Quente e frio

Motor Racing - Formula One World Championship - Italian Grand Prix - Preparation Day - Monza, Italy

Antes era a aerodinâmica. Agora, os motores. Não por acaso, os rivais correm para tentar aprovar mudanças no congelamento das unidades de potência a fim de conseguirem desenvolver seus sistemas durante o ano e tirar a vantagem óbvia da Mercedes, que fechou o top 5 do último GP, na Rússia.

Primeiramente, que fique claro que a suposta economia causada pelo congelamento – que é sua razão de ser – não serve como argumento. Afinal, apenas alguns elementos estão congelados: pela regra que vigora atualmente, devido à extensão das mudanças para esta temporada, apenas 8% – ou cinco itens – ficaram congelados, todos eles relacionados ao motor turbo. Para as próximas temporadas, haveria uma progressão na porcentagem de itens homologados – 23% em 2015, 35% em 2018 e 95% em 2019. Ou seja, ainda que o motor usado desde o início da temporada seja o mesmo, aquele que será utilizado em 2015 passou o ano inteiro sendo desenvolvido, pois 92% dele pode ser diferente do atual. Isso, é claro, custa dinheiro.

Os defensores do descongelamento adotam um discurso politicamente correto, de que seria “bom para a competição”. E ‘acusam’ a Mercedes de estar com medo da concorrência. Mas é uma abordagem superficial.

A Mercedes foi quem lidou melhor com a mudança nas regras e produziu um motor desejado por várias equipes. Por conta disso, para 2015, terá oito carros no grid. Se isso significa mais dinheiro entrando pela venda dos propulsores, também quer dizer que, quando houver alguma novidade, será necessário um maior investimento para entregar as novas peças a todos.

Esse é um dos pontos complicados, pois a proposta é de que todas as equipes sempre tenham todas as especificações novas ao mesmo tempo. Ou seja, a Mercedes não poderia usar uma nova peça nos motores de sua equipe de fábrica antes da Lotus, por exemplo.

É um princípio justo, claro, mas não quando uma fornecedora tem oito carros para ‘cuidar’ e outra, como a Honda, tem dois. Além disso, os clientes da Mercedes estão em condição financeira muito melhor – a Renault tem a Caterham (o acordo com a Red Bull troca exposição pelos motores, como uma equipe de fábrica) e a Ferrari tem Marussia e Sauber. É esse tipo de entrave que a medida sofre.

Teria a pressão das rivais a ver com possíveis atrasos na tentativa de chegar no nível da Mercedes? É bem possível que sim, pelos boatos que rondam o paddock e dão conta de que ao menos Honda e Renault (de novo) não estão cumprindo seus prazos. O que tem de verdade nestas especulações é difícil saber – sempre pode ser algo plantado que, de tanto ser repetido, vira ‘verdade’ no paddock, mas lembremos que todos consideravam que a Mercedes viria mais forte nessa mesma época no ano passado…

É muito provável que as mudanças nestas regras não sejam adotadas já em 2015, pois, para isso, é necessária unanimidade. Para 2016, contudo, uma vitória da maioria já garante a mudança e é bem possível que os motores fiquem descongelados. Até lá, ainda vamos ouvir muito sobre isso.

Divórcio

Motor Racing - Formula One World Championship - Chinese Grand Prix - Race Day - Shanghai, China

Fernando Alonso prepara-se para suas últimas três provas na Ferrari certamente desapontado por não ter conseguido o sucesso que almejava quando chegou na Scuderia, em 2010. O plano era repetir Michael Schumacher e se tornar ídolo na equipe mais tradicional da Fórmula 1. De lá para cá, apesar dos três vice-campeonatos, o espanhol conquistou apenas quatro pole positions e 11 vitórias.

Curiosamente, é o mesmo número de triunfos que Felipe Massa teve na equipe italiana – igualdade que deve se manter até o final do ano, dada a performance ruim do time nesta temporada.

Sim, é uma comparação desigual. O brasileiro disputou mais GPs que Alonso na Ferrari, 140 contra 93, e todas as suas poles e vitórias foram conquistadas antes do espanhol chegar à Scuderia, entre 2006 e 2008. Neste período, também, a Ferrari conquistou seus dois últimos títulos de construtores, além de um título de pilotos e dois vices (um deles, em 2008, com o próprio Massa).

Eram os anos em que a equipe ainda colhia os frutos da reconstrução vitoriosa de Schumacher, Jean Todt, Ross Brawn e companhia. Reconstrução que Alonso não conseguiu reproduzir em Maranello.

Correndo atrás das rivais desde a grande mudança de regras de 2009 – algo que só piorou com a mais nova revolução regulamentar, em 2014 – a Ferrari nunca mais teve carro para ser campeã, mas, na base do conjunto, chegou perto do título em duas oportunidades com Alonso. E quem acompanhou 2010 e 2012 sabe que o piloto espanhol foi determinante para isso, juntamente de um equipamento sólido e confiável, ainda que nunca o melhor.

Um bom exemplo disso está, inclusive, nos números. Em relação ao número de pódios, a vantagem é de Alonso, que teve a constância como marca registrada nas disputas de título que travou com Sebastian Vettel. O espanhol conquistou 44 pódios – média superior a 47% das provas disputadas, mesmo estourando o champanhe em apenas duas oportunidades em 2014 – contra 36 de Massa (média pouco acima de 25%).

Apesar das grandes performances na pista, o que Alonso não conseguiu foi atrair uma organização a seu redor que devolvesse à Ferrari sua condição de pioneira. Ao invés disso, nestes cinco anos, a equipe se limitou a copiar.

Mas serão os números relativamente modestos ou a fama de quem por inúmeras vezes fez o máximo que um piloto pode fazer dentro do cockpit que permanecerão na história? Com a sombra do que Schumacher conseguiu, o casamento Alonso e Ferrari, tido como inabalável há não muito tempo, acaba com ares até injustos de fracasso.

GP da Rússia por brasileiros, britânicos e italianos: “Mais um golpe”

Motor Racing - Formula One World Championship - Russian Grand Prix - Race Day - Sochi, Russia

O GP da Rússia começou evidenciando que qualquer análise ficaria pelo caminho logo na primeira curva, quando um afobado Nico Rosberg colocou de lado na tentativa de superar o companheiro Lewis Hamilton e jogou suas chances de vitória no lixo ao frear tarde demais. Quem gostou foi o narrador da TV Globo, Luis Roberto. “Hamilton manteve a ponta, mas Rosberg tenta colocar de lado, agora ficou bonito. Impressionante como eles arriscaram.”

Na Sky Sports, David Croft, por sua vez, não dá tanta ênfase no erro de Rosberg logo de cara. “Largada decente de Hamilton e também de Rosberg. Ele frita os pneus e vai para a ponta. O que mais temos? Acho que Ricciardo perdeu muitas posições.” Gianfranco Mazzoni e os demais italianos da Rai veem a briga na frente, mas não tiram os olhos da Ferrari. “Rosberg parte para o ataque, enquanto Alonso tenta ganhar posições mais atrás… e Rosberg corta a curva. Muita confusão nas primeiras curvas, como era previsto pelas características da pista”, narra, ajudado pelo comentarista Ivan Capelli. “Precisamos destacar a grande largada de Alonso, enquanto Raikkonen é 11º.”

Não há nem tempo de polemizar sobre a necessidade de Rosberg devolver a posição ganha fora da pista a Hamilton, pois o alemão já avisa via rádio que precisa trocar os pneus, “quadrados” na definição do comentarista inglês Martin Brundle.

O piloto coloca os pneus médios logo ao fim da primeira volta, assim como Felipe Massa, largando em 18º, troca os médios pelos macios. Isso não surpreende os brasileiros, pois a estratégia da Williams fora mencionada. “Ele pode colocar os pneus macios e ir até o fim, como o Luciano explicou antes da largada”, diz Luis Roberto, citando o comentarista Burti.

Na Globo, é vista como válida a possibilidade de ambos chegarem até o final sem fazer outro pit stop. Na Sky, isso não é possível. “A campanha de Rosberg pelo título acaba de levar outro golpe”, acredita Brundle, que emenda: “Que pena para Massa, ele tinha ganho várias posições”, demonstrando pensar que a parada não fora programada.” Quando ouve no rádio da Mercedes que a ideia é, sim, ir até o fim, a reação de Croft é um “wow”. Na avaliação de Brundle, “se ele chegar nos pontos, pode comemorar”.

Os italianos ficam no meio do caminho. “Com Rosberg trocaram o macio pelo médio, enquanto Massa fez o contrário, então dificilmente ele vai conseguir chegar ao final”, acredita o comentarista-engenheiro Giancarlo Bruno. Algumas voltas depois, a repórter Stella Bruno informa que Massa parou por estratégia e que tem “uma corrida longa com os macios”, indicando que essa era a primeira intenção da equipe.

Na nona volta, Giancarlo Bruno faz as contas e já alerta que Rosberg está se colocando em posição de chegar em segundo lugar. Impossível, na visão do repórter da Sky Ted Kravitz. “Estou vendo os números e acho que quarto é mais realista. Falaram para o Jenson que Nico vai até o final e ele respondeu que era impossível.” Pouco depois, vem o rádio da Mercedes falando que ele já chegou virtualmente em Button, terceiro. “Se a Mercedes está dizendo para o Rosberg que ele pode lutar pelo pódio, então o Felipe também”, crê Burti. De fato, até aquele momento, o brasileiro vinha abrindo caminho junto do alemão.

Motor Racing - Formula One World Championship - Russian Grand Prix - Race Day - Sochi, RussiaIsso, até a dupla chegar na Force India de Sergio Perez, “primeiro carro com motor Mercedes que eles encontram”, como destacam Croft e Capelli. Mas Rosberg se livra facilmente do mexicano e deixa a ‘encrenca’ para Massa, que passaria o resto da tarde tentando superar o rival.

Os diferentes sinais dados pelos pilotos a respeito dos pneus começam a confundir os comentaristas perto da metade da prova. Lewis Hamilton, mesmo com os pneus compostos do início da prova, elogia a performance da borracha, enquanto Rosberg, com os pneus mais duros, reclama. “Parece que o pneu macio é melhor porque o Magnussen e o Hamilton falam que o pneu está bom e o Rosberg, de médios, está reclamando. É porque ele tem mais aderência e escorrega menos”, avalia Burti.

Para Brundle, a diferença é de tocada. “Um piloto da Mercedes se diz satisfeito com os pneus e outro reclama, mesmo com pneus mais novos. Parece que Lewis entrou em uma zona nesse circuito que Rosberg não está conseguindo acompanhar.”

Avaliação semelhante é feita pelo comentarista britânico e pelo italiano Capelli quando Alonso faz uma sequência de voltas ruins e logo retoma o ritmo. Tudo pensado, para eles. “É por isso que a McLaren quer Alonso. Ele largou do lado do companheiro e já está mais de 10s e quatro posições na frente. Ron Dennis vai querer o melhor piloto possível, ele sempre foi assim. O que Button tem de fazer é pilotar o melhor que pode, mas ele também tem de aceitar que uma hora a carreira dele vai ter de acabar”, diz Brundle. “Isso só mostra a inteligência de corrida de Alonso”, vê Capelli, que aposta em uma “diferença de acerto” entre Hamilton e Rosberg, o que explicaria as relações diferentes dos dois com os pneus.

Mas logo fica claro que é graining. “O pneu voltou à vida”, comemora Rosberg. Mas nem isso é suficiente para convencer os ingleses, que mantêm a expectativa de uma segunda parada para o alemão até as voltas finais, principalmente após Massa não aguentar e trocar novamente os pneus. “Massa, como era previsto, teve de parar. Enquanto Rosberg deve manter o ritmo até o final, com os médios”, avalia Bruno. Teria sido um erro da Williams? “A escolha estratégica para Massa levou em consideração o fato dele ter vários pneus sem usar devido ao problema na classificação”, explica Giorgio Piola. Os brasileiros lamentam. “Contrariando nossa previsão, Massa para de novo e coloca em risco possibilidade de lutar pelas primeiras posições no grid”, diz Luis Roberto.

Encerrando com quaisquer dúvidas na transmissão italiana, na volta 31, Stella Bruno entrevista Paul Hembery, diretor esportivo da Pirelli, que diz que Rosberg pode, sim, terminar a corrida com os pneus médios. Mas o mesmo não acontece na Sky, que segue especulando. “Será que ele tem vantagem suficiente para aguentar mesmo com a degradação no final? Vai ser melhor apostar em ficar do que parar agora e ele ter de fazer várias ultrapassagens”, diz Croft. Até 15 voltas para o fim, Brundle ainda não se conforma. “Se eles forem parar, tem de ser agora, senão ele não terá tempo de recuperar.”

Enquanto todos começam a destacar a recuperação de Rosberg, não deixam de notar a tranquilidade da tocada de Hamilton. “Parece que está num carro de passeio”, observa Luis Roberto. “Nico mostrou muita confiança, veio muito de trás. Que recuperação isso está se tornando. Mas também só mostra o quão rápido Hamilton poderia ir se ele precisasse. Fiquei impressionado com o quão cedo ele está tirando o pé do acelerador quando vimos o onboard”, diz Brundle.

Mas a dúvida sobre a estratégia de Rosberg volta perto do final, quando ele recebe a mensagem de que estaria no “plano B”. Isso gera certo desconforto entre os italianos. “Depois de ver as voltas rápidas que Rosberg está fazendo, o plano B só pode querer dizer que…”, Capelli deixa no ar e Bruno completa “que ele vai usar os pneus agora para abrir diferença para Bottas e gerir a distância depois.” Mas o ex-piloto, na verdade, crê que “ele vai tentar abrir vantagem para parar de novo”, teoria rechaçada pelo engenheiro. “Faltam 15 voltas, essa estratégia não faz sentido.”

De fato, ficamos sem saber o que era o tal plano B. E nem quando chegaria a degradação nos pneus de Rosberg. Hamilton recebe a bandeirada com o companheiro fazendo grande recuperação em segundo, mas com o peso do erro na largada e 17 pontos de desvantagem no campeonato. “Rosberg adotou um acerto, segundo suas palavras, criativo, na sexta-feira e andou muito longe do companheiro. No sábado, voltou a um acerto mais padrão e, mesmo assim, não conseguiu chegar muito perto. Talvez isso tenha deixado-o nervoso e provocou o erro, que condicionou essa corrida”, avalia Bruno. “O erro lembra o de Spa, pois novamente ele quis resolver a disputa com seu companheiro na primeira oportunidade que teve. Mas agora não houve contato”, completa Piola. Na avaliação de Brundle, “Hamilton fez o melhor trabalho porque não errou, mas a recuperação do dia foi de Rosberg.”

Mais líder do que nunca – os 17 pontos são a maior diferença obtida por Hamilton neste ano – o inglês ainda ganhou destaque por Motor Racing - Formula One World Championship - Russian Grand Prix - Race Day - Sochi, Russiaigualar Nigel Mansell como o maior vencedor britânico na F-1. “Muito legal o Hamilton ter a consciência de que a Mercedes está fazendo história e ele também está”, diz Reginaldo Leme depois que o inglês destaca o título de construtores do time. O piloto é elogiado até por não acelerar. “Um Hamilton mudado. Poderia ter tentado a volta mais rápida e o grand chelem no final, mas preferiu pensar no campeonato”, observa Capelli.

Glória para uns, mais uma corrida difícil para Massa, 11º, atrás de Perez. “Depois do Canadá, perguntaram para o Massa se ele pensaria duas vezes antes de disputar com Perez. E ele disse que pensaria três vezes”, lembra Brundle. Para os brasileiros, contudo, uma questão de estratégia. “Era uma tentativa, ele estava largando em 18º. Eles tinham de fazer alguma coisa diferente”, defende Burti. “Vamos falar a verdade: a temporada foi muito azarada para o Felipe, quase nunca aconteceu algo de errado com o Bottas. Quem sabe no Brasil ele pode fazer uma boa prova, pois as características do traçado favorecem as características da Williams”.

Hamilton caminha para ser maior britânico, enquanto Pirelli dá uma de Bridgestone

Motor Racing - Formula One World Championship - Russian Grand Prix - Race Day - Sochi, Russia

Nada mal para quem, antes do início desta temporada, nunca havia vencido sequer três provas em sequência. Lewis Hamilton caminha para se tornar o piloto britânico mais vitorioso da história. Com 145GPs na carreira, o líder do campeonato igualou as 31 vitórias de Nigel Mansell, que disputou 192 provas. Ele já tem os recordes de britânico com maior número de poles e pódios.

De quebra, Hamilton superou a campanha de Ayrton Senna de 1988 ao vencer pela nona vez na temporada – e o fez após 16 etapas, mesmo número de provas daquele ano.

Mas demorou justamente 31 vitórias para Hamilton ser, finalmente, campeão de construtores, uma trajetória sem paralelos na Fórmula 1. A Mercedes conquistou o título com três corridas de antecipação, assim como a Red Bul havia feito em 2011 e 2013. Porém, com a pontuação dobrada, há mais pontos em jogo em 2014.

Foi uma conquista com estilo, com direito à nona primeira fila apenas com Mercedes e nona dobradinha – recorde são 10, da McLaren em 1988, ainda que campeonato tenha tido três provas a menos que o atual.

Trata-se da 15ª equipe a ser campeã de construtores, campeonato criado em 1958. Porém, podemos considerar essa equipe de Brackley tricampeã, pois ela vem do espólio da antiga Tyrrell, dona do título de 1971, e Brawn, vencedora em 2009.

Falando em mundial de construtores, os 22 pontos de Sochi representaram o melhor resultado da McLaren desde a primeira prova do ano. Além de ter passado a Force India, o time de Woking começa a ensaiar um incômodo à Ferrari: são 45 pontos de diferença

A estreia da Rússia – 31º país a receber a Fórmula 1 – com casa lotada foi uma ótima notícia para a categoria, que fez, em Sochi, uma prova pelo 71º circuito diferente em sua história. Pena que uma escolha equivocada da Pirelli fez com que o espetáculo apresentado deixasse tanto a desejar.

Houve outras provas com apenas uma parada – a próxima etapa, nos EUA, sempre é uma forte candidata – mas nunca um piloto fora capaz de fazer toda a prova com um jogo de pneus, parando na volta 1, e não tendo sinais de degradação (Nico Rosberg fez a volta mais rápida com um giro para o final, sendo apenas destronado por Bottas). A última vez que isso aconteceu – e Fernando Alonso lembra disso como ninguém – foi no último GP da era Bridgestone, em Abu Dhabi. Longe de ser o melhor exemplo da história em termos de emoção.

Mas houve um alento. Apesar de não ter conseguido reproduzir a grande classificação na corrida, o piloto da casa Daniil Kvyat obteve a melhor posição do grid para um piloto russo, com o quinto lugar. No entanto, parece meio estranho dizer que esse era o GP caseiro do piloto da Toro Rosso, que nasceu na cidade de Ufa, a 1500km de Sochi.

Os russos também viram a primeira vez em que uma equipe participou de um final de semana de GP com apenas um carro desde o GP do Canadá de 1994 – Simtek, time de Roland Ratzenberger. Que as coincidências com aquela temporada acabem por aqui.

Finalmente, Mercedes

Motor Racing - Formula One World Championship - Russian Grand Prix - Race Day - Sochi, Russia

Não foi em uma das corridas mais emocionantes da face da Terra, longe disso, mas o acerto de contas da Mercedes com sua própria história ao conquistar seu primeiro título de construtores foi mais uma prova do nível de eficiência que o time alemão atingiu.

Mesmo tendo de reprogramar a estratégia após o erro pouco característico de Rosberg, piloto e equipe conseguiram ler bem o desgaste de pneus, não se assustaram com o graining e conquistaram uma dobradinha que tem muito a ver, também, com todo o trabalho de acerto do carro em uma pista nova.

Sim, houve quebras demais ao longo do campeonato e esse deve ser o grande foco para o ano que vem, mas ver uma equipe funcionando bem em vários setores é impressionante. E não é algo que acontece da noite para o dia.

Deixo para vocês um texto que publiquei aqui no blog há pouco mais de um ano, em setembro de 2013, no qual aponto quais os motivos que faziam a Mercedes indicar, já naquela época, que estava no caminho certo para ser the next best thing na Fórmula 1:

A história da Fórmula 1 é cheia de ciclos: houve equipes que fizeram carros dominantes, mas não conseguiram manter-se no topo muito tempo, como a McLaren do bicampeonato de Hakkinen, algumas que apareceram do nada, como a Brawn de Button e outras que só foram “derrubadas” com mudanças de regulamento, como a Ferrari de Schumacher.

Hoje, vivemos o ciclo da Red Bull, que não dá sinais de que acabará tão cedo. Mantendo a estrutura técnica com Adrian Newey à frente e a politicagem com o cada vez mais influente Christian Horner, a equipe, que há cinco anos lutava no pelotão intermediário, hoje caminha para o tetracampeonato com sobras.

Porém, se tivesse de apostar em qual será o time do futuro, jogaria minhas fichas na Mercedes.

Voltando um pouco no tempo: a Red Bull apareceu após uma mudança no regulamento, cuja intenção era diminuir a influência da aerodinâmica nos carros. Logo de cara, a Brawn – hoje Mercedes – compensou isso com o difusor duplo, mas a falta de investimento impediu que o desenvolvimento continuasse. Newey e sua equipe, por sua vez, encontraram outras soluções, muitas delas caçadas pela FIA (como o difusor soprado e as asas flexíveis), mas ainda assim tiveram margem de manobra para se manter no topo. E é por essa constante inovação, esse desenvolvimento consistente, que fica difícil acreditar que eles apareçam com um projeto totalmente equivocado ano que vem.

Mas, se alguém dá pinta de que pode chegar nos virtuais tetracampeões mundiais é justamente o espólio da antiga Brawn. A equipe levou três anos para se reestruturar após passar aquela temporada de 2009 com muito pouco investimento e tendo de enxugar sua estrutura – lembre-se que aquele carro com que Button foi campeão foi desenvolvido com dois túneis de vento e orçamento quase infinito da Honda.

De lá para cá, o time contratou muito – e bem – adotando uma nova postura que vem ganhando adeptos na Fórmula 1, menos centralizada. Renovou a tecnologia de sua fábrica, aumentou a escala do túnel de vento, e vem colhendo os frutos. Ao contrário da Ferrari, que volta e meia se vê com peças que não funcionam; da McLaren, que alterna bons e péssimos momentos; e da tão criativa quanto endividada Lotus, mostra-se o time mais bem organizado entre os desafiantes da Red Bull.

E essa ‘afinação’ da fábrica chega em boa hora. Os engenheiros explicam que um dos grandes desafios do regulamento que entra em vigor ano que vem é a maior interdependência entre os sistemas. Ou seja, quanto mais próximos os setores que cuidam do motor e do carro em si trabalharem, melhor.

“O mais notório para mim é que a interdependência entre as peças diferentes do carro é bem maior do que hoje. Por exemplo a instalação do motor: há uma implicação aerodinâmica, uma implicação no desenho da caixa de câmbio, uma implicação no chassis – tudo é muito mais interligado”, explica o diretor técnico da Toro Rosso, James Key. Em teoria, isso favorece as equipes de fábrica.

No final dessa ‘linha de produção’, estão os pilotos, quesito em que a equipe também está bem servida. Com ambos andando bem e com contratos longos, a continuidade é outro fator a ser considerado. E, se o próprio Lewis Hamilton admitiu a essa coluna que não sente a vontade no carro “que foi desenvolvido para Nico e Michael, pois demora um tempo para adaptá-lo ao meu estilo de pilotagem”, e é terceiro em um campeonato que seria de adaptação, imagine o que está por vir.

 

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Rússia

Vettel6 a 10Ricciardo
Hamilton7 a 9Rosberg
Alonso14 a 2Raikkonen
Grosjean13 a 3Maldonado
Button7 a 9Magnussen
Hulkenberg11 a 5Perez
Sutil8 a 8Gutierrez
Vergne9 a 7Kvyat
Massa5 a 11Bottas
Kobayashi11 a 4Ericsson
Bianchi12 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: 0s386

Hamilton x Rosberg: 0s200

Alonso x Raikkonen: 0s062

Grosjean x Maldonado: 0s679

Button x Magnussen: 0s508

Hulkenberg x Perez: 0s105

Gutierrez x Sutil: 0s448

Kvyat x Vergne: 0s743

Bottas x Massa: 3s939

Ericsson x Kobayashi: 0s518

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

5 por toda a parte

O festival de números 5 já invadiu a lista de componentes usados da unidade de potência, com quatro etapas para o final, levando a crer que as punições pela utilização do sexto de qualquer um dos elementos mostrados abaixo se tornarão uma regra daqui em diante.

Os dois pilotos da Toro Rosso e Pastor Maldonado foram os primeiros a pagar punições por conta disso – não coincidentemente, pilotos que utilizam motores Renault, como vínhamos alertando desde maio. Nos treinos livres em Sochi, foi a vez de Daniel Ricciardo, na corda bamba em cinco dos seis elementos, parar com suspeita de problema no motor, mas a Red Bull já avisou que tratava-se de elementos antigos, que seriam substituídos de qualquer maneira para a corrida (ainda dentro dos 5 permitidos), o que não acarreta punição.

Esse é um fator que também pode influenciar daqui em diante: como esses cinco itens não precisam obedecer ordem (dá para recolocar no carro uma ICE usada no começo da temporada, por exemplo) as equipes vão deixar as peças mais usadas para os treinos livres de sexta-feira. E quem começar a quebrar por conta disso terá problemas na preparação para o resto do final de semana.

Pelo menos na luta do campeonato, está tudo igualado por enquanto. E fica a torcida para que não seja isso que vá decidir o campeonato com a pontuação dobrada de Abu Dhabi.

Lembrando que cada piloto pode usar, ao longo da temporada, cinco unidades de cada componente. O motor foi “desmembrado” em seis itens, que são contabilizados separadamente. A partir da sexta unidade de qualquer um destes itens, o piloto perde 10 posições no grid. Caso isso ocorra com um segundo item, serão mais cinco posições e, se toda a unidade for trocada pela sexta vez, o piloto larga do pit lane.

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ICE = Internal combustion Engine/ Motor de combustão
TC = Turbo Charger/ Turbo
MGU-K = Motor Generator Unit – Kinetic/ Gerador a partir de energia cinética
MGU-H = Motor Generator Unit – Heat / Gerador a partir de energia calorífica
ES = Energy Store / Armazenamento de energia
CE = Control Electronics / Central de controle eletrônico

GP do Japão por brasileiros, britânicos e italianos: “Não tem outro carro ali, tem?”

Motor Racing - Formula One World Championship - Japanese Grand Prix - Race Day - Suzuka, Japan

“No seco, é emocionante. Na chuva, é aterrorizante. Há rios por toda a parte e você tem de tirar muito o pé em curvas que seriam facilmente de pé embaixo”, Martin Brundle, comentarista da Sky Sports, começa sua tarde de adivinho. “Devíamos ter começado essa corrida há umas 4h.”

De fato, o prognóstico antes da largada do GP do Japão não era dos melhores. Os narradores e comentaristas informavam que eram necessárias mais de duas voltas para contar metade dos pontos e 40 para que o total fosse computado. Chuva e o entardecer logo depois das 17h (três horas depois da largada) tornavam difícil de imaginar que a prova iria até o final.

A largada é dada com Safety Car. “Os carros partem para a pista e tá um sabão”, observa o narrador da Globo, Luis Roberto. “Mesmo em baixíssima velocidade, vemos quanta água os carros levantam”, destaca o comentarista da Rai, Ivan Capelli. “É um risco enorme. Não dá para fazer uma corrida sem que os carros andem rápido, porque eles são projetados por isso”, completa o comentarista brasileiro Luciano Burti. A Caterham de Ericsson aquaplana mesmo em velocidade baixa, os pilotos não param de reclamar e não tem jeito: bandeira vermelha depois de duas voltas.

Seria o suficiente para os pontos serem dados? Para os britânicos, sim: “Se nada mais acontecer, Nico vai sair líder”, aponta Brundle. Mas há uma segunda largada, de novo sob Safety Car, e Giancarlo Bruno, comentarista técnico italiano já informa o tempo de volta que a Pirelli recomenda para a troca dos pneus de chuva para os intermediários.

Para Fernando Alonso, porém, isso pouco importa. A Ferrari simplesmente desliga após poucas curvas. “Alonso, que já esteve perto de recordes de corridas nos pontos, agora abandona a segunda corrida em três”, observa o narrador italiano Gianfranco Mazzoni. “Uma pena que perdemos um combatente. Alonso certamente teria dado show nessas condições”, lamenta Capelli, da mesma forma que Luis Roberto. “Que pena, Alonso, logo você! O piloto mais habilidoso do grid fica de fora da corrida. Apagou geral.” Já Brundle aproveita para especular. “Ele está voltando em uma moto Honda. Será que terá um motor Honda ano que vem?”

O Safety Car segue na pista e o comentarista inglês não se conforma – pede para a corrida começar desde a quarta volta e já prevê o que estar por vir. “Sabemos que as Red Bull estão acertadas para a chuva, vamos ver se eles conseguem chegar nas Williams.” Os italianos ficam em cima do muro. “Realmente as condições parecem boas, mas acredito que o spray é o único risco”, diz Capelli. Os brasileiros apoiam a direção de prova, pois, nas palavras de Reginaldo Leme, “essa é uma das pistas mais perigosas do campeonato, porque é uma das mais rápidas e tem poucas áreas de escape.”

Antes mesmo da corrida começar de verdade, os britânicos já especulam se alguém colocará os intermediários. E quem aposta é Jenson Button. “Foi assim que ele teve várias vitórias na F1: no molhado e arriscando”, lembra Mazzoni.

De fato, na volta seguinte, vários pilotos copiam o inglês, que ganha terreno. “Button já está na frente de Bottas com sua aposta”, se surpreende Capelli. Isso significa, a essa altura, a terceira posição, o que os brasileiros só veem na 16ª volta.

Enquanto Hamilton não deixa Rosberg escapar na ponta, ambos ainda com pneus de chuva extrema, as Red Bull – como previu Brundle – vão à caça das Williams. O carro mais alto, acertado para a chuva, ajuda Vettel e Ricciardo, como destacam Burti e Giorgio Piola. E não demora para a dupla chegar ao quarto e quinto postos. “Boa pilotagem de Massa e Vettel para não bater. E muito corajoso Ricciardo, mantendo o pé do acelerador mesmo com uma roda na tinta”, avalia Brundle. “Valeu a pena esperar por essa corrida.” O narrador britânico David Croft começa a acreditar que, “com esse ritmo, eles vão chegar na Mercedes no final”, até porque, como frisa Brundle, “o acerto com mais downforce está ajudando-os a manter os pneus em melhor estado.”

Na frente, Rosberg para primeiro e Hamilton aperta o ritmo. Tanto, que escapa da Spoon, perdendo a chance de superar o companheiro. “Se não fosse aquela escapada, meu amigo…” imagina Luis Roberto.

Mas o inglês não desiste e, com os problemas de equilíbrio do carro de Rosberg, se aproxima.“Vemos que Rosberg faz uma trajetória mais central para ter de virar menos e sentir menos a saída de dianteira, enquanto Hamilton faz uma trajetória mais estreita, que é, efetivamente, mais curta”, observa Capelli.

Na volta 23, Brundle começa a “imaginar quando eles vão permitir o DRS. Deve estar próximo porque o spray está bem menor”. No giro seguinte, o pedido é atendido, com Hamilton já a menos de 1s do companheiro. “Vai esquentar! Hamilton não tenta só liderar a corrida, mas também o campeonato. Pela pista estar molhada, o talento do piloto pode fazer com que use pontos de ultrapassagem que não seriam normais”, se empolga Luis Roberto.

Os italianos também acham que usar o DRS para passar não será a melhor estratégia para Hamilton, mas o inglês parece decidido a superar Rosberg na primeira curva. Na primeira vez, não dá certo e sua asa dianteira passa perto do pneu do alemão. “Quase vimos um novo Spa agora”, lembra Brundle. “O que eles vão fazer? Rosberg está com problemas no pneu e Lewis não. Enquanto isso, as Red Bull se aproximam. O que fazer para que eles não batam? Eles têm de liberar Hamilton. Os pneus dele estão melhores, mas ele não consegue usá-los”.

Motor Racing - Formula One World Championship - Japanese Grand Prix - Race Day - Suzuka, JapanA justificativa dos britânicos para pedir ordens de equipe é a aproximação das Red Bull, mas a Mercedes não precisa intervir: na volta 29, Hamilton completa a manobra para delírio de todos. “A 330km/h, em pista molhada e por fora. Foi o que restou para ele fazer. Ótima manobra. Esse é o Hamilton que a gente conhece”, vibra Reginaldo. “Grandioso. Espetacular, arriscou muito bem. E Rosberg sentiu na hora, nem conseguiu acompanhar. Perdeu 1s6 no primeiro setor”, observa Mazzoni. “Rosberg foi mais defensivo do que deveria e acabou facilitando. Isso resolveu o problema da Mercedes”, comenta Brundle.

A ultrapassagem não cessa os questionamentos dos britânicos em relação à estratégia da Mercedes. A bronca agora é pela demora em trazer Rosberg aos boxes.“Não sei o que a Mercedes está esperando para chamar o Rosberg para os pits. Parou de chover, mas não está nem perto de secar a pista”, observa o repórter Ted Kravtiz.

Para Burti, a demora talvez seja justamente porque “a equipe deve estar esperando ver se a pista vai secar”, mas os italianos pensam o contrário. “Se chover o que está previsto, ele poderia colocar os pneus de chuva e pararia uma vez a menos que os outros”, avalia Capelli.

A questão é que Vettel está se aproximando, “fazendo uma grande prova antes de ir para Maranello”, como o narrador italiano frisa. Porém, após as paradas, as posições se mantêm.

Na volta 36, Kravitz avisa : “está formando uma bela chuva aqui e está escurecendo”. A escapada de Vettel, três voltas depois, é a prova de que a água chegou de vez. “Alô, Vettel, a pista é para a esquerda!”, se diverte Luis Roberto. “Está chovendo mais, porque mudaram os níveis de aderência do asfalto”, observa Capelli, enquanto Brundle lembra que “pode ser que eles terminem a corrida antes, porque na próxima volta já tem os pontos totais. Os intermediários até que têm uma grande janela, mas chega um momento em que a água é demais. Um milímetro a mais e eles começam a aquaplanar.”

“O spray e a alta dos tempos são sinais evidentes de que as condições pioraram. Por isso proibiram o DRS. Estamos chegando no tempo limite para colocar os pneus de chuva”, observa Bruno na volta 41. Logo os pilotos começam a entrar nos boxes. A McLaren usa a informação de Magnussen e para Button. “Novamente é ele o primeiro a mudar a estratégia entre os ponteiros”, aponta Luis Roberto.

Motor Racing - Formula One World Championship - Japanese Grand Prix - Race Day - Suzuka, JapanMas o fato que mudaria a história da corrida seria a batida de Sutil na saída da Dunlop, na volta 42. “Nós podemos ter um SC. Adrian Sutil foi parar nas barreiras”, diz Croft. Isso não acontece.

Impaciente, Brundle quer ver se a área de escape já está liberada. “Onde está o carro do Sutil? Será que eles conseguem tirar rápido? Porque os outros também estarão aquaplanando no mesmo lugar. Aconteceu comigo.” Quando a imagem mostra o carro de Sutil e o trator de remoção ainda na brita e os fiscais acenando, a preocupação do comentarista, que atropelou um fiscal sob circunstâncias bastante semelhantes há 20 anos, aumenta. “Os fiscais estão andando do lado de dentro da pista, o mais sábio seria ficar do outro lado… e tem o trator também. Vimos como o Sutil escapou…”

Só então sai o Safety Car, acompanhado do carro médico, em procedimento que causa estranheza. “Muita confusão porque o SC saiu longe do líder. Parece que deve ter havido um problema com algum fiscal que estava na recuperação do carro, pois o carro médico parou por ali. Por isso eles apareceram agitando as mãos daquele jeito”, observa Capelli.

Essa, também, é a primeira suspeita dos britânicos. “O carro médico também está saindo. Não vimos Sutil depois da batida”, lembra Croft. “Ele saiu do carro, não?”, pergunta Brundle, que confabula.“Tomara que não seja algum fiscal, com o trator dando ré… alguma coisa não está bem lá.” E, depois de alguns instantes, a dúvida: “Não tem outro carro lá, tem?”.

Sim, havia outro carro. “Tem uma Marussia ali. E Jules Bianchi está fora da corrida. Será que ele escapou antes ou depois de Sutil?”, questiona Croft. “Será que ele bateu no trator? Eu estava falando dessas coisas de outro carro escapar no mesmo lugar porque aconteceu comigo em 94”, explica Brundle.

Na Globo, a primeira suspeita é que algo teria acontecido com Sutil. “Falei com a mulher de Sutil e ela disse que ele está bem, talvez seja uma checagem porque ele bateu forte”, intervém a repórter Mariana Becker. “Mas essa checagem acontece no centro médico, não na pista. Aconteceu alguma coisa”, estranha Burti. É ele, quando a corrida é interrompida e as imagens do box da Marussia não param de aparecer, quem junta os pontos. “Não dá para ver se tem outro carro… parece que o Bianchi, com a Marussia, bateu naquele trator que estava tirando o carro do Sutil. Deve ter sido muito grave para terem dado bandeira vermelha.”

Os italianos acreditam, desde o primeiro momento, que houve um problema com um fiscal. “Ao mesmo tempo, abandonou Bianchi. Tomara que não tenha acontecido nada mais grave a um fiscal. Eles são geralmente voluntários, movidos apenas pela paixão”, diz Mazzoni.

Bruno estranha as imagens da Marussia, mas a informação que tem em seu computador de que o carro médico está em uma curva e a ambulância, em outra, o confunde. “A imagem fica retornando à Marussia. Não vimos a imagem do abandono de Bianchi e sequer temos o replay…”, corrobora, antes de um longo silêncio na transmissão. “Talvez tenha acontecido em outro ponto da pista. Aqui diz que a ambulância está na curva 15, depois da 130R. O carro de Sutil está na 7.”

Com as imagens focando cada vez mais a tensão dentro da Marussia e a movimentação no centro médico, os italianos compreendem que o problema é com Bianchi, mas não imaginam que o piloto tenha batido na mesma curva de Sutil. É Piola, dos boxes, quando pilotos já estão se preparando para ir ao pódio, que informa: “Parece que Bianchi bateu no trator que retirava o carro de Sutil. Se foi isso mesmo, foi um impacto extremamente violento.” E Mazzoni completa. “Deve ter sido violento mesmo pois, se há as imagens, preferiram não mostrar.”

Os repórteres entram em cena e Mariana e Ettore Giovannelli informam que Bianchi foi levado ao hospital de ambulância e inconsciente. Na Sky, Croft tenta animar o clima, falando do aumento da vantagem de Hamilton, mas Brundle só murmura. “Isso não está na cabeça dele no momento. Eu não estou gostando disso. Não está soando bem.”

 

O vídeo e as bandeiras

thumbs

O vídeo que mostra com clareza o acidente de Jules Bianchi no GP do Japão jogou luz em algumas circunstâncias que explicam por que o estado do francês é tão crítico – e também gerou uma discussão sobre as ações dos fiscais de pista (que, ainda bem, incrivelmente estão a salvo, diga-se de passagem).

Agora sabemos que a Marussia escapou, diferentemente da Sauber de Adrian Sutil momentos antes, de frente, e que Bianchi acertou a parte de trás da lateral do trator que removia o carro do alemão. Segundo a telemetria, o impacto foi de 203km/h, portanto, fortíssimo.

Como a parte traseira do trator é relativamente alta, o primeiro ponto que colidiu com o trator foi provavelmente a parte superior do capacete do piloto ou, no melhor dos casos, o santoantônio, completamente arrancado com a violência da pancada. Na verdade, mesmo se a cabeça de Bianchi passou por baixo do trator e não foi diretamente atingida, só a desaceleração causada pelo impacto já explicaria suas lesões. O que dá para ver nas fotos é que os espelhos retrovisores, que ficam no nível dos olhos do piloto, ficaram intactos. O santantônio, centímetros acima, não.

Além do acidente em si, chamou a atenção a confusão dos fiscais em relação às bandeiras. Primeiro, bandeiras amarelas duplas. No meio do resgate do carro de Sutil, bandeira verde. Não, não foi isso que causou o acidente e não faz sentido demonizar os fiscais. Mas existe algum erro de procedimento.

Em relação ao acidente, o que importa são as bandeiras amarelas no posto anterior. Afinal, ser avisado de um acidente em cima dele não vai ajudar em nada. E a FIA já soltou comunicado dizendo que as amarelas duplas (que indicam não apenas que o piloto tem de desacelerar, como também estar preparado para parar) estavam sinalizadas no posto anterior, o 11.

No regulamento, diz-se que as bandeiras verdes podem ser agitadas depois da zona do acidente. Será que aquele ponto já poderia ser considerado posterior (avisando que, a partir dali, os pilotos deveriam correr normalmente) ou ainda seria necessária a bandeira amarela? Parece que nem o fiscal de Suzuka – e eles estão entre os mais experientes do calendário – sabia ao certo o que agitar.

Ainda faltam mais dados para fechar o veredicto do acidente. Não dá, inclusive, para dizer que Bianchi ignorou as bandeiras anteriores sem a telemetria. Ele tinha pneus intermediários com 17 voltas, um carro difícil e começara a chover mais forte naquele momento. Mas acredito que caiba a discussão sobre o tipo de resgate a ser utilizado em determinadas pistas.

Convenhamos que em um circuito amplo como o da Malásia, a chance de termos um episódio como o de Suzuka é infinitamente menor. Talvez caiba àqueles redutos sabidamente mais perigosos – como a pista japonesa e Montreal, por exemplo – adotarem apenas guindastes, semelhante ao que ocorre em Mônaco, ou mesmo os comissários podem ser mais cautelosos que o normal.

Concordo com Jackie Stewart quando ele diz que a Fórmula 1 é um exemplo de administração de riscos. Até a expressão do escocês é perfeita: “administração de riscos”. De fato, o risco é inerente a este esporte. Porém, nunca podemos usar isso como pretexto para fechar os olhos quando as brechas nessa administração aparecem.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP do Japão

 

Vettel6 a 9Ricciardo
Hamilton6 a 9Rosberg
Alonso13 a 2Raikkonen
Grosjean12 a 3Maldonado
Button6 a 9Magnussen
Hulkenberg10 a 5Perez
Sutil8 a 7Gutierrez
Vergne8 a 7Kvyat
Massa5 a 10Bottas
Kobayashi11 a 3Ericsson
Bianchi12 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: 0s357

Rosberg x Hamilton: 0s197

Alonso x Raikkonen: 0s808

Maldonado x Grosjean: 0s067

Magnussen x Button: 0s075

Perez x Hulkenberg: 0s010

Sutil x Gutierrez: 0s317

Vergne x Kvyat: 0s108

Bottas x Massa: 0s399

Ericsson x Kobayashi: 0s202

Bianchi x Chilton: 0s538

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

 

Depois de Vettel, agora Alonso também está na corda bamba

Depois de Daniil Kvyat se tornar o primeiro a sofrer – e ter, neste final de semana, a companhia de Pastor Maldonado – uma punição por exceder o limite de cinco peças de qualquer uma das seis partes que compõem a unidade de potência, a expectativa é de que pilotos de ponta comecem a sofrer daqui em diante.

Passada a sequência que mais força o motor – Monza e Spa por serem circuitos de alta velocidade e Cingapura pelas condições climáticas – vários pilotos estão utilizando, neste final de semana, sua quinta e última opção. E faltam cinco provas para o final.

A situação mais delicada é de Sebastian Vettel, que já admitiu estar estudando quando – e não se – toma sua punição. Como a primeira pena é de 10 posições no grid, o alemão falou, inclusive, em sequer participar da classificação quando tiver de trocar a unidade de combustão e aproveitar para substituir todas as peças, largando do pit lane.

Essa é uma opção plausível para quem não tem um problema localizado e está na corda bamba em vários itens, como é o caso de vários pilotos que utilizam a unidade de potência da Ferrari. A própria dupla de Maranello está pendurada: Alonso, por exemplo, estreia no Japão a quinta unidade de combustão, central eletrônica, turbo e MGU-H.

Agora, as equipes buscam a melhor estratégia para levar a punição. Pagar punições na Rússia é teoricamente indicado devido às longas retas do circuito. Porém, como a pista de Sochi é desconhecida, o ideal seria aguentar até o GP do Brasil, por ser uma corrida com mais chances de ultrapassagens.

Se as punições são inevitáveis, o jeito é se acostumar com as regras. Cada piloto pode usar, ao longo da temporada, cinco unidades de cada componente. O motor foi “desmembrado” em seis itens, que são contabilizados separadamente. A partir da sexta unidade de qualquer um destes itens, o piloto perde 10 posições no grid. Caso isso ocorra com um segundo item, serão mais cinco posições e, se toda a unidade for trocada pela sexta vez, o piloto larga do pit lane.

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ICE = Internal combustion Engine/ Motor de combustão
TC = Turbo Charger/ Turbo
MGU-K = Motor Generator Unit – Kinetic/ Gerador a partir de energia cinética
MGU-H = Motor Generator Unit – Heat / Gerador a partir de energia calorífica
ES = Energy Store / Armazenamento de energia
CE = Control Electronics / Central de controle eletrônico

Mercedes e Ferrari estão um bico à frente

Motor Racing - Formula One World Championship - Italian Grand Prix - Practice Day - Monza, Italy
Sou feioso, mas tô na moda

Ainda faltam 5 etapas para o final desta temporada, mas o respeitado jornalista alemão Michael Schmidt, da Auto Motor und Sport, levantou uma questão interessante nesta semana: a vantagem que Mercedes e Ferrari devem levar com a mudança nas regras para o formato dos bicos dos carros em 2015.

Mais uma vez, a Federação Internacional de Automobilismo decidiu mexer na configuração dos bicos, e por motivos puramente estéticos. Nos últimos dois anos, os bicos altos foram abandonados por questões de segurança, para evitar que os capacetes sejam atingidos em colisões frontais. Novas alterações, feitas em 2014, visavam prevenir também outro tipo de acidente: quando um carro decola após tocar a roda traseira de quem vai à frente. Isso criou a necessidade de abaixar ainda mais os bicos.

Porém, as equipes chiaram quanto à extensão dessa mudança. Dependendo de como a nova regra fosse redigida, seria necessária uma revolução aerodinâmica que afetaria o carro inteiro. Afinal, o bico do carro é o primeiro contanto dele com o ar e influencia toda a aerodinâmica – especialmente o ar que passa por debaixo dele e alimenta o assoalho, além de afetar as suspensões. Portanto, “rebaixar” toda a peça geraria uma enorme despesa de tempo e dinheiro. A solução para agradar os times e não esquecer a questão da segurança foi abaixar apenas a seção final do bico.

Porém, as equipes optaram por maneiras diferentes de fazer isso, criando algumas aberrações. E, com as alterações para 2015, quando o desenho do bico deve ser mais harmonioso, algumas delas estão em desvantagem: Force India, Toro Rosso, McLaren, Caterham, Lotus e, em menor escala, Red Bull e Williams.

Isso porque a decisão destes times foi criar uma “ponta” para o bico, bem mais fina que o restante da peça, para melhorar o fluxo de ar no restante do carro. Porém, agora o regulamento requer maior simetria e transição consistente em toda a extensão do bico e prevê uma circunferência mínima. Será o fim dos bicos tamanduás – como também do bico duplo da Lotus.

Os primeiros testes aerodinâmicos surpreenderam os engenheiros. “Perdemos 20 pontos [de aerodinâmica] e estamos com dificuldades de recuperar isso”, reconheceu o diretor técnico da Force India, Andy Green, à publicação germânica.

Por isso, o engenheiro espera que as duas equipes que adotaram soluções mais harmoniosas para os modelos deste ano – Mercedes com seu bico amplo e curto, e Ferrari com seu largo e profundo – saiam na frente. “Eles têm uma grande vantagem em termos de experiência. O da Mercedes, por exemplo, só vai ter de passar pelo crash test uma vez porque eles já usam esse bico faz tempo – e os crash tests são caros, custam 10.000 libras. E detrás do bico da Ferrari existe toda uma filosofia aerodinâmica. Então as outras equipes precisarão aprender muita coisa.”

Grid cheio (de interesses)

Motor Racing - Formula One World Championship - Italian Grand Prix - Race Day - Monza, Italy

A conversa sobre a adoção três carros por equipe a partir do ano que vem na Fórmula 1 ganhou força nas últimas semanas e escancara o momento comercialmente difícil pelo qual passa a categoria. Jogos de interesses e falta de garantias a respeito de quem estará no grid em 2015 explicam por que as incertezas continuam mesmo em uma época do ano na qual o orçamento para a temporada seguinte já deveria estar fechado.

Uma coisa é certa: não é coincidência que Bernie Ecclestone, que sempre fez pouco caso da pressão da Ferrari para adotar o terceiro carro, de uma hora para a outra passou a apoiar a ideia. Afinal, chegou-se a um ponto em que seu controle da categoria corre perigo.

A questão foi bem explicada pelo chefe da Force India, Vijay Mallya. “As regras e acordos dizem que, se o grid tiver menos de 20 carros, os participantes vão correr com um terceiro carro. Todos assinaram isso. Tomara que nunca cheguemos a esse ponto.”

Esse acordo serve para proteger a própria hegemonia de Ecclestone: se a FOM, controlada por ele, não conseguir colocar pelo menos 20 carros no grid, como roga o contrato, isso pode levar ao cancelamento do acordo de 100 anos com a FIA (fechado ainda nos tempos de Max Mosley), devolvendo a categoria para as mãos da federação.

Isso é uma questão atualmente devido à situação difícil de Caterham e Marussia e de alguns times médios, principalmente a Sauber. Com oito equipes no grid, a única forma de Ecclestone manter o controle da categoria seria com três carros por time.

Mas o que, na teoria, parece simples, na prática é bem diferente. Quando Ecclestone diz que “saberemos nas próximas duas ou três corridas” se haverá terceiros carros, aponta para uma definição em outubro – e o chefe da McLaren, Eric Boullier, garante que mesmo uma decisão iminente já seria tardia demais visando a próxima temporada: “Precisaríamos de pelo menos seis meses para preparar a logística de um terceiro carro”, afirmou o dirigente.

Outro fator que afasta a possibilidade da adoção de terceiros carros é sua falta de representatividade na pontuação para o mundial de construtores, e consequentemente, na divisão do dinheiro dos direitos comerciais. Na prática, só serviriam para encher o grid e empurrar as equipes menores mais para trás nos resultados.

Nesta conjuntura, o mais provável é que a intenção de Ecclestone seja criar um ambiente propício para salvar seu contrato de 100 anos sem a necessidade de adotar um terceiro carro, protegendo as equipes que passam por dificuldades e mantendo-as, mesmo que aos trancos e barrancos, no grid no ano que vem.

O dilema de Alonso

Ele é tão bom na pista quanto em tomar decisões equivocadas na carreira e, encara, neste momento, uma das escolhas mais difíceis de sua trajetória. Fernando Alonso está sedento por um novo título e tem a dura missão de saber qual equipe poderá lhe dar o melhor pacote para competir com as Mercedes.

E, nesse jogo de adivinhação, Alonso nunca se mostrou tão craque quanto é ao tirar o máximo de seu carro nas corridas. Depois de conquistar seu segundo e último título mundial em 2006, acertou na mosca ao trocar a Renault, que entraria em decadência a partir do ano seguinte, pela McLaren. A partir daí, se perdeu nas apostas.

Com problemas com a direção da McLaren, rompeu seu contrato após apenas uma temporada, mesmo estando a bordo de um dos dois carros dominantes da época e tendo as portas fechadas por pelo menos dois anos na grande rival do time inglês, a Ferrari. Se lembrarmos que o espanhol perdeu o campeonato de 2007 por apenas um ponto mesmo tendo a direção da equipe contra si, é de se imaginar que, com mais paciência, o asturiano poderia ter conquistado o tri há muito tempo.

Em 2008, tinha proposta da Red Bull, que não havia obtido nenhum resultado expressivo até então, mas vinha se reestruturando para virar o jogo em 2009, quando ocorreria uma grande mudança nas regras. O potencial que Lewis Hamilton, por exemplo, viu na Mercedes, Alonso falhou em reconhecer na equipe que se tornaria tetracampeã mundial.

Ele optou por permanecer duas temporadas na Renault, esperando pela Ferrari. Quando chegou em Maranello, o time já não era sombra daquele que conquistara seis títulos em nove anos.

O espanhol poderia ter sido campeão por duas vezes com a Ferrari, é verdade. Foram detalhes que tiraram os títulos de 2010 e 2012. Mas dizer que o time italiano apresentou, de 2010 para cá, plataformas seguras para se tornar o carro a ser batido, é exagero.

Agora que a nova chefia em Maranello fala em ‘plano de 5 anos’ para retornar ao topo, Alonso sente a pressão do tempo. Aos 33 anos, ele não pode se dar ao luxo de esperar.

O acordo com a Ferrari termina no final de 2016, mas contratos de F-1 são feitos para serem quebrados. Fala-se de tudo, desde McLaren, apostando nos altos investimentos da Honda em seu retorno, até Lotus, onde viraria soberano sob a bênção de Flavio Briatore. Seu maior problema é que nenhuma opção plausível no momento é certeira. E mais um erro pode fazer com que um dos grandes pilotos de sua geração acabe entrando nos anais da Fórmula 1 com menos pompa que deveria.

 Coluna publicada no jornal Correio Popular

Pisca-pisca

Motor Racing - Formula One World Championship - Singapore Grand Prix - Race Day - Singapore, Singapore

Foi-se o tempo em que a grande preocupação em termos de segurança era com possíveis explosões do tanque de gasolina, comuns especialmente em colisões nos anos 70. Com a adoção das baterias elétricas, foi necessário adotar um sistema de luzes para garantir que todos saibam qual o status das baterias: comissários de pista, mecânicos e, claro, os próprios pilotos.

Isso é necessário porque a fibra de carbono, material com que a carenagem dos carros de Fórmula 1 é feita, é condutora de energia. Portanto, se houver qualquer falha no sistema e ocorrer um escape de energia, é extremamente perigoso sofrer um choque: estamos falando de algo em torno de 120kW.

O sistema informa sobre o status do ERS (sistema de recuperação de energia), que é composto pelo ERS-K (que recupera energia cinética da freada, que é armazenada na MGU-K) e pelo ERS-H (que capta energia calorífica gerada pelo turbo) e está localizado logo abaixo da câmera posicionada no topo do carro.

São sete luzes instaladas de maneira a dar 360º de visibilidade e que pesam, combinadas, apenas 35g. Todas as equipes usam o mesmo sistema, fornecido pela empresa Melectronics e desenvolvido de maneira que funcione mesmo se todos os outros sistemas do carro falharem. De acordo com as regras, elas devem manter-se acesas por 15 minutos depois da unidade de potência ter sido desligada, além de aparecerem sempre que os carros param e no pit lane (o sistema é acionado quando o piloto aperta o botão que limita a velocidade nos boxes).

Luz verde: carro está seguro para ser tocado.

Luz vermelha: carro não está segundo para ser tocado.

Luz laranja: carro está utilizando a energia elétrica (ou seja, não está funcionando apenas como o motor de combustão). Vê-la piscando é bastante comum durante o procedimento de largada.

Há outro sistema de luzes implementado neste ano e que também é produto da nova unidade de potência: a luz vermelha que pisca na traseira do carro. Isso serve para alertar os pilotos que vêm atrás que o carro que vai à frente está usando um mapa de torque de economia de combustível.

Essa economia pode ser feita pelo próprio piloto, tirando o pé do acelerador antes da freada, mas também pode ser obtida limitando-se o torque por configurações que o piloto tem à disposição no volante – e usa em determinado momento em todas as provas. Chamou a atenção, por exemplo, como a luz vermelha traseira do carro de Alonso piscava enquanto o espanhol tinha uma verdadeira luta de foice com Vettel no GP da Grã-Bretanha.

Isso significa que a Ferrari estava funcionando com uma redução de torque de pelo menos 120kW, como informa a normativa técnica da FIA. “Se o sistema de administração de torque do carro decide entrar em modo de economia de combustível, a luz traseira vai piscar por um segundo para avisar o piloto que vem atrás. Isso é configurado para um carro que, quando está com 95% de acelerador aberto por mais de um segundo, mais rápido que 180km/h e sofre uma redução de torque de 120kW ou mais. O sistema foi criado porque são eventos controlados pela eletrônica, e não pelo piloto.”

São mais alguns detalhes desta complexa nova Fórmula 1 que passar despercebidos durante as corridas, mas que nos ajudam a entender um pouco mais sobre seu desenrolar.

De desafiante a favorito?

Motor Racing - Formula One World Championship - Singapore Grand Prix - Race Day - Singapore, Singapore

Os posts de estatísticas pós-prova do ano passado inevitavelmente batiam na mesma tecla: quanto tempo vai demorar para Sebastian Vettel chegar nos números de nomes como Ayrton Senna e Michael Schumacher em número de vitórias e poles?

Isso porque parecia fato consumado que Alonso, Hamilton e afins já não eram páreo para o alemão em termos de números. Mas as coisas podem mudar rapidamente na Fórmula 1 e, com a vitória do último domingo, a sétima de uma temporada que teve 14 GPs até aqui, Hamilton chegou ao 29º triunfo na carreira e está a 10 do tetracampeão e a apenas três de Alonso. Já em número de poles, o placar é 45 x 37 a favor do alemão.

Vencendo depois de largar da pole position e, de quebra, ainda fazendo a volta mais rápida, Hamilton fez o quinto hat trick da carreira, empatando com Alonso e ficando a três de Vettel. Mas esse é um recorde duro de ser batido: Schumacher é o líder, com 22. Enquanto isso, Vettel liderou sua primeira volta da temporada em Cingapura. Foi a primeira vez, também de Valtteri Bottas cruzando a linha de chegada fora do top 10 no ano.

Com as duas vitórias seguidas e a virada no campeonato, o inglês é, neste momento, favorito para vencer o campeonato, com uma margem acima de 60% de chance. Porém, como o nível de confiabilidade da Mercedes não dá sinais de que vai melhorar de uma hora para a outra, quebras podem acontecer para qualquer lado – inclusive, em Abi Dhabi – o que abre o campeonato. Um bom exemplo disso é que, antes do GP de Cingapura, a probabilidade do inglês ser bi era na casa dos 10%.

Por outro lado, sabe quantas vezes um piloto perdeu um campeonato depois de ganhar sete provas? Quatro. Prost duas vezes (84, 88), Raikkonen (05) e Schumacher (06).

Hamilton ainda manteve a escrita do GP de Cingapura, que só foi vencido por campeões do mundo (ele, Vettel e Alonso). Indicando que é uma driver’s track, apesar dos vencedores serem apenas 3, eles usaram carros de 5 equipes diferentes.

Curiosamente, na pista da corrida mais longa do ano, a luta pela pole foi a mais apertada, algo particularmente impressionante em uma volta de 105 segundos. Poles foram decididas nos centésimos por cinco vezes neste ano (Malásia, Mônaco, Canadá e Áustria, além de Cingapura), mas uma margem tão pequena não era vista desde o GP da Alemanha de 2010, quando Vettel superou Alonso por dois milésimos.

No meio do pelotão, dois destaques: correndo para salvar sua carreira, Jean-Eric Vergne fez uma prova tão aguerrida que levou duas punições de 5s por ter usado a área de escape para ultrapassar e, mesmo assim, igualou seu melhor resultado na carreira, o sexto lugar. É a melhor posição da Toro Rosso desde os tempos de Vettel.

E a Force India novamente ultrapassou a McLaren. Talvez a Mercedes poderia buscar algumas ficas com seus clientes de motores, pois o time de Hulkenberg e Perez é o único que ainda não abandonou por falhas técnicas.

O volante

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Quando o carro que lhe levaria para o desfile de pilotos teve de ser empurrado para pegar, Nico Rosberg não deve ter pensado que hoje não seria seu dia. Afinal, ficara a apenas sete milésimos de Lewis Hamilton na classificação, fora batido por detalhes em um circuito no qual tem um retrospecto relativamente melhor que o companheiro.

Minutos depois, porém, mais uma vez Rosberg se viu empurrado, agora a bordo de sua Mercedes. Parara antes de seu box em uma das voltas que os pilotos dão para checar os sistemas do carro antes de alinhar no grid. Ali, a Mercedes já começava a perceber que seria uma longa tarde para o alemão. Uma falha no cabeamento que passa na barra de direção e liga volante à central eletrônica do carro atrapalhava algumas funções do volante, como a troca de marchas.

E não poderia ser outro tipo de problema. Afinal, o volante foi o tema central deste final de semana em Cingapura. E bem naquela prova em que ele está mais visível, mais brilhante. Volante que acabou servindo como justificativa para que as restrições ao uso do rádio fossem aliviadas, corretamente.

Desta vez alheio aos problemas, Lewis Hamilton obteve pontuação máxima em seu segundo final de semana seguido limpo. A maneira como forçou o ritmo para abrir 25s em 15 voltas, com o pneu supermacio, em um final de semana no qual a Mercedes não tinha um vantagem tão grande e em um circuito que pune com dureza os erros, deu a medida da boa fase em que se encontra.

A sensação é de que o inglês acredita que pode superar qualquer coisa depois dos altos e baixos que já teve nesta temporada. Agora, é Rosberg que tem de reagir.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP de Cingapura

Vettel6 a 8Ricciardo
Hamilton6 a 8Rosberg
Alonso12 a 2Raikkonen
Grosjean12 a 2Maldonado
Button6 a 8Magnussen
Hulkenberg10 a 4Perez
Sutil7 a 7Gutierrez
Vergne7 a 7Kvyat
Massa5 a 9Bottas
Kobayashi11 a 2Ericsson
Bianchi11 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Vettel x Ricciardo: 0s048

Rosberg x Hamilton: 0s007

Alonso x Raikkonen: 0s263

Maldonado x Grosjean: 1s201

Magnussen x Button: 0s243

Hulkenberg x Perez: 0s267

Gutierrez x Sutil: 0s354

Kvyat x Vergne: 0s063

Bottas x Massa: 0s187

Kobayashi x Ericsson: 1s882

Bianchi x Chilton: 1s033

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Perdidinha

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No início, a ideia parecia boa: diminuir significativamente o volume de informações que os engenheiros passam para os pilotos durante a corrida via rádio. Mas os dirigentes da Fórmula 1 – como de costume – só esqueceram de verificar qual o impacto que isso teria na competição. O desgaste causado pela indefinição a respeito da questão dos rádios é mais um reflexo das medidas desesperadas que uma categoria em crise vem tomando para não perder relevância.

O grande problema de se alterar a regra faltando seis etapas para o final do campeonato é que nem todas as equipes possuem o mesmo tipo de volante. Times como Red Bull, Williams, Force India, Lotus e as equipes menores optaram por um visor menor, tendo em vista que o piloto não precisaria visualizar todas as informações, uma vez que poderiam ser instruídos pelos engenheiros. Uma mudança nessa altura do campeonato levaria cerca de 10 semanas e geraria um custo demasiadamente alto quando os orçamentos já estão comprometidos com os carros do ano que vem.

Por outro lado, Mercedes, Ferrari, McLaren, entre outros, optaram por um visor maior, cuja navegação é mais fácil. E é claro que seriam beneficiados com a proibição da ajuda vinda do box. Fora isso, há certas situações, como o superaquecimento dos freios, que não podem ser sentidas pelos pilotos a não ser quando os freios estão bem perto de falhar completamente, o que traz implicações de segurança.

É impressionante que a Federação Internacional de Automobilismo não tenha atentado a questões tão básicas, que as equipes sequer tenham sido consultadas. Não é a primeira vez que isso acontece e o resultado é sempre o mesmo: os espectadores não têm certeza de que tipo de esporte estão assistindo.

E que ninguém pense que a polêmica termina por aí. Perguntado nesta sexta-feira em Cingapura se instruções como a que Lewis Hamilton costuma receber quando a equipe quer que ele force o ritmo – “It’s hammer time” – serão toleradas, uma vez que seria uma interferência na pilotagem, e não no carro, o diretor de provas, Charlie Whiting, titubeou: “Também pode ser entendida como uma instrução para mudar o mapeamento de motor e seria, portanto, técnica e estaria dentro das regras… teremos que estudar direito isso.”

Isso deixa claro que a FIA mexeu tanto no que pode ou não pode que está perdida. É o reflexo de um esporte que, vendo os números de audiência caírem ao redor do mundo, anda sem saber exatamente se quer ser verde, se quer ser um espetáculo ou se quer, ao menos, ser uma competição justa.

It’s hammer time

Motor Racing - Formula One World Championship - Singapore Grand Prix - Race Day - Singapore, Singapore

As restrições ao uso da comunicação via rádio durante os GPs chega em uma hora complicada para equipes e pilotos: em Cingapura, provavelmente a prova mais dura do ano devido à alta umidade e à longa duração, uma vez que a conta de 300km + 1 volta é mantida para determinar o número de voltas da corrida mesmo em um circuito relativamente de baixa média de velocidade. Assim, serão quase duas horas dentro de um caldeirão, que estressa motor, câmbio, freios e, é claro, os pilotos.

Ainda que a Fórmula 1 já não seja tão dura fisicamente quanto há dois, três anos, Cingapura continua merecendo atenção especial, pois a desidratação é grande durante a prova. E um corpo mal hidratado não responde da mesma maneira, tanto física, quanto mentalmente. São nessas condições que os pilotos terão de tomar decisões a respeito de mapas de motor, economia de combustível, equilíbrio de freio, enfim, todas as relacionadas à performance do carro.

Por outro lado, informações sobre a disputa em si, como diferenças para os outros pilotos e instruções para forçar o ritmo continuam permitida. Continuaremos ouvindo, portanto, que “it’s hammer time” para Hamilton. Confira aqui a lista completa do que pode ou não.

Ainda é cedo para saber se essas mudanças vão afetar a competição de alguma maneira. O mais provável é que todos se adaptem sem grandes dramas – e os pilotos que eram menos dependentes dos engenheiros ganhem um pouco de terreno – mas se existe uma área que preocupa são as largadas.

Fizemos um especial, em 2011 com Rubens Barrichello, sobre a volta de apresentação e o procedimento de largada. Ali fica claro como a missão é complicada, então não seria surpresa vermos algumas largadas ruins porque os mapas não foram colocados da maneira correta – ainda mais em um circuito em que há 500m entre a largada e a primeira curva. Por outro lado, Nico Hulkenberg já falou que a corrida será muito mais complicada que a largada. “Não é nenhum segredo o que fazemos na volta de apresentação”, disse o alemão.

Sim, a corrida. São 82 trocas de marcha por volta, então é uma área em que os pilotos têm que ficar atentos.  Já em relação ao combustível, não deve ser um problema, pois o uso por volta é de 1.7kg, bem abaixo dos circuitos “campeões” de consumo, como Melbourne, por exemplo, onde se gasta 2.64 kg.

Outro “alívio” é a brecha dada pela FIA para informações sobre os freios em Cingapura – a partir do GP do Japão, isso também será banido. É um circuito em que eles são muito exigidos, como descobriu Mark Webber em 2010: usa-se os freios em 22% da volta. Porém, os engenheiros só podem alertar sobre o uso, não podem indicar como os pilotos devem proceder. A partir de agora, tomar esse tipo de decisão é o trabalho dos pilotos.

Williams e Red Bull podem sofrer mais sem ajuda dos rádios

Motor Racing - Formula One Testing - Bahrain Test Two - Day 2 - Sakhir, Bahrain

No início do ano, escrevi sobre os volantes que várias equipes adotaram para esta temporada, os quais apelidei, na época, de “naves especiais”. Com o aumento do número de sistemas que seriam geridos de dentro dos carros devido ao novo regulamento, a ideia era melhorar a navegação entre as configurações para facilitar a vida dos pilotos. (Conheça mais detalhes sobre seu funcionamento aqui)

Porém, como salientei na época, não foi todo mundo que aderiu ao volante desenvolvido pela McLaren: Williams, Red Bull e Lotus preferiram continuar com os modelos mais enxutos com a premissa de que os pilotos não precisariam visualizar todas as informações, uma vez que os pedidos para novas configurações seriam dados via rádio. Então, ouvindo a instrução para colocar no modo G4, por exemplo, tanto faz ter um volante com visor de LED ou não.

Mas a história deve mudar a partir do GP de Cingapura. Digo deve porque a falta de esclarecimento por parte da FIA – que parece não ser apenas para o grande público, vide a queixa do chefe da Mercedes, Toto Wolff, no release publicado na última sexta-feira – gera uma dúvida se a diretriz que prega o uso do rádio apenas para discutir estratégia e avisar sobre questões de segurança será efetivamente respeitada. Não é novidade que as equipes da Fórmula 1 são campeãs em encontrar brechas e a FIA terá de ser clara ao determinar o que pode e o que não pode.

Caso a nova regra “pegue”, o desafio dos pilotos destas três equipes que utilizam a versão “light” do volante será maior. Ainda que a navegação seja semelhante, visualizar os dados de consumo de combustível, por exemplo, é bem mais intuitivo no novo volante.

Por mais que não veja problema algum na novidade – mais uma que valoriza os pilotos inteligentes e capazes –, é aquela história de sempre: mudar a regra no meio do jogo é um costume ruim do qual a Fórmula 1 não consegue se livrar.

Vermelho Ferrari

Motor Racing - Formula One World Championship - Italian Grand Prix - Race Day - Monza, Italy

Planejamento. Essa é a palavra-chave para o sucesso na Fórmula 1, ainda que muitos dos que ficaram pelo caminho no ramo teimassem em jogar dinheiro fora impacientemente. Porém, só é possível ter planejamento quando se tem uma boa gestão. E é atrás disso que a Ferrari corre a partir de agora.

As últimas três grandes “dinastias” da Fórmula 1 devem servir de exemplo. A mais longa, o dream team justamente da Ferrari, formado por Jean Todt no comando, Ross Brawn na chefia técnica, Rory Byrne nos projetos dos carros e Michael Schumacher ao volante, demorou 6 anos para “vingar”. E depois comandou a categoria por cinco e criou a base para os outros títulos, de 2007 e 2008. Os últimos de Maranello.

Quando Todt chegou, em 1993, não saiu contratando para mostrar serviço. Primeiro avaliou as áreas em que o time, que vivia uma seca de títulos desde 83, precisava de reforço e foi formando seu dream team aos poucos. Primeiro um grande piloto, Michael Schumacher, e depois a trupe responsável pelos carros do bicampeonato do alemão na Benetton. O projeto sobreviveu às críticas, foi evoluindo passo a passo até o título de construtores de 99. E o resto é história.

Realidade parecida viveu a Red Bull. Tida como uma equipe puramente marqueteira quando Dietrich Mateschitz comprou a Jaguar no final de 2004, contratou o então desacreditado Adrian Newey, que vinha perdendo espaço na McLaren justamente pela ascensão da Ferrari. Junto do inglês, foram chegando outros profissionais e as ferramentas da fábrica foram sendo adaptadas para uma Fórmula 1 que caminhava para limitações nos testes. Criatividade e eficiência passaram a dar resultado logo na primeira grande mudança de regulamento pela qual a Fórmula 1 passou após o surgimento da equipe, em 2009. Exatamente no momento em que surgiria uma oportunidade de nivelar o conhecimento sobre as máquinas, eles estavam prontos.

Nesse meio tempo, não foram poucos os que falharam em seguir a cartilha. A Toyota gastou rios de dinheiro sem nunca ter dito a que veio. A BMW não resistiu ao primeiro tropeço de 2009 após constantes evoluções e a Honda teria o mesmo destino da Red Bull, não tivesse reagido de forma imediatista à crise econômica de 2008. Afinal, foram os japoneses que comandaram o brilhante projeto da Brawn no ano seguinte.

Brawn, que sobreviveu ao baque de perder praticamente todo seu investimento de 2008 a 2009, para hoje ser a gigante Mercedes. Os alemães decidiram apostar na Fórmula 1 quando outras montadoras fugiram do esporte, investiram na fábrica, contrataram profissionais para áreas-chave – chegou Wolff para gerir o negócio, Lowe para comandar a área técnica e Costa para projetar o carro – e lucraram em um momento no qual a integração motor-chassi é fundamental. Isso, no quarto ano de investimento.

Se quiser voltar a qualquer coisa parecida com a era Todt, é nesses exemplos que a Ferrari tem de focar. As melhorias na fábrica estão em curso, o corpo técnico e dupla de pilotos não deixam a desejar na comparação com nenhuma das rivais. O que falta é uma gestão sólida, sem imediatismos. Há quem diga que, em se tratando de Ferrari, isso é pedir muito, mas a história recente está aí para servir de lição.

Monza deixa suas marcas

Motor Racing - Formula One World Championship - Italian Grand Prix - Race Day - Monza, Italy

Lewis Hamilton já foi campeão do mundo e chegou disputando matematicamente o título na última prova por outras duas vezes – mas nunca vencera seis corridas em uma mesma temporada, marca que alcançou no GP da Itália.

Quando avisado do feito, fez cara de espanto. Afinal, pelo desenho da disputa deste ano, crê que vem vencendo menos do que merecia. Mas seu problema não é a falta de vitórias: mais consistente em treinos e corridas (por méritos próprios e por ter tido menos problemas com o equipamento) Nico Rosberg venceu duas vezes a menos e tem 22 pontos a mais. Com 175 ainda em jogo, dá para dizer que o campeonato está aberto.

Em um grande final de semana, Hamilton fez ainda a 36ª pole position e a 17ª melhor volta, em seu quarto hat trick da carreira.

Abrindo um parênteses, quais foram os pilotos não Mercedes que conseguiam vencer, fazer uma pole ou uma volta mais rápido até aqui? Ricciardo nas vitórias, Massa nas poles, e Vettel, Raikkonen e Perez nas voltas mais rápidas. E só.

Com sua 23ª vitória na história, a Mercedes igualou a Tyrrell como o nono construtor mais vencedor na Fórmula 1. Porém, os mais atentos podem dizer que a Tyrrell do passado e a Mercedes de hoje são, tecnicamente, a mesma coisa. Afinal, foi com a compra do time de Ken Tyrrell que surgiu a British American Racing, em 1999. Sete anos depois, a BAR virou Honda, depois a Honda virou Brawn e, em 2010, a Brawn virou… Mercedes.

Os motores alemães ainda fecharam o pódio, desta vez com Felipe Massa, em sua primeira festa de champanhe sem o macacão vermelho da Ferrari justamente na terra do time italiano. Foi o 37º pódio de Massa, que amargava um jejum de 26 GPs – desde Espanha/2013. Não é seu maior: entre 2010 e 2012, ficou 35 provas sem chegar entre os 3 primeiros, entre Coreia 2010 e Japão 2012.

Enquanto um ex-piloto da Ferrari comemorava, Fernando Alonso sofria sua segunda quebra da carreira na Ferrari. Quanto tempo faz que o espanhol não via seu motor parar? Há 86GPs, em março de 2010, desde que Max Verstappen tinha 12 anos…

Abrindo caminho

Motor Racing - Formula One World Championship - Italian Grand Prix - Race Day - Monza, Italy

Uma corrida em que largar mal pareceu um bom negócio. O GP da Itália foi mais uma prova deste campeonato que poderia ter durado um pouco mais, pelo número de disputas que ainda estavam acontecendo quando foi dada a bandeirada. Mas não nas quatro primeiras posições: na Mercedes, Nico Rosberg fez o que Lewis Hamilton não fez em sua sequência de vitórias no começo do ano, errou quando esteve sob pressão, e perdeu pontos para o companheiro pela primeira vez desde a quebra no GP da Grã-Bretanha.

A dupla da Mercedes colocou impressionantes 25s em Felipe Massa, resultado que não deixa de ser frustrante em uma pista na qual a Williams esperava ter sua melhor performance do ano. Há outros circuitos que animam o brasileiro e ainda estão por vir, como Estados Unidos e Brasil, mas a realidade mostrada em Monza afasta a possibilidade de vitória em condições normais.

Os pódios, por sua vez, estão ao alcance do brasileiro. Porém, não é novidade que Massa tem um obstáculo considerável para tornar a festa de Monza em hábito: Valtteri Bottas fez outro final de semana consistente e demonstrou agressividade nas ultrapassagens para se recuperar de um início ruim, causado justamente por seu acerto mais voltado à corrida – os pneus não estavam na temperatura ideal e, com isso, a interação com a configuração escolhida para a embreagem não foi a melhor.

O finlandês fechou a primeira volta em 11º, uma posição à frente de outro destaque da prova, Daniel Ricciardo. O australiano acertou na estratégia ao retardar ao máximo sua parada e se aproveitou de sua conhecida habilidade de não desgastar muito os pneus para voar no final. Em mais uma oportunidade, o piloto da Red Bull deu uma aula de como ultrapassar sem perder tempo, marca registradas de todas as suas vitórias na Fórmula 1. As manobras em Perez e Vettel merecem entrar para o hall das melhores do ano.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Itália

 

Vettel6 a 7Ricciardo
Hamilton5 a 8Rosberg
Alonso11 a 2Raikkonen
Grosjean11 a 2Maldonado
Button6 a 7Magnussen
Hulkenberg9 a 4Perez
Sutil7 a 6Gutierrez
Vergne7 a 6Kvyat
Massa4 a 9Bottas
Kobayashi10 a 2Ericsson
Bianchi10 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Vettel x Ricciardo: 0s273

Rosberg x Hamilton: 0s274

Alonso x Raikkonen: 0s585

Maldonado x Grosjean: 0s112

Button x Magnussen: 0s065

Perez x Hulkenberg: 0s416

Sutil x Gutierrez: 0s104

Kvyat x Vergne: 0s087

Bottas x Massa: 0s168

Kobayashi x Ericsson: 0s891

Bianchi x Chilton: 0s509

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Apertou de vez

Com sete etapas para o final, sendo pelo menos três – Monza, Rússia e Brasil – bastante duras para a unidade de potência, é uma questão de tempo para que o grid comece a ficar embolado por punições. A primeira de que se tem notícia será de Sebastian Vettel, que está, literalmente, escolhendo onde vai tomar a sua pelo uso da  sexta ICE – provavelmente, em Sochi.

Outros clientes Renault, como as Toro Rosso e as Lotus, estão na mesma situação, enquanto é notável como ambos os pilotos da Mercedes estão usando exatamente da mesma forma todos os itens que compõem as unidades de potência.

A tendência é que os motores do ano que vem já sejam mais confiáveis e que a chuva de punições seja algo mais presente neste ano do que nos próximos, mas vale a pena destacar a observação de Vettel de que, como vai tomar uma punição e provavelmente aproveitar para usar a sexta unidade de todos os itens de uma só vez (largando, assim, em último) nem faz sentido participar da classificação.

As regras determinam que cada piloto utilize, ao longo da temporada, cinco unidades de cada componente. O motor foi “desmembrado” em seis itens, que são contabilizados separadamente. A partir da sexta unidade de qualquer um destes itens, o piloto perde 10 posições no grid. Caso isso ocorra com um segundo item, serão mais cinco posições e, se toda a unidade for trocada pela sexta vez, o piloto larga do pit lane.

motores

ICE = Internal combustion Engine/ Motor de combustão
TC = Turbo Charger/ Turbo
MGU-K = Motor Generator Unit – Kinetic/ Gerador a partir de energia cinética
MGU-H = Motor Generator Unit – Heat / Gerador a partir de energia calorífica
ES = Energy Store / Armazenamento de energia
CE = Control Electronics / Central de controle eletrônico

Parece simples, mas não é

Motor Racing - Formula One World Championship - Italian Grand Prix - Preparation Day - Monza, Italy

O GP da Itália será palco de mais um capítulo da cada vez mais quente batalha entre Nico Rosberg e Lewis Hamilton, mas também será um jogo de xadrez para as equipes em termos de acerto. É fato que todos terão de usar configurações de baixa pressão aerodinâmica para não perder terreno nas retas – ainda mais neste ano, em que os carros estão ainda mais “soltos” devido ao regulamento – mas o quanto vale a pena sacrificar nas freadas?

Afinal, um carro com pouco arrasto também é um carro mais difícil de controlar e, ainda que Monza só tenha seis freadas, contornar as chicanes e as três curvas “de verdade”, Biassono, Lesmo e Parabolica com estabilidade é fundamental tanto para ter um bom tempo de volta, quanto para manter-se à frente de seus adversários na corrida.

Mas vencer em Monza não depende apenas do acerto. Parte pelo pit lane longo, parte pela ausência de curvas de baixa velocidade, a estratégia tem uma importância fundamental: ganha quem conseguir parar menos vezes sem, é claro, ter de diminuir demais o ritmo para poupar pneu.

Como a Pirelli traz a Monza seus compostos mais resistentes da escala – médio e duro – é muito provável que todos façam uma parada em situação normal. Porém, podem haver diferentes ideias em relação ao pneu com que se larga (abrindo a possibilidade para quem estiver nas primeiras posições fora do top 10) e o momento correto para parar. É possível que um piloto acabe antecipando sua parada para vencer alguma batalha pontuar com um undercut e sofra para se segurar no final.

Esta será uma decisão difícil para os estrategistas porque, tradicionalmente, é difícil ultrapassar em Monza e, como os carros já estarão usando acertos de baixa pressão aerodinâmica e asas bastante pequenas, o efeito do DRS não é tão grande. Portanto, caso não haja uma diferença considerável de motor, por exemplo, o jeito será correr o risco de passar por meio da tática.

Falando em DRS, como ele diminui ainda mais a pressão aerodinâmica, corre-se um risco incomum nesta temporada: ver carros batendo no limitador de giros. Como a partir deste ano a relação de marchas é fixa, os engenheiros tiveram de trabalhar mais longe do limite em comparação com temporadas anteriores. Porém, quem tiver uma relação mais curta, favorecendo as retomadas de velocidade, pode sofrer mesmo usando a oitava marcha em Monza e virar alvo fácil no final das retas. Vale lembrar que a adoção de uma nova relação de marchas pela Red Bull (é permitida uma troca por ano) foi um dos fatores que permitiu a vitória de Daniel Ricciardo em um circuito no qual, no papel, um bom rendimento do RB10 seria improvável.

Palavras

Motor Racing - Formula One World Championship - Belgian Grand Prix - Qualifying Day - Spa Francorchamps, Belgium

“Medidas disciplináveis cabíveis”, “erro de julgamento”. É quase palpável o cuidado da Mercedes na escolha das palavras para tentar colocar panos quentes na bomba que estourou poucas horas depois do GP da Bélgica, quando Hamilton foi bem menos cuidadoso e lançou seu já famoso “ele disse que bateu de propósito, basicamente”.

O inglês o fez com naturalidade, diga-se de passagem, como quem quisesse desabafar. Foi perguntado sobre outro assunto, começou a responder, respirou fundo e preferiu relatar o que ouvira poucos minutos antes – ou o que interpretara do que havia sido dito, talvez nunca saibamos.

Mas se Rosberg bateu de propósito, ou não evitou a colisão para demarcar território na disputa com um piloto que não costuma aliviar, pouco importa diante do fato de que o que havia de confiança entre os dois foi quebrado e o campeonato simplesmente não será mais o mesmo.

Dentro isso, a Mercedes deu um forte sinal de comprometimento com os ideais que vem propagandeando desde que ficou claro que teria o carro a ser batido ao não poupar a atitude de Rosberg logo de cara. Convenhamos: não é comum ouvir do chefe de qualquer equipe que a atitude de seu piloto foi “inaceitável” tão logo é dada a bandeirada. Que os partidários das “cartas marcadas para prejudicar Hamilton” lembrem-se disso.

É fato que Rosberg tem sua força política dentro da equipe, muito ligada à direção da Mercedes-Benz na Alemanha, como também o desenrolar da polêmica de Spa deixou claro que Hamilton não está sozinho e tem como seu principal defensor justamente quem jogou muito alto para trazê-lo da McLaren, o ex-desafeto Niki Lauda.

Nestas sete provas restantes, será muito interessante ver como esse jogo político – além da disputa na pista – vai se desenrolar. Ficou claro pela postura da chefia que o problema não foi exatamente o contato – ainda que não seja o ideal, é algo que pode acontecer –, mas sim o momento em que ele ocorreu, logo na segunda volta da prova. “Não queremos parecer idiotas”, salientou Toto Wolff. Na Bélgica, não foi bem assim.

A disputa, portanto, continua aberta, uma vez que seria igualmente “idiota” midiaticamente para a Mercedes congelar a única luta provável pelo campeonato com meio campeonato por cumprir. Seria como tirar o interesse justamente do campeonato em um momento no qual os alemães, depois de muito tempo e investimento, são protagonistas. Seria como dizer “somos iguais à Ferrari, mas com menos anos de glória”. E, pelo menos com as palavras, os alemães têm mostrado que sabem jogar.

Ricciardo é o piloto que mais pontuou desde o GP de Mônaco

Motor Racing - Formula One World Championship - Belgian Grand Prix - Race Day - Spa Francorchamps, Belgium

Era de certa forma uma marca anunciada, mas o GP da Bélgica comprovou que a nova geração de carros da Fórmula 1 anda mais nas retas do que seus antecessores, mesmo que as novas unidades de potência ainda tenham muito chão para evoluir.

Como produzem menos pressão aerodinâmica e, assim, são mais lentos nas curvas, os novos carros vinham perdendo em termos de tempo de volta em relação a 2013 em todos os circuitos, até chegar a um templo da velocidade: A melhor volta da prova, de Nico Rosberg, foi cerca de dois décimos mais rápida do que de Sebastian Vettel ano passado.

Para efeito de comparação, a diferença entre as voltas mais rápidas de 2013 e 2014 na etapa anterior, no travado circuito da Hungria, ficara acima de 1s7.

O GP da Bélgica premiou um dos grandes nomes do ano, ao lado de Valtteri Bottas: Daniel Ricciardo. De Mônaco até aqui – coincidentemente ou não, desde que as tensões internas da Mercedes explodiram publicamente pela primeira vez – o australiano é o piloto que mais pontuou: foram 102 pontos, contra 98 de Nico Rosberg, 76 de Bottas e 73 de Lewis Hamilton. Outro dado interessante é que o piloto da Red Bull venceu 25% das corridas da temporada até aqui mesmo só tendo liderado 9,6% das voltas.

Em Spa, conquistou a 50ª vitória para a Red Bull que, mesmo vivendo um ano bem abaixo dos anteriores, mantém uma média perto dos 50% de vitórias desde a primeira conquista do time, no GP da China de 2009, há 103 GPs. Muitas delas foram de Sebastian Vettel, mas o alemão, ao contrário do atual companheiro, nunca conseguiu vencer largando de fora do top 3. No caso de Ricciardo, todos os triunfos vieram assim.

Na Bélgica, Ricciardo contou com a companhia de Bottas e Rosberg no pódio. Isso significa que foi a primeira vez que nenhum dos três primeiros é o campeão do mundo desde o GP de Mônaco de 2010, que contou com Mark Webber, Robert Kubica e Sebastian Vettel fazendo a festa do champanhe.

Estreia, pero no mucho

A comparação pode soar absurda à primeira vista, mas o último alemão a estrear na Fórmula 1 no GP da Bélgica foi Michael Schumacher, em 1991. A coincidência para por aí? De jeito algum: Schumi e Lotterer pilotavam um carro verde; conseguiram superar com boa margem seus companheiros em classificação e saíram da corrida logo no início. No caso do homem que viria a ser heptacampeão mundial, o GP acabou antes mesmo da Eau Rouge devido a um problema de embreagem; para o campeão de Le Mans, durou pouco mais de uma volta.

Porém, ao contrário de Schumacher, que teve mais 18 temporadas completas pela frente, é possível que os 14km de GP sejam os únicos da carreira de Lotterer na categoria. Ainda assim, não seria o piloto com menor quilometragem na história: nove conseguiram a proeza de terem carreiras ainda mais curtas, sendo o mais azarado Marco Appicella, que andou apenas 350m, no GP da Itália, em 1993. Outra marca do alemão é ser o estreante mais velho, com 32 anos e 287 dias, desde Giovanni Lavaggi, que fez sua primeira prova aos 37 anos e 191 dias em 1995.

Sujou o ventilador

Motor Racing - Formula One World Championship - Belgian Grand Prix - Race Day - Spa Francorchamps, Belgium

Quando Toto Wolff sentou na bancada do motorhome da Mercedes para sua entrevista coletiva pós-prova, cercado pelos jornalistas, questionou se poderia fazer a primeira pergunta: “O que o Niki disse? Porque precisamos ficar alinhados.” Mas já era tarde mais: Nico Rosberg já tinha decidido fazer justiça com as próprias mãos – ou a própria asa dianteira – passando por cima do comando da equipe e abrindo um precedente perigoso.

Na entrevista, Wolff deixou claro que a Mercedes estava insatisfeita com o fato de Rosberg ter jogado fora uma provável dobradinha ao tentar uma ultrapassagem em um local perigoso e ainda na segunda volta. O austríaco falava antes da reunião em que o alemão admitiria que não fez esforço para evitar a batida, pois estava infeliz com a maneira como a direção estava agindo quando era Hamilton quem endurecia as batalhas ou desrespeitava ordens.

Segundo Hamilton, Rosberg disse “que fez de propósito, que poderia ter evitado. Ele disse que fez para ‘deixar claro meu ponto de vista’.” Convenhamos: alguém inteligente como Rosberg só faria e admitiria algo do tipo se sentisse que tem um forte respaldo do próprio time para tal, impressão comprovada pela linguagem corporal do piloto nas entrevistas após a prova. E, levando em consideração a maneira como Wolff e Niki Lauda não hesitaram em criticá-lo publicamente assim que a prova acabou, esse respaldo deve vir mais de cima.

Outro ponto importante é o lado da interpretação de Hamilton. De acordo com Wolff, seus pilotos “concordaram em discordar”, após uma discussão acalorada. Rosberg achava que Hamilton deveria ter deixado mais espaço, Hamilton achava que, por estar na frente, não tinha essa obrigação. E, depois de ter evitado a batida em outras oportunidades, desta vez Nico teria feito diferente. Existe uma diferença entre essa descrição e o “bateu de propósito” a que Hamilton se referiu. Portanto, está claro que a discussão não acaba aqui.

O fato é que, desde a quinta-feira, a dupla da Mercedes não falava a mesma língua. A tensão era quase palpável. Enquanto Rosberg destacava a importância da reunião que foi feita para acertar os detalhes da relação dos dois após o GP da Hungria, Hamilton desdenhava. Aparentemente, a falta de reação da cúpula após Lewis não ouvir uma ordem de equipe e, depois, jogar duro na batalha com Nico no final, foi a gota d’água para o alemão, que decidiu que, da próxima vez, não aliviaria. E a próxima vez chegou em Spa.

É difícil saber o que vai acontecer a partir de agora. Wolff fala em ações mais enérgicas, mas não sabe dizer o que faria. Hamilton, por outro lado, diz só esperar “um tapinha na mão”. A equipe poderia tentar controlar a briga usando ordens de equipe, mas quem respeitaria? Se no início do ano as referências à briga entre Senna e Prost em 88 e 89 pareciam exageradas, é melhor revermos os conceitos.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Bélgica

 

Vettel5 a 7Ricciardo
Hamilton4 a 8Rosberg
Alonso10 a 2Raikkonen
Grosjean11 a 1Maldonado
Button6 a 6Magnussen
Hulkenberg9 a 3Perez
Sutil6 a 6Gutierrez
Vergne7 a 5Kvyat
Massa4 a 8Bottas
Lotterer1 a 0Ericsson
Bianchi9 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Vettel x Ricciardo: 0s194

Rosberg x Hamilton: 0s228

Alonso x Raikkonen: 0s994

Grosjean x Maldonado: 0s183

Button x Magnussen: 1s097

Perez x Hulkenberg: 0s601

Sutil x Gutierrez: 2s363

Kvyat x Vergne: 0s428

Bottas x Massa: 1s129

Lotterer x Ericsson: 0s969

Bianchi x Chilton: 1s515

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

A prévia

Motor Racing - Formula One World Championship - Belgian Grand Prix - Practice Day - Spa Francorchamps, Belgium

Longas retas e curvas de alta velocidade. Essa combinação do circuito de Spa-Francorchamps dá confiança para a equipe Williams de que este final de semana pode ser um dos melhores do ano para o time. Mas isso depende diretamente de como os rivais irão acertar seus carros.

Em uma pista em que se fica com o pé no acelerador por 67% da volta, média considerada alta, e na qual usa-se normalmente uma configuração de baixa pressão aerodinâmica, justamente para aumentar a velocidade nas retas, o carro da Williams pode “mascarar” suas deficiências.

Porém, nos últimos anos, a Red Bull conseguiu andar bem em Spa mesmo sem ser um carro rápido nas retas, uma vez que apostava em ganhar tempo no segundo setor, com curvas de alta velocidade.

“Spa é uma pista que tem alguns pontos que podem ajudar o nosso carro”, observou Felipe Massa. “Obviamente, iremos sofrer em algumas partes, como no setor 2, mas é uma pista positiva, não só Spa, como Monza. Espero conseguir bons resultados e acredito que sejam as melhores do campeonato para a gente.”

Massa refere-se à próxima etapa do campeonato, na Itália, que será disputada em um circuito ainda com mais retas do que na Bélgica. Em Spa, é provável que a vantagem da Mercedes seja maior, uma vez que o carro, mais eficiente aerodinamicamente e, ainda por cima, com o mesmo motor da Williams, pode tirar bastante asa e ainda assim ser bem estável no segundo setor. “Acho que será muito difícil chegar nas Mercedes. Eles têm um carro ótimo no motor e na aerodinâmica, mas temos que acreditar que alguma coisa pode acontecer, se conseguirmos o segundo carro mais rápido seria um ótimo resultado”, disse Massa.

Mas Lewis Hamilton, por outro lado, apontou que a Williams pode, sim, incomodar. Como o FW36 naturalmente produz menos carga aerodinâmica, caso todos optem por usar asas menores e favorecer a velocidade de reta, o carro de Massa e Valtteri Bottas se adaptará melhor. “Até agora a mídia tem sugerido que a Williams estará próxima e que Spa poderá ser sua melhor chance. Não sei se eles vão tirar pressão aerodinâmica nessa corrida – eu sei que nós iremos, assim como outras equipes que estarão lutando pela vitória. Talvez esse nível de pressão aerodinâmica mais baixo seja favorável para eles. Não sei o que vai acontecer.”

Dependendo do cenário, veremos o quão boas serão as chances da Williams onde o time deve ter, de fato, sua melhor chance no ano, em Monza.

Mad Max?

max-verstappen

Novo demais para beber champanhe no pódio. Novo demais para dirigir de volta para o hotel após uma prova. Mas, para o mesmo homem que tem entre seus protegidos Sebastian Vettel, Daniel Ricciardo e Daniil Kvyat, Max Verstappen está pronto para a Fórmula 1, não apenas com 17 anos (que vai completar em setembro), como também com só um ano de experiência em monopostos.

Os ingleses dizem que, se você é bom o bastante, então também é velho o bastante. Mas é inegável que o salto de Verstappen é gigante e sem precedentes. O holandês vai pular de um carro com 240 cavalos para outro de 720, e terá de se preparar para corridas cerca de três vezes mais longas do que está acostumado – o limite da Fórmula 3 é de 100km ou 35min, enquanto da Fórmula 1 é de 300 + uma volta ou 2h. Isso sem contar nos complicados sistemas que terá de gerir.

Para se preparar para tanto, Verstappen provavelmente passará muitas horas no simulador, participará de algumas sessões de testes privados e treinos livres, ainda que não tenha ficado claro qual o plano da Red Bull para lhe dar os 300km com supervisão da FIA necessários para adquirir a super licença.

O cenário, em teoria, não é dos mais favoráveis. Porém, a justificativa de Marko para a escolha de Verstappen – além das qualidades óbvias do piloto – é a rápida adaptação de outra aposta que lhe rendeu críticas: Daniil Kvyat. Porém, apesar de ser bastante jovem, o russo chegou com um currículo mais de três vezes maior do que o holandês terá ao final do ano.

Por outro lado, o atual grid da Fórmula 1 tem alguns exemplos interessantes. Jenson Button fez um ano de Fórmula Ford (e foi campeão) e um ano de Fórmula 3 Inglesa (melhor estreante) antes de estrear na Williams. Kimi Raikkonen tinha feito 23 corridas em monopostos (e de Fórmula Renault!) antes de estrear na F-1 – e com super licença provisória. Ambos viraram campeões do mundo mesmo tendo queimado algumas etapas.

Outro fator importante a observar é que a própria escolha de Verstappen de começar nos monopostos com a F-3 já foi ousada, e vem pagando dividendos para o atual vice-líder do campeonato.

É um grande desafio, sem dúvida. Mas não é impossível que Verstappen alinhe no GP da Áustrália em um bom nível. E, quando se trata de uma decisão tomada pelo mesmo homem que “descobriu” o atual tetracampeão, a atual sensação e o atual melhor estreante da Fórmula 1, é melhor ao menos dar o benefício da dúvida para o adolescente.

O que mudou de verdade em 2014

Motor Racing - Formula One World Championship - Chinese Grand Prix - Practice Day - Shanghai, China

Passada metade da temporada que prometia revolucionar a Fórmula 1, dá para ver que muita coisa realmente mudou na forma como as corridas são pensadas pelos engenheiros, mas isso não fica muito claro para quem está assistindo pela TV. Por um lado, isso é positivo, pois havia o temor de que as corridas ficariam complicadas demais. Por outro, vemos a categoria investindo pesado e perdendo uma oportunidade de se promover de maneira distinta.

Pensando no que mudou, foi publicado no site oficial da Fórmula 1 uma avaliação do engenheiro Gary Anderson destes 8 primeiros meses convivendo com as novas tecnologias. O texto é longo, então trago para vocês algumas das partes principais.

Chassi e aerodinâmica: dá para perceber que os engenheiros ficaram um tanto travados na primeira parte da temporada, tamanha a restrição das regras em relação ao downforce. Prova disso é que os carros não mudaram tanto quanto o normal até aqui.

Mas houve mudanças menos visíveis. Ainda que o que mais chame a atenção nos carros deste ano seja o bico – e é interessante como continuamos tendo várias interpretações (umas feias, outras horripilantes, é verdade) – , a grande fonte de ganhos aerodinâmicos é o assoalho, que perdeu o “apoio” da beam wing, uma pequena asa que ajudava a dar consistência ao downforce gerado na parte traseira e que foi proibida.

Unidade de potência: o mais importante em termos de performance em 2014 é, como o esperado, a nova unidade de potência. O pacote é tão complexo que é difícil apontar um motivo pelo qual a Mercedes tem vantagem. Sabe-se que os alemães decidiram dividir os lados quente e frio do turbo e posicionou o MGU-H entre os dois, o que é melhor em termos de espaço, administração do calor e uso da energia elétrica. A Ferrari, por sua vez, decidiu montar o intercooler no V do motor.

O fato é que é bom as equipes que usam motor Mercedes aproveitarem a “farra”, pois a tendência é que os rivais aprendam com os erros e o nível dos motores seja parecido ano que vem. Apenas 8% do desenvolvimento do motor – cinco itens – está congelado, o resto pode mudar para a próxima temporada.

A proibição do FRIC: Como se não bastassem as restrições ao downforce, a FIA decidiu que os engenheiros tinham ido longe demais com o FRIC, sistema que conecta as suspensões dianteira e traseira, dando estabilidade, permitindo o uso de suspensões mais macias e que o carro ande mais grudado no solo. O resultado da proibição é a série de fritadas de pneu que temos visto, pois as suspensões estão mais duras.

Daqui pra frente: a maior parte do desenvolvimento deve ser na integração entre o motor em si e os sistemas de energia e um grande fator pode ser as prováveis penalizações que os pilotos sofrerão devido ao acúmulo de quebras das partes que compõem a unidade de potência (veja como funciona aqui).

Quem é quem: Anderson fez uma média das voltas mais rápidas de cada piloto a fim de estabelecer a ordem dos conjuntos nessa primeira metade do campeonato. O 100% representaria o conjunto perfeito. O resultado é interessante:

1. Mercedes (Rosberg) – 100.102

2. Mercedes (Hamilton) – 100.495

3. Red Bull (Ricciardo) – 100.958

4. Ferrari (Alonso) – 101.145

5. Red Bull (Vettel) – 101.196

6. Williams (Bottas) – 101.285

7. Williams (Massa) – 101.440

8. Ferrari (Raikkonen) – 101.728

9. McLaren (Button) – 101.783

10. McLaren (Magnussen) – 101.812

11. Force India (Hulkenberg) – 102.040

12. Toro Rosso (Vergne) – 102.122

13. Toro Rosso (Kyvat) – 102.251

14. Force India (Perez) – 102.275

15. Lotus (Grosjean) – 102.847

16. Sauber (Sutil) – 103.130

17. Sauber (Gutierrez) – 103.181

18. Lotus (Maldonado) – 103.524

19. Marussia (Bianchi) – 104.448

20. Marussia (Chilton) – 105.103

21. Caterham (Kobayashi) – 105.353

22. Caterham (Ericsson) – 106.038

Duelos internos: as surpresas

Motor Racing - Formula One World Championship - Chinese Grand Prix - Race Day - Shanghai, China

Dia desses, ouvi de um engenheiro que trabalhou com Alonso e Raikkonen no passado que a lavada que o finlandês está levando não surpreende em nada. Não que o campeão de 2007 não seja um grande piloto – em talento puro, não deve aos grandes da história da categoria – mas esse atual conjunto de regras demanda algo mais. Algo que Alonso tem de sobra: inteligência.

A teoria faz todo sentido. Raikkonen andou bem na época da Lotus mesmo tendo de economizar pneu e fazer provas com a cabeça? Claro, mas o carro da Lotus talvez fosse melhor do que muita gente poderia imaginar.

Na Ferrari, Raikkonen (re)encontrou uma série de obstáculos. Os próprios engenheiros da Ferrari reconhecem que o carro é imprevisível, a entrega de potência da unidade de potência é irregular, e isso não parece se encaixar com o estilo instintivo do finlandês. Kimi é reconhecidamente um piloto muito rápido, mas precisa do carro a seu gosto para tanto. Trabalhar para chegar lá não é o seu forte, dizem os engenheiros.

É o contrário de Alonso. O espanhol talvez não seja tão nerd quanto Vettel, mas é sedento por informações e sempre parece ter o controle das situações, como podemos observar claramente nas corridas. Para se ter uma ideia, mantém uma espécie de diário com anotações sobre acerto e soluções que experimentou a cada final de semana. E lá se vão 13 temporadas de informações.

FERRARI

Kimi RaikkonenFernando Alonso
Pontos

27

115

Placar em classificação

2

9

Diferença média em classificação

+0.695s

Placar em corrida

0

10

Voltas na frente

93

549

Outras duas equipes vêm tendo resultados difíceis de prever. Talvez por ter escolhido o número 13, vai saber, Maldonado tem tido muito azar em termos de confiabilidade em sua Lotus. Quando não é na classificação ou na corrida em si, é nos treinos livres e compromete sua preparação.

Mesmo tendo isso em vista, os 10 a 1 que está levando em classificação de Grosjean surpreendem, até porque os sábados sempre foram o ponto mais forte do venezuelano. Mas é uma daquelas situações em que seria injusto dizer que Maldonado é muito pior que Grosjean: o fato do placar de corridas terminadas parar no 4 (ou seja, apenas em quatro oportunidades os dois completaram um mesmo GP) dá a medida da dificuldade de uma temporada em que a Lotus luta contra o êxodo de profissionais devido à falta de pagamento e uma unidade de potência problemática.

LOTUS

Pastor MaldonadoRomain Grosjean
Pontos

0

8

Placar em classificação

1

10

Diferença média em classificação

+1.251s

Placar em corrida

1

3

Voltas na frente

159

203

Quem também tem tido um ano para esquecer é a Sauber. As contas parecem mais equilibradas que há um ano, mas o aperto por que o time passou em 2013 ainda ecoa em termos de performance. O carro é uma “pequena Diva”, como definiu Adrian Sutil. E parece que o alemão não tem muito dom para lidar com “frescura”: está levando 6 a 5 em classificação de Gutierrez, um piloto cuja habilidade é questionável. A deficiência do mexicano, contudo, aparece nas corridas, nas quais a constância de Sutil se sobressai. No final das contas, tem sido um duelo mais equilibrado do que era de se esperar.

SAUBER

Adrian SutilEsteban Gutierrez
Pontos

0

0

Placar em classificação

5

6

Diferença média em classificação

-0.176s

Placar em corrida

3

1

Voltas na frente

269

150

Duelos internos: equilíbrio

Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, Austria

Um duelo parelho, com pilotos de características distintas – dentro e fora das pistas – e muito dependente do momento. A balança deve continuar pendendo, ora para o lado de Nico Rosberg, ora para o de Lewis Hamilton, pelo restante da temporada. E, como parece muito improvável que alguém abra 51 pontos antes de Abu Dhabi, chegar por cima na última prova do ano será decisivo.

Quebras à parte, é curioso observar a dinâmica do campeonato de Hamilton, que sempre foi conhecido como um piloto muito forte em classificação, mas não tão constante. Hoje, é seu ritmo de corrida que impressiona, especialmente quando tem de dosar uma prova de recuperação com a administração dos sistemas do carro.

Por outro lado, a vantagem de Rosberg é sempre crescer ao longo do final de semana. E isso se deve à aplicação do piloto junto aos engenheiros. Virou padrão ver Hamilton ter muita vantagem logo de cara, devido a seu talento natural, e o alemão conseguir, já na classificação, equilibrar as ações. Isso é uma pressão extra que Lewis terá de controlar para chegar ao bi. Com 11 provas disputadas, é uma grata notícia que o campeonato de uma equipe só esteja totalmente aberto.

MERCEDES

Nico RosbergLewis Hamilton
Pontos

202

191

Placar em classificação

7

4

Diferença média em classificação

-0.262s

Placar em corrida

3

5

Voltas na frente

319

275

FORCE INDIA

Nico Hulkenberg foi, de certa forma, forçado a ser um piloto de boa adaptação. Afinal, é um verdadeiro nômade, tendo passado por Williams, Sauber e voltado para a Force India após um ano longe do time. E essa se tornou sua grande e invejável qualidade, pois responde bem a diferentes situações, mantendo-se sempre no top 10 com um carro que está na margem, ora sendo a quarta força, ora sexta.

Seu trabalho é coroado de certa forma pela inconstância de Sergio Perez, um piloto muito rápido e agressivo, mas que tem sua carreira marcada pelos altos e baixos. Por isso, é dele o único pódio da Force India no ano, ainda que esta tenha sido apenas uma das três oportunidades em que superou o companheiro em GPs.

Nico HulkenbergSergio Perez
Pontos

69

29

Placar em classificação

9

2

Diferença média em classificação

-0.872s

Placar em corrida

5

3

Voltas na frente

319

185

A Fórmula 1 sempre teve em seu grid aqueles pilotos que você custa para entender por que chegaram tão longe. Na verdade, é simples, eles são lucrativos, mas não deixa de ser um desperdício ter um Max Chilton e um Marcus Ericsson ocupando vagas de jovens mais talentosos. Principalmente Ericsson, que, além de ser lento, já atrapalhou muita gente em 11 GPs.

A diferença técnica é tanta que acaba relaxando seus companheiros de maneira perigosa. Ainda mais nesta temporada, em que os pilotos de Marussia e Caterham sequer estão se encontrando com tanta frequência na pista.

MARUSSIA

Jules BianchiMax Chilton
Pontos

2

0

Placar em classificação

8

3

Diferença média em classificação

-0.607s

Placar em corrida

7

1

Voltas na frente

423

134

CATERHAM

Kamui KobayashiMarcus Ericsson
Pontos

0

0

Placar em classificação

9

2

Diferença média em classificação

-0.749s

Placar em corrida

4

1

Voltas na frente

341

66

 

Duelos internos: molecada que dá trabalho

Motor Racing - Formula One World Championship - Australian Grand Prix - Qualifying Day - Melbourne, Australia

Em um post anterior, comentei sobre as brigas internas de Williams e Red Bull, destacando como Daniel Ricciardo e Valtteri Bottas, ainda que menos experientes, estão dando trabalho a seus companheiros. Adaptabilidade, constância e inteligência são marcas registradas de ambos – e habilidades fundamentais para lidar bem com o atual regulamento.

O australiano e o finlandês são os destaques, mas não os únicos jovens que estão usando um momento diferente da Fórmula 1 para mostrar serviço. Teoricamente, como o conjunto de regras que estreou neste ano é uma novidade para todos, a experiência de anos anteriores acaba contando menos.

No caso de Kevin Magnussen, isso acontece mais em classificação do que em corrida, justamente uma especialidade de seu companheiro, Jenson Button. Com isso, apesar de ser mais rápido aos sábados, o dinamarquês peca em algumas avaliações em ultrapassagens e de quando forçar ou não durante a prova. Assim, uma marca de sua campanha de estreia até aqui é chegar sempre em posições piores do que largou quando saiu do top 10.

O campeão da World Series ano passado deu um grande salto neste ano e era esperado que tivesse alguma dificuldade – as comparações com Hamilton, que estreou em uma F-1 muito mais pé embaixo e depois de passar também pela GP2, nunca foram muito justas. Mas está claro que o dinamarquês precisa melhorar se quiser despontar como um futuro campeão.

MCLAREN

Kevin MagnussenJenson Button
Pontos

37

60

Placar em classificação

5

6

Diferença média em classificação

-0.234s

Placar em corrida

2

8

Voltas na frente

198

478

 

O novato que realmente está impressionando é o mais jovem deles, Daniil Kvyat. O russo de 20 anos se destaca naqueles momentos em que a pista está mais complicada, relevando seu talento natural. Mas também tem constância e raramente se envolve em acidentes.

Na verdade, todos os seus quatro abandonos foram por falhas mecânicas, algo que vem atrapalhando decisivamente os resultados da Toro Rosso, que teve outros 4 problemas em GPs com Jean-Eric Vergne. A grande maioria relacionada ao motor Renault, com o qual o time trabalha desde o início desta temporada.

TORO ROSSO

Daniil KvyatJean-Eric Vergne
Pontos

6

11

Placar em classificação

4

7

Diferença média em classificação

+0.215s

Placar em corrida

2

2

Voltas na frente

193

222

Mais uma aberração

Motor Racing - Formula One World Championship - Hungarian Grand Prix - Race Day - Budapest, Hungary

O plano estaria convalescendo por não agradar a Bernie Ecclestone, mas a adoção de relargadas com os carros alinhados no grid ainda precisa de votação entre as equipes para ser jogada no lixo. Mais uma regra que não agrega nada esportivamente e levaria a Fórmula 1 um passo mais perto da loteria. Ou seja, mais um exemplo de como a categoria vem criando problemas onde não é necessário mexer.

 

O GP da Hungria deixou claro para todos como esse tipo de “relargada parado”, emprestando a expressão usada em inglês, pode ser perigosa. Imaginem vocês como seria largar com pneus slick, frios, em uma pista que ainda não havia secado completamente? É no mínimo um despropósito para uma categoria que às vezes beira a chatice tamanha a neura em busca da segurança – como vemos nas duríssimas penas por unsafe release nos boxes.

Os pilotos – que, como sempre, não foram consultados – explicam que o grande problema é que não é possível determinar quando será o Safety Car. Ou seja, caso a regra não permita troca de pneus, é possível que a relargada seja feita com compostos desgastados. E, quanto menos borracha um pneu tem, menos temperatura ele consegue manter e, consequentemente, menor a aderência.

E há também a questão do custo. Sim, até uma segunda largada gera mais custo na Fórmula 1, pois seria necessário melhorar todo o sistema de largada, principalmente em relação à unidade de potência. Mais um investimento que pesa no bolso e não leva a muita coisa. “Seria um desafio para os engenheiros e encontraríamos uma solução. Mas é um desafio técnico bom para a Fórmula 1? Provavelmente não”, admitiu Rob Smedley.

Questionável em termos esportivos e técnicos, a relargada com os carros parados deve entrar no hall de ideias furadas. Porém, enquanto perde-se tempo com esse tipo de proposta que nada agrega, questões fundamentais, como a queda de audiência – muito mais ligada à forma obsoleta como o produto é vendido do que sua qualidade em si – e um modelo de gestão insustentável, vão matando a Fórmula 1 aos poucos.

Quem errou e quem acertou nas estratégias do GP mais imprevisível do ano

Motor Racing - Formula One World Championship - Hungarian Grand Prix - Preparation Day - Budapest, Hungary

A pancada de chuva não chegou a 5 minutos, mas mudou a história do GP da Hungria. Podendo usar ambos compostos de maneira livre, pois o fato dos pilotos terem largado com pneus intermediários tirou a obrigatoriedade de usar médios e macios, os estrategistas tiveram um leque maior de opções, ainda que as informações as quais dispunham não eram uma plataforma tão clara, pois as simulações tinham sido feitas com o asfalto bem mais quente.

O erro da Mercedes

Um misto de ultrapassagem e a primeira parada feita logo na primeira oportunidade no SC levaram Lewis Hamilton do fundo do pelotão para a cola de Nico Rosberg, que teve azar quando Marcus Ericsson bateu sozinho na volta 7.

A partir de então, a Mercedes dividiu as estratégias de uma forma um tanto estranha observando-se ao final da prova. Afinal, se Hamilton fez um segundo stint (mais carregado de combustível) de 31 voltas com o pneu macio, por que a equipe decidiu colocá-lo com pneus médios para mais 31 até o final da prova, enquanto Rosberg fazia três stints com o composto mais rápido?

A única explicação para o uso dos pneus médios no caso do Hamilton é sua luta com Alonso. Sua segunda parada aconteceu na volta 39 justamente para marcar o espanhol, que havia colocado pneus macios. Era provável que Alonso ficasse, no mínimo, sem pneus no final (e muito mais possível naquele momento que o bicampeão fizesse mais uma parada) e, assim, Lewis se aproveitaria. Talvez em um circuito com mais retas a Mercedes se preocuparia menos com a Ferrari, mas a dificuldade de ultrapassagem em Hungaroring deve ter sido um fator.

Falando em Ferrari, o próprio Alonso admitiu que eles não sabiam se fariam as 32 voltas no pneu macio – que já havia sido usado na classificação. A decisão foi tomada mais na base do risco, em um ano no qual o time italiano não tem muito a perder. E deu certo.

Raikkonen também fez um stint impressionante de 33 voltas no pneu macio no meio da prova, o que foi fundamental para o finlandês escalar o pelotão após um erro da equipe deixá-lo de fora ainda no Q1 na classificação.

Conservadorismo na Williams

Quem acompanha as análises de estratégias por aqui já não se surpreende com as decisões conservadoras da Williams – e, em um dia cheio de incertezas, não seria diferente. O time está lidando com uma realidade muito diferente dos últimos anos, precisa garantir pontos, então de certa forma é um comportamento compreensível.

Em Budapeste, eles tinham um problema considerável: Massa não fez a simulação de corrida na sexta-feira por problemas em seu carro. Então eles tinham 50% menos dados que os rivais. Para piorar, Bottas havia saído com pneus macios em sua simulação, mas não gostou nada no rendimento do carro e trocou pelos médios.

Isso explica a “teimosia” da equipe com o composto que se mostrou mais lento e tão duradouro quanto o macio no decorrer da prova. O fato de, no meio da corrida, enquanto alguns dos rivais ultrapassavam 30 voltas com o macio, seus pilotos terem feito apenas 14 (Bottas) e 15 (Massa) giros com o mesmo composto também minou a confiança da equipe.

Porém, a estratégia vencedora acabou sendo a de Ricciardo, com três jogos de pneus macios. Apesar de Niki Lauda ter destacado a sorte do australiano no primeiro SC, o que de fato aconteceu (tanto por seu posicionamento quando o SC foi acionado, quanto pela decisão equivocadíssima da McLaren de manter os pneus intermediários), isso não conta toda a história. Foi no brilhante stint de 31 voltas com pneu macio que o australiano abriu os 13s que lhe dariam a possibilidade de parar com 16 voltas para o fim, retornar 9s atrás do então líder Alonso e ter pneu para atacar o espanhol e Hamilton nos últimos giros, o que o fez de forma cirúrgica.

 

Menos confetes, mais títulos

alonso

Fernando Alonso completa mais um ano de vida hoje, seu 33º, vangloriado por mais uma série de elogios vindos de gente do paddock, de jornalistas, esportistas de outras modalidades e fãs após outra performance irretocável no GP da Hungria. Mas colecionar comentários positivos, por mais que sejam orgulhosamente exibidos em sua conta do twitter, não dá ao piloto pontos no campeonato ou lhe garante títulos. E ninguém sabe disso mais do que o próprio espanhol.

É impressionante a capacidade de Alonso de andar bem sob as mais variadas condições. Houve poucos momentos em sua carreira em que parecia não conseguir se adaptar rapidamente, como na mudança dos pneus Michelin para os Bridgestone no começo de 2007, ou, voltando ainda mais no tempo, na primeira metade de 2004.

Fora isso, o espanhol foi campeão com os V10 e V8 em tempos de testes fartos e muito desenvolvimento, disputou título até a última prova com motores restritos e aerodinâmica dominante, com e sem reabastecimento, com pneus de pouco ou alto desgaste, etc. Com uma tocada agressiva, mas ao mesmo tempo uma inteligência incomum para gerir corridas, e muita  constância, por mais que não tenha a simpatia de muitos por questões extra-pista, Alonso já pode ser considerado um dos melhores da história da Fórmula 1.

Não é uma questão de andar mais que a máquina, pois isso não é Fórmula 1. Em qualquer corrida de carros, o que o piloto pode fazer está limitado pelo que seu equipamento é capaz – e na categoria máxima do automobilismo isso é ainda mais claro porque há construtores distintos. Portanto, o que podemos dizer de Alonso é que, especialmente nestes últimos anos na Ferrari, mais maduro, o limite tem sido consistentemente o carro, e não ele.

Os números estão aí para comprovar isso. Nesta temporada, o melhor resultado do único piloto a pontuar nas 11 provas até aqui é um segundo lugar. Seu pior, um nono. Na média, quinto. Por outro lado, na maioria dos GPs, a Ferrari, carro cujas reações, algo reconhecido pelos próprios engenheiros da equipe, são difíceis de prever, esteve atrás de Mercedes, Red Bull e Williams. Junto do time italiano, dependendo da pista, estão Force India e McLaren. Ou seja, quando um dos seis pilotos que deveriam estar na sua frente tem qualquer contratempo, Alonso se certifica de que é sempre ele quem vai se aproveitar. Na atual situação, não pode fazer mais do que isso.

Mas esta é uma situação que o aniversariante do dia não tem mais tempo de manter. Há quem garanta que o espanhol estaria livre de seu contrato se a Ferrari não ficar no top 3 do campeonato de construtores – e a chance disso acontecer é bastante significativa. E o bicampeão, que tomou algumas decisões equivocadas na carreira, teria outra escolha difícil. Apostar que a Ferrari pode aprender com os erros e evoluir seu motor em 2015? Jogar as fichas na parceria da McLaren com a Honda, ainda que o time inglês esteja mal das pernas já há algum tempo? Ou tentar alguma equipe com o motor Mercedes, indo para a Williams ou esperando até 2016 pela possível vaga de Hamilton?

Guarde esse GP na memória

Motor Racing - Formula One World Championship - Hungarian Grand Prix - Race Day - Budapest, Hungary

Se eu tivesse de apostar, diria que não vamos esquecer esse GP da Hungria tão cedo. Por um lado, pelas incríveis performances dos três pilotos que estiveram no pódio, cada um com sua particularidade, aplaudidos de pé quando chegaram para a coletiva de imprensa. Por outro, porque, levando em consideração a reação do comando da Mercedes logo após a prova, a ordem não acatada por Lewis Hamilton abre um precedente que deve alterar a maneira como o time vai lidar com suas estratégias a partir daqui.

Primeiro, falemos de Ricciardo, que mais uma vez deu um banho de agressividade controlada: quando teve de cuidar dos pneus, no segundo stint, e ainda assim abrir uma vantagem que seria fundamental para fazer a estratégia de parar durante os dois períodos de Safety Car funcionar, o fez de forma exemplar, conseguindo 13s em relação a Alonso, que não pararia mais.

Depois, no final, partiu para cima de forma inteligente, evitando ir para o “corpo a corpo” com Hamilton na reta e aproveitando a primeira oportunidade que teve para superar Alonso. Afinal, com Lewis com DRS em seu encalço, estava em uma posição vulnerável – “num sanduíche”, como ele definiu.

Alonso, por sua vez, manteve um ritmo impressionante para quem estava primeiro com uma Ferrari e segundo com pneus macios já usados na classificação, tendo de aguentar pelas últimas 31 voltas.

E Hamilton, novamente, por ter escalado o grid sabendo dosar a agressividade necessária para fazer as ultrapassagens em um circuito no qual a velocidade de reta de seu carro não contava tanto e a calma para não se envolver em toques. Sim, o inglês teve a sorte de não ficar pelo caminho ao julgar mal a temperatura dos freios depois de largar do box e rodar na segunda curva, mas já era a hora do azar dar uma trégua.

Mas a grande decisão do inglês – pelo menos para sua própria corrida – foi contrariar a equipe e não ceder a posição para Nico Rosberg com cerca de 20 voltas para o final. Ele certamente perderia para o companheiro caso não o fizesse. Na entrevista pós-corrida, Toto Wolff deu a entender que o time se arrependia da ordem. Mesmo reconhecendo que a insurreição de Hamilton é um dos fatores para Rosberg não ter vencido uma prova em que saiu da pole, o dirigente é inteligente o suficiente para admitir que seria difícil esperar uma atitude diferente do inglês.

Hamilton tem uma desvantagem a tirar, Rosberg tem uma vantagem a manter, e nenhum dos dois vai pensar no melhor para a equipe, simplesmente por que o título de construtores é questão de tempo e a única briga que realmente existe é pelo título de pilotos. A Mercedes terá de mudar a maneira de atacar as corridas – e Wolff sabe muito bem disso. Como eles vão conseguir manter o controle da situação, na prática, é outra história.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Hungria

Vettel4 a 7Ricciardo
Hamilton4 a 7Rosberg
Alonso9 a 2Raikkonen
Grosjean10 a 1Maldonado
Button6 a 5Magnussen
Hulkenberg9 a 2Perez
Sutil5 a 6Gutierrez
Vergne7 a 4Kvyat
Massa4 a 7Bottas
Kobayashi9 a 2Ericsson
Bianchi8 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Vettel x Ricciardo: 0s190

Rosberg x Hamilton: sem tempo

Alonso x Raikkonen: 0s705

Grosjean x Maldonado: sem tempo

Button x Magnussen: sem tempo

Hulkenberg x Perez: 0s564

Sutil x Gutierrez: 0s124

Vergne x Kvyat: 0s069

Bottas x Massa: 0s869

Kobayashi x Ericsson: 1s504

Bianchi x Chilton: 1s091

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Corda no pescoço – com 9 etapas pela frente

A teoria de Nico Rosberg é interessante: apesar dos números de itens da unidade de potência parecerem assustadores no momento e anunciarem um final de temporada caótico em termos de punições, a tendência é que a segunda metade do ano seja muito menos problemática que a primeira e as coisas podem se normalizar.

Mas é bem verdade que Rosberg tem um Mercedes, de longe o motor mais confiável até aqui. Talvez os pilotos da Lotus não compartilhem da mesma opinião.

As regras determinam que cada piloto utilize, ao longo da temporada, cinco unidades de cada componente. O motor foi “desmembrado” em seis itens, que são contabilizados separadamente. A partir da sexta unidade de qualquer um destes itens, o piloto perde 10 posições no grid. Caso isso ocorra com um segundo item, serão mais cinco posições e, se toda a unidade for trocada pela sexta vez, o piloto larga do pit lane.

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ICE = Internal combustion Engine/ Motor de combustão
TC = Turbo Charger/ Turbo
MGU-K = Motor Generator Unit – Kinetic/ Gerador a partir de energia cinética
MGU-H = Motor Generator Unit – Heat / Gerador a partir de energia calorífica
ES = Energy Store / Armazenamento de energia
CE = Control Electronics / Central de controle eletrônico

Os “intrusos” do top 5

Motor Racing - Formula One World Championship - Spanish Grand Prix - Race Day - Barcelona, Spain

Eles são os “intrusos” do top 5 da tabela do campeonato e duas das mais gratas surpresas do campeonato. Não que Daniel Ricciardo e Valtteri Bottas já não tivessem mostrado serviço nos anos anteriores, mas o nível que têm mostrado neste ano, a bordo de carros competitivos, impressiona. Em um ano em que a inteligência do piloto conta tanto ou mais que sua habilidade de acelerar, é essa nova geração que está se sobressaindo.

Lógico que há os macacos velhos, como Fernando Alonso, fazendo seu trabalho competente como sempre, mas é interessante observar como o australiano de 25 anos e o finlandês de 24 se adaptaram rapidamente às novas demandas deste campeonato.

O primeiro está batendo de maneira convincente ninguém menos que Sebastian Vettel. Os problemas de adaptação do estilo do alemão ao RB10 só evidenciam a capacidade de Ricciardo, que andou bem desde a primeira prova.

O mais impressionante de Ricciado é a maneira inteligente e dura como luta por posição. Quando está atrás, vai de maneira decidida para a manobra, como ficou claro nas voltas finais do GP do Canadá. Quando está na frente, é osso duro, como provou Alonso na Alemanha. E fazer isso nessa Fórmula 1 cheia de gerenciamento de energia/combustível não é para qualquer um. Quando era companheiro de Jean-Eric Vergne na Toro Rosso, o australiano costumava ganhar aos sábados e perder aos domingos.

RicciardoVettel
Classificação73
Dif. média em classificação-0.002
Corridas terminadas à frente51
Voltas completadas à frente214243
Pontos10682

Porém, neste ano, o rendimento dele tem sido muito bom em ambas as circunstâncias. Além de ter se classificado por 7 vezes à frente de Vettel nos 10 GPs disputados até aqui, o australiano chegou em uma posição igual ou melhor do que largou em cinco oportunidades, com performances costumeiramente marcadas pelo pouco consumo de pneus, dando a impressão de que está trazendo os melhores resultados possíveis para a Red Bull.

Um quadro semelhante acontece na Williams com Bottas. O finlandês é menos agressivo do que Ricciardo, e tem a constância como sua principal característica. E esse é o grande constraste com Felipe Massa, que sempre foi um piloto rápido, porém com dificuldades de consistência. Bottas também se manteve ou subiu de posição em relação ao grid em cinco oportunidades até aqui.

Bottas é daqueles pilotos que parecem cair como uma luva para esse regulamento. Inteligente, mostrou em corridas como na Alemanha como sabe trabalhar com os engenheiros para gerenciar os sistemas da unidade de potência e, claro, os pneus.

BottasMassa
Classificação64
Dif. média em classificação-0s097
Corridas terminadas à frente42
Voltas completadas à frente272154
Pontos9130

Não coincidentemente, ambos os pilotos foram apadrinhados por suas respectivas equipes e tiveram tempo para se desenvolver. Ricciardo estreou na metade da temporada de 2011 com a Hispania, para ganhar quilometragem, e depois fez dois anos de Toro Rosso, sempre dentro da família Red Bull, enquanto Bottas testou como nenhum outro piloto em 2012 para ser efetivado no ano seguinte na Williams. Os exemplos de ambos neste ano levam a crer que o caminho para fazer desabrochar pilotos mais jovens passa, é claro, pela qualidade deles, mas também por uma base sólida.

Improviso marcou estratégias na Alemanha

Motor Racing - Formula One World Championship - German Grand Prix - Race Day - Hockenheim, Germany

O GP da Alemanha foi um ótimo teste para a capacidade de adaptação dos estrategistas, com quase 20 graus a menos de temperatura de pista em relação a quando foram feitas as simulações de corrida na sexta e no sábado. Isso fez com que o pneu supermacio se degradasse mais devagar do que o previsto, abrindo a possibilidade de se fazer duas paradas, algo difícil de imaginar no caldeirão dos treinos livres.

Mas a diferença entre as táticas de duas e três paradas não era grande e, dependendo do carro e da condição de prova, trocar mais vezes o pneu foi benéfico, assim como alterar a ordem, colocando o supermacio em mais de um stint, uma vez que o pneu macio era cerca de 1s por volta mais lento.

Quem se beneficiou de uma escolha diferente no começo foi Lewis Hamilton, quinto colocado já na 14ª volta. O inglês aproveitou o desgaste dos pneus de quem estava com supermacios e avançou bastante na parte final de seu stint. Era muito importante para ele se livrar do máximo de carros possível no começo para andar com pista livre e desgastar menos os pneus no restante da prova.

Porém, uma combinação entre a antecipação da segunda parada devido à aposta de que o Safety Car fosse à pista quando o carro de Sutil ficou parado na saída da curva e o toque em Button, que danificou sua asa dianteira, provocando instabilidade e, consequentemente, maior desgaste de pneus, acabaram deixando Hamilton em uma situação difícil para ir à caça de Valtteri Bottas no final. Contra um carro com velocidade final semelhante e um piloto que pode gerenciar seu ritmo para cuidar dos pneus o tempo todo, nem todo o poderio da Mercedes foi suficiente.

A corrida de Hamilton acabou tendo um efeito negativo na estratégia de alguns rivais. O inglês foi o único dos ponteiros a largar com os pneus macios, com os quais fez 26 voltas. Isso encorajou outras equipes, como a McLaren, a apostar na estratégia de duas paradas, pois ficou claro que o composto estava durando mais do que o previsto. Porém, andando no meio do pelotão, Button sofreu ao fazer 36 voltas no final.

Alonso foi outro que perdeu terreno ao tentar fazer duas paradas. O espanhol estava marcando Vettel de perto, chegando a conseguir ultrapassá-lo por meio do undercut. Mas quando o alemão fez sua terceira parada, a Ferrari seguiu na pista e demorou demais para desistir do plano de duas paradas.

Vettel estava a 1s de Alonso na volta 45, quando fez sua parada. Nesse momento, era muito provável que o espanhol já teria perdido a posição por meio do undercut, pois a diferença era muito pequena. Por isso, a Ferrari não respondeu imediatamente, imaginando que o espanhol poderia parar com menos voltas para o final e, com pneus frescos, recuperar a posição na pista. Porém, eles esperaram 10 voltas para fazer o pit stop e, quando Alonso voltou, tinha 11s de desvantagem para Vettel e ainda por cima tinha Ricciardo pela frente.

Se, na ponta, Rosberg venceu tão fácil que fez apenas a sexta volta mais rápida da prova, o bicho pegou na disputa dentro do top 10, como tem sido a tônica da temporada. E mais uma vez uma degradação de pneus “sob medida” abriu oportunidades e foi o pano de fundo para várias das grandes disputas que tivemos na Alemanha.

Deixem os meninos brincar

Motor Racing - Formula One World Championship - German Grand Prix - Race Day - Hockenheim, Germany

Teve toque para tudo o quanto era lado e até carro virando de ponta cabeça. E os comissários? Assistiram praticamente impassíveis. Praticamente, pois Jean-Eric Vergne levou dois pontos na carteira por não ter devolvido a posição para Romain Grosjean durante uma disputa.

Confesso que desconfiei quando, há algumas semanas, saiu a notícia de que os comissários seriam menos “cricris” daqui em diante, mas pelo menos esse início de nova fase tem sido promissor. Havia chegado a um momento em que todo acidente teria que ter um culpado, um punido. Mas Fórmula 1 não é trânsito, é competição, um tenta superar o outro e, às vezes, as coisas não terminam bem. É o popular shit happens.

Como na batida visualmente espetacular da largada. O próprio Massa admitiu que não fazia a mínima ideia que Magnussen estava por dentro. E nem tinha como saber, pois sua visão estava encoberta. Da mesma forma, o dinamarquês tinha direito de estar ali e esperar que Massa deixasse espaço. Talvez, se fosse um piloto mais experiente, de certa forma pilotaria pelo outro e seria mais cauteloso, mas daí a apontar culpados é um longo caminho.

Sim, pilotar pelo outro. É isso que Alonso faz muito bem e demonstrou mais uma vez na Alemanha, com dois acompanhantes de luxo: Vettel, cada vez melhor no roda a roda, e Ricciardo, absolutamente espetacular na defesa mesmo com pneus mais usados.

E daí vem o caso Hamilton. Lewis nunca pilotou pelos outros, não tem paciência para isso. Na verdade, ele conta que os demais estão pilotando por ele. É como se ele dissesse: “Você sabe que eu vou colocar de lado, então é melhor ir recolhendo”. Por um lado, isso lhe fez ter grandes recuperações e nos deu momentos épicos. Por outro, o fez correr riscos desnecessários. O quanto de risco vale a pena correr quando se disputa um campeonato com um piloto tão limpo como Rosberg promete ser a chave do título para ele.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Alemanha

 

Vettel3 a 7Ricciardo
Hamilton4 a 6Rosberg
Alonso8 a 2Raikkonen
Grosjean9 a 1Maldonado
Button5 a 5Magnussen
Hulkenberg8 a 2Perez
Sutil4 a 6Gutierrez
Vergne6 a 4Kvyat
Massa4 a 6Bottas
Kobayashi8 a 2Ericsson
Bianchi7 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: 0s304

Rosberg x Hamilton: 1s052

Alonso x Raikkonen: 0s407

Grosjean x Maldonado: 1s301

Magnussen x Button: 0s405

Hulkenberg x Perez: 0s021

Gutierrez x Sutil: 0s403

Kvyat x Vergne: 0s182

Bottas x Massa: 0s319

Kobayashi x Ericsson: sem tempo

Bianchi x Chilton: 0s813

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

What the FRIC?

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Uns dizem que não faz diferença nenhuma, outros garantem que todos estão no mesmo barco. Porém, parece consensual que a Mercedes é quem mais vai sentir a falta do sistema FRIC, hidráulico, que conecta as suspensões dianteira e traseira e ajuda na estabilidade do carro.

O raciocínio é simples: é o time alemão, junto da Lotus, que tem a tecnologia mais desenvolvida, pois trabalha com isso há mais tempo. Mesmo assim, dificilmente haverá qualquer revolução na relação de forças.

Isso porque se trata de um sistema que podemos considerar complementar, e não algo em torno do qual a aerodinâmica funciona, como o difusor soprado e seus “parentes”, por exemplo.

O princípio do FRIC tem sido usado há cerca de cinco anos, mas em formas diferentes. A ideia é conectar as suspensões dianteira e traseira de forma a manter estável a altura do carro, o que ajuda a performance aerodinâmica nas curvas.

Como um carro de Fórmula 1 pode produzir até 6G em uma freada, gerando uma transferência de peso que “afunda” a parte da frente e altera o rake (diferença entre a altura da frente e da traseira do carro), a função do FRIC é compensar isso. Assim, é possível fazer a aerodinâmica funcional de maneira otimizada mesmo nas freadas. Esse controle permite, por exemplo, que as equipes usem asas dianteiras mais agressivas, aumentando a pressão aerodinâmica e a aderência, e acertos de suspensão mais macios. O resultado é que os pilotos podem atacar mais as zebras.

Os sistemas andam tão avançados ultimamente que a FIA começou a considerá-los “parte aerodinâmica móvel”, o que é proibido pelo regulamento. Daí o banimento – na verdade, uma recomendação da FIA, que avisou que não obrigaria o fim do FRIC, mas permitiria que as equipes protestassem contra quem o estava usando, o que, na prática, é o mesmo.

Mais uma vez, a parte europeia da temporada assista a alguma mudança importante. Ano passado, foram os pneus, o que acabou mudando a história do campeonato; em 2011, restrições fortes ao escapamento, que foram retiradas na prova seguinte e resultaram em uma vitória solitária de Fernando Alonso na temporada. Desta vez, não se espera cenários tão dramáticos assim, ainda que alterações das regras no meio do jogo sejam um erro bobo que a Fórmula 1 insiste em repetir.

Vários pesos, várias medidas

Motor Racing - Formula One World Championship - British Grand Prix - Race Day - Silverstone, England

Foram 14 os pilotos que sofreram algum tipo de punição nas nove etapas disputadas até aqui. O atual líder de um campeonato que vem sendo vencido nos últimos anos por Pastor Maldonado é Esteban Gutierrez. Nem todas por responsabilidade sua, é verdade, mas já são seis punições: três pagas na perda de 20 posições no total no grid, dois stop and go e um drive through. O venezuelano, mais “comportado” neste ano, tem três, mesmo número de Max Chilton e uma a menos que Jules Bianchi.

Com duas punições, aparecem Vergne e Ricciardo, enquanto Bottas, Sutil, Alonso, Vettel, Kobayashi, Perez, Grosjean e Magnussen aparecem com uma cada.

As punições mais duras, por questões de segurança, são as de unsafe release, quando a equipe libera seu piloto de maneira perigosa no pit. Depois de um câmera ser acertado por uma roda que não ficou bem presa no carro de Mark Webber e saiu quicando no meio do pitlane, a FIA tem dado um stop and go durante a prova e 10 posições no grid do GP seguinte. É duro para o piloto, claro, mas ele faz parte da equipe e paga junto.

É curioso como os comissários saíram distribuindo pontos até em casos mais leves nas primeiras etapas e depois diminuíram o ritmo. Assim, o novo sistema também não ajudou a tornar as punições mais homogêneas e não deixa claro aos pilotos quais os limites.

A única novidade boa nesta temporada é o stop and go de 5s. Em algumas ocasiões, quando um piloto levava um drive though logo no início da prova ou após uma relargada, a pena acabava ficando muito maior que o crime, pois passar pelos boxes quando os carros estão agrupados é obviamente pior do que no final de uma prova, por exemplo.

Essa punição de 5s, por sua vez, é cumprida apenas quando o piloto fizer sua parada (e, se não tiver mais pit stops pela frente, o tempo é adicionado ao resultado final), cumprindo bem seu papel de cuidar de delitos menores.

Um bom exemplo é o que aconteceu com Fernando Alonso no GP da Grã-Bretanha. O espanhol se confundiu com as placas e parou à frente de sua marca no grid de largada. O ganho que ele teve com isso é mínimo, mas não é o correto. Então foi adotada justamente a pena mais branda, de 5s.

Mas parece que pedir coerência nas penas é muito, e faz tempo. Clique nos links e veja algumas decisões tomadas neste ano e compare: será que os comissários usam sempre o mesmo peso e a mesma medida?

Bianchi x Maldonado, GP da Malásia: stop and go 5s + 2 pontos

Magnussen x Raikkonen, GP da Malásia: stop and go 5s + 2 pontos

Valtteri Bottas, por atrapalhar Daniel Ricciardo no GP da Malásia: 3 posições no grid + 2 pontos

Sutil, por atrapalhar Grosjean na classificação no GP do Bahrein: 5 posições no grid + 2 pontos

 Maldonado x Gutierrez, GP do Bahrein: stop and go 10s + 5 posições no grid + 3 pontos

Bianchi x Sutil, GP do Bahrein: 2 pontos

Ericsson x Massa, GP de Mônaco: largar do pitlane + 2 pontos

Raikkonen x Magnussen, GP de Mônaco: sem punição

Perez x Massa, no GP do Canadá: 5 posições no grid

Gutierrez x Maldonado, GP da Grã-Bretanha: 3 posições no grid.

Depois de um longo stint de 9 provas, farei um pit stop nos próximos dias, voltando com força total para o GP da Alemanha. Não vou abandoná-los, fiquem tranquilos. 😉

Um dia após o outro

Motor Racing - Formula One World Championship - British Grand Prix - Race Day - Silverstone, England

O campeonato está a salvo. Duas vezes. Tanto pelo abandono de Nico Rosberg, que chegou em boa hora para esquentar ainda mais a briga e desafiar o alemão a correr sob a pressão iminente de perder a liderança, quanto pela vitória mais contundente da Mercedes até aqui na temporada.

Se a equipe chegou a temer, após provas mais difíceis do Canadá para cá, que a briga interna e o menor fluxo de informações entre seus pilotos podia comprometer a evolução do carro a longo prazo, Silverstone mostrou que a margem de manobra é grande, muito grande. O resultado final mostra 30 segundos de diferença de Lewis Hamilton para o segundo colocado, Valtteri Bottas, mas a vantagem poderia ser na casa dos 50 caso o inglês não tivesse feito sua segunda parada, por segurança. E, sobrando tanto, não há motivos para Toto Wolff e companhia pensarem em restringir a briga interna.

A única dor de cabeça real dos líderes do campeonato continua sendo a confiabilidade. Já são três quebras no ano, além de um sem-número de problemas administrados durante as provas. É algo que se esperava neste ano, com tantas novidades no campo técnico, mas a impressão é de que a equipe não consegue evoluir no quesito.

Falando em evolução, mais do que o resultado, o ritmo de Bottas é uma notícia incrível para a Williams, que, mesmo largando seis posições atrás, conseguiu superar a Red Bull de Ricciardo com estratégia semelhante – e sobras. A prova em Silverstone era fundamental para a equipe determinar se havia melhorado em tração e curvas de alta, suas duas maiores fraquezas, e certamente a missão foi cumprida. Isso, a ponto de considerarmos o time de Grove como o que mais evoluiu na temporada desde a primeira prova.

Após a prova, Massa falou aos jornalistas brasileiros que o resultado do companheiro mostra como a equipe pode lutar por pódios em vários tipos de circuito daqui em diante. Pelo ritmo demonstrado, isso parece certo. Porém, na Fórmula 1, um carro rápido não é tudo e o time precisa melhorar seus processos durante o final de semana, especialmente táticos. Em Silverstone, o erro da classificação provavelmente privou o time de um pódio duplo. A conta já está grande.

No mais, Alonso mais uma vez foi um gigante em uma briga desigual com Vettel e, méritos de Ricciardo e seus pneus Highlander à parte, é uma pena que Button não tenha conseguido seu primeiro pódio em Silverstone, após uma classificação impecável e uma corrida muito sólida, escolhendo as brigas certas. Troféu à parte, certamente o velho John ficou orgulhoso.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Grã-Bretanha

 

Vettel3 a 6Ricciardo
Hamilton4 a 5Rosberg
Alonso7 a 2Raikkonen
Grosjean8 a 1Maldonado
Button5 a 4Magnussen
Hulkenberg7 a 2Perez
Sutil4 a 5Gutierrez
Vergne6 a 3Kvyat
Massa4 a 5Bottas
Kobayashi7 a 2Ericsson
Bianchi6 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Vettel x Ricciardo: 3s220

Rosberg x Hamilton: 3s466

Alonso x Raikonnen: 0s749

Grosjean x Maldonado: 5s522

Button x Magnussen: 0s217

Hulkenberg x Perez: 2s128

Sutil x Gutierrez: sem tempo

Kvyat x Vergne: 0s148

Massa x Bottas: 0s377

Kobayashi x Ericsson: 0s204

Bianchi x Chilton: 1s091

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Tem punição à vista – parte 2

Antes do GP de Mônaco, publiquei como andava o uso dos vários itens que compõem a unidade de potência dos carros deste ano na Fórmula 1. As regras determinam que cada piloto utilize, ao longo da temporada, cinco unidades de cada componente. O motor foi “desmembrado” em seis itens, que são contabilizados separadamente. A partir da sexta unidade de qualquer um destes itens, o piloto perde 10 posições no grid. Caso isso ocorra com um segundo item, serão mais cinco posições e, se toda a unidade for trocada pela sexta vez, o piloto larga do pit lane.

Pois, bem. Três etapas depois, as tendências do início do campeonato continuam: quem usa os Renault sofre mais, os Ferrari parecem melhores em rendimento do que em confiabilidade e a Mercedes tem o melhor pacote.

Na Renault, Sebastian Vettel está tão pendurado quanto o dono do número 13 e último colocado do mundial, Pastor Maldonado, enquanto Daniil Kvyat é outro que pode esperar uma punição em breve. Entre os que usam os motores italianos, preocupa a situação de Bianchi e Raikkonen só tem mais uma unidade de recuperação de energia calorífica para usar e dificilmente escapa de punição.

Parece que, no máximo depois da pausa de agosto, vai começar a ficar difícil determinar o posicionamento correto nos grids de largada.

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ICE = Internal combustion Engine/ Motor de combustão
TC = Turbo Charger/ Turbo
MGU-K = Motor Generator Unit – Kinetic/ Gerador a partir de energia cinética
MGU-H = Motor Generator Unit – Heat / Gerador a partir de energia calorífica
ES = Energy Store / Armazenamento de energia
CE = Control Electronics / Central de controle eletrônico

Energia baixa em Silverstone

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Sem pneus explodindo do nada como no ano passado, mas com um desafio diferente pela frente. Que ninguém estranhe se um carro parecer mais lento em algumas voltas e retomar o ritmo com tudo durante o GP da Grã-Bretanha: se carregar as baterias de um Kers com a metade da potência atual já era complicado no passado em um circuito fluido e com poucas freadas fortes como Silverstone, imagine agora.

Recapitulando: os motores atuais são alimentados por meio de combustão e por duas baterias carregadas pela energia dissipada pelo calor do turbo (MGU-H) e pela energia cinética vinda das freadas (MGU-K). A última é responsável por 160hp.

Para se ter uma ideia da importância do bom funcionamento do Kers neste ano, foi ele que falhou nos carros da Mercedes durante o GP do Canadá e permitiu a única vitória de um rival na temporada até aqui. A diferença de velocidade de reta era tanta que até um Red Bull, equipado com o Renault, normalmente cerca de 15km/h mais lento em reta, conseguiu superar a Mercedes com facilidade.

Não é exatamente um cenário tão dramático que se espera em Silverstone. Porém, é muito provável que as equipes tenham dificuldades em carregar a bateria totalmente em todas as voltas, simplesmente porque não há freadas fortes suficientes para isso. Os pilotos passam apenas 9% da volta freando!

Lembremos que esse processo não é responsabilidade do piloto neste ano, pois o botão do Kers não existe mais, apenas o que eles chamam de “botão de ultrapassagem”, que melhora a configuração de uso da energia. São os engenheiros que programam como essa energia será utilizada e pedem que os pilotos alterem as regulagens em seu volante.

Os problemas da falta de locais para se carregar o Kers não param por aí. Enquanto o carro está recuperando energia das freadas – ou seja, enquanto a bateria não está carregada – o comportamento do carro é diferente. Isso ocorre mesmo com o freio eletrônico, adotado justamente para ajudar os pilotos a lidar com isso após o aumento da potência do Kers neste ano.

As curvas de alta também significam mais consumo de combustível, outra variável que engenheiros e pilotos terão de controlar durante a prova e que torna muito importante a boa administração dos outros tipos de energia.

Tudo isso nos faz lembrar como a Fórmula 1 é um trabalho de equipe. Há quem apareça mais (para o bem e para o mal), como pilotos, equipe de pit stop, estrategistas, projetistas. Mas atuar em alto nível na categoria depende de muitas outras variáveis.

Vai, Mercedes!

Agora que os ingleses não têm mais seleção pra torcer...
Agora que os ingleses não têm mais seleção pra torcer…

Não é mata-mata, mas o GP da Grã-Bretanha tomou ares decisivos após a Williams chegar a apenas seis segundos das Mercedes na prova do final de semana passado, na Áustria. Decisivo para Lewis Hamilton, que corre com o apoio da torcida em casa para virar a maré positiva para o seu lado o mais rápido possível depois de perder 32 pontos em relação ao companheiro e rival Nico Rosberg nas últimas três provas. Afinal, abandonos à parte, em um campeonato apertado e contando com o mesmo equipamento do rival, a confiança conta muito.

Mais do que isso, a nona etapa também é chave para a Mercedes confirmar se a queda de rendimento em relação aos rivais é algo relacionado apenas às pistas ou se realmente o duelo interno está cobrando seu preço.

O chefe administrativo da equipe, Toto Wolff, é o primeiro a admitir que “o fluxo de informações está sofrendo” com o inevitável crescimento da rivalidade entre seus dois pilotos. Sabendo que o título ficará entre eles, Rosberg e Hamilton e seus respectivos times tentam esconder o jogo ao máximo, o que pode prejudicar o desenvolvimento do carro e a execução das corridas – e facilitar a vida de rivais que, se não têm condições de lutar pelo título, certamente vão testar o poderio que parecia impenetrável há um mês.

O último GP que a Mercedes venceu de forma arrasadora foi na Espanha, com incríveis 49 segundos de vantagem para a Red Bull de Daniel Ricciardo. A pista de Barcelona, com predominância de curvas de alta e uma sessão mais lenta, guarda semelhanças com o palco da próxima etapa, Silverstone. Os mesmos compostos de pneus – duro e médio – também serão usados. Não poderia haver uma chance melhor, portanto, de vermos o quanto foi perdido nas seis semanas entre o GP espanhol e o britânico.

De Barcelona para cá, a equipe acumulou problemas, primeiro entre os pilotos, com a desconfiança de Hamilton de que Rosberg teria o prejudicado de propósito na classificação em Mônaco, e depois com o carro, que sofreu com superaquecimento de freios no Canadá (algo que, somado a uma falha no sistema de recuperação de energia cinética, acabou custando uma vitória pela primeira vez no ano) e na Áustria.

Nem tudo, é claro, é culpa da disputa interna pelo título. Porém, caso a Mercedes tenha outra prova complicada em um circuito bastante favorável a seu carro, será a hora dos chefões do time começarem a intervir. Para o bem da disputa, uma rara oportunidade de ver dois pilotos lutando com equipamentos iguais, tomara que eles levem o GP da Grã-Bretanha de goleada.

Coluna publicada no jornal Correio Popular

GP da Áustria por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Desajeitados”

Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, Austria

Já fazia tempo desde aquele GP do Brasil de 2009, última oportunidade em que um piloto brasileiro largara na pole na Fórmula 1. E o GP da Áustria começou bem, com uma “grande largada de Felipe Massa”, narrada pelo ‘pé quente’ Sergio Maurício, comandando a transmissão da Globo em tempos de Copa do Mundo. “Muito bem Rosberg, que já ganhou uma posição… mas atenção que Bottas já se recuperou”, diz Antonio Lobato, da espanhola Antena 3, acompanhando a briga pela segunda posição.

Mais atrás, “Hamilton está voando! Já está em quinto!”, surpreende-se o comentarista da Sky Sports britânica, Martin Brundle. “Fernando vai ter muitos problemas com Hamilton. Que vontade tem Hamilton. Que velocidade! Fernando não parece tão bem”, preocupa-se Lobato ao ver que Alonso está na mira do inglês. A ultrapassagem é questão de tempo – ou curvas. “Hamilton só não bateu em Fernando porque ele deu alguns metros. Jogou-se como um hooligan”, observa o comentarista Pedro de la Rosa. “É o que sempre acontece na Ferrari, eles sempre ficam lentos nas primeiras voltas e depois se recuperam”, justifica Jacobo Veja, enquanto o narrador britânico David Croft se empolga com o compatriota. “De nono para quarto em 2.6 milhas!”

Não demora para Sebastian Vettel aparecer lento, sem potência. “Vai dando pinta de abandono para o Vettel. Os problemas só acontecem no carro dele”, diz Sérgio Maurício. É o mesmo que nota Brundle. “Parece o carro do Webber. É sempre com Vettel e não era assim antes.” Para Lobato, o gestual do alemão é de desespero, “levantando as mãos como que pedindo clemência.” Não é para menos, como lembra Croft. “Ele liderou 2.173 voltas na temporada passada e nenhuma nessa. Parece que a má fase não passa.”

Com Massa em primeiro, Sérgio Maurício considera “bom ter o companheiro de equipe, é como se fosse um escudo”, enquanto Brundle vê a situação com a ótica da Mercedes. “Estamos vendo que, com supermacios, as Williams estão em pé de igualdade com as Mercedes. Veremos o que acontece com os macios.”

Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, AustriaO comentarista acha que a Mercedes precisa estar mais perto para que o undercut funcione, mas uma estratégia conservadora da Williams facilita a vida do alemão, que para na volta 11. “Eles [a Williams] não responderam [à parada de Rosberg}. Isso significa que eles estão cientes de que o Rosberg vai voltar mais rápido, mas vão tentar fazer o menor número de paradas possível”, avalia o comentarista Rubens Barrichello. Ao seu lado, Luciano Burti é menos compreensivo. “A Williams tem seus especialistas, mas diria que é um erro eles esperarem tanto para parar. Pode ser que seja melhor para a Williams lá na frente, mas agora a Mercedes está levando vantagem.”

Os demais batem mais pesado no time de Grove. “É claro que a Williams está cometendo um erro”, julga Brundle. “O que não entendo é por que as Williams não param. Pelo menos um dos dois tinham de ter parado para cobrir posição”, De la Rosa não se conforma. “Se eu quiser ser bonzinho, vou dizer que eles só estavam correndo sua própria prova, não estão tentando ganhar a corrida”, avalia o repórter da Sky, Ted Kravitz.

Quando faz sua parada, Massa ainda consegue voltar à frente de Hamilton, entre as duas Mercedes, mas é logo superado pelo inglês. “Parece que Massa foi pego dormindo, não sei o que aconteceu com ele”, diz Brundle. “Hamilton roubou a carteira de Massa”, define Lobato. “Ele não deve estar entendendo por que perdeu duas posições de uma vez – pela estratégia e pela velocidade de Hamilton.” Para piorar a vida do brasileiro, Bottas faz a parada mais rápida da prova e volta na frente dele e de Hamilton. Os brasileiros não entendem nada pois, neste momento, era feita uma entrevista ao vivo com Felipe Nasr.

De la Rosa, por sua vez, ainda não se conforma com a tática da Williams. “Que falha da equipe. Se eu consigo ver com a tabela de tempos, imagine eles com todos os parâmetros que têm. Eles tinham os dois na frente, deveriam ter respondido apenas com um deles. Só se apenas estiverem focando o pódio.”

Os quatro ponteiros voltam atrás de Sergio Perez, que ainda não havia parado. Seria isso que permitia que as Williams continuassem andando junto mesmo com Rosberg na frente? Depois de ultrapassar o mexicano, o alemão chega a abrir, mas comete um erro e perde muito tempo, passando a ser pressionado por Bottas. Na Sky, mesmo antes do replay confirmar, acham que o tempo perdido vem de um erro, mas observam que sempre é no primeiro setor que ele é mais lento. “Ele está com muita dificuldade na freada, as temperaturas dos freios traseiros devem estar altas”, acerta Brundle.

(Bem) mais atrás, Vettel se toca com Gutierrez e gera algumas reflexões. “Sem querer desmerecer o talento do Vettel, dá para ver que andar atrás é difícil, é quando os erros acontecem”, diz Burti, enquanto Brundle considera a cena “um resumo de seu ano: perde a asa dianteira lutando pelo último lugar.”

Os britânicos também se entretêm quando é a vez de Felipe Massa passar Perez. “Felipe atrás de Perez. Soa familiar”, diz Brundle. “Cruzem os dedos. Façam suas preces”, emenda Croft, após a batida dos dois no Canadá.

A briga pelas posições do pódio também continuava quente. “Rosberg começou a forçar o ritmo e está abrindo de Bottas, enquanto Hamilton está perdendo a corrida aqui, precisa passar Bottas. Parece que a Williams tem mais degradação”, avalia De la Rosa. Vendo a janela, a Mercedes novamente faz um undercut – e a Williams novamente não responde. “Muito boa a decisão da Mercedes de parar Hamilton antes. É a última chance. O que eu não entendo é a Williams, novamente sem responder, ainda mais com sua velocidade de reta, que dificultaria uma ultrapassagem. Entendo que possam roubar sua carteira uma vez, mas duas…”, o comentarista espanhol não se conforma. E, como esperado, Hamilton rouba o segundo lugar de Bottas.

Na volta 43, Lobato e Brundle destacam a performance de Alonso, aproximando-se de Massa. “Esperamos que Perez, que está na frente de Massa, lhe atrapalhe o máximo possível para que Fernando chegue. É mais uma corrida em que ele não aparece, mas na qual segue fazendo mágica. Já não sei se dá 130%, acho que já é 140%. Felipe tem seu maior pesadelo em seu espelho retrovisor”, diz o narrador espanhol. “Só quero lembrar vocês que Raikkonen está em 11º.” Alonso chega a ficar em zona de DRS – momento em que os brasileiros percebem sua chegada, com cerca de 10 voltas para o fim –, mas a Ferrari não tem velocidade para brigar de igual para igual com a Williams e o asturiano logo tira o pé e passa a economizar combustível.

Quem também ensaia uma pressão, mas desiste, é Hamilton. “Ele pode Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, Austriaarriscar ir para cima mesmo com problemas de freios?”, chega a perguntar Croft. A resposta é a manutenção de uma distância segura por parte de Rosberg até o final, para ganhar a terceira do ano e abrir 29 pontos na liderança do campeonato. “Lewis precisa refletir. É mais um final de semana em que perde terreno. Vou inevitavelmente ver no meu twitter reclamações sobre pit stops intencionalmente mais lentos, mas as coisas simplesmente não aconteceram para ele”, analisa Brundle, que escolhe Bottas como o melhor piloto do dia. “Hamilton não está contente porque fez uma corridaça, mas é Rosberg que sai fortalecido”, resume Lobato.

A Williams, por outro lado, chamada de “desajeitada” pelo narrador espanhol, não foi tão bem. Para Barrichello, por um pit stop lento. “Massa não deve estar muito feliz mesmo sendo seu melhor resultado do ano porque poderia ter sido melhor não fosse aquele pit stop ruim no começo.” Para De la Rosa, pela tática equivocada. “A Williams errou a maneira de planejar essa prova porque, se tivessem se colocado pelo menos entre as Mercedes, poderiam aproveitar-se dos problemas de freios deles.”

Um passo de cada vez, então. “Da pole Massa já não está mais com saudade, do pódio sim”, finaliza Sérgio Maurício.

Aproveito para avisar que este deve ser o último post das transmissões por um bom tempo, por questões técnicas/logísticas. Mas ele volta no GP do Japão com certeza!

A Williams jogou uma vitória fora?

Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, Austria

A Williams diz que seu consumo de pneus era alto demais para copiar a estratégia das Mercedes e, potencialmente, vencer o GP da Áustria. Porém, se o time confiasse mais em sua grande arma do último final de semana, a velocidade de reta, talvez a história fosse diferente.

Sabendo que seria muito difícil superar o pole Massa e o segundo colocado Bottas na pista, a Mercedes também fez sua parte, ousando e trazendo Rosberg mais cedo que o previsto para o box, na volta 11.

Ao fazer isso, eles estavam jogando com as incertezas das Williams em relação à durabilidade do pneu macio e apostando que eles temeriam responder imediatamente e arriscar ficar sem pneus no final.

Esse foi exatamente o pensamento do time de Grove, que demorou três voltas para parar Massa. Pela diferença entre o brasileiro e Rosberg, caso a parada tivesse sido na volta anterior, havia a clara chance de voltar na frente.

Essa foi a primeira oportunidade perdida, situação que piorou com a perda de 0s8 na parada em si e voltas de entrada (pelo desgaste) e saída dos boxes (por demora para aquecer os pneus) ruins. Isso, somado ao pit stop de Bottas, o mais rápido da corrida, fez com que Massa caísse de primeiro para quarto.

A Williams ainda teria uma segunda chance de vencer com Bottas, pois o finlandês estava a 2s de Rosberg quando se aproximava a hora de fazer a segunda troca (distância menor à do próprio alemão em relação a Massa antes das primeiras paradas). Ali, já ficara claro que o ritmo do FW36 com pneus macios era comparável à Mercedes e o desgaste não era tão acentuado, mas novamente a equipe optou pela cautela – e acabou sendo surpreendido por outro undercut, desta vez de Hamilton (que parou na volta 39) em Bottas (que esperou até a 41).

“Pareceríamos idiotas se os pneus terminassem com cinco ou seis voltas para o final e outros carros nos passassem com facilidade”, justificou Rob Smedley. Olhando a diferença de 14km/h entre a Ferrari e Alonso e a Williams de Massa, é de se imaginar que, mesmo que o time tivesse corrido o risco de ver seus pneus muito deteriorados no fim, seria muito improvável que o brasileiro fosse ultrapassado. Era um risco que valia a pena correr.

Perez did it again

Quando se fala em estratégia diferente, logo a Force India vem à mente. Ainda mais agora que eles têm como trunfo um piloto cuja principal característica é economizar pneus. Na Áustria, essa combinação levou Perez do 15º ao sexto lugar.

O ponto crucial foram as quatro posições ganhas na largada, que o colocaram na frente de Button, que estava na mesma estratégia de alargar o primeiro stint, usando pneu macio. Usando o pneu mais resistente quando tinha mais combustível, seu ritmo no geral foi melhor do que o dos pilotos que tinham o supermacio nas primeiras voltas. Foi assim que o mexicano superou Raikkonen, Ricciardo, Hulkenberg e Magnussen, contando ainda com o abandono de Kvyat.

Perez poderia ter chegado ainda ao quinto lugar, caso a Ferrari não tivesse percebido a jogada e alargado o segundo stint de Alonso, garantindo que os pneus do espanhol estivessem novos no final caso tivesse de se defender.

De volta. Com classe

Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, Austria

Voltas finais do GP. Companheiros de equipe andando junto. Vitória decidida na pista. A história está longe de ser novidade nas últimas etapas, fruto de uma circunstância bastante rara, em que não há uma diferença de prestígio interno entre os dois pilotos, a vantagem é clara o suficiente para o título não corra risco se os pontos se dividirem e o marketing positivo de liberar a disputa é bem-vindo pela Mercedes.

Porém, no GP da Áustria, o gosto é diferente. Afinal, foi lá que uma prática tão velha quanto a Fórmula 1 foi escancarada para o público de uma forma incrivelmente escancarada. Tanto, que até Michael Schumacher, que sempre viu o jogo de equipe com uma naturalidade racional, ficou sem graça. Junto dele, a categoria também ficou, como se estivesse surpresa de ver a reação negativa do público a um “deixe Michael passar pelo campeonato” (na quinta etapa do ano).

A ordem de equipe faz parte, ela às vezes é necessária, como vimos com a Force India justamente nesta prova: com estratégias diferentes, Perez e Hulkenberg perderam menos tempo “se ajudando”. Mas há jeitos e jeitos de fazer isso, até pensando em espectadores mais ocasionais. E esses mais de 10 anos desde que a F-1 foi ao fundo do peço na Áustria, a lição foi aprendida – ainda que tenhamos visto um ou outro tropeço. E ver uma dobradinha justamente em Spielberg, mas de um jeito bem mais saudável, é um alento.

No mais, olhando de fora, a Williams pareceu jogar como time pequeno. Na retranca. Limitou-se a responder ao que a Mercedes fazia, como se soubesse que lutava por uma batalha perdida. E, para Felipe Massa, o pódio mais claro do ano novamente ficou nos boxes. Se é algo ligado ao processo da própria equipe ou se o piloto tem de ser mais preciso ao parar em suas marcas, é algo que tem de ser avaliado internamente – e certamente está, pois vários pontos já foram jogados fora dessa maneira.

Alguém pode resmungar: mas Massa foi 1s mais lento no pit, perdeu 3 posições e teve a corrida toda para se recuperar e não o fez! São fatores estratégicos (demora para responder à parada de Rosberg, retorno à pista no tráfego) aliados ao oportunismo de Hamilton, que aproveitou que Massa estava com os pneus frios, que complicaram a corrida do piloto em um momento capital. Depois, se por um lado o retorno da Áustria foi sucesso de público e agradou o circo em geral, ficou clara a dificuldade em se ultrapassar no Red Bull Ring.

No mais, quem me impressionou foi Alonso. O ritmo forte e impressionantemente consistente estavam lá como sempre, mas é de se admirar que ele consiga isso com um carro visivelmente instável e difícil de pilotar.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Áustria

 

Vettel2 a 6Ricciardo
Hamilton4 a 4Rosberg
Alonso6 a 2Raikkonen
Grosjean7 a 1Maldonado
Button4 a 4Magnussen
Hulkenberg6 a 2Perez
Sutil4 a 4Gutierrez
Vergne6 a 2Kvyat
Massa4 a 4Bottas
Kobayashi7 a 1Ericsson
Bianchi5 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: 0s163

Rosberg x Hamilton: sem tempo

Alonso x Raikonnen: 1s510

Grosjean x Maldonado: 0s703

Magnussen x Button: 0s307

Hulkenberg x Perez: 0s130

Sutil x Gutierrez: 0s524

Vergne x Kvyat: 0s583

Massa x Bottas: 0s087

Kobayashi x Ericsson: 1s000

Bianchi x Chilton: 0s363

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

GP da Áustria promete ser um “Canadá Parte 2”

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O circuito é um semi-novo – o traçado é essencialmente o mesmo do A1 Ring, que sediou o GP da Áustria de 1997 a 2003, mas as instalações foram totalmente renovadas após um investimento privado da Red Bull, da ordem de 70 milhões de euros – mas há pouco que pilotos e equipes podem tirar de suas experiências passadas.

No atual grid, apenas quatro pilotos já andaram no hoje chamado Red Bull Ring: Button, Raikkonen, Alonso e Massa. Curiosamente, entre as equipes, apenas quatro times do atual grid alinharam naquele GP da Áustria de 2003 com os nomes/donos atuais: Ferrari, McLaren, Williams e Sauber. E eram os italianos os homens a serem batidos, sob o comando de Michael Schumacher, que conquistaria seu penúltimo título naquele ano.

As regras, então, nem se fale: classificação com apenas uma volta lançada, sistema de pontuação distinto (ao invés de 4 pontos entre o vencedor e o segundo, a diferença foi diminuída para 2 naquele ano numa tentativa de frear Schumacher), motores V10 3.0L…

Mesmo que as informações não sejam tantas quanto nos demais circuitos, espera-se um cenário parecido com o Canadá. Afinal, são quatro grandes retas, uma volta curta (em torno de 1min08, o que é promessa de mais uma classificação apertada) e os mesmos pneus (supermacio e macio).

O que diferencia o circuito de Spielberg é o tipo de curvas – saem as chicanes e entram curvas de baixa velocidade. De qualquer forma, um carro com boa velocidade final e boa tração tem tudo para se dar bem.

Como passa-se cerca de 70% do tempo com o pé embaixo, espera-se um alto consumo de combustível, a exemplo da pista do Canadá. Na última etapa, um Safety Car longo logo no início da prova fez com que as equipes não tivessem de economizar muito durante a corrida, mas a história pode ser diferente neste final de semana.

Como as freadas também são fortes, são esperadas novas dificuldades de freio, ainda que não tão severas quanto em Montreal porque os muros não são tão próximos e, consequentemente, a refrigeração é maior.

Outra fonte de preocupação deverão ser os motores. Como a pista está localizada em uma região de 700m acima do nível do mar, os turbos têm de girar mais rápido para compensar a perda de pressão atmosférica.

Tudo isso significa que a vantagem da Mercedes deve continuar, com a Red Bull se aproveitando de sua tração e buscando outras duas vantagens (o fator casa e o novo combustível da Total, um dos motivos para o motor Renault perder em relação aos demais) e a Williams tentando manter o ótimo nível de Montreal. Mais atrás, a Ferrari torce por um final de semana de temperaturas mais amenas para poder usar todas as novidades testadas no Canadá e salvar outro final de semana que, no papel, promete ser difícil.

Todos juntos, vamos!

Minha relação com as Copas do Mundo começa em 94. Fazia poucos meses que havia me mudado de uma cidadezinha de 12 mil habitantes, que nem semáforo tinha, para outra, na época, com pouco menos de um milhão de pessoas. Mas aquele movimento da cidade grande que me causava estranheza um dia cessou de uma maneira que eu jamais imaginava que fosse possível.

Era dia 20 de junho de 94 e o Brasil estreava contra a Rússia. Foi ao ver-me em meio a um silêncio absoluto no meio de uma tarde em pleno dia de semana que eu entendi o que era uma Copa do Mundo.

Nada nunca foi igual àquela Copa de 94 para mim. E não me refiro à empolgação pelo esperado tetra. Com o passar dos anos, fui vendo que a tal “corrente pra frente” tinha seus problemas, fui vendo que enaltecer aquele brasileiro que dribla os certinhos europeus só imortalizava aspectos da nossa cultura do jeitinho que não me agradam. E que isso precisava ser documentado.

Tivemos câmera furtada no meio do caminho e outras dificuldades técnicas. Mais Brasil impossível. O documentário abaixo serviu como meu projeto de conclusão de curso e foi filmado em 2006. É um trabalho feito a seis mãos com as excelentes jornalistas Leila Bonfietti e Patrícia Lopes. Espero que gostem!

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=pY9lrBtX7f4&w=480&h=360]
 

GP do Canadá por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Bateu, mas bateu atacando”

Motor Racing - Formula One World Championship - Canadian Grand Prix - Race Day - Montreal, Canada

“Rosberg vai defender a ponta como um diabo, vai fazer de tudo”. O GP do Canadá prometia ser mais uma briga ferrenha entre os pilotos da Mercedes, mas acabou se tornando muito mais do que isso.

Na largada, Hamilton coloca de lado e recebe o cartão de visitas do companheiro, que o joga para fora. “Se tivesse mais reta, Hamilton teria passado. Tentou fazer a curva por fora e o Rosberg tinha o direito de fazer a curva e Lewis fez o correto, pensando na corrida, e abriu. O Rosberg deu uma jogadinha, mas é coisa de corrida”, explica Luciano Burti, na Globo.“Limpo ou não, era o que tinha de fazer”, acredita Pedro de la Rosa, na Antena 3. “Lewis tem porque pensar que tinha o direito de tentar a manobra por fora ali, mas a defesa de Rosberg foi justa, ainda que um pouco rude. E inacreditavelmente as duas asas dianteiras ficaram intactas”, Martin Brundle segue a mesma linha na Sky Sports.

Mas a disputa logo é interrompida pelo forte acidente entre as duas Marussia, que traz o SafetyCar à pista. Max Chilton perde o controle na entrada da curva 4 e acerta o companheiro Jules Bianchi, em um “acidente que não tem culpa porque Chilton estava sem o controle do carro”, para Burti. Para Brundle, contudo, o britânico é culpado. “Temo que isso seja culpa de Max. E fiquei impressionado com como essas Marussia se despedaçaram com esse toque”, diz o inglês, comentário semelhante ao dos espanhóis.

Poucas voltas após a relargada, Daniel Ricciardo antecipa sua primeira parada em “uma estratégia para ganhar a posição de Massa. Ele volta com pista livre e isso ajuda muito”, explica Burti, demonstrando esperar que a manobra funcione. “Com certeza eles surpreenderam a Williams com isso”, crê Brundle.

Porém, no final das contas, nem precisava ter ousado na estratégia. Reginaldo Leme é rápido em ver que o tempo de parada de Massa fora de 7s, bem mais lento que o normal. Os britânicos não percebem e têm dificuldades em explicar por que o brasileiro perdeu quatro posições após a parada, enquanto os espanhóis estão mais preocupados com a demora de Alonso em fazer sua primeira troca de pneus, temendo que o compatriota perca terreno, o que não acontece.

Motor Racing - Formula One World Championship - Canadian Grand Prix - Race Day - Montreal, CanadaLogo uma variável importante fica clara:“as Force India devem fazer só uma parada e isso pode mudar a prova”, avisa o narrador Luis Roberto. É Hulkenberg quem se coloca à frente de Vettel, que já havia parado. “Grande piloto, foi um destaque do ano passado. Não é fácil passar ele não”, avisa Reginaldo. “É uma (boa ou má?) notícia para Vettel porque quem parará uma vez vai começar a atrapalhar”, prevê Brundle.

Enquanto isso, lá na frente, os primeiros problemas para a Mercedes: pressionado por Hamilton, Rosberg perde a freada e vai reto na chicane. Com isso, escapa do companheiro.“Vimos claramente que ele perdeu a freada e não aliviou. O que diz a regra é que, se passa reto na chicane, tem de devolver o tempo ganhado. Não foi justo”, opina De la Rosa, que quer o troco.“Sou muito contrário a essas chicanes com tanto asfalto, porque é isso que acontece. O Nico recebeu um aviso e, se fosse Hamilton, passava reto também e reapareceria colado na caixa de câmbio do Rosberg.” Brundle observa que o alemão “fez a volta mais rápida da corrida” com a manobra e também espera que os comissários tomem alguma atitude. “Vamos ver o que os comissários acham disso. Porque ele não ganhou posição, ele evitou perder, e não há nada no regulamento que cubra esse tipo de situação.” O que surpreende o inglês é que “não ouvimos Hamilton reclamar disso, nem de nenhuma outra coisa”, ao contrário das provas anteriores. Já Burti lembra que “quando o piloto erra uma vez, é normal. O problema é se fizer isso mais vezes.”

A punição, de fato, não veio, mas logo os dois pilotos começariam a reclamar de falta de potência. Era o Kers que havia falhado nas Mercedes e não havia nada que a equipe pudesse fazer para evitar a flagrante queda de ritmo. Os comentaristas se animam.“A Force India passa a 280 e os Mercedes, a 268km/h na linha de chegada”, De la Rosa confere que o problema é grave. “Se o Massa continuar nesse ritmo, ele pode chegar na Mercedes”, Burti faz as contas. “Se os problemas da Mercedes não se resolverem, o grande candidato para a vitória é Massa”, concorda Brundle, que vê Rosberg “mais assustado” com os problemas.

No meio da primeira chance real na temporada de ver as Mercedes perdendo uma corrida, só os britânicos prestam atenção em um lance que seria capital – e que até a geração de imagens perdeu: Ricciardo volta da segunda parada à frente de Vettel. “Ele pediu para a equipe ajudá-lo com a estratégia e deu certo, mas com o outro”, diz o narrador David Croft.

Falando em estratégia, a Williams pede que Massa economize pneus porque querem converter sua tática para uma parada apenas. O brasileiro estava na liderança, com as duas Mercedes atrás após seus pit stops. A ousadia divide opiniões. “Mais importante do que estar na frente, Massa tem dois escudeiros nas duas Mercedes para proteger contra os outros”, observa Burti em uma transmissão brasileira tomada pela empolgação. E eles não estão sozinhos: “Essa mensagem quer dizer que a Williams acredita que pode vencer. Seria a primeira vitória de Massa desde 2008!”, exclama Croft. De la Rosa, por sua vez, coloca um balde de água fria. “É bastante otimista Massa não parar mais.”

O espanhol está certo e a Williams logo desiste da tática. Antes, contudo, mais uma reviravolta na Mercedes: a parada de Rosberg é lenta, Hamilton o passa, mas logo no retorno à pista seus freios começam a falhar. Os britânicos estão em cima do lance. “Lewis foi muito fundo no hairpin, acho que ele perdeu a posição. Sim, perdeu!”, Brundle vira narrador.

Não demora para todos perceberem a fumaça saindo dos freios traseiros da Mercedes do inglês. “Já era, Hamilton tá fora”, sentencia Reginaldo. “Pobre Hamilton”, Antonio Lobato demonstra compaixão. “Problemas, problemas, problemas. Hamilton vai abandonar o problema. Deve ter quebrado a suspensão quando passou reto na chicane”, erra o narrador, logo socorrido por De la Rosa. “Perdemos o melhor da corrida, precisamos ver o que aconteceu no hairpin, se eles se tocaram ou se Hamilton começou a ter problemas nos freios.” Não, não foi um toque. Certo, Brundle? “Sabe o que aconteceu? O fato do motor elétrico ter quebrado forçou o freio. O mesmo vai acontecer com Rosberg.”

Voltando a Massa, o brasileiro para e volta em sétimo. “Para quem ia tentar chegar até o final, ele agora está bem atrás no pelotão. Fico imaginando se ele não teve um furo no pneu”, Brundle não se conforma com a mudança na estratégia da Williams. Reginaldo também não, mas por outro motivo: Felipe voltou atrás do companheiro Bottas, que está mais lento. O comentarista quer uma ordem de equipe. “O time inglês é um pouquinho mais lento no raciocínio. É a possibilidade até de lutar pela vitória.” Aquele que acreditou desde o começo que se manter na pista era roubada, De la Rosa, apoia. “A equipe Williams foi inteligente, agora o pódio está à vista. Ele tinha que parar, não chegaria no final se não parasse.”

Demorou algumas voltas, mas Massa se aproveitou de um erro de Bottas e passou o finlandês e Hulkenberg numa tacada só, para a alegria de Brundle, que continua apostando no brasileiro para a vitória. “Isso foi ótimo para Massa, caiu no colo dele, agora ele voltou para a briga porque ele tem muita velocidade. Ele estará a 6s da liderança ao final da volta, mas com muitos carros para passar. Massa precisa passar um carro por volta agora, tem carro para fazer isso.”

Lobato não tem tanta certeza. “Os deuses da Mercedes hoje estão tendo um dia de mortais”, define. “Então, em quem apostar? Se Rosberg consegue resolver seus problemas, é nele. Perez está fazendo uma grande corrida, mas tem os pneus mais velhos. Outra opção é a Red Bull, com Ricciardo ou Vettel.”

Segundo colocado com a tática de uma parada, Perez consegue se manter à frente das Red Bull, mas britânicos e espanhóis chamam a atenção para como o mexicano não se aproxima de Rosberg. “O que está salvando Rosberg é que o DRS de Perez não está abrindo”, diz o comentarista Jacobo Vega, dando a entender que há um problema com a Force India. Mas Croft resolve o mistério: “Não acho que é um problema de DRS, acho que ele perde tanto tempo nos dois primeiros setores que, mesmo se aproximando nas retas, não consegue ficar a menos de 1s.”

Nas últimas voltas, vai ficando claro que, se alguém poderia roubar a vitória de Rosberg, seria uma das Red Bull. E Ricciardo vai ao ataque, passando Perez com quatro voltas para o final. “Ricciardo passou, que corridaça! Cuidado que ele vai à caça de Rosberg”, diz Lobato, aos berros. Na penúltima volta, o australiano passa o alemão. “Incrível! A Red Bull lidera uma prova em que eles não acreditavam que teriam nenhuma chance!”, se empolga Croft.

E o candidato de Brundle? “Mais uma vez, acho que faltou um pouco de determinação a Massa. Você tem de se arriscar mais, Felipe, porque a corrida está escapando”, pede Lobato. “Bora, Felipe. Pra cima do Sergio Perez!”, suplica Luis Roberto. E vem a batida.

“Que erro de Massa! Acabou com a corrida de Perez”, se precipita Lobato. Os comentaristas esperam vários replays e ficam um Motor Racing - Formula One World Championship - Canadian Grand Prix - Race Day - Montreal, Canadatanto em cima do muro. “É difícil dizer, mas houve um erro de cálculo. O Perez se mexeu um pouco, o Felipe tentou a ultrapassagem… coisa de corrida. Faltou espaço para os dois carros. Perez mexeu um pouco o carro na freada e talvez o Felipe tenha sido otimista demais”, opina Burti. “O que vemos é Massa buscando a tangência mais à direita e Sergio parece que freia mais pelo lado de dentro. O que não vemos é se ele muda de trajetória ao frear”, acrescenta De la Rosa. “Parece que Perez puxou um pouco para a esquerda e sabemos que ele tinha problemas de freio. Isso claramente pegou Massa de surpresa”, Brundle segue o mesmo raciocínio.

Mesmo com o acidente, Reginaldo faz questão de exaltar a performance de Massa. “Ele voltou a nos entusiasmar, atacando o tempo todo, fazendo exatamente aquilo que precisava fazer. A tentativa da Williams de não parar novamente seria muito difícil, mas a equipe poderia ter pedido para o Bottas abrir antes porque ele poderia lutar pela vitória. Ele bateu, mas foi atacando, tentando chegar nos líderes para lutar pela vitória. Isso é muito importante.”

Mas o entusiasmo em pessoa, como não poderia deixar de ser, era Ricciardo, após vencer pela primeira vez na carreira. “A Mercedes ficou oferecendo a corrida para todos e ninguém parecia que ia aproveitar”, se impressionou Brundle, enquanto De la Rosa voltava no tempo. “Quando fiz meu primeiro teste na HRT, usei o assento do Ricciardo e perguntei o que achavam dele. Disseram-me que era ok. Às vezes, com um carro ruim, você se perde no final do pelotão. Ele teve que chegar à Fórmula 1 andando com um piloto como Vettel para que todos os valorizassem como merecia.”

Mas o grand finale ficou com Croft, citando a frase “nice guys finnish last” – ou a quebra dessa escrita. “Dizem que caras bonzinhos não chegam em primeiro. Mas um deles conseguiu hoje.”

As táticas: por que foi Ricciardo – e não Massa – que ganhou no Canadá?

Motor Racing - Formula One World Championship - Canadian Grand Prix - Race Day - Montreal, Canada
O ultrapassagem sobre Perez, do jeito que dava, foi fundamental, mas não explica tudo

Os problemas no MGU-K e as consequentes dificuldades nos freios deram a deixa para os rivais da Mercedes se aproveitarem – e mesmo com 160hp a menos por metade da prova Nico Rosberg conseguiu chegar em segundo! Mas por que não foi Vettel, que largava em terceiro, que venceu o GP do Canadá? E Felipe Massa, poderia realmente ter vencido?

Ao cruzar a linha de chegada, Vettel lamentou sua estratégia via rádio. O tetracampeão largara em terceiro e voltara, após a primeira parada, atrás de Hulkenberg, que só faria um pit stop. O alemão ficou travado até sua segunda troca, quando foi superado por Ricciardo, o que o surpreendeu e provocou a reclamação.

Na volta 35, o trenzinho liderado por Hulk tinha Vettel a 0s7 e Ricciardo a 1s2 do companheiro. A Red Bull fez o certo e chamou o piloto que ia à frente primeiro, o que deveria manter as posições. Porém, segundo Helmut Marko, houve um problema no GPS, o que fez com que a equipe não percebesse que, após a parada, o alemão ficaria travado pela outra Force India, de Perez.

Seria esse o motivo pelo qual Ricciardo, que estava atrás e parou na volta seguinte – estando, teoricamente, em desvantagem – retornou da segunda parada entre o mexicano e seu companheiro, ganhando também a posição de Bottas, cuja parada foi lenta.

Os tempos perdidos no box foram idênticos entre os pilotos da Red Bull, mas as in/out laps de Ricciardo foram mais rápidas – 1s8 no total. Claro que a ultrapassagem sobre Perez na volta 66 foi fundamental mas, taticamente, foi aí que o australiano ganhou a prova.

Massa poderia ter vencido?

A Williams número 19 certamente foi o carro consistentemente mais rápido do GP do Canadá, mas como explicar que Felipe Massa bateu lutando apenas o quarto lugar na penúltima volta?

O primeiro golpe foi a tática agressiva da Red Bull de parar Ricciardo já na volta 13. O australiano estava a 0s5 do piloto da Williams ao entrar no box e, quando o time inglês optou por responder primeiro com Bottas, que estava 2s na frente do australiano, as chances de Massa manter a posição já eram pequenas – e foram para o espaço quando uma falha na pistola fez o brasileiro perder 4s5 e posição também para Alonso, Vergne e Kvyat. A tática não foi um erro: é de praxe a equipe proteger seu piloto melhor classificado e o mérito é da Red Bull ter enxergado a brecha.

Portanto, mesmo sem o problema no primeiro pit, Massa teria que tirar Ricciardo do caminho em algum momento da prova. Ritmo e velocidade de reta ele tinha, apesar da clara vantagem da Red Bull nas saídas de curva, mas aí começam a entrar vários “se”.

A questão da tentativa de uma parada apenas jamais funcionaria e a Williams acertou em abortá-la. Quando o time estudava isso, Perez já tinha um ritmo 1s/volta mais rápido, faltavam 25 voltas e a diferença era de 11s.

Só demorou um pouco para a equipe perceber isso: se parasse na volta 43 ao invés da 48, Massa teria a chance de voltar à frente do pelotão de Bottas e Hulkenberg. Para passar ambos, desperdiçou pouco tempo (só 1s8 em relação a Vettel), mas obviamente desgastou os pneus e perdeu 9 voltas para atacar.

As polêmicas do GP do Canadá: Massa ou Perez? Rosberg deveria ser punido?

frame

Esperei um pouco para escrever sobre o incidente entre Massa e Perez para entender as opiniões de vocês e poder explicar alguns pontos com base no que está efetivamente escrito nas regras e depois de ouvir os depoimentos de todos os envolvidos.

– “Massa estava rápido demais e jamais faria a curva”: segundo Rob Smedley, os dados entregues à FIA dão conta que Massa freou 5m antes do que havia feito na volta anterior.

– “Massa vira à direita”: de fato, mas observem que não é uma reta. Ele busca um posicionamento mais à direita para estar em um ângulo melhor para fazer a curva. Assim, assume um risco maior de colisão, e essa é sua parcela de culpa, ainda que ele não invada a trajetória de Perez, como mostra este frame by frame acima. As trajetórias se cruzam porque Perez estranhamente mantém o volante reto, o que joga o carro para a esquerda. Observe no vídeo como ele se afasta da linha branca, ao contrário de Vettel, que faz a trajetória normal.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=_0PuSoufowQ&w=560&h=315]

– “Perez tem direito a um movimento de defesa”: isso só é verdade fora das zonas de freada. Tanto, que a punição de Perez foi por mudança de direção na freada.

– “Perez poderia ter virado à esquerda para tentar dar o troco em Vettel”: isso não justifica, deveria ter olhado o espelho antes de tentar, mas não acredito que seja o caso. É mais possível que o movimento seja consequência de um desequilíbrio na freada pelos pneus desgastados.

– “A Force India deveria ter pedido para Perez abandonar porque tinha problemas de freio”: Isso veio da Williams e não faz sentido, pois tratava-se de uma falha no brake by wire e, após o piloto ter resetado o sistema, pelo que se sabe a situação melhorou e não era um problema “terminal”, como disse Smedley.

Eu vejo como incidente de corrida: tanto o movimento de Massa para a direita, em menor proporção, quanto o de Perez para a esquerda, resultaram na colisão, de maneira quase simultânea. Mal comparando, é como aquele impedimento milimétrico que, mesmo após milhares de replays, não fica 100% claro.

Geralmente, o piloto que vai à frente tem direito de escolher sua linha, mas me desagrada a forma como Perez move o carro na freada – e não é de hoje. Inclusive, compreenderia se o histórico do mexicano tenha pesado para a punição.

CASO ROSBERG

Também vi por aí algumas opiniões que demonstram desconhecimento da regra para determinar punições para quem salta chicanes. O texto diz “quando um piloto sai dos limites da pista, ele deve voltar quando for seguro fazê-lo e sem ganhar uma vantagem duradoura” – e esse “duradoura” é novidade, apareceu no regulamento deste ano. Não existe nada diferenciando defesa e ataque de posição ou coisa do tipo.

Rosberg ganhou vantagem cortando a chicane? Sem dúvida. Ela foi duradoura? Aí está a questão. Aos dados:

Tempos de volta de Rosberg

Volta 24 – 1:19.160

Volta 25 – 1:18.616 (corta a chicane)

Volta 26 – 1:19.648

Nico se defendeu dizendo que diminuiu a velocidade na volta seguinte, o que ficou comprovado pelos tempos, “devolvendo”, assim, a vantagem que havia tido na volta 25. E foi matemático: ganhou 0s5 passando reto e foi 0s5 mais lento que seu tempo de volta “normal” no giro seguinte.

O problema para Hamilton é que sua volta 26 foi lenta (1:19.5). Por isso, a diferença permaneceu acima de 1s mesmo depois da “devolução” de Nico.

Diferença Rosberg x Hamilton

Volta 24 – 0s564

Volta 25 – 1s184

Volta 26 – 1s065

O que será que a FIA deveria fazer nesse caso? Pedir que Nico desacelerasse até voltar ao 0s5 de diferença? Acredito que Rosberg tenha feito muito bem seu papel para evitar uma punição.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP do Canadá

 

Vettel2 a 5Ricciardo
Hamilton4 a 3Rosberg
Alonso5 a 2Raikkonen
Grosjean7 a 0Maldonado
Button4 a 3Magnussen
Hulkenberg5 a 2Perez
Sutil3 a 4Gutierrez
Vergne6 a 1Kvyat
Massa3 a 4Bottas
Kobayashi6 a 1Ericsson
Bianchi4 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: 0s041

Rosberg x Hamilton: 0s079

Alonso x Raikonnen: 0s400

Grosjean x Maldonado: 0s598

Button x Magnussen: 0s096

Hulkenberg x Perez: 0s172

Sutil x Gutierrez: sem tempo

Vergne x Kvyat: 0s458

Massa x Bottas: 0s028

Kobayashi x Ericsson: 0s542

Chilton x Bianchi: 0s011

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Paciência

Motor Racing - Formula One World Championship - Monaco Grand Prix - Wednesday - Monte Carlo, Monaco

A tabela do mundial aponta que Fernando Alonso foi responsável por mais de 78% dos pontos da Ferrari até aqui, número bem superior à média de 68% da época em que o espanhol dividia a equipe com Felipe Massa. Dentro dessa conta, há uma parcela de mérito do próprio bicampeão, cuja principal qualidade é maneira como identifica os momentos-chave do final de semana para maximizar seus resultados. E, do outro lado do box, uma dificuldade de adaptação de Kimi Raikkonen.

E alguns azares também. Das seis etapas disputadas até aqui, houve três finais de semana em que Raikkonen andou de igual para igual com Alonso. Na Malásia, enquanto a pista esteve seca, andou com ritmo até ligeiramente superior. Na Espanha, acabou ficando com a estratégia mais rápida no papel, porém mais lenta na prática, e foi ultrapassado com três voltas para o final. Em Mônaco, levou lavada na classificação, mas vinha fazendo uma corrida sólida, com grande chance de pódio, até encontrar Max Chilton pelo caminho.

Resultados

 AUSMALCHIBAHESPMON
Raikkonen712108712
Alonso449364

 

 RaikkonenAlonso
Placar em classificação24
Dif. Média em classificação+0s645 
Voltas à frente em corrida87278

Os números, portanto, não contam toda a história dessa disputa interna na Ferrari. Mas também é verdade que o rendimento de Kimi ainda está aquém do que ele pode, como reconheceu o próprio diretor técnico James Allison. Um exemplo recente, contudo, mostra que é prudente dar mais tempo ao finlandês.

Sua situação lembra a de Lewis Hamilton em 2013, seu primeiro ano de Mercedes. A exemplo de Raikkonen, muito se falava que o inglês tinha problemas de freios, que era de marca diferente ao que ele estava acostumado na McLaren. Mas perguntei a ele sobre isso e Lewis explicou que a questão era mais ampla:

“Fiquei muito tempo na McLaren, então todo ano o carro era feito para mim e era muito confortável para mim, podia colocá-lo onde quisesse. Neste ano, eu tive muita dificuldade e não consegui atingir meu potencial. Houve boas corridas, mas, mesmo nestas, eu poderia ter ido melhor. Se eu estivesse feliz no carro, seria muito diferente. Ano que vem, terei muito mais influência. Não vou pilotar o carro do Michael [Schumacher], mas sim o meu.”

Dito e feito. O carro atual da Ferrari começou a ser pensado ainda em 2012, quando a presença de Raikkonen sequer era cogitada. Na própria experiência inicial do finlandês no time italiano, demorou uns bons seis meses para os resultados se tornarem mais consistentes – tão consistentes que Kimi acabou campeão. Melhor, portanto, não duvidar que ele pode dar a volta por cima.

Nada de tanque cheio

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51,2% da corrida percorrida, 41,34% do total de combustível que o carro poderia ter consumido. E vem o pedido do box para economizar: isso só pode significar uma coisa.

O temor de que as restrições de combustível do novo regulamento dessem uma esfriada nas disputas durante as corridas acabou se dissipando nestas primeiras etapas, com motores eficientes e pilotos dando-se bem com os lift and coast da vida (técnica na qual tira-se o pé do acelerador antes do normal nas freadas). Mas o GP de Mônaco escancarou como a quantidade de combustível utilizada é parte importante da estratégia.

Desde o final do reabastecimento, em 2010, engana-se quem pensa que o carro larga com combustível suficiente para terminar a corrida com sua mistura mais potente/rica. Isso porque simplesmente esta não é a forma mais rápida de terminar uma corrida, tendo em vista o desgaste de pneus gerado ao se forçar 100% do tempo + peso carregado durante a prova. Cada time tem um cálculo, baseado nas características de seu carro/motor de qual seria o caminho mais rápido e quanto vale economizar combustível para chegar antes à bandeirada. É mais um “tapa na cara” daqueles que acham que corrida de carro é pé no fundo o tempo todo.

Quando o regulamento deste ano foi divulgado, esperava-se que essa tendência de abastecer um carro com menos combustível do que ele precisaria para completar a prova desapareceria, uma vez que as equipes já estariam obrigadas, por regulamento, a largar com até 100kg – até o ano passado, a quantidade era de até 160kg dependendo do circuito. Mas vimos logo nas primeiras etapas que não é assim. Tanto, que até os gráficos da transmissão mudaram das primeiras provas para cá.

Lembre que, na Malásia, a Williams aparecia gastando menos de 90% do combustível mesmo nas voltas finais? Não faria sentido um time economizar tanto a ponto do carro ficar pesado e perder velocidade no final, certo? A verdade é que o erro não estava no cálculo do time inglês, mas na maneira do gráfico ser apresentado. Explico: ao colocar a percentagem, levava-se em consideração que todos largaram com o peso máximo, 100kg. Não é bem assim.

A saída foi colocar o combustível gasto em kg. Assim, sabemos a quantidade gasta comparativamente, mas não sabemos o quanto falta para acabar. É isso que explica por que pedia-se para Rosberg economizar mesmo com ele tendo gasto menos da metade dos 100kg teoricamente disponíveis com mais de metade da prova percorrida em Mônaco: ele largou com bem menos que os 100kg.

É heresia pensar que as equipes vão divulgar por livre e espontânea vontade a quantidade de combustível exata com que largam. Afinal, isso faz parte da estratégia, assim como as paradas no box ou o composto com que um carro vai largar.

O que podemos observar é a luz vermelha que pisca na traseira do carro que está usando mapas de motor econômicos (ela é acionada automaticamente se o piloto está com 95% do pedal de aceleração apertado, a mais de 180km/h e observa-se uma redução a partir de 120KW no torque). É uma forma que a FIA encontrou de avisar os demais que pode haver um carro mais lento na pista. E acabou virando o último vestígio para tentar entender uma variável importante nas disputas de uma Fórmula 1 que tem um regulamento válido por um lado, mas complicado demais por outro.

Pianinho

Motor Racing - Formula One World Championship - Monaco Grand Prix - Friday - Monte Carlo, Monaco

Durante sua perseguição a Nico Rosberg no GP de Mônaco, Lewis Hamilton esbravejou via rádio que sua equipe deveria tê-lo chamado aos boxes uma volta antes para lhe dar a chance de sair mais rápido após a troca de pneus e, assim, superar o companheiro. Depois de chegar em segundo, atrás do alemão, voltou a criticar a Mercedes, afirmando que, em seu ex-time, a McLaren, a história teria sido diferente.

Hamilton defende que a Mercedes tenha dois estrategistas: um trabalhando para dar as melhores chances para Rosberg, outro para ele. Segundo o piloto, a McLaren age dessa maneira. No time alemão, o chefe Toto Wolff assegurou que a postura é sempre dar prioridade para quem está na frente na pista.

Não há dúvidas que, do ponto de vista esportivo, Hamilton tem razão. Ainda mais em um ano em que é bem provável que ele e Rosberg lutem sozinhos pelo título. Afinal, após seis das 19 etapas disputadas, eles já têm ao menos 57 pontos, o equivalente a mais de duas vitórias, de vantagem para o terceiro colocado, Fernando Alonso. De certa forma, ao permitir uma briga tática entre seus pilotos, a Mercedes estaria fazendo um grande favor ao campeonato, dando mais emoção às corridas, pois as variáveis aumentariam. Mas a que preço?

Imagine se Hamilton tivesse, de fato, parado uma volta antes de Rosberg e voltado na frente. Isso depois do alemão ter feito a pole – de forma controversa, é verdade, mas nada foi provado contra ele – e mantido a ponta de maneira irrepreensível até ali. Até que ponto o piloto culparia seu engenheiro por não ter percebido a brecha tática ou desconfiaria que está sendo prejudicado pelo próprio time?

Foi o que aconteceu com a própria McLaren na última vez em que o time teve seus dois pilotos efetivamente lutando pelo título. Houve muita confusão nos bastidores em 2007, com o escândalo da espionagem, mas a desconfiança de Alonso de que Hamilton, cria da equipe desde a adolescência, recebia tratamento diferenciado, gerou um clima contraproducente que, em última análise, abriu o espaço para o título de Kimi Raikkonen, de Ferrari.

Mais do que isso: o mal estar tornou a permanência de Alonso, que assinara por três anos, insustentável. Hamilton não pode deixar que o mesmo aconteça. Também no meio de um contrato milionário, está no lugar e hora certos para ser campeão não apenas neste ano, pois a Mercedes tem estrutura para levar o atual domínio para as próximas temporadas. Está na hora de abaixar a cabeça e trabalhar para garantir, na pista, as maiores chances de vencer.

Coluna publicada no jornal Correio Popular.

GP de Mônaco por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Vai ser um longo ano”

O glamour...
Ah, o glamour…

Com o clima pegando fogo dentro da Mercedes e a expectativa de brasileiros, espanhóis e britânicos por um ataque de Lewis Hamilton para cima de Nico Rosberg, houve quem se perdeu com a única ação que se materializou nas primeiras filas: Daniel Ricciardo sendo superado por Sebastian Vettel e Kimi Raikkonen.

“Largada decente para Rosberg e Hamilton tem de ficar atrás. Olhem Raikkonen pressionando Sebastian Vettel e passando!”, se confunde David Croft, na Sky Sports.“O Alonso vem brigando e ganha uma posição”, Galvão Bueno também erra na Globo. Erro justificável, para Martin Brundle. “Normalmente é Alonso que começa atacando, desta vez foi Raikkonen que foi muito corajoso na curva 1.”

Muito corajoso na linguagem dos britânicos, ou “um autêntico míssil”, como narra Antonio Lobato na Antena 3.“Fiquei com a impressão que Fernando teve de levantar para não bater na Red Bull. Em Mônaco não depende só da sua largada, mas também de quem está na frente”, lamenta Pedro de la Rosa.

No meio do pelotão, Perez tenta superar Hulkenberg por fora na Mirabeau, mas é tocado por Button, que vinha atrás. “Acho que Sergio deveria ter deixado um pouco mais de espaço. Era quase certo que haveria alguém ali”, opina Brundle. Rubens Barrichello vê o contrário. “Magnussen (sic) tentou colocar por dentro mas não tinha espaço”. E Galvão destaca como “os dois carros da Williams passaram por um fio de cabelo.”

O incidente traz o Safety Car à pista. Na relargada, Vettel aparece lento.“Vettel dormiu… não, não. Ele tem problemas. Ele fez uma grande largada, estava lutando pelo pódio e o carro lhe deixa na mão. Isso é síndrome de Mark Webber”, defende Lobato. Fim de prova para o alemão.

Com o abandono, Raikkonen assume o terceiro posto, “pilotando mais que seu carro”, segundo Brundle. A sua frente, Hamilton “está pilotando mais com raiva do que qualquer outra coisa”, nas palavras de De la Rosa. Os espanhóis acreditam que Hamilton vai lutar a prova inteira e lembram de 2007. “Tínhamos um problema de freio e Fernando estava administrando, mas Lewis ficou forçando e colocou a prova dos dois em risco”, diz o comentarista, que era piloto de testes do time na época. “E a equipe pediu que se acalmasse mas, mesmo assim, ele continuou pressionando.”

Em uma tarde Mãe Dinah, De la Rosa não gosta da maneira como a informação é dividida dentro da Mercedes. “Se um engenheiro sabe o que o outro está fazendo, não dá para você tentar surpreender o outro carro e parar antes, por exemplo. E a tendência é sempre que priorizem quem vai à frente. Mas, se eu fosse Hamilton, tentava parar antes. Eles deveriam deixar cada um fazer a própria tática. O restante das informações deve ser dividido porque ajuda a equipe a evoluir”. Esta seria a reclamação do próprio Lewis voltas depois.

Motor Racing - Formula One World Championship - Monaco Grand Prix - Sunday - Monte Carlo, MonacoCroft não tem certeza se parar primeiro seria a melhor opção. “Se os pneus estiverem demorando para aquecer, talvez Rosberg não queira parar antes e deixar Hamilton com ar livre”, acredita. Mas Brundle não descarta que a prova seja decidida de outra maneira. “Se eu fosse Kimi ou Ricciardo, eu pensaria ‘eu posso vencer essa corrida’, porque não está descartado que essas Mercedes se embolem.”

Galvão acredita que “Hamilton parece mais rápido que Rosberg, mas se chegar é uma coisa, passar é outra, imagina em Mônaco”. O comentarista espanhol Jacobo Vega segue a mesma linha, diz ver “que Lewis está mais lento”. Mas Lobato retruca: “Eu vejo Nico na frente na pista! Lembra de Mansell perseguindo Senna? Acabou a corrida tonto.”

Além da briga pela ponta, a transmissão da Globo foca nas críticas à tática da Williams. Galvão queria que Massa tivesse largado com os pneus macios. “Massa está limitado pelo Bottas. Se ele estivesse com pneus diferentes, ficaria na pista até o final e tentaria lucrar com pneus macios no final. Mas a Williams é muito tradicional nas estratégias”, critica.

As dúvidas quanto à estratégia do brasileiro só aumentam quando ele é o único que não aproveita o Safety Car provocado por Adrian Sutil – “o único que estava fazendo graça”, para Galvão – para fazer seu pit stop. “A chance que o Massa tem é que os outros tenham problemas com os pneus e ele consiga abrir. A Williams arriscou agora, mas não da forma como a gente gostaria”, observa Barrichello. “Mas ele é o mais lento de todos! Para fazer isso, tinha que ter largado com pneus macios”, insiste Galvão. A tática foi questionada por todos. “Massa não tem muito mais rendimento em seu pneu, mas tem posição de pista. Veremos como isso vai funcionar. Será muito difícil”, reconhece Brundle. “Não dá para entender a tática de Massa”, diz Lobato.

Outro problema das paradas sob o Safety Car foi na Mercedes.“Por que vocês não me pararam na volta anterior?”, questionava Hamilton via rádio.“Quando era claro que o SC era inevitável, né?”, Brundle entende logo de cara o que queria o inglês. “Como eles iriam saber? Não faz sentido”, Lobato não compreende. “Hamilton deve estar bravo porque era a única chance de Hamilton passar Rosberg. Agora estão na mesma estratégia”, resume Barrichello.

O período de Safety Car ainda guardaria mais uma surpresa: a parada dupla de Raikkonen, sendo a primeira planejada e, a Untitled-1segunda, causada por um toque com Max Chilton, que não apareceu na transmissão. “Como é possível que Chilton tenha tocado Raikkonen ao descontar uma volta? É uma pena porque ele vinha fazendo uma grande corrida”, Lobato não se conforma. “Esse vai ficar bravo”, prevê Barrichello.

Após a relargada, Hamilton segue na cola de Rosberg e Lobato teme pelo ‘pior’. “Ai, ai, ai, ele vai tentar. Estou convencido. Já vivi isso há alguns anos. Hamilton deve ter pesadelos com Mônaco”, em uma nova referência a 2007.

Mas quem tenta – e consegue – é Hullkenberg, na Portier, para deleite de Brundle (“você vai ter que ir bem longe nos livros históricos para achar outra igual!”), e Bianchi, na Rascasse, “dando cotoveladas, como se estivesse em um carrinho de bate-bate”, como narrou Lobato.

Falando em Bianchi, apenas na Globo pairou a dúvida sobre sua punição. Barrichello repetiu algumas vezes que era estranho ele ter um stop and go e não parar, porque “teria de fazer isso em três voltas”. Porém, os demais explicaram que há uma regra nova. “O bom desse stop and go de 5s é que você pode servir durante o pit stop. Então é uma punição, mas não arruína seu dia. É mais justo”, considera Brundle.“Os cinco segundos só se aplicam na parada ou, se não for parar, eles são somados ao tempo final. O que ele não vai poder é acenar ao público na última volta porque não pode perder tempo”, brinca De la Rosa ao explicar a situação aos espanhóis.

Outro ponto que causou reações distintas foram as seguidas mensagens que Rosberg passou a receber para economizar combustível. Para Galvão, “já está na metade da corrida e ele não chegou na metade do combustível. O engenheiro tá colocando pressão nele.” O narrador leva em consideração que o carro está com 100kg, a quantidade máxima de combustível que pode ser usada quando, na verdade, as mensagens significam que a Mercedes optou por usar bem menos. “Em Mônaco, com SC, eu não esperava ouvir em combustível nesse domingo. Eles arriscaram. Mas carregar 10kg a mais pode resultar em cerca de 8s na corrida”, explica Brundle. A informação causa surpresa em De la Rosa.“Não dá para entender isso. É um GP em que usamos uns 85kg de combustível e ainda assim tivemos dois SC. Isso é um erro de cálculo da equipe. O consumo aqui não é importante para ninguém, nem para o SC.”

Mesmo com o companheiro com problemas, Hamilton não consegue se colocar em posição de pressioná-lo. “Eu posso ver Hamilton declarando guerra depois desse GP. Lauda já esteve nessa situação, com Prost, e deveria saber como lidar com isso”, avalia Brundle.

Na volta 50, De la Rosa tem outro momento de premonição. “Hamilton deve estar com a viseira toda suja, deve ter levado pedaço de borracha na cabeça o GP inteiro. E às vezes começa a entrar todo tipo de porcaria no capacete. É muito duro ficar perto de outro carro por uma corrida toda.”

Voltas depois, o inglês diminui o ritmo de uma hora para a outra. E diz à equipe que não consegue enxergar com o olho esquerdo. “Muito incomum. Daria para tentar abrir um pouco a viseira pra limpar. Ricciardo está chegando, mas pode ser que ele não veja”, Brundle não resiste.

Lento, Hamilton chega a se irritar quando seu engenheiro insiste a lhe informar sobre a aproximação de Ricciardo. “Quero saber de Nico”, esbraveja. Mas o australiano se aproxima perigosamente. “Ele disse que não se importa com Ricciardo, mas deveria se importar porque ele está chegando muito rápido.”

Chegou, mas não passou , e a Red Bull tem de se contentar com o terceiro lugar. Com a visão em dia, Rosberg vence, e Hamilton não esconde a irritação com o segundo posto e a perda da liderança do campeonato.

“Nico tinha uma missão aqui e cumpriu, retomando a ponta do mundial”, Motor Racing - Formula One World Championship - Monaco Grand Prix - Sunday - Monte Carlo, Monacoresume Lobato. “Acho que Hamilton errou quando fez aqueles comentários sobre ser mais faminto que Nico porque vinha de família pobre e tal. Isso só aumentou a vontade dele”, avalia o narrador. “Rosberg pole position e vitória em dois anos consecutivos é para trazer muito orgulho para qualquer piloto em qualquer situação. E Massa obteve grande resultado chegando em sétimo depois de largar em 16º”, resume Galvão para os brasileiros.

“Lewis vai estar muito irritado… vamos ter muitas discussões sobre essa pole nesta semana”, resgata Brundle, que parece convencido de que Rosberg simulou o erro na classificação para prejudicar o companheiro. “Lewis estourando o champanhe parece mais que está regando as plantas”, observa. “São dois pilotos da Mercedes que não conseguem olhar um na cara do outro ou se cumprimentar”, diz Croft. E Brundle conclui: “Será um longo ano.”