seria uma forma de garantir a volta das montadoras de forma mais sadia que a farra de gastos dos anos 2000.

As montadoras voltam, mas sem a gastança de antes

Parelelamente, há as discussões para um novo acordo em relação aos direitos comerciais. A contrato atual tem validade até o final de 2012. O presidente da Ferrari vê 3 alternativas: renovar com a CVC/ Bernie Ecclestone, encontrar outro promotor ou deixar tudo nas mãos da associação das equipes, como acontece – com constantes desavenças, é verdade – com a NBA. “Só sei que quero discutir com Bernie, porque não quero conversar com gente que respeito, mas que não sabe nada sobre F1”.
A princípio, parece que vem briga feia por aí, mas há duas diferenças em relação a 2009, quando a politicagem fez de tudo para tirar a atenção das pistas e a F1 como conhecemos quase foi para o buraco: tanto o atual presidente da FIA, Jean Todt, quanto aquele que muito provavelmente será reeleito no comando da FOTA, Martin Withmarsh, cultivam o tom conciliador. Resta saber se Bernie será tão amigável nas negociações quanto os motores com a natureza.

Motor bom é o que não quebra – ainda mais com 20 provas

Os motores foram um dos assuntos centrais de 2010. A necessidade de fazer as mesmas 8 unidades durarem pelo que foi o campeonato mais longo da história – e que ganhará mais uma etapa ano que vem, tornando essa questão da durabilidade ainda mais importante – e a suposta deficiência dos Renault da Red Bull em relação, especialmente, aos Mercedes, fizeram com que as peças que provavelmente menos se desenvolvem na categoria – há um congelamento em vigor desde o final de 2006 – tivessem papel central na disputa.

No entanto, as análises dos engenheiros mostram que a bronca de Christian Horner com seu motor Renault não é tão justificada. Os franceses tiveram a permissão da FIA para equalizar seus propulsores com os Mercedes e Ferrari ao final de 2008, e vieram com uma solução que não fica muito atrás em potência, além de ganhar em torque nas curvas lentas e menor consumo. Em números de 2009, a diferença entre o melhor e o pior motor na F1 (na época, o Toyota) era de 2.5%. Ou seja, enquanto acredita-se que o Mercedes tenha 755hp, o japonês teria 18hp a menos, o que representaria menos de 0.3s por volta.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ugSx3RZ6Lpw]

Em relação ao Renault, a diferença seria menor e, como o consumo permitiria dar cerca de 4 voltas a mais, com o tanque cheio, isso representaria uma diferença de 0.3s por volta! Nesse quesito, o Ferrari era claramente o pior em 2009, mas o trabalho junto à Shell fez a equipe crescer nesse sentido.

Como a diferença final entre as marcas não é relevante, a questão mais importante é, de fato, a confiabilidade. Como a Ferrari sentiu na pele neste ano, perder motores em qualquer fase do campeonato pode custar caro no final. “Degradação é uma das chaves para a performance de motores, e obviamente nós não negamos nossa degradação de potência no começo da temporada”, reconhce Mark Gallagher, diretor geral da Cosworth na F1. “Todos buscamos a degradação zero, mas isso é impossível devido à grande movimentação de componentes de metal, mesmo com a lubrificação sofisticada. Isso quer dizer que ocorre um pouco de perda a cada momento.”

O BMW não devia em potência para os Mercedes

Um motor de F1 dura cerca de 2.500km. Portanto, as equipes têm ao seu dispor 20.000km para distribuir pelo ano. Pensando que um piloto anda entre 500 e 700km por final de semana de corrida, mesmo com um calendário de 20 provas, trabalha-se com uma certa folga. No entanto, é fácil entender por que uma quebra causa tanta dor de cabeça para os times.

Outra variável a ser observada é que há circuitos que demandam mais do motor. É preciso encontrar um equilíbrio entre a degradação dessa unidade, que provavelmente terá que ser usada em outros locais, e a necessidade de ter um propulsor o mais novo possível para não comprometer o rendimento.

Determinar a degradação é, portanto, fundamental para o planejamento. Com os motores lacrados, não se pode abri-los e examiná-los – nem em dinamômetros –, por isso procura-se vestígios de metal nas amostras dos lubrificantes. A presença de certos tipos e quantidades de metal mostra qual o estado do motor. “É como um exame de sangue”, compara Gallagher. Um pouco diferente do que era feito no passado:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=0cbjqj5Kidk&feature=related]

Essa degradação explica por que os motores apenas são usados por 3 finais de semana. Quando chegam a cerca de 60% da vida útil são relegados aos treinos de sexta-feira até alcançarem os 2.500km.

Os números impressionantes da telemetria da F1

Todo o trabalho de identificar anomalias nos carros, dentre muitas outras funções, fica a cargo de 150 a 300 sensores ligados – varia de acordo com a pista, devido ao peso do carro – em cada canto do chassi, que controlam o  desempenho do motor, a eficiência aerodinâmica, a pressão do óleo, a aderência dos pneus e o desgaste de freio, além de gerar informações chave para a comparação entre os companheiros de equipe e a melhoria dos tempos de volta.

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Passado, presente e desafios da comunicação via rádio

Hoje é impossível imaginar a F1 sem a possibilidade de comunicação via rádio. Tanto, que vemos cada vez mais pilotos dependentes das informações que vêm do pitwall para tomar suas decisões na pista – recentemente, ouvimos o engenheiro do ex-Williams Nakajima dizendo o que o piloto tinha que fazer na largada, avisando de que lados estavam os rivais e qual o melhor caminho a seguir. Ouvimos, também, Rob Smedley dar dicas de pilotagem para Massa contornar melhor determinada curva e colocar-se em posição de ultrapassar um rival.

A comunicação inclusive é usada como prova em casos de quebra de regulamento. Foi ela que delatou Hamilton na Austrália em 2009:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ui1H_SbBVxc]

Mas a comunicação entre piloto e engenheiro é muito mais que isso. Com ela, foi possível dar ao piloto uma série de controles por meio de botões no volante que ajudam a adaptar o carro a diversas situações.

Isso só é possível devido à comunicação direta. Se os engenheiros percebem algum problema no carro, logo avisam o piloto, geralmente em mensagens codificadas: “Golf 7, please”, vira e mexe ouvimos alguém da McLaren dizer, como se estivesse brincando de batalha naval.

Mas essa é uma possibilidade relativamente recente. O primeiro homem que viu a importância de se comunicar com o piloto durante a corrida de forma mais eficiente que as antigas placas foi Colin Chapman. O inglês adaptou um sistema de comunicação de aviões de caça, inicialmente para conversar com os pilotos durante os pitstops. Isso ainda na década de 1970.

Mario Andretti usa a engenhoca de Colin Chapman nos anos 1970

A ideia foi sendo adaptada e melhorada pelos rivais, até chegar aos sistemas que temos hoje. O grande salto tecnológico nessa área foi dado nos anos 1980 e, ao final da década, todas as equipes possuíam seus sistemas. Nos tempos de Lotus, Ayrton Senna foi o primeiro piloto a ter em seu carro o rádio como o conhecemos. Um especial do Discovery Channel fala mais sobre o assunto: The Secret Life Of F1.

A inovação viria a ajudar na troca de informações entre piloto e equipe, uma vez que a telemetria ainda engatinhava na época, como veremos no post de amanhã. A única forma do time saber dados como a temperatura da água ou qual o nível de combustível era perguntando a ele. Hoje, os engenheiros de pista – e, raramente, os chefes de equipe – falam com os pilotos, enquanto os engenheiros que trabalham dentro do box, analisando dados de performance e estratégia, conversam com o pitwall.

De fora, parece simples, mas não é. As equipes usam profissionais acostumados a trabalhar com mensagens encriptografadas para fazer o sistema funcionar. “O mais complicado é manter o link com o carro a 300km/h”, avalia o espanhol José Santos, que trabalhou na área em meados dos anos 2000. “Temos um equipamento especial no carro, que pesa cerca de 200 gramas. O piloto usa fones de ouvidos – feitos sob medida – e dentro do capacete instalamos um microfone de 5mm de diâmetro.”

Vira e mexe vemos a cena pouco agradável dos pilotos usando saliva para garantir que os auriculares ficarão no seu lugar

“Usamos um microfone de dupla face. Uma só capta todo o barulho externo e outra, a voz do piloto. O grande problema é o ruído causado pela parte eletrônica do carro, além, é claro, da mecânica.” A cada GP, o governo local estipula qual frequência poderá ser usada. “Mesmo assim, principalmente no domingo, o problema é o grande número de frequências conectadas ao mesmo tempo. Cada time tem de 20 a 40, além das TVs, rádios, pessoas que trabalham na organização e o público em si. Na hora da corrida, são umas 600 a 700 frquências ligadas ao mesmo tempo”.

Alguns circuitos são mais complicados que outros. As árvores, como em Monza e Spa, atrapalham muito, principalmente quando há vento. Outro desafio é trabalhar em circuitos como Interlagos ou Mônaco, localizados no meio das cidades, onde há ainda mais frequências com que rivalizar. Mas o pior é Melboune: no meio da cidade, num parque, e num local que tem muitas antenas de TV. “É mais fácil falar com um cara na lua do que com um piloto num final de semana de corrida”.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Lz2zabfNKF8]

Mas este foi o segundo grande passo no quesito comunicação. No início da F1, nem as placas eram usadas e os engenheiros tentavam se fazer entender no grito mesmo, no meio de todo o barulho. Foi o diretor da Mercedes, Alfred Karl Neubauer, o pioneiro no uso de placas para se comunicar com pilotos, algo que ainda é utilizado, já que, ao contrário de qualquer apetrecho eletrônico, nunca falha!

O chefão Neubauer na cola do homem do pitboard da Mercedes

No que, pelo menos à primeira vista, parece ser uma nova era na comunicação via rádio, os áudios passaram a ser liberados para o público nos anos 2000. A forma como isso acontece sofreu algumas alterações. Já foi ao vivo (ideia que ficou para trás devido aos inevitáveis palavrões), já foi facultativo (Ferrari e McLaren escondiam os seus) e, a partir de 2012, a FIA prometeu que serão liberados às empresas que têm os direitos de transmissão. Mesmo com todas as censuras, muitas conversas de rádio deram o que falar – e deixaram um pulga atrás da orelha: e as mensagens que não ouvimos?

Outra pergunta que fica é sobre o futuro. Será que um dia veremos os companheiros de equipe falando um com o outro?

O cérebro é o músculo mais importante numa corrida

Um carro de F1 pode levar menos de 5s para chegar a 160 km/h e desacelerar a 0 novamente. A aderência é tanta que o piloto sofre cargas laterais de até 6G, ou seja, uma pressão seis vezes maior que seu próprio peso. Em lugares como Malásia e Cingapura, a temperatura no cockpit alcança 50ºC, e os pilotos chegam a perder 3 litros de água durante uma prova.

É, inegavelmente, um esforço físico fora do comum. E quando somamos tudo isso a tempos de volta praticamente idênticos, por quase 2h, e decisões estratégicas, tanto de dosagem do equipamento, quanto de ultrapassagens, entendemos por que o médico Riccardo Ceccarelli, grande especialista em treinamento de pilotos diz que é o cérebro o ‘músculo’ mais importante de um piloto. “Eles têm algo diferente no cérebro, porque têm que ser rápidos, inteligentes e capazes de reagir e tomar decisões. Quando comecei a trabalhar com pilotos, tinha a mesma idade deles, e fiquei impressionado com a capacidade que eles têm de tomar decisões do dia-a-dia. Certamente têm um cérebro mais rápido que o meu”.

E hoje em dia, com o número de variáveis que o piloto controla no volante – e no ajuste de freios – ao mesmo tempo em que houve um considerável aumento das forças G, pode-se dizer que a inteligência é mais importante que antes. “Todos os pilotos têm talento. Mas, desde os anos 60, há uma evolução: antes, correr na F1 tinha mais a ver com talento nato. Com a eletrônica, este esporte se transformou em algo mais ‘cerebral’, agora são exigidos mais dotes de atenção e concentração”, salienta o italiano, com mais de 20 anos de experiência no esporte e mais de 600 pilotos analisados, entre eles Massa, Alonso e Kubica.

Nesse vídeo da TV5, vemos Antonio Lobato, narrador espanhol, passando pelos testes necessários para guiar um F1. Alguns deles trabalham os reflexos:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=FAp6yuo9Q1o]

É claro que, mantendo o físico em dia, é possível focar-se mais facilmente na corrida em si, e não do pescoço que dói ou na estafa causada pelo calor. Ficar em forma, contudo, todos fazem. “Quando você chega a um ponto em que seu coração trabalha bem e você é suficientemente forte para que a pilotagem seja fácil, falta a mente.”

Ceccarelli exemplifica com os dados dos batimentos cardíacos de um piloto – que diz ser um dos melhores do mundo, sem citar nomes – durante uma corrida: 184bpm de média e 201 de pico (quem já tentou descobrir sua frequência cardíaca máxima, provavelmente usou a conta 220 – idade… provavelmente isto não quer dizer nada dentro de um cockpit). Tudo isso mantendo a capacidade de processamento de informações em dia, para que não cometa erros. “Um piloto deve estar em forma para aguentar a corrida sem fadiga. Porém, para melhorar o rendimento, precisa fazer com que seu cérebro funcione mais rápido, e por mais tempo.”

[dailymotion id=x79nzq]

É possível treinar isso também. Kubica, por exemplo, acertou as 100 tentativas em 1min num exercício em que aparece uma palavra colorida e você tem que checar se palavra e cor coincidem – para piorar, os botões de “verdadeiro” e “falso” trocam de lugar. O polonês é capaz de acertar 300 sem errar uma sequer. “Isso indica não apenas uma imensa concentração, como também um cérebro muito veloz para processar informação. É possível treinar o piloto, por meio de exercícios como esses, a usar menos energia para ter essa mesma velocidade de raciocínio, por meio da repetição.” Os exercícios vão de testes de reação simples – importantes na largada e ao sair dos pits – a provas de memória visual, concentração e estresse.

Isso leva ao que Ross Brawn chama de “Spare Brain Capacity”, ou a capacidade de pilotar usando o mínimo possível do cérebro. Quanto melhor o piloto, maior o espaço “livre” que ele tem no cérebro enquanto pilota. Isso lhe confere uma grande capacidade de pensar durante as corridas. E não há nada mais valioso que um piloto que pense.

Por que os pilotos não têm treinadores?

Quando pensamos que até o golfista Tiger Woods e o tenista Roger Federer, dois homens considerados os melhores na história em suas modalidades, têm treinadores, fica difícil responder a pergunta: por que pilotos acham que não precisam de ajuda?

Cada piloto tem ao seu redor diversas pessoas, mas nenhum que o diga como ou os treine para fazer seu trabalho. Eles são cercados por fisioterapeutas, fisiologistas, massagistas e empresários. Todos, de uma forma ou de outra, seus funcionários, e nenhum especialista em pilotagem em si. Algum deles se atreveria a criticar o patrão?

Geralmente vemos os fisios carregando o material dos pilotos e as pitboards. Estes são Jenson Button e Mike Collier

O ex-diretor de engenharia da Renault, Pat Symonds, abordou o tema numa recente entrevista para a revista Motorsport. “Os empresários só estão lá para carregar as malas deles e nunca os criticam, até porque estão ganhando 15% de seu salário. Eles precisam de treinadores de verdade para dizer quando estão sendo idiotas, porque todos eles são idiotas de tempos em tempos. O mais próximo que se tem disso é o engenheiro de pista.”

Não é coincidência que, vira e mexe, ouvimos alguns engenheiros de pista levando algum puxão de orelha desde o cockpit. Eles são o mais próximo que há de um treinador, e os pilotos não costumam gostar nada disso.

Por outro lado, relações como a de Felipe Massa e Rob Smedley geram desconfiança no meio. Quantas vezes já ouvimos o inglês dar dicas ao brasileiro de como contornar tal curva ou encontrar uma forma de ultrapassagem? O engenheiro ferrarista é, na prática, o treinador do piloto, mas isso é visto de uma maneira distorcida: “ele não deveria precisar que alguém de fora ensinasse como pilotar”. Como se fosse uma fraqueza.

mais próximo de um treinador que o piloto tem é seu engenheiro de pista. Vide a relação entre Rob Smedley e Felipe Massa

Mas não seria essa uma ajuda válida, como para qualquer esportista? Afinal, o engenheiro tem acesso a diversos parâmetros que o piloto desconhece. “É um esporte que tem essa imagem de ‘macho’, tem essa tradição. Mas, assim como o Michael introduziu a importância do treinamento físico, alguém um dia vai perceber que pode se beneficiar disso e todos vão se perguntar ‘por que não pensamos nisso antes?’”, acredita Symonds.

Há treinadores de pilotagem antes da F1. Pessoas como Rob Wilson ou John Stevens fazem esse trabalho em programas de desenvolvimento e até a McLaren já contou com seus serviços, entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000. Mas por que isso não continua na F1, sendo que vemos atletas olímpicos, no pico de sua forma, ainda cercados de profissionais?

os pilotos costumam fazer anotações sobre as pistas, para melhorar seu approach, mas nada muito científico

Parte do problema seria encontrar alguém capacitado. O engenheiro, claro, é um funcionário da equipe, assim como o piloto, o que pode comprometê-lo em momentos chave. E ele, é claro, sabe da teoria, não da prática – embora muitos grandes treinadores nunca tenham sido atletas.

Uma saída poderia ser buscar ex-pilotos. Contudo, eles teriam que ser constantemente atualizados, já que os carros mudam rapidamente – que o diga Schumacher, muito embora, voltando ao exemplo de Massa, coincidentemente ou não, os melhores dias da carreira do brasileiro foram vividos com o alemão por perto, mesmo depois do heptacampeão ter pendurado o capacete.

Em um final de semana de corrida, por exemplo, se seu companheiro consegue tirar mais do carro que você nos treinos, os engenheiros lhe darão os dados e mostrarão onde está a diferença. Mas como tirá-la é um problema exclusivamente seu – e você tem tempo de pista reduzido e uma pressão enorme para resolvê-lo. Talvez por isso, pilotos precisem confiar mais em seu talento natural que os demais esportistas. Por outro lado, fica a pergunta de quão melhor eles poderiam ser caso houvesse uma ajuda externa. E quem deixar o ego de lado e apostar nisso tem tudo para mudar essa história.

O cenário está complicado para Lucas e Bruno

Sob os holofotes devido ao Desafio das Estrelas de Kart, Bruno Senna e Lucas di Grassi driblaram as perguntas sobre seu futuro na F1. “Estamos conversando com algumas equipes”, ambos não pararam de repetir. E parece que estão no mesmo barco.

Tiveram um ano de estreia pra lá de complicado. Lucas, correndo ao lado do experiente Timo Glock e constantemente recebendo um equipamento inferior, já que a Virgin, apesar de ser controlada pelo milionário Richard Branson, tinha um orçamento baixíssimo, completou apenas 11 das 19 provas, com 6 falhas mecânicas.

Senna e Di Grassi estão no mesmo barco

Bruno, pilotando por uma equipe que, para se ter uma ideia, levou o mesmo pacote aerodinâmico para Monza e Mônaco, não viu a bandeirada 9 vezes, com 7 quebras. Sendo assim, é óbvio que dizer que nenhum dos dois tem lugar na F1 – especialmente no caso de Di Grassi, tendo em vista o que ele fez nas categorias de base – seria tão precipitado quanto apostar que pintou um novo campeão.

Contudo, o que está claro é que o cenário para 2011 é ruim para ambos. Das 24 vagas do grid, há apenas 6 em aberto, num ano de mercado muito fechado, com vários contratos longos em vigor, depois da dança das cadeiras de 2010.

Na Renault, cada vez fica mais claro que o lugar é de Petrov e seu caminhão de dinheiro/influência da Rússia.

Na Force India, há uma grande briga entre 4 candidatos: Liuzzi (que tem contrato em vigor), Sutil (que leva patrocínio e tem experiência) e os garotos que muito provavelmente são os preferidos da Mercedes, fornecedora de motores do time de Vijay Mallya, Di Resta (que corre de DTM) e o alemão-prodígio Hulkenberg.

Restam 3 vagas, não coindidentemente as piores do grid: duas na Hispania – se a equipe tiver quem faça um carro em 3 meses – e uma na Virgin, para a qual D’Ambrosio pinta com ares de favorito. Resultado: ou Bruno e Lucas ficam onde estão, ou dão um passo pra trás e entram no mercado dos pilotos reserva. E esse, como já perceberam amargamente De la Rosa, Wurz e  Heidfeld, para ficar em alguns exemplos, pode ser decisivo para o esquecimento.

F1 na TV Inglesa: depois da bandeirada, mais 1h de programa

Quem contrata a TV digital tem a opção de continuar, por mais cerca de 1h depois do final da transmissão da corrida – que raramente acaba logo ao final da cerimônia de premiação – assistindo a F1. No modo interativo, é apresentado um programa ao vivo in loco no qual os espectadores participam pelo twitter.

A equipe, geralmente alojada em um dos motorhomes das equipes, faz uma análise da corrida e recebe convidados, dirigentes, pilotos e engenheiros. Assistem as largadas de ângulos onboard que não foram mostrados na transmissão e as entrevistas de pilotos que não puderam ser mostradas no programa aberto têm seu espaço. É como uma mesa redonda, mas aqui há mais que arbitragem a se discutir.

Na 1ª delas no ano, no Bahrain, Hamilton faz uma confissão inesperada.

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Os ex-companheiros de equipe Button e Barrichello se encontram em entrevista dada logo após o GP da Inglaterra.

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Em Monza, a equipe da BBC é recebida pela Lotus em seu motorhome. Eddie Irvine é um dos convidados e fala, de uma maneira bem mais pé no chão do que muitas vezes vemos por aí, sobre como era ser tratado como 2º piloto na Ferrari.

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Vettel vence o campeonato pela mais festeira das equipes e, é claro, eles não poderiam perder o momento em que o alemão chega à garagem, logo após as entrevistas.

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F1 na TV inglesa: Bem que a Globo poderia copiar

Um dos pontos mais simples da transmissão da BBC, que costumam acrescentar bastante e poderiam muito bem ser copiados pela Globo, é o chamado “gridwalk” de Martin Brundle. O comentarista aproveita que todos estão reunidos na pista, minutos antes da largada, para conseguir várias entrevistas e informações quentes.

Em Suzuka, por exemplo, entrevista Schumacher, Button, Vettel, pega Adrian Newey dando uma conferida na Ferrari, e consegue uma informação exclusiva de Alonso.

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Em Cingapura, acaba levando uma bronca de Rosberg por ter interrompido a repórter alemã Tanja Bauer – e Nico nem sabia que era a 2ª vez que os dois se encontravam. Brundle ainda conversa com Barrichello, Vettel, Danny Sulivan, que trabalhava como comissário no GP, Ron Dennis e, como Hamilton não fala com a imprensa quando está no grid, Nicole Scherzinger.

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Em Mônaco, como era de se esperar, mais celebridades que pilotos. Para driblar o aperto incrível entre os carros das primeiras colocações, onde todos querem estar para serem vistos, Brundle visita o meio do grid.

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No GP da Itália, Brundle topa com Alan Permane, engenheiro da Renault, com a dupla da Williams, um Massa sorridente, Button (como de costume) e Christian Horner (outra figurinha fácil na BBC). Duas bandas britânicas, Kasabian e Stereophonics, também apareceram por lá.

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O pesadelo de 2007, a “aposentadoria” e a nova missão

A receita de Newey e Mercedes já não combinava como no final dos anos 1990. Se o projeto era bom, o motor não aguentava. Se o propulsor era confiável, faltava carro. E os melhores anos de Kimi Raikkonen foram desperdiçados numa McLaren que parecia fadada ao fracasso.

Repetindo a receita do passado, Ron Dennis foi atrás do melhor piloto do grid, e fechou o contrato com Fernando Alonso – válido a partir de 2007 – no final de 2005. Para juntar-se ao bicampeão do mundo, a McLaren fez uma aposta rara entre os times grandes: promover a estreia de uma jovem promessa, Lewis Hamilton, apoiado pelo time desde que tinha 13 anos.

O apoio quase paternal de Dennis foi fundamental no ano de estreia de Hamilton, mas também trouxe problemas

Dentro da pista, o MP4-22 dominou boa parte da temporada. Fora dela, a briga interna tornava o clima insustentável. Os 4 pódios de Hamilton nas 4 primeiras etapas do campeonato criaram uma grande expectativa para o GP de Mônaco, onde o inglês havia vencido todas as vezes em que estreou numa categoria. A perda da pole para Alonso gerou o comentário de que o estreante carregava 6 voltas a mais de combustível que o companheiro. Como na corrida isso não se confirmou, críticas de favorecimento ao espanhol estouraram na mídia inglesa e motivaram até uma investigação da FIA, que não encontrou nada de anormal no procedimento da equipe.

Em seguida, duas vitórias de Hamilton causaram fricção do outro lado da garagem. Agora quem se queixava era Alonso de que o tratamento era desigual, apoiado pela mídia espanhola.

A guerra tomou ares cinematográficos no treino de classificação para o GP da Hungria. Hamilton desrespeitou um acordo de cavalheiros dentro da equipe, de que deveria dar passagem ao companheiro no Q3. Como represália, Alonso impediu que ele fizesse sua última tentativa de volta rápida. Mesmo que a manobra não quebrasse qualquer regra do regulamento esportivo, o espanhol, que havia feito a pole, foi punido com a perda de 5 posições no grid. A equipe nada fez.

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Era do que Alonso precisava para entregar à FIA e-mails que comprometiam a equipe no chamado spygate, que seria outro grande drama do ano para a McLaren.

No centro de tudo estava Ron Dennis. Muitas vezes reconhecendo o sentimento paternal que tinha em relação ao garoto que, aos 10 anos, o abordou durante uma premiação dizendo que queria ser seu piloto, chegou a deixar escapar sua forma de pensar, ao explicar o erro estratégico que acabou custando o título a seu protegido. “O problema foi a chuva e os pneus dele estavam péssimos. Mas não estávamos nos importando com Kimi (que vinha em 2º na corrida e ameaçava a liderança de Hamilton). Não estávamos correndo contra Kimi, estávamos correndo contra Fernando.” Principalmente depois que se sentiu chantageado pelo piloto no episódio da Hungria.

A tensão interna já era insuportável - e impossível de esconder - ainda na metade da temporada de 2007

Mesmo dando esta escorregada, manteve o discurso da igualdade entre os pilotos. E perdeu os dois campeonatos. O de construtores como parte da punição sofrida pelo caso da espionagem, a grande mancha na carreira de Dennis.

Conhecido como um chefe muito controlador, o inglês sofreu um duro golpe quando ficou provado que o engenheiro-chefe da equipe, Mike Coughlan, recebeu 780 páginas de informações técnicas da Ferrari do mecânico-chefe dos italianos Nigel Stepney. As informações teriam sido usadas no desenvolvimento do carro. Num primeiro julgamento, o time de Woking foi considerado inocente. Contudo, com a descoberta de novas evidências, entre elas os e-mails trocados por Alonso e o piloto de testes Pedro de la Rosa, a McLaren foi punida com a perda dos pontos no mundial de construtores, uma multa de US$ 100 milhões e a obrigação do carro de 2008 passar por um teste para verificar se os dados roubados da Ferrari haviam sido usados.

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Era simplesmente algo que ia contra os princípios vendidos pelo estilo McLaren. “Nós tivemos alguém num alto posto técnico tomando algumas decisões pouco inteligentes – foi apenas uma tremenda ingenuidade e uma crença de que era tudo comum e aceitável… lembro como um ano muito difícil, em que tive que tomar decisões difíceis”, declarou recentemente. “A parte que eu não gosto é quando as pessoas acabam com a reputação de uma companhia por motivos que têm raízes em problemas com o quão duro eu lutei pelo que acredito ser certo para a F1 e a McLaren”, divaga, num belo exemplo de Ronspeak.

Seria um outro escândalo que tiraria Dennis de cena – ou pelo menos lhe deixaria um bom tempo sem visitar corridas. Quando Hamilton mentiu para os comissários para ficar com o 3º lugar no GP de abertura da temporada de 2009 e a McLaren correu novamente o risco de ser expulsa do campeonato, Ron, que então já havia deixado o cargo de chefe de equipe para Martin Whitmarsh, anunciou que se desligaria também da McLaren F1.

Especulou-se na época que o inglês teria encomendado o vídeo que mostrava o então presidente da FIA, Max Mosley, numa orgia sadomasoquista. E sua saída de cena seria uma tentativa de fazer com que a equipe não sofresse retaliações do dirigente.

Sem o desafeto no poder, Dennis voltou a aparecer com certa frequência nos GPs. Contudo, seu foco agora é na construção do MP4-12C, que marcará de vez a entrada do Grupo McLaren no ramo dos carros esportivos. Rivais há décadas nas pistas, a ideia é dividir o mercado com a Ferrari.

Dennis ao lado de seu novo projeto, o MP4 12-C, com previsão de lançamento para o ano que vem

Aos 63 anos, ainda tem fôlego para começar uma nova empreitada. “Se me perguntar do que me arrependo, é de que as pessoas tiveram motivo para questionar minha integridade pessoal e o comprometimento em comandar a empresa de uma maneira honesta. Mas, olhando minha carreira até agora, que, inclusive, está longe de terminar, sinto-me bastante confortável com as decisões que tomei. O que quero que seja escrito no meu túmulo? ‘Ron Dennis, um dos maiores empreendedores do mundo’ – nada a ver com corridas.”

Fica a certeza de ter trabalhado com alguns dos melhores pilotos da história. “Todos eles tinham caráteres diferentes e isso torna a comparação difícil. Quando comecei como dono de equipe, era mais jovem que meu piloto, Graham Hill, então ele me mostrava o caminho. Com Lauda, Senna e Prost, tinha uma relação mais de camaradagem – o que também tem a ver com a idade. Com Hamilton e Alonso era mais paternal. Prost e Senna eram completamente diferentes em sua criação e caráter. Eles se olhavam com desconfiança, não confiavam um no outro. E deixei a rivalidade na pista acontecer.” Mas Dennis não teve a oportunidade de dividir os boxes com seu ídolo. “Jim Clark era um verdadeiro herói para mim. Eu o vi num evento em Goodwood e ele disputou 3 categorias no mesmo dia – sempre no limite. Ele era especial – sua áurea, talento, a maneira como pilotava.”

Erros e acertos dos tempos prateados da McLaren

Mais um capítulo do Especial Ron Dennis, em parceria com o Café com F1.

Depois da perda dos motores Honda no ano de 1992, a McLaren “surfou” com algumas montadoras até fechar o acordo com a Mercedes em 1995. Era o fim do layout branco e vermelho, devido ao patrocínio da Malboro e a volta das flexas de prata às pistas.

Dennis trocou o vermelho e branco pelo prateado nos anos 1990

Mas no início a parceria não gerou muito resultado. De 95 a 97, não passaram da 4ª colocação no mundial de construtores. Com a dupla formada pelo finlandês Mika Häkkinen e o escocês David Couthard, a temporada de 98 começou diferente para a equipe. Ron Dennis, sempre buscando o melhor, tirou Adrian Newey da Williams. Ele fez jus à fama de grande projetista. O MP4/13 levou a equipe ao 1º título de pilotos em 7 anos, e também foram campeões de construtores.

Mas essa nova era vencedora ganhou contornos diferentes dos anos 1980. Tendo Häkkinen, quem bancou desde muito jovem, ainda na época de Senna, como um dos pilotos, abandonou o conceito de igualdade e passou a usar claramente o jogo de equipe, numa época em que os escudeiros tinham papel fundamental na disputa.

Assim como com Senna e Hamilton, eram as vitórias de Häkkinen as mais comemoradas por Dennis

Porém, no ano seguinte, a Ferrari já vinha mais forte, empurrada pelo “dream team” formado por Michael Schumacher, Ross Brawn e Rory Byrne, que começava a dar frutos em sua 3ª temporada. A McLaren, então, contou com a sorte. O alemão sofreu um grave acidente no GP da Inglaterra, o que o tirou da briga pelo campeonato, deixando as portas abertas para mais uma conquista de Mika Häkkinen. No entanto, nos construtores, o título ficou com a equipe italiana.

Nessa época, no entanto, todo esforço pela igualdade de tratamento propagandeada nos anos 1980 foi deixada de lado em favor de Häkkinen, que fora bancado por Dennis desde garoto, quando estreou ainda ao lado de Senna. Eram tempos em que os escudeiros que tornaram fundamentais para o sucesso do finlandês e de Schumacher e o jogo de equipe era feito de maneira aberta.

Quando tudo apontava para o domínio das montadoras na F1, Dennis resistiu às tentativas de compra por parte da Mercedes

Era o início do domínio ferrarista e da queda inglesa. A McLaren viu rival italiana ganhar 5 títulos consecutivos e depois a Renault ser bicampeã. Ron Dennis novamente trocou os pilotos e manteve a fama de montar grandes duplas: Kimi Räikkonen e Juan Pablo Montoya. Mas o velho Ron já não tinha o mesmo pulso firme de outrora. Montoya acabou dando muito trabalho e saiu no meio da temporada de 2006. Em 2007 outros dois novos pilotos: Fernando Alonso e Lewis Hamilton e novamente Ron Dennis não obteve controle sobre os comandados e a dupla deixou escapar um título certo para a equipe, que veio em 2008 com Lewis Hamilton, que tinha como companheiro o jovem Heikki Kovalainen.

Unindo a ambição de ter controle total de uma equipe a uma série de escândalos e “bad press” por que a McLaren passou a partir de 2007, a Mercedes vendeu sua parte das ações  somente fornecerá motores até 2015, deixando para trás a relação mais íntima, que resultou, entre outras colaborações técnicas, no supercarro SLR McLaren. No último capítulo desta série vocês saberão mais sobre estes escândalos, que resultaram na saída de Ron Dennis do comando da equipe, pelo menos na frente da câmeras.

Postura de Bahar garante pano pra manga no caso Lotus

Virou pessoal a questão entre a Lotus de Danny Bahar e a Lotus de Tony Fernandes. O suíço, que acabou de fechar parceria com a Renualt, declarando guerra ao malaio, afirmou que tentou unir as duas Lotus, mas recebeu uma contra-proposta “ridícula”.

Recapitulando: o Team Lotus (antigo time de Colin Chapman, que faliu, mas de cujo direito de usar o nome Fernandes comprou junto a David Hunt, que o detinha desde a última incursão da equipe na F1, nos anos 90) nada tem a ver com a Lotus Cars (montadora comprada pelos malaios da Proton e cujo novo CEO, Bahar, vem tentando alavancar com uma agressiva série de ações, desde o lançamento de 5 novos esportivos à presença maciça em competições, apostando na herança do nome Lotus).

Brigas à parte, o nome Lotus sempre teve seu dono

Quando Fernandes comprou o direito sobre o nome Team Lotus, sua intenção era, primeiramente, estabelecer uma plataforma de negócios do setor automobilístico – ele é dono da Air Asia – e comprar a Lotus Cars da Proton, que está em dificuldades financeiras, para unir e consolidar as marcas.

O plano provavelmente daria certo, não fosse a chegada de Bahar, um guru do marketing já velho conhecido do mundo da F1. Ele foi o responsável pela implementação da imagem da Red Bull na chegada do time na categoria e é o “pai” da Energy Station, do Red Bulletin, das Unas, enfim, de tudo o que era “cool” na equipe – e que hoje foi deixado de lado. Logo foi para a Ferrari, onde não fez muitos amigos.

O suíço parece disposto a enfraquecer Fernandes e a discussão sobre a necessidade de ter o nome Team Lotus, ou seja, quer passar por cima da briga, que hoje está na justiça, e reconstruir a marca independentemente de ter ou não direito de se aproveitar da herança dela no esporte. Fala em comprar 100% da Renault – e mudar o nome da equipe no novo Pacto da Concórdia, em 2013 –, além de investimentos na GP2 e GP3. O dinheiro, ninguém sabe de onde vem ou se realmente existe. Provavelmente é um blefe que pode acabar de vez com o time de Enstone ou torná-lo uma nova Red Bull.

A Renault/Lotus será a 3ª equipe de Bahar (à esquerda) na F1

O fato é que ele está se inspirando na tática dos austríacos na forma como a equipe é financiada, transferindo todo o dinheiro que seria direcionado ao marketing tradicional para gerar mídia espontânea por meio do esporte. Para fazer isso, ele não acredita ser necessário comprar os direitos sobre o nome. “Como controlo a marca Lotus, nenhum juiz do mundo pode me impedir de promover minha marca na F1”, disse, hoje, num almoço com jornalistas britânicos.

O suíço afirma acreditar num acordo entre Proton e Fernandes mas, pelo menos neste ano, teremos, na nomenclatura oficial, uma Renault em preto e dourado e uma Lotus em verde e amarelo nas pistas. O julgamento deve acontecer apenas em agosto, contudo é bem provável que não decida nada. Teoricamente, quem tem direito a usar o Team Lotus é Fernandes, mas o que isso intefere na presença da Lotus Cars no grid? Quem poderia dizer que a própria empresa não pode utilizar o nome para se promover? É uma briga difícil de vencer, enquanto Colin Chapman revira na tumba e Kubica deve estar sonhando com a vaga de Massa – ou de Webber.

Os tempos de vitórias e farpas entre Prost e Senna

A Honda, que era parceira da Williams em 1987, deixou a equipe, que se recusou a colocar um piloto japonês em seu cockpit, para ir para a McLaren em 1988. O francês Alain Prost, então bicampeão e piloto da McLaren, convenceu Ron Dennis a assinar um contrato de três anos com o jovem brasileiro Ayrton Senna, que já tinha experiência com os motores Honda por correr na Lotus em 87. Começava assim uma das maiores rivalidades que a categoria já viu.

Em 1988, carro vencedor, pilotos brilhantes e muitos sorrisos na McLaren

O campeonato começou como se esperava, com vitória de Prost no Brasil. No entanto, a segunda prova foi vencida por Ayrton Senna, empatando a briga. Vieram depois duas vitórias seguidas do francês, respondida também com duas consecutivas do brasileiro. O domínio era total da equipe inglesa e não havia motivos para se falar em beneficiamento de um ou de outro. Tanto que, das 16 provas da temporadas, eles perderam apenas uma, na Itália, para a Ferrari – Senna liderava quando colidiu com o retardatário Jean-Louis Schlesser. E disso Dennis não se esquece. “No final da temporada, recebi um telefonema do executivo-chefe do meu patrocinador principal (Malboro) dizendo que seria do interesse do esporte que eu começasse a perder algumas corridas. Isso me surpreendeu muito. E posso dizer que ele estava falando absolutamente sério. Ele me dizia que aquilo não era bom, que eu deveria dar chance a outras pessoas. Até parece que isso ia acontecer”.

Apesar da disputa, inicialmente o clima entre os dois era saudável, e muito disso teve a mão do chefe, que fazia com que ambos deixassem a disputa para a pista. No entanto, os estilos completamente diferentes de ambos deixava claro que o conto de fadas não duraria muito.

Já um ano e um trato quebrado depois...

Em 1989 a história mudou, assim como o comportamento de Ron Dennis frente à briga dos dois. O domínio ainda era grande da Mclaren, mas não tanto como em 88. Desta vez perderam seis corridas das 16 do ano. Já no 2º GP, o clima amistoso entre Senna e Prost foi para os ares. Como eles tinham carros superiores aos outros, se deram ao direito de fazerem um acordo. Depois da largada, o que saísse pior não atacaria o outro até a primeira curva, para evitar acidentes desnecessários entre eles.

Em San Marino, Senna saiu na pole, mas uma batida de Gerhard Berger interrompeu a prova, que teve nova largada. Desta vez, Prost saiu melhor e assumiu a ponta, mas Senna o ultrapassou antes da 1ª curva e partiu para a vitória. Prost o acusou de ter quebrado o pacto e o clima entre os dois nunca mais foi o mesmo. Prost também começou a acusar Ron Dennis e a Honda de ficarem do lado do brasileiro: “enquanto tenho apenas um carro e de 4 a 5 mecânicos, meu companheiro tem dois carros e cerca de 20 pessoas trabalhando ao redor dele”. Dennis promovia sorteios, daqueles com pedacinhos de papel colocados num boné, dando número aos motores e fazendo um pilotos escolhessem o seu.

A gota d’água foi no Japão, no fim do ano. Por ter sofrido sucessivas quebras, Senna precisava vencer de qualquer maneira para se manter vivo no campeonato. Como todos sabem, Prost acabou jogando o carro em cima do brasileiro, que depois de conseguir voltar e vencer, foi desclassificado por um argumento descabível. Neste momento era claro com quem estava Ron Dennis. O chefe da equipe tentou de todas as formas reverter o resultado, mesmo sem precisar, pois seu outro piloto garantia o título com o resultado. Coube a Prost transferir-se para a Ferrari em 1990, onde se desentendeu com Nigel Mansell e em 1991 acabou expulso da equipe, no meio da temporada, por criticá-la abertamente, chegando a chamar o carro de “carroça”. Foi para a poderosa Williams e proibiu que Senna fosse seu companheiro.

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Mesmo ganhando os campeonatos de 1990 e 1991, Senna estava infeliz com a perda dos motores Honda – a equipe usou o Ford em 1993 – e com o fato da McLaren não estar mais conseguindo acompanhar o ritmo de desenvolvimento da Williams. Chegou a assinar contratos por corridas, por não querer se comprometer pela temporada inteira, o que deu muita dor de cabeça para Dennis. Com a morte do brasileiro, meses depois de ter deixado a equipe, a relação dos dois acabou estremecida. “Quando olho para trás acho que nós estávamos dando um tempo. Ele tinha sido muito duro e era hora de seguir em frente. Mas não tenho dúvida alguma de que, sob circunstâncias diferentes, Ayrton teria terminado sua carreira na McLaren.”

Sob o padrão Dennis, a McLaren vira potência

Mais um capítulo do Especial Ron Dennis, em com o Café com F1

Apoiado pela Philips Morris, casada de investir num time que não conseguia colocar um piloto no lugar mais alto do pódio desde 1977, na época de James Hunt, Ron Dennis e sua equipe, a Project Four, assumiram a McLaren em setembro de 1980. Naquele ano, o time ficara apenas em 7º no campeonato de construtores. A má fase fez com que os ingleses perdessem o jovem talento de Alain Prost, que foi para a Renault em 1981, mas esse era um problema que Dennis logo resolveria.

Para fazer melhor, o jovem Ron sabia que teria que fazer diferente

Sob a batuta do projetista John Barnard, nascia aquele que seria um projeto revolucionário: o MP4-1, o primeiro chassi completamente feito em fibra de carbono. Como num passe de mágica, a McLaren voltou às vitórias já em 1981, com John Watson no GP da Inglaterra.

Mas, com um motor Ford defasado, ainda estavam longe da luta pelo título. Dennis, então, persuadiu Mansur Ojjeh, um empresário franco-saudita, a deixar para trás o simples patrocínio que mantinha na Williams e juntar forças com ele na McLaren. Ojjeh trouxe os motores turbo da Porsche, que carregavam o nome de sua companhia, a Techniques d’Avant Garde (TAG).

O próximo passo era ter um grande piloto. E Dennis foi primeiro convencer Niki Lauda a desistir de sua aposentaria e, no ano seguinte, trouxe Prost de volta. Três temporadas depois de ter assumido, Dennis conqiustava seu primeiro título como chefe de equipe na F1, vencendo 12 das 16 provas e com quase o triplo de pontos da 2ª colocada, a Ferrari. Como viria a ser comum em sua gestão, viu seus pilotos duelarem ponto a ponto até que Lauda ficou com o título. No ano seguinte, Prost deu o troco.

Dennis feliz ao lado de seus dois primeiros campeões

Em 1986, a Williams se recuperou, mas consistência do francês garantiu outro mundial de pilotos para a McLaren. Ficara claro, no entanto, que o motor TAG já estava ultrapassado e, mais uma vez, Dennis se aproximou de um parceiro de Frank e Patrick Head e trouxe a Honda para seu lado – Ojjeh, mesmo deixando de fornecer os motores, continua sócio do time até hoje.

Dennis reforçou os motores e a dupla de pilotos, a exemplo do que fizera em 1983. Trouxe Ayrton Senna da Lotus para trabalhar ao lado de seu então bicampeão. Nascia a maior rivalidade da história da F1. Nessa época já ficava claro que ir atrás dos melhores pilotos do mercado seria uma das constantes, algo que ele tentaria mais vezes:

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Nesse curto período como chefão da McLaren, não fora esse o único legado que Dennis já havia deixado. Extremamente perfeccionista, reza a lenda que ele contratou um funcionário apenas para checar se todas as luzes da fábrica estão acesas ou se há alguma queimada. “Costumava dormir com o barulho do aspirador porque minha mãe queria que a casa estivesse perfeita quando acordasse. É esse o ambiente em que cresci, tudo tinha que estar perfeito o tempo todo. Por isso é tão difícil viver comigo. Não gosto de caos.” Não por acaso, com Ron no comando, a atenção ao detalhe se tornou “o jeito McLaren” de se fazer as coisas.

Isso sem falar no chamado “Ronspeak”. Dennis adora esconder suas respostas em frases com uma complexidade desnecessária. Ao responder sobre a contribuição de Alonso no desenvolvimento do carro, disse que sua experiência e habilidade “preveniram que uma equipe de F1 entrasse em cul-de-sacs técnicos – e, como resultado, o desenvolvimento do carro se torna mais linear”. Hã?

Outra marca é a visão empresarial. Apesar de ter começado como mecânico, sempre agiu de forma empreendedora. “Sempre pensei, desde o primeiro dia, que vencer corridas era simplesmente fazer seu trabalho. Depois disso, a questão é como você ganha, quão perfeito esteve o carro, o piloto. Como nós nos apresentamos, será que atraímos alguém que queira investir na equipe?” Para ele, uma boa corrida é aquela em que a McLaren faz dobradinha no sábado e dá uma volta em todos os rivais no domingo.

Um retrocesso e uma incógnita nas novas regras

A FIA explicou melhor o pacote de mudanças no regulamento que anunciou semana passada. Depois de um ano em que os pilotos tiveram mais liberdade para disputar posições, mais parece um retrocesso que a regra fale em punição quem forçam o outro para fora da pista durante uma ultrapassagem – para atacar ou defender. A pista é determinada pelas linhas brancas, ou seja, zebra não vale.

Sem isso explicitado no regulamento, prevalecia o bom senso. Se o piloto mudava a linha para atrapalhar o outro, era punido; caso desse a tradicional espalhada, não. Pelo visto, se espalhar e o adversário sair das linhas brancas, os comissários têm uma série de punições para escolher, desde um drive through até a exclusão na próxima corrida. Outro tipo de manobra que não será mais permitida é a ultrapassagem no pitlane – pelo menos na saída, pois o regulamento nada fala a respeito da entrada do pit –, assim como a mudança de direção para a defesa da posição (isso foi reforçado devido às tentativas de Hamilton quebrar o vácuo de Petrov na Malásia).

Faz-me lembrar do GP da Alemanha de 2008 – e certamente há outros exemplos –, quando a McLaren quase tirou, por um erro estratégico, uma vitória tranquila do mesmo Hamilton. A equipe deixou o piloto numa situação um tanto incômoda, tendo que passar Kovalainen (o que foi prontamente resolvido com um recado pelo rádio, seguido de um “erro” do finlandês), Massa e Nelsinho. O inglês venceu a corrida mas, no jeito que o fez, não pode mais – e a da Toro Rosso (seria Vettel?) em Alonso, outra do mesmo vídeo, também não.

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As asas explicadas

Algumas perguntas a respeito das asas traseiras móveis foram respondidas no regulamento. Haverá locais pré-determinados em cada circuito nos quais, se um piloto passar a menos de 1s do rival que vai à frente, receberá um sinal de luz em seu volante e poderá apertar o botão que fará sua asa estolar, dando-lhe mais velocidade. Quando ele tocar no freio, o sistema automaticamente fará a asa voltar ao normal. A FIA reconhece que ouvirá os competidores sobre um possível ajuste dessa distância de 1s.

O dispositivo não poderá ser utilizado nas duas primeiras voltas da corrida ou das relargadas. As regras, contudo, nada falam sobre como o público saberá se quando ela for acionada ou a possibilidade de 3 ou mais carros estiverem lutando por posição. Provavelmente, todos poderão utilizar a asa móvel, menos o 1º da fila.

As asas podem ser móveis, mas o flexibilidade para por aí. Há uma preocupação para que os movimentos tipo Red Bull não voltem a acontecer. Para isso, os testes de flexibilidade ganharam em rigor e mais partes do carro foram adicionadas à lista dos que devem ser fixos.

O banimento àqueles apêndices aerodinâmicos disfarçados de retrovisores foi oficializado – algumas equipes, incluindo Red Bull, Ferrari e Williams, foram forçadas a mudar seus projetos no início desse ano – e a célula de sobrevivência ganhou um teste desde baixo. Há ainda mais restrições em peças que possam causar furos nos pneus dos adversários.

As equipes não poderão trabalhar nos carros às sextas e sábados, por um período de 6h, contando desde a meia-noite até 4h antes das sessões de treinos livres. Os times poderão quebrar essa regra e passar as madrugadas trabalhando apenas por 4 vezes durante a temporada. Como prometido, a regra dos 107% – o carro só poderá largar se seu tempo de classificação estiver abaixo de 7% do pole – volta. E, como os câmbios terão que durar 5 corridas consecutivas a partir de agora, apenas em 2011 será tolerada a 1ª troca do ano sem punição.

A FIA não quer mais saber de noitadas dos mecânicos no boxes

Vejo uma tendência da nova direção da FIA em corrigir o regulamento, mais do que em promover ideias mirabolantes, mas há uma premissa sustentando todo o pensamento de Todt que incomoda: o francês acredita que as regras técnicas devem limitar os custos/aumentar as ultrapassagens e essa é uma queda de braço que só vai levar a mais pontos de vista oportunistas, como vimos neste ano com o teste que a Ferrari fez antes de Valência, com a justificativa de gravar um vídeo comercial, ou com o duto aerodinâmico.

Não seria mais simples adotar um teto de gastos, incluindo marketing, folha de pagamento, tudo, e liberar os engenheiros para pensar? Há certamente várias diferenças entre o período de ouro das ultrapassagens e agora e, certamente, uma delas é o fato de termos tido, no passado, carros efetivamente diferentes.

De mecânico a chefe da McLaren

A parceria entre o FasterF1 e o Café com F1 continua a todo favor. Nesta semana, com outro grande ícone da categoria.

Se voltássemos para os anos 1960, encontraríamos Silvestone, Monza, Nurburgring, Mônaco… e apenas duas equipes que permanecem vivas até hoje: Ferrari e McLaren. E os ingleses devem uma grande parte de seu sucesso a um homem que, na época, era um jovem aprendiz de mecânico.

Ron Dennis, inglês nascido e criado numa família de classe média, em Woking, chegou à F1 em 1966, então mecânico de Jochen Rindt, na Cooper. O piloto austríaco gostou tanto do trabalho do garoto de 18 anos que, quando foi para a Brabham, no ano seguinte, levou-o consigo.

Ron Dennis começou como mecânico e trabalhou com Jochen Rindt

Em 1969, Rindt trocou de equipe novamente, mas Jack Brabham quis que Dennis ficasse em seu time. Nessa época, Ron já começou a lidar com as estrelas que teria que domar pelo resto da carreira. “Nunca vou esquecer de um GP da Alemanha – acho que em 1967 – no Nurburgring. O carro estava pronto no grid, só restavam alguns minutos para a largada e quem estava faltando? Nosso piloto Jochen. Mandaram-me pegá-lo. Lembro que ele tinha passaporte austríaco, mas tinha nascido na Alemanha. Encontrei-o atrás do box, fumando, sem intenção alguma de ir para o grid. Com uma frieza incrível, ele disse: ‘Eles podem fazer muitas coisas, mas a única coisa que não vão fazer é começar o GP da Alemanha sem mim!’ Meio arrogante, mas me impressionou.”

E com Jack Brabham

A época com Brabham também lhe renderia uma história daquelas por que todo novato em qualquer empresa deve ter passado. No GP da Inglaterra de 1970, o australiano ultrapassou justamente Rindt com 12 voltas para o final e corria tranquilo para a vitória até que, no penúltimo giro, seu carro parou, sem combustível. Brabham não teve dúvidas em despejar sua raiva no jovem Dennis, acreditando ser ele o responsável pelo erro de cálculo.

Na verdade, o problema era com a regulagem do afogador do motor e o responsável, Nick Goozee, hoje engenheiro da Penske na Fórmula Indy.

Com a aposentadoria de Brabham, Dennis decidiu formar o próprio time, junto de outro mecânico, Neil Trundle. O Rondel Racing teve sucesso nos anos 1970 na Fórmula 2, mas Ron acabou abandonando o projeto para ter uma equipe própria. Foi então que começou a longa parceria com a Malboro, formando o Project Two, Project Three e o Project Four, este último com títulos na F2 e na F3 em 1979 e 1980.

Ingo Hoffmanm (à direita) chegou e pilotar – e ganhar – pelo Project Four

Com o Project Four, o inglês expandiu seus negócios, preparando carros de corrida da BMW. Com os lucros, começou a prospectar a volta à categoria principal, e contratou o já reconhecido projetista John Barnard, que havia trabalhado na F1 nos anos 60 e 70, e estava nos Estados Unidos.

Quando o executivo da Philip Morris, John Hogan, decidiu comprar a então decadente McLaren, era natural que seu parceiro das categorias menores assumisse a função de trazer o time de Bruce McLaren de volta às vitórias. Em 1980, então com apenas 33 anos, Ron Dennis virou chefe de equipe de F1. Amanhã, veremos como o metódico inglês transformou um time em dificuldades numa potência.

F1 na TV inglesa: Valorizando as pratas da casa

Mais um take das melhores entrevistas desse ano na BBC, agora mostrando como a emissora valoriza seus “craques”.

Um trecho dessa matéria até foi bastante divulgado no Brasil, com Hamilton e Button cantando Wonderwall. Foi ao ar antes do GP da Inglaterra, juntando a equipe da BBC, alguns radialistas e comediantes, num cenário bem britânico.

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Ainda no GP da Inglaterra, presente e passado do automobilismo britânico são reunidos: Hamilton, Button e Murray Walker, narrador de F1 desde os anos 70, hoje aposentado (ainda faz alguns comentários na BBC). O dono do chavão “a não ser que esteja muito enganado”, foi capitão do exército britânico durante a 2ª Guerra Mundial e está envolvido no esporte desde o final do conflito.

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Murray se junta a outra lenda do automobilismo britânico, Stirling Moss, para discutir sobre a temporada de 2010.

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Terminando em clima mais leve, Jake Humphrey aproveita o lançamento do F1 2010 para divertir-se ao lado de Lewis e seu irmão, Nicholas. Vencer a qualquer custo parece mesmo ser a marca dos campeões…

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F1 na TV inglesa: Espaço para os “forasteiros”

Durante os programas, geralmente de 1h de duração, que vão ao ar antes de corridas e classificações, temos algumas entrevistas com os personagens das pistas. Mais uma vez, show de edição e produção. Cada entrevistador tem seu estilo, deixando as matérias com um ar mais natural. Seja comandada pela repórter Lee McKenzie, pelos comentaritas Eddie Jordan e David Coulthard ou pelo apresentador Jake Humphrey, vale a pena rever.

Lee vai até o rancho dos Schumacher na Suíça mostrar um dos passatempos prediletos de Michael e sua esposa, Corinna.

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A equipe da BBC foi até Maranello e fez diversas reportagens especiais. Nesta, Humphrey pega carona com um relaxado Alonso em Fiorano.

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O foco agora é numa das mais fortes relações entre piloto e engenheiro de pista da F1, que foi duramente testada neste ano: Felipe Massa e Rob Smedley.

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Falando em brasileiros, Jordan fez uma divertida matéria com Barrichello na casa de seu ex-piloto.

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Um tranquilo Vettel em meio a sua grande virada no campeonato, antes do GP do Japão.

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Faltou falar nas asas traseiras móveis

As asas traseiras móveis prometem dar pano pra manga nessa pré-temporada. Ninguém ainda tem certeza de como elas funcionarão – ou se darão certo. A promessa é, como sempre, aumentar as chances de ultrapassagem, mas a solução não poderia ser mais artificial.

Funcionaria como um duto aerodinâmico, mas sendo operado por um botão, evitando que o piloto tire a mão do volante. Assim como o invento da McLaren, uma parte da asa traseira vai estolar quando o dispositivo estiver acionado, aumentando a velocidade em reta.

A diferença é que a asa móvel só poderá ser ajustada quando um carro estiver seguindo o outro em condições de ultrapassagem. Quem estiver na frente não poderá usá-lo. Aí que o regulamento ainda não está claro.

O melhor é torcer para a asa não funcionar direito e esquerecem essa ideia logo

A FIA definirá qual é essa tal distância entre os carros que significa uma situação de ultrapassagem. Fala-se em 1s de diferença no momento em que o carro de trás entrar numa curva procedida por uma reta, mas isso ainda não está decidido.

O piloto receberá a informação – estuda-se uma solução via rádio ou por meio do visor – de que o dispositivo estará liberado (isso deve ser controlado pela ECU, assim como acontece com o KERS) e só então poderá acionar o botão. Ainda não se sabe se o espectador receberá alguma informação de quando o piloto estiver usando a asa.

O que se sabe, afinal? E se houver uma fila com mais de dois carros, não estariam todos com o dispositivo ligado, sem conseguir passar um ao outro? O fato é que é mais uma artificialidade, outra regra de difícil entendimento e que, na verdade, ninguém sequer tem certeza se terá efeito.

E o efeito, nesse caso, seria facilitar a ultrapassagem, mas não muito. Os engenheiros não querem que a engenhoca funcione muito bem, pois, caso isso ocorra, a troca de posições se tornará banal – ainda mais com a volta do KERS, outro botão para ganhar velocidade. Mas será que todos  pensam assim? Será que, com essa regra ainda nebulosa, não vai haver algumas interpretações mais extremas que outras? E, não custa perguntar isso de vez em quando: será que não perceberam que ter pneus pouco duráveis e pistas melhores já resolve a questão?

Algumas luzes nos pontos nebulosos do regulamento

As mudanças que a FIA anunciou para os próximos 3 anos tocam em diversos pontos que causaram polêmica neste ano. Mostra uma entidade, enfim, disposta a resolver os pontos nebulosos do regulamento – mas ainda faltam algumas explicações.

As asas da Red Bull flexionavam e os testes não mostraram como? Vamos mudar os testes e deixar mais claro o texto sobre esse item. O piloto ultrapassa o Safety Car e ainda é beneficiado? Deixaremos a regra mais clara daqui em diante. E se um mecânico é atropelado no pit, ele continua aberto? A partir de agora, o diretor de prova pode fechar o pit por questões de segurança. Dois pilotos disputam posição roda a roda na fast lane (parte do pitlane por onde os carros passam)? Sua largura será limitada, para que não haja espaço para tanto.

O fato de acabarem com o natimorto artigo 39.1, o das ordens de equipes, é um alento, porém na prática oficializa a hipocrisia. Isso porque a FIA deixou claro não querer ver situações de clara troca de posições como a da Ferrari na Alemanha, enfatizando que utilizará o artigo 151c (aquele que gerou a multa de R$ 100 milhões para a McLaren no spygate) para punir quem “colocar o esporte em descredito”. É praticamente um pedido para que façam o que quiserem, desde que seja escondido!

Ordem de equipe: com jeitinho, pode

Outras mudanças serão a inclusão de uma placa protetora na região das pernas dos pilotos, a desclassificação de quem não usar ambos os compostos de pneus em corridas no seco (antes a punição se resumia à perda de 30s), a volta da nomenclatura de pneus intermediários (eram chamados de pneus de chuva, o que na prática não faz diferença alguma) e a necessidade das caixas de câmbio durarem 5 corridas consecutivas, ao invés das atuais 4. A nova regra também dá mais poder de punição aos fiscais e fala em punir más condutas dos pilotos, mas não fica muito claro o que querem dizer com isso (seria impedir gestos como o de Alonso para Petrov em Abu Dhabi e Vettel para Webber na Turquia? Ou pior, como o de Hamilton nas ruas da Austrália?  Um pouco de exagero, não?). Falta também explicar melhor como funcionarão as asas traseiras flexíveis.

Nos próximos anos

Para 2012, a mudança que mais chamou a atenção é a liberação das conversas de rádio das equipes para quem faz as transmissões. Isso elimina a peneira da FOM, que gera as imagens, pela qual elas atualmente passam. No mesmo ano, os biocombustíveis estarão liberados.

Isso abre caminho para a grande mudança nos motores em 2013. Mais compactos e ecológcos e menos beberrões (em 35%), devem fomentar a pesquisa de reaproveitamento de energia. Ou seja, teremos KERS e afins de verdade. Primeiramente, serão permitidos 5 motores por piloto. A partir de 2014, apenas 4. Ao invés de fazer de 2 a 3 provas, como é atualmente, terão que aguentar 5.

Quem será o próximo Bernie?

No 5º e último capítulo do Bernie Ecclestone, FasterF1 e Café com F1 se perguntam: qual o futuro da F1 sem seu maior dirigente?

Se alguém duvidava da importância deste jovem de 80 anos para a F1 teve que mudar seus conceitos depois da crise financeira de 2008. Enquanto o mundo se perguntava se não teríamos que adotar um caminho mais sustentável e deixar os supérfluos de lado, Ecclestone procurava – e encontrava – novos mercados para uma categoria em que pneus e motores, para ficar em dois exemplos, duram um par de milhares de quilômetros.

Há quem só veja o lado negativo de sua tendência a espalhar a F1 pelos mercados emergentes, mas qual seria a realidade da categoria hoje se ela estivesse limitada à Europa? A qualidade de algumas pistas em termos de espetáculo dentro da pista pode ser questionada, mas tem mais a ver com a execução do que com a expansão em si. O que dizer de um homem que criou uma nova Mônaco, comercialmente falando, colocando os carros para correrem à noite no meio da Ásia?

Alguém acha que ele está procurando um sucessor ou pensando em parar, mesmo aos 80 anos?

Um exemplo do modus operandi de Ecclestone são suas palavras sobre outro homem de origem humilde, que fez dos carros seu negócio e sua vida. “Enzo Ferrari era o tipo do cara que eu gosto. Dava para confiar nele. Se você negociasse algo, estava fechado. Ele entendia as coisas. Ele entendia que a arte da negociação é a arte do possível, não da estipidez, porque assim você não chega a lugar algum.”

Outra palavra-chave é o comprometimento. O inglês diz que ninguém quer seu trabalho porque “os outros não estão preparados para deixar para trás o que você tem que deixar para fazer um trabalho sério. Deixei muita coisa de lado por causa disso.”

Perguntado por que acredita-se no paddock que seria necessário reunir 12 chefes de equipe para ter um Ecclestone, não titubeia. “Eles deveriam se importar em cuidar de seus negócios e não se importar com os dos outros. O que é bom para a F1 é bom para todo mundo – times e companhias. Muitas pessoas pensam só no que é bom para elas”, alfineta o homem que diz admirar Hitler porque ele “fez as coisas acontecerem”, assim como o próprio Bernie. Isso, mesmo em situações em que ninguém imaginaria lucrar, como no recente furto que sofreu nas ruas de Londres: virou campanha de marketing.

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Não por acaso, sua sucessão dá calafrios em alguns. De Flavio Briatore a Gehard Berger, as apostas são tímidas. E o chefão é o mais vago possível sobre o assunto. “Quando eu for, a vaga será ocupada bem rapidamente e talvez essas pessoas façam um trabalho muito melhor, mas de uma maneira muito diferente. Esse negócio foi construído à base de confiança. Eu confiando nas pessoas e as pessoas confiando em mim, e eu odiaria que tudo terminada nas mãos de advogados e contabilistas. É preciso alguém que aja mais por instinto e tomara que acerte. Preferiria alguém como eu”, Bernie para e sorri. “Um vendedor de carros usados. É o que estamos procurando.”

Ultrapassagens, KERS, e como foi trabalhar com Senna, Schumi e Alonso

Um dos grandes engenheiros da F1 das últimas 3 décadas, Pat Symonds esteve no podcast da revista Motorsport nessa semana e tocou em diversos pontos interessantes. De maneira inteligente, os jornalistas decidiram seguir em frente e não citar “aquele” assunto. Há muito mais para se falar com ele. Quem quiser ouvir a entrevista inteira, clique aqui.

Ultrapassagens

Symonds é um dos 3 engenheiros que fizeram parte do Overtaking Working Group (junto de Paddy Lowe, da McLaren, e Rory Byrne, então na Ferrari), que criaram o pacote de mudanças aerodinâmicas que mudaram drasticamente os carros de 2008 a 2009. A ideia era aumentar as ultrapassagens, o que não acabou acontecendo na velocidade que se imaginava. “Nossa conclusão foi de que todo apetrecho aerodinâmico vindo do corpo do carro era ruim para a ultrapassagem e todo o vindo das asas era bom.” Por isso a má vontade com o difusor duplo. “Era completamente o oposto a tudo pelo que trabalhamos. Quando você coloca água em algo, ela escorre e você diz ‘isso não é um buraco’, acho um pouco difícil de entender.”

Do fundo do baú 1: Symonds com Senna nos tempos de Toleman

Mas o engenheiro diz que não considera o nível de ultrapassagem que tivemos em 2010 ruim. “Queremos que a ultrapassagem seja valiosa. Tem que ser como um gol no futebol, não como uma cesta no basquete.”

Symonds, porém, reconhece que o trabalho do OWG foi atrapalhado pelo fato de poder mexer apenas em regras aerodinâmicas, por determinação da FIA. “É uma pena, porque, ao olhar as estatísticas entre as diferentes pistas, vimos que elas influem muito.”

O inglês é contra mudanças técnicas radicais para melhorar o número de ultrapassagens, por crer que um carro de F1 tem que ser o mais rápido e sofisticado que existe – “isso é parte do DNA do esporte” –, e defende a adoção de um teto orçamentário. “Assim, poderiam liberar mais as regras e fazer os engenheiros pensarem”.

KERS

Sobre o KERS, Symonds admitiu que era contra no início, mas que percebeu que o sistema de recuperação de energia poderia ser muito efetivo para a performance quando usado em curvas lentas e saídas de curva. “Nosso sistema atual de energia, com a combustão, é ótimo para grandes velocidades e altas revoluções, mas péssimo para as baixas, por isso usamos marchas. Com a energia cinética, é possível ter muito mais torque. Por isso, um carro híbrido será o grande passo no futuro até para os supercarros”, opina.

O ex-diretor de engenharia da Renault, no entanto, se mostra um pouco pessimista em relação à forma como o sistema voltará à F1 em 2011. “É uma pena a maneira como ele foi introduzido. Acho que se tornou um elemento neutro de performance. Já que não teremos mais o limite de peso de 2009 (em 2011, será de 640kg, contra os 605kg daquele ano), o que faz como que seja mais atraente agora, mas acho que, se permitissem um pouco mais de potência ou de energia – ele defende cerca de 100hp ao invés dos 75 usados – se tornaria algo essencial para todos os times”, opina o inglês, que acredita que os custos tenham impedido que isso acontecesse agora. “Na Renault, gastamos 7 milhões de euros só com isso no final do programa. Eles não quiseram colocar ainda mais dinheiro. Mas quando mudarmos os motores, em 2013, devem repensar isso para compensar um motor menos potente”.

Senna x Schumacher x Alonso

Do fundo do baú 2: já na Benetton, em meio a Senna e Schumacher

Symonds teve o privilégio de trabalhar com 3 dos nomes que dominaram o esporte nas últimas décadas. “É difícil compará-los porque as exigências são diferentes em cada época. Nos tempos de Senna, se quiséssemos saber qual a temperatura da água, tínhamos que perguntar ao piloto o que ele via no visor. Por isso, não dá para compará-los tecnicamente, mas é possível ver aspectos humanos em comum. A grande semelhança entre eles, e isso é fundamental para um grande piloto, é a inteligência fora do comum e uma capacidade enorme de pensar enquanto estão fazendo outra coisa (ele usa a expressão multitask) – e me lembro de Alonso, no Canadá, em 2005, fazendo a volta mais rápida da prova enquanto conversava conosco sobre a situação da corrida.”

Contudo, como pessoas, há diferenças. “Schumacher é um grande team player. Trabalha muito duro, tem uma apego incrível aos detalhes, conhecia todos na equipe, sabia sobre a vida de cada um. Senna e Alonso são pessoas extremamente focadas, muito egocêntricos e não prestam muita atenção ao todo. A diferença dos três para os outros é que eles pensam durante as corridas. E o piloto que pensa sempre será o melhor”, garante o engenheiro, que esteve na F1 por quase 30 anos, conquistando 4 títulos.

Quem é a Lotus de verdade, afinal?

Hoje o Grupo Lotus anunciou a compra de 25% da Renault – a porcentagem do time de F1 que havia restado nas mãos da marca francesa – e a criação da Lotus Renault GP. Com isso, a equipe de Enstone, que já foi Toleman e Benetton, adota o tradicional preto e dourado que os carros de Colin Chapman estampavam nos anos 70 e 80. Os outros 75% da equipe pertencem ao grupo de investidores de Luxemburgo Genii Capital.

É só abstrair o vermelho que fica um carro bonito

Não deixa de ser um bom negócio para a Renault, que continua dando nome ao carro, fazendo propaganda na carroceria e fornecendo motores. A fábrica de Viry Chatillon, da Renault Sport, ainda contribuirá com o desenvolvimento do KERS e câmbio, até mesmo já pensando no que será feito em 2013, quando haverá mudanças que levam a um caminho mais sustentável, pesquisa de pleno interesse para a marca. Tudo isso sem gastar os caminhões de dinheiro do passado. Para os novos investidores, fica a chance de lucrar mais rapidamente, usando uma estrutura já vencedora, do que se começassem do zero.

A parceria entre a Genni e o Grupo Lotus começou em meados de 2009. A empresa multi-plataforma de Gerard Lopez tem negócios em diversas áreas, incluindo motores comprimidos e uma vasta gama no ramo de Internet, incluindo VOIP veicular. Ou seja, a ideia é trabalharem juntos na F1 e na utilização de tecnologias ligadas à Genii nos carros Lotus de rua.

A briga está longe de acabar

Já o Grupo Lotus passou pelas mãos da GM e da Bugatti antes de ser vendido à Proton, montadora malaia que pertence ao governo do país.

E  aquela Lotus de Tony Fernandes, que correu com o british racing green neste ano e que prometia aparecer preto e dourado – e de motor Renault – em 2011? Fernandes também é malaio, dono da companhia aérea low-cost Air Asia, e entrou em acordo ano passado com a Proton para estampar a marca inglesa em seus carros. Só não conseguiu a autorização do filho de Colin Chapman, Clive, para usar o tradicional nome Team Lotus. Recentemente, decidiu bancar a briga, usar nome e cores, e levar a decisão para a justiça.

Agora resta saber qual será o próximo passo de Fernandes, que fez um trabalho exemplar neste 1º ano de F1. Certamente, Bernie Ecclestone não gostará nada de ver duas equipes Lotus Renault alinhando com as mesmas cores no grid no Bahrein dia 13 de março e deixando para que advogados resolvam o impasse sabe-se lá quando. É uma briga que só começou.

Quero ser grande: Mercedes, Renault e Williams

À medida que a pré-temporada se aproximar, ouviremos as conversas de sempre: que Renault e Williams darão o passo de que precisam para chegar nos grandes ou, principalmente, que Ross Brawn irá repetir o feito de 2009 e acertar a mão na Mercedes. Mas será que isso é possível?

Não há muito mistério para uma equipe vencer na F1. Basta dinheiro, corpo técnico eficiente e organização. A receita é mais simples que a realidade, no entanto. Quem um patrocinador prioriza na hora de investir? Quem tem mais cacife para contratar os melhores funcionários? Isso tudo faz com que seja bem mais difícil subir de degrau que cair.

A Mercedes herdou um problema da Brawn, que já tinha se mostrado na 2ª metade de 2009, quando o time não teve fôlego para manter o desenvolvimento: menos pessoal em relação aos grandes, já que eles tiveram que enxugar a estrutura quando a Honda deixou a categoria.

O que acontecerá ente esses dois se o Mercedes nascer bem?

Dentro dos acordos da FOTA para cortar gastos está a diminuição do número de funcionários. Então, Brawn decidiu manter o time assim para lucrar depois – haverá uma queda gradual no quadro de funcionários até 2014 –, quando os demais tiverem que se adequar.

Uma equipe mais enxuta, somada a um orçamento menor que o usado no nascimento do Brawn campeão do mundo, pesam contra o novo Mercedes. Ao passo que o fim dos difusores duplos, a nova distribuição de peso e a volta do KERS – de cujo melhor de 2009 foi justamente o que os alemães desenvolveram para a McLaren – criam uma oportunidade para que uma interpretação mais extrema do regulamento possa fazer um time sair ganhando.

Mercedes em 2010

Melhor resultado3º (3 vezes)
Melhor posição de largada2º (uma vez)
Abandonos4 (2 por falhas mecânicas)
Voltas completadas2052 (90.87%)
Pontos em 2010*/posição80 (4º)
Pontos em 2009/posição172 (1º)
*usando sistema de pontos de 2009 

**como Brawn

Já a Renault teve problemas de financiamento desde 2006, pois não há interesse da fábrica em colocar dinheiro no time. Mesmo naquele ano de títulos de construtores e pilotos, o desenvolvimento deixou muito a desejar em relação à Ferrari.

Nos anos seguintes, sem os Michelin, os franceses foram ladeira abaixo e a necessidade de deixar os investidores felizes acabou resultando no episódio de Cingapura (o que não justifica os atos de Briatore e Symonds, mas foi esse o motivo e mostra o desespero do time).

O modelo de gestão da Genii de Gerard Lopez (c), gerido por Eric Boullier (d) parece ter futuro, mas ainda precisa amadurecer

Em 2010, a equipe foi vendida para gente que quer usar a F1 como plataforma para seus negócios externos, sem colocar dinheiro diretamente. Para se ter uma ideia, Bernie Ecclestone teve que adiantar o dinheiro de 2011 para o time ainda no meio do ano. Sem dinheiro, não há mágica.

Renault em 2010

Melhor resultado2º (uma vez)
Melhor posição de largada2º (uma vez)
Abandonos8 (5 por falhas mecânicas)
Voltas completadas1934 (85.65%)
Pontos em 2010*/posição59 (5º)
Pontos em 2009/posição26 (8º)
*usando sistema de pontos de 2009

E, finalmente, a Williams. Ao romper com a BMW e seguir o caminho independente, Frank e Head assumiram um grande risco e vêm sofrendo com a falta de recursos. Criatividade e inteligência no departamento técnico o time tem – o fato de terem apostado no difusor duplo logo no início de 2009 ou a rápida adaptação ao difusor escapamento, que permitiu bons resultados no meio de 2010, mostram isso – mas falta a capacidade de manter o ritmo para brigar por uma temporada toda com os orçamentos gigantescos de McLaren, Ferrari e Red Bull. Isso sem contar na insistência com o motor Cosworth.

A substituição de Nico Hulkenberg, que terminou o ano andando no nível de Barrichello, pelos US$15 milhões de Maldonado – lembrando que o orçamento de um time grande é de cerca de 200milhões – mostra a quantas andam as finanças do time. Não é a primeira vez que isso acontece na Williams – ter Nakajima no cockpit fazia parte do “pacote” da Toyota para ceder seus motores – mas é um sinal dos tempos de um time que orgulha-se de manter independente. Porém, a que custo?

Williams em 2010

Melhor resultado4º (uma vez)
Melhor posição de largada1º (uma vez)
Abandonos6 (2 por falhas mecânicas)
Voltas completadas1953 (86.49%)
Pontos em 2010*/posição21 (6º)
Pontos em 2009/posição34,5 (7º)
*usando sistema de pontos de 2009

Bons pilotos, as 3 equipes têm. Mas de pouco adianta uma informação apurada desde dentro do cockpit se ela não consegue ser transformada em décimos de segundo.

F1 na TV inglesa: O lado técnico

Quem disse que os times pequenos não servem para nada? Com muito pouco a esconder, são a locação perfeita para matérias que explicam o funcionamento dos carros. Nessa primeira, Martin Brundle fala como são captados e usados os dados de telemetria.

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O repórter Ted Kravitz vai até a Lotus para explicar, junto do diretor técnico Mike Gascoyne, como funciona o difusor escapamento. Levemente mais didático que o “espião da F1”, não?

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Falta de tempo na transmissão? Não é problema. Em 35s, Brundle explica o pesadelo dos estrategistas e pilotos: o graining nos pneus

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Numa análise mais detalhada, o ex-piloto sobe num Red Bull antigo para mostrar como o carro sai de frente e de traseira e como o piloto pode ajustá-lo para corrigir esses comportamentos.

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É no inverno que os pilotos pegam pesado no treinamento

Muitos gostaram de um post sobre o treinamento físico dos pilotos. Essa época de inverno europeu, por mais que possamos pensar que eles estão de férias, é o período mais importante de preparação. Se não fizer a lição de casa direito, provavelmente vai sofrer o resto do ano.

Isso porque é a hora do chamado treinamento de base, que dá as condições básicas ao corpo para que ele seja levado aos esforços específicos da modalidade. Por exemplo, a grosso modo, um corredor (de rua) de 10km ou de maratona terá um treino parecido nos primeiros meses de temporada, depois um vai focar mais em velocidade, outro em resistência.

E é – muita – resistência de força que os pilotos precisam. E, pior, sem poder ganhar muita massa muscular, para não ficarem muito pesados.

Esse vídeo faz parte de uma série que mostra “pessoas normais” treinando para guiar um F1, num evento em Abu Dhabi:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=EOPqytM9ZcY&feature=related]

O normal é que a preparação se intensifique a partir do final de dezembro, mas Nico Rosberg, como mostra essa matéria da Mercedes, preferiu não descansar:

Durante uma corrida, os pilotos podem perder, em média, até 2kg de peso, e em climas quentes, em que as temperaturas cockpit podem ultrapassar 50ºC, essa perda pode ser de até 4kg. Cerca de 3.000 calorias são queimadas, a frequência cardíaca pode subir para 190 bpm e forças de até 5G, cinco vezes o seu peso corporal, são suportadas.

“É por isso que o fitness é tão importante”, diz Nico. Dirigir um carro de F1 é muito extenuante e, no inverno, o piloto lança as bases para a longa temporada pela frente. Durante o ano, ele está ocupado ou viajando ou correndo: “No inverno, eu tenho mais tempo para o treinamento.” Essa fundação sustenta-o por todo o ano.

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A melhor preparação, é claro, é dirigir o carro de fato, pois só assim os grupos musculares recebem o treino completo necessário para competir. “Infelizmente, a proibição de testes de inverno significa que podemos andar menos, o que torna mais difícil manter os níveis de aptidão”, diz Nico. Nos finais de semana de corrida, ele está dirigindo o carro tempo suficiente para garantir que seus músculos sejam mantidos em bom estado.

É particularmente importante a preparação do pescoço, trapézio, tronco e braços, porque essas partes do corpo são colocadas sob grande tensão. Nico tem uma academia de ginástica em sua casa e um aparelho para fortalecer o pescoço em sua garagem. A máquina simula as forças das mudanças de direção do carro nos músculos do pescoço, o que não substitui o tempo dentro do cockpit, mas já é uma ajuda.

Nico diz: “Eu treino quase todos os dias em casa. Três horas por dia, em média, talvez um pouco mais no inverno”. Ele prefere esportes ao ar livre – faz natação, ciclismo e corrida. “Andar de bicicleta nas montanhas, correndo no campo – essa é minha ideia de paraíso”. Ainda bem que o clima em Mônaco, onde reside, é bom o ano inteiro.

Outros residentes em Mônaco e triatletas nas horas vagas são Lucas di Grassi e Jenson Button:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=jPPp2mJv72I]

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=ArT53qRuuMQ]

“Eu realmente gosto de fazer exercícios de resistência. Praticar todas as repetições diferentes pode ser muito divertido. Eu nunca gostei muito de musculação. Prefiro jogar hóquei no gelo. É absolutamente fantástico – provavelmente é meu sangue finlandês”, revela Nico. Apesar disso, ele não se atreve a ir para o gelo agora porque o risco de lesões é muito grande. “Se eu tivesse crescido na Finlândia, teria me tornado um jogador de hóquei no gelo”. Felizmente para nós, seus primeiros anos de vida foram passados em Mônaco, e agora ele dirige um de nossos carros de F1.

F1 na TV inglesa: o cuidado com os detalhes

O alto padrão de produção da BBC é algo facilmente perceptível em qualquer programa da cadeia de emissoras. E, para os ingleses, uma edição caprichosa, como nesses 5 exemplos abaixo, é o mínimo que se espera deles.

Começando pelo início da transmissão da 1ª corrida da temporada. A analogia entre piloto e máquina e os gráficos dão uma ideia da forma e do conteúdo que vêm a seguir:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=L5kfZDPYY7M]

O apresentador Jake Humphrey passeia pelo passado e presente de Mônaco no clipe que introduz a cobertura do GP.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=qDNimjsICCI]

Humphrey e Martin Brundle decidem viajar de Londres a Spa de uma maneira um pouco mais lenta, porém muito mais charmosa. E, para quem não entendeu a piada, logo no início, quando Jake pede para dirigir o carro de Martin, que diz “eu vi você guiando aquele Lotus”, ele se referia a isso, outro momento impagável da transmissão.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=AEfiFuLFPUc]

Novamente Jake, agora junto de David Coulthard e Eddie Jordan, passeando no melhor estilo italiano pelas ruas de Milão antes de seguir para Monza.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=rRnA0NUzIEM]

Além do capricho na produção, edição e do conteúdo, uma marca forte da BBC é a ironia. Eles costumam navegar entre a análise e o não se levar muito a sério. E o fazem muitas vezes de maneira sutil.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=OpNrV4Ylga4]

Ao final de cada transmissão, é colocado no ar um clipe com imagens da corrida – editadas com muita rapidez – e uma música que geralmente tem a ver com a prova. Na Coréia, só poderia ter sido “Rain”, de Mika.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=F1UyTjjDeOA]

Por fim, o clipe de encerramento da temporada, ao som de Alistair Griffin, “Just Drive”.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=gXKWxF–QYA&feature=related]

Por que 2010? Menos política, mais ação

É positivo o balanço do 1º ano de Jean Todt no comando da FIA, depois de um 2009 em que o homem que presidia a entidade, com escândalos sexuais, cortes orçamentários, rachas entre dirigentes, difusores duplos e o circo do julgamento do crashgate, apareceu mais que o próprio campeão do mundo. Mantendo uma certa distância da mídia e das polêmicas, o francês centrou seu trabalho na melhoria da segurança nas estradas e colocou em andamento ideias empacadas na era Mosley, como dar licenças aos membros do alto escalão das equipes – abrindo a possibilidade da FIA puni-los individualmente –, oferecer mais dias de testes a novatos e, recentemente, defendeu que, para conseguir licenças, os novos circuitos teriam que provar que se pode ultrapassar.

Todt mantém o ideal verde de Mosley e pressionou pela volta do KERS. Porém, no campo financeiro, defende que as regras técnicas ajudem a cortar os custos (com apenas um update aerodinâmico por temporada, por exemplo), e não que haja um orçamento fixo. A decisão de não conceder uma licença à 13ª equipe pareceu madura.

A escorregada de Todt no ano foi colocar sua mulher, Michele Yeoh, na foto que marcou a reunião de ex-campeões nos 60 anos de F1

Medidas populares e necessárias, que fogem das imposições por vezes quase lunáticas do antecessor. O tom conciliador e a lavagem de roupa suja – se houve – longe da mídia fez com que tivéssemos, depois de anos de “gates”, a atenção voltada para as pistas. E isso num momento em que começam as negociações por um novo Pacto da Concórdia que, com o crescimento da FOTA, deve ser a mais dura batalha de Ecclestone.

Claro que houve pontos de conflito: as ordens de equipe e a legalidade dos carros da Red Bull movimentaram o noticiário, porém foram as autoridades competentes – o Conselho Mundial e os comissários técnicos – que levaram as discussões adiante de maneira construtiva. Pisando em ovos no julgamento da Ferrari, equipe que comandou de 1993 a 2007 e da qual saiu num divórcio litigioso, manteve-se longe. Veremos nas próximas semanas o – tomara – último capítulo dessa história: o que a FIA decidirá fazer com o artigo 39.1.

Rapidinhas sobre o KERS em 2011

Só passando rapidamente antes de continuar com o último capítulo da série dos fatores que fizeram da temporada de 2010 a melhor dos últimos anos para dar uma resposta àqueles que tinham perguntado sobre o regulamento de 2011, especialmente sobre o KERS.

De fato,  o sistema não será obrigatório e as equipes com menos recursos não devem se arriscar – a Lotus já anunciou que não tem dinheiro -, pelo menos no início da temporada. Acredita-se que haja mais sucesso dessa vez devido ao limite de peso do carro ter aumentado de 605 para 640kg, o que elimina o dilema: pouca potência gerada x muitos kg a se carregar, principalmente no caso de pilotos mais pesados/altos.

Sobre essa e outras mudanças técnicas para o ano que vem, o Mike, do Formula UK, fez um post muito bom. Falarei mais sobre KERS e ultrapassagens num post que estou preparando com a visão de Pat Symonds.

Por que 2010? Deixaram os caras correr (pelo menos um pouco…)

O processo decisório dos comissários era algo que precisava ser revisto. Num passado recente, punições bastante discutíveis – como as 5 posições perdidas por Alonso na Hungria em 2007, sem que o piloto fosse “incriminado” por qualquer artigo, ou a sequência de penas que Hamilton recebeu na 2º metade de 2008, ao mesmo tempo em que Massa era liberado do pit em cima de Sutil, em Valência, e a equipe era apenas multada – tiraram o foco da disputa na pista.

O ano de 2010 já começou com um ato de boa vontade: ex-pilotos fariam parte do corpo de comissários. Houve quem chiou quanto às nacionalidades dos convidados, em sua maioria britânicos, mas a pergunta é qual a medida de envolvimento que lhes é permitido.

Não dá para acertar sempre, e tivemos algumas polêmicas, porém, no geral, o resultado dessa novidade fez com que comissários deixassem as corridas fluírem e parassem de punir toda e qualquer tentativa de ultrapassagem que desse errado.

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E é engraçado como Hamilton está sempre envolvido nestas questões-limite entre o aceitável e o punível. Claro, ele é do tipo que arrisca e depois pensa.  Tirou Webber da pista na relargada na China; cruzou a pista várias vezes para se defender de Petrov na Malásia; fez uma volta a mais que o previsto e se beneficiou do menor peso para fazer a pole no Canadá, cruzou a frente de Bruno Senna em Abu Dhabi como se estivesse sozinho na pista e ultrapassou o Safety Car em Valência. Tirando o último episódio, levou, no máximo, advertências, o que mostra que a ordem é deixar a corrida seguir.

Curioso, também, que outros envolvidos em polêmicas com os comissários foram Schumacher e seus discípulos, Vettel (que escapou da defesa exagerada na largada da Alemanha, mas não da lentidão atrás do Safety Car na Hungria ou do drive through – na minha opinião, injusto – na Bélgica) e Hulkenberg, o homem das defesas pesadas – que o diga Webber. Schumi pintou e bordou, principalmente em Cingapura, mas nessa nova ordem de considerar tudo acidente de corrida, só não escapou na Hungria. É outro que gosta de brincar com um limite.

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É lógico que ainda há muita política por trás das decisões. Os ferraristas vêem ligação entre o que aconteceu entre Valência e Inglaterra. Na prova espanhola, Hamilton levou um drive through (excessivamente demorado, não havia o que interpretar) e Alonso falou em “corrida manipulada”. A FIA, é claro, não gostou nada. Ao invés de punir disciplinarmente o piloto, deu-lhe um drive through na corrida seguinte, e ainda por cima durante o Safety Car, depois de ter garantido à equipe que julgaria a ultrapassagem do espanhol sobre Kubica apenas ao final da prova.

Quando a Red Bull dominava assustadoramente na Hungria, a distância que Vettel costumeiramente adota para o Safety Car foi considerada ilegal. Quando fez o mesmo em Abu Dhabi, não. E quando Webber, então líder da tabela, foi claramente prejudicado em Monza? Esse tipo de decisão mostra vestígios do que já foi feito em outros campeonatos. E o testemunho de Eddie Jordan à BBC de que seria difícil entrevistar Ecclestone logo depois das provas porque o dirigente gosta de participar das decisões dos comissários diz muita coisa. A aplicação de regras ainda não é tão objetiva, justa e criteriosa como deveria, mas pelo menos estão deixando os caras correrem.

Por que 2010? As respostas dadas via rádio

Ouvir as conversas de rádio de todas as equipes é um luxo que só tivemos nas últimas 2 temporadas e em 2010 elas ajudaram como nunca a entender a dinâmica de uma corrida. Mais do que isso, descobrimos por que os times que lutavam pelo campeonato antes escondiam sua comunicação: ela traz à superfície uma verdade que o discurso cuidadosamente controlado pelo marketing tenta encobrir.

Pelo rádio, ficamos sabendo que Massa, ainda na 2ª corrida do ano, já ouvia do engenheiro que Alonso era mais rápido que ele, mas só “compreendeu” a mensagem 9 provas depois. Fomos levados a crer que, na McLaren, “economize combustível” pode significar “mantenha a posição” para um e “vá para cima” para outro. Soubemos que a diferença de performance entre companheiros pode ser fruto de um “use seu botão de ultrapassagem na reta” para um e um “abaixe a mistura do motor” para o outro, nos moldes da Red Bull.

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Vimos também como alguns pilotos lideram seus times desde dentro do cockpit e como outros são pegos de surpresa. Vettel perguntou “how the fuck” Webber estava na sua frente na Hungria, enquanto Hamilton questionava “por que Vettel está tão longe?” em Abu Dhabi ou “quem decidiu essa estratégia? Era claramente errada” na Austrália. Por outro lado, ainda em Melbourne, Button avisou “estou entrando” mesmo quando a equipe lhe dizia que era muito cedo para colocar pneus slick, e Alonso decidiu sozinho arriscar uma volta lançada em Cingapura mesmo com o motor fazendo barulhos estranhos – que ele mesmo tinha notado antes da telemetria.

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Mas nem tudo é tensão. Houve momentos em que o desespero se tornou até cômico para nós, do outro lado da tela. Hamilton falava no rádio quando sua roda estourou na Espanha e o que se seguiu não dá para traduzir. Na Coreia, enquanto Button reclamava que não conseguia nem ver sua própria asa dianteira, o campeão de 2008 dizia que “dá até para colocar intermediários” – para perder a posição logo na 1ª volta. Porém, nesse quesito, Alonso é o rei. Sua revolta na Inglattera, a ponto de pedir para o engenheiro não falar mais com ele ou seu berro de “não quero saber” quando o inglês se aproximava na Austrália mostram a entrega de quem se importa com a vitória acima de tudo. Isso sem contar no “isso é ridículo”, que já se tornou um clássico.

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Falando em clássico, e as comemorações? A final, no choro incontido de Vettel, nos lembrou da juventude daquele que foi perfeito no momento decisivo do campeonato. A gargalhada de Alonso na Coreia deu a medida do quão improvável era o piloto da Ferrari liderar a tabela faltando 2 corridas para o final. A vingança de Webber e seu “nada mal para um 2º piloto” não serão esquecidos por um bom tempo.

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O rádio acrescenta porque dá uma dimensão humana, mas também tem sua função política. Não se pode esquecer que quem controla a transmissão é a FOM, em outras palavras, Ecclestone. Já que os rádios que ouvimos não são ao vivo, fica a pergunta: quem escolhe? Com qual interesse? Será que, se não tivéssemos ouvido as conversas da Ferrari na Alemanha, a reação seria tão intensa? Como pano de fundo, a disputa por poder e dinheiro que cerca as negociações do novo Pacto da Concórdia são a prova de que, por mais que os rádios vendam transparência, sua seleção mais intriga que aclara.

E fica o sonho de termos à disposição, ao vivo, como o live timing, acesso a todas as comunicações.

Por que 2010? Frutos do fim do reabastecimento

Há duas grandes vantagens de não se ter mais reabastecimento: a menor possibilidade de interferência das equipes, por meio de estratégia, na corrida e a classificação puramente baseada em velocidade.

Vimos a volta daqueles que transformam uma volta em obra de arte. Ou melhor, comprovamos que Vettel assume ares de Senna aos sábados, com seus olhos fechados instantes antes de nos brindar com perfeição pura. A comparação entre companheiros também ficou mais clara.

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Antes, muitas vezes tínhamos carros lutando por posição, mas separados por 20, 30s na pista, pois um deles teria que reabastecer. Isso complica o entendimento da corrida, cria disputas artificiais (qual a graça de uma ultrapassagem que não vale por posição?) e nos priva de uma possível disputa direta.

As corridas sem reabastecimento são mais técnicas. O peso do tanque cheio força o carro de forma que tirar 100% do equipamento 100% do tempo já não é possível. Ainda mais porque as equipes iniciam os GPs com combustível insuficiente para terminá-la. Haja perícia para saber quando é hora de poupar ou de atacar.

Há quem pense que isso é negativo, mas, sem o reabastecimento, fica mais difícil uma equipe beneficiar um piloto. Se quiser fazê-lo, tem que ser de maneira mais explícita, como vimos nesse ano. Antes, era só adotar uma estratégia melhor para um em detrimento do outro ou colocar mais combustível numa parada. Além disso, um erro na troca de pneus é fatal, ao contrário do passado, quando os mecânicos tinham cerca de 10s de margem.

Para concluir, o fim do reabastecimento é uma das poucas regras criadas visando o corte de custos que acrescentou ao espetáculo.

É inegável a maior segurança nos pits com o fim do reabastecimento

O que é óbvio que poderia ser melhorado nesse quesito é a durabilidade dos pneus. Imagine dois pilotos grudados por várias voltas, como Button e Schumacher na Espanha ou Alonso e Vettel na Hungria, com a borracha tendo séria degradação. Veríamos erros e chances reais de ultrapassagens mesmo nos travados Barcelona e Hungaroring. E se um resolve parar e outro decide ficar na pista? Será que consegue tirar a diferença e ainda passar o rival?

A regra dos 10 primeiros largarem com o pneu que classificam é que não faria muita falta. Quando os ponteiros arriscaram fazer o 1º stint com os pneus duros – Red Bull em Montreal e Button no Japão – se deram mal. E o fato dos pilotos a partir do 11º poderem escolher seu composto não misturou essas “duas divisões” como era esperado.

Por que 2010? 5 pilotos na briga pelo título

Desde o final dos anos 80, temos visto campeonatos que, ou ficaram na mão de dois pilotos da mesma escuderia, foram completamente dominados por apenas um ou, no máximo, ficaram restritos a duas equipes, sempre McLaren x Williams ou McLaren x Ferrari. Ano passado foi uma exceção, mas o domínio só mudou de endereço.

Em 2010, tivemos uma verdadeira briga entre 3 equipes. Enquanto a Red Bull era absoluta aos sábados, McLaren e Ferrari se engalfinhavam para ver quem seria a 2ª força e estaria à espreita para se aproveitar das brechas abertas por um time que não era tão imbatível aos domingos. Além disso, parecia que os touros sempre arrumavam um jeito de se complicar – não fosse isso, julgando a performance dos carros, a temporada poderia ser uma chatice só.

Muitas viradas resultaram, pela 1ª vez, na decisão entre 3 candidatos e um franco atirador

Fora a decepção de Massa – que já tinha 76 pontos de desvantagem em relação ao líder antes do GP da Alemanha –, isso fez com que tivéssemos 5 pilotos na disputa até a antepenúltima etapa e chegássemos a Abu Dhabi com 3 candidatos claros e um franco atirador.

Ao final dos treinos de sexta-feira, era sempre difícil apontar quem seria o time a ser batido no domingo, havendo uma dinâmica interessante entre os companheiros e entre os grandes rivais mais antigos. A Red Bull, claro, largaria na frente. Mas o que será que o carro ou seus pilotos aprontariam?

Como as diferenças de performance em relação os times médios não era tão grande como em anos anteriores, vimos os grandes nomes do campeonato em maus lençóis quando tiveram que abrir caminho e vimos erros não forçados de candidatos ao título que a era Schumacher nos fizera esquecer que eram possíveis.

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Esses ingredientes fizeram dessa temporada uma sequência de viradas. O que começou na pré-temporada como a promessa de um ressurgimento da Ferrari logo se transformou num show de regularidade da McLaren em oposição às oportunidades perdidas pela tecnicamente dominante Red Bull. Nas últimas 7 provas, as surpresas se acumularam. Depois do caos da Bélgica, muitos já definiram: seria um Hamilton x Webber. Nas provas seguintes, os rivais se alternavam, Alonso e Vettel cresceram, mas o australiano se manteve firme, ao mesmo tempo em que via o companheiro constantemente a sua frente. Finalmente, a pressão o abateu faltando 2 corridas e uma falha mecânica colocou a Ferrari novamente à frente. E quem esperava uma última etapa processual ignorou que essa seria a temporada das viradas.

Isso só foi possível graças ao extenso pacote de mudanças técnicas entre 2008 e 2009, que anulou o handicap dos times “de sempre” e permitiu que grandes cabeças, como Brawn – enquanto ainda era bancado pela Honda – e Newey pudessem desenvolver ideias que provaram-se eficientes. A julgar por seu corpo técnico, Williams e Renault – que conseguiu o mesmo em 2005, quando tinha o apoio total da cúpula da montadora – muito provavelmente estariam nessa briga, não fosse a falta de recursos. Como o cenário continua inalterado, podemos esperar um 2011 com um quadro semelhante. A não ser que alguém (e estamos de olho em Brawn novamente, agora com dinheiro alemão) encontre uma solução mágica para o banimento do difusor duplo e do duto aerodinâmico.

Os piores de 2010 – e o que esperar deles em 2011

Aí vai outra irresistível lista, agora com momentos, decisões e performances com as quais poderíamos ter ficado sem em 2010. Às vezes pela expectativa criada, outras pelo barulho gerado, deixaram um gosto diferente na boca e abriram a discussão para o ano que vem: será que vai ser diferente?

Ia fazer o top 5 dos piores pilotos da temporada, mas fica difícil avaliar nas equipes médias e pequenas, porque sabemos que muitas vezes o equipamento dos 2 pilotos não é o mesmo, vide Di Grassi e Liuzzi.

Ferrari na Alemanha

Quem visita este espaço sabe da minha visão sobre ordens de equipe, visíveis ou não, mas o circo da Ferrari na Alemanha está aqui mais pela reação e a má publicidade gerada ao campeonato. Imagem é tudo, como bem descobriu a Red Bull, e eles se colocaram em maus lençóis com o público, talvez sem necessidade.

Massa se deixou ficar à sombra de Alonso

É óbvio que foi uma polêmica que veio para o bem. Ninguém deixou de dar ordens de equipe depois de sua proibição, em 2003, e mesmo o público mostrou condescendência com a prática, quando ela decidiu campeonatos ou ficou escondida por códigos. Quem sabe agora surja uma regra mais passível de ser respeitada.

Felipe Massa

Em seu 5º ano como piloto titular da Ferrari e vindo de um crescente contínuo, andando muitas vezes de igual para igual com Raikkonen, era de se esperar que Massa desse trabalho para Alonso. Ao final de 19 etapas, não sobraram nem as provocações fora da pista – quem não se lembra do “é lógico que ele sabia de tudo” sobre o episódio de Cingapura assim que o espanhol fora anunciado como seu companheiro? –, nem a “conversa” que importa, dentro dela.

Nos bastidores, é difícil imaginar que Felipe consiga trazer a equipe de volta a seu lado, como acontecia com naturalidade nos tempos do finlandês. A maneira como Alonso lidou com a equipe fora das pistas foi perfeita. Dentro delas, é bem provável que o problema com o aquecimento de pneus seja atenuado, mas há um porém: a principal arma do F10 era o baixo desgaste de pneus e a falta de temperatura em uma volta lançada ou em largadas e relargadas é consequência direta disso. Até que ponto a Scuderia vai arriscar fazer um carro mais agressivo com os pneus para melhorar na classificação e prejudicar seu ritmo de corrida?

Michael Schumacher

Era muito esperar que um piloto voltasse de 3 anos de inatividade, andando ao lado de meninos com até metade de sua idade e com regras – desde o corte nos testes, passando pelo banimento do controle de tração, diminuição dos níveis de downforce, e, é claro, pelos pneus dianteiros mais estreitos – muito distintas. Mas, se alguém poderia consegui-lo, era ele.

Alguém aí tem uma máquina de ler pensamentos?

No entanto, tudo isso, somado a um carro deficiente, provou ser demais até para a lenda Schumacher, que teve algumas atuações que beiraram o ridículo, como China e Cingapura. Sua atitude fora das pistas, por outro lado, mantendo por todo o ano o sorriso que não aparecera muito durante a carreira, surpreendeu. Pelo menos publicamente, não reclamou do companheiro, não cobrou tratamento diferenciado. Só está esperando o carro do ano que vem, que, garante Ross Brawn, será feito à sua feição. O chefe da Mercedes está tentando a mesma receita de 2009: parou o desenvolvimento cedo e centrou esforços no projeto seguinte. Se funcionar, por quanto tempo teremos o Schumi “paz e amor”?

Procissões

Sempre apontado com o vilão da emoção na F1, Hermann Tilke passou longe das pistas que tiveram o menor número de ultrapassagens do ano. E foram as suspeitas de sempre: Mônaco, Japão, Hungria e Espanha.

Quando todos os olhos estavam voltados para a F1... vimos isso

Porém, foi quando os olhos do mundo estavam voltados para a F1, nas corridas de abertura e encerramento da temporada, que tivemos as provas mais frustrantes. Visitamos circuitos que são mais belas locações que pistas propriamente ditas, à serventia do bolso e da expansão mercadológica de Ecclestone, que pouco se interessa com o que acontece por míseras 2h no domingo. Ambos, Bahrein e Abu Dhabi, Tilkódromos. Ambas provas que já podem ser somadas às várias vezes que a categoria fez de uma oportunidade um tiro no pé.

Não que só haja beleza em corridas com muitas trocas de posições: o ritmo de Webber de pneu macio usado em Hungaroring para fazer o pitstop e ainda voltar na liderança ou a atuação à prova de balas de Alonso em Cingapura, para ficar em 2 exemplos, valem tanto quanto uma disputa lado a lado. Mas essa é uma paixão que se adquire com o tempo. Para ganhar espectadores, talvez seja necessário algo mais.

Saldão de pilotos na Hispania

Confiar a Colin Kolles o cargo de chefe de equipe já deveria ser, por si só, um mau sinal. Combine isso com um time inexperiente e dependente de recursos trazidos por pilotos e você chega no nível de amadorismo da Hispania. Andar o fundo do pelotão, bem atrás até do penúltimo time, já vimos muitos fazerem, mas chegar ao ponto de vir à público com uma história de que Bruno Senna havia mandado um e-mail por engano ao chefe criticando o time para explicar sua ausência do GP da Inglaterra beira o ridículo. Verdade ou invenção, que fique na máquina de lavar da equipe.

Enquanto isso, no outro lado da garagem, era Yamamoto que assumia o volante, mesmo que fossem os patrocínios de Chandhok que o estampassem. O último a entrar no saldão foi Klien, de longe, o mais experiente deles, mas que provavelmente levou menos dinheiro, e curiosamente só fez 3 provas. Não deveria surpreender. Afinal, o que dizer de uma equipe que apenas no GP do Canadá chegou à milhagem que a Ferrari conseguiu nos testes de pré-temporada e usou a mesma asa a temporada toda, de Mônaco a Monza? Nesse ritmo e com essa gestão, pode não haver 2011 para os espanhóis.

Ultrapassagens que não deram tão certo

Dizem que quem não arrisca, não petisca. Mas quem nunca se arrependeu de não ter ficado quietinho no seu canto?

Webber e Hamilton x Alonso, GP da Austrália

Não querer perder contato com o piloto que vai à frente é uma coisa, provocar o contato é outra. E Alonso, que tinha a linha comprometida e provavelmente seria ultrapassado pelos dois, agradece.

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Hamilton x Webber x Massa, GP da Australia

Webber estava impossível correndo em casa. Que o diga Hamilton, que foi abalroado duas vezes na mesma corrida, pra sorte, de novo, da Ferrari.

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Vettel x Webber, GP da Turquia

“Use seu botão de ultrapassagem para dar um gás na reta”. Talvez essa tenha sido a mensagem via rádio da qual a Red Bull mais tenha se arrependido.

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Webber x Kovalainen, GP da Europa

Essa é pra quem duvidava que Red Bull te dá asas. Mais um erro de julgamento – ou seria o carro “mal-criado” ? – de Webber: pra quê ficar dançando atrás para pegar o vácuo de um carro tão mais lento?

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Alonso x Massa, GP da Alemanha

Os mais pragmáticos dirão que a ultrapassagem deu certo, mas a dor de cabeça que essa execução pouco criativa gerou para a Ferrari a coloca na lista dos #fail.

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Vettel x Button, GP da Bélgica

Movimentos suspeitos da asa dianteira à parte, esse foi o acidente mais bizarro do ano. Não dava pela direita, pela esquerda, então ele foi pelo meio.

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Hamilton x Massa, GP da Itália

Parece que a asa traseira gigante do companheiro atrapalhou os pensamentos de Hamilton, que deixou a roda desguarnecida quando tentava sabe-se lá o quê.

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Hamilton x Webber, GP de Cingapura

Depois dos encontrões do início da temporada, Hamilton já devia suspeitar que Webber gosta de usá-lo para frear. Deixou pouco espaço e teve muito azar de abandonar sozinho.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=WxynNbw9WO4&feature=related]

Rosberg x Massa; Rosberg x Buemi, GP do Japão

Nico acabou no muro, mas escapou 2 vezes antes. Na 1ª (35s), Massa tenta uma ultrapassagem raio-X; na 2ª (56s), já vi essa manobra dar certo, mas Rosberg não conseguiu segurar a linha de fora da 130R.

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Quais foram as melhores ultrapassagens do ano

Umas são fruto de puro oportunismo, outras são meticulosamente calculadas, mas todas têm sua beleza. Aí está minha lista das melhores ultrapassagens do ano, organizadas por data. Lembram de mais alguma?

Hamilton x Rosberg, GP da Austrália

Hamilton foi muito corajoso aqui, numa rara ultrapassagem – e por fora – na curva 11 de Melbourne.

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Alguersuari x Hulkenberg, GP da Malásia

Essa foi daquelas estudadas, em que parece que o piloto sabe o desfecho antes da primeira tentativa.

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Alonso x Massa, GP da China

Alonso dá seu cartão de visitas a Massa numa manobra pra lá de oportunista na entrada dos pits. Hamilton fez o mesmo com Vettel, em outra que poderia estar na lista.

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Hamilton x Vettel x Sutil, GP da China

Falando em oportunismo, aos 2min de vídeo, Hamilton aproveita que Sutil escorrega e bloqueia Vettel para passar logo os dois.

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Hamilton x Vettel, GP da Turquia

É Hamilton com sua presa favorita novamente, agora por fora, aos 44s de vídeo, logo após ter perdido a posição na largada.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=-y-KlQSqfH0]

Button e Kubica x Webber, GP da Europa

Briga de foice no travadíssimo circuito de Valência. E Webber deve estar se perguntando até agora o que aconteceu.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=GSval75GTq4]

Rosberg x Alguersuari, GP da Inglaterra

A Brookslands, e ainda por fora, não costuma ser lugar de ultrapassagem, mas Rosberg não quis nem saber e colocou o carro pra lá da linha branca, a 1min21 do vídeo, para passar Alguersuari.

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Barrichello x Schumacher, GP da Hungria

Barrichello tinha pneus bem mais novos, mas essa entra na lista pela coragem: quem não tiraria o pé ao ver o muro tão perto?

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Kobayashi x Alguersuari, GP do Japão

O japonês freia pra lá do “deus nos acuda”, faz a curva de lado e ainda toca em Alguersuari para parar o carro. Isso é que é passar na marra.

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Alonso x Hulkenberg, GP do Brasil

Outra daquelas calculistas: Alonso faz Hulkenberg contornar o S de uma maneira longe da ideal para sair para o abraço lá na frente.

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Hamilton x Safety Car, GP da Europa

Essa perde em plasticidade, mas ganha em eficiência. Foi a ultrapassagem que mais posições garantiu a um piloto. Tivesse ficado atrás do Safety Car, muito provavelmente terminaria a corrida fora dos pontos, lembrando que voltaria à pista após o pit atrás de Massa, pois trocou o bico do carro. Cruzou a linha de chegada em 2º.

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Quem será o piloto que mais ultrapassou no ano?

O número é bonito: tivemos 547 ultrapassagens nesse ano, maior número em absoluto e média (por piloto e por GP) desde 1991. Foram 28.8 manobras em média por prova e 22.8 por piloto, ou seja, cada um fez 1.20 ultrapassagens por corrida. Ainda longe dos números do início da década de 1980 (mais de 40 por evento), mas igualmente distanciando-se das marcas de 1994 a 2002, que flutuavam entre 8 e 12. Não que não haja beleza em corridas sem ultrapassagens, mas é óbvia a intenção da FIA em promovê-las.

Como era de se esperar, corridas afetadas pela chuva ou por desgaste excessivo de pneus (Canadá) resultaram nas provas mais agitadas. É impressionante que, em Mônaco, todas as manobras foram de Alonso e em cima de equipes novas. Não fosse o acidente nos treinos livres, ficaríamos zerados no Principado? Ao passo que as 28 ultrapassagens de Cingapura impressionam, mesmo que tudo se deva, novamente, à diferença de rendimento dos pneus dos pilotos que pararam logo no início, com a janela aberta pelo Safety Car, e se arrastaram até o final.

Essa foi bonita, em Mônaco, mas não valeu
ProvaUltrapassagens
Bahrein21
Australia41
Malásia24
China82
Espanha11
Mônaco4
Turquia29
Canadá65
Europa15
Grã-Bretanha29
Alemanha16
Hungria8
Bélgica67
Itália15
Cingapura28
Japão8
Coréia37
Brasil34
Abu Dhabi13
TOTAL547

Excluindo as sofridas pelos pilotos das equipes novas, o número cai para 267, chegando próximo das 244 de 2009 e 260 de 2008. No entanto, como descobriram Alonso em Mônaco e Webber, de maneira apoteótica, em Valência, em circuitos travados, nem mesmo o abismo de 3, 4s por volta não era o bastante para que a ultrapassagem fosse tão fácil como era de se esperar. Outro motivo pelo qual não vejo a necessidade de excluir os números do “fundão” é que as nanicas sempre existiram, entrando praticamente em extinção apenas nos últimos anos de encarecimento da categoria. Se a ideia é comparar com os anos 80 e o início dos 90, seria natural incluí-las.

O campeão das ultrapassagens acabou aparecendo mais pelas que não funcionaram. Adrian Sutil se deu bem em 47 manobras, 10 a mais que seus “rivais” mais próximos, Alonso e Alguersuari (40) – para quem ficou curioso (a), a da Alemanha em Massa não foi computada. Com 37, aparece justamente o brasileiro, seguido, com 33, por Hamilton. E o que dizer do “Mr. Passão” Kobayashi, que ganhou menos posições (em número e importância) que De la Rosa, mesmo fazendo 5 provas a mais?

Ultrapassagens feitas

Lógico que nada disso quer dizer que piloto A é melhor que B. Mas há várias leituras a serem feitas. Classificar-se fora de posição, se envolver em enroscos na 1ª volta, adotar estratégias diferentes dos rivais, todas essas variáveis levam à obrigação de se passar na pista. Sutil, com o melhor motor e o melhor duto do meio do pelotão, tinha mais que ir para cima mesmo, e isso não lhe rendeu muita coisa.

Ajudado pelo duto aerodinâmico e com a agressividade que não lhe falta, Hamilton deitou e rolou no início do ano

Mas há outro dado interessante, que explica a nossa impressão de que pouco mudou em relação ao que tínhamos nos últimos anos: foram apenas 14 as ultrapassagens valendo as 3 primeiras colocações – sendo 10 delas feitas pela dupla da McLaren (cinco para cada). Outro dado que fica claro é a verdade no argumento de que o campeão mundial ainda não nos mostrou suas habilidades em abrir caminho pelo pelotão ou decidir uma corrida naquela freada mais tardia: 26 manobras no ano, sendo que apenas uma por posição acima do 6º lugar.

Ultrapassagens sofridas

A comparação entre os companheiros de equipe também é interessante, como as disparidades entre Hamilton e Button (33 a 14) ou Rosberg e Schumacher (19 a 30), que dizem muito sobre os estilos dos pilotos. Contabilizando as ultrapassagens que sofreram, as diferenças são igualmente marcantes, com vários casos em que um levou mais que o dobro do companheiro (Schumacher x Rosberg, Massa x Alonso, Alguersuari x Buemi), mas nada se compara ao abismo entre Kubica e Petrov (7 a 23).

Dá para ficar um dia inteiro brincando com esses números, que contam apenas ultrapassagens de pista, depois da 1ª volta. O que vocês leem de tudo isso?

A nova cara dos chefes de equipe

Nada de Ron Dennis, Jean Todt ou Flavio Briatore. Em época de queda nos recordes de precocidade – Vettel quebrou o de pole e vencedor mais jovem em 2008 e o de campeão neste ano, enquanto Alguersuari se tornou o estreante mais novo em 2009 –, a juventude e a renovação não são apenas marcas da turma de dentro da pista.

Em 2010, três jovens team principals curiosamente brigaram por seu primeiro título no mundial de pilotos. Martin Whitmarsh e Stefano Domenicali ainda tinham papel secundário na McLaren e na Ferrari, respectivamente, quando Hamilton e Raikkonen foram campeões, enquanto Christian Horner, da Red Bull, disputou – um pouco de longe, é verdade – com a Brawn ano passado.

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Estão longe de ser inexperientes. O engenheiro mecânico de 52 anos Whitmarsh chegou à McLaren em 1989, vindo da indústria aeroespacial. Porém, na F1, sempre atuou em cargos mais administrativos, mas que requerem conhecimento técnico. Tornou-se o nº 2 da equipe em 1997 e assumiu o cargo de Ron Dennis 12 anos depois. Chegou a colocar o cargo à disposição após o escândalo da mentira no GP da Austrália de 2009, sua 1ª corrida como team principal, porém, sua atuação política agradou os acionistas, que o mantiveram à frente do time.

Hoje também presidente da FOTA (Associação das Equipes de F1), tem um papel fundamental nas intermediações das relações entre times, FIA e FOM (de Ecclestone), adotando um tom conciliador que manteve as já quentes discussões acerca de um novo Pacto da Concórdia fora de polêmicas na mídia, ao contrário do que ocorreu ano passado.

Uma de suas grandes alianças políticas é com Stefano Domenicali, deixando para trás o passado conturbado entre seus antecessores, Dennis e Todt. O italiano de 45 anos tem formação voltada à administração e chegou à Ferrari em 1991, sendo alçado à Scuderia 2 anos depois. Atuou em diversas áreas relacionadas a marketing e RH. Assim como o colega inglês, tornou-se primeiro team manager (em 98), diretor esportivo em 2003 e, finalmente, team principal 5 anos depois.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=gkQUpHM62PU&feature=related]

A liderança de Domenicali se dá pelo pragmatismo e pela concepção de que a Ferrari deve estar sempre acima de tudo, até da própria F1. Mas ele o faz de forma suave, muitas vezes confundida com submissão.

De suave seu colega da Red Bull não tem nada. O mais jovem de todos, com 37 anos recém completados, Christian Horner é um ex-piloto, de relativo sucesso. Desistiu da carreira quando estava na F3000 e fundou seu time, a Arden, que dominou a categoria em seus últimos anos de existência. O caráter mais solto e brincalhão, a juventude e a experiência como chefe de equipe o fizeram ser escolhido para dirigir o projeto da Red Bull na F1, desde seu início, em 2005.

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Seguindo fielmente a linha da empresa, Horner sempre aparece como a voz dissonante entre os team principals, dizendo o que o público espera ouvir. Também já fez o que não se esperava de nenhum chefão na F1, como pular numa piscina vestindo apenas uma capa de super-homem em Mônaco. Mas, dentro da equipe, tem a complicada missão de tornar uma marca tão pautada pelo diferente viável na engessada F1.

Quem quiser saber mais sobre os meandros políticos desses 3 personagens, recomendo a leitura de James Allen.

Não é um trabalho para qualquer um. O team principal é aquele sobre quem recai a responsabilidade final de todas as decisões, técnicas, desportivas e administrativas de uma equipe. Ele é bem assessorado, claro, mas é quem bate o martelo. É, também, o porta-voz da equipe perante a mídia e os acionistas. No seu dia-a-dia, além de dar atenção para patrocinadores e VIPs, tem que ter conhecimento de tudo o que acontece na equipe, motivar e focar os funcionários e, como se tudo isso já não fosse o bastante, controlar os egos dos pilotos.

Para ilustrar, deixo aqui um vídeo que já postei, mas que vale o repeteco, sobre um dia num final de corrida de Christian Horner. É da BBC.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=-ARPe1hx_0k]

Por uma transmissão menos ordinária

A cada post sobre as transmissões das corridas sempre recebo comentários críticos ao produto que recebemos. Principalmente, a respeito dos juízos de valor, que invadem o espaço que deveria ser informativo. No entanto, é igualmente comum ver as palavras de Galvão e companhia reproduzidas quase sem filtro. E por quem mais os critica! O poder do discurso é impressionante.

E não é só o discurso de Galvão – e essa não é uma cruzada contra o narrador, mas sim pela melhoria do produto. Passeando pelos fóruns europeus, dá para perceber uma relação muito estreita entre as discussões da transmissão e dos comentários – e salta aos olhos como a F1 acaba sendo simplificada ao extremo – ou ao “limite extremo”, por aqui.

A transmissão da Globo raramente leva em consideração os retardatários quando observa se um piloto está se aproximando de outro na luta pela liderança. Nunca é imaginada a possibilidade do piloto A estar controlando o consumo de combustível ou de pneu – a não ser por Burti, quando lhe deixam fazer algo mais do que traduzir os rádios – e apenas controlando a distância para o piloto B. E as estratégias, então? Nunca sabemos com precisão quanto tempo um piloto tem que abrir de diferença para voltar fora do tráfego, para ficar no básico.

Ao invés disso, ouvimos com exaustão as opiniões pessoais sobre quem “merece” isso ou aquilo, o que piloto X está pensando… e isso é repetido e repetido até que se torna verdade! No lugar da corrida, “define-se” o caráter de fulano ou ciclano – e isso não é de hoje, vide a falta de respeito com que Prost foi tratado quando escapou na chuva em 93 em Interlagos. Isso, quando não ficamos “na torcida” para os líderes “se enroscarem”…

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Fy90WyuawFE]

Curiosamente, aqueles cuja índole é questionada são os mesmos que cometeram o “crime” de andar mais que algum brasileiro em qualquer momento de sua carreira. Assim, a atitude, por exemplo, de Senna jogar o carro em cima de Prost para ganhar um campeonato é justificada, a de Schumacher tentar o mesmo em 97 – e conseguir em 94 – é absurda. Enquanto os outros “fazem tudo para vencer”, são Dick Vigaristas (quanta criatividade!), os brasileiros campeões do mundo superam os demais por “esperteza” ou “criatividade” ou, se não o conseguem, é porque “lutavam contra o preconceito por vir de um país não-europeu” ou são vítimas de pressões comerciais. E, repito, mesmo quem critica essa “linha editorial”, acaba, de tanto ouvir a mesma ladainha, reproduzindo os juízos que sequer são seus.

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A transmissão pobre faz com que, mesmo quem assiste F1 há muito tempo, tenha uma compreensão limitada do esporte. É uma pena. Não é só o “haja coração” ou o “limite extremo” que incomodam. É o vazio discursivo que impede uma compreensão menos superficial de uma categoria tão apaixonante. Saídas existem, como postei há alguns meses.

Para dar um exemplo claro: na semana passada, enquanto a mídia brasileira destacava a 1ª posição de Massa nos treinos com o pneu Pirelli, salientando que foi a borracha o grande problema do brasileiro no ano e insinuando que um teste inicial, com o carro de 2010, tinha resolvido todas suas deficiências, a discussão na Inglaterra era de como encontrar um meio termo entre a vontade de um fabricante de pneus de ganhar mídia positiva na F1 e a necessidade, em nome do espetáculo, de termos compostos que realmente sofram degradação e deem emoção às corridas, tomando como base o GP do Canadá. O que é mais construtivo e próximo à realidade?

Como desenvolver o carro numa temporada sem testes?

A temporada de 2010 foi tão fascinante dentro das pistas quanto fora delas. E não me refiro a nenhuma polêmica, mas, sim, à corrida pelo desenvolvimento dos carros. E os testes limitadíssimos a alguns ensaios aerodinâmicos em reta e gravações de peças publicitárias durante o ano adicionou um fator de risco que foi manejado melhor por uns que por outros.

Curiosamente, a temporada terminou com um cenário semelhante ao que começou: com Red Bull na frente, a Ferrari seguindo, pelo menos no ritmo de corrida, e a McLaren um pouco mais atrás – excetuando-se Abu Dhabi, um caso a parte para os prateados devido ao asfalto liso –, com Mercedes e Renault como 4ª força. Mas muito aconteceu do Bahrein a Interlagos.

A vantagem de largar na frente

Quem conseguiu manter o domínio, sem grandes sobressaltos, foi a Red Bull. Só não largou com 3 vitórias seguidas pelas quebras de Vettel e a inconstância de Webber. A performance apenas lhe escapou nos circuitos de menor carga aerodinâmica – Montreal e Monza – mas a aparente incompatibilidade do RB6 com as retas diminuiu muito com o avanço do duto aerodinâmico.

A McLaren teve que correr atrás até do duto que ela mesma criou

O duto, aliás, foi a invenção mais óbvia a ser copiada na 1ª parte do campeonato. Todas as equipes estabelecidas, menos a Toro Rosso, desenvolveram seus modelos, alguns acionados por um buraco tapado com a mão esquerda (maioria), joelho (McLaren) e pé (Ferrari). Até Silverstone, o ar era direcionado ao flap inferior da asa traseira, mas quando a Force India teve ótimos resultados direcionando a saída para o flap principal, até mesmo a McLaren, criadora do duto, copiou.

A Red Bull foi uma das equipes que mais demorou para introduzir seu duto de ar. Tinha cartas melhores na manga: seu escapamento, posicionado de forma a alimentar o difusor duplo. E isso era bem mais complicado de se copiar.

Assim, o time austríaco teve o handicap para sempre estar à frente nas inovações. Enquanto todos mudavam o escapamento de lugar, eles flexionaram a asa. Quando todos procuravam onde estava a flexão, mudaram o assoalho. Assim, nunca foram ameaçados.

A seta azul mostra o escapamento padrão; a vermelha, a cópia do sistema da Red Bull

A Ferrari, por outro lado, teve duas grandes invenções para copiar, e, focando todas as forças num duto que não se mostrou não eficiente, se perdeu no desenvolvimento no início da temporada européia. Apenas quando instalou o difusor escapamento, obtendo sucesso logo de primeira, em Valência, voltou a se aproximar dos líderes.

Onde foi que eu errei?

Mas a grande decepção do ano foi a McLaren. Conhecida pela primazia de seu corpo técnico, a equipe de Woking tinha algo a provar depois do escândalo da espionagem, afinal, os carros de 2007 e 2008, praticamente um prolongamento um do outro, tinham propriedade intelectual da Ferrari. Além desses dois anos, o time havia errado no projeto dos outros 2 carros feitos após a saída de Adrian Newey: 2006 e 2009 foram temporadas para esquecer.

Alguns podem lembrar: mas eles evoluíram muito ano passado, com um carro que começou tomando 1s5 na Austrália e terminou o ano ganhando corridas. É verdade. Mas o diretor Jonathan Neale é o primeiro a reconhecer que isso se deu ao tamanho do erro no projeto inicial.

E, mesmo tendo a inovação mais falada do início da temporada, a McLaren começou o ano tomando mais de 20s das Ferrari ao fim da prova do Bahrein. Os acertos estratégicos e as pistas de alta inverteram essa diferença e os ingleses chegaram a liderar ambos os campeonatos.

A McLaren admitiu que não sabia como a Red Bull conseguia flexionar suas asas dianteiras

Mas a dificuldade na introdução do difusor escapamento, saga que começou em Silverstone e durou praticamente até o final do campeonato, jogou todo o bom trabalho no lixo. Questionado sobre qual foi a falha, Neale apontou uma série de fatores, mas destacou um ponto interessante. “Sabemos que há muita performance a ser obtida do acerto mas, para fazê-lo, precisamos ter uma configuração estável. Acredito que o desafio para todos nós tem sido como continuar desenvolvendo o set-up (e trazer modificações para o carro). Equipes que pararam de desenvolver o carro ficaram muito mais rápidas no final da temporada porque os engenheiros de pista e os pilotos puderam aprender melhor a tirar tudo do que têm à disposição.”

Aí entra uma questão crucial, relacionada à restrição nos testes. Talvez o erro da McLaren tenha sido tentar “reinventar a roda” a cada GP, trabalhando sempre com pacotes extensos de modificações, o que dificultada o entendimento do acerto do carro.

O segredo dessa nova época da “corrida dos engenheiros” parece ser adotar a estratégia do “menos é mais”. Foi o que Red Bull e Ferrari – a partir de Valência – fizeram: menos novidades e mais atualizações de peças, o que facilita a avaliação rápida já no 1º treino de sexta-feira e permite que o foco vá logo ao acerto do carro para o restante do final de semana.

Os estrategistas da McLaren estão na fábrica

Ontem falava sobre a necessidade da Ferrari ter um líder dentro do cockpit. Mas essa é só uma maneira de vencer. Historicamente a maior rival dos italianos, a McLaren não poderia trabalhar de maneira mais diferente. Ao invés de dar poder aos pilotos, os ingleses preferem tirar ao máximo suas responsabilidades, dando mais ouvidos aos engenheiros e simuladores.

O grande exemplo disso é a completa dependência de Hamilton em relação a seu pitwall. Vimos, especialmente neste ano, em que as estratégias são mais reativas que no passado, o inglês questionar a decisão da equipe, mas depois dela ser tomada – como na Austrália, quando berrava “quem decidiu parar de novo? Foi uma péssima idéia” – ou propor saídas equivocadas – como a de fazer uma 2ª parada em Abu Dhabi.

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Lembrando que Hamilton é cria da McLaren desde os 13 anos e, se nunca foi estimulado a participar desse tipo de decisão, é porque isso convém ao estilo da equipe.

Outro grande exemplo disso aconteceu na semana passada, quando os ingleses escalaram o reserva Gary Paffett para os testes com os pneus Pirelli, sendo a única equipe a não usar os titulares. A justificaria seria de que o piloto da DTM, tendo andado no teste para pilotos jovens e no simulador no ano todo, estaria em melhores condições de dar informações relevantes.

Por mais que o time de Woking tenha sempre tido grandes pilotos, a hierarquia sempre foi muito clara: quem manda é Ron Dennis, e sua abordagem pragmática faz com que os dados sejam priorizados em detrimento do feeling do piloto. Isso vale, tanto para o desenvolvimento e acerto do carro, quanto para as decisões na pista.

Há quem possa perguntar: e Button, não bancou colocar slicks antes de todo mundo na Austrália e ganhou a corrida por isso? Sim, o inglês entrou no pit indo contra as ordens do pitwall, que lhe afirmara que a pista ainda estava molhada, mas reconheceu que o fez mais porque seus pneus intermediários estavam acabados que por certeza de que era o momento adequado para arriscar. No mais, é outro que mais ouve do que participa das decisões e veste muito bem a camisa do time.

É confiar neles faz sentido. A equipe conta com dois times de estrategistas, um dentro do box e outro na fábrica, na Inglaterra. É o chamado Mission Control, composto por cerca de 15 pessoas, que analisa todos os dados de telemetria, GPS e faz simulações a toda volta do que aconteceria se chovesse, se tivéssemos um Safety Car… A teoria é que, sem a pressão de estar in loco no final de semana de corrida, seja possível tomar melhores decisões.

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É um sistema que, além de eficiente, serve para evitar conflitos internos entre os pilotos e, de fato, na 1ª parte da temporada, a inteligência estratégica da McLaren se sobressaiu em relação à velocidade da Red Bull, enquanto, na 2ª, foi a liderança de Alonso na Ferrari que predominou. Ou seja, são duas formas válidas de se trabalhar. O grande motivo para a queda dos ingleses foi o desenvolvimento e acerto do carro. Mas esse é assunto para um futuro post.

Liderando desde dentro do cockpit

A Ferrari dispensou Raikkonen dizendo que precisava de um líder dentro do cockpit. Pode não ser toda a verdade por trás da saída do campeão de 2007, mas faz certo sentido se lembrarmos o salto de qualidade durante os anos de Schumachercentrismo – e serve para entender a confiança de Ross Brawn e cia. no que Michael ainda pode contibuir com a Mercedes.

Ao vencer sua última prova em Monza de Ferrari, em 2006, os tifosi imploravam para que Schumi ficasse

De certa forma, a Scuderia se moldou em torno do piloto, que, quando se aposentou, deixou uma lacuna. Ao sentir a necessidade de contratar o finlandês após a saída de Michael e, 3 anos depois, de substituí-lo por Alonso, a Ferrari deixou claro que nunca acreditou que Massa pudesse ocupar esse espaço. O papel caberia, então, ao espanhol.

Pelo menos nesse 1º ano, o retorno foi garantido. A liderança de Alonso ficou clara em alguns momentos e implícita em outros.

Claríssima quando o piloto percebeu uma alteração no motor na classificação em Cingapura e pediu para que analisassem a telemetria. Ao ouvir do engenheiro, em meio a sua volta rápida, que precisaria voltar ao pit para reprogramar o propulsor, avisou calmamente que primeiro marcaria o tempo.

Implícita pela forma como um carro sobre cujo desenvolvimento ele teve pouquíssima inflência foi se desenvolvendo ao longo do ano a seu gosto.

Cusiosamente, no entanto, na última prova, a Scuderia cortou as asas de Alonso ao não avisá-lo que voltaria do pitstop atrás de dois carros que não parariam mais – só o fizeram depois da parada. Algumas voltas antes, ele exercera seu papel, sugerindo que tentassem marcar a parada de Webber usando Massa ao mesmo tempo que guiava um F1.

Quatro anos depois, parece que já não sentem tanta falta do heptacampeão. Alonso chegou disposto a conquistar um posto que andava meio abandonado

Essa é uma das qualidades que o líder dentro do cockpit deve ter: visão global da corrida e do campeonato, mesmo trabalhando com as poucas informações que tem à disposição. Tudo isso, como se não bastasse, a 200km/h. Ser político dentro do time também conta muitos pontos, tanto quanto envolver-se nas questões técnicas.

Mas isso tem seu lado negativo, é claro. Permitir que um piloto, que disputa o campeonato com seu próprio companheiro, coordene as ações da equipe é pedir para que ele aja de acordo com seus próprios interesses. E que vai pagar o pato está logo do outro lado da garagem, como bem viu Felipe Massa no GP da Alemanha. Ao ceder à pressão de Alonso para inverter as posições – mesmo que esta também fosse a vontade da equipe – a Ferrari escancarou os limites de até onde seu líder pode chegar.

O top 5 de 2010

Listas sempre são complicadas, polêmicas e não levam a nada, mas são simplesmente irresistíveis! Fiz a minha considerando a equação resultados X o que o carro permitia e dando um crédito maior àqueles que lidavam com a enorme pressão de disputar um dos campeonatos mais parelhos de todos os tempos. E para vocês, quem foram os melhores do ano e por quê?

1 Fernando “não desisto nunca” Alonso

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Chegar com o 3º melhor carro do ano – com ou sem os pontos da Alemanha – liderando na última etapa do mundial e só perder o tricampeonato por um erro inexplicável da equipe já fala por si só. E isso, no 1º ano de Ferrari. Cometeu 3 erros graves – largada na China, batida nos treinos livres em Mônaco e na corrida na Bélgica – mas esteve perfeito nos momentos decisivos e claramente levou o F10 a lugares que não merecia, incluindo duas poles e 5 voltas mais rápidas. Alguns podem dizer que mais herdou que consquistou vitórias, mas isso só foi possível porque se colocou em posição de aproveitar as falhas dos rivais. As performances em Monza e Cingapura foram especialmente impressionantes. Dominou completamente, dentro da pista e na política interna, um companheiro que fazia sua 5ª temporada na equipe.

2 Lewis “ou vai ou racha” Hamilton

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Só perde o 1º posto para Alonso porque seus erros ocorreram nos momentos mais importantes do ano mas, assim como no caso do espanhol, creio que sejam em grande parte consequência da tentativa de superar um equipamento deficiente. Não é exagero pensar que, tivessem, Hamilton ou Alonso, uma Red Bull nas mãos, o campeonato seria bem mais sem graça. A performance de Lewis entre os GPs da Turquia e da Alemanha, quando somou 98 pontos dos 125 possíveis, assim como suas 5 voltas mais rápidas em corrida num carro claramente deficiente em relação à Red Bull, mostram a força de um piloto que soma agressão a qualidade. Envolver-se mais em questões estratégicas e ter uma melhor visão global do campeonato o ajudaria muito a subir de degrau.

3 Sebastian “da pole eu não saio” Vettel

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Os 66 pontos perdidos por falhas mecânicas claramente fizeram falta, mas o menino prodígio bem que poderia ter facilitado sua vida. Rápido e talentoso – as 10 poles não mentem – ele comprovou que é, mas a afobação em momentos de pressão foi outra marca igualmente forte. Tanto, que precisou de uma corrida péssima da Bélgica para adotar a mentalidade de azarão no campeonato e mostrar toda a sua velocidade, sendo absolutamente perfeito, dentro e fora das pistas, nas 4 provas finais. Não se pode deixar para trás a estatística de que apenas converteu em 25 pontos 3 das 10 poles, algumas jogadas fora em manobras de defesa desnecessárias na largada (Inglaterra e Alemanha foram gritantes). Também precisa demonstrar que consegue vencer em outra condição que não seja “flag do finish” – todas as vezes em que truinfou na F1, saiu da pole ou em 2º lugar, passando o 1º já na largada (à exceção do GP de Abu Dhabi de 2009, quando Hamilton quebrou enquanto liderava). Tem que mostrar que tem racecraft e sabe ultrapassar.

4 Jenson “come quieto” Button

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Outro que também trocou de equipe neste ano, aterrisando em pleno “território Hamilton”, e soube conquistar bem seu espaço. Mesmo com um carro bem inferior aos Red Bull e problemas com aderência nas classificações, manteve-se na luta até a penúltima etapa. Isso porque foi o único dos candidatos ao título que não cometeu erros graves durante as provas. A performance com a maior asa traseira que Monza já viu foi excepcional. Toda essa constância, no entanto, ficou em segundo plano na metade final do campeonato, quando a McLaren se perdeu nas atualizações. Um Button corrigindo a trajetória do carro não é um Button feliz, e foi esse que vimos a partir de Silverstone. Várias vezes declarou não saber por que o carro estava daquele jeito, que sua McLaren tinha mudado de uma hora para outra. Para ser bicampeão, especialmente com Hamilton a seu lado, terá que descobrir como reagir em dias nos quais o carro não coopera.

5 Robert “procura-se vagas” Kubica

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Depois de um 2009 fraquíssimo, quando andou menos que o companheiro Heidfeld, Kubica se encaixou rapidamente no novo projeto da Renault e cumpriu bem um papel de liderança que é, de certa forma, novo para ele. Não cometeu nenhum erro grave e alçou o time a posições irreais dado o rendimento do carro – embora a comparação com Petrov, aquele que colocou um pneu na zebra molhada na 1ª volta da classificação em Spa “só para testar” e sobre quem o polonês colocou 0.75s, em média, aos sábados, seja impossível. A performance nas chamadas “driver’s tracks”, como Mônaco, Bélgica e Japão, são um bom chamariz para as equipes maiores ficarem de olho. Só não o coloco mais acima na lista porque guiou sem qualquer pressão de disputa interna ou de título. Quem sabe num futuro próximo…

Menções honrosas

Mark “nada mal para um 2º piloto” Webber é outro que fez um grande campeonato. Tinha um canhão nas mãos, o que faz com que os erros sejam bem mais difíceis de acontecer, é verdade, e, tendo isso em vista, o 3º lugar no campeonato sem ter sofrido qualquer falha mecânica é pouco, mas deixou para trás a imagem de piloto errático e incostante com as vitórias dominantes na Espanha e em Mônaco. A diferença média em classificação para o excelente Vettel ficou em apenas 0.04s. Más largadas e o fato de ter sucumbido à pressão na hora em que sua experiência lhe seria mais valiosa acabaram com, muito provavelmente, sua única chance de ser campeão.

E, por fim, Nico “Michael who?” Rosberg, que chegou na Mercedes neste ano e mostrou muita consistência, ótima adaptabilidade e a qualidade de se colocar em posição de lucrar dos erros dos demais. Rosberg dominou ninguém menos que Michael Schumacher com propriedade, sabendo trabalhar com o heptacampeão dentro e fora das pistas.

Abu Dhabi nas TVs espanhola e inglesa: “tínhamos tudo previsto, menos isto”

A transmissão da espanhola La Sexta começa quase em clima de reza. “Agora todos vamos fechar os olhos, respirar fundo e nos preparar para essa corrida que pode nos dar o título”, pede o narrador Antonio Lobato, que fica em silêncio por alguns segundos. Não estão sozinhos. Na Globo e na BBC, a aposta é também pelo título de Alonso, que “tem a força mental a seu lado”, para Galvão Bueno. Para o comentarista inglês Martin Brundle, “a prova deve ser uma mera formalidade”.

Parte da expectativa sofre um baque já na largada, quando Button passa o espanhol que, “já contava com isso”, segundo seus compatriotas. “Button fez o trabalho das Red Bull”, salienta Galvão. O narrador da BBC, Jonathan Legard, empolga-se tanto que já coloca as McLaren “em 1º e 2º”, esquecendo-se daquele que viria a ser o protagonista do dia, Vettel. A animação também tem a ver com o fato de, claramente, Legard e Brundle torcerem para Webber, a todo momento fazendo as contas para determinar o que o australiano teria que fazer para ser campeão.

A “mera formalidade” em que tinha se transformado a 1ª decisão entre 4 pilotos na história acabou tendo outra virada espetacular no final

Hora dos espanhóis começarem a torcer para… Hamilton? Sim, Lobato até berra para a McLaren acelerar no pitstop do inglês algumas voltas depois, quer de todas as maneiras que ele passe Vettel e faça de Alonso campeão. Ainda mais depois da grande colaboração da Ferrari para que isso não acontecesse…

Não é o que Brundle percebe logo que Webber para e é marcado com ambas as Ferrari. “Acho que Hamilton e Vettel também têm que parar porque o ritmo com pneu duro é muito bom. Será fascinante ver Alonso e Webber abrindo caminho juntos.”

Não em Abu Dhabi. E o muro imposto pelos pilotos que já haviam parado, ignorado pelo comentarista inglês e pela Ferrari, é percebido na hora pelos espanhóis. “Logo Webber vai chegar no tráfego e não será mais tão rápido”, o comentarista Jacobo Vega avisa antes de Alonso fazer a parada suicida. “Ele não pode parar agora. Ele tem que esperar abrir 22s para Rosberg”, Lobato vê com clareza. “A Ferrari está entre a cruz e a espada. Precisa decidir se marca Webber ou Vettel”, observa Marc Gene, piloto de testes da Scuderia. E decidiram marcar, digamos, a subida de um Puyol ao ataque com seus 2 zagueiros, deixando Messi livre.

No Brasil, ficamos sem saber se alguém cantaria a bola. No momento crucial da corrida, os microfones falham e a narração vai para Luiz Roberto, que se limita a dizer “como o som do F1 é bonito”. O narrador ‘oficial’ logo volta à ativa, mas foge da discussão da estratégia. Prefere alfinetar Alguersuari, que faz sua corrida contra Webber. “O Rubinho já reclamou muito dele e agora ele complica a vida do companheiro de equipe” e a pergunta que vem novamente à cabeça é: e a lisura esportiva?

No cair da noite, deu blackout na cabeça dos estrategistas da Ferrari

Logo depois, a alfinetada básica em Hamilton, durante uma comunicação via rádio com a equipe. “Deve estar reclamando. Ele anda reclamando de todo mundo”, observa o narrador brasileiro.

Enquanto isso, Brundle tenta se redimir, já percebendo o erro estratégico. “O ritmo do pneu macio tinha caído no momento que Webber e as Ferrari pararam, então fazia sentido. Mas agora eles voltaram a funcionar. Que reviravolta! Tivessem esperado 3 ou 4 voltas…” O repórter Ted Kravitz avisa: “Os líderes só vão parar quando abrirem o suficiente para voltar à frente de Kubica”. O polonês largou de pneu duro e é apontado desde o início da corrida na BBC como peça chave para a estratégia dos líderes porque fatalmente demoraria a parar, fato que é ignorado no Brasil – Galvão até faz sua propaganda costumeira pró-Kubica, ressaltando “como ele faz o pneu mole durar” – e na Espanha.

Quem está fazendo o pneu macio – esse sim! – durar de maneira impressionante é Button. Segundo Kravitz, a McLaren acha que ele pode lutar pelo 2º lugar, para desespero de Legard. “Eles têm que dar prioridade ao Hamilton. E se alguma coisa acontecer com o Vettel?” Brundle, que também é chegado numa propaganda, essa pró-Button, discorda. “Eles viram a oportunidade de vencer a corrida e estão apostando nela.”

E Gené tenta se equilibrar entre mostrar a realidade ao telespectador espanhol – que, ao contrário do que geralmente acontece no Brasil com os pilotos nacionais, foram muito bem informados da situação complicada o tempo todo – e manter o emprego na Ferrari. “Foi uma série de circunstâncias. Não esperávamos o Safety Car, pois aqui há muitas áreas de escape, e a degradação dos pneus moles deveria ter sido maior”. E tira qualquer esperança de ultrapassagem em cima de Petrov. “O Massa está numa configuração com muito menos carga aerodinâmica. Se ele não consegue passar o Alguersuari, o Fernando tem ainda menos chance. Configuramos o carro dele para defender, não atacar. Pensamos mais na classificação. O Petrov tem a 3ª melhor velocidade máxima, enquanto ele é o 13º. E ainda por cima trabalhamos com a 7ª marcha muito curta, então ele chega no limitador antes de conseguir pegar o vácuo. Está complicadíssimo”, não cansa de repetir. “Tínhamos tudo previsto na Ferrari, menos isto”.

E dá a entender, como também acontece na TV brasileira, que, estivéssemos no Brasil, a corrida seria diferente. Na Globo, até sugere-se que, se Alonso perder, pode colocar a culpa em Hermann Tilke. E toda a vantagem da força mental em nada ajuda agora. “Com um carro melhor é sempre mais fácil. Ele tem a pressão da decisão e um carro ruim nas mãos”, observa Luciano Burti, o que nos leva a lembrar de Webber, que “teve um final de semana quieto. A pressão foi demais”, como observa Brundle. Lobato, como de costume, vai mais longe. “Eu não queria estar na pele dele, sendo usado como isca”, provoca. “O problema é a Ferrari ter mordido”, Vega cai na real.

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Os espanhóis tentam manter o ânimo. “A Ferrari se apaixonou por Fernando e Fernando se apaixonou pela Ferrari. Eles sabem o piloto que têm na mão e, ano que vem, com um carro melhor, sabem o que esperar”, Lobato prevê. Galvão também fala em 2011, em como Schumacher “prometeu que vem com tudo e eu aprendi a acreditar nele” e como “Massa sentiu a pancada (qual delas?) de não terem deixado ele ganhar, mas ano que vem começa tudo do zero.”

A parada de Kubica, como observam os ingleses, confirma o título de Vettel. “O clima é de segunda-feira negra na Ferrari. Chris Dyer (responsável pela estratégia) não tira as mãos da cabeça. Eles não precisavam ter feito aquilo”, reporta Kravitz. “Depois de uma série impressionante de vitórias e pódios, um Safety Car e a degradação dos pneus tira o título de Alonso. Achei no momento que seria uma ótima decisão, poderia ter dado certo”, Brundle não desiste. “Tá voando o título de Alonso, mas não tenho nada contra ele”, Galvão tem essa estranha obsessão de opinar sobre a índole de quem não conhece. “É um piloto excepcional, mas só não queria que o campeonato fosse decidido por aqueles 7 pontos.”

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Brundle é outro que não esconde sua antipatia, mas por Vettel. “Ele teve sua chance ano passado, mas cometeu muitos erros. Esse ano também parecia que ia desperdiçar a oportunidade mas, de alguma maneira, sua velocidade, confiança, comprometimento e talento foram suficientes”, afirma o inglês. “Apesar dos erros, Vettel é muito rápido e o carro é muito bom”, Gené é sintético. “Vitória de uma equipe que limitou-se a vencer na pista e no esporte. É uma atitude desportiva que deveria servir de exemplo para a Ferrari”, Galvão salienta, logo após afirmar que a Red Bull certamente estava satisfeita porque seu “queridinho” havia ganhado.

Alonso x Massa: um abismo dos mais inesperados

A briga que tinha tudo para ser acirrada, na pior das hipóteses por este ser o ano de adaptação de Alonso na Ferrari, foi ganha em poucos rounds pelo espanhol, dentro e fora das pistas.

Nas 7 primeiras etapas, havia até a impressão de que a consistência de Felipe dava mais frutos que a impetuosidade de Fernando, que se deixou em posição de franco atirador após os erros da China e de Mônaco. Mas as recuperações do espanhol, 4º após um drive through e um erro na estratégia na Ásia e 6º após largar em último no Principado, indicavam que havia mais por vir.

Alonso ganhou a equipe nos momentos precisos e minou Massa desde fora da pista

As 3 provas em sequência de Massa fora dos pontos – na Canadá, por colisões com Liuzzi e Schumacher; em Valência, pelo Safety Car, e, na Inglaterra, pelo toque com o próprio Alonso (o que provavelmente ajudou na tomada de decisão na corrida seguinte) – fizeram crescer para 31 pontos a distância entre os pilotos da Ferrari (antes desse “apagão”, a diferença era de 12) e o GP da Alemanha decretou o abismo entre os dois.

Apesar de, a partir daí, a apatia de Massa ter ficado mais evidente, a diferença em ritmo de corrida passou a diminuir, ao mesmo tempo em que o carro melhorava e ultrapassava a McLaren como 2ª força.

Mas o contraste dos números, em qualquer um dos quesitos, não deixa dúvidas do talento de Alonso e do que espera-se que tenha sido apenas um ano difícil de Massa – o fato de ter ficado a 2 pontos de Rosberg, numa Mercedes que em momento algum rendeu mais que a Ferrari, diz muito –, naquele que foi o duelo mais desigual entre companheiros de equipe igualmente experientes.

AlonsoMassa
Vitórias50
Voltas na liderança12642
Poles20
Diferença média na classificação-0.300.30
Média de posição no grid5.87.8
Pódios105
Média de posição de chegada4.567.11
Voltas mais rápidas50
Voltas completadas em corrida11201074
Abandonos por falhas mecânicas00
Abandonos por acidentes11

Hamilton x Button: domínio sim; lavada, não

Antes da temporada começar, havia nas casas britânicas quem apostasse que Button não conseguiria se classificar à frente de Hamilton em nenhuma etapa sequer neste ano. Perderam dinheiro.

Mas, mesmo que a lavada anunciada não tenha acontecido, é interessante perceber como o desempenho do campeão de 2009 caiu desde da introdução frustrada do difusor escapamento, em Silverstone. Se a equipe escolheu privilegiar o estilo de pilotagem de sua cria ou simplesmente o carro mais nervoso foi mais bem domado por Hamilton, provavelmente nunca saberemos.

Raramente vimos essas posições invertidas ao longo do ano

O fato é que a temporada da McLaren pode ser dividida em 3 etapas: Button começou melhor o ano, aproveitando-se de provas em condições difíceis, enquanto seu companheiro tinha altos e baixos – no placar entre os dois nas 6 primeiras etapas, 70 a 59 para o novato no time.

No começo da temporada europeia, Lewis se recuperou e colocou ordem na casa, ao mesmo tempo em que a McLaren parecia mais próxima da Red Bull, principalmente na Turquia e na Inglaterra: Hamilton fez 98 dos 125 pontos possíveis (contra 73 de Button) nas 6 provas entre Turquia e Alemanha e assumiu a ponta no duelo interno.

Mas o time de Woking teve uma série de upgrades que não funcionaram no carro, deixando-os como a 3ª força nas provas finais à exceção do tapete de Abu Dhabi, sem as ondulações que tanto atrapalharam a equipe. E foi com o carro pior que a diferença entre os pilotos se fez mais clara: 83 a 71 nas últimas 8 provas, mesmo com a série de erros de Hamilton, uns mais custosos que os outros (Monza, Cingapura – mesmo que sua culpa seja discutível –, os treinos no Japão e os deslizes em lutas por posições na Coréia e no Brasil).

Fica clara a supremacia de Hamilton, que aumenta na proporção da dificuldade em se guiar o carro, mas também a rápida adaptação de Button, que vinha de 6 anos na equipe que hoje é a Mercedes. O implícito é a dificuldade de ambos em liderar o desenvolvimento e o acerto do carro. Por várias vezes, mudaram de direção em cima da hora e/ou escolheram caminhos diferentes, o que certamente não ajudou o time.

HamiltonButton
Vitórias42
Voltas na liderança100145
Poles10
Diferença média na classificação-0.160.16
Média de posição no grid5.26.9
Pódios97
Média de posição de chegada3.754.47
Voltas mais rápidas51
Voltas completadas em corrida10011023
Abandonos por falhas mecânicas11
Abandonos por acidentes21

Schumacher x Rosberg: saudades de Fiorano

O ano de estreia com apenas 0.08s de desvantagem na média em classificação para o já experiente e – hoje desmascarado por Vettel – leão de treino Webber e o domínio absoluto sobre Wurz e o pobre Nakajima não serviram para que Rosberg e seu currículo, apenas comparável ao de Hamilton e Hulkenberg nas categorias de base, fosse considerado páreo para um Schumacher voltando aos 41 anos após 3 de aposentadoria, sob um regulamento completamente diferente e sem os testes dos quais tanto gostava nos tempos de Ferrari.

A exemplo do ex-companheiro Massa, Schumi não gostou nada dos pneus dianteiros mais estreitos usados neste ano

Logo ficou claro que o ano seria dele, um piloto muito constante, rápido em classificação, mas que ainda não mostrou a agressividade dos grandes campeões. Porém, como demonstrou nesse ano, com um grande carro nas mãos, dará trabalho. As 5 vezes em que foi 5º colocado e os 3 pódios mostram sua capacidade de sobreviver em provas em que os adversários desperdiçam oportunidades, enquanto Schumacher passou a melhorar nas últimas 4 etapas, quando a Mercedes parou o desenvolvimento e começou apenas a trabalhar com diferentes setups. Ou seja, quando Michael pode brincar como nos tempos de intermináveis voltas em Fiorano.

RosbergSchumacher
Voltas na liderança160
Diferença média na classificação-0.280.28
Média de posição no grid7.49.9
Pódios30
Média de posição de chegada6.538.65
Voltas completadas em corrida10291023
Abandonos por falhas mecânicas11
Abandonos por acidentes31

Barrichello x Hulkenberg: dois campeonatos diferentes

Retrato de uma geração de estreantes que mal treinam antes de começar o campeonato de F1, Hulkenberg se envolveu em muitas confusões nas voltas iniciais de seus primeiros GPs e demorou até a metade da temporada para mostrar seu trabalho. O que eram 0.5s em classificação e mais de 1s em ritmo de corrida de desvantagem para Barrichello se transformou numa briga apertada a partir do GP da Alemanha e 20 de seus 22 pontos foram marcados nas últimas 8 provas – com direito a uma pole fantástica do Brasil.

A precisão da informação de Barrichello caiu como uma luva na Williams

Com o time todo nas costas na 1ª metade do ano (foi responsável por 93% dos pontos da equipe), curiosamente Barrichello fez menos pontos que o companheiro novato – 18 – nas 9 etapas finais, mas aproveitou-se bem do momento em que a Williams, sendo uma das primeiras a introduzir e acertar o difusor escapamento, teve condições de andar na frente das Mercedes – entre os GPs da Europa e da Inglaterra. A dupla conseguiu roubar o 6º posto no mundial de construtores da Force India por 1 ponto.

BarrichelloHulkenberg
Poles01
Diferença média na classificação-0.140.14
Média de posição no grid9.411.2
Média de posição de chegada9.8811.93
Voltas completadas em corrida1030923
Abandonos por falhas mecânicas11
Abandonos por acidentes13

Decidi não fazer as comparações finais de Lucas Di Grassi e Timo Glock porque o brasileiro, numa equipe sem recursos suficientes, teve um equipamento inferior que o companheiro durante boa parte do ano. Já Bruno Senna dividiu o time com 3 pilotos, o que também dificulta as avaliações.

Os duelos entre companheiros de equipe mais equilibrados

Alguersuari x Buemi: de olho numa promoção

Alguersuari começou esta que seria sua primeira temporada completa na F1 sabendo que o único fator em que ficava devendo para Buemi, com meia temporada a mais de experiência e um currículo bem mais pobre nas categorias de base, era a classificação. Começou 2010 levando 0.5s, por vezes 0.8s do companheiro, mas, a partir do Gp da Alemanha, passou a devolver na mesma moeda e terminou o ano com uma desvantagem de apenas 0.05s.

Alguersuari terminou à frente de Buemi nas últimas 5 provas

Difícil para ambos era lutar por posições na pista, sendo a Toro Rosso a única das equipes estabelecidas que não conseguiu fazer funcionar o duto aerodinâmico. Alguersuari fez 6, contra 8 pontos de Buemi, mas se manteve longe de confusões (não abandonou por acidente em nenhuma etapa, contra 3 do companheiro) e conseguiu boas progressões em relação a suas posições de largada. Aos 20 anos (!), vai fazendo seu trabalho para se tornar uma opção na Red Bull quando Webber sair.

AlguersuariBuemi
Diferença média na classificação0.05-0.05
Média de posição no grid15.314.8
Média de posição de chegada11.8812.07
Voltas completadas em corrida1045891
Abandonos por falhas mecânicas21
Abandonos por acidentes04

Kovalainen x Trulli: disputa sadia ajuda a equipe

O duelo dos 2 segundões unidos pela Lotus foi dos mais interessantes neste ano. Talvez em consequência das impressionantes 7 quebras de Trulli, foram os resultados de Kovalainen (um 12º e dois 13º lugares) que deram a importante 10ª colocação ao time no mundial de construtores. Nas classificações, território do italiano, a diferença foi mínima e desaparece na média de posição de largada. A vantagem de Kovalainen foi sentida na corrida. Mesmo contando as etapas em que os dois carros terminaram – e foram apenas 6! – sua média é de 15.3, contra 16.5 do companheiro.

Vimos Trulli voltando a pé mais vezes que o campeão no lugar mais alto do pódio

De qualquer forma, parece que a receita da Lotus de contratar pilotos experientes deu frutos, juntamente com o departamento técnico formado por engenheiros com experiência prévia de F1 (principalmente vindos da Toyota), ao contrário do que fizeram as outras equipes novas.

TrulliKovalainen
Diferença média na classificação-0.080.08
Média de posição no grid18.818.8
Média de posição de chegada17.2715.31
Voltas completadas em corrida816926
Abandonos por falhas mecânicas73
Abandonos por acidentes02

Curiosidades de Abu Dhabi e a volta do equilíbrio na F1

Sebastian Vettel se tornou o campeão do mundo mais jovem da história da F1, reforçando uma tendência de queda na idade dos que chegam ao título. Ele é o 3º em 5 anos a bater uma marca que durou 33 anos nas mãos de Emerson Fittipaldi – em 2005, Alonso venceu com 25 anos; em 2008, Hamilton estava perto de completar 24 e hoje, o alemão tem 23.

Mas a conquista é marcada por uma estatística ainda mais interessante: Vettel jamais havia chegado à liderança do campeonato antes da última etapa da última prova e se tornou o 2º alemão campeão do mundo. O país levou o título pela 8ª vez em 17 temporadas, média pouco acima de uma conquista a cada 2 anos. É, também, apenas o 3º piloto da história a vencer chegando na última corrida da temporada em 3º na tabela – sendo os outros Guiseppe Farina em 1950 e Kimi Raikkonen, em 2007.

E pensar que a Alemanha era um país sem tradição na F1 há menos de 2 décadas

Chegado a números e estatísticas, Vettel largou da pole pela 15ª vez na carreira – 10ª no ano –, equiparando-se a Felipe Massa. No entanto, tem 62 largadas na F1, contra 133 do brasileiro. A vitória que lhe deu o título foi a 10ª na categoria, mesmo número de James Hunt, Ronnie Peterson, Jody Scheckter e Gerhard Berger.

A melhor volta, no entanto, ficou com Lewis Hamilton, curiosamente apenas pela 8ª vez na carreira – sendo 5 só neste ano, mesmo número de Alonso, que levou o troféu da DHL como piloto mais rápido do ano por ter mais segundas voltas mais rápidas que o inglês. O resultado ajudou a McLaren a se firmar como a única equipe que pontuou em todas as etapas e a manter o 2º lugar no campeonato de construtores, à frente de uma Ferrari que foi superior em performance na metade final de 2010.

O pódio de Abu Dhabi contou com os 3 últimos campeões do mundo. No Canadá neste ano tivemos Hamilton, Button e Alonso nas 3 primeiras colocações, mas para encontrar os vencedores de maneira consecutiva, temos que voltar ao GP da Austrália 88, que teve Prost (86), Senna (88) e Piquet (87) estourando champagne.

O GP da Austrália de 1988 deve pódio de campeões e uma cena rara

Depois do domínio sem precedentes de Schumacher que culminou com o heptacampeonato, nos últimos 5 anos, temos tido campeões diferentes. O recorde de “caras novas”, no entanto, vai para o período de 1976 a 1982, quando tivemos coroados James Hunt, Niki Lauda, Mario Andretti, Jody Scheckter, Alan Jones, Nelson Piquet e Keke Rosberg.

Outro sinal de equilíbrio é que, pela 3ª vez seguida, o atual campeão do mundo chegou à última prova sem chances de repetir o feito. Antes disso, temos que voltar a 2000, com Hakkinen, e 1998, com Villeneuve, para encontrar situações semelhantes.

A temporada terminou, mesmo com mais pontos sendo dados que em qualquer época da F1, com apenas 16 de diferença entre o 1º e o 4º colocados. A menor distância do ano havia acontecido após o GP do Canadá, quando Hamilton, Button, Webber e Alonso estavam divididos por 15 pontos. Curiosamente, Vettel era apenas o 5º naquele momento e o vice-campeão da Ferrari, o 4º.

Continuando a “maldição” do líder do campeonato, desde o GP da Turquia do ano passado, o melhor colocado na tabela não vence a prova. Outro dado interessante é que, pelo 3º ano seguido, o atual campeão do mundo só venceu 2 vezes na temporada em que defendia o título: foi assim com Raikkonen em 2008, Hamilton em 2009 e Button em 2010.

Como a Ferrari perdeu o campeonato em Abu Dhabi

Vettel fez sua parte para descontar os 25 pontos que tinha para Alonso com 2 vitórias nas últimas 2 provas, mas foi um erro elementar da Ferrari na estratégia que permitiu ao alemão levar seu 1º título mundial.

Com a ultrapassagem sofrida logo na largada, Alonso estava em 4º, no limite do que precisava para bater Vettel no campeonato. Era imperativo, portanto, que o espanhol não perdesse posição de pista para Webber, que tinha um carro mais rápido.

Excepcionalmente em Abu Dhabi, a Ferrari não parecia ter o rendimento nos pneus macios com que contou por todo o ano e havia o risco do piloto da Red Bull fazer um 1º stint mais longo e voltar à frente da Ferrari. O time italiano, então, decidiu concentrar suas forças em marcar o pitstop de Webber.

O australiano parou cedo, na volta 11, copiando a estratégia vencedora de Cingapura. Se realmente não tinha pneus ou se esta foi uma opção da equipe sacrificar suas chances no campeonato para ajudar Vettel, provavelmente nunca saberemos. De certa forma, foi a maneira dos engenheiros fazerem o jogo de equipe que a matriz da empresa não queria que ficasse óbvio, mais preocupada com a venda das latinhas. Mas o fato é que ele ficou preso por Alguersuari quando voltou à pista.

Era a chance de que a Ferrari precisava para bloqueá-lo com Massa. Mas a volta do brasileiro de entrada nos boxes foi 1.4s mais lenta e, mesmo com o tempo perdido atrás do espanhol, Webber voltou à frente – e fazendo o melhor 1º setor da pista naquele momento.

Campeonatos se perdem por uma temporada inteira, mas, nesse caso, não é exagero dizer que a estratégia da Ferrari tirou o tri de Alonso

Ao mesmo tempo, o ritmo do pneu macio caía abruptamente. Entre as voltas, 8 e 13, por exemplo, Vettel passou de 1’45.337 para 1’46.667. Webber virava 0.6s mais rápido com os pneus novos. Se o australiano passasse os carros que aproveitaram o Safety Car na 1ª volta para fazer suas paradas – à frente dele estavam Petrov e Rosberg – fatalmente voltaria à frente de Alonso após os pitstops.

Não parece ter sido uma decisão fácil. Tanto, que Alonso só parou na volta 15, 4 depois de Webber. E voltou à frente do australiano. Ao mesmo tempo, lá na frente, o pneu macio voltou a render, com Vettel novamente na casa dos 1’45.

Petrov tinha todos os motivos do mundo para manter Alonso atrás dele. Queria mostrar serviço, é claro, e estava equipado com o mesmo motor do virtual campeão – aquele que o deixou na mão na Coréia. Além disso, precisava abrir um gap para que a estratégia de seu companheiro funcionasse. Os únicos pontos de ultrapassagem do circuito são ao final das 2 retas, e Alonso não conseguia se aproximar o bastante – enquanto o russo era o 5º nas velocidades máximas, o espanhol era o 10º. Além disso, tinha um motor que provavelmente fazia sua 3º corrida, sendo uma delas Monza, enquanto o piloto da Renault estreava o seu.

A Ferrari não levou em conta a dificuldade de se ultrapassar em Yas Marina

Tivesse a Ferrari mantido Alonso na pista e marcado os líderes ao invés de Webber, o espanhol terminaria tranquilamente em 4º lugar – posição ocupada por Rosberg, mesmo chegando a 30s de Vettel. Alonso cruzou a 43s. Foi esse o tamanho do prejuízo de uma estratégia equivocada.

A McLaren também errou?

Outro que perdeu muito tempo atrás de uma Renault – também de motor novo – foi Lewis Hamilton. Naquele momento, Kubica ainda não tinha feito o pitstop pois, largando em 11º, estava com os pneus duros e só pararia na volta 46. Enquanto isso, Vettel, livre de tráfego, escapava à frente. À primeira vista, um erro.

Contudo, o inglês não chegaria a abrir a distância necessária para parar e voltar à frente do polonês, tendo em vista que seu rendimento com o pneu macio tinha se equiparado ao de Kubica com os duros. Ou seja, perderia até mais tempo se não fizesse a troca naquele momento.

Na 1ª volta depois da parada da Reanult, Hamilton marcou a volta mais rápida da prova, mas, provavelmente com os pneus já desgastados devido ao tempo que perdeu atrás do polonês, não conseguiu manter o ritmo.

Essa queda no rendimento provavelmente desencorajou a McLaren de tentar uma estratégia semelhante ao GP do Japão, quando Button demorou a parar para frear as Red Bull e permitir a aproximação de Hamilton. Mais uma vez sacrificado, o campeão de 2009 fez um impressionante stint de 39 voltas no pneu macio.

Webber nunca vai esquecer da Coréia

Como gols no futebol, pontos num campeonato de F1 têm o mesmo valor, do início ao final da temporada. Mas uma virada nos instantes finais tem um valor inestimável. E diz muito sobre um piloto.

Há quem insista na inócua discussão de merecimento quando é difícil argumentar contra um piloto que, com o carro 3º colocado no mundial de construtores, chegou à etapa final liderando o campeonato. Na mesma medida, o que dizer de quem teve quebras em duas provas que liderava com facilidade e ainda contou com outras falhas no meio do caminho? Mas, pelo menos até essa última etapa, muitos consideravam que Webber “merecia” ser campeão.

Olhando superficialmente, é compreensível. Afinal, o australiano começou o ano com todos apostando que ele não seria páreo para o talentoso Vettel. A idade avançada – 34 anos –, a possibilidade desta ser sua grande chance e o fato da equipe estar moldada ao redor do alemão fazem com que a simpatia pelo azarão seja quase imediata.

Ainda mais após o GP da Bélgica, quando Webber, depois de colecionar belas apresentações na Espanha, Mônaco, Inglaterra e Hungria, assumiu a ponta do campeonato, com Vettel a mais de uma vitória de distância. O contraste com os erros dos rivais, principalmente do companheiro e de Alonso, salientava ainda mais sua regularidade. Para completar, nas corridas seguintes, seria Hamilton quem cederia à pressão e daria ainda mais razão para quem acreditava no título do australiano.

Mas, na parte final de campeonato, Vettel colocou ordem na casa. Nas últimas 5 provas, classificou-se à frente do companheiro, descontando 49 pontos na tabela. E deixou uma pergunta no ar: como um piloto que teve o melhor carro o ano todo, não sofreu com falhas mecânicas nas corridas e ainda não conseguiu fazer mais pontos que o companheiro pode merecer o mundial?

Sorry Mark, but I'm faster than you

Vettel errou muito? Sim. Perdeu, por baixo, 62 pontos – 2 segundos lugares pela batida na Turquia e pela briga desnecessária na largada da Inglaterra, a vitória na Hungria desperdiçada por um drive through infantil, um 3º na Bélgica que virou colisão com Button e uma raspada no muro que lhe custou a pole e a vitória em Cingapura – porém, ao contrário do companheiro, sofreu com problemas mecânicos. Foram 4, contra nenhum de Webber, que lhe custaram nada menos que 66 pontos – Bahrein, Austrália, Espanha e Coréia.

Nas contas do australiano, são 32 pontos perdidos por falhas – um possível 3º lugar em Valência com a ajuda do Safety Car, caso não tivesse batido com Kovalainen, e o 2º (que seria, na verdade, um 1º) na Coréia. Isso sem contar más classificações (Bahrein, Cingapura, etc.) e largadas (Bélgica, Itália, etc.).

Mesmo errando muito menos e sem as falhas técnicas que assombraram o companheiro, Webber ficou devendo na hora da verdade, o que ficou claro na classificação de Abu Dhabi. “Eu não conseguia tirar a performance minha ou do carro. Foi a 1ª vez que olhei para o pitboard e pensei: ‘não consigo chegar nesse tempo’”. Não poderia haver hora mais errada para isso. E perdeu sua chance de ouro pela 2ª vez. A primeira, aos 40’ do 2º tempo, na batida boba na Coréia. A segunda, aos 45’, ao ser mais de meio segundo mais lento que o companheiro na classificação mais importante da sua vida.

Números de Vettel x Webber

VettelWebber
Vitórias54
Voltas na liderança382317
Poles105
Diferença média na classificação-0.04s+0.04s
Média de posição no grid2.042.5
Pódios1010
Média de posição de chegada3.653.97
Voltas mais rápidas33
Voltas completadas em corrida10661043
Abandonos por falhas mecânicas20
Abandonos por acidentes12

E não é que o piloto mais rápido é o campeão?

Muda-se a pontuação, libera-se, na prática, o jogo de equipe e, no final, o piloto mais rápido do ano todo vence o campeonato. Vettel lidera pela 1ª vez o mundial na hora certa e, com uma ótima recuperação desde a catástrofe do GP da Bélgica, torna-se o campeão do mundo mais jovem da história. E pensar que a inversão de posições no Brasil, defendida por alguns, tiraria o título daquele que foi, independentemente do favoritismo da equipe, o melhor piloto da Red Bull no ano. Afinal teve 4 falhas mecânicas, contra nenhuma de Webber, que lhe custaram nada menos que 66 pontos no ano.

Turma de 2010

Na última prova, em que aparecia como azarão, foi ajudado pelo erro da Ferrari na estratégia, ao decidir cobrir a parada de Webber, esquecendo-se do tráfego causado pelos pilotos que haviam aproveitado o Safety Car no início da prova para fazerem seu pitstop. Tivessem copiado as McLaren, conseguiriam o 4º lugar de que precisavam.

Um grande final, que poderia ter sido ajudado pela pista, é verdade, mas que fechou com chave de ouro a temporada mais disputada da história da F1.

Será que essa decisão tem ecos de 1999?

Em tempos de coadjuvante à frente no campeonato reclamando de ser preterido e de dono de equipe declarando preferir perder a vencer desta ou daquela maneira, é impossível não lembrar de uma decisão de 11 anos atrás.

O campeonato de 1999 estava desenhado para ser uma batalha direta entre a McLaren de Hakkinen e a Ferrari de Schumacher. Ambos tinham seus claros escudeiros, Coulthard e Irvine e já haviam duelado nas categorias de base – o GP de Macau de F-3 de 1990 ficou famoso – e em 1998, quando o time inglês teve o melhor equipamento e o finlandês aproveitou a oportunidade. Por sua vez, a Ferrari não vencia um campeonato de pilotos desde 1979 e vinha se recuperando, alçada por Schumacher e pelos engenheiros que trouxera da Benetton – Ross Brawn e Rory Byrne.

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A disputa era apertada até o GP da Grã Bretanha, quando o até então bicampeão do mundo Schumacher bateu e quebrou a perna. Surpreendentemente, Irvine conseguiu se manter em condições de lutar pelo título com Hakkinen. Mas seria a vontade da Ferrari de sair da fila maior que o poder de Schumacher dentro da equipe? Quando a Ferrari “esqueceu” uma roda no pitstop do piloto no GP da Europa, começaram as desconfianças

O fato é que, faltando 2 provas para o final da temporada, o alemão voltou às pistas. Agora, na posição de escudeiro. E Irvine precisava de sua ajuda. O irlandês tinha 2 pontos de desvantagem – 60 a 62 – em relação a Hakkinen. Era uma posição em que o finlandês estava por 5 abandonos em 14 provas – em 8 das restantes havia ido ao pódio.

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Num primeiro momento, parecia que Schumacher estaria disposto a ceder a Irvine as glórias de ser o homem que tiraria a Scuderia de uma seca que já durava 20 anos. Fez a pole no GP da Malásia, deixou o companheiro passar e segurou Hakkinen por toda a prova. A tabela mostrava 70 a 66 antes da prova final, em Suzuka.

Schumacher foi o pole novamente, com Hakkinen em 2º e Irvine, num distante 5º – coincidentemente, a mesma em que Webber sai amanhã. Por ter mais vitórias, o piloto da McLaren venceria o campeonato caso chegasse em 1º. Foi o que ele fez, tomando a ponta desde o início. O 3º lugar de Irvine de nada adiantou e até hoje o irlandês e a mídia inglesa suspeitam que, nem seu companheiro, nem a Ferrari, fizeram grandes esforços para impedir o bicampeonato de Mika. No ano seguinte, Schumacher seria o 1º campeão pela Ferrari desde Jody Scheckter.

Em 2007, o famoso “nós estávamos correndo contra Fernando” de Ron Dennis, justificando o erro estratégico no GP da China que acabou custando o título a Hamilton é outro exemplo de como uma equipe pode preferir jogar um campeonato fora a conquistá-lo com o piloto “errado”. Os mais antigos podem lembrar de alguma situação parecida. Alguém se arrisca?

Luta entre companheiros na classificação


Button5 x 14Hamilton
Schumacher5 x 14Rosberg
Vettel12 x 7Webber
Massa4 x 15Alonso
Barrichello13 x 6Hulkenberg
Kubica17 x 2Petrov
Sutil16 x 3Liuzzi
Buemi11 x 8Alguersuari
Kovalainen8 x 11Trulli
Senna1 x 2Klien
Heidfeld1 x 4Kobayashi
Glock17 x 2Di Grassi

Diferenças hoje

Hamilton x Button: 0.398s

Schumacher x Rosberg: 0.076s

Vettel x Webber: 0.531s

Alonso x Massa: 0.410s

Barrichello x Hulkenberg: 0.942s

Petrov x Kubica: 0.122s

Sutil x Liuzzi: 0.728s

Alguersuari x Buemi: 0.117s

Trulli x Kovalainen: 0.196s

Senna x Klien: 0.211s

Kobayashi x Heidfeld: 0.330s

Glock x Di Grassi: 0.415s

Refletindo o que aconteceu por todo o ano, a lógica ficou de lado no Q3 da classificação em Abu Dhabi. Quando tudo indicava uma nova dobradinha da Red Bull, seguida por uma 2ª fila das McLaren, foram os 3 melhores pilotos na atualidade em uma volta lançada que fizeram a diferença. Vettel fez uma volta sem erros e ficou em 1º, enquanto Hamilton e Alonso impuseram sua vantagem sobre seus companheiros justamente no 3º setor, o mais técnico da pista. Ambos foram 0.3s melhores que Button e Massa apenas nos últimos 40s de volta.

Webber, o pressionado dos postulantes ao título – pela maior obrigação de ganhar com um carro melhor, mas tendo contra si a idade e a falta de apoio da equipe – parece ter sentido. Mas, como sempre em sua carreira, parece gostar da posição de franco atirador. O script para domingo, enfim, não poderia ser melhor escrito.

Foi um sábado recheado de surpresas e confirmações. No 1º caso, a maior delas foi Petrov, que tirou Kubica do Q3 pela 1ª vez no ano – só os pilotos da Red Bull largaram entre os 10 primeiros nas 19 etapas – e Barrichello, que andara constantemente atrás de Hulkenberg por todo o final de semana, colocou 0.942s no companheiro no Q2 e ficou a 0.001s de Massa no Q3.

No campo das confirmações, as tendências das últimas provas de ver Alguersuari – de olho na vaga de Webber na Red Bull em 2012 – à frente de Buemi e Trulli superando Kovalainen (estas 2 brigas, as mais equilibradas do ano) continua, assim como o bom desempenho de Schumacher neste final de 2010. O alemão deixou Rosberg para trás pela 2ª corrida seguida e fechou o ano com um “placar” de 4 x 15, o mesmo de Massa e Button. Falando em placares, o estreante que se deu melhor foi Hulkenberg, mais rápido que o homem mais experiente do grid 6 vezes na temporada.

A Red Bull não tem o mesmo domínio de Interlagos

Como se já não bastasse termos uma decisão de campeonato apertadíssima, em teoria Abu Dhabi é um circuito mais parecido com Cingapura e Canadá, em que a Red Bull não foi tão dominante (vitória de Alonso no 1º e de Hamilton no 2º).

A prática confirmou essa expectativa. O time austríaco, apesar de ter mostrado um ritmo forte, não tem a vantagem de Interlagos. Inclusive, com os pneus médios, era fracionalmente mais lento que Alonso, algo que pode mudar com o avanço do setup no decorrer do final de semana.

Cena rara neste ano, Vettel e Webber tiveram alguns momentos de saída de pista. Com os pneus super macios, a diferença aumentou e eles passaram a perder para a McLaren – pelo menos na mão de Hamilton, uma vez que Button continua reclamando de bloqueio dos dianteiros. O equipe inglesa finalmente acertou a mão com a asa traseira que deveria ser estreada ainda em Cingapura. Alonso abortou sua melhor volta – mesmo assim, rodava a 0.15s de Hamilton.

O equilíbrio continuou no stint com pneus super macios e tanque cheio, que estuda como será a 1ª e importantíssima fase da corrida. Contudo, Alonso pareceu ter problemas com o composto macio, justamente o ponto forte da Ferrari, e reclamou que o carro estava muito traseiro com este tipo de pneu. Veja os tempos:

Pneu super macio e tanque vazio

HamiltonVettelWebberAlonso
1:41.7331:49.7311:52.9951:47.896
1:51.4251:41.6141:41.3691:50.316
1:41.2131:53.9612:02.7961:41.314
1:52.1181:41.1451:41.3151:52.199
1:40.8881:42.2041:51.0271:46.293
1:52.2192:02.7951:43.752

Pneu super macio e tanque cheio

HamiltonVettelWebberAlonso
1:46.8851:47.0191:47.4971:46.542
1:47.4341:46.9621:52.8621:52.907
1:47.0981:47.6121:47.1811:47.529
1:54.7321:52.2871:48.958
2:24.6031:47.2171:48.703
1:48.0031:49.239
1:49.361

O 2º treino foi disputado no mesmo horário da classificação, ao anoitecer, e contou com uma queda de temperatura que pode ajudar Red Bull e McLaren. É bem verdade que o tráfego atrapalhou os pilotos no stint com pneus macios e tanque vazio, que resultou nos melhores tempos do dia, mas a noite de Abu Dhabi parece ter dificultado a o aquecimento dos pneus e pode ser um fator amanhã. Massa só conseguia acompanhar o ritmo de Alonso no 2º setor, das longas retas, e ficou sem combustível em seu stint com pneus super macios. Perdeu meia hora de treino.

No mais, Renault e Force India (baseada em seu duto aerodinâmico) andaram bem, enquanto a Williams teve problemas para ganhar tempo com o pneu super macio e amargou as 12ª e 15ª posições (Hulkenberg, estreante em Abu Dhabi, à frente) e a Hispania de Senna andou surpreendentemente próxima da Virgin de Di Grassi o treino todo, mas levou um “choque de realidade” no final. Bruno foi o último, 0.224s de Klien, e Lucas a 0.794s de Glock.

Voltas combinadas

A volta combinada é a soma dos melhores setores de cada piloto.

Pos.PilotoVolta combinadaDif.Déficit p/ a melhor
1Lewis Hamilton1’40.8540.034
2Sebastian Vettel1’41.0460.1920.099
3Fernando Alonso1’41.2250.3710.089
4Mark Webber1’41.2440.3900.071
5Felipe Massa1’41.4590.6050.124
6Robert Kubica1’41.5760.7220.000
7Michael Schumacher1’41.8190.9650.427
8Jenson Button1’41.9991.1450.133
9Vitaly Petrov1’42.0231.1690.073
10Vitantonio Liuzzi1’42.1291.2750.074
11Nico Rosberg1’42.1881.3340.034
12Nico Hülkenberg1’42.2561.4020.193
13Adrian Sutil1’42.5031.6490.032
14Kamui Kobayashi1’42.6481.7940.120
15Rubens Barrichello1’42.7571.9030.157
16Nick Heidfeld1’42.8632.0090.087
17Jaime Alguersuari1’43.1172.2630.011
18Sebastien Buemi1’43.4332.5790.151
19Heikki Kovalainen1’45.1804.3260.000
20Timo Glock1’45.1994.3450.060
21Jarno Trulli1’45.5644.7100.048
22Lucas di Grassi1’45.8575.0030.196
23Christian Klien1’47.0156.1610.195
24Bruno Senna1’47.1766.3220.258

GP do Brasil na TV espanhola e inglesa – e as brigas que só Galvão viu

Nem os espanhóis da La Sexta acreditavam no título de Alonso já no GP do Brasil. Tanto, que a La Sexta começa a transmissão da corrida explicando que “o mais lógico é que a decisão vá para Abu Dhabi”. A BBC inglesa segue a mesma linha, torcendo por mais uma reviravolta, como na Coréia. “Se há um circuito que pode dar emoção, é este”, destaca o narrador Jonathan Legard, para logo emendar. “Numa das maiores cidades de mundo, com tantos arranha-céus quanto contrastes, como Jenson Button percebeu ontem”, lembrando da tentativa de assalto. “A torcida brasileira é diferente, os estrangeiros adoram”, garante Galvão Bueno. Para o narrador espanhol Antonio Lobato, contudo, “há alguns setores da arquibancada contrários a Fernando.” Mas ele custou a acreditar, como mostra o vídeo:

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Mas o principal assunto antes da largada é Hulkenberg, que “estava na hora certa e no lugar certo” na classificação, para Lobato, ou “conseguiu aquecer melhor os pneus”, para Luciano Burti. De qualquer maneira, o mais importante é, como frisa Legard, que “ele tem a posição ameaçada na Williams, mas na F1 currículo se escreve na pista e foi o que fez ontem.”

O problema é que, como salienta o comentarista Martin Brundle, “Hulkenberg tem o 6º ou 7º carro mais rápido no seco.” Reginaldo Leme aposta que as duas Red Bull se livrarão do alemão com facilidade. E acerta ambos: o nome da equipe, que sempre tinha sido RBR única e exclusivamente na Globo, e o cenário. Enquanto os espanhóis perdem a manobra de Webber, mais preocupados com o duelo entre Alonso e Hamilton.

Foi só Galvão dizer que o inglês, mesmo com a pressão, “faz a tomada certa do Lago. É outro em relação a 2007”, que Hamilton espalha e cede a posição ao líder do mundial. Na BBC, lembram da cena semelhante na Coréia e Brundle fala em “quase um erro não forçado”; na Espanha, Lobato afirma que Alonso “deixou Hamilton nervoso e provocou” o equívoco.

O espanhol vai para cima de Hulkenberg e o comentarista Marc Gené, da La Sexta, aposta que passar a Williams será mais fácil “porque tem menos motor”. Mas o alemão aprendeu rapidamente a se defender em sua 1ª prova em Interlagos. “Se ele ficar por dentro na 1ª curva, vai ficar difícil alguém passá-lo”, aposta Brundle.

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Dito e feito. Alonso demora 5 voltas para superar Hulkenberg, e o faz arriscando muito mais que com Hamilton. “Agora vamos começar a cantar: ‘a por ellos’ (pra cima deles)”, Lobato se empolga, enquanto Galvão lê o pensamento do espanhol. “Agora ele começa a apostar em problemas nos carros da Red Bull.” Com a teoria de que a ultrapassagem foi uma demonstração de “categoria e experiência”, conclui que a vida de Massa, que também está atrás de uma Williams, só que de Barrichello, será mais difícil “porque Rubinho é mais piloto que Hulkenberg.” Até quando o menino larga da pole com 1s7 de vantagem…

Os ingleses torcem por Hamilton, mas se frustram com as reclamações do inglês, de que não tem aderência. “É algo que ouvimos muito dele, mas não há o que a equipe possa fazer”, aponta Brundle. Quando, mais ao final da prova, Lewis aparece se queixando de que o duto aerodinâmico não está funcionando, o comentarista é ainda mais duro. “Ele parece uma criança frustrada com seu presente de Natal.”

Galvão não para de elogiar Interlagos, o que é justo, mas exagera um pouco quando fala do “engenheiro” (e eu que achava que era arquiteto) Hermann Tilke, que “não mede forças para estragar a F1”. Já ouvi o narrador elogiar Malásia, China, Turquia…

Espanhóis e ingleses lamentam problema no pitstop de Barrichello e destacam a má sorte do brasileiro correndo em casa, enquanto Galvão o ignora, preferindo criticar a parada da Ferrari, “que sempre tem algum probleminha para trocar pneu”. Isso porque a parada havia sido de 3s3. Depois que Massa volta ao pit porque de fato havia um problema, o narrador se adianta. “Eu já tinha visto algo errado no traseiro direito”. Era no dianteiro. E os espanhóis perceberam logo no 1º setor após a volta que o brasileiro tinha problemas.

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O narrador também se atrapalha com a verdadeira posição de Button. Quando vê ele passando Petrov, diz que é Kubica. Logo depois, a imagem mostra o polonês atrás de Hulkenberg (ambos haviam voltado de parada), do russo e do inglês, que “vai passando todo mundo”. Voltas depois, credita à estratégia as 6 posições ganhas pelo campeão de 2009 e destaca que “era para Massa estar junto dele, não fosse a Ferrari.”

Falando no erro do pitstop “rápido demais”, para Burti, os espanhóis respiram aliviado. “Ainda bem que não foi o Fernando que foi antes. Isso aconteceria com o primeiro que parasse”, analisa Gené.

Na La Sexta, aliás, muito se fala em jogo de equipe durante a transmissão, assunto que só aparece na volta 22 na Globo e na 29 na BBC, quando se aproximam as paradas das Red Bull. “O normal é que eles troquem de posição. Afinal, como dissemos na Alemanha, é um esporte de equipe, mas como iriam justificar na mídia depois de tudo o que falaram?”, Lobato questiona, esquecendo-se (e isso só é citado ao final da prova) de que Vettel ainda está na briga. “Mas e o que fizeram na Turquia, em Monza, no Japão?”, o comentarista Jacobo Vega deixa no ar.

De certa forma, os espanhóis torcem para que haja inversão, o que provaria que a Ferrari estava correta. No entanto, como revela Lobato, não é o que seu piloto pensa que vai acontecer. “Pelas contas de Fernando, ele precisa de um 3º aqui e um 4º em Abu Dhabi”. Em outras palavras, acredita que a Red Bull não deixará Webber ganhar.

Até o australiano parece resignado, a julgar pelas palavras de Burti. “Conversei com ele na sexta e ele me contou que a equipe vem prometendo ajudá-lo há umas 5 corridas. Ou seja, não vai.” E Galvão, com seu costume de adivinhar pensamentos, ainda dá um furo mundial. “O chefe da equipe quer fazer a troca, o dono da empresa é que não deixa.”

Alguém arrisca dar uma de Galvão e imaginar os pensamentos de Webber nesse momento?

Na BBC, a palavra de ordem da equipe é que, “enquanto Vettel tiver chance, ele não cederá. De fato, seria difícil justificar a decisão para Sebastian, mas isso coloca o título em risco”, avalia Brundle. “Por um lado, é louvável a atitude, mas, se fosse Vettel à frente no campeonato, o time o privilegiaria”, completa Reginaldo. Ninguém duvida disso.

Mas não parece que foi uma decisão fácil. “Estou vendo muita discussão no pitwall da Red Bull, algo fora do normal e que aconteceu o final de semana todo”, observa o repórter Ted Kravitz. “O clima é de muita tensão.”

Quando os ingleses começam a estudar como Hamilton poderia passar Alonso, a McLaren o chama para o pitstop. Tinha uma preocupação diferente. “Estão parando muito antes do que queriam para que ele volte à frente de Button”, Kravitz apura.

“Temos que observar a diferença entre Vettel e Webber antes do pit”, Lobato não se convence de que não haverá troca no Brasil. Mas logo observa que o alemão voa na pista. “Não vai ter nenhuma história estranha.” Agora o que era natural virou estranho? “A tendência é acontecer nessa 2ª parte o mesmo que na 1ª. A Red Bull vai render mais no início, depois seus pneus vão se degradar mais rápido e Alonso será mais rápido no final”, Gené acerta.

Mas o piloto de testes da Ferrari não contava com uma insistente mensagem de rádio para Webber de que seu carro tinha superaquecimento, o que é recebido com um pé atrás por espanhóis e ingleses, e é ignorado na transmissão brasileira. “Se eles não querem trocar posições, também não podem impedir Webber de ir para cima”, questiona Brundle.

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A briga que a Red Bull quer impedir que aconteça, Galvão quer criar. “Tá pintando Alonso campeão. Tô vendo os dois se enroscando!”, mesmo que a diferença nunca tenha sido inferior a 1s5.

Mesmo o Safety Car que, segundo Galvão, “significa que os dois vão andar colados”, não provoca uma briga direta. Os protagonistas, então, viram os retardatários, numa missão difícil de saber quem é quem no meio das bandeiras azuis. Os espanhóis se revoltam com Sutil, que bloqueia Alonso, e são mais condescendentes com o compatriota Alguersuari, que empurra o líder do mundial no muro. Os brasileiros também veem o asturiano ser prejudicado, mas Galvão considera a manobra do piloto da Toro Rosso normal “porque ele tem o mesmo patrão da Red Bull”. E dane-se a lisura esportiva.

A confusão faz com que o narrador brasileiro veja Massa indo para cima dos rivais, primeiro quando Rosberg, uma volta à frente, se confunde e o deixa passar, e depois, quando Petrov o ultrapassa por fora no S do Senna. “Pelo menos ele está lutando”, se consola. Não é o que veem os colegas estrangeiros. “Massa foi aqui o que Sutil foi na Coreia”, Vega pega pesado. “Ele teve uma corrida movimentada”, Brundle é mais polido.

Massa teve um dia em Interlagos que resume seu ano: pra esquecer

A mesma briga que Galvão tenta criar entre os Red Bull, Lobato inventa entre Alonso e Webber. Aos berros, diz a 8 voltas de final que falta muita corrida e que dá para chegar.

Não daria e, ao final, enquanto os ingleses falam da genialidade de Newey, Galvão precisa do alerta do repórter Carlos Gil para ser informado de que a Red Bull acabara de vencer o mundial de construtores. “Era óbvio que esse título era deles”, diz Gené, em tom resignado. “O estranho seria perder o de pilotos.”

O engraçado é que ninguém aposta em Webber ganhando a corrida final, todos veem a necessidade de jogo de equipe. “Eles terão que fazer algo que criticaram muito”, Lobato repete, como um mantra.

Quantos campeões não tinham o melhor carro?

A F1 já coroou 31 campeões do mundo em 59 temporadas, lista que pode aumentar no domingo se o título for para Webber ou Vettel. Mas há uma outra galeria, mais exclusiva, que pode ganhar um novo membro: a de pilotos que foram campeões em anos em que suas equipes não conquistaram o mundial de construtores.

Fernando Alonso pode se juntar a Mike Hawthorn, Jackie Stewart, James Hunt, Nelson Piquet (por duas vezes), Keke Rosberg, Alain Prost, Michael Schumacher, Mika Hakkinen, Lewis Hamilton e Kimi Raikkonen (a campeã de construtores de 2007 foi a Ferrari, resultado da punição que a McLaren sofreu no caso de espionagem, mas os ingleses marcaram mais pontos que os italianos).

Se olharmos para esses campeonatos, vemos três situações: quebras em momentos decisivos, problemas entre companheiros de equipe dentro do time dominante e acidentes. Apenas em 2 deles, a equipe do campeão sequer foi a 2ª no mundial de construtores, como deverá acontecer caso Alonso seja campeão: em 82, a Williams de Rosberg foi apenas a 4ª, 16 pontos atrás da Ferrari, e no ano seguinte, a Brabham de Piquet foi a 3ª, a 17 também da equipe italiana. Utilizando o sistema de pontuação em vigor entre 2003-2009, a diferença atual entre Red Bull e Ferrari seria de 24 pontos.

Cavalheirismo custa o título

Moss foi o maior rival de Fangio, mas Hawthorn acabou se tornando o 1ª britânico campeão do mundo

No 1º ano em que o campeonato de construtores foi disputado, em 1958, a Vanwall vinha forte, com Stirling Moss, que já somava 3 vice-campeonatos, e Tony Brooks. Moss dominou boa parte da temporada, vencendo 4 das 11 etapas, mas 3 abandonos nas últimas 5 provas o deixaram um ponto atrás de Mike Hawthorn, piloto da Ferrari. Mas o lance decisivo aconteceu a 3 provas do final, em Portugal. Hawthorn, que fora 2º colocado, foi desclassificado por empurrar seu carro. Moss defendeu o colega e conseguiu que a punição fosse revogada. Perdeu o campeonato pelo cavalheirismo.

Acidentes mudam a história

Em 4 oportunidades, foram acidentes e tragédias que ajudam a explicar por que o vencedor do campeonato de pilotos não estava no melhor carro. Em 76, até a metade do campeonato, James Hunt, da McLaren, tinha 26 pontos contra 52 de Niki Lauda, da Ferrari. Porém, o acidente que quase matou o austríaco e o tirou de 2 provas deu a chance ao inglês, que aproveitou e venceu 6 das 16 etapas daquele ano para sagrar-se campeão. Ainda à frente na tabela na última prova no ano, num ensopado Fuji, Lauda decidiu não correr por questões de segurança, deixando o caminho aberto para que Hunt, com um 3º lugar, ganhasse por 1 ponto. Naquele ano, os companheiros pouco ajudaram: Clay Regazzoni foi somente o 5º de Ferrari, enquanto Jochen Mass, que venceu apenas uma prova em 112 largadas e é mais famoso pela participação no acidente que vitimou Gilles Villeneuve, foi o 9º.

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Falando em Villeneuve e Ferrari, em 1982 o time de Maranello tinha o melhor carro. No entanto, Gilles foi morto num acidente nos treinos para o GP da Bélgica, 5ª etapa, logo depois de ter tido problemas com seu companheiro, Didier Pironi, que viria a sofrer uma batida que encerraria sua carreira quando era líder do campeonato, faltando 5 provas para o final. O francês ainda foi vice-campeão, num ano marcado pelo fato do vencedor, Keke Rosberg, da Williams, ter ganhado apenas uma prova. Dividindo seus pontos entre 4 pilotos na temporada (Patrick Tambay e René Arnoux também defenderam o time), a Ferrari ficou apenas com o título de construtores. Rosberg teve 3 companheiros de equipe naquele ano: Reutemann, Andretti e Derek Daly.

Em 1994, Schumacher se aproveitou da dificuldade de adaptação da Williams, no ano do banimento da suspensão ativa, e venceu as duas primeiras provas em cima de Ayrton Senna. No entanto, com a morte do brasileiro na 3ª etapa, os pontos da Williams, que se recuperou no campeonato, ficaram divididos entre Damon Hill, David Coulthard e Nigel Mansell. O alemão ainda precisou jogar o carro em cima de Hill para vencer o campeonato por 1 ponto. Schumacher também teve vários companheiros naquele ano: Herbert, Verstappen e Lehto.

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Cinco anos depois, seria o alemão, já na Ferrari, que sofreria um acidente que ajudaria o bi de Mika Hakkinen, da McLaren. De fora por 5 provas, voltou faltando 2 para o final como escudeiro de Irvine, que terminou a 2 pontos do finlandês. Mika tinha como companheiro  David Coulthard, que terminou em 4º. Schumacher não ajudou muito Irvine, mas sim a  Ferrari a levar o título por 4 pontos e ainda foi 5º colocado naquele ano.

O custo da briga interna

Nelson Piquet correu praticamente sozinho pela Brabham em 81 – tinha como companheiro o mexicano Hector Rebaque, que não completou 10 das 15 provas daquele ano e foi o 10º. Eram Reutmann e Alan Jones, de Williams, que tinham o melhor carro. No entanto, uma atitude do argentino na 2ª etapa acabou sendo decisiva: Reutemann tinha em seu contrato que seria obrigado a deixar Jones passar e recebeu diversas ordens durante o GP do Brasil para que o fizesse. Porém, decidido a ser campeão, comprou a briga e ignorou o pitboard, que dizia “Jones-Reut”. Terminou a 1 ponto de Piquet, e Jones, a 4.

A Williams pode ter ganhado o campeonato de 1986 por 141 a 96 em cima da McLaren, mas perdeu o título de pilotos para Prost ao não saber lidar com a briga interna entre Mansell e Piquet. O inglês, favorito, havia ganho 4 provas praticamente em sequência no meio da temporada e tinha uma grande liderança sobre Prost, faltando 4 provas. Piquet era apenas o 4º. Mas a regularidade do “professor”, que teve 2 segundos lugares e uma vitória na etapa final, quando Mansell teve um pneu furado e a Williams chamou Piquet para um pitstop por precaução. Prost, cujo companheiro era Rosberg, já em fim de carreira, venceu por 2 pontos.

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A história praticamente se repetiria em 2007, quando Hamilton e Alonso dominaram boa parte do ano pela McLaren, mas, envoltos em conflitos internos, um caso de espionagem que tirou todos os pontos da equipe e erros nos momentos finais – o inglês na China e no Brasil e o espanhol no Japão – deram o título para Raikkonen, da Ferrari, que fez uma 2ª parte do campeonato fortíssima. A equipe italiana foi a campeã de construtores, devido à punição dos rivais, mas Kimi entra nessa lista por ter batido um carro melhor.

Faltou piloto

Novamente dividindo equipe com um companheiro que sofreu com os abandonos (Patrese teve 10 em 15 provas), Piquet correu sozinho pelo campeonato em 1983, assim como Prost, que dividia a Renault com Eddie Cheever. René Arnoux e Patrick Tambay formavam o time a ser batido, da Ferrari, mas desperdiçaram muitos pontos. Tambay abandonou 4 etapas em que foi pole, enquanto Arnoux chegou às últimas provas com chances, mas sentiu a pressão, cometeu muitos erros e terminou a 10 pontos de Piquet.

É rápido, mas não termina

Com Peterson e Fittipaldi, a Lotus parecia imbatível em 73, mas não foi bem assim

Ronnie Peterson fez a pole em 9 das 15 etapas do campeonato de 1973. No entanto, não marcou pontos (abandonou 4 vezes) nas 5 primeiras provas e, mesmo vencendo 3 das 4 últimas, ficou atrás do companheiro Emerson Fittipaldi, que também sofreu abandonos – 3 seguidos no meio da temporada. Dos 10 DNF que ambos tiveram no ano, 8 foram por quebras. Com tantos altos e baixos, os pilotos da Lotus não foram páreo para Jackie Stewart que, com seus 8 pódios e apenas um abandono, sagrou-se campeão por 16 pontos.

De certa forma, foi o que aconteceu com a Ferrari em 2008. Num campeonato equilibrado e cheio de erros, Lewis Hamilton levou a melhor em cima de Felipe Massa por um ponto. A Ferrari tinha o melhor equipamento por boa parte do ano, mas o brasileiro rodou sozinho quando era 2º na Malásia, fez uma corrida péssima na chuva em Silverstone e se atrapalhou na antepenúltima etapa, quando foi apenas 7º. A Ferrari teve sua parcela, com 2 quebras de motor e um pitstop desastrado em Cingapura. Na ocasião, o companheiro de Felipe, Raikkonen, foi o 3º, enquanto Kovalainen, da McLaren, ficou apenas em 7º.

Caso a Red Bull perca esse campeonato, 2010 também será uma dessas histórias em que erros dos pilotos e falhas da equipe deram a brecha que Alonso precisava para entrar definitivamente na história.

Agredeço ao Rafael pela dica do post. Esse rendeu!

O valor de ter dois pilotos nos pontos

O campeonato de construtores não está decidido apenas na ponta. Além do título da Red Bull, a Mercedes garantiu em Interlagos o 4º lugar, que disputava com a Renault. Quem acabou fazendo a diferença no final foi Schumacher, com um 6º, ou 4º e um 7º lugares, permitiando que os alemães pontuassem com 2 pilotos, ao contrário dos franceses.

Esse é um dos riscos de contratar um piloto pagante. E acaba saindo caro para a equipe, já que a premiação em dinheiro das equipes é diretamente proporcional a sua posição no mundial.

Os 12 pontos de Hulkenberg nas últimas 5 provas ajudaram muito a Williams

E quem deu um passo importante foi a Williams, que há meses vem lutando com a Force India, que também praticamente só pontua com Sutil, pelo 6º lugar entre os construtores. O time de Barrichello e Hulkenberg, outro pendurado financeiramente, agora está um ponto à frente e, já que tem colocado seus carros no Q3 regularmente, provavelmente manterá a posição. Não coincidentemente, os rumores que apontavam que o alemão estava cotado para ser sacrificado em troca do dinheiro de Pastor Maldonado esfriaram. Agora se fala que o venezuelano pode ser contratado pela Williams e emprestado à Hispania, com que o time inglês tem um acordo técnico para ano que vem.

E, por fim, a Lotus praticamente já pode comemorar o 10º lugar, o último entre os times que recebem verba da FOM. Isso porque têm um 12º lugar, o que faz com que Hispania e Virgin precisem de um 11º em Abu Dhabi. Pouco provável num circuito que não traz muitas surpresas.

Como um piloto faz a equipe trabalhar por ele

É em tom negativo que muita gente fala em pilotos políticos, aqueles que trabalham tanto dentro, quanto fora do carro. Pressionam a equipe e querem tudo para si. Prost era assim e acabou pagando um preço caro na Ferrari por ir longe demais. Frank Williams, falando sobre os poucos meses que teve como chefe de Senna, afirmou que pôde perceber que o brasileiro “cobrava muito, era difícil trabalhar com ele, assim como com Mansell”. Schumacher certamente deve estar grudado na orelha de Ross Brawn desde o início do ano pedindo que a Mercedes concentre-se no carro do ano que vem.

Trata-se de um acessório a mais, importantíssimo para levar vantagem em relação ao companheiro de equipe e, por que não, todos os outros. Massa, por exemplo, ganhou de vez a Ferrari quando cedeu uma vitória do GP do Brasil para beneficiar Kimi Raikkonen. Quando escolheram o companheiro de Alonso, por quem optaram, mesmo não tendo sido campeão e estando em recuperação após um grave acidente?

O espanhol, por sinal, dá aula nesse quesito. O piloto, que costuma dividir prêmios por poles e vitórias com seus mecânicos, adotou uma postura “paz e amor” desde que entrou na Ferrari, mostrando que as lições de 2007 estão mais que aprendidas.

Alonso foi à Ferrari decidido a não isolar-se como na McLaren

Fora da pista, não parou de diminuir-se em relação ao time. Dentro dela, não deixou de cobrar as melhores condições – quem não se lembra do “isso é ridículo”? Mas houve um momento chave em que colocou toda a equipe a seu lado: no sábado do GP de Mônaco.

Alonso bateu nos treinos livres e, por ter que trocar o chassi, não pôde participar do treino classificatório. Largaria em último. Percebendo que a moral dos mecânicos estava abalada, pediu permissão à chefia para escrever a todos os membros de seu lado da garagem. Entregou pessoalmente, de mão em mão, uma carta que dizia. “Peço perdão, me desculpe. Prometo virar o jogo e lutar pelo título.”

A história só apareceu agora. Na época, jornalistas espanhóis mais próximos ao piloto afirmaram que ele havia feito algo que agradara muito a equipe, sem revelar o que.

Vimos outras manobras do tipo no decorrer do ano. Mais recentemente, o espanhol deu todo o crédito da vitória de Monza ao trabalho no pitstop, embora quem tenha feito a maior parte do trabalho para ultrapassar Button fora ele, e, na Coréia, assumiu a culpa pela parada demorada nos boxes.

Parece que, para Alonso e tantos outros grandes campeões, pilotar é só parte do trabalho.

Red Bull e o jogo de equipe politicamente correto

E eis que Max Mosley reapareceu das cinzas semana passada para questionar um possível título de Fernando Alonso por menos de 7 pontos. O advogado que se tornou o rei das decisões mais políticas que jurídicas enquanto esteve no comando da FIA não perdeu a chance de ganhar algumas manchetes.

Por que será que ele, como então presidente da FIA, nada fez quando houve claras ordens na McLaren entre Montoya e Raikkonen e hamilton e Kovalainen, na Renault entre Fisichella e Alonso e na Ferrari entre Raikkonen e Massa, além de disputas mais abaixo no pelotão? Não foi ele quem abriu o procedente que permitiu que a Scuderia escapasse de um julgamento mais duro?

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Deve ser difícil gerir esportes em geral. Por um lado, eles são o entretenimento de milhões de pessoas. Por outro, são a profissão de outras tantas. E, numa 3ª via, como explicitamente no caso da Red Bull, são ferramenta de marketing.

Todos os grandes campeões brincaram com os limites do aceitável para ganhar. O grande ídolo da categoria já avisou: “Vencer é o mais importante. Todo o resto é consequência”. Em outras palavras, os fins justificam os meios para quem dedicou sua vida inteira para vencer.

Também é verdade que ninguém conquista um campeonato de F1 somente por ter o apoio da equipe ou se beneficiar de manobras questionáveis. O campeão é aquele que melhor lidou com 9 meses de disputa por desertos, tempestades tropicais, calor, corridas táticas ou confusas, pressões internas e externas. E não é um episódio isolado que vai definir isso. Que o digam os mais de 150 pontos que a Red Bull perdeu por falhas mecânicas e de seus pilotos nesta temporada.

Isso é uma regra geral, mas no caso específico de Alonso, se ele for campeão com menos de 7 pontos, há duas maneiras de se ver: ou a Ferrari acertou em apoiá-lo num momento chave, evitando que tivesse perdas desnecessárias, ou decidiu o campeonato de maneira obscura. Da mesma forma, se a diferença for maior que 7 pontos: prova da competência do asturiano ou de que todo o desgaste da Alemanha não era necessário?

Essa será – caso o espanhol ganhe o título, algo ainda difícil tendo em vista a disparidade técnica em relação à Red Bull – uma daquelas discussões intermináveis em que não haverá certo ou errado, mas visões distintas.

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“Não somos como a Ferrari”

Aí aparece a Red Bull com o discurso de que atuará de acordo com o bem do esporte. Se assim fosse, seu piloto que está à frente na classificação não estaria tão infeliz com o tratamento que tem na equipe.

É dificil acreditar que este não seja mais um discurso marqueteiro, algo que comandou toda a trajetória da empresa de energéticos na F1 e fora dela. É igualmente complicado crer que não se trate de uma manobra para dar chances a Sebastian Vettel, piloto em quem a equipe colocou muito dinheiro.

A Red Bull inovou no quesito usar o esporte para vender

E, tendo isso em vista, é uma postura que vem bem a calhar para quem sempre se propagandeou como uma empresa que faz o diferente, por isso o apoio a esportes nada convencionais. Seria a prova de que eles estão na F1 para vender latinhas. Para se ter uma ideia, a Red Bull tem apenas uma fábrica, na Áustria, e praticamente um produto (existem as versões sem acúçar e a Red Bull Cola em alguns países). Não se investe em expansão de fábricas, mas sim com marketing, com que gastam 35% da receita, um número altíssimo, sendo apenas 10% desse total empregado em mídia convencional, como propagandas. Eles apostam em marketing espontâneo, ou seja, resultado dos eventos que patrocinam.

Dentro disso, a estratégia de adotar o discurso de não aceitar as ordens de equipe é inteligente e parece funcionar com quem apenas assiste as corridas aos domingos e lê um ou outro site de notícia. As pessoas geralmente dão crédito a discursos politicamente corretos e essa é a melhor maneira do ponto de vista da imagem da empresa de fazer jogo de equipe: agindo subliminarmente e jurando que não o fez. E, caso Vettel abra para Webber em Abu Dhabi, todos vão destacar a opção do piloto, um gesto de grandeza e maturidade pelo bem da equipe. Alguém aposta o contrário?

Vettel x Webber: Sebastian domina novamente

Sebastian VettelMark Webber
Posição na classificação
Tempo da Classificação (Q3)1’15.519 (-0.118)1’15.637
Posição na corrida
Voltas71/7171/71
Pit stops11

Confira a corrida de Sebastian e Mark volta a volta

Apenas pela 4ª vez no ano, a Red Bull consegue converter sua vantagem técnica na pontuação máxima no domingo, justamente num momento crucial no campeonato. No entanto, ao permitir a vitória de Vettel, a equipe tornou sua vida mais difícil em Abu Dhabi, pois agora precisa colocar ambos os pilotos à frente de Alonso para garantir o título de pilotos, após ter garantido o de construtores no Brasil.

Vettel dominou todo o final de semana e, a exemplo das últimas 3 provas, se classificou à frente de Webber, novamente por uma margem mínima. Livrou-se rapidamente de Hulkenberg, assim como o companheiro, e teve uma corrida tranquila.

Vettel pode chegar em Abu Dhabi pela 1ª vez à liderança do campeonato

Webber manteve uma distância entre 2s5 e 3s no stint com pneus macios e chegou a estar a 1s8 na volta 38, mas em momento algum chegou a pressionar o companheiro, numa prova parecida com o Gp do Japão. Difícil não lembrar de suas palavras logo após aquela corrida: “Fiquei onde estava porque sei quais são as regras”.

Havia 2 carros entre Vettel e Webber no Safety Car, portanto o líder teve a chance de escapar na frente. Quando o australiano ameaçou se aproximar, a equipe lhe informou que tinha um superaquecimento. Era provavelmente a dica para dar a Vettel a chance de lutar pelo mundial na última etapa.

Hamilton x Button: ritmo de treino x ritmo de corrida

Jenson ButtonLewis Hamilton
Posição na classificação11º
Tempo da Classificação (Q2)1’19.288 (+0.367)1’18.921
Posição na corrida
Voltas71/7171/71
Pit stops22

Confira a corrida de Jenson e Lewis volta a volta

O problema que parece ser crônico na McLaren e que piorou no final desta temporada – o travamento dos pneus dianteiros – voltou a aparecer no Brasil. Como sempre, o principal prejudicado é Button, que não passou para o Q3 por 0.08s.

A aposta de fazer um pitstop logo na volta 12 funcionou muito bem para o atual campeão do mundo, que começou a virar mais rápido que os pilotos que vinham à frente, e os ultrapassou quando eles fizeram suas paradas, além de ter superado Sutil e Petrov na pista.

Novamente, faltou ritmo de corrida para a McLaren

Enquanto isso, Hamilton, que tirou leite de pedra na classificação, sedia à pressão de Alonso na 2ª volta e tinha dificuldades para superar Hulkenberg. Num tom pra lá de desanimado, reclamava de falta de aderência pelo rádio. Por fim, a equipe decidiu tirá-lo do tráfego e fez seu pitstop na volta 20.

Quando Button passou Kobayashi, os pilotos da McLaren ficaram em 4º e 5º e ainda puderam fazer uma 2ª parada sem perder posições durante o Safety Car. A troca permitiu a Hamilton fazer a volta mais rápida da prova.

Massa x Alonso: o calvário de Felipe continua

Felipe MassaFernando Alonso
Posição na classificação
Tempo da Classificação (Q3)1’17.101 (+1.112)1’15.989
Posição na corrida15º
Voltas70/7171/71
Pit stops31

Confira  a corrida de Felipe e Fernando volta a volta

Dado seu currículo andando de Ferrari em Interlagos – 3 poles, 2 vitórias e um 2º lugar – era esperado de Felipe Massa um sinal de ressurgimento no GP do Brasil. No entanto, seu final de semana só reforçou a tese de que este não é seu ano.

A classificação na chuva nunca foi seu forte e Massa sofreu para entrar no Q3. Na volta final, teve dificuldades de gerar temperatura no pneu slick e levou 1s112 do companheiro, a maior diferença no ano.

Vinha em 8º na corrida até ter problemas com uma roda mal fixada e fez 2 pitstops, sendo relegado ao 23º lugar. Depois de algumas ultrapassagens e de ter se beneficiado com paradas nos boxes, chegou à 15º colocação. Aproveitando o Safety Car, a Ferrari o chamou para um último pitstop. Com pneus novos, passou Heidfeld e Sutil, mas tocou-se com Buemi a perdeu novamente as posições. No final da prova, ainda foi ultrapassado por Barrichello e Petrov, dando o troco no russo logo em seguida.

Alonso fez o que se esperava dele e ainda lucrou com a vitória de Vettel, e não de Webber, o que deixaria o asturiano em posição delicada no campeonato. Depois de ser 5º na classificação, livrou-se de Hamilton – que errou na sua frente pela 2ª corrida consecutiva – e de Hulkenberg.

Hulkenberg fez um belo favor às Red Bull

No entanto, já tinha 10s9 de desvantagem para Vettel. Sem tráfego, passou a andar no ritmo das Red Bull, mas sem se aproximar. O Safety Car lhe daria uma chance, mas, com 4 carros entre ele e Webber, a diferença voltou a subir. No final, conseguiu chegar a 2s2 do australiano e esteve a 4 milésimos de fazer a volta mais rápida da prova – quem a fez foi Hamilton, logo após a 2ª troca de pneus – mas era a hora de conservar o motor e arriscar em Abu Dhabi.

Campeonato após Brasil: pontuação antiga e atual

PosPilotoantigaatual
Alonso99246
Webber96238
Vettel94231
Hamilton92222
Button81199
Massa67143
Rosberg50130
Kubica46126
Schumacher2572
10ºBarrichello1547

Teríamos uma final de campeonato com impressionantes 7 pontos separando 4 candidatos ao título, caso a pontuação antiga tivesse sido mantida. Mesmo assim, a decisão de Abu Dhabi promete. Alonso é campeão com um 2º lugar, mas tem equipamento inferior, enquanto Vettel e Webber lutam um contra o outro e, juntos, para não repetir os erros que os colocaram nessa posição de perseguidores. Hamilton, a 24 pontos do líder, torce por uma combinação de resultados um tanto remota (abandono de Alonso, não mais que um 3º de Vettel e 6º de Webber).

A lógica diz que o resultado do GP Brasil seria o mesmo de Abu Dhabi – pelo melhor equipamento da Red Bull e rendimento de Vettel. Nesse caso, Alonso seria campeão por 5 pontos. Mas, obviamente, como Christian Horner já frisou, o alemão “saberá o que é melhor para a equipe” e deverá ceder a vitória – e o campeonato – a Webber (que venceria por 2 pontos caso fosse 1º e Alonso, 3º), se encontrar-se nessa posição.

No entanto, o ano foi marcado pelas oportunidades perdidas da Red Bull, além do que Abu Dhabi deve favorecer mais a Ferrari do que Interlagos – o traçado é mais semelhante a Cingapura, onde Alonso fez pole e venceu. A Red Bull continua com a obrigação de ganhar, mas a briga promete ser apertada.