Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Grã-Bretanha

 

Vettel3 a 6Ricciardo
Hamilton4 a 5Rosberg
Alonso7 a 2Raikkonen
Grosjean8 a 1Maldonado
Button5 a 4Magnussen
Hulkenberg7 a 2Perez
Sutil4 a 5Gutierrez
Vergne6 a 3Kvyat
Massa4 a 5Bottas
Kobayashi7 a 2Ericsson
Bianchi6 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Vettel x Ricciardo: 3s220

Rosberg x Hamilton: 3s466

Alonso x Raikonnen: 0s749

Grosjean x Maldonado: 5s522

Button x Magnussen: 0s217

Hulkenberg x Perez: 2s128

Sutil x Gutierrez: sem tempo

Kvyat x Vergne: 0s148

Massa x Bottas: 0s377

Kobayashi x Ericsson: 0s204

Bianchi x Chilton: 1s091

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Tem punição à vista – parte 2

Antes do GP de Mônaco, publiquei como andava o uso dos vários itens que compõem a unidade de potência dos carros deste ano na Fórmula 1. As regras determinam que cada piloto utilize, ao longo da temporada, cinco unidades de cada componente. O motor foi “desmembrado” em seis itens, que são contabilizados separadamente. A partir da sexta unidade de qualquer um destes itens, o piloto perde 10 posições no grid. Caso isso ocorra com um segundo item, serão mais cinco posições e, se toda a unidade for trocada pela sexta vez, o piloto larga do pit lane.

Pois, bem. Três etapas depois, as tendências do início do campeonato continuam: quem usa os Renault sofre mais, os Ferrari parecem melhores em rendimento do que em confiabilidade e a Mercedes tem o melhor pacote.

Na Renault, Sebastian Vettel está tão pendurado quanto o dono do número 13 e último colocado do mundial, Pastor Maldonado, enquanto Daniil Kvyat é outro que pode esperar uma punição em breve. Entre os que usam os motores italianos, preocupa a situação de Bianchi e Raikkonen só tem mais uma unidade de recuperação de energia calorífica para usar e dificilmente escapa de punição.

Parece que, no máximo depois da pausa de agosto, vai começar a ficar difícil determinar o posicionamento correto nos grids de largada.

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ICE = Internal combustion Engine/ Motor de combustão
TC = Turbo Charger/ Turbo
MGU-K = Motor Generator Unit – Kinetic/ Gerador a partir de energia cinética
MGU-H = Motor Generator Unit – Heat / Gerador a partir de energia calorífica
ES = Energy Store / Armazenamento de energia
CE = Control Electronics / Central de controle eletrônico

Energia baixa em Silverstone

2010_British_GP_start

Sem pneus explodindo do nada como no ano passado, mas com um desafio diferente pela frente. Que ninguém estranhe se um carro parecer mais lento em algumas voltas e retomar o ritmo com tudo durante o GP da Grã-Bretanha: se carregar as baterias de um Kers com a metade da potência atual já era complicado no passado em um circuito fluido e com poucas freadas fortes como Silverstone, imagine agora.

Recapitulando: os motores atuais são alimentados por meio de combustão e por duas baterias carregadas pela energia dissipada pelo calor do turbo (MGU-H) e pela energia cinética vinda das freadas (MGU-K). A última é responsável por 160hp.

Para se ter uma ideia da importância do bom funcionamento do Kers neste ano, foi ele que falhou nos carros da Mercedes durante o GP do Canadá e permitiu a única vitória de um rival na temporada até aqui. A diferença de velocidade de reta era tanta que até um Red Bull, equipado com o Renault, normalmente cerca de 15km/h mais lento em reta, conseguiu superar a Mercedes com facilidade.

Não é exatamente um cenário tão dramático que se espera em Silverstone. Porém, é muito provável que as equipes tenham dificuldades em carregar a bateria totalmente em todas as voltas, simplesmente porque não há freadas fortes suficientes para isso. Os pilotos passam apenas 9% da volta freando!

Lembremos que esse processo não é responsabilidade do piloto neste ano, pois o botão do Kers não existe mais, apenas o que eles chamam de “botão de ultrapassagem”, que melhora a configuração de uso da energia. São os engenheiros que programam como essa energia será utilizada e pedem que os pilotos alterem as regulagens em seu volante.

Os problemas da falta de locais para se carregar o Kers não param por aí. Enquanto o carro está recuperando energia das freadas – ou seja, enquanto a bateria não está carregada – o comportamento do carro é diferente. Isso ocorre mesmo com o freio eletrônico, adotado justamente para ajudar os pilotos a lidar com isso após o aumento da potência do Kers neste ano.

As curvas de alta também significam mais consumo de combustível, outra variável que engenheiros e pilotos terão de controlar durante a prova e que torna muito importante a boa administração dos outros tipos de energia.

Tudo isso nos faz lembrar como a Fórmula 1 é um trabalho de equipe. Há quem apareça mais (para o bem e para o mal), como pilotos, equipe de pit stop, estrategistas, projetistas. Mas atuar em alto nível na categoria depende de muitas outras variáveis.

Vai, Mercedes!

Agora que os ingleses não têm mais seleção pra torcer...
Agora que os ingleses não têm mais seleção pra torcer…

Não é mata-mata, mas o GP da Grã-Bretanha tomou ares decisivos após a Williams chegar a apenas seis segundos das Mercedes na prova do final de semana passado, na Áustria. Decisivo para Lewis Hamilton, que corre com o apoio da torcida em casa para virar a maré positiva para o seu lado o mais rápido possível depois de perder 32 pontos em relação ao companheiro e rival Nico Rosberg nas últimas três provas. Afinal, abandonos à parte, em um campeonato apertado e contando com o mesmo equipamento do rival, a confiança conta muito.

Mais do que isso, a nona etapa também é chave para a Mercedes confirmar se a queda de rendimento em relação aos rivais é algo relacionado apenas às pistas ou se realmente o duelo interno está cobrando seu preço.

O chefe administrativo da equipe, Toto Wolff, é o primeiro a admitir que “o fluxo de informações está sofrendo” com o inevitável crescimento da rivalidade entre seus dois pilotos. Sabendo que o título ficará entre eles, Rosberg e Hamilton e seus respectivos times tentam esconder o jogo ao máximo, o que pode prejudicar o desenvolvimento do carro e a execução das corridas – e facilitar a vida de rivais que, se não têm condições de lutar pelo título, certamente vão testar o poderio que parecia impenetrável há um mês.

O último GP que a Mercedes venceu de forma arrasadora foi na Espanha, com incríveis 49 segundos de vantagem para a Red Bull de Daniel Ricciardo. A pista de Barcelona, com predominância de curvas de alta e uma sessão mais lenta, guarda semelhanças com o palco da próxima etapa, Silverstone. Os mesmos compostos de pneus – duro e médio – também serão usados. Não poderia haver uma chance melhor, portanto, de vermos o quanto foi perdido nas seis semanas entre o GP espanhol e o britânico.

De Barcelona para cá, a equipe acumulou problemas, primeiro entre os pilotos, com a desconfiança de Hamilton de que Rosberg teria o prejudicado de propósito na classificação em Mônaco, e depois com o carro, que sofreu com superaquecimento de freios no Canadá (algo que, somado a uma falha no sistema de recuperação de energia cinética, acabou custando uma vitória pela primeira vez no ano) e na Áustria.

Nem tudo, é claro, é culpa da disputa interna pelo título. Porém, caso a Mercedes tenha outra prova complicada em um circuito bastante favorável a seu carro, será a hora dos chefões do time começarem a intervir. Para o bem da disputa, uma rara oportunidade de ver dois pilotos lutando com equipamentos iguais, tomara que eles levem o GP da Grã-Bretanha de goleada.

Coluna publicada no jornal Correio Popular

GP da Áustria por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Desajeitados”

Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, Austria

Já fazia tempo desde aquele GP do Brasil de 2009, última oportunidade em que um piloto brasileiro largara na pole na Fórmula 1. E o GP da Áustria começou bem, com uma “grande largada de Felipe Massa”, narrada pelo ‘pé quente’ Sergio Maurício, comandando a transmissão da Globo em tempos de Copa do Mundo. “Muito bem Rosberg, que já ganhou uma posição… mas atenção que Bottas já se recuperou”, diz Antonio Lobato, da espanhola Antena 3, acompanhando a briga pela segunda posição.

Mais atrás, “Hamilton está voando! Já está em quinto!”, surpreende-se o comentarista da Sky Sports britânica, Martin Brundle. “Fernando vai ter muitos problemas com Hamilton. Que vontade tem Hamilton. Que velocidade! Fernando não parece tão bem”, preocupa-se Lobato ao ver que Alonso está na mira do inglês. A ultrapassagem é questão de tempo – ou curvas. “Hamilton só não bateu em Fernando porque ele deu alguns metros. Jogou-se como um hooligan”, observa o comentarista Pedro de la Rosa. “É o que sempre acontece na Ferrari, eles sempre ficam lentos nas primeiras voltas e depois se recuperam”, justifica Jacobo Veja, enquanto o narrador britânico David Croft se empolga com o compatriota. “De nono para quarto em 2.6 milhas!”

Não demora para Sebastian Vettel aparecer lento, sem potência. “Vai dando pinta de abandono para o Vettel. Os problemas só acontecem no carro dele”, diz Sérgio Maurício. É o mesmo que nota Brundle. “Parece o carro do Webber. É sempre com Vettel e não era assim antes.” Para Lobato, o gestual do alemão é de desespero, “levantando as mãos como que pedindo clemência.” Não é para menos, como lembra Croft. “Ele liderou 2.173 voltas na temporada passada e nenhuma nessa. Parece que a má fase não passa.”

Com Massa em primeiro, Sérgio Maurício considera “bom ter o companheiro de equipe, é como se fosse um escudo”, enquanto Brundle vê a situação com a ótica da Mercedes. “Estamos vendo que, com supermacios, as Williams estão em pé de igualdade com as Mercedes. Veremos o que acontece com os macios.”

Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, AustriaO comentarista acha que a Mercedes precisa estar mais perto para que o undercut funcione, mas uma estratégia conservadora da Williams facilita a vida do alemão, que para na volta 11. “Eles [a Williams] não responderam [à parada de Rosberg}. Isso significa que eles estão cientes de que o Rosberg vai voltar mais rápido, mas vão tentar fazer o menor número de paradas possível”, avalia o comentarista Rubens Barrichello. Ao seu lado, Luciano Burti é menos compreensivo. “A Williams tem seus especialistas, mas diria que é um erro eles esperarem tanto para parar. Pode ser que seja melhor para a Williams lá na frente, mas agora a Mercedes está levando vantagem.”

Os demais batem mais pesado no time de Grove. “É claro que a Williams está cometendo um erro”, julga Brundle. “O que não entendo é por que as Williams não param. Pelo menos um dos dois tinham de ter parado para cobrir posição”, De la Rosa não se conforma. “Se eu quiser ser bonzinho, vou dizer que eles só estavam correndo sua própria prova, não estão tentando ganhar a corrida”, avalia o repórter da Sky, Ted Kravitz.

Quando faz sua parada, Massa ainda consegue voltar à frente de Hamilton, entre as duas Mercedes, mas é logo superado pelo inglês. “Parece que Massa foi pego dormindo, não sei o que aconteceu com ele”, diz Brundle. “Hamilton roubou a carteira de Massa”, define Lobato. “Ele não deve estar entendendo por que perdeu duas posições de uma vez – pela estratégia e pela velocidade de Hamilton.” Para piorar a vida do brasileiro, Bottas faz a parada mais rápida da prova e volta na frente dele e de Hamilton. Os brasileiros não entendem nada pois, neste momento, era feita uma entrevista ao vivo com Felipe Nasr.

De la Rosa, por sua vez, ainda não se conforma com a tática da Williams. “Que falha da equipe. Se eu consigo ver com a tabela de tempos, imagine eles com todos os parâmetros que têm. Eles tinham os dois na frente, deveriam ter respondido apenas com um deles. Só se apenas estiverem focando o pódio.”

Os quatro ponteiros voltam atrás de Sergio Perez, que ainda não havia parado. Seria isso que permitia que as Williams continuassem andando junto mesmo com Rosberg na frente? Depois de ultrapassar o mexicano, o alemão chega a abrir, mas comete um erro e perde muito tempo, passando a ser pressionado por Bottas. Na Sky, mesmo antes do replay confirmar, acham que o tempo perdido vem de um erro, mas observam que sempre é no primeiro setor que ele é mais lento. “Ele está com muita dificuldade na freada, as temperaturas dos freios traseiros devem estar altas”, acerta Brundle.

(Bem) mais atrás, Vettel se toca com Gutierrez e gera algumas reflexões. “Sem querer desmerecer o talento do Vettel, dá para ver que andar atrás é difícil, é quando os erros acontecem”, diz Burti, enquanto Brundle considera a cena “um resumo de seu ano: perde a asa dianteira lutando pelo último lugar.”

Os britânicos também se entretêm quando é a vez de Felipe Massa passar Perez. “Felipe atrás de Perez. Soa familiar”, diz Brundle. “Cruzem os dedos. Façam suas preces”, emenda Croft, após a batida dos dois no Canadá.

A briga pelas posições do pódio também continuava quente. “Rosberg começou a forçar o ritmo e está abrindo de Bottas, enquanto Hamilton está perdendo a corrida aqui, precisa passar Bottas. Parece que a Williams tem mais degradação”, avalia De la Rosa. Vendo a janela, a Mercedes novamente faz um undercut – e a Williams novamente não responde. “Muito boa a decisão da Mercedes de parar Hamilton antes. É a última chance. O que eu não entendo é a Williams, novamente sem responder, ainda mais com sua velocidade de reta, que dificultaria uma ultrapassagem. Entendo que possam roubar sua carteira uma vez, mas duas…”, o comentarista espanhol não se conforma. E, como esperado, Hamilton rouba o segundo lugar de Bottas.

Na volta 43, Lobato e Brundle destacam a performance de Alonso, aproximando-se de Massa. “Esperamos que Perez, que está na frente de Massa, lhe atrapalhe o máximo possível para que Fernando chegue. É mais uma corrida em que ele não aparece, mas na qual segue fazendo mágica. Já não sei se dá 130%, acho que já é 140%. Felipe tem seu maior pesadelo em seu espelho retrovisor”, diz o narrador espanhol. “Só quero lembrar vocês que Raikkonen está em 11º.” Alonso chega a ficar em zona de DRS – momento em que os brasileiros percebem sua chegada, com cerca de 10 voltas para o fim –, mas a Ferrari não tem velocidade para brigar de igual para igual com a Williams e o asturiano logo tira o pé e passa a economizar combustível.

Quem também ensaia uma pressão, mas desiste, é Hamilton. “Ele pode Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, Austriaarriscar ir para cima mesmo com problemas de freios?”, chega a perguntar Croft. A resposta é a manutenção de uma distância segura por parte de Rosberg até o final, para ganhar a terceira do ano e abrir 29 pontos na liderança do campeonato. “Lewis precisa refletir. É mais um final de semana em que perde terreno. Vou inevitavelmente ver no meu twitter reclamações sobre pit stops intencionalmente mais lentos, mas as coisas simplesmente não aconteceram para ele”, analisa Brundle, que escolhe Bottas como o melhor piloto do dia. “Hamilton não está contente porque fez uma corridaça, mas é Rosberg que sai fortalecido”, resume Lobato.

A Williams, por outro lado, chamada de “desajeitada” pelo narrador espanhol, não foi tão bem. Para Barrichello, por um pit stop lento. “Massa não deve estar muito feliz mesmo sendo seu melhor resultado do ano porque poderia ter sido melhor não fosse aquele pit stop ruim no começo.” Para De la Rosa, pela tática equivocada. “A Williams errou a maneira de planejar essa prova porque, se tivessem se colocado pelo menos entre as Mercedes, poderiam aproveitar-se dos problemas de freios deles.”

Um passo de cada vez, então. “Da pole Massa já não está mais com saudade, do pódio sim”, finaliza Sérgio Maurício.

Aproveito para avisar que este deve ser o último post das transmissões por um bom tempo, por questões técnicas/logísticas. Mas ele volta no GP do Japão com certeza!

A Williams jogou uma vitória fora?

Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, Austria

A Williams diz que seu consumo de pneus era alto demais para copiar a estratégia das Mercedes e, potencialmente, vencer o GP da Áustria. Porém, se o time confiasse mais em sua grande arma do último final de semana, a velocidade de reta, talvez a história fosse diferente.

Sabendo que seria muito difícil superar o pole Massa e o segundo colocado Bottas na pista, a Mercedes também fez sua parte, ousando e trazendo Rosberg mais cedo que o previsto para o box, na volta 11.

Ao fazer isso, eles estavam jogando com as incertezas das Williams em relação à durabilidade do pneu macio e apostando que eles temeriam responder imediatamente e arriscar ficar sem pneus no final.

Esse foi exatamente o pensamento do time de Grove, que demorou três voltas para parar Massa. Pela diferença entre o brasileiro e Rosberg, caso a parada tivesse sido na volta anterior, havia a clara chance de voltar na frente.

Essa foi a primeira oportunidade perdida, situação que piorou com a perda de 0s8 na parada em si e voltas de entrada (pelo desgaste) e saída dos boxes (por demora para aquecer os pneus) ruins. Isso, somado ao pit stop de Bottas, o mais rápido da corrida, fez com que Massa caísse de primeiro para quarto.

A Williams ainda teria uma segunda chance de vencer com Bottas, pois o finlandês estava a 2s de Rosberg quando se aproximava a hora de fazer a segunda troca (distância menor à do próprio alemão em relação a Massa antes das primeiras paradas). Ali, já ficara claro que o ritmo do FW36 com pneus macios era comparável à Mercedes e o desgaste não era tão acentuado, mas novamente a equipe optou pela cautela – e acabou sendo surpreendido por outro undercut, desta vez de Hamilton (que parou na volta 39) em Bottas (que esperou até a 41).

“Pareceríamos idiotas se os pneus terminassem com cinco ou seis voltas para o final e outros carros nos passassem com facilidade”, justificou Rob Smedley. Olhando a diferença de 14km/h entre a Ferrari e Alonso e a Williams de Massa, é de se imaginar que, mesmo que o time tivesse corrido o risco de ver seus pneus muito deteriorados no fim, seria muito improvável que o brasileiro fosse ultrapassado. Era um risco que valia a pena correr.

Perez did it again

Quando se fala em estratégia diferente, logo a Force India vem à mente. Ainda mais agora que eles têm como trunfo um piloto cuja principal característica é economizar pneus. Na Áustria, essa combinação levou Perez do 15º ao sexto lugar.

O ponto crucial foram as quatro posições ganhas na largada, que o colocaram na frente de Button, que estava na mesma estratégia de alargar o primeiro stint, usando pneu macio. Usando o pneu mais resistente quando tinha mais combustível, seu ritmo no geral foi melhor do que o dos pilotos que tinham o supermacio nas primeiras voltas. Foi assim que o mexicano superou Raikkonen, Ricciardo, Hulkenberg e Magnussen, contando ainda com o abandono de Kvyat.

Perez poderia ter chegado ainda ao quinto lugar, caso a Ferrari não tivesse percebido a jogada e alargado o segundo stint de Alonso, garantindo que os pneus do espanhol estivessem novos no final caso tivesse de se defender.

De volta. Com classe

Motor Racing - Formula One World Championship - Austrian Grand Prix - Race Day - Spielberg, Austria

Voltas finais do GP. Companheiros de equipe andando junto. Vitória decidida na pista. A história está longe de ser novidade nas últimas etapas, fruto de uma circunstância bastante rara, em que não há uma diferença de prestígio interno entre os dois pilotos, a vantagem é clara o suficiente para o título não corra risco se os pontos se dividirem e o marketing positivo de liberar a disputa é bem-vindo pela Mercedes.

Porém, no GP da Áustria, o gosto é diferente. Afinal, foi lá que uma prática tão velha quanto a Fórmula 1 foi escancarada para o público de uma forma incrivelmente escancarada. Tanto, que até Michael Schumacher, que sempre viu o jogo de equipe com uma naturalidade racional, ficou sem graça. Junto dele, a categoria também ficou, como se estivesse surpresa de ver a reação negativa do público a um “deixe Michael passar pelo campeonato” (na quinta etapa do ano).

A ordem de equipe faz parte, ela às vezes é necessária, como vimos com a Force India justamente nesta prova: com estratégias diferentes, Perez e Hulkenberg perderam menos tempo “se ajudando”. Mas há jeitos e jeitos de fazer isso, até pensando em espectadores mais ocasionais. E esses mais de 10 anos desde que a F-1 foi ao fundo do peço na Áustria, a lição foi aprendida – ainda que tenhamos visto um ou outro tropeço. E ver uma dobradinha justamente em Spielberg, mas de um jeito bem mais saudável, é um alento.

No mais, olhando de fora, a Williams pareceu jogar como time pequeno. Na retranca. Limitou-se a responder ao que a Mercedes fazia, como se soubesse que lutava por uma batalha perdida. E, para Felipe Massa, o pódio mais claro do ano novamente ficou nos boxes. Se é algo ligado ao processo da própria equipe ou se o piloto tem de ser mais preciso ao parar em suas marcas, é algo que tem de ser avaliado internamente – e certamente está, pois vários pontos já foram jogados fora dessa maneira.

Alguém pode resmungar: mas Massa foi 1s mais lento no pit, perdeu 3 posições e teve a corrida toda para se recuperar e não o fez! São fatores estratégicos (demora para responder à parada de Rosberg, retorno à pista no tráfego) aliados ao oportunismo de Hamilton, que aproveitou que Massa estava com os pneus frios, que complicaram a corrida do piloto em um momento capital. Depois, se por um lado o retorno da Áustria foi sucesso de público e agradou o circo em geral, ficou clara a dificuldade em se ultrapassar no Red Bull Ring.

No mais, quem me impressionou foi Alonso. O ritmo forte e impressionantemente consistente estavam lá como sempre, mas é de se admirar que ele consiga isso com um carro visivelmente instável e difícil de pilotar.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Áustria

 

Vettel2 a 6Ricciardo
Hamilton4 a 4Rosberg
Alonso6 a 2Raikkonen
Grosjean7 a 1Maldonado
Button4 a 4Magnussen
Hulkenberg6 a 2Perez
Sutil4 a 4Gutierrez
Vergne6 a 2Kvyat
Massa4 a 4Bottas
Kobayashi7 a 1Ericsson
Bianchi5 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: 0s163

Rosberg x Hamilton: sem tempo

Alonso x Raikonnen: 1s510

Grosjean x Maldonado: 0s703

Magnussen x Button: 0s307

Hulkenberg x Perez: 0s130

Sutil x Gutierrez: 0s524

Vergne x Kvyat: 0s583

Massa x Bottas: 0s087

Kobayashi x Ericsson: 1s000

Bianchi x Chilton: 0s363

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

GP da Áustria promete ser um “Canadá Parte 2”

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O circuito é um semi-novo – o traçado é essencialmente o mesmo do A1 Ring, que sediou o GP da Áustria de 1997 a 2003, mas as instalações foram totalmente renovadas após um investimento privado da Red Bull, da ordem de 70 milhões de euros – mas há pouco que pilotos e equipes podem tirar de suas experiências passadas.

No atual grid, apenas quatro pilotos já andaram no hoje chamado Red Bull Ring: Button, Raikkonen, Alonso e Massa. Curiosamente, entre as equipes, apenas quatro times do atual grid alinharam naquele GP da Áustria de 2003 com os nomes/donos atuais: Ferrari, McLaren, Williams e Sauber. E eram os italianos os homens a serem batidos, sob o comando de Michael Schumacher, que conquistaria seu penúltimo título naquele ano.

As regras, então, nem se fale: classificação com apenas uma volta lançada, sistema de pontuação distinto (ao invés de 4 pontos entre o vencedor e o segundo, a diferença foi diminuída para 2 naquele ano numa tentativa de frear Schumacher), motores V10 3.0L…

Mesmo que as informações não sejam tantas quanto nos demais circuitos, espera-se um cenário parecido com o Canadá. Afinal, são quatro grandes retas, uma volta curta (em torno de 1min08, o que é promessa de mais uma classificação apertada) e os mesmos pneus (supermacio e macio).

O que diferencia o circuito de Spielberg é o tipo de curvas – saem as chicanes e entram curvas de baixa velocidade. De qualquer forma, um carro com boa velocidade final e boa tração tem tudo para se dar bem.

Como passa-se cerca de 70% do tempo com o pé embaixo, espera-se um alto consumo de combustível, a exemplo da pista do Canadá. Na última etapa, um Safety Car longo logo no início da prova fez com que as equipes não tivessem de economizar muito durante a corrida, mas a história pode ser diferente neste final de semana.

Como as freadas também são fortes, são esperadas novas dificuldades de freio, ainda que não tão severas quanto em Montreal porque os muros não são tão próximos e, consequentemente, a refrigeração é maior.

Outra fonte de preocupação deverão ser os motores. Como a pista está localizada em uma região de 700m acima do nível do mar, os turbos têm de girar mais rápido para compensar a perda de pressão atmosférica.

Tudo isso significa que a vantagem da Mercedes deve continuar, com a Red Bull se aproveitando de sua tração e buscando outras duas vantagens (o fator casa e o novo combustível da Total, um dos motivos para o motor Renault perder em relação aos demais) e a Williams tentando manter o ótimo nível de Montreal. Mais atrás, a Ferrari torce por um final de semana de temperaturas mais amenas para poder usar todas as novidades testadas no Canadá e salvar outro final de semana que, no papel, promete ser difícil.

Todos juntos, vamos!

Minha relação com as Copas do Mundo começa em 94. Fazia poucos meses que havia me mudado de uma cidadezinha de 12 mil habitantes, que nem semáforo tinha, para outra, na época, com pouco menos de um milhão de pessoas. Mas aquele movimento da cidade grande que me causava estranheza um dia cessou de uma maneira que eu jamais imaginava que fosse possível.

Era dia 20 de junho de 94 e o Brasil estreava contra a Rússia. Foi ao ver-me em meio a um silêncio absoluto no meio de uma tarde em pleno dia de semana que eu entendi o que era uma Copa do Mundo.

Nada nunca foi igual àquela Copa de 94 para mim. E não me refiro à empolgação pelo esperado tetra. Com o passar dos anos, fui vendo que a tal “corrente pra frente” tinha seus problemas, fui vendo que enaltecer aquele brasileiro que dribla os certinhos europeus só imortalizava aspectos da nossa cultura do jeitinho que não me agradam. E que isso precisava ser documentado.

Tivemos câmera furtada no meio do caminho e outras dificuldades técnicas. Mais Brasil impossível. O documentário abaixo serviu como meu projeto de conclusão de curso e foi filmado em 2006. É um trabalho feito a seis mãos com as excelentes jornalistas Leila Bonfietti e Patrícia Lopes. Espero que gostem!

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=pY9lrBtX7f4&w=480&h=360]
 

GP do Canadá por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Bateu, mas bateu atacando”

Motor Racing - Formula One World Championship - Canadian Grand Prix - Race Day - Montreal, Canada

“Rosberg vai defender a ponta como um diabo, vai fazer de tudo”. O GP do Canadá prometia ser mais uma briga ferrenha entre os pilotos da Mercedes, mas acabou se tornando muito mais do que isso.

Na largada, Hamilton coloca de lado e recebe o cartão de visitas do companheiro, que o joga para fora. “Se tivesse mais reta, Hamilton teria passado. Tentou fazer a curva por fora e o Rosberg tinha o direito de fazer a curva e Lewis fez o correto, pensando na corrida, e abriu. O Rosberg deu uma jogadinha, mas é coisa de corrida”, explica Luciano Burti, na Globo.“Limpo ou não, era o que tinha de fazer”, acredita Pedro de la Rosa, na Antena 3. “Lewis tem porque pensar que tinha o direito de tentar a manobra por fora ali, mas a defesa de Rosberg foi justa, ainda que um pouco rude. E inacreditavelmente as duas asas dianteiras ficaram intactas”, Martin Brundle segue a mesma linha na Sky Sports.

Mas a disputa logo é interrompida pelo forte acidente entre as duas Marussia, que traz o SafetyCar à pista. Max Chilton perde o controle na entrada da curva 4 e acerta o companheiro Jules Bianchi, em um “acidente que não tem culpa porque Chilton estava sem o controle do carro”, para Burti. Para Brundle, contudo, o britânico é culpado. “Temo que isso seja culpa de Max. E fiquei impressionado com como essas Marussia se despedaçaram com esse toque”, diz o inglês, comentário semelhante ao dos espanhóis.

Poucas voltas após a relargada, Daniel Ricciardo antecipa sua primeira parada em “uma estratégia para ganhar a posição de Massa. Ele volta com pista livre e isso ajuda muito”, explica Burti, demonstrando esperar que a manobra funcione. “Com certeza eles surpreenderam a Williams com isso”, crê Brundle.

Porém, no final das contas, nem precisava ter ousado na estratégia. Reginaldo Leme é rápido em ver que o tempo de parada de Massa fora de 7s, bem mais lento que o normal. Os britânicos não percebem e têm dificuldades em explicar por que o brasileiro perdeu quatro posições após a parada, enquanto os espanhóis estão mais preocupados com a demora de Alonso em fazer sua primeira troca de pneus, temendo que o compatriota perca terreno, o que não acontece.

Motor Racing - Formula One World Championship - Canadian Grand Prix - Race Day - Montreal, CanadaLogo uma variável importante fica clara:“as Force India devem fazer só uma parada e isso pode mudar a prova”, avisa o narrador Luis Roberto. É Hulkenberg quem se coloca à frente de Vettel, que já havia parado. “Grande piloto, foi um destaque do ano passado. Não é fácil passar ele não”, avisa Reginaldo. “É uma (boa ou má?) notícia para Vettel porque quem parará uma vez vai começar a atrapalhar”, prevê Brundle.

Enquanto isso, lá na frente, os primeiros problemas para a Mercedes: pressionado por Hamilton, Rosberg perde a freada e vai reto na chicane. Com isso, escapa do companheiro.“Vimos claramente que ele perdeu a freada e não aliviou. O que diz a regra é que, se passa reto na chicane, tem de devolver o tempo ganhado. Não foi justo”, opina De la Rosa, que quer o troco.“Sou muito contrário a essas chicanes com tanto asfalto, porque é isso que acontece. O Nico recebeu um aviso e, se fosse Hamilton, passava reto também e reapareceria colado na caixa de câmbio do Rosberg.” Brundle observa que o alemão “fez a volta mais rápida da corrida” com a manobra e também espera que os comissários tomem alguma atitude. “Vamos ver o que os comissários acham disso. Porque ele não ganhou posição, ele evitou perder, e não há nada no regulamento que cubra esse tipo de situação.” O que surpreende o inglês é que “não ouvimos Hamilton reclamar disso, nem de nenhuma outra coisa”, ao contrário das provas anteriores. Já Burti lembra que “quando o piloto erra uma vez, é normal. O problema é se fizer isso mais vezes.”

A punição, de fato, não veio, mas logo os dois pilotos começariam a reclamar de falta de potência. Era o Kers que havia falhado nas Mercedes e não havia nada que a equipe pudesse fazer para evitar a flagrante queda de ritmo. Os comentaristas se animam.“A Force India passa a 280 e os Mercedes, a 268km/h na linha de chegada”, De la Rosa confere que o problema é grave. “Se o Massa continuar nesse ritmo, ele pode chegar na Mercedes”, Burti faz as contas. “Se os problemas da Mercedes não se resolverem, o grande candidato para a vitória é Massa”, concorda Brundle, que vê Rosberg “mais assustado” com os problemas.

No meio da primeira chance real na temporada de ver as Mercedes perdendo uma corrida, só os britânicos prestam atenção em um lance que seria capital – e que até a geração de imagens perdeu: Ricciardo volta da segunda parada à frente de Vettel. “Ele pediu para a equipe ajudá-lo com a estratégia e deu certo, mas com o outro”, diz o narrador David Croft.

Falando em estratégia, a Williams pede que Massa economize pneus porque querem converter sua tática para uma parada apenas. O brasileiro estava na liderança, com as duas Mercedes atrás após seus pit stops. A ousadia divide opiniões. “Mais importante do que estar na frente, Massa tem dois escudeiros nas duas Mercedes para proteger contra os outros”, observa Burti em uma transmissão brasileira tomada pela empolgação. E eles não estão sozinhos: “Essa mensagem quer dizer que a Williams acredita que pode vencer. Seria a primeira vitória de Massa desde 2008!”, exclama Croft. De la Rosa, por sua vez, coloca um balde de água fria. “É bastante otimista Massa não parar mais.”

O espanhol está certo e a Williams logo desiste da tática. Antes, contudo, mais uma reviravolta na Mercedes: a parada de Rosberg é lenta, Hamilton o passa, mas logo no retorno à pista seus freios começam a falhar. Os britânicos estão em cima do lance. “Lewis foi muito fundo no hairpin, acho que ele perdeu a posição. Sim, perdeu!”, Brundle vira narrador.

Não demora para todos perceberem a fumaça saindo dos freios traseiros da Mercedes do inglês. “Já era, Hamilton tá fora”, sentencia Reginaldo. “Pobre Hamilton”, Antonio Lobato demonstra compaixão. “Problemas, problemas, problemas. Hamilton vai abandonar o problema. Deve ter quebrado a suspensão quando passou reto na chicane”, erra o narrador, logo socorrido por De la Rosa. “Perdemos o melhor da corrida, precisamos ver o que aconteceu no hairpin, se eles se tocaram ou se Hamilton começou a ter problemas nos freios.” Não, não foi um toque. Certo, Brundle? “Sabe o que aconteceu? O fato do motor elétrico ter quebrado forçou o freio. O mesmo vai acontecer com Rosberg.”

Voltando a Massa, o brasileiro para e volta em sétimo. “Para quem ia tentar chegar até o final, ele agora está bem atrás no pelotão. Fico imaginando se ele não teve um furo no pneu”, Brundle não se conforma com a mudança na estratégia da Williams. Reginaldo também não, mas por outro motivo: Felipe voltou atrás do companheiro Bottas, que está mais lento. O comentarista quer uma ordem de equipe. “O time inglês é um pouquinho mais lento no raciocínio. É a possibilidade até de lutar pela vitória.” Aquele que acreditou desde o começo que se manter na pista era roubada, De la Rosa, apoia. “A equipe Williams foi inteligente, agora o pódio está à vista. Ele tinha que parar, não chegaria no final se não parasse.”

Demorou algumas voltas, mas Massa se aproveitou de um erro de Bottas e passou o finlandês e Hulkenberg numa tacada só, para a alegria de Brundle, que continua apostando no brasileiro para a vitória. “Isso foi ótimo para Massa, caiu no colo dele, agora ele voltou para a briga porque ele tem muita velocidade. Ele estará a 6s da liderança ao final da volta, mas com muitos carros para passar. Massa precisa passar um carro por volta agora, tem carro para fazer isso.”

Lobato não tem tanta certeza. “Os deuses da Mercedes hoje estão tendo um dia de mortais”, define. “Então, em quem apostar? Se Rosberg consegue resolver seus problemas, é nele. Perez está fazendo uma grande corrida, mas tem os pneus mais velhos. Outra opção é a Red Bull, com Ricciardo ou Vettel.”

Segundo colocado com a tática de uma parada, Perez consegue se manter à frente das Red Bull, mas britânicos e espanhóis chamam a atenção para como o mexicano não se aproxima de Rosberg. “O que está salvando Rosberg é que o DRS de Perez não está abrindo”, diz o comentarista Jacobo Vega, dando a entender que há um problema com a Force India. Mas Croft resolve o mistério: “Não acho que é um problema de DRS, acho que ele perde tanto tempo nos dois primeiros setores que, mesmo se aproximando nas retas, não consegue ficar a menos de 1s.”

Nas últimas voltas, vai ficando claro que, se alguém poderia roubar a vitória de Rosberg, seria uma das Red Bull. E Ricciardo vai ao ataque, passando Perez com quatro voltas para o final. “Ricciardo passou, que corridaça! Cuidado que ele vai à caça de Rosberg”, diz Lobato, aos berros. Na penúltima volta, o australiano passa o alemão. “Incrível! A Red Bull lidera uma prova em que eles não acreditavam que teriam nenhuma chance!”, se empolga Croft.

E o candidato de Brundle? “Mais uma vez, acho que faltou um pouco de determinação a Massa. Você tem de se arriscar mais, Felipe, porque a corrida está escapando”, pede Lobato. “Bora, Felipe. Pra cima do Sergio Perez!”, suplica Luis Roberto. E vem a batida.

“Que erro de Massa! Acabou com a corrida de Perez”, se precipita Lobato. Os comentaristas esperam vários replays e ficam um Motor Racing - Formula One World Championship - Canadian Grand Prix - Race Day - Montreal, Canadatanto em cima do muro. “É difícil dizer, mas houve um erro de cálculo. O Perez se mexeu um pouco, o Felipe tentou a ultrapassagem… coisa de corrida. Faltou espaço para os dois carros. Perez mexeu um pouco o carro na freada e talvez o Felipe tenha sido otimista demais”, opina Burti. “O que vemos é Massa buscando a tangência mais à direita e Sergio parece que freia mais pelo lado de dentro. O que não vemos é se ele muda de trajetória ao frear”, acrescenta De la Rosa. “Parece que Perez puxou um pouco para a esquerda e sabemos que ele tinha problemas de freio. Isso claramente pegou Massa de surpresa”, Brundle segue o mesmo raciocínio.

Mesmo com o acidente, Reginaldo faz questão de exaltar a performance de Massa. “Ele voltou a nos entusiasmar, atacando o tempo todo, fazendo exatamente aquilo que precisava fazer. A tentativa da Williams de não parar novamente seria muito difícil, mas a equipe poderia ter pedido para o Bottas abrir antes porque ele poderia lutar pela vitória. Ele bateu, mas foi atacando, tentando chegar nos líderes para lutar pela vitória. Isso é muito importante.”

Mas o entusiasmo em pessoa, como não poderia deixar de ser, era Ricciardo, após vencer pela primeira vez na carreira. “A Mercedes ficou oferecendo a corrida para todos e ninguém parecia que ia aproveitar”, se impressionou Brundle, enquanto De la Rosa voltava no tempo. “Quando fiz meu primeiro teste na HRT, usei o assento do Ricciardo e perguntei o que achavam dele. Disseram-me que era ok. Às vezes, com um carro ruim, você se perde no final do pelotão. Ele teve que chegar à Fórmula 1 andando com um piloto como Vettel para que todos os valorizassem como merecia.”

Mas o grand finale ficou com Croft, citando a frase “nice guys finnish last” – ou a quebra dessa escrita. “Dizem que caras bonzinhos não chegam em primeiro. Mas um deles conseguiu hoje.”

As táticas: por que foi Ricciardo – e não Massa – que ganhou no Canadá?

Motor Racing - Formula One World Championship - Canadian Grand Prix - Race Day - Montreal, Canada
O ultrapassagem sobre Perez, do jeito que dava, foi fundamental, mas não explica tudo

Os problemas no MGU-K e as consequentes dificuldades nos freios deram a deixa para os rivais da Mercedes se aproveitarem – e mesmo com 160hp a menos por metade da prova Nico Rosberg conseguiu chegar em segundo! Mas por que não foi Vettel, que largava em terceiro, que venceu o GP do Canadá? E Felipe Massa, poderia realmente ter vencido?

Ao cruzar a linha de chegada, Vettel lamentou sua estratégia via rádio. O tetracampeão largara em terceiro e voltara, após a primeira parada, atrás de Hulkenberg, que só faria um pit stop. O alemão ficou travado até sua segunda troca, quando foi superado por Ricciardo, o que o surpreendeu e provocou a reclamação.

Na volta 35, o trenzinho liderado por Hulk tinha Vettel a 0s7 e Ricciardo a 1s2 do companheiro. A Red Bull fez o certo e chamou o piloto que ia à frente primeiro, o que deveria manter as posições. Porém, segundo Helmut Marko, houve um problema no GPS, o que fez com que a equipe não percebesse que, após a parada, o alemão ficaria travado pela outra Force India, de Perez.

Seria esse o motivo pelo qual Ricciardo, que estava atrás e parou na volta seguinte – estando, teoricamente, em desvantagem – retornou da segunda parada entre o mexicano e seu companheiro, ganhando também a posição de Bottas, cuja parada foi lenta.

Os tempos perdidos no box foram idênticos entre os pilotos da Red Bull, mas as in/out laps de Ricciardo foram mais rápidas – 1s8 no total. Claro que a ultrapassagem sobre Perez na volta 66 foi fundamental mas, taticamente, foi aí que o australiano ganhou a prova.

Massa poderia ter vencido?

A Williams número 19 certamente foi o carro consistentemente mais rápido do GP do Canadá, mas como explicar que Felipe Massa bateu lutando apenas o quarto lugar na penúltima volta?

O primeiro golpe foi a tática agressiva da Red Bull de parar Ricciardo já na volta 13. O australiano estava a 0s5 do piloto da Williams ao entrar no box e, quando o time inglês optou por responder primeiro com Bottas, que estava 2s na frente do australiano, as chances de Massa manter a posição já eram pequenas – e foram para o espaço quando uma falha na pistola fez o brasileiro perder 4s5 e posição também para Alonso, Vergne e Kvyat. A tática não foi um erro: é de praxe a equipe proteger seu piloto melhor classificado e o mérito é da Red Bull ter enxergado a brecha.

Portanto, mesmo sem o problema no primeiro pit, Massa teria que tirar Ricciardo do caminho em algum momento da prova. Ritmo e velocidade de reta ele tinha, apesar da clara vantagem da Red Bull nas saídas de curva, mas aí começam a entrar vários “se”.

A questão da tentativa de uma parada apenas jamais funcionaria e a Williams acertou em abortá-la. Quando o time estudava isso, Perez já tinha um ritmo 1s/volta mais rápido, faltavam 25 voltas e a diferença era de 11s.

Só demorou um pouco para a equipe perceber isso: se parasse na volta 43 ao invés da 48, Massa teria a chance de voltar à frente do pelotão de Bottas e Hulkenberg. Para passar ambos, desperdiçou pouco tempo (só 1s8 em relação a Vettel), mas obviamente desgastou os pneus e perdeu 9 voltas para atacar.

As polêmicas do GP do Canadá: Massa ou Perez? Rosberg deveria ser punido?

frame

Esperei um pouco para escrever sobre o incidente entre Massa e Perez para entender as opiniões de vocês e poder explicar alguns pontos com base no que está efetivamente escrito nas regras e depois de ouvir os depoimentos de todos os envolvidos.

– “Massa estava rápido demais e jamais faria a curva”: segundo Rob Smedley, os dados entregues à FIA dão conta que Massa freou 5m antes do que havia feito na volta anterior.

– “Massa vira à direita”: de fato, mas observem que não é uma reta. Ele busca um posicionamento mais à direita para estar em um ângulo melhor para fazer a curva. Assim, assume um risco maior de colisão, e essa é sua parcela de culpa, ainda que ele não invada a trajetória de Perez, como mostra este frame by frame acima. As trajetórias se cruzam porque Perez estranhamente mantém o volante reto, o que joga o carro para a esquerda. Observe no vídeo como ele se afasta da linha branca, ao contrário de Vettel, que faz a trajetória normal.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=_0PuSoufowQ&w=560&h=315]

– “Perez tem direito a um movimento de defesa”: isso só é verdade fora das zonas de freada. Tanto, que a punição de Perez foi por mudança de direção na freada.

– “Perez poderia ter virado à esquerda para tentar dar o troco em Vettel”: isso não justifica, deveria ter olhado o espelho antes de tentar, mas não acredito que seja o caso. É mais possível que o movimento seja consequência de um desequilíbrio na freada pelos pneus desgastados.

– “A Force India deveria ter pedido para Perez abandonar porque tinha problemas de freio”: Isso veio da Williams e não faz sentido, pois tratava-se de uma falha no brake by wire e, após o piloto ter resetado o sistema, pelo que se sabe a situação melhorou e não era um problema “terminal”, como disse Smedley.

Eu vejo como incidente de corrida: tanto o movimento de Massa para a direita, em menor proporção, quanto o de Perez para a esquerda, resultaram na colisão, de maneira quase simultânea. Mal comparando, é como aquele impedimento milimétrico que, mesmo após milhares de replays, não fica 100% claro.

Geralmente, o piloto que vai à frente tem direito de escolher sua linha, mas me desagrada a forma como Perez move o carro na freada – e não é de hoje. Inclusive, compreenderia se o histórico do mexicano tenha pesado para a punição.

CASO ROSBERG

Também vi por aí algumas opiniões que demonstram desconhecimento da regra para determinar punições para quem salta chicanes. O texto diz “quando um piloto sai dos limites da pista, ele deve voltar quando for seguro fazê-lo e sem ganhar uma vantagem duradoura” – e esse “duradoura” é novidade, apareceu no regulamento deste ano. Não existe nada diferenciando defesa e ataque de posição ou coisa do tipo.

Rosberg ganhou vantagem cortando a chicane? Sem dúvida. Ela foi duradoura? Aí está a questão. Aos dados:

Tempos de volta de Rosberg

Volta 24 – 1:19.160

Volta 25 – 1:18.616 (corta a chicane)

Volta 26 – 1:19.648

Nico se defendeu dizendo que diminuiu a velocidade na volta seguinte, o que ficou comprovado pelos tempos, “devolvendo”, assim, a vantagem que havia tido na volta 25. E foi matemático: ganhou 0s5 passando reto e foi 0s5 mais lento que seu tempo de volta “normal” no giro seguinte.

O problema para Hamilton é que sua volta 26 foi lenta (1:19.5). Por isso, a diferença permaneceu acima de 1s mesmo depois da “devolução” de Nico.

Diferença Rosberg x Hamilton

Volta 24 – 0s564

Volta 25 – 1s184

Volta 26 – 1s065

O que será que a FIA deveria fazer nesse caso? Pedir que Nico desacelerasse até voltar ao 0s5 de diferença? Acredito que Rosberg tenha feito muito bem seu papel para evitar uma punição.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP do Canadá

 

Vettel2 a 5Ricciardo
Hamilton4 a 3Rosberg
Alonso5 a 2Raikkonen
Grosjean7 a 0Maldonado
Button4 a 3Magnussen
Hulkenberg5 a 2Perez
Sutil3 a 4Gutierrez
Vergne6 a 1Kvyat
Massa3 a 4Bottas
Kobayashi6 a 1Ericsson
Bianchi4 a 3Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: 0s041

Rosberg x Hamilton: 0s079

Alonso x Raikonnen: 0s400

Grosjean x Maldonado: 0s598

Button x Magnussen: 0s096

Hulkenberg x Perez: 0s172

Sutil x Gutierrez: sem tempo

Vergne x Kvyat: 0s458

Massa x Bottas: 0s028

Kobayashi x Ericsson: 0s542

Chilton x Bianchi: 0s011

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Paciência

Motor Racing - Formula One World Championship - Monaco Grand Prix - Wednesday - Monte Carlo, Monaco

A tabela do mundial aponta que Fernando Alonso foi responsável por mais de 78% dos pontos da Ferrari até aqui, número bem superior à média de 68% da época em que o espanhol dividia a equipe com Felipe Massa. Dentro dessa conta, há uma parcela de mérito do próprio bicampeão, cuja principal qualidade é maneira como identifica os momentos-chave do final de semana para maximizar seus resultados. E, do outro lado do box, uma dificuldade de adaptação de Kimi Raikkonen.

E alguns azares também. Das seis etapas disputadas até aqui, houve três finais de semana em que Raikkonen andou de igual para igual com Alonso. Na Malásia, enquanto a pista esteve seca, andou com ritmo até ligeiramente superior. Na Espanha, acabou ficando com a estratégia mais rápida no papel, porém mais lenta na prática, e foi ultrapassado com três voltas para o final. Em Mônaco, levou lavada na classificação, mas vinha fazendo uma corrida sólida, com grande chance de pódio, até encontrar Max Chilton pelo caminho.

Resultados

 AUSMALCHIBAHESPMON
Raikkonen712108712
Alonso449364

 

 RaikkonenAlonso
Placar em classificação24
Dif. Média em classificação+0s645 
Voltas à frente em corrida87278

Os números, portanto, não contam toda a história dessa disputa interna na Ferrari. Mas também é verdade que o rendimento de Kimi ainda está aquém do que ele pode, como reconheceu o próprio diretor técnico James Allison. Um exemplo recente, contudo, mostra que é prudente dar mais tempo ao finlandês.

Sua situação lembra a de Lewis Hamilton em 2013, seu primeiro ano de Mercedes. A exemplo de Raikkonen, muito se falava que o inglês tinha problemas de freios, que era de marca diferente ao que ele estava acostumado na McLaren. Mas perguntei a ele sobre isso e Lewis explicou que a questão era mais ampla:

“Fiquei muito tempo na McLaren, então todo ano o carro era feito para mim e era muito confortável para mim, podia colocá-lo onde quisesse. Neste ano, eu tive muita dificuldade e não consegui atingir meu potencial. Houve boas corridas, mas, mesmo nestas, eu poderia ter ido melhor. Se eu estivesse feliz no carro, seria muito diferente. Ano que vem, terei muito mais influência. Não vou pilotar o carro do Michael [Schumacher], mas sim o meu.”

Dito e feito. O carro atual da Ferrari começou a ser pensado ainda em 2012, quando a presença de Raikkonen sequer era cogitada. Na própria experiência inicial do finlandês no time italiano, demorou uns bons seis meses para os resultados se tornarem mais consistentes – tão consistentes que Kimi acabou campeão. Melhor, portanto, não duvidar que ele pode dar a volta por cima.

Nada de tanque cheio

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51,2% da corrida percorrida, 41,34% do total de combustível que o carro poderia ter consumido. E vem o pedido do box para economizar: isso só pode significar uma coisa.

O temor de que as restrições de combustível do novo regulamento dessem uma esfriada nas disputas durante as corridas acabou se dissipando nestas primeiras etapas, com motores eficientes e pilotos dando-se bem com os lift and coast da vida (técnica na qual tira-se o pé do acelerador antes do normal nas freadas). Mas o GP de Mônaco escancarou como a quantidade de combustível utilizada é parte importante da estratégia.

Desde o final do reabastecimento, em 2010, engana-se quem pensa que o carro larga com combustível suficiente para terminar a corrida com sua mistura mais potente/rica. Isso porque simplesmente esta não é a forma mais rápida de terminar uma corrida, tendo em vista o desgaste de pneus gerado ao se forçar 100% do tempo + peso carregado durante a prova. Cada time tem um cálculo, baseado nas características de seu carro/motor de qual seria o caminho mais rápido e quanto vale economizar combustível para chegar antes à bandeirada. É mais um “tapa na cara” daqueles que acham que corrida de carro é pé no fundo o tempo todo.

Quando o regulamento deste ano foi divulgado, esperava-se que essa tendência de abastecer um carro com menos combustível do que ele precisaria para completar a prova desapareceria, uma vez que as equipes já estariam obrigadas, por regulamento, a largar com até 100kg – até o ano passado, a quantidade era de até 160kg dependendo do circuito. Mas vimos logo nas primeiras etapas que não é assim. Tanto, que até os gráficos da transmissão mudaram das primeiras provas para cá.

Lembre que, na Malásia, a Williams aparecia gastando menos de 90% do combustível mesmo nas voltas finais? Não faria sentido um time economizar tanto a ponto do carro ficar pesado e perder velocidade no final, certo? A verdade é que o erro não estava no cálculo do time inglês, mas na maneira do gráfico ser apresentado. Explico: ao colocar a percentagem, levava-se em consideração que todos largaram com o peso máximo, 100kg. Não é bem assim.

A saída foi colocar o combustível gasto em kg. Assim, sabemos a quantidade gasta comparativamente, mas não sabemos o quanto falta para acabar. É isso que explica por que pedia-se para Rosberg economizar mesmo com ele tendo gasto menos da metade dos 100kg teoricamente disponíveis com mais de metade da prova percorrida em Mônaco: ele largou com bem menos que os 100kg.

É heresia pensar que as equipes vão divulgar por livre e espontânea vontade a quantidade de combustível exata com que largam. Afinal, isso faz parte da estratégia, assim como as paradas no box ou o composto com que um carro vai largar.

O que podemos observar é a luz vermelha que pisca na traseira do carro que está usando mapas de motor econômicos (ela é acionada automaticamente se o piloto está com 95% do pedal de aceleração apertado, a mais de 180km/h e observa-se uma redução a partir de 120KW no torque). É uma forma que a FIA encontrou de avisar os demais que pode haver um carro mais lento na pista. E acabou virando o último vestígio para tentar entender uma variável importante nas disputas de uma Fórmula 1 que tem um regulamento válido por um lado, mas complicado demais por outro.

Pianinho

Motor Racing - Formula One World Championship - Monaco Grand Prix - Friday - Monte Carlo, Monaco

Durante sua perseguição a Nico Rosberg no GP de Mônaco, Lewis Hamilton esbravejou via rádio que sua equipe deveria tê-lo chamado aos boxes uma volta antes para lhe dar a chance de sair mais rápido após a troca de pneus e, assim, superar o companheiro. Depois de chegar em segundo, atrás do alemão, voltou a criticar a Mercedes, afirmando que, em seu ex-time, a McLaren, a história teria sido diferente.

Hamilton defende que a Mercedes tenha dois estrategistas: um trabalhando para dar as melhores chances para Rosberg, outro para ele. Segundo o piloto, a McLaren age dessa maneira. No time alemão, o chefe Toto Wolff assegurou que a postura é sempre dar prioridade para quem está na frente na pista.

Não há dúvidas que, do ponto de vista esportivo, Hamilton tem razão. Ainda mais em um ano em que é bem provável que ele e Rosberg lutem sozinhos pelo título. Afinal, após seis das 19 etapas disputadas, eles já têm ao menos 57 pontos, o equivalente a mais de duas vitórias, de vantagem para o terceiro colocado, Fernando Alonso. De certa forma, ao permitir uma briga tática entre seus pilotos, a Mercedes estaria fazendo um grande favor ao campeonato, dando mais emoção às corridas, pois as variáveis aumentariam. Mas a que preço?

Imagine se Hamilton tivesse, de fato, parado uma volta antes de Rosberg e voltado na frente. Isso depois do alemão ter feito a pole – de forma controversa, é verdade, mas nada foi provado contra ele – e mantido a ponta de maneira irrepreensível até ali. Até que ponto o piloto culparia seu engenheiro por não ter percebido a brecha tática ou desconfiaria que está sendo prejudicado pelo próprio time?

Foi o que aconteceu com a própria McLaren na última vez em que o time teve seus dois pilotos efetivamente lutando pelo título. Houve muita confusão nos bastidores em 2007, com o escândalo da espionagem, mas a desconfiança de Alonso de que Hamilton, cria da equipe desde a adolescência, recebia tratamento diferenciado, gerou um clima contraproducente que, em última análise, abriu o espaço para o título de Kimi Raikkonen, de Ferrari.

Mais do que isso: o mal estar tornou a permanência de Alonso, que assinara por três anos, insustentável. Hamilton não pode deixar que o mesmo aconteça. Também no meio de um contrato milionário, está no lugar e hora certos para ser campeão não apenas neste ano, pois a Mercedes tem estrutura para levar o atual domínio para as próximas temporadas. Está na hora de abaixar a cabeça e trabalhar para garantir, na pista, as maiores chances de vencer.

Coluna publicada no jornal Correio Popular.

GP de Mônaco por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Vai ser um longo ano”

O glamour...
Ah, o glamour…

Com o clima pegando fogo dentro da Mercedes e a expectativa de brasileiros, espanhóis e britânicos por um ataque de Lewis Hamilton para cima de Nico Rosberg, houve quem se perdeu com a única ação que se materializou nas primeiras filas: Daniel Ricciardo sendo superado por Sebastian Vettel e Kimi Raikkonen.

“Largada decente para Rosberg e Hamilton tem de ficar atrás. Olhem Raikkonen pressionando Sebastian Vettel e passando!”, se confunde David Croft, na Sky Sports.“O Alonso vem brigando e ganha uma posição”, Galvão Bueno também erra na Globo. Erro justificável, para Martin Brundle. “Normalmente é Alonso que começa atacando, desta vez foi Raikkonen que foi muito corajoso na curva 1.”

Muito corajoso na linguagem dos britânicos, ou “um autêntico míssil”, como narra Antonio Lobato na Antena 3.“Fiquei com a impressão que Fernando teve de levantar para não bater na Red Bull. Em Mônaco não depende só da sua largada, mas também de quem está na frente”, lamenta Pedro de la Rosa.

No meio do pelotão, Perez tenta superar Hulkenberg por fora na Mirabeau, mas é tocado por Button, que vinha atrás. “Acho que Sergio deveria ter deixado um pouco mais de espaço. Era quase certo que haveria alguém ali”, opina Brundle. Rubens Barrichello vê o contrário. “Magnussen (sic) tentou colocar por dentro mas não tinha espaço”. E Galvão destaca como “os dois carros da Williams passaram por um fio de cabelo.”

O incidente traz o Safety Car à pista. Na relargada, Vettel aparece lento.“Vettel dormiu… não, não. Ele tem problemas. Ele fez uma grande largada, estava lutando pelo pódio e o carro lhe deixa na mão. Isso é síndrome de Mark Webber”, defende Lobato. Fim de prova para o alemão.

Com o abandono, Raikkonen assume o terceiro posto, “pilotando mais que seu carro”, segundo Brundle. A sua frente, Hamilton “está pilotando mais com raiva do que qualquer outra coisa”, nas palavras de De la Rosa. Os espanhóis acreditam que Hamilton vai lutar a prova inteira e lembram de 2007. “Tínhamos um problema de freio e Fernando estava administrando, mas Lewis ficou forçando e colocou a prova dos dois em risco”, diz o comentarista, que era piloto de testes do time na época. “E a equipe pediu que se acalmasse mas, mesmo assim, ele continuou pressionando.”

Em uma tarde Mãe Dinah, De la Rosa não gosta da maneira como a informação é dividida dentro da Mercedes. “Se um engenheiro sabe o que o outro está fazendo, não dá para você tentar surpreender o outro carro e parar antes, por exemplo. E a tendência é sempre que priorizem quem vai à frente. Mas, se eu fosse Hamilton, tentava parar antes. Eles deveriam deixar cada um fazer a própria tática. O restante das informações deve ser dividido porque ajuda a equipe a evoluir”. Esta seria a reclamação do próprio Lewis voltas depois.

Motor Racing - Formula One World Championship - Monaco Grand Prix - Sunday - Monte Carlo, MonacoCroft não tem certeza se parar primeiro seria a melhor opção. “Se os pneus estiverem demorando para aquecer, talvez Rosberg não queira parar antes e deixar Hamilton com ar livre”, acredita. Mas Brundle não descarta que a prova seja decidida de outra maneira. “Se eu fosse Kimi ou Ricciardo, eu pensaria ‘eu posso vencer essa corrida’, porque não está descartado que essas Mercedes se embolem.”

Galvão acredita que “Hamilton parece mais rápido que Rosberg, mas se chegar é uma coisa, passar é outra, imagina em Mônaco”. O comentarista espanhol Jacobo Vega segue a mesma linha, diz ver “que Lewis está mais lento”. Mas Lobato retruca: “Eu vejo Nico na frente na pista! Lembra de Mansell perseguindo Senna? Acabou a corrida tonto.”

Além da briga pela ponta, a transmissão da Globo foca nas críticas à tática da Williams. Galvão queria que Massa tivesse largado com os pneus macios. “Massa está limitado pelo Bottas. Se ele estivesse com pneus diferentes, ficaria na pista até o final e tentaria lucrar com pneus macios no final. Mas a Williams é muito tradicional nas estratégias”, critica.

As dúvidas quanto à estratégia do brasileiro só aumentam quando ele é o único que não aproveita o Safety Car provocado por Adrian Sutil – “o único que estava fazendo graça”, para Galvão – para fazer seu pit stop. “A chance que o Massa tem é que os outros tenham problemas com os pneus e ele consiga abrir. A Williams arriscou agora, mas não da forma como a gente gostaria”, observa Barrichello. “Mas ele é o mais lento de todos! Para fazer isso, tinha que ter largado com pneus macios”, insiste Galvão. A tática foi questionada por todos. “Massa não tem muito mais rendimento em seu pneu, mas tem posição de pista. Veremos como isso vai funcionar. Será muito difícil”, reconhece Brundle. “Não dá para entender a tática de Massa”, diz Lobato.

Outro problema das paradas sob o Safety Car foi na Mercedes.“Por que vocês não me pararam na volta anterior?”, questionava Hamilton via rádio.“Quando era claro que o SC era inevitável, né?”, Brundle entende logo de cara o que queria o inglês. “Como eles iriam saber? Não faz sentido”, Lobato não compreende. “Hamilton deve estar bravo porque era a única chance de Hamilton passar Rosberg. Agora estão na mesma estratégia”, resume Barrichello.

O período de Safety Car ainda guardaria mais uma surpresa: a parada dupla de Raikkonen, sendo a primeira planejada e, a Untitled-1segunda, causada por um toque com Max Chilton, que não apareceu na transmissão. “Como é possível que Chilton tenha tocado Raikkonen ao descontar uma volta? É uma pena porque ele vinha fazendo uma grande corrida”, Lobato não se conforma. “Esse vai ficar bravo”, prevê Barrichello.

Após a relargada, Hamilton segue na cola de Rosberg e Lobato teme pelo ‘pior’. “Ai, ai, ai, ele vai tentar. Estou convencido. Já vivi isso há alguns anos. Hamilton deve ter pesadelos com Mônaco”, em uma nova referência a 2007.

Mas quem tenta – e consegue – é Hullkenberg, na Portier, para deleite de Brundle (“você vai ter que ir bem longe nos livros históricos para achar outra igual!”), e Bianchi, na Rascasse, “dando cotoveladas, como se estivesse em um carrinho de bate-bate”, como narrou Lobato.

Falando em Bianchi, apenas na Globo pairou a dúvida sobre sua punição. Barrichello repetiu algumas vezes que era estranho ele ter um stop and go e não parar, porque “teria de fazer isso em três voltas”. Porém, os demais explicaram que há uma regra nova. “O bom desse stop and go de 5s é que você pode servir durante o pit stop. Então é uma punição, mas não arruína seu dia. É mais justo”, considera Brundle.“Os cinco segundos só se aplicam na parada ou, se não for parar, eles são somados ao tempo final. O que ele não vai poder é acenar ao público na última volta porque não pode perder tempo”, brinca De la Rosa ao explicar a situação aos espanhóis.

Outro ponto que causou reações distintas foram as seguidas mensagens que Rosberg passou a receber para economizar combustível. Para Galvão, “já está na metade da corrida e ele não chegou na metade do combustível. O engenheiro tá colocando pressão nele.” O narrador leva em consideração que o carro está com 100kg, a quantidade máxima de combustível que pode ser usada quando, na verdade, as mensagens significam que a Mercedes optou por usar bem menos. “Em Mônaco, com SC, eu não esperava ouvir em combustível nesse domingo. Eles arriscaram. Mas carregar 10kg a mais pode resultar em cerca de 8s na corrida”, explica Brundle. A informação causa surpresa em De la Rosa.“Não dá para entender isso. É um GP em que usamos uns 85kg de combustível e ainda assim tivemos dois SC. Isso é um erro de cálculo da equipe. O consumo aqui não é importante para ninguém, nem para o SC.”

Mesmo com o companheiro com problemas, Hamilton não consegue se colocar em posição de pressioná-lo. “Eu posso ver Hamilton declarando guerra depois desse GP. Lauda já esteve nessa situação, com Prost, e deveria saber como lidar com isso”, avalia Brundle.

Na volta 50, De la Rosa tem outro momento de premonição. “Hamilton deve estar com a viseira toda suja, deve ter levado pedaço de borracha na cabeça o GP inteiro. E às vezes começa a entrar todo tipo de porcaria no capacete. É muito duro ficar perto de outro carro por uma corrida toda.”

Voltas depois, o inglês diminui o ritmo de uma hora para a outra. E diz à equipe que não consegue enxergar com o olho esquerdo. “Muito incomum. Daria para tentar abrir um pouco a viseira pra limpar. Ricciardo está chegando, mas pode ser que ele não veja”, Brundle não resiste.

Lento, Hamilton chega a se irritar quando seu engenheiro insiste a lhe informar sobre a aproximação de Ricciardo. “Quero saber de Nico”, esbraveja. Mas o australiano se aproxima perigosamente. “Ele disse que não se importa com Ricciardo, mas deveria se importar porque ele está chegando muito rápido.”

Chegou, mas não passou , e a Red Bull tem de se contentar com o terceiro lugar. Com a visão em dia, Rosberg vence, e Hamilton não esconde a irritação com o segundo posto e a perda da liderança do campeonato.

“Nico tinha uma missão aqui e cumpriu, retomando a ponta do mundial”, Motor Racing - Formula One World Championship - Monaco Grand Prix - Sunday - Monte Carlo, Monacoresume Lobato. “Acho que Hamilton errou quando fez aqueles comentários sobre ser mais faminto que Nico porque vinha de família pobre e tal. Isso só aumentou a vontade dele”, avalia o narrador. “Rosberg pole position e vitória em dois anos consecutivos é para trazer muito orgulho para qualquer piloto em qualquer situação. E Massa obteve grande resultado chegando em sétimo depois de largar em 16º”, resume Galvão para os brasileiros.

“Lewis vai estar muito irritado… vamos ter muitas discussões sobre essa pole nesta semana”, resgata Brundle, que parece convencido de que Rosberg simulou o erro na classificação para prejudicar o companheiro. “Lewis estourando o champanhe parece mais que está regando as plantas”, observa. “São dois pilotos da Mercedes que não conseguem olhar um na cara do outro ou se cumprimentar”, diz Croft. E Brundle conclui: “Será um longo ano.”

O novo stop and go – que já deu errado – e os números de Mônaco

Motor Racing - Formula One World Championship - Monaco Grand Prix - Sunday - Monte Carlo, Monaco

A primeira prova em que a Marussia pontuou teve uma boa dose de drama e mostrou um ponto falho no novo regulamento esportivo. Afinal, o que é esse stop and go de 5s que pode ser cumprido após a prova?

Trata-se de uma novidade nas regras deste ano. O stop and go de 5s tem duas diferenças importantes em relação ao stop and go de 10s e ao drive through: primeiro, não precisa ser cumprido até 3 voltas depois de sua confirmação; segundo, pode ser pago junto de um pit stop normal.

O procedimento é o seguinte: quando o piloto recebe o stop and go de 5s, pode pagá-lo em seu próximo pit stop. Ele tem que ficar 5s parado sem que ninguém encoste no carro e, depois disso, a troca de pneus pode ser feita normalmente.

Caso o piloto não vá mais fazer pit stops, os 5s serão adicionados ao tempo final.

Mas o caso de Bianchi não foi tão simples. O francês recebera um stop and go de 5s por ter alinhado na posição errada no grid. E sua única parada foi durante o período de Safety Car. Foi isso que causou a confusão, pois a regra proíbe que punições sejam pagas enquanto o Safety Car estiver na pista.

Mas e se a única parada do cidadão coincidir com a entrada do SC? O regulamento não responde isso diretamente, mas a leitura dos comissários foi entender que a punição não fora paga e os tais 5s foram adicionados ao tempo final do francês.

Ainda bem que não foi o suficiente para tirar os dois primeiros pontos da Marussia depois de 83 GPs de existência, somando a época de Virgin. E olha que pontua-se até o 10º colocado desde 2010 justamente por causa deles e da Caterham, que segue zerada apesar de ter igualado seu melhor resultado da história – 11º – também em Mônaco.

Enquanto isso, lá na frente…

Foi uma tarde quase perfeita para Nico Rosberg: saindo da pole pela sexta vez na carreira (mesmo número de Emerson Fittipaldi), vencendo em Mônaco pela segunda vez – algo que só outros 13 pilotos na história conseguiram – igualando o número de conquistas do pai na carreira (5) e de pódios (17), liderando todas as voltas… só não deu para completar o primeiro grand chelem da carreira devido à ‘intrusão’ de Kimi Raikkonen, que fez a volta mais rápida da prova.

Volta rápida, inclusive, que sempre foi uma marca registrada do finlandês, terceiro colocado na história no quesito. Ele soma 40, uma a menos que Alain Prost (detalhe: os dois têm exatamente o mesmo número de largadas). No topo da lista, está Michael Schumacher, com 77. Mas o ano tem sido sofrível até aqui para Kimi: na verdade é o pior desde 2004, quando o melhor resultado até a sétima prova fora um oitavo posto.

Voltando aos vencedores, o resultado significou que a Mercedes é o primeiro carro a liderar todas as voltas das seis primeiras etapas desde a McLaren em 1988 – que perdeu a ponta pela primeira vez só na oitava corrida – e a primeira equipe a conseguir cinco dobradinhas seguidas desde a Ferrari em 2002.

Falando em Ferrari, após um GP de Mônaco marcado por quebras, o time é o único que não abandonou por falhas mecânicas até aqui. Uma das vítimas de Monte Carlo foi Valtteri Bottas, que deixou de pontuar pela primeira vez no ano. Esta lista agora só tem Rosberg, Alonso e Hulkenberg.

Já Daniel Ricciardo – que fez o 100º pódio para a Austrália, uma semana após o país perder Jack Brabham, seu maior expoente no esporte – e Romain Grosjean terminaram um GP de Mônaco pela primeira vez em suas carreiras, depois de três tentativas. Pastor Maldonado, por sua vez, jamais viu a bandeirada, após 4 anos de F-1. Culpa do número 13 escolhido pelo venezuelano, diriam os mais supersticiosos.

Estopim ou alarme falso?

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“Eu sei que deveria ter parado no box uma volta antes e sei que vocês não fariam isso”, esbravejou Lewis Hamilton durante o GP de Mônaco.

O inglês adotou uma postura bastante diferente das etapas anteriores – e de certa forma contrastante com o resto de seu time – durante este final de semana. Uma postura distinta e, ao mesmo tempo, confusa: ora irônico, ora agressivo, ora indiferente.

E bem neste primeiro final de semana em que as coisas não saíram exatamente como Lewis esperava – e é de se imaginar que, para ele, o fato disso acontecer justamente em um ‘driver’s circuit’ como Mônaco, e não pela primeira vez, não é algo fácil de digerir. Ainda assim, foi um tanto difícil entender o porquê do piloto ter batido de frente com a equipe em alguns momentos.

O inglês, por exemplo, não acusou, nem defendeu Rosberg pelo lance da classificação, dando a entender que, no mínimo, duvidava que a manobra fora limpa. E, após a prova, criticou a forma como a Mercedes faz suas estratégias. No meio disso, repetiu diversas vezes, quando perguntado, que não era amigo de Rosberg e não queria saber de DR, de discutir a relação, com o companheiro.

Estaria Hamilton com mania de perseguição ou há situações internas que explicam esse aparente estopim de uma guerra? No sábado, lembrei-me do climão do GP de Mônaco de 2007, em que Alonso fez pole e o próprio Hamilton foi segundo mas, diziam, com seis voltas a mais de combustível, o que lhe daria uma vantagem decisiva na corrida. No GP, o inglês parou só três voltas depois do então companheiro e a McLaren acabou sendo investigada por possíveis ordens para favorecer o espanhol.

Tudo parecia exagerado na época, mas o tempo demonstrou que aquele seria um momento político importante na temporada, que acabou culminando com a perda do título para Raikkonen e a Ferrari.

Pelo menos esse risco, a Mercedes não corre. A vantagem é muito maior. Mas que o GP de Mônaco parece ser, como em 2007, um marco na história desse campeonato, isso sim.

Essa batalha foi em território Rosberg, mas a próxima será no quintal de Hamilton, que tem três vitórias e não sabe o que é terminar fora do pódio em Montreal. Ao mesmo tempo uma grande oportunidade para Nico dar um duro golpe na confiança do companheiro e a chance de Lewis retomar as rédeas.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP de Mônaco

Vettel1 a 5Ricciardo
Hamilton4 a 2Rosberg
Alonso4 a 2Raikkonen
Grosjean6 a 0Maldonado
Button3 a 3Magnussen
Hulkenberg4 a 2Perez
Sutil2 a 4Gutierrez
Vergne5 a 1Kvyat
Massa3 a 3Bottas
Kobayashi5 a 1Ericsson
Bianchi4 a 2Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: 0s163

Rosberg x Hamilton: 0s059

Alonso x Raikonnen: 0s703

Grosjean x Maldonado: 0s160

Magnussen x Button: 0s379

Perez x Hulkenberg: 0s091

Gutierrez x Sutil: 0s004

Vergne x Kvyat: 0s550

Massa x Bottas: sem tempo

Kobayashi x Ericsson: 1s599

Bianchi x Chilton: 0s596

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

 

Tem punição à vista

Com mais de um quarto da temporada cumprido, começam a chamar a atenção alguns números da unidade de potência. Isso porque acomodá-la e refrigerá-la estão longe de ser os únicos problemas que as equipes têm enfrentado nesta temporada. É preciso ter confiabilidade.

As regras determinam que cada piloto utilize, ao longo da temporada, cinco unidades de cada componente. O motor foi “desmembrado” em seis itens, que são contabilizados separadamente. A partir da sexta unidade de qualquer um destes itens, o piloto perde 10 posições no grid. Caso isso ocorra com um segundo item, serão mais cinco posições e, se toda a unidade for trocada pela sexta vez, o piloto larga do pit lane.

Tendo isso em vista, chamam a atenção os pilotos que chegaram ao terceiro item, como a dupla da Ferrari (em ambas as unidades de recuperação de energia no caso de Raikkonen), Vettel (central de controle eletrônico). Sutil e Maldonado estão ainda mais pendurado, mas quem tem punição quase certa a caminho é Kobayashi, que usa a quarta CE – e usa o mesmo motor Renault de Vettel.

Pelo que os números indicam até aqui, quem está tranquilo são os pilotos com motores Mercedes, todos com seus segundos itens dos elementos da unidade de potência.

Reprodução do pitpass.com
Reprodução do pitpass.com

ICE = Internal combustion Engine/ Motor de combustão
TC = Turbo Charger/ Turbo
MGU-K = Motor Generator Unit – Kinetic/ Gerador a partir de energia cinética
MGU-H = Motor Generator Unit – Heat / Gerador a partir de energia calorífica
ES = Energy Store / Armazenamento de energia
CE = Control Electronics / Central de controle eletrônico

“Lentidão” é maior dos problemas da F-1 2014?

Parece que faz séculos: há um ano, estávamos em meio a um turbilhão de reclamações após Fernando Alonso vencer o GP da Espanha com quatro paradas nos boxes. Depois que Nico Rosberg ganhou em Mônaco confortavelmente com dois pit stops, a conversa perdeu um pouco de força até estourar, literalmente, em Silverstone.

Agora, os “inimigos” são outros. Deu o que falar em Barcelona a pouca diferença entre os tempos de carros de GP2 e de F-1 na classificação. A pole de Richelmi foi 5s mais lenta que a de Lewis Hamilton, mas o piloto da DAMS conseguiria colocar seu carro à frente das nanicas, em 18º no grid, desconsiderando punições.

Ano passado, a pole da GP2 foi meio segundo mais rápida que neste ano, enquanto a da Fórmula 1 foi 4s5 mais rápida. A “lentidão” dessa geração de carros híbridos seria sua sentença de morte?

Observando os tempos das poles dos últimos oito anos em Barcelona, circuito que mostra bem o desenvolvimento aerodinâmico dos carros e não contou com classificações na chuva no período, percebemos algumas flutuações nos tempos de volta. Os pneus, vale lembrar, influenciam muito no tempo de volta, basta comparar a alta dos tempos entre 2010 e 2011, quando o regulamento ficou relativamente estável e foi abordagem da borracha que se tornou mais agressiva, com a mudança dos “longa vida” Bridgestone para os Pirelli.

Quanto aos diferentes regulamentos, observa-se que os tempos caíram após a última grande revolução, em 2009, que teria servido para retirar boa parte da pressão aerodinâmica dos carros e, consequentemente os tornariam mais lentos. Mas, ao considerar legal o difusor duplo da Brawn, a FIA jogou todo seu esforço fora.

Este ano é a primeira oportunidade em que temos um regulamento efetivamente diferente e os pneus, bem mais duros, têm sua parcela nessa “lentidão”. Para o ano que vem, espera-se uma abordagem mais agressiva da Pirelli e um desenvolvimento natural dos carros/unidades de potência. Mas me surpreenderia muito se esse combo significar 4s5 de rendimento.

Claro que o tamanho das críticas tem a ver com a expectativa gerada pela mudança de regulamento e pela consequente frustração com o campeonato que estamos tendo. Apesar de ter acontecido o prometido chacoalhão no grid, ele acabou resultando em um domínio maior do que o que tínhamos com a Red Bull. E, apesar de muito ter mudado na abordagem das equipes devido às novas tecnologias, pouca coisa é perceptível ao grande público. Na verdade, toda vez que tivemos batalhas interessantes na pista, elas aconteceram por estratégias diferentes de pneus. Nada de novo, portanto.

Para piorar, há dois fatores que mexem com a sensação de “topo do esporte a motor” que move a Fórmula 1: a falta de barulho (que não desagrada a maioria, de acordo com as pesquisas, mas tem uma oposição ruidosa) e os tempos de volta bem mais lentos. Mas isso é o de menos. O grande problema do atual conjunto de regras é o preço, literalmente, que está sendo pago por uma categoria que, esportivamente, não ficou mais atraente.

Ninguém duvida que deixar para trás tecnologias já obsoletas e adotar um perfil mais ativo na criação de soluções para problemas do mundo real automobilístico é um bom caminho, mas talvez tenha sido um passo grande demais em um momento economicamente desfavorável.

GP da Espanha por ingleses, brasileiros e espanhóis: “Chegar é uma coisa…”

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As luzes vermelhas se apagam é dada a largada para o GP da Espanha. Rosberg vai passar Hamilton na largada? Ricciardo consegue se colocar entre as Mercedes? Massa faz mais uma de suas boas saídas? Nada disso. “Hamilton primeiro, Felipe arriscou mas não conseguiu ganhar as posições, ficou ali mesmo atrás das Ferrari”, diz um frustrado Galvão Bueno na Globo. É o mesmo tom de Antonio Lobato na espanhola Antena 3. “Fernando tenta pegar o vácuo de Raikkonen, vai pelo interior. Freada brutal de Grosjean e Fernando teve de levantar um pouco e foi prejudicado. No momento, não há muitas mudanças de posições, mas Vettel, que não está acostumado a largar atrás, está sofrendo.”

Sim, Vettel também chama a atenção de Galvão. “É diferente largar no meio do pelotão, amigo”, diz o narrador, que ‘pega no pé’ do alemão por toda a primeira parte da prova, incrédulo de suas chances de recuperação após largar em 15º.

Na Sky Sports britânica, o comentarista Martin Brundle destaca a largada de Bottas, que superou Ricciardo e pulou para terceiro e diz que “Alonso sabe que precisa passar Raikkonen na primeira volta. Mas as Ferrari parecem que não têm aderência nenhuma e Massa está chegando.”

De fato, tudo fica como está, com Hamilton na ponta, “forçando como um animal”, na visão de Lobato. “Fico imaginando o que a Mercedes pode fazer de diferente. Talvez a chance de Rosberg seria usar o pneu duro, que é ruim, em uma parte diferente da corrida, como no Bahrein. É sua única chance”, avalia, acertadamente e logo na segunda volta, o repórter britânico Ted Kravitz.

Os espanhóis não veem isso e querem Rosberg pressionando Hamilton. “Não gosto do que vejo. A luta entre Rosberg e Hamilton seria muito boa, abriria a possibilidade de algo”, acredita o comentarista Pedro de la Rosa. Na outra briga, Ricciardo fica colado em Bottas, mas não consegue passar. “O Ricciardo vai ter de se decidir rapidamente porque seguir um carro de perto é muito ruim nesta pista, porque deteriora os pneus dianteiros”, avalia Rubens Barrichello.

Sem luta na ponta e com Alonso para trás, o desânimo toma conta dos espanhóis, que mudam o foco. “É impressionante o número de pessoas nas arquibancadas, muito diferente de quando comecei. Carlos Gracia me contou que Senna lhe perguntou no final dos 80: ‘você sabe qual a diferença entre o GP da Espanha e os demais? Nos outros, os espectadores conhecem os pilotos. Aqui, os pilotos conhecem os espectadores.’ Hoje é muito diferente e isso é impressionante em tempos de crise. Mas, dito isso, queremos ganhar”, diz De la Rosa.

Motor Racing - Formula One World Championship - Spanish Grand Prix - Race Day - Barcelona, SpainLogo chegam as primeiras paradas e a escolha da Ferrari de parar Alonso antes de Raikkonen, mesmo que o finlandês fosse à frente, chama a atenção.“Se Raikkonen é a primeira Ferrari na pista, por que foi Alonso que parou antes?”, questiona o narrador britânico David Croft. “Pode estar em seu contrato, quem sabe?”, responde Brundle. Na Globo, a tática é vista como uma jogada para colocar o espanhol na frente sem pedir para o finlandês abrir. Na Antena 3, há outra explicação.“Vai ser complicado na Ferrari porque Kimi não vai querer que Fernando pare antes, mas Fernando tem de entrar agora porque Massa parou e está logo atrás dele”, explica De la Rosa, prevendo que o brasileiro conseguiria superar o ferrarista caso ele não parasse logo. No final das contas, Alonso pega tráfego e as três posições – Raikkonen, Alonso, Massa – se mantêm inalteradas.

Na Red Bull, os dois pilotos antecipam suas paradas, por motivos diferentes, nem sempre compreendidos pelos comentaristas. Galvão segue duvidando que Vettel esteja progredindo. “Com um carro de ponta, você larga atrás e as seis primeiras ultrapassagens vêm automaticamente, mas a situação agora é outra e Vettel está brigando pelo 12º e acaba parando porque a equipe viu que não ia passar.” Mas Barrichello vê a jogada. “Esse é um cálculo que a equipe faz para ele ter pista livre e ganhar posições quando os outros pararem.”

Para De la Rosa, o problema de Vettel é que ele colocou o pneu duro. “No caso de Ricciardo, entendo ele ter parado cedo porque precisa fazer isso para superar Bottas e, mesmo assim, pode converter a uma estratégia de duas paradas. No caso de Vettel, não entendo, porque ele não vai conseguir fazer três paradas pois voltará no tráfego. E ainda mais com pneus duros. Mas eles têm mais informações que eu.” Já Brundle estranha o fato de Bottas não ter respondido à parada de Ricciardo e seguir na pista.

Chega a hora da parada de Hamilton. Para Galvão, isso prova sua tese: “Há uma diferença de tocada entre os dois. O Hamilton dá voltas mais rápidas na classificação e o Rosberg consegue fazer os pneus funcionarem por mais tempo.” Para Lobato, uma chance perdida do alemão, que estaria perto o suficiente para parar antes e superar o companheiro.

A surpresa só aumenta quando Rosberg coloca os pneus duros, mas o narrador logo entende a jogada. “Parece-me muito bom, é por isso que ficou mais tempo na pista. É para ter chance no final. É uma alternativa correta, mas não significa que será suficiente.” Para Galvão, isso quer dizer que o alemão “fará uma parada a menos”, mas o narrador é logo socorrido por Luciano Burti. “Acho que a ideia é o Rosberg colocar o pneu mais rápido no final. Ele sabe que não será ameaçado pelo Ricciardo, então arriscou para tentar ganhar. Está certo.”

Na Sky Sports, Brundle diz que “o que Hamilton tem de fazer é evitar a tentação de tirar tudo do pneu para superar Nico” e destaca que “temos de dar o crédito para a Mercedes, que está deixando os dois disputarem. Isso é importante.”

Todos deixam o monitoramento das diferenças na ponta de lado quando “Raikkonen chegou em Grosjean como um tufão! Grosjean deve estar com alguma falha na recuperação de energia.” Brundle está certo: o francês perdeu rendimento em algumas voltas e foi superado com facilidade pelas Ferrari. Os espanhóis não viram, estavam nos comerciais. “Isso é bom para o Felipe”, considera Galvão, mas o brasileiro não supera a Lotus. Até pela volta 40, inclusive, os brasileiros acham que a estratégia de Massa é boa e destacam que ele ganha terreno cada vez que antecipa uma parada.

Falando em estratégia, De la Rosa não gosta nada da tática de três paradas de Vettel. “É que depende muito dos demais, e o resto vai fazer duas. Ele vai ter que passar na pista.” Algumas voltas depois, quando percebe que Alonso adota o mesmo princípio, admite: “Essa terceira parada de Fernando me desconcertou um pouco.” A tal terceira parada, inclusive, não foi vista pelos espanhóis, assim como a ultrapassagem de Vettel no asturiano. Afinal, foram três comerciais apenas nas 15 voltas finais!

Na briga pela ponta, os palpites se dividem. “O que vai acontecer? Não faço Motor Racing - Formula One World Championship - Spanish Grand Prix - Race Day - Barcelona, Spainideia! Parece que Nico tem vantagem, mas é muito pequena”, diz Brundle. “Se o Rosberg parar antes, ele pode passar. Caso contrário ele vai ter que passar em uma pista em que é difícil ultrapassar. Então vou de Hamilton”, crê Barrichello. “Apostaria no Hamilton porque acho que ele vai parar primeiro”, vê Burti. Entre os internautas espanhóis, a 15 voltas do final, só 66% apostam em Hamilton.

Principalmente na última parte da corrida, o tom de Hamilton no rádio chama a atenção de todos.“Lewis está meio paranoico, mas ele tem posição de pista e isso é o mais importante”, defende Brundle. “Não é muito bom Hamilton ficar dando tantas informações assim para a equipe porque elas vão diretamente ao companheiro, que é seu primeiro rival no momento”, alerta De la Rosa.“Até o tom da voz de Hamilton está meio apavorado, mas é a aquela velha história da F-1: chegar é uma coisa, passar é outra”, avalia Galvão.

E não era apenas Rosberg que estava chegando nas voltas finais. Ainda que a transmissão brasileira tenha focado quase exclusivamente na luta pela liderança, os demais se dividiam entre a progressão de Vettel, que caçava primeiro Raikkonen, e depois Bottas, e a seguinte luta interna na Ferrari.

“É o GP do Bahrein revisitado. Hamilton tem a posição de pista, Rosberg tem teoricamente a melhor estratégia”, resume Brundle. Sobre Vettel, o comentarista acredita que seu desempenho comprove que “é a Red Bull que tem a chance de chegar na Mercedes durante a temporada. Imagina a cara do Alonso no final da corrida.” De fato, entre os espanhóis, o clima é de resignação. “Alonso segue forte e tentará ficar na frente de Raikkonen porque, sejamos francos, é o máximo que pode hoje.”

Vettel passou por Raikkonen com facilidade. Para Brundle, porque “o alemão pegou o finlandês dormindo”. Para Lobato, “Kimi facilitou porque sabe que sua briga é com Fernando.” Os espanhóis destacam o lado psicológico da briga interna na Ferrari. “Não tem nada que Kimi goste menos de ver do que Alonso chegando nele. Em 96% das voltas antes desta prova ele ficou atrás.” Já para Galvão, o fato de Alonso ter parado uma vez a mais e chegar mais forte no final indica que “não precisa de ordem na Ferrari, eles dão um jeitinho de inverter.”

Faltando três voltas para o final, quase simultaneamente, Vettel supera Bottas – e ganha elogio de Galvão, que o considera “cirúrgico nas manobras” – e Alonso passa por Raikkonen, após uma “pilotagem brilhante dos dois campeões do mundo. Era o que queríamos ver quando a dupla Alonso e Raikkonen foi anunciada”, como destaca Croft, que logo foi corrigido por Brundle. “Mas esperávamos ver isso pelo primeiro lugar, né?” Na Globo, focada nas Mercedes, Barrichello se limita a dizer que “Esse [Alonso] conhece”, enquanto os espanhóis vão à loucura, com direito a citação ao time do coração de Lobato, o Atlético de Madrid. “Fernando tenta com algo além da velocidade, além da mecânica, numa tática meio Diego Simeone [treinador do Atlético]. Como ele foi bem, que barbaridade! Como ele preparou a ultrapassagem!”

O foco de todos volta no duelo Hamilton x Rosberg, mas está tarde demais e Galvão deita e rola com seu bordão “chegar é uma coisa, passar é outra” e o inglês cruza a linha de chegada na frente. “Ele teve de lutar por isso”, destaca Croft. “A posição de pista foi o principal. Rosberg fica sempre no ar turbulento, isso acaba destruindo suas corridas. Ainda bem que eles deixam os dois correrem entre eles. O sexto colocado foi o último na mesma volta”, lembra Brundle.“O pior é que ele não sabe o que fazer para deter o Hamilton”, avalia Barrichello. E isso acontece, para Galvão, porque “além da velocidade maior, Hamilton conseguiu tirar o que o carro não tinha nas últimas voltas.”

Conseguiu, mas foi suado, como viu De la Rosa. “Foi uma corrida em que você se perguntava ‘mas Hamilton está em primeiro ou está tudo dando errado para ele?’ porque ele só reclamava. Mas está claro que ele teve dificuldades com os pneus.”

Mesmo assim, o inglês não foi considerado o piloto do dia. Bottas ganhou destaque de Galvão, que justificou que “Massa não chegou nos pontos porque fez três paradas.” Curioso, porque, para espanhóis e britânico, o grande destaque adotou a mesma tática: “o piloto do dia foi Vettel, com grandes ultrapassagem e ritmo”, sentenciou Brundle.

O domínio “lento” da Mercedes

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Lewis Hamilton não ganhara sequer três provas seguidas na carreira até iniciar a temporada 2014. E não sentia o gostinho de estar na ponta do campeonato desde o GP do Canadá de 2012. Mas isso é passado. Na Espanha, o novo líder se tornou o 13º piloto da história a vencer quatro corridas em sequência.

No grid atual, Jenson Button, Fernando Alonso e Sebastian Vettel sabem o que é isso. Vettel, inclusive, tem o recorde, estabelecido ano passado, de nove vitórias seguidas. Será que Hamilton chega lá?

Estatísticas como essa são o retrato de como a Fórmula 1 pulou de um domínio para outro. Nos últimos 12 meses, somente Vettel, Hamilton e Rosberg ganharam corridas, algo que não se via desde 1988.

Falando nos números de Vettel, Hamilton chegou à 35ª pole e está a 10 do alemão. Também não seria surpresa se ao menos chegasse perto com um carro que foi mais de um segundo mais rápido que o terceiro colocado na classificação em Barcelona – algo que não ocorria desde o GP da Hungria de 2010. Ainda assim, em ano de regulamento novo, foi a pole mais lenta dos 24 anos de história de corridas no Circuito da Catalunha.

Com a vitória na Espanha, falta apenas uma prova no calendário para Hamilton subir no lugar mais alto – excluindo a estreante Rússia e a Áustria: justamente o GP do Brasil, palco de momentos inesquecíveis para o campeão de 2008.

Mais números do domínio da Mercedes: nenhum piloto recebeu a bandeirada a menos de 20s deles nas corridas até aqui e eles se tornaram os primeiros a ter quatro dobradinhas seguidas desde a Ferrari em 2002. A mesma Ferrari que está há um ano sem vencer, seu maior jejum desde 1994, quando ficou quase quatro anos sem um triunfo. Resta a Alonso um prêmio de consolação: apenas ele, Nico Rosberg e Valtteri Bottas completaram todas as voltas até aqui.

Por outro lado, o GP da Espanha foi a primeira vez em que a Mercedes não fez a pole, venceu, liderou todas as voltas e fez a volta mais rápida. Desta vez, pelo menos o último item ficou com Vettel.

Migalhas.

Um banho

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Para tudo o que Nico Rosberg faz, Lewis Hamilton tem uma resposta. O alemão foi muito bem neste final de semana, alterando o acerto da sexta (quando estava a meio segundo do companheiro) e ganhando muito terreno no sábado; adotando uma estratégia diferente e administrando muito bem os pneus para executá-la. Mas perdeu novamente. E deve ser impossível disfarçar a vantagem psicológica que Lewis tem a cada jab que consegue encaixar no companheiro. Pode ser que a luta vá até o último round, uma vez que a vantagem da Mercedes é tamanha que Nico deve seguir com seus segundos lugares, mas é bom o alemão tentar algum golpe novo se quiser o cinturão.

É essa confiança de quem tem 100% de aproveitamento quando esteve na pista que parece dar a vantagem a Hamilton no momento. Sim, o inglês é mais habilidoso, consegue tirar aquele décimo a mais em classificações e se adapta mais rapidamente a situações contrárias, mas tem sido fundamental manter-se à frente mesmo quando Rosberg é mais rápido, como aconteceu neste GP da Espanha e já fora  o caso no Bahrein. Nem quando foi campeão Lewis pilotou tão bem.

Saindo do mundo Mercedes, a prova em Barcelona acabou sendo uma ducha de água fria: com updates no software do motor, combustível e teoricamente beneficiada pelas curvas de alta, a Red Bull chegou a 48s do vencedor. Ainda que Christian Horner garanta que Ricciardo perdeu tempo atrás de Bottas no primeiro stint e a diferença não é tão grande, era de se esperar que qualquer um que quisesse rivalizar com os alemães já estivesse mais perto no momento.

E parece que a única chance da Mercedes ter uma rival neste ano é o crescimento da própria Red Bull. Foi impressionante a dificuldade que os pilotos da Ferrari tiveram para segurar o carro neste final de semana e Alonso atestou que a diferença de quase 1min30 para o líder mostra que a evolução dos italianos e dos alemães está estável. “Antes era 1min porque foram provas Safety Car”, lembrou.

Quem ocupou o posto da Ferrari foi a Williams, que surpreendeu em uma pista que não deveria lhe favorecer. Mas a primeira impressão é de que a volta de classificação de Valtteri Bottas que ampliou a diferença na briga com Force India e, principalmente, McLaren. Andando no pelotão da frente e com pista livre o tempo todo, o finlandês determinou o próprio ritmo e protegeu os pneus, ao contrário, inclusive, de Massa. Lembra estratégia de Vettel para dominar ano passado? O princípio é o mesmo. Do quinto para trás, todos os que andaram no tráfego tiveram um ritmo ruim.

Peguemos o exemplo de Magnussen: o piloto da McLaren fez a sétima melhor volta da prova, sendo que cinco dos mais velozes estavam na estratégia de três paradas e, portanto, sempre tinham pneus mais rápidos. Claro que um final de semana de corrida compreende classificação e a prova em si e os pilotos da McLaren não conseguiram fazer os pneus funcionarem em uma volta lançada, mas talvez o resultado péssimo da Espanha não seja um retrato 100% real da disputa pelo posto de terceira força.

Por último, mas não menos importante, como diriam os ingleses, Vettel renasceu das cinzas para ser quarto. O alemão dera apenas 35 voltas por todo o final de semana antes de largar, mas teve a paciência necessária no meio do pelotão para não destruir os pneus e soube usar o ritmo da Red Bull quando teve pista livre. Quando teve de ultrapassar, inventou lugares, dando um drible na dificuldade do carro nas retas. A estratégia também ajudou, mas esse é um assunto para discutirmos ao longo da semana.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Espanha

Vettel1 a 4Ricciardo
Hamilton4 a 1Rosberg
Alonso3 a 2Raikkonen
Grosjean5 a 0Maldonado
Button3 a 2Magnussen
Hulkenberg4 a 1Perez
Sutil2 a 3Gutierrez
Vergne4 a 1Kvyat
Massa3 a 2Bottas
Kobayashi4 a 1Ericsson
Bianchi3 a 2Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: sem tempo

Hamilton x Rosberg: 0s168

Raikonnen x Alonso: 0s036

Grosjean x Maldonado: sem tempo

Button x Magnussen: sem tempo

Hulkenberg x Perez: 0s317

Gutierrez x Sutil: 0s658

Vergne x Kvyat: sem tempo

Bottas x Massa: 0s770

Ericsson x Kobayashi: 0s018

Chilton x Bianchi: 0s295

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Vettel aposta no semi-novo

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A notícia de que a Red Bull trocaria o chassi de Sebastian Vettel para o GP da Espanha animou seus torcedores, como se a mudança traria o domínio que o alemão teve nos últimos anos pelo menos em relação ao companheiro de equipe. Porém, ao chegar em Barcelona, o próprio alemão fez questão de baixar as expectativas – e com toda a razão.

Como explicou o ex-diretor técnico da Williams, Mark Gillan, ao blog de James Allen, a troca de chassi ao longo da temporada é corriqueira e serve mais para “remover incertezas”, sobretudo do próprio piloto. Afinal, tão prejudicial quanto um carro ruim é um piloto sem confiança em seu equipamento.

Outra possibilidade é adotar um chassi desenvolvido já com menos peso, como é o caso da Sauber neste final de semana, ou que tenha a possibilidade de usar novidades que o outro não tem. Como o “novo” carro de Vettel na verdade é antigo, tendo sido o primeiro pilotado (não por muitas voltas, é verdade) pelo alemão, ainda na pré-temporada, é bem provável que não seja esse o caso.

O próprio Vettel admitiu que a confiança é o ingrediente principal de sua decisão de trocar de chassi. “Você tenta mudar o máximo de coisas que pode para resetar e tentar novamente. Não é que eu acredite que havia algo errado, é só que eu queria que as coisas começassem do zero novamente para ver o que podemos melhorar. Não estava contente com minha performance”, disse ao TotalRace em Barcelona.

Um piloto dificilmente termina o ano com o chassi com que começou. É comum fazer uma ou duas trocas por ano, que podem acontecer também por acidentes ou outros danos – como aliás, foi o caso de Kimi Raikkonen entre Bahrein e China. “Acho que se você tem corridas em que sente que está abaixo da performance ideal, tenta encontrar algumas respostas. Normalmente nós trocamos de chassi durante o ano e é por isso que ele está mudando para esta corrida”, explicou Ricciardo. “Eu também devo mudar eventualmente, mas as últimas corridas foram boas para mim, então não tenho motivo para fazer isso ainda. Provavelmente é um pouco antes do que ele gostaria, mas usamos pelo menos dois chassis por ano.”

O grande problema de Vettel, segundo o próprio, é que o carro está com a traseira solta demais, algo que não estaria acontecendo com Ricciardo porque o australiano adota um acerto diferente.  “Daí você se vê mais tentando corrigir do que buscando tirar mais performance”, queixou-se.

Com ou sem novo/velho chassi, é esperada uma melhor performance da Red Bull em Barcelona, simplesmente pela falta de retas e excesso de curvas de alta velocidade. Com promessas de updates no software da Renault e no combustível, essa expectativa aumenta. Por outro lado, será um bom palco para Vettel testar sua nova máquina no quesito em que está perdendo mais terreno para Ricciardo, o consumo de pneus, pois o Circuito da Catalunha é marcado pelo alto desgaste. Não é a promessa de que os problemas do alemão acabaram, como vimos nesta sexta-feira, é apenas uma tentativa.

Williams curta, Mercedes longa: as diferentes relações de marchas

Antes do início da temporada, um dos temas que mais chamou a atenção foi a relação de marchas fixa. Expliquei por aqui que os engenheiros não consideravam isso um grande desafio, mas ainda assim o que vimos nestas quatro primeiras corridas foram variações na forma como cada time abordou a questão.

marchas

Trago para vocês estes gráficos compilados por um dos leitores do site F1Technical, chamado hollus. Ele foi inserindo os dados das quatro primeiras etapas para chegar a estes resultados e separou Sauber, Caterham e Marussia por falta de resultados consistentes até aqui. Além disso, apesar de não aparecer no gráfico, a Mercedes chegou à oitava marcha no GP da China.

É curioso vermos as diferenças entre as equipes com motores Mercedes, com o time de fábrica e a Force India optando por marchas mais longas do que Williams e McLaren. Como expliquei aqui, ter marchas curtas ajuda na reaceleração e prejudica a velocidade final, portanto, como temos visto Massa e Bottas voarem nas retas, isso mostra como falta downforce ao carro.

É possível mudar essa relação de marchas uma vez no ano mas, com esse cenário, podemos esperar, pensando nos circuitos mais extremos do campeonato, uma Williams e McLaren melhores em Mônaco e uma Force India e Toro Rosso mais fortes em Monza, por exemplo.

Não deve ser coincidência o fato das equipes com motores Ferrari – o time de fábrica, Sauber e Marussia – terem uma seleção bem semelhante. E a Red Bull, como de costume, optou por marchas mais curtas.

Além das velocidades em si, essas opções também implicam nas rotações utilizadas. O regulamento prevê um máximo de 15000rpm. Porém, a restrição de fluxo de combustível em 100kg/h tem feito com que os motores trabalhem bem abaixo disso. A Force India é a única que está batendo em 13000 a 14000 porque suas 4ª e 5ª marchas são muito espaçadas, mas isso só ocorre por instantes. Além de gastar mais combustível, isso também exporia a unidade de potência a quebras. Aliás, com essa configuração, será interessante ver se alguma equipe vai conseguir “bater no limitador” até o final do ano!

Chega de brigar com as nanicas

Motor Racing - Formula One World Championship - Chinese Grand Prix - Race Day - Shanghai, China

Se eu tivesse de apostar qual equipe dará o maior salto no GP da Espanha, que certamente será um desfile de novidades em todos os carros, meu palpite seria a Lotus. Não só porque, por ser o time que mais caiu em relação ao ano passado, são eles que têm mais a evoluir, mas principalmente porque o E22 vem comprovando ter uma boa base.

O GP da Malásia já havia sido animador. Não tanto pelos resultados – Grosjean foi 15º no grid e 11º na corrida – mas pela velocidade demonstrada nas curvas, maior        que carros que brigam dentro do top 10, como Williams e McLaren. Isso quer dizer que a aerodinâmica está funcionando bem, como também ocorre com a Red Bull, outro carro que deve aparecer forte em Barcelona.

O diretor técnico Alan Permane explicou que o time “perde nas freadas” e “tem culpa por ter mais problemas que as outras equipes que usam motor Renault”, dando a entender que ao menos parte das dificuldades é relacionada ao MGU-H, sistema de recuperação de energia calorífica cuja principal missão é reduzir o turbo lag, impulsionando o carro quando os pilotos tiram o pé do acelerador no final das retas.

Essa culpa pelos problemas com a Renault tem a ver com o fato do time não ter participado da primeira bateria de testes na pré-temporada, em Jerez. Mesmo que os outros carros equipados com os motores franceses tenham andado pouco na ocasião, entenderam algumas mudanças necessárias para trabalharem bem com a unidade de potência.

Por isso, o salto que a Red Bull deu entre o último teste e o GP da Austrália, ainda está por vir no caso da Lotus.

E ele vem se desenhando. O sistema de transmissão foi alterado para o GP do Bahrein, mas os ganhos só ficaram mais claros na China, quando a equipe recebeu o último update da Renault – antes, apenas Toro Rosso e Red Bull tinham a unidade de potência mais avançada. O resultado foi o primeiro top 10 do ano no grid – um top 10 real, que tinha tudo para gerar os primeiros pontos da Lotus no ano, não fosse um raro problema de câmbio.

Para Barcelona, o E22 ganhará novos mapeamentos de motor, melhorias no sistema de arrefecimento e várias mudanças na carenagem, que visam aprimorar a aerodinâmica e tornar o carro “mais previsível para os pilotos”, além de fazer com que ele trabalhe melhor os pneus.

Eles provavelmente não estarão no pódio, muito menos disputarão vitórias. Mas que o E22 tem tudo para entrar na briga já apertada pelos pontos, junto de Red Bull, Ferrari, McLaren, Williams e Force India, isso tem. E alguém vai acabar sobrando.

Ele era da casa

1994 Brazilian Grand Prix

John Lennon e Ayrton Senna. Que precisa a comparação feita pelo jornalista inglês Will Buxton, que reproduzimos em nosso especial sobre os 20 anos da morte do brasileiro. Apesar da obra dos dois falar por si só, ambas as vidas foram interrompidas antes – e ainda por cima de forma abrupta, violenta, inesperada – que tivessem tempo de se mostrarem mortais.

Porque eles nunca se mostraram mortais em vida. Nasci depois do assassinato de Lennon, mas lembro precisamente do sentimento de “é o Senna, não vai acontecer nada” ao ver o acidente de 20 anos atrás.

Mas Senna se mostrou humano e se foi. E deixou uma expectativa indigesta para cada um nós em cada manhã de domingo. Vai ver é essa frustração inevitável que faz tanta gente que continuou acordando cedo e curtindo as novas batalhas que iam aparecendo, de certa forma provando que seu amor pelo esporte era mais forte que a lenda, se sentir desconfortável com tamanha adoração, que transcende esse nosso mundinho. É como conhecer a fundo a discografia de Lennon e se irritar quando alguém se contenta com “Imagine”.

Deveriam sentir-se honrados.

Não adianta vir com números, com papo de “só foi campeão com melhor carro” ou relembrar momentos em que Ayrton teve atitudes que desafiam a aura criada ao redor dele. Nada disso tem a ver com o mito.

Para entender onde Senna está no imaginário brasileiro temos de voltar à realidade do país no final dos anos 80 e começo dos 90, cheia de incertezas, inflação absurda, decepções nos primeiros anos pós-redemocratização. Domingo de manhã era a hora da nossa redenção. Senna era um exemplo de determinação, incutia em nosso imaginário que não éramos tão inferiores assim, que, se perseverássemos, atingiríamos nossos objetivos. Se tudo isso era verdade ou pura ilusão, não importa. Senna adotou esse papel de messias a cada frase de auto-ajuda e toda vez que empunhava a bandeira.

Aquele ar ora sobrenatural, ora gente com a gente, exatamente quando estávamos tão carentes como nação, que explica por que a memória dele ainda é tão viva nas pessoas, por que há essa adoração muitas vezes cega.

Talvez por isso eu tenha sentido, do alto de meus nove anos, naquele 1º de maio, que eu tinha perdido alguém da família. E acabei descobrindo, nas até hoje impressionantes cenas do cortejo, que não estava sozinha.

E fiquei honrada pelo esporte que sempre acompanhou minha vida ter tocado tanta gente.

A premonição de Vettel

Motor Racing - Formula One World Championship - Chinese Grand Prix - Qualifying Day - Shanghai, China

Quando Sebastian Vettel ganhava suas corridas ano passado, dizia para o time, tão logo cruzava a linha de chegada, que eles deveriam aproveitar aquele momento porque o domínio não duraria para sempre. Após quatro corridas disputadas em 2014, aquelas mensagens soam como uma premonição. Depois de bater recordes ao vencer as nove últimas provas da temporada de 2013, o tetracampeão do mundo está enfrentando seu pior momento na Fórmula 1.

Na Austrália, andou o final de semana inteiro atrás do novo companheiro, Daniel Ricciardo, mas todos creditaram isso a problemas técnicos que, de fato, estavam atormentando o alemão. Na Malásia, as coisas pareciam ter voltado ao normal. Porém, no Bahrein e na China, ficou claro que o australiano não apenas tem um ritmo melhor, como também consegue conservar mais os pneus. E as duas ordens de equipe que Vettel teve de ouvir para sair do caminho do companheiro só escancararam isso.

O que exatamente está atrapalhado a adaptação de Vettel com o novo carro não está claro. A equipe admite que ele não está confortável com o acerto e corre para encontrar soluções que adaptem melhor o equipamento ao estilo do piloto, a exemplo do que aconteceu em 2012, quando o alemão também não começou bem – a acabou sendo campeão após mudanças serem feitas no carro. Na teoria, os problemas de Vettel seriam com a instabilidade do carro na entrada das curvas. Fazendo mais correções do que gostaria, o piloto desgasta mais os pneus e entra em uma espiral negativa.

Outra suposição é de que o tetracampeão esteja “mal acostumado” com os grandes carros da Red Bull. Por isso, agora que o regulamento retirou grande parte do downforce e deixou os carros mais nervosos, é Ricciardo, que vem de dois anos na média Toro Rosso, que está se sobressaindo. E seria uma questão de tempo para que o cenário se inverta.

Conhecido por ser trabalhador, Vettel não demonstra frustração nas entrevistas e parece apenas focado em melhorar seu desempenho. Porém, do lado de fora, “o piloto que só ganha com carro bom” é questionado. De fato, quando o tetracampeão está confortável com seu equipamento, é de um perfeccionismo que o faz ser difícil de bater. Não erra em classificação, nem dá sopa para o azar em corridas.

Por outro lado, é a segunda vez que seu desempenho cai bastante quando não está feliz com o carro – e é justamente o que um piloto consegue quando a situação lhe é desfavorável que separa os bons dos grandes. Está aí, portanto, a chance de Vettel mostrar de que lado está.

Coluna publicada no jornal Correio Popular.

GP da China por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Que diferença um ano faz…”

Motor Racing - Formula One World Championship - Chinese Grand Prix - Race Day - Shanghai, China

“Olha o Massa!” Foi o que brasileiros, britânicos e espanhóis berraram assim que as luzes vermelhas se apagaram no GP da China. “Ele já passou Rosberg e está indo atrás de Vettel. Ele tocou com Alonso! Vettel está perdendo posições”, narra David Croft na Sky Sports. “Massa novamente larga muito bem e há um toque com Fernando. No momento, ele continua, mas por fora vai ser complicado. Perdi Rosberg de vista”, admite Antonio Lobato, na Antena 3. Saber se o forte toque entre os ex-companheiros de Ferrari prejudicou a corrida de Massa também é a preocupação de Luis Roberto, na Globo.

Os brasileiros de início ficam divididos, mas Luciano Burti logo exime Alonso de culpa. “Na minha opinião, Alonso não viu o Felipe porque ele largou muito bem.” É a mesma opinião de seus colegas. “Acho que ele entrou em um sanduíche. Não dá para culpar a Ferrari. Foi uma manobra maluca de se fazer em um grid de F-1, uma mudança de direção tão brusca. Há 50% de chance que vai bater em alguém. E Alonso parecia que tinha tocado uma mosca, continuou como se nada tivesse acontecido”, opinou Martin Brundle. A mesma reação também chamou a atenção de Pedro de la Rosa. “É impressionante que nem Alonso, nem Massa pareceram ter tirado o pé após o toque. Ele reclamou no rádio que Fernando bateu nele, mas olha o buraco em que ele se meteu, ele bateu no Fernando também.”

Sem ter de disputar com ninguém, sequer na largada, o líder Hamilton seguia “como um diabo”, como definiu Lobato. “Esse problema do Rosberg é bom para o Hamilton porque seu único rival vai ter problemas para se recuperar”, analisa Burti. “Com oito voltas, ele tem um pitstop de vantagem para o 10º colocado. Não que ele precise, porque é o único que está feliz com os pneus”, lembra Brundle.

Em terceiro, Alonso acompanha Vettel um pouco de longe, o que agrada De la Rosa. “Se Fernando puder usar o DRS para atacar Vettel, ótimo. Mas é importante manter certa distância por causa do graining nos pneus – e de quem eu tenho medo é Ricciardo, que vem de trás.”

De fato, os pneus não aguentam mais do que 10-12 voltas. Menos para Hamilton, em outra dimensão. E um dos primeiros a parar é Motor Racing - Formula One World Championship - Chinese Grand Prix - Race Day - Shanghai, ChinaFelipe Massa, que perde 1min18 nos boxes. “Massa deve estar imaginando que diabos está acontecendo”, diz Croft. Lobato se impressiona com a demora da Williams e teme que o mesmo possa acontecer com Alonso. “Por Deus, o que aconteceu? Que desastre. Não tem pneu, a pistola não funciona… mas também teve o toque com Fernando. E eu vi algo dobrado na roda de Fernando. Ai, ai, ai.”

Isso porque todos acreditam que a dificuldade em trocar os pneus de Massa tenha a ver com o toque da largada. “Ele voou naquela batida da largada, pode ser que isso tenha afetado algo. As temperaturas de tudo devem ter aumentado muito durante essa parada”, lembra Brundle. Após a prova, a Williams esclareceu que não foi este o problema.

Quem não troca pneus é Ricciardo, estratégia considerada errada por De la Rosa, e boa por Burti. “Não é o ideal ficar na pista agora, porque quem tem pneus novos está com vantagem, mas pode ser bom lá na frente e Ricciardo pode até fazer uma parada a menos”, diz o brasileiro.

Mais à frente, Alonso para antes e supera Vettel. “O interessante desta jogada não é apenas ter passado Vettel, mas ter pista limpa com o pneu duro, que vai precisar aguentar mais. Ele não pode ter muito graining neste pneu”, alerta De la Rosa, enquanto Burti vê “Vettel voando com pneus médio e indo para cima de Alonso.”

Vettel acaba desistindo de atacar o espanhol e a prova cai no marasmo. “Não é exatamente o GP do Bahrein, mas vamos ver como as coisas caminham”, reconhece Brundle. Isso, até que Rosberg, finalmente, começa a progredir e vai para cima de Vettel, na luta pela terceira posição. “Interessa-nos que Vettel freie Rosberg o máximo que puder”, torce Lobato. Mas não adianta. “Deve ser fácil para Rosberg passar Vettel na reta. Nos anos anteriores, essa falta de velocidade de reta não atrapalhava tanto porque ele liderava saindo da ponta e ninguém chegava perto. Agora é diferente”, analisa Brundle. “A diferença de velocidade da Mercedes com a Red Bull é até covardia na reta”, emenda Burti.

Depois de Rosberg passar, é a vez de Ricciardo chegar no piloto da Red Bull. “Tenho a sensação de que as voltas que Vettel ficou atacando Fernando quando eles saíram do box acabaram com seus pneus. Ricciardo está bem mais rápido”, vê De la Rosa.

A equipe também observa isso e pede para que o alemão deixe o australiano passar. Em um primeiro momento, Vettel não obedece. “Ele não deixou não. Não quis saber dessa questão de ordem de equipe”, Burti gosta momentaneamente do que vê. “Ele não está se prejudicando? Ele vai se meter em uma briga que vai acabar ainda mais com os pneus e fazer algo que a equipe não quer”, critica Croft. “Ele demonstrou que acha que pode dar as ordens, é o campeão do mundo”, acredita Brundle. “Isso é ótimo para Fernando. A resposta dele ao engenheiro foi ‘azar’ e eu entendo isso como: ‘ele parou depois porque quis, o problema é dele”, interpreta De la Rosa.

Após ouvir que o companheiro está em uma estratégia diferente, Vettel cede. “Tenho certeza de que ele abriu, mas não sei se vai admitir”, diz Croft. “Isso não quer dizer que a equipe quer que o Ricciardo chegue na frente, mas que é o melhor nesse momento”, explica Reginaldo Leme, ainda que Burti veja o australiano “com vantagem, porque está com a tática de duas paradas.” Lobato, contudo, estranha a informação dada ao alemão. “Mas quem não está na estratégia de 2 paradas?” Enquanto isso, Brundle reflete sobre a situação de Vettel: “Que diferença um ano faz…” E o repórter Ted Kravitz levanta sua teoria. “Será que Ricciardo está mais acostumado a carros com menos downforce e, por isso, está se adaptando melhor que Vettel?” Os espanhóis, contudo, insistem até o final da prova que o tetracampeão deve estar com algum problema no carro.

Com o passar das voltas fica claro que Vettel também fará duas trocas. “Se eles disseram que Ricciardo está numa estratégia de duas paradas e Vettel numa diferente, por que estão demorando tanto para parar?”, questiona Croft.

Falando em boxes, Luis Roberto, retomando os problemas de Massa no primeiro pit stop, acredita que “a Claire Williams vai dar uma chamada geral e eles vão passar o final de semana treinando paradas.”

Depois de passar Vettel, Rosberg vai à caça de Alonso e os espanhóis até acham que o compatriota pode aguentar a pressão, mas ele sequer se defende. “Alonso não lutou muito, né? Acho que ele percebeu que não tinha muito o que fazer”, vê Brundle. “É impossível segurar. Mas que estejamos vendo Fernando em terceiro já é um sonho”, diz Lobato. “Antes de começar a corrida, eu sequer imaginaria isso”, admite De la Rosa.

A briga do bicampeão seria com Ricciardo, que parece que aproximar, mas logo vê a resposta da Ferrari. “Acho difícil o Ricciardo conseguir passar o Alonso porque, chega nessa hora, ele consegue tirar um coelho da cartola”, aposta Burti. “Ele tem combustível e pneu para segurar Ricciardo. É bem do estilo dele deixar uma reserva. É macaco velho”, concorda Brundle. Os espanhóis sofrem um pouco mais. “Que agonia. Fernando mais uma vez fazendo mágica”, exclama Lobato.

Motor Racing - Formula One World Championship - Chinese Grand Prix - Race Day - Shanghai, ChinaMágico ou experiente, Alonso consegue um pódio surpreendente pela Ferrari, mas a festa é de Lewis Hamilton. “até chato, mas mostra o grande trabalho dele”, reconhece Burti. “Ele tinha o carro, foi tranquilo. Não chega à liderança, mas agora está a apenas quatro pontos do companheiro”, lembra Croft, enquanto Brundle demonstra não acreditar que os rivais conseguirão chegar nas Mercedes. “O título vai ficar entre Hamilton e Rosberg, está claro. Eles vão continuar melhorando e, mesmo se perderem 1s, ainda estariam na frente.”

Mesmo também descontando as Mercedes, os espanhóis destacam o crescimento da Ferrari. “Foi como no futebol: treinador novo, resultado positivo”, diz Lobato, em referência à troca no comando do time. “É incrível que Fernando tenha ganhado em iguais condições das duas Red Bull. Mas também temos de dizer que os Mercedes estão muito na frente”, destaca De la Rosa.

Na Globo, Luis Roberto empresta o adjetivo com que os espanhóis costumam se referir a Alonso. “Vitória de Hamilton, que está guiando muito, e mágica de Alonso, que colocou carro no pódio. Em comparação, Raikkonen foi oitavo.” A mesma relação é feita na Antena 3. “O carro melhorou, mas conseguir um pódio hoje foi muito por mérito de Fernando”, diz De la Rosa, para a emenda de Jacobo Vega. “E vejam que Raikkonen foi oitavo.”

Para finalizar com chave de ouro, Lobato pede um favor a De la Rosa. “Pedro, você que se dá bem com o Hamilton, fala para ele dar um jeito nesse cabelo. Esses cachos… e agora está deixando um moicano!”, o carequinha não se conforma. Mas Vega entra na discussão: “É que está dando tanta sorte que agora não dá pra tirar.”

A birra de Vettel e o (quase) pódio da Red Bull

Motor Racing - Formula One World Championship - Chinese Grand Prix - Race Day - Shanghai, China

Daniel Ricciardo cruzou a linha de chegada no GP da China a 1s2 de Fernando Alonso e do que seria um pódio – desta vez, de “verdade”. No meio da prova, os números mostram que o australiano perdeu cerca de 3s atrás do companheiro Sebastian Vettel, cuja primeira reação ao ouvir o pedido da Red Bull para abrir, pois Ricciardo estava mais rápido, respondeu “azar dele”. Teria isso custado o terceiro posto para a equipe?

Vamos às circunstâncias. Primeiro, a ordem da Red Bull, acertada para maximizar o resultado da equipe. De fato, Ricciardo, com pneus três voltas mais novos e uma conservação melhor por todo o final de semana, estava vindo 0s9 mais rápido que Vettel nas voltas anteriores à ordem e viu o ritmo despencar em 1s/volta nos três giros em que ficou preso. Tão logo passou o companheiro, voltou à casa dos 1min43, enquanto os tempos de Vettel despencaram para 1min45. A briga, portanto, foi ruim para ambos.

No stint final, quando Ricciardo se aproximou de Alonso, o espanhol tinha pneus quatro voltas mais velhos e um ataque seria plausível caso o australiano estivesse mais próximo. Mas também temos de levar em conta o fator Alonso: em determinado momento, parecia que Ricciardo vinha mais inteiro, mas o espanhol começou a reagir, sinalizando que havia economizado equipamento prevendo um ataque. Tirando uma volta em que Ricciardo tirou 0s8, quando Alonso fritou os pneus atrás de um retardatário, o bicampeão sempre parecia ter uma resposta para as tentativas de aproximação. Apenas na última volta, a Ferrari diminuiu o ritmo e eles cruzaram a linha de chegada mais próximos.

Dois fatores nos fazem acreditar que, mesmo que Vettel não tivesse atrasado Ricciardo, o australiano poderia chegar mais perto, mas não na frente de Alonso: a diferença de velocidade de reta entre os carros e o fato da prova ter, efetivamente, terminado na volta 54, quando a diferença entre os dois era de 3s5. Aliás, imagine as teorias da conspiração caso Ricciardo tivesse passado Alonso na última volta e o resultado fosse alterado por um erro na bandeirada?

O undercut e o offset

Se o GP do Bahrein foi marcado pela força do undercut, a tática inversa funcionou bem na China. O chamado offset, ou a aposta de esticar ao máximo um stint para estar com pneus mais novos no final foi eficiente para ajudar Nico Rosberg no tráfego – mas tem suas contra-indicaçõs.

No primeiro stint, Rosberg usou o undercut para superar Ricciardo. Passou Vettel no meio da prova e depois foi à caça de Alonso. Como o espanhol fez sua última parada cedo, a opção da Mercedes foi não responder imediatamente, deixá-lo ganhar a vantagem do undercut, e parar Nico só quatro voltas depois. Não demorou 5 giros para o alemão recortar a diferença e passar. Inteligentemente, Alonso não brigou pois sabia que não teria chances – e que sua luta era com Ricciardo. Apesar do offset ser uma opção, ele depende da velocidade de reta porque é preciso passar na pista. A Red Bull usou o mesmo expediente com Ricciardo mas, como vimos, ele não chegou perto o suficiente de Alonso para comprovar se a tática funcionaria em seu caso.

O undercut ainda esteve presente e foi importante, por exemplo, para Hulkenberg chegar na frente de Bottas. O alemão era pressionado pelo finlandês antes da primeira parada, mas antecipou seu pit stop e ganhou 2/3s de vantagem que permaneceriam estáveis até o final. Alonso também usou do mesmo expediente para passar Vettel após o primeiro stint.

Tem braço fazendo a diferença

Motor Racing - Formula One World Championship - Chinese Grand Prix - Race Day - Shanghai, China

O GP da China foi um claro exemplo do quanto a adaptação de um piloto ao comportamento do carro tem feito diferença nesta temporada. Com menos pressão aerodinâmica, dificultando as freadas, e mais torque nas saídas de curva, tem piloto tendo mais mão de obra do que o normal para domar os carros.

De um lado, pilotos como Lewis Hamilton e Fernando Alonso. Do outro, ninguém menos que os também campeões do mundo Sebastian Vettel e Kimi Raikkonen. Enquanto os dois primeiros dizem conseguir colocar seus carros onde querem, os dois últimos não conseguem explicar por que têm sofrido tanto para impor seu estilo.

“Eu pessoalmente tive um final de semana muito bom, provavelmente no ritmo de 2012 em termos de pilotagem e de me sentir confortável com o carro”, disse Alonso, referindo-se à temporada em que esteve em estado de graça. De fato, a performance da China lembrou muito aquele piloto que levou uma Ferrari deficiente à luta pelo título até o final: arriscou na largada para se recuperar de uma classificação não tão positiva e brigou com quem podia, sem perder tempo tentando segurar Rosberg e cuidando dos pneus para acelerar na hora certa na briga com Ricciardo.

Mas quem está mesmo em estado de graça é Hamilton. Mesmo em um final de semana em que perdeu tempo por uma suspensão quebrada na sexta-feira, o inglês previu bem a evolução da pista, assim como já havia acontecido em outra prova que teve classificação com chuva, na Malásia, e venceu com muita facilidade. “Não lembro de ter tido um carro tão bom, que eu conseguisse colocar onde eu quisesse. Além disso, nunca pilotei tão bem”, acredita aquele que atualmente é vice-líder do campeonato – mas, pelo andar da carruagem, não por muito tempo.

Quem vive o outro lado da moeda não esconde a frustração. Vettel teve de admitir que não está conseguindo seguir o ritmo de Ricciardo – após mais uma vez ouvir a instrução para que deixasse o companheiro passar. “Não tive problemas, só não fui rápido o suficiente. Não estou me sentindo bem e precisamos ver o porquê”, afirmou. “Acho bom que Daniel esteja conseguindo tirar o melhor do carro, é uma boa referência para mim. Mas, no momento, a diferença entre nós é muito grande e preciso trabalhar nisso. O carro não está do jeito que eu gosto, mas claramente Daniel está mostrando que dá para tirar mais do carro do que eu estou conseguindo tirar.”

As dificuldades de Vettel levam a um cenário surpreendente na Red Bull, o mesmo que ocorre na Ferrari, com Raikkonen sofrendo para acompanhar Alonso. “O resultado do Fernando é muito encorajador e demonstra que estamos indo na direção certa, mas eu sofri. Não tinha aderência, nem nos pneus da frente, nem nos de trás. Acho que as dificuldades que encontrei aqui resultam de uma combinação de vários fatores: o meu estilo de condução, as baixas temperaturas e as características da pista”, definiu.

Isso mostra que não é apenas em relação às novas tecnologias que as equipes têm muito a descobrir acerca destes novos carros. Tem piloto bom sofrendo também. E, da mesma forma que a Mercedes aproveita para somar pontos enquanto os demais não reagem, quem se adaptou mais rapidamente vai deitando e rolando.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da China

Vettel1 a 3Ricciardo
Hamilton3 a 1Rosberg
Alonso3 a 1Raikkonen
Grosjean4 a 0Maldonado
Button2 a 2Magnussen
Hulkenberg3 a 1Perez
Sutil2 a 2Gutierrez
Vergne3 a 1Kvyat
Massa3 a 1Bottas
Kobayashi4 a 0Ericsson
Bianchi3 a 1Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: 0s505

Hamilton x Rosberg: 1s283

Alonso x Raikonnen: 1s095

Grosjean x Maldonado: sem tempo

Button x Magnussen: 0s672

Perez x Hulkenberg: 0s369

Sutil x Gutierrez: 0s860

Vergne x Kvyat: 0s705

Massa x Bottas: 0s135

Kobayashi x Ericsson: 1s386

Bianchi x Chilton: 1s539

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

A ideia é simples; a cópia, nem tanto

Motor Racing - Formula One World Championship - Bahrain Grand Prix - Race Day - Sakhir, Bahrain

Com três das quatro equipes que usam o motor Mercedes na dianteira do campeonato de construtores, fica óbvio que os alemães fizeram um trabalho melhor na construção da unidade de potência que estreou em 2014, mas qual é o segredo e por que sua equipe de fábrica consegue aproveitar isso tão bem que coloca 1s5 em qualquer concorrente são dúvidas que estão sendo esclarecidas.

O que está claro até agora é que a forma como a Mercedes organizou os elementos de sua unidade de potência trouxe uma série de benefícios, inclusive, aerodinâmicos. E, com os motores de 2014 homologados, é difícil que ainda seja possível que os rivais corram atrás do prejuízo.

Como divulgado pelo inglês Mark Hughes, a Mercedes separou as turbinas de entrada e saída do turbo, colocando uma em cada extremidade do motor de compressão. Elas são ligadas por um eixo que passa pelo V entre os cilindros. O MGU-H (unidade de recuperação da energia calorífica do turbo) opera neste eixo. Acredita-se que a Ferrari tenha obtido solução parecida, mas a separação obtida pela Mercedes seria mais longa e, por isso, mais efetiva.

São várias as vantagens: em relação ao funcionamento do motor em si, a confiabilidade aumenta porque o risco das temperaturas subirem demais, especialmente na problemática relação entre o MGU-H e o MGU-K, diminui. Com menor necessidade de arrefecimento na turbina de entrada, que fica longe das pressões exercidas pelo escapamento, o intercooler pode ser menor. Além disso, como mostra a animação da Sky Sports, são necessários menos tubos de admissão, o que significa uma resposta mais rápida no motor.

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Essa redução nos tubos também diminui o turbo lag, um atraso natural deste tipo de motor, que é compensado nessa nova unidade de potência de 2014 pela energia despejada pelo ERS-H. Assim, a energia calorífica é canalizada para outros usos, tornando o motor mais eficiente.

Essas são as vantagens no funcionamento do motor em si, algo de que todas as equipes com Mercedes tiram proveito e que, acredita-se, dá 50 a 70hp a mais que os rivais.

Já o segundo conjunto de benefícios é mais bem aproveitado pela equipe de fábrica porque seu carro foi concebido com esta configuração da unidade de potência em mente – na verdade, o fluxo de informações entre Stuttgart e Brackley, nos três anos de desenvolvimento deste carro, pode ter sido decisivo para que esta solução fosse adotada. Os clientes teriam recebido as informações definitivas sobre o motor ano passado.

Um intercooler menor significa mais espaço para soluções aerodinâmicas agressivas – e explica por que a traseira do W05 é tão enxuta, assim como suas entradas de ar. A separação entre entrada e saída da turbina também permite que a transmissão fique mais à frente, o auxilia no centro de gravidade, algo que ajuda no equilíbrio do carro.

É lógico que este não é o único trunfo da unidade de potência da Mercedes, que parece ter uma integração mais afiada entre os sistemas de recuperação de energia e o motor em si. E é aí que entra a briga do fluxômetro. Como salientei há algumas semanas, além da questão da segurança – ao impedir uma variação muito grande de velocidade entre quem está economizando combustível e quem não está – a restrição do fluxo de combustível visa ampliar o valor das unidades de recuperação de energia. Como esta é a grande deficiência do motor Renault, a briga da Red Bull é para ganhar vantagem com o motor de combustão ao travar uma guerra contra uma das regras que o limita.

Acredita-se que o problema central da Renault tenha a ver com o fato de vários elementos do turbocompressor e do MGU-H estarem posicionados um na sequência do outro, causando superaquecimento, principalmente quando o MGU-H fornece muita energia para o MGU-K, o que acaba desligando o sistema. No final das contas, a Red Bull precisa mesmo é de um motor Mercedes.

Um tapa na cara dos grandes

Motor Racing - Formula One World Championship - Bahrain Grand Prix - Race Day - Sakhir, Bahrain

Com menos da metade do orçamento de equipes como Red Bull, Ferrari e McLaren, a Force India vem conseguindo se manter em segundo lugar no mundial de construtores. Tudo bem que estamos apenas na terceira etapa do campeonato e o carro de Nico Hulkenberg e Sergio Perez não é o segundo mais rápido, de fato, mas ainda assim trata-se de um feito e tanto.

São várias as nuances que vêm fazendo da Force India a equipe mais consistente do meio do pelotão nos últimos anos. O time pode não ter tido os pódios da Sauber ou uma vitória, como a Williams, mas vem ficando entre a sexta e sétima colocações nos últimos quatro anos. Talvez seja esse sucesso relativo e constante que mantenha a equipe viva mesmo que empresas ligadas a seu dono, Vijay Mallya tenha sofrido fortes abalos desde 2011, incluindo problemas com a justiça indiana por débitos na casa de 1 bilhão de dólares.

Finanças obscuras à parte, é interessante como a equipe apostou em duplas de pilotos com boa relação custo/patrocínio/benefício, e viu o lucro disso.

Outro trunfo do time é o motor Mercedes, claro, e a eficiência de uma fábrica que aprendeu a se virar com orçamentos sempre abaixo dos 100 milhões de euros – este é o primeiro ano em que a quantia chegou aos nove dígitos, graças ao dinheiro trazido por Perez – 340 funcionários e uma fábrica bem menos paramentada que dos times grandes. O resultado são projetos conservadores, cuja função primordial é garantir confiabilidade, e toda e qualquer novidade é muito estudada antes de ser colocada em prática – simplesmente porque não se pode jogar dinheiro fora.

Isso, é claro, tem seu lado negativo e limita o nível de desenvolvimento ao longo da temporada. Por isso, é irreal neste momento pensar na Force India sequer no top 4 ao final do ano, mas todo e qualquer ganho de visibilidade, se possível com pódios, é bem-vindo.

Depois de conseguir reduzir em 10kg o peso do carro desde o início da temporada, o foco agora é ganhar em performance aerodinâmica e, no papel, as novidades que o time trará para as próximas duas etapas devem gerar 15 pontos em downforce. Talvez isso não fique tão claro na China, pois o carro se comporta melhor no calor, mas o certo é que, enquanto os grandes continuarem falhando, eles estarão por perto para aproveitar.

Grid anoréxico

jenson

A combinação entre uma regra mal pensada e uma tola resistência a mudá-la está criando um padrão que desafia a lógica na Fórmula 1: os “pilotos de passarela”. Motivados por um peso mínimo para os carros que não lhes dá muita margem, os mais altos estão colocando sua saúde em risco em troca de alguns décimos por volta. E uma solução ficou acertada apenas para 2015.

A raiz do problema é uma estimativa errônea do peso da nova unidade de potência, que compreende o motor V6, os geradores de energia híbrida e suas baterias. Prevendo que os carros ficariam mais pesados com a novidade, o limite mínimo do conjunto carro-piloto foi aumentado em 43kg em relação ao ano passado. O problema é que as contas estavam erradas.

Com toda a tecnologia empregada para que os carros sejam os mais leves possíveis, de onde tirar o peso excedente? Dos pilotos. Mesmo que eles tenham composições corporais distintas. Mesmo que um piloto magro demais corra riscos de desenvolver problemas de saúde e de não ter energia suficiente para lidar com o esforço de cerca de 1h30 de uma atividade intensa.

O peso ideal do piloto varia de acordo com a equipe e esse é um dos fatores que freia uma mudança durante o campeonato: há times que conseguiram fazer carros mais leves e, com isso, permitem que seus pilotos sejam mais pesados. A Mercedes, por exemplo, não se importa que Lewis Hamilton se mantenha por volta dos 74kg, segundo o piloto. Por outro lado, Jenson Button – pouco menos de 10cm mais alto que o inglês – tem de se manter abaixo dos 10kg que o conjunto carro-piloto da McLaren fique o mais próximo possível do peso mínimo.

No geral, é bem-vindo que o piloto não passe dos 70kg. Isso é relativamente fácil para os baixinhos, mas e para a turma que passa dos 1,80m? A turma conta com Ricciardo, Chilton, Grosjean, Hulkenberg, Gutierrez, Button, Vergne e Sutil, oito dos 22 pilotos do grid, e vem encontrando resistência justamente dos demais, que querem manter sua vantagem.

Vantagem essa que é diretamente medida em tempo de volta. Quando mais pesado for o conjunto carro-piloto, mais lento ele é. O caso mais grave é o de Adrian Sutil, correndo com o carro 20kg a mais que o peso mínimo, o que lhe daria uma desvantagem de seis décimos. Para se ter uma ideia, é uma diferença que garantiria cinco posições a mais no grid da última prova.

Tanto, que o alemão adotou uma solução drástica e “ganhou” 1,5kg ao retirar o reservatório de água de seu cockpit. Imagine correr sob temperaturas que chegam a 60ºC no cockpit sem água para beber e já lutando para emagrecer.

A desidratação, comum em lutadores que têm de chegar ao peso máximo antes de uma luta, se tornou uma solução popular entre os pilotos. Afinal, como já estão magros demais e perderiam massa muscular caso adotassem uma dieta ainda mais restritiva, usam formas de perder água para abaixar o ponteiro da balança. Porém, diferentemente de quem sobe ao ringue podendo recuperar até 12kg do que “bateu” na pesagem, os pilotos são pesados após os treinos e provas. Ou seja, têm de correr desidratados.

A perda de rendimento é óbvia e Vergne, inclusive, chegou a ser hospitalizado com quadro de desnutrição entre uma etapa e outra. Especialistas indicam que a performance começa a ficar prejudicada com a perda de 2% do peso corporal em líquido. Para um homem de 70kg, por exemplo, isso significaria 1,4kg, algo que já acontece normalmente em provas mais quentes. Imagine quem precisa perder mais do que isso.

Para o ano que vem, ficou acertado que o peso mínimo subirá em 10kg. Até lá, seguiremos com o grid, literalmente, seco.

GP do Bahrein por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Que isso não termine!”

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“Quem tem a melhor chance de chegar em terceiro? Ficaria entre Bottas e Perez.” É com esse ‘ânimo’ que o comentarista da Sky Sports Martin Brundle inicia a transmissão daquele que viria a ser um dos melhores GPs dos últimos anos.

Antes da largada, o britânico prevê ainda que Fernando Alonso se recupere depois de se classificar atrás de Kimi Raikkonen – e logo. “Também vamos ficar de olho na primeira volta, porque Kimi costuma ser cuidadoso, por isso sempre termina as corridas, e Alonso é sempre ousado – e está atrás do companheiro.” A preocupação do narrador da espanhola Antena 3, contudo, é outra. “Nunca vi tanto chefe na Ferrari. Estão aqui para colocar pressão.”

Na largada, o narrador britânico David Croft vê Rosberg “saindo melhor, mas Lewis tem a linha de dentro na primeira curva”. A atenção é tão grande na briga da ponta que a demora é de três curvas para ver Massa em terceiro. Na Globo, ocorre justamente o contrário. “Ele já vem para pular na frente e pra assumir a terceira posição. Grande largada do Felipe. Pulando de sétimo para terceiro”, se empolga Galvão Bueno, enquanto Lobato lamenta que “Fernando ficou muito preso no meio do tráfego.” Mas Raikkonen, como previa Brundle, ficou para trás.

Logo depois do comentarista Pedro de la Rosa comemorar que Alonso “ganhou de volta o terreno perdido na classificação”, fica claro que a Ferrari não tem ritmo. “Que difícil vai ser para Fernando se segurar com a velocidade de ritmo de Hulkenberg”, diz Lobato. Seria impossível, então o foco vai para a ponta. “O bom é que o Hamilton passou Rosberg e que eles deixem os dois lutarem. Isso aumenta a possibilidade de terem problemas”, torce o piloto de testes ferrarista.

Na Sky Sports, começam a falar de estratégia. “A Mercedes parece estar imaginando que fazer duas paradas é melhor do que três”, acerta Croft, enquanto Brundle observa, na volta 10, Rosberg “em uma situação melhor” na luta pela vitória com Hamilton e a “Force India mais forte que a Williams.”

Depois da empolgação do início, quando Reginaldo Leme chegou a ver Massa “no ritmo das Mercedes”, a falta de aderência da Williams começa a preocupar os brasileiros. “Balançou a traseira, não dá para colocar o pé. Mas ele está vindo com uma vontade…”, destaca Galvão.

O brasileiro vinha liderando um trem com o companheiro Bottas e as duas Force India até que o finlandês fez sua parada. “O problema é que eles estão lutando ainda e o Bottas está andando mais rápido”, observa Rubens Barrichello. Brundle também estranha que os demais pilotos do quarteto sigam na pista. “Eles têm de responder à parada do Bottas”, diz. “A não ser que estejam se comprometendo a fazer duas paradas”, observa Croft.

Tentando imaginar quem vai a três e quem fará duas paradas, De la Rosa estranha o pit stop de Vettel, único no top 10 com pneus médios. “A tática dele, que parece ser ruim nesse momento, pode ser melhor ao longo da prova. Mas é muito interessante. Se Vettel não tem pneus na volta 17 – e a Red Bull conserva bastante seus pneus – quem fará duas paradas e terá de ficar umas 23 voltas com os duros vai ter dificuldade”, prevê.

Antes do alemão parar, a corrida tem um lance inesperado: com Ricciardo de pneus macios, a Red Bull pede que o tetracampeão ceda passagem com o famoso “Daniel is quicker than you” – e é prontamente atendida. “Nunca achei que Vettel ia ouvir isso, mas ele só respondeu: ‘Entendido, vou abrir na curva 11’”, informa o repórter britânico Ted Kravitz. “É proibido dizer que é para deixar passar, por isso usa-se os códigos”, crê Galvão.

Mais à frente, a disputa entre as duas Mercedes é bem diferente, com Rosberg liberado para ir para cima de Hamilton. “Salvaram a asa dianteira, e isso já é o bastante. Temos de agradecer a Mercedes por deixá-los lutar. A vantagem deles é muito grande e seria chato que houvesse ordens logo na terceira prova. A questão aqui é quem será o primeiro a parar porque será uma grande vantagem”, observa De la Rosa. “A briga está sempre liberada aí, até o final do campeonato”, diz Reginaldo. “Espetacular essa briga da Mercedes. Isso é corrida de automóvel!”, se empolga Galvão.

Para Brundle, o fato do alemão ter atacado o inglês logo antes da primeira parada dos dois “confirma que Rosberg está com o conjunto mais forte”. Para Croft, a confirmação é de que “esses dois estão livres para disputar”.

Hamilton vai para o box e as estratégias são invertidas: o inglês volta com macios e o alemão, duas voltas depois, coloca os médios. “Curioso que Rosberg vai dar mais duas voltas. Isso lhe dará uma vantagem no final”, observa Brundle. “A melhor estratégia é a de Hamilton porque Rosberg tem de ultrapassar. Mas também é certo que Rosberg só tem chance de vencer se fizer algo diferente.”

Na Globo, Galvão recorda os tempos de Rubinho e Schumacher na Ferrari, e diz que Rosberg “tem que voar nas próximas duas voltas.” Mas Barrichello lembra que as coisas mudaram. “Hoje não tem jeito. A gente tem visto que quem vem com pneu novo tem vantagem. O Hamilton vai voltar na frente.”

Motor Racing - Formula One World Championship - Bahrain Grand Prix - Race Day - Sakhir, BahrainMassa recupera o terreno perdido no undercut de Bottas e chega de novo no companheiro, avisando a equipe via rádio que os pneus do finlandês estão muito usados. “Geralmente você fala dos próprios pneus”, diverte-se Brundle. “Mas ele tem razão porque as Force India estão chegando.” Force India, inclusive, que ganharam o apelido de “gazelas” de Lobato, inconformado com a facilidade com que Alonso era superado por Perez e Hulkenberg. “Ele deve estar imaginando: quantas Force India já me passaram hoje?”, se diverte Brundle.

Massa está claramente freado por Bottas. “Vamos ter posição inversa ao que aconteceu na Malásia. Massa vai chegar mais rápido no Bottas”, diz Galvão, salientando que não espera uma ordem, o que desagrada Brundle. “A resistência de dar ordens de equipe está atrapalhando muito as Williams.”

Como Hulkenberg não consegue passar Massa, é Perez quem vai para cima do companheiro. Brundle e Barrichello lembram das reclamações de seu ex-companheiro, Button, com as manobras do mexicano no próprio GP do Bahrein do ano passado. “Ele é complicado”, diz o brasileiro.

Todos se assustam quando Bottas por pouco não enche a traseira de Raikkonen. “Será que ele freou antes ou está economizando combustível? De qualquer jeito, foi um grande reflexo de Bottas”, se impressiona Croft. “Desviou bem porque era para ter enchido a traseira do Kimi. Ele bateu na Austrália e agora foi por pouco”, vê Reginaldo.

A ação na pista impressionava a todos. “Falaram que a F1 em 2014 não tinha ultrapassagens. Acho que guardaram tudo para o Bahrein”, diz De la Rosa. Outro fator que impressionava eram as lutas entre companheiros. “Os pilotos deveriam ser mais felizes na época que não tinha rádio. Tem coisa que você não gosta de ouvir”, diz Barrichello.

A terceira parada antecipada de Massa – “se eu conheço as equipes, é para fazer ele ficar na frente do Bottas”, como observa Rubinho – faz o pódio cair no colo das Force India. “Se eles forem parar duas vezes, isso é muito bom”, destaca Brundle.

E isso antes de Maldonado encher a lateral de Gutierrez, que capota e traz o Safety Car. “O carro está com as pernas abertas como o bambi”, diz Brundle sobre a Sauber. “São dois incidentes, com Kobayashi e Massa, e agora, que vemos o bico contribuindo para o acidente ser pior”, observa Croft, mas o comentarista não lhe dá muita atenção. De la Rosa tem outra explicação: “A carga aerodinâmica não funciona quando os carros estão em curvas lentas, é por isso que eles voam. Se esse toque é em curva rápida, isso não aconteceria.”

A maior preocupação de todos é com a corrida de Hamilton. “Tudo o que ele usou com seus pneus mais macios foi destruído”, lamenta Brundle. “Rosberg deve estar esfregando as mãos”, crê De la Rosa. “A casa caiu para ele”, diz Rubinho. Isso porque o inglês teria de se defender, com os pneus médios, do companheiro, que tinha os macios, nas 10 voltas finais.

O Safety Car também acabou ajudando aqueles que fariam duas paradas a economizar pneus. “É terrível para quem se comprometeu a três paradas. E se tinha alguém com dúvida, agora vai fazer duas”, vê De la Rosa. Rubinho, contudo, defende que “quem faria duas paradas já estaria à frente das Williams de qualquer jeito.”

Outra questão era a forma como a Mercedes lidaria com a briga de seus pilotos. “Fico imaginando o que a Mercedes vai fazer Motor Racing - Formula One World Championship - Bahrain Grand Prix - Race Day - Sakhir, Bahrainporque não é culpa do Lewis que tivemos um SC”, acredita Kravitz, que entende a recomendação da Mercedes para que os pilotos tenham cuidado como “uma ordem de equipe, muito clara”. Mas Brundle não concorda. “Para mim, foi ‘vocês podem disputar, só não batam’.”

E foi mesmo. Rosberg foi para cima, mas Hamilton não aliviou e conseguiu manter-se à frente, para a surpresa de todos. “Excepcional a tocada do Hamilton. Está pilotando uma barbaridade. Ele fez a diferença, pois achava realmente que ele não conseguiria segurar”, admite Rubinho. “Lewis está tendo de ser muito inteligente para posicionar seu carro, pois seus pneus têm de ser meio segundo mais lentos”, se impressiona Brundle. “Que longa está sendo a corrida para alguns, que curta para outros. Que isso não termine, por favor!”, se empolga Lobato. “Rosberg consegue. Sim? Não? Já não sei mais”, diz o narrador em uma das vezes em que o alemão parece ficar com a ponta, mas Hamilton se recupera.

No finalzinho, ainda deu tempo de Vettel jogar Massa para fora da pista ao evitar a ultrapassagem. “Ele não deveria jogar Massa tão para fora, já tivemos esse problema aqui com o Rosberg”, lembra Brundle, referindo-se a um incidente que mudou as regras em 2012. “Vettel colocou Massa para fora. Duvido que punam. Rubinho lembra bem como é, mas no caso dele tinha muro”, crê Galvão.

No final, “a casa não caiu, ficou pendurada”, como brincou o narrador brasileiro, mas Hamilton venceu. “É a 24ª vitória e imagino onde ela está em relação às demais. Aquela manobra em Rosberg logo antes da primeira parada lhe deu a prioridade nas paradas e lhe deu a vitória. Claro que teve de lutar pesado, mas aquilo foi fundamental”, observa Croft. “Isso vai calar a boca de muita gente que está reclamando das corridas”, emenda Brundle.

Massa poderia ter ido ao pódio no Bahrein?

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Nico Rosberg levou uma lavada de Lewis Hamilton na Malásia, estudou os dados com sua abordagem toda técnica, e foi fracionalmente mais rápido que o inglês no Bahrein. E perdeu de novo. Agora, resta estudar as táticas de ataque e defesa de posição. Foram elas, e não o ritmo, que garantiram a Lewis uma das vitórias mais espetaculares da carreira.

Foram dois os momentos capitais que deram a vitória a Hamilton. A largada lhe deu ar limpo para cuidar dos pneus na fase mais crítica da corrida, quando o carro está mais pesado, e a retomada da ponta na volta 19 lhe garantiu prioridade nos boxes. Em uma tarde em que o undercut chegou a render 6s, essa seria a única forma de manter um Rosberg ligeiramente mais veloz atrás.

O primeiro sinal da velocidade de Nico foi no stint inicial, quando não deixou que o inglês abrisse mais de 1s5 e o atacou nas voltas finais, como se estivesse cozinhando o galo o tempo todo. Para se ter uma ideia, quando foi liberado pelo pit stop Hamilton, Rosberg foi 1s mais rápido do que nas voltas anteriores, o que deve ter motivado a demora de duas voltas para o alemão entrar nos boxes. Talvez o plano fosse aproveitar que tinha ritmo para estender o stint e chegar com pneus mais inteiros no final.

A segunda prova é o stint seguinte. Teoricamente, a diferença entre os dois compostos era de meio segundo. De fato, ela provou ser menor que isso durante a corrida, mas não tão pequena quanto os 0s18/volta que Rosberg perdeu, em média, após voltar de sua primeira parada.

No final, o Safety Car eliminou a vantagem que Hamilton construiu e inverteu as posições: agora era Rosberg quem tinha os pneus mais rápidos. Uma chance que ele não conseguiu aproveitar, parando na muralha Hamilton, que se defendia fazendo a freada ideal na curva 1 e pegando a linha de dentro na 3. Com menos ritmo, pneus mais lentos e sem DRS, mas com uma determinação que nenhum número explica.

O desastre das 3 paradas

O Safety Car na volta 41 beneficiou quem tinha usado pneus médios durante a prova e quem tinha alongado os dois primeiros stints visando fazer só duas paradas: além de terem os pneus mais rápidos no final, não sofreriam com desgaste. Era possível que estes pilotos sofressem o ataque especialmente das duas Williams – as Ferrari não demonstraram em momento algum ter ritmo para tanto – nas voltas finais. Felipe Massa, logo após a prova, chegou a falar em pódio.

A situação do brasileiro era a seguinte: foram 13 voltas no primeiro stint, 15 no segundo, 10 no terceiro – diminuído para garantir o undercut em cima de Bottas – e 19 no quarto. Quando voltou à pista após o terceiro pit stop, estava em décimo, com três pilotos (Bottas e as Ferrari) que parariam novamente a sua frente, a 1s de Ricciardo e a 3s de Vettel.

Considerando a diferença de velocidade de reta e o menor número de voltas no pneu, é bem provável que o brasileiro conseguisse passar ambos sem o Safety Car ajudar Vettel e Ricciardo a economizar seus compostos. Hulkenberg, então com 18s de vantagem, seria um alvo bem mais difícil. Então faz sentido dizer que Massa perdeu um quinto lugar com a barbeiragem de Maldonado.

O uso do médio durante a prova foi bom para as Red Bull, que lutaram com vantagem contra as Force India, que estavam com os médios. Importante notar, inclusive, que a maior estabilidade faz do RB10 um carro que gasta menos pneu – e Ricciardo, durante toda a prova, pareceu se aproveitar melhor disso que Vettel.

Um domínio dos mais avassaladores

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Que seja público o agradecimento à postura da Mercedes durante o GP do Bahrein. Porque, ao ver as estatísticas, o cenário deste início de temporada tinha tudo para ser uma monotonia só.

A prova de Sakhir foi a terceira em sequência em que todas as voltas foram lideradas por um piloto da Mercedes. Nesse sentido, é o maior domínio desde a Williams de 1992, que liderou todas as cinco primeiras provas e as 70 iniciais do GP de Mônaco, até Nigel Mansell ter um furo em seu pneu.

Se somarmos o fato de Rosberg e Hamilton também terem feito a melhor volta e as poles, é a primeira vez que isso acontece na história. Em relação à porcentagem de pontos, a quebra de Hamilton na Austrália faz com que o time tenha obtido “apenas” 86% dos pontos possíveis mas, mesmo assim, é o melhor desde os 94% da Ferrari em 2004.

Tal domínio é a chance dos dois pilotos melhorarem suas marcas pessoais. No Bahrein, Hamilton igualou Fangio ao chegar à 24ª vitória, enquanto Rosberg, em seu GP de número 150, empatou com o pai, Keke, em número de poles, com cinco.

E as ultrapassagens? Foram 67 manobras, contra 88 do ano passado, quando a categoria estava envolta em críticas a respeito da durabilidade dos pneus. Em relação às duas primeiras etapas, contudo, o número é quase o dobro: foram 31 na Malásia e 29 na Austrália.

Foi uma prova de marcas interessantes para as equipes. Perez conquistou o primeiro pódio para a Force India desde o GP da Bélgica de 2009. Este é o melhor início da história do time, agora em segundo no campeonato. E olha que a história é longa: esta foi a 400ª largada de uma equipe que já foi a Jordan, Midland e Spyker.

A Williams também está tendo um grande início em relação aos anos anteriores: desde os GPs do Brasil e do Japão de 2004, o time não pontuava com ambos os pilotos em duas provas consecutivas.

Para se ter uma ideia da draga do time de Grove, mesmo uma Ferrari capenga conseguiu salvar uma marca que dura desde 2010: de lá para cá, o time italiano sempre teve pelo menos um piloto nos pontos, em um recorde que chegou aos 70 GPs no Bahrein. A McLaren, por sua vez, teve seu primeiro abandono desde o GP do Brasil de 2012. Se contarmos os abandonos duplos por causas mecânicas, temos de retornar ao GP da Europa de 2004. Tudo isso, no 900º GP da história da Fórmula 1 (confira como foram os demais GPs centenários).

Entre os pilotos, foi o pior resultado – descontando abandonos – de Vettel desde o GP do Brasil de 2012, aquele que lhe deu o tri. E Maldonado conseguiu duas façanhas: foi o primeiro piloto com o número 13 a ver a bandeirada e provocou a primeira capotagem desde o GP da Europa de 2010 (Webber/Kovalainen). Nos últimos 10 anos, isso só aconteceu com Klien na Hungria 2005, Albers em Imola 2006, Heidfeld em Indianápolis 2006 e Kubica no Canadá em 2007. Seriam os bicos novos, foi roda com roda ou o problema é o desenho estranho da Lotus? Que ninguém se machuque antes de termos as respostas.

Thriller

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Ninguém teve tempo para reclamar da falta de barulho desta vez. Em uma corrida em que os pneus duraram na medida certa para provocar excelentes brigas estratégicas e os companheiros de equipe não quiseram saber de “levar os carros para casa”, o GP do Bahrein foi épico – e deu uma bem-vinda sensação de que, pelo menos enquanto ninguém conseguir competir com as Mercedes, seus pilotos não têm a intenção de tirar o pé.

Lewis Hamilton errou na classificação, mas se recuperou com juros e correção para se defender de Nico Rosberg mesmo com os pneus mais lentos. A diferença ocorreu por uma inteligente tática da equipe de colocá-los em estratégias diferentes para separar os dois quando a briga estava pesada demais, logo antes do primeiro pit stop. Ali, Rosberg fizera o que se espera dele, demonstrando ter poupado mais seus pneus, e Hamilton respondia com suas armas: uma tocada agressiva e com muita raça. No final, a sobrevivência do inglês foi importante para o campeonato, com mais sete pontos da vantagem do alemão descontados.

Um duelo que traz ecos da batalha de Senna e Prost no campeonato de 1988. Com um carro muito superior, um piloto agressivo contra outro mais racional. No final das contas, um segundo separando-os. Pelo menos agora sabemos que, enquanto as Mercedes forem superiores, ainda assim temos um belo campeonato nas mãos.

Falando em superioridade, assustou a vantagem que Hamilton e Rosberg abriram em 10 voltas – e ainda por cima brigando por posição! Foram 23s na provavelmente única vez até agora em que os carros prateados mostraram todo o seu potencial.

Mais atrás, as brigas foram garantidas pelo undercut (estratégia de antecipar a parada para andar rápido e voltar na frente), que ganha outro ingrediente importante neste ano: o ERS-K. Segundo as regras, o carro pode usar 4 megajaules de potência por volta, mas só pode armazenar 2. O que temos observado é que o carro que antecipou a parada e está com pneus mais novos, acaba ganhando ainda mais tempo do que ano passado em relação ao rival que permanece com os pneus velhos devido à gestão desta energia adicional.

Por isso vimos Bottas ganhar de Massa no meio da corrida e o inverso (uma ordem de equipe inteligente por parte da Williams, após o fiasco de execução da Malásia) ocorrendo no final da prova, vimos Vettel ganhando de Ricciardo no decorrer do GP e outras situações do tipo. Tudo isso movimentou a prova e fomentou a intensa troca de posições.

Para a Williams, fica cada vez mais clara a deficiência aerodinâmica. Se foi a chuva que escancarou os problemas de um carro que voa na reta nas primeiras duas etapas, agora foi o alto consumo de pneus, principalmente em uma pista tão “traseira” como do Bahrein. Outra coisa que ficou comprovada é como a aerodinâmica é o ponto forte da Red Bull, que não teve um ritmo tão bom em um circuito mais de motores. E mesmo assim Ricciardo foi o terceiro no grid.

Agora sim, podemos dizer que a temporada que todos esperavam começou de verdade.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP do Bahrein

 

Vettel1 a 2Ricciardo
Hamilton2 a 1Rosberg
Alonso2 a 1Raikkonen
Grosjean3 a 0Maldonado
Button1 a 2Magnussen
Hulkenberg2 a 1Perez
Sutil1 a 2Gutierrez
Vergne2 a 1Kvyat
Massa2 a 1Bottas
Kobayashi3 a 0Ericsson
Bianchi2 a 1Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciardo x Vettel: 0s393

Rosberg x Hamilton: 0s279

Raikkonen x Alonso: 0s624

Grosjean x Maldonado: 0s009

Button x Magnussen: 0s325

Perez x Hulkenberg: 0s369

Gutierrez x Sutil: 0s273

Kvyat x Vergne: 0s141

Bottas x Massa: 0s264

Kobayashi x Ericsson: 0s790

Bianchi x Chilton: 0s603

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

 

Os volantes “de nave espacial”

Motor Racing - Formula One Testing - Bahrain Test One - Day 1 - Sakhir, Bahrain

A primeira das três corridas noturnas do campeonato vai evidenciar uma novidade neste campeonato: o volante. Principalmente devido às novas formas de recuperação de energia, várias equipes adotaram o PCU-8D, desenvolvido pela McLaren, uma grande tela central para que os pilotos tenham mais facilidade em fazer as alterações devidas durante a corrida.

Vale lembrar que, há 10 anos, a telemetria na Fórmula 1 não é bidirecional. Isso significa que modificações no carro só podem ser feitas pelo piloto, e não pela equipe, que apenas enxerga os dados que vêm do carro.

A nova tela, que mede 4,3 polegadas e pesa 230g, é feita de OLED (LED orgânico, mais fino e de melhor qualidade), o que deixa o volante mais leve do que até ano passado, além de possuir um sistema que permite que o piloto escolha o que aparece no visor. Podem ser as tradicionais marchas ou o equilíbrio de freio, por exemplo. São 100 possibilidades diferentes de páginas. Como definiu Nico Rosberg, “é como o painel de uma nave espacial.”

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Você pode estar pensando: como um piloto vai usar tudo isso a 300km/h? Não, ele não vai usar. E esse seria o principal motivo para nem todas as equipes terem aderido ao novo volante, já que a maioria prefere só ver seu tempo e rotação do motor para controlar as marchas. É o caso de Williams, Red Bull e Lotus. Por outro lado, os pilotos têm feito duas vezes mais alterações no volante por volta que ano passado e, com o PCU-8D fica mais fácil com o novo display resolver problemas na unidade de potência, por exemplo, uma vez que isso tem de ser feito pelo piloto de qualquer maneira. E ele também dá a possiblidade do piloto ter mais dados para estudar quando chega aos boxes.

“Tenho 38 controles diferentes em meu volante. É realmente incrível. Foi difícil durante os testes me acostumar com tudo, mas é por isso que o simulador ajuda tanto, porque você pode fazer várias voltas para ir entendendo a tecnologia. Agora é subconsciente e seu onde tudo está e o que tenho de fazer”, assegurou o piloto alemão.

Além da possibilidade de visualização de um número maior de dados e da maior gama de configurações possíveis do novo visor, ele também diminui a quantidade de botões do volante. Na Mercedes, por exemplo, há 12 botões e 9 botões giratórios. São eles:

– BB + e -: controla o brake-by-wire/equilíbrio de freio traseiro

– OT: dá um gás extra nas ultrapassagens

– N: ponto morto

– +10/+1: botões multifunção

– Rádio

– PL: Limitador de velocidade para os boxes

– DRS

– Marker: usado para salientar algum ponto na informação mostrada no display

– PC: Confirma informações recebidas sem a necessidade de responder via rádio.

Botões Giratórios: do lado direito, altera o diferencial, alterando o torque nas diferentes fases das curvas; do esquerdo, ajusta os freios e o mapeamento do pedal. Embaixo, estão os controles gerais de configuração, como alterações quando se muda o tipo de composto utilizado ou começa a chover, controles da unidade de potência e do quanto de energia será recuperado e gasto.

As luzes da parte de cima são configuráveis, mas geralmente usadas para ajudar nas trocas de marcha, enquanto as laterais indicam as sinalizações da FIA (bandeira azul, amarela ou vermelha).

As funções vão variando de acordo com a equipe, como é possível ver nessa explicação da Ferrari

A Williams e a Red Bull, por sua vez, continuam usando o volante do ano passado:

 

GP da Malásia por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Eu não deixo passar, me ultrapassam”

Motor Racing - Formula One World Championship - Malaysian Grand Prix - Race Day - Sepang, Malaysia

Será que Vettel conseguirá se colocar no meio da briga das Mercedes? Os pneus vão aguentar o calor malaio? E a chuva, será que vem? Quando as luzes se apagam e é dada a largada em Sepang, as peças começam a se encaixar. “Larga bem o Hamilton, veja que o Vettel pressiona. Vettel tenta por fora, pode ser um bom bote para a segunda curva, que é para o outro lado. Massa já ganhou três posições”, destaca Luis Roberto, na Globo. “É uma grande largada de Rosberg e Hamilton, e Vettel tentam cobri-lo. Ricciardo consegue uma ótima linha por dentro. Ele consegue superar a Ferrari? Consegue!”, vibra David Croft, na Sky Sports britânica. “Pilotagem bem agressiva de Ricciardo. E Massa está abrindo caminho”, observa o comentarista Martin Brundle.

Na Antena 3, da Espanha, o narrador Antonio Lobato vê “Alonso perseguindo Vettel e Raikkonen forte. Problemas para Fernando, que está no meio de Kimi e Ricciardo. Ricciardo passou até Vettel, multi 21 não existe no momento! Onde está Bottas? 12º? Não pode ser, ele largou em 18º!”

Multi 21 é uma analogia usada pelo espanhol para ordens de equipe, uma aposta da transmissão para o GP da Malásia, com direito a pesquisa de opinião com os telespectadores. A expectativa é que Mercedes ou Red Bull façam uso desta estratégia, principalmente agora que seus pilotos estão próximos – Hamilton e Rosberg em primeiro e segundo. Ricciardo e Vettel em terceiro e quarto. “É ruim que Rosberg tenha largado tão bem porque, no tráfego, o motor pode se superaquecer”, o comentarista Pedro de la Rosa não quer saber de dobradinha.

Na Globo, Luis Roberto comemora que “a Williams muito rápida, a velocidade final é muito forte. No seco é outra história.” Mas quem chama a atenção é Magnussen, em lance que é (parcialmente) pego ao vivo por Croft. “Magnussen quase toca em Raikkonen, mas consegue passar”, diz o narrador, enquanto Brundle vê uma “excelente pilotagem do jovem”. De fato, a asa dianteira da McLaren do dinamarquês furou o pneu da Ferrari do finlandês.

O incidente merece investigação dos comissários. “Pode ser interpretado como toque de corrida ou como o Magnussen tentando colocar o carro onde não devia e atrapalhando o Kimi”, avalia Luciano Burti, enquanto Reginaldo Leme se atrapalha e confunde o novato com Bottas. “Não parece que vale punição, mas vai saber. Vale lembrar que é um piloto que já foi punido, está em observação, já levou dois pontos. Numa eventual suspensão por uma corrida, seria o reserva Felipe Nasr que correria.”

É que, como diz Burti, “a situação está ficando quente na Williams porque a equipe está pedindo para o Bottas não atacar o Felipe para não prejudicar a corrida dos dois.” Primeiro, aparece um raivoso rádio de Massa, perguntando “vocês viram o que ele fez?”, o que, explicam os britânicos, refere-se a Magnussen. Depois, Bottas faz o pedido para ser liberado. “Foi curioso ouvir o tom das duas mensagens. Um empolgado e o outro com a tranquilidade escandinava”, diverte-se Brundle.

Luis Roberto dá razão à Williams. “Se Massa tiver de se defender, o ataque ao Magnussen fica prejudicado. A equipe está certa”, justifica. Jacobo Vega, da TV espanhola, tem outra visão. “Está certo o Bottas. Massa não está nem perto do Magnussen.”

É quando chega a primeira rodada de pit stops e De la Rosa e Brundle percebem o tamanho da vantagem de antecipar a parada. “Se você for o primeiro a entrar, pode andar até 3s mais rápido do que quem ficar. O primeiro a entrar vai obrigar os outros a fazer o mesmo”, diz o espanhol. “Como o piloto que está na pista tem muito mais energia armazenada do que quem está no box, o undercut se torna ainda mais efetivo”, completa o inglês.

Quem demora para parar é Bottas, criticado pelos brasileiros por lutar por posição com os ponteiros mesmo com pneus bem mais velhos. “Essa briga do Bottas, se defendendo com pneus desgastados, é boa para o Felipe. Ele está perdendo muito tempo”, vê Burti. Enquanto isso, Lobato vibra com manobra “incrível” de Alonso para passar Bottas com pneus usados.

Motor Racing - Formula One World Championship - Malaysian Grand Prix - Race Day - Sepang, MalaysiaO gráfico que mostra o consumo de combustível faz sua estreia e os comentaristas aproveitam para malhar a Red Bull, que anda peitando a FIA após a punição a Ricciardo na Austrália. “Gostamos muito deste novo gráfico, vai ser muito útil”, diz Croft. “Mas provavelmente a Red Bull vai dizer que não é preciso”, retruca Brundle.

Na Antena 3, Lobato informa que “Christian Horner acaba de dizer que o sensor do carro de Ricciardo parou de funcionar. Como isso é bom para eles, não?” E De la Rosa emenda. “Na porcentagem que vimos há pouco, estava funcionando, e era dos que mais gastavam… Essa questão dos sensores é bastante complicada.”

No miolo da prova, de nada adianta o pensamento positivo de Dela Rosa para que “Vettel chegue em Rosberg para vermos o que ele pode fazer e colocar essa Mercedes nas cordas em termos de confiabilidade.”

O top 4 só se altera quando Ricciardo é liberado de seu pit stop sem uma das rodas devidamente afixada. “Coitado”, exclama Burti. “Com isso, Massa ganhou uma posição. Quem diria a RedBull cometendo um erro desse”, surpreende-se Luis Roberto. “Acho que seu famoso sorriso vai desaparecer um pouco”, aposta Brundle.

Os problemas do australiano não param por aí. Sua asa dianteira se quebra aparentemente sem explicação. “Talvez alguém tenha batido no pit stop, mas a asa é muito resistente, não é fácil de quebrá-la. Acho que tinha outro problema. Tem mais de 1.000kg de pressão aerodinâmica em cima desse carro. A asa tem de ser resistente, não quebra à toa”, estranha Burti, enquanto De la Rosa primeiro se preocupa porque o piloto estava próximo de Alonso na pista e depois vê uma algum problema nos pilares de sustentação, o que “pode acontecer por um milhão de coisas”.

A parte final da prova se aproxima e duas lutas se desenham: Alonso vai à caça de Hulkenberg, que fez uma parada a menos e tem pneus desgastados, e Massa parte para o ataque em Button, trazendo seu companheiro Bottas logo atrás. “Está com o carro inteiraço e dá para ver que ele vai muito mais inteiro em cima do Button”, vê Reginaldo, que também destaca o pouco consumo de combustível da Williams em relação aos rivais. “A vantagem de ter um carro econômico é que eles podem forçar ao máximo nestas voltas finais. Obviamente, economizar muito às vezes não é bom porque esse combustível a mais também significa mais peso”, considera Burti.

Massa tenta a ultrapassagem em cima de Button, mas o inglês fecha a porta. “Button colocou muito bem seu carro ali, não deu chances para Massa. Se você quiser passar um carro, tem de fazer logo, senão corre o risco de superaquecer o carro ou degradar os pneus”, avisa Brundle.

Dito e feito. Massa já não consegue pressionar Button e a Williams decide Motor Racing - Formula One World Championship - Malaysian Grand Prix - Race Day - Sepang, Malaysiadar a chance a Bottas de fazê-lo. E o brasileiro ouve o “Bottas is faster than you”. Neste momento, a transmissão foca na ultrapassagem de Alonso sobre Hulkenberg. Luis Roberto não interrompe a narração empolgada da disputa, mas muda completamente o tom assim que o espanhol consegue a manobra e joga a bola para Burti. “A equipe está falando para o Felipe que o Bottas está mais rápido e que não é para segurá-lo. Eles não querem confusão entre eles. E muito bacana a briga do Alonso e do Hulkenberg. Jogando duro, mas com respeito”, diz o comentarista. “É uma conversa e a equipe pensa nos pontos dela”, emenda o narrador. “A equipe está pensando que o Bottas teria tempo de chegar no Button. Da mesma forma que a equipe falou no início da corrida que não era para o Bottas atacar porque não precisava, agora está pensando nos pontos dela”, concorda Burti.

Mesmo entendendo o pensamento, Luis Roberto defende que “Bottas que passe. Se for uma briga como a do Alonso e o Hulkenberg, não tem perigo.”

Com o passar das voltas, Massa não abre para o companheiro. “Vamos lembrar que, quando aconteceu aquele episódio da Ferrari, ele saiu da frente. Agora, está continuando no ritmo dele. Se o Bottas botar de lado, acredito eu que ele não vai forçar porque a equipe pediu. Mas tirar o pé, acho que ele não vai”, crê Burti.

Os outros ex-pilotos de F-1 apoiam a atitude do brasileiro. “Esse cara passou metade da carreira dele ouvindo que tinha de sair do caminho. A Williams está pensando que Bottas pode passar Button. Mas Massa não quer lhe dar essa vantagem psicológica. Vai ser um debrief tenso, mas eu faria o mesmo que ele”, diz Brundle. “Lembro de uma vez, em uma corrida de kart, em que me perguntaram por que não deixei meu companheiro passar e eu disse ‘eu na deixo passar, me ultrapassam. Se não me ultrapassarem, vão ficar atrás’”, conta De la Rosa.

No momento da ordem, Lobato, claro, está focado em Alonso, mas não deixa de comentar em tom sarcástico. “Há outra briga, da Williams, e Massa acaba de ouvir uma frase que conhece bem”. Como o brasileiro não cumpre a ordem, Vega acha que ele vai alegar que “o rádio não estava funcionando” e ganha o elogio de Dela Rosa. “Jacobo seria um dos melhores pilotos. Já sabe fazer tudo direitinho.”

O trenzinho de Button, Massa e Bottas continua junto até o final e Luis Roberto se irrita por a TV mostrar a disputa pelo 11º lugar. “E o cara fez a arte de tirar a chegada do Felipe. Fala sério!”

Na frente, “uma corrida impecável, largada perfeita, grande ritmo mesmo poupando equipamento, e principalmente merecida depois do que aconteceu na Austrália” para Hamilton, como frisa Burti. “É meu favorito para o campeonato, mas está atrás do Rosberg”, lembra Reginaldo.

Brundle também elogia a performance de um “feliz” Hamilton. “Foi perfeito. Ele cobriu todos desde a primeira curva.” Já De la Rosa valoriza a performance de Vettel. “Ele não tinha carro para estar aí. Percebemos isso porque estava sem fôlego ao falar.” Preocupado com a Red Bull, Lobato observa que “a tranquilidade da Mercedes não foi tão grande quanto na Austrália, talvez porque a aerodinâmica tenha jogado um pouco a favor da Red Bull.” Porém, o comentarista não deixa o narrador desconsiderar os alemães: “A diferença ainda é abismal.”

Hamilton triunfa enquanto as forças se misturam

Garantindo a poupança
Garantindo a poupança

Não era ele quem ia detonar os pneus com mais torque no motor? Que não saberia lidar com um regulamento que privilegia a eficiência porque só sabe acelerar? Lewis Hamilton deixou todos imaginando o que poderia ter sido na Austrália ao bater o companheiro Nico Rosberg sem precisar fazer muita força no GP da Malásia, recuperando-se da decepção do abandono prematuro da prova anterior. E deve ter deixado uma pulga atrás da orelha do alemão.

Rosberg mais uma vez não foi bem na classificação sob chuva – condição, façamos justiça, na qual Hamilton é especialista – e sofreu com a degradação dos pneus traseiros. Isso dificilmente é só uma questão de pilotagem e mostra o bom trabalho que Lewis e seu engenheiro fizeram ainda na sexta-feira no acerto do carro prevendo acertadamente a evolução da pista. Com o carro mais equilibrado, o inglês pôde controlar melhor o consumo de combustível e seu ritmo.

Aliás, o novo gráfico da porcentagem gasta – mesmo que não tenhamos o valor de referência, que deve variar ligeiramente de carro para carro – ilustra bem o objetivo desta nova Fórmula 1: não é uma questão de gastar menos combustível, mas sim de gastá-lo da forma mais eficiente. Unindo desgaste menor e mais velocidade, a Mercedes está sobrando.

O quanto? Basta comparar as voltas mais rápidas de Hamilton e Sebastian Vettel: 1s2 de diferença sendo que a marca do inglês foi estabelecida só duas voltas depois. Por outro lado, o rendimento da Red Bull no setor das curvas de alta – Vettel perdia 0s4 no trecho inicial com mais retas e 0s2 no segundo –, mostra como o carro do tetracampeão é forte e pode alcançar os prateados ao longo do ano.

Porém, o estresse menor ao qual Hamilton e Rosberg têm submetido seu equipamento nesta parte inicial – lembrando que cada piloto só pode usar cinco unidades de potência no ano – será importante lá na frente. Vettel usou na Malásia sua terceira CE PSU (unidade que controla a alimentação de energia) e só tem direito a mais duas no ano.

McLaren e Williams

Quando Jenson Button diz que as melhorias que a McLaren levou para a Malásia foram mascaradas pelas características do circuito, isso quer dizer que há trabalho pela frente em Woking. Especialmente o segundo setor destes três carros em Sepang evidenciou sua falta de pressão aerodinâmica em relação a Mercedes, claro, mas também Red Bull e Ferrari.

No caso do time de Massa, chamou a atenção a dificuldade de ultrapassar a McLaren. A questão, assim como na chuva, é a instabilidade da traseira, que faz com que seus pilotos demorem mais para conseguir despejar a potência. De reta, o carro é rápido, mas isso de nada adianta quando a saída de curva é ruim. O mesmo fator explica o baixo consumo de combustível, como explicou Bottas após a corrida malaia. “Demoramos mais para colocar o pé no acelerador, por isso economizamos. Mas preferiria um carro com mais downforce e que gastasse mais.”

No Bahrein, eles devem andar melhor, assim como a própria McLaren e a Williams, pois há menos curvas de alta e o motor Mercedes deve falar alto em um circuito basicamente de retas e curvas travadas. Mas melhorias – e Massa admitiu que talvez elas só cheguem na China – são mais que bem-vindas.

O dia do fico

Motor Racing - Formula One World Championship - Malaysian Grand Prix - Race Day - Sepang, Malaysia

Quem é que ganhou a corrida mesmo? Sim, Lewis Hamilton teve um final de semana dos sonhos e sequer pareceu forçar muito para colocar mais de 17s no próprio companheiro de equipe, que em momento algum da corrida teve ritmo para assustá-lo. Mas o clima azedo na Williams ao final da prova (não estou na Malásia, mas conto com o testemunho do Ico para dizer isso) roubou a cena de um GP que parece predestinado a rebeldias.

Analisando racionalmente, a Williams esteve correta em avisar Felipe Massa de que Valtteri Bottas vinha mais rápido. Primeiro, porque era verdade, e segundo, porque havia a possibilidade real de superar Button. Mais correta ainda seria a postura indicada por Rod Nelson de que a intenção era dar a Bottas um prazo para ele fazer a ultrapassagem. Se não o fizesse, devolveria o sétimo lugar a Massa.

É sempre difícil gerir uma corrida quando seus dois pilotos estão correndo juntos, como aconteceu com a Williams no início da prova. Sentindo-se mais rápido, mas não o suficiente para passar – com dois carros iguais, as armas para defender e atacar são as mesmas – Bottas fez uma prova bastante inteligente, alargando seu primeiro stint ao máximo para fazer a terceira parada o mais tarde possível e voar no final. Foi assim que o finlandês saiu do box no 44º giro 5s6 atrás de Massa, que parara duas voltas antes, e chegou no brasileiro três voltas depois.

Quando veio a ordem, menos de três segundos separavam Button, Massa e Bottas. A prioridade da equipe, claro, é maximizar seu resultado e, naquele momento, era o finlandês que demonstrava ter mais chances de obter isso.

Mas havia um ser humano dentro daquele carro da Williams. No final de uma corrida extenuante e com uma marca inquestionável na memória das diversas vezes em que se sentiu deixado de lado na Ferrari, Massa não quis saber de lógica nenhuma. Teve de ouvir por quatro anos que se tornou capacho quando levou aquela ultrapassagem oportunista de Alonso na entrada do box na China e não deixaria que a história se repetisse.

A Williams sabia de tudo isso quando o contratou. E Massa sempre destacou o quanto o respeito com que foi tratado desde o primeiro momento no time lhe era importante. Portanto, como parece que o brasileiro e Bottas ainda se encontrarão bastante pelas pistas por aí, seria inteligente a equipe levar isso em consideração daqui em diante.

No mais, em mais uma corrida morna, a novidade do gráfico com o consumo de combustível foi um alento. Mas ainda é pouco para compreender o que realmente está acontecendo na pista.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Malásia

Vettel1 a 1Ricciardo
Hamilton2 a 0Rosberg
Alonso2 a 0Raikkonen
Grosjean2 a 0Maldonado
Button0 a 2Magnussen
Hulkenberg2 a 0Perez
Sutil1 a 1Gutierrez
Vergne2 a 0Kvyat
Massa2 a 0Bottas
Kobayashi2 a 0Ericsson
Bianchi1 a 1Chilton

Diferenças de hoje:

Vettel x Ricciado: 1s055

Hamilton x Rosberg: 0s619

Alonso x Raikkonen: 1s043

Grosjean x Maldonado: 1s872

Magnussen x Button: 1s840

Hulkenberg x Perez: 1s672

Gutierrez x Sutil: 0s997

Vergne x Kvyat: 0s255

Massa x Bottas: 0s296

Kobayashi x Ericsson: 0s812

Bianchi x Chilton: 1s686

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Levem as crianças para casa

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Ah, os companheiros de equipe…

Há quem diga que a Mercedes corre contra si mesma neste final de semana, na Malásia, tamanha sua vantagem em relação aos rivais demonstrada na etapa de abertura do campeonato, na Austrália. Mas isso está longe de resolver a fatura em Sepang – e ecos do que aconteceu há um ano podem atormentar Toto Wolff e companhia no pitwall da equipe.

No GP da Malásia de 2013, que acabou ficando famoso justamente por um jogo de equipe mal gerido pela Red Bull, Lewis Hamilton e Nico Rosberg correram próximos durante boa parte da prova, sem ritmo para chegar em Mark Webber e Sebastian Vettel e monitorando o desgaste de pneus e o consumo de combustível de modo que não eram alcançados por quem vinha atrás.

Estava tudo controlado pelo então chefe Ross Brawn quando, nas voltas finais, ficou claro que Rosberg, quarto, tinha mais ritmo que Hamilton, terceiro. Os dois, inclusive, chegaram a trocar posições enquanto o alemão argumentava via rádio que poderia ser mais rápido. Isso porque havia poupado mais combustível durante a prova. Por outro lado, Brawn dizia que Hamilton estava sendo instruído a economizar naquele momento e que Rosberg não deveria atacá-lo. Era a segunda corrida do inglês na equipe em que o alemão está desde 2010 e, para muitos, aquela decisão deixou claro quem era considerado o número 1.

Rosberg acabou acatando a decisão, mas avisou: “Não vou esquecer disso, Ross”. E tudo indica que, neste ano, ele terá a chance de comprovar suas palavras. Na Austrália, o então pole Hamilton teve uma falha no motor e nos privou da única briga possível pela vitória, mas como será o desfecho na Malásia?

Uma parte importante da vitória de Rosberg em Melbourne foi a possibilidade do alemão dosar seu carro. O alemão só acelerou pra valer nas primeiras voltas após a largada e a relargada – tanto, que fez a melhor volta no 19º giro, com o carro ainda pesado. Com tantas novidades no carro, a equipe preferiu somente fazer o necessário para vencer.

No caso de ambos os pilotos estarem na prova, o princípio deveria ser o mesmo. Provavelmente haverá uma definição prévia do tipo “quem sair na frente após a primeira parada vence” para evitar que os pilotos briguem entre si e acabem ficando pelo caminho – lembrando que o temor por quebras é ainda maior no calor malaio.

Difícil é imaginar Hamilton, piloto que não cansa de repetir que corre com o coração e que não costuma pensar duas vezes antes de ir para cima, desistir de uma vitória sem lutar. Ainda mais quando já tem um déficit de 25 pontos no campeonato por algo que fugiu ao seu controle. Rosberg tem personalidade diferente, mas não pode deixar o companheiro sugar seu espaço, ainda mais com um canhão nas mãos e grandes chances de conquistar um título. E não é mais Brawn que está no pitwall, e sim Wolff, que demonstrou competência em diversas áreas até aqui, mas nunca enfrentou uma situação dessas. Com estes ingredientes à mesa, quem sabe o GP da Malásia de 2013 não pareça mais uma lembrança distante.

Quem vai derreter no calor da Malásia?

Motor Racing - Formula One World Championship - Australian Grand Prix - Practice Day - Melbourne, Australia

Prefere primeiro a boa ou a má notícia para a competitividade do campeonato? Costumo começar pela má, então vamos lá. O ritmo demonstrado pela Mercedes no GP da Austrália dá indícios de ser mais forte do que Sebastian Vettel tinha na segunda parte do ano passado em relação aos rivais. É algo entre 1s2 e 1s3, mas foi encoberto por uma abordagem bastante cuidadosa da equipe no primeiro GP do ano – Nico só forçou nas primeiras voltas e após o Safety Car, assim como o outro alemão cansou de fazer nos últimos anos. Por outro lado, em um ano em que se começa do zero, há mais possibilidade de reação dos rivais. Principalmente, quando Ferrari e Renault explorarem suas unidades de potência ao máximo.

Na luta para se estabelecer como segunda força, o ritmo de Williams e McLaren foi comparável na Austrália, com vantagem para o time de Grove enquanto usava-se pneus macios e para Woking com os médios. Além disso, são dois dos carros que se mostraram mais confiáveis nos testes.

Porém, ambos têm seus problemas: a instabilidade da traseira, evidenciada na classificação com chuva para o lado da Williams, e o excesso de arrasto aerodinâmico, que freia o McLaren nas retas – e, quanto mais tempo um carro permanece na reta, acelerando, mais combustível é gasto, portanto esta é uma questão que ganha importância.

E a Red Bull? A recuperação do Bahrein para a Austrália foi impressionante, mas a Malásia vai apresentar uma prova ainda mais representativa porque, devido ao calor e à umidade, o arrefecimento dos carros será testado. E, para ‘sobreviver’, todas as brechas possíveis na carenagem são abertas, o que atrapalha a aerodinâmica, principal qualidade de um RB10 que ainda é lento nas retas porque a Renault não consegue despejar todos seus sistemas como a Mercedes faz, mas voa nas curvas.

Também será curioso observar o ritmo da Ferrari. O carro se mostrou lento em Melbourne, mas a equipe acusou falha no MGU-H, referente à recuperação de energia calorífica e que funciona o tempo todo (diferentemente do ERS-K). Portanto, afeta bastante o rendimento. Além disso, o freio eletrônico ainda não está bem acertado, especialmente para o gosto de Raikkonen. Na Austrália, dá para dizer que eles eram 2s mais lentos que a Mercedes. Algo parecido em um circuito completo, com curvas de todos os tipos, freadas fortes e grandes retas como na Malásia e o clima em Maranello vai esquentar.

As Mercedes serão fortes, mas vão aguentar o calor? E será que vai ter chuva para atrapalhar o final de semana da Williams? Façam suas apostas!

GP da Austrália por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Madre mia, que forte está a Mercedes!”

Motor Racing - Formula One World Championship - Australian Grand Prix - Race Day - Melbourne, Australia

Uma viagem pelo desconhecido. Foi tateando nas expectativas que narradores e comentaristas enfrentaram a primeira corrida não apenas da temporada, mas de um regulamento completamente novo. As duas largadas abortadas só aumentaram a tensão – que até deixou o narrador britânico David Croft um pouco confuso quando 2014 começou para valer: “Hamilton sai bem, excelente largada de Magnussen. A largada é um caos para alguns e vemos uma Williams, acho que de Massa, na brita. E todos vão passando Vettel, que não tem potência.”

Na verdade, era Rosberg que pulava para a ponta. “Ricciardo largou mal, Hamilton também e Rosberg pula na frente. Hamilton começou muito lento, deve ter algum problema”, observa Antonio Lobato, na Antena 3 espanhola. “Vem a disputa ali atrás e o Felipe Massa já foi tocado e fica fora”, Galvão Bueno se decepciona na Globo.

Uma primeira volta movimentada assusta o comentarista Martin Brundle, da Sky Sports. “Eles têm esse novo sistema de freio que iria dificultar as primeiras curvas, mas não há motivo para permitir que vire uma loucura como estamos vendo”, diz o britânico, que logo chama a atenção para Hamilton, que perde posições. “Seria um problema ou ele está economizando combustível?”

Para Reginaldo Leme, as mensagens de rádio de Sebastian Vettel, que acusa falta de potência, podem ser uma dica. “Alguma coisa desse tipo deve estar acontecendo também com o Hamilton porque ele está perdendo muito.”

Lobato está preocupado com Alonso, ultrapassado por Hulkenberg e pressionado por Vergne. “O que está acontecendo com Fernando? Ele não tem velocidade.” Mas o comentarista Pedro de la Rosa não sabe. “Pode ser qualquer coisa, é possível ter deficiências momentâneas do sistema de energia.”

Brundle avisa que “Isso vai acontecer muito: se uma parte do sistema não está funcionando bem, o resto é afetado. Não é como antes, quando dava para simplesmente continuar sem o Kers, por exemplo.”

Motor Racing - Formula One World Championship - Australian Grand Prix - Race Day - Melbourne, AustraliaNa Globo, o replay da largada é o estopim para uma malhação pública – e que dura por toda a prova – em cima de Kobayashi, que aparece perdendo completamente a freada e acertando Massa em cheio. “Olha a barbeiragem do Kobayashi para cima do Felipe Massa. Ele veio atropelando tudo. O Massa estava na dele, certinho, e tomou a pancada”, Galvão não se conforma. “Foi um absurdo, é a primeira prova e a Caterham nem sabe se vai terminar a temporada. Agora existe uma regra de pontos e o Kobayashi deve levar um monte por essa pancada”, opina o comentarista Rubens Barrichello. “A causa da batida foi o cérebro do Kobayashi”, define o narrador.

Britânicos e espanhóis, contudo, inocentam o japonês logo de cara. “Parece um problema do brake by wire”, diz o comentarista da Antena 3 Jacobo Vega. De la Rosa gargalha. “Lógico que vão falar que é culpa do freio. O que mais dá para dizer?” Mais um replay e Vega novamente busca uma confirmação com o piloto de testes da Ferrari. “Foi o brake by wire, com certeza, Pedro” – e ele confirma: “Com certeza”.

Na Sky, o único comentário é de Croft. “Pode ser que não tenha sido culpa do Kobayashi, pode ter sido uma falha no sistema de freio eletrônico.”

O destaque da primeira parte da prova é Valtteri Bottas. “Uma ultrapassagem por fora e outra por dentro, grande pilotagem de Bottas. Esses caras novos, como ele e Magnussen, têm muita confiança”, salienta Brundle, mas Croft desconfia que o finlandês “está gastando muito combustível.” Para Vega, contudo, “se não tiver problemas de confiabilidade, certamente chega ao pódio.”

Isso, se não fosse um muro no meio do caminho, com o qual “vimos seu companheiro flertando por todo o final de semana”, como lembra Brundle. Um toque rasga seu pneu e traz o Safety Car à pista. “Foi azar dele porque vi muitos batendo mais forte ali e nada acontecia”, defendeu o britânico.

“É uma pena para a Williams porque são nessas corridas que se ganha pontos importantes”, lamenta Lobato, com o mesmo tom de Galvão, que declara prematuramente fim de prova para Bottas. “Ele se empolgou com a velocidade. E o Rosberg com isso é mais líder do que nunca porque, se alguém podia o incomodar, seria ele.” O finlandês, entretanto, troca os pneus e segue na prova.

Quem se deu bem com o Safety Car foi Jenson Button, que entrou nos boxes uma volta antes dos rivais. “Fiquemos de olho em Button, que vai se aproveitar por ter entrado antes”, alerta Lobato. Na Globo, o crescimento do inglês na prova só tem a ver com sua tocada.  “É um regulamento feito sob medida para ele”, defende Galvão.

O repórter britânico Ted Kravitz foca em Raikkonen, “que perdeu muito tempo porque teve de ir bem devagar já que a Ferrari o parou junto de Alonso. É a vida de segundo piloto da Ferrari”, diz em tom de brincadeira.

Com a relargada e a supremacia de Rosberg, Galvão começa a alertar para a possibilidade de quebras. “Ninguém sabe o que vai acontecer. O companheiro dele já teve de abandonar”. Enquanto isso, Brundle comenta sobre o novo motor. “Pelo menos dá para ouvir a narração no sistema de som do circuito. Antes muita gente ia descobrir o que aconteceu na corrida só quando chegava em casa.”

Espanhóis buscam, sem sucesso, maneiras de Alonso passar Hulkenberg. Resta apenas elogiar o rival. “Que difícil para Perez dividir a equipe com um piloto como Hulkenberg, que faz grande corrida”, diz Lobato, apoiado por Brundle. “Qualquer carro que você dê para ele, ele anda bem.”

O narrador espanhol também não esquece Vettel. “A vida não está como de costume para ele, mas lembramos que não vai demorar muito tempo para que isso mude. Quando a Renault resolver os problemas, o carro vai muito bem”, alerta.

Na Globo, o destaque é para Bottas que, “mesmo com toda a confusão que arrumou na corrida, já está na zona de pontuação. Parece ser o segundo carro mais rápido na pista”, Galvão aproveita para animar a torcida futura para Massa.

Já tínhamos até esquecido que os pneus se degradam quando Button antecipou sua segunda parada para superar Alonso e Hulkenberg em uma só tacada. Mas os britânicos não confiam que seria possível. “Será que o undercut ainda é a melhor estratégia?”, questiona Croft, enquanto De la Rosa não duvida que o inglês “é um perigo” para a corrida de Alonso. Barrichello destaca a quebra da ponta do bico do McLaren do ex-companheiro. “Caiu a ponta do nariz. Ele vai ficar com frio ali, Galvão. Mas é estranho quebrar aquilo, porque tudo o que você quer num acidente é que aguente. É claro que vai quebrar, mas é de se esperar que aguente mais do que uma pancada de macaco.”

De fato, a estratégia de Button dá certo. “Precisamos de uns cavalinhos, hein?”, reclama Lobato, descontente com o rendimento de Alonso. “Dá para conseguir, mesmo com a homologação, mas também precisamos melhorar a aerodinâmica porque tudo vai junto. Vemos a Red Bull, com uma deficiência no motor, andando na frente”, lembra De la Rosa.

Mas havia um outro motivo para o rendimento mediano da Ferrari, como explica Kravitz. “A Ferrari está com um problema elétrico em ambos os carros e não estão com toda a potência que poderiam. Isso é uma boa notícia pensando nas próximas corridas.” Problemas à parte, Galvão aposta que “Kimi jamais imaginou que, em seu retorno à Ferrari, seria ultrapassado duas vezes pelo Bottas e levaria pressão de um menino de 19 anos”, referindo-se a Kvyat. Já a explicação de Reginaldo para a performance de Alonso, que consegue lutar com pilotos com motor Mercedes, é de que “a Ferrari está muito atrás e o Alonso está muito à frente de outros pilotos e por isso consegue colocar o carro nessa posição.”

Na Sky, o destaque é para a Red Bull – e a nova geração. “Parabéns à Renault, em conjunto com a Red Bull. Eles nem acreditavam que poderiam fazer 46 voltas seguidas há 10 dias, muito menos com esse ritmo”, lembra Kravitz. “Ricciardo é muito calmo ao volante e é algo que vai o ajudar neste ano. E a performance de Magnussen mostra que também há espaço para o talento, não apenas meninos endinheirados”, emenda Brundle, enquanto Croft pergunta: “O que teria acontecido se Lewis Hamilton pudesse ter competido hoje?”

Provavelmente isso seria o único complicador da prova de Rosberg, cujo rendimento assustou Lobato. “Madre mía, que forte está Motor Racing - Formula One World Championship - Australian Grand Prix - Race Day - Melbourne, Australiaa Mercedes!”. Galvão destaca vitória “30 anos” após Keke Rosberg na Austrália. “Claro que tem o melhor carro, mas foi perfeito por toda a corrida”, opina. “Muito foi falado dele quando o Hamilton chegou para ser seu companheiro, mas ele está crescendo muito e está pilotando muito”, endossa Barrichello.

A Mercedes na frente, porém, era esperado. As surpresas estavam a seu lado. “Os três que estão no pódio tiveram que ouvir muita gente só falando de seus companheiros antes da temporada começar”, lembra Croft. “E o que dizer de Magnussen, no pódio na primeira corrida de sua vida. Quem preveria um pódio deste?”, se impressiona Lobato, enquanto Brundle brinca com a precocidade do dinamarquês, que “parece tão novo que dá a impressão que a mãe dele o deixou brincar nesse carro hoje à tarde.”

Para Galvão, “de positivo, fica para o Felipe Massa a posição do Bottas depois de ter largado em 15º e batido e, mesmo assim, foi o sexto.” E Reginaldo lembra que “finalmente ele tem um carro e a liberdade de correr como ele pode, algo que não tinha na Ferrari.”

Para finalizar, Lobato lança um comentário despretensioso, mas que hoje soa como uma praga. “Bom, daqui a pouco, todos os carros vão ter que demonstrar que estão de acordo com as regras, que não gastaram mais de 100kg de combustível e respeitaram o fluxo de 100kg/h”, o que, para De la Rosa, “seria surpreendente em uma prova em que houve um Safety Car.”

A velha guarda come poeira na nova F-1

F1 Young Driver Tests - Silverstone: Day Three

Os jovens deixaram seu recado no GP da Austrália, com o pódio de Kevin Magnussen, a quebra de recorde de Daniil Kvyat e a combatividade de Valtteri Bottas.

O dinamarquês acabou tendo uma estreia melhor que a do último novato da McLaren, Lewis Hamilton, com a punição de Daniel Ricciardo, largando em quarto e fechando em segundo. Com isso, tornou-se o 23º piloto na história da F-1 a estrear com um pódio – sendo que oito deles fizeram isso na primeira temporada da história ou na Indy500. O troféu também foi o primeiro da Dinamarca, apenas o 28º país a ter um representante entre os três primeiros.

Junto de Kvyat, igualou um recorde de 1957, quando Masten Gregory e Stuart Lewis-Evans (primeiro piloto agenciado por Bernie Ecclestone) também pontuaram em sua estreia. O russo, inclusive, roubou o recorde de Sebastian Vettel como o piloto mais jovem a marcar um ponto. Mas o top 5 dos mais jovens continua com um piloto da década de 1960!

Daniil KvyatAustrália 201419 anos e 329 dias
Sebastian VettelEUA 200719 anos e 354 dias
Jaime AlguersuariMalásia 201020 anos e 17 dias
Jenson ButtonBrasil 200020 anos e 72 dias
Ricardo RodriguezBélgica 196220 anos e 128 dias

 

Ele não é estreante, mas Valtteri Bottas foi outro jovem que roubou a cena e conseguiu sua melhor posição na carreira, com o quinto posto. Assim, tem 10 pontos, equivalente à soma do total conquistado pela Williams nas temporadas de 2011 e 2013.

O finlandês seria um grande candidato ao pódio não fosse o toque no muro que furou seu pneu. Mas ameaçar Nico Rosberg esteve fora de questão. O alemão venceu sua quarta corrida e está a uma de igualar seu pai, Keke, campeão de 1982. E foi uma vitória pra lá de dominante: o piloto da Mercedes fez sua volta mais rápida na 19ª (e depois o engenheiro pediu que diminuísse o ritmo em pelo menos três décimos, e foi obedecido matematicamente). Desde que o reabastecimento foi proibido, em 2010, nunca alguém tinha feito a volta mais rápida tão cedo na corrida em provas no seco.

A conquista – 100ª do motor Mercedes – foi a décima seguida de um alemão. Só a Grã-Bretanha tem mais, com 18 vitórias consecutivas entre 1962 e 1964 divididas por Jim Clark, Graham Hill e John Surtees.

Aos demais, as migalhas: Button chegou ao 50º pódio, mas só pôde comemorar após a punição de Ricciardo. Já Alonso pontuou pela 12ª vez seguida em Melbourne, segunda maior sequência de um piloto em um mesmo GP, atrás dos 14 anos com pontos de Schumacher na Espanha. O alento da Lotus foi conseguir sua mais longa sequência de voltas neste ano, com Romain Grosjean: 45.

O time de Enstone não esteve sozinho: com 13 classificados, a prova teve, como esperado, o maior número de abandonos em seis anos.

A punição de Ricciardo e o sensor “insensível”

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O sensor “insensível”

Regulamento novo na Fórmula 1 é praticamente sinônimo de polêmicas técnicas, e a exclusão de Daniel Ricciardo do GP da Austrália promete ser apenas o primeiro capítulo de uma briga que pode abrir uma brecha importante.

A regra em questão, artigo 5.1.4 do regulamento técnico, diz simplesmente que “a massa de fluxo de combustível não pode exceder os 100kg/h”. Para policiar essa restrição, a FIA homologou um sensor para ser utilizado por todas as equipes, fabricado pela Gill Sensors. E é justamente a falta de precisão e confiabilidade deste equipamento que gerou toda a confusão.

Primeiro, vamos entender o regulamento, que restringe o uso de combustível de duas formas: de consumo total e de fluxo. Portanto, os carros não podem usar mais de 100kg de combustível para completar uma corrida, independentemente de sua duração, assim como não podem apresentar um fluxo acima de 100kg por hora em nenhum momento do GP. E é esta última regra que a Red Bull desobedeceu, segundo a FIA.

O leitor mais atento pode perguntar: a troco de que restringir o fluxo de combustível, uma vez que um piloto poderia administrar a potência extra em determinado ponto da corrida para partir para cima e economizar no outro para evitar gastar os 100kg totais? Os donos do esporte são contra as brigas na pista? É preciso entender que o novo regulamento cerceia bastante o que se pode ganhar com o motor a combustão (o turbo V6) para que o desenvolvimento foque nas duas unidades de recuperação de energia. Portanto, se quiser ir mais rápido, que seja mais eficiente ao usar o poder de suas baterias, e não do motor de combustão. A regra de restrição ao fluxo de combustível, portanto, ao limitar a potência do V6, vem garantir que esse “espírito” do novo regulamento seja respeitado.

Segunda questão: se foi comprovado que o carro de Ricciardo excedeu esse limite de fluxo de 100kg/h, por que a Red Bull vai apelar? O problema está na execução da regra: a equipe confia que estava dentro do limite, mas os sensores da FIA apontam o contrário. Essa discrepância já havia aparecido na sexta-feira, fazendo com o que o time decidisse trocar seu sistema de aferimento. Mesmo alertado pela FIA após a classificação que deveria retornar ao sensor antigo e diminuir seu fluxo de combustível por precaução, para evitar uma punição, o time não deu ouvidos por confiar que estava de acordo com as regras.

Certo de que o carro de Ricciardo não excedeu, em momento algum, o limite de 100kg/h, segundo seus próprios dados, Christian Horner criticou duramente o sistema da FIA. “Esses sensores de fluxo de combustível providos pela FIA têm trazido problemas para todas as equipes desde sua introdução, nos testes. Houve discrepâncias e eles não são confiáveis – inclusive alguns carros podem ter corrido sem eles ou eles podem ter quebrado durante a prova”, acusou. “Tínhamos um sensor que acreditávamos ter um erro. Baseados nos nossos cálculos de injeção de combustível, que é um equipamento calibrado e um padrão consistente, não houve variação [de fluxo].”

Horner confirmou o pedido da FIA para a equipe diminuir seu fluxo, mas decidiu não segui-lo porque acreditou que o sensor estava produzindo dados errados. “Eles nos informaram, mas nós dissemos que estávamos preocupados com seus sensores. Acreditamos em nossa leitura, caso contrário estaríamos em uma situação na qual reduziríamos muita potência mesmo acreditando que estávamos dentro do regulamento. Chegamos a uma situação em que a calibragem de seu sensor vai determinar quem é competitivo e quem não é.”

Ao que tudo indica, foi isso que seus rivais fizeram: diminuíram o fluxo e perderam potência durante a corrida para evitar uma punição, uma vez que o sensor ainda não está calibrado a contento. Os chefes de Ferrari e Mercedes, inclusive, vieram a público defender que equipes e entidade trabalhem juntas para melhorar o sistema e torná-lo mais confiável – ao invés de ignorá-lo. Agora, se a Red Bull conseguir provar em seu recurso que sua forma de medição deve ser levada em consideração e não a da FIA, é fácil entender o tamanho da briga que estarão comprando.

Mercedes, com um pé nas costas

Motor Racing - Formula One World Championship - Australian Grand Prix - Race Day - Melbourne, Australia

Os quase 25 segundos de vantagem de Nico Rosberg para seu rival mais próximo na prova de abertura da temporada 2014 da Fórmula 1, na Austrália, deram a medida da supremacia da Mercedes neste início de ano. Ainda que a diferença de rendimento não seja tão grande como alguns dos rivais temiam – o chefe da Red Bull, Christian Horner, chegou a prever que os carros prateados venceriam com duas voltas à frente – a corrida de Melbourne deixou claro que as demais equipes precisam correr atrás do prejuízo.

“O ritmo da Mercedes não me surpreendeu, sabíamos que eles eram fortes”, afirmou Felipe Massa, da Williams, que abandonou logo na largada após ser abalroado pelo japonês Kamui Kobayashi. “A gente acreditava que eles tinham segurado um pouco no [teste de pré-temporada no] Bahrein e, por isso, fizemos praticamente o mesmo tempo. Sabíamos que eles estariam na frente quando chegássemos aqui”, disse o brasileiro, que foi o mais rápido dos testes, dois décimos à frente de Hamilton. “A corrida também mostrou uma Red Bull forte. Talvez, quando eles solucionarem os problemas com o motor, vai ser um carro que estará brigando. A McLaren também mostrou que tem um carro bom. Mas a corrida mostrou ainda que nós temos carro para estar brigando com eles, tirando a Mercedes.”

O brasileiro se refere ao desempenho do companheiro, Valtteri Bottas, que mesmo com um erro que lhe fez ir para o fundo do pelotão, conseguiu se recuperar para ser o quinto. “Isso é positivo, independente da minha corrida ter sido muito negativa”, avaliou.

O único porém da prova da Mercedes, destacado pelo próprio Rosberg, é em relação à confiabilidade do carro. Largando da pole position, seu companheiro, Lewis Hamilton, perdeu duas posições logo de cara. O inglês já sabia antes mesmo de alinhar no grid que pilotaria com um cilindro a menos em seu motor e acabou sendo instruído a parar sua Mercedes para poupar o equipamento. Nesta temporada, os pilotos têm apenas cinco unidades de potência para usar durante o ano. “Certamente é um fato que não estamos 100% ainda. A equipe fez um grande trabalho para fazer meu carro funcionar muito bem na corrida, mas ainda há muito a ser feito. Houve várias mudanças no carro durante o final de semana e não quero mais fazer isso”, alertou o vencedor.

Dois fatores chamaram a atenção: Rosberg completou o GP em 1h32, dois minutos mais lento que Kimi Raikkonen ano passado – se por um lado a prova deste ano teve uma volta a menos, em 2013 não houve Safety Car. E, mesmo que praticamente todas as equipes tenham tido um desafio ou outro ao longo do final de semana, a confiabilidade também surpreendeu: foram apenas cinco abandonos por quebras, mostrando aos alarmistas que não se deve duvidar da capacidade dos engenheiros da Fórmula 1.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Austrália

Vettel0 a 1Ricciardo
Hamilton1 a 0Rosberg
Alonso1 a 0Raikkonen
Grosjean1 a 0Maldonado
Button0 a 1Magnussen
Hulkenberg1 a 0Perez
Sutil1 a 0Gutierrez
Vergne1 a 0Kvyat
Massa1 a 0Bottas
Kobayashi1 a 0Ericsson
Bianchi0 a 1Chilton

Diferenças de hoje:

Ricciado x Vettel: 2s373

Hamilton x Rosberg: 0s364

Alonso x Raikkonen: 1s689

Grosjean x Maldonado: sem tempo

Magnussen x Button: 1s190

Hulkenberg x Perez: 3s635

Sutil x Gutierrez: 1s444

Vergne x Kvyat: 1s504

Bottas x Massa: 0s068

Kobayashi x Ericsson: 0s883

Chilton X Bianchi: 0s501

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

De casa nova: quem ganhou e quem perdeu na dança das cadeiras

Motor Racing - Formula One Testing - Bahrain Test One - Day 3 - Sakhir, Bahrain

As surpresas desta temporada 2014 já começaram antes mesmo da luz vermelha se apagar no grid do GP da Austrália – e não me refiro a nada que tenha acontecido nos testes. Em um ano de muitas mudanças, as equipes não se preocuparam em trocar de pilotos: metade do grid ou trocou de time, ou faz sua estreia. Veja quem perdeu e quem ganhou com a dança das cadeiras.

Os veteranos: Raikkonen e Massa

Há um mês soava até injusto colocar os ex-companheiros de Ferrari no mesmo barco. Afinal, Massa parecia buscar a sobrevida em uma decadente Williams, enquanto Raikkonen voltava por cima a um time que o desprezou há quatro anos. Mas um carro bem nascido e uma boa adaptação logo de cara deram ao brasileiro o que faltava na Ferrari: confiança. E um Massa confiante muda de figura, como vimos em 2008. Resta saber se o brasileiro conseguirá adaptar seu estilo agressivo às demandas do novo regulamento e se a Williams vai acompanhar a corrida de desenvolvimento ao longo do ano.

O problema de Kimi, por sua vez, Massa conhece bem: o eficiente e político Fernando Alonso. Ainda que ele não pareça se importar muito com o segundo item, não há dúvidas de que, dentro da pista, o espanhol vai testá-lo ao máximo – e vice-versa. Ambos têm o ritmo de corrida como trunfo, o que será importante em 2014. Claro que pensar em título depende do tamanho do prejuízo em relação ao motor Mercedes e de como será a recuperação; a Ferrari começa atrás, mas se mostrou feliz com a correlação de dados do remodelado túnel de vento, grande bicho-papão dos últimos anos, e promete não ficar pelo caminho.

Quero ser grande: Ricciardo e Hulkenberg

No papel, Ricciardo deu um grande passo adiante trocando a Toro Rosso pela Red Bull, enquanto Nico Hulkenberg ficou na mesma ao voltar para a Force India, vindo da Sauber. Mas o alemão deve alinhar bem à frente do australiano no grid em Melbourne em um carro que se apresenta como a quinta força do campeonato. Com o regulamento caindo como uma luva para seu estilo e o motor certo nas mãos, é a hora de Hulk mostrar que não é apenas consistente, como também brilhante.

O desempenho de Ricciardo, por sua vez, vai depender muito da recuperação da Red Bull: se o carro conseguir andar, deve funcionar do ponto de vista aerodinâmico. A atuação em corridas e o feedback aos engenheiros foi o que chamou a atenção dos tetracampeões e o australiano terá de mostrar essas qualidades a rodo para ajudar seu time a sair da atual situação.

Numa fria: Maldonado e Kobayashi

A draga da Lotus era anunciada, com sérias dificuldades financeiras desde o ano passado e o êxodo de engenheiros, e só piorou com as carências do motor Renault. Com regras que desafiam seu estilo agressivo e um companheiro com o mesmo nível de experiência que o seu tendo de ajudar no desenvolvimento de um carro ousado e, à primeira vista, problemático, deve penar em 2014. Da mesma forma, Kobayashi sabia que não teria vida fácil na Caterham, mas não imaginava ter “ritmo de GP2”, como ele mesmo disse. Pelo menos será diversão garantida vê-lo lutar sem ter nada a perder – contando que haja com quem lutar.

Sou ou não sou? Perez e Sutil

De mansinho, Sutil vai conseguindo sua vaga no grid pela sétima temporada, mesmo com um orçamento “honesto”. Só não fez uma boa troca indo da Force India para a Sauber, que penou mais que a rival direta na pré-temporada. Tem a obrigação de superar Gutierrez, mas será que é suficiente para manter-se vivo na categoria?

Já Perez deve estar com a cabeça inchada: teve sua chance na McLaren logo no que parece ter isso um ano isolado de draga, sem um pódio sequer. Mas também é verdade que o mexicano não fez muito por sua permanência e acabou não saindo perdendo tanto assim, com uma Force India equipada com motor Mercedes. Veremos como a experiência em time grande vai pesar contra o mais completo Hulkenberg, em um dos duelos internos mais interessantes do ano.

Por que não perder a temporada 2014 da Fórmula 1

Motor Racing - Formula One Testing - Bahrain Test One - Day 3 - Sakhir, Bahrain

A maior revolução nas regras da Fórmula 1 promete mudar muita coisa a partir deste final de semana, na Austrália, quando será disputada a primeira etapa do ano. Confira os motivos para não perder a temporada 2014:

Chacoalhão na relação de forças: não estranhe se vir uma Force India confortavelmente na frente da Red Bull no GP da Austrália ou uma Williams, que ano passado suava para ficar no top 10, brigando por pódios. Assim como na última mudança de regras, quando vimos o surgimento da Brawn, o crescimento da própria Red Bull e até a hoje extinta Toyota na frente, os novos desafios pegaram gente que vinha vencendo corridas nos últimos anos de calças curtas.

Red Bull longe do topo: por essa ninguém esperava. Um misto de falta de preparo da Renault e falhas da própria equipe, atual tetracampeã da Fórmula 1, fizeram com que o time de Sebastian Vettel fosse um dos que menos andou na pré-temporada – e, quando andava ora estava na rabeira, ora no meio do pelotão. Apesar da equipe ter condições de dar a volta por cima, não dá para saber quanto tempo isso vai demorar. Bom para vermos como Vettel vai se portar dentro e fora das pistas.

Recomeço para Massa: apesar da troca da Ferrari para a Williams ter parecido uma boa solução logo de cara, provavelmente nem o brasileiro esperava um salto tão grande de uma equipe que viveu um de seus piores anos em 2013. O tamanho deste salto e por quanto tempo durará, não dá para saber, mas Massa tem tudo para conquistar, em 2014, seus melhores resultados desde 2008.

Alonso e Raikkonen sob o mesmo teto: são dois pilotos que andaram bem quando o regulamento privilegiava a agressividade e que também deram aula de como administrar os sensíveis Pirelli nos últimos anos; dois especialistas em corridas, que pilotam com a tabela de classificação em mente e de maneira inteligente; dois campeões do mundo com temperamentos diferentes, mas que não aceitam serem deixados de lado. O nível de tensão vai depender das possibilidades ferraristas no campeonato, mas é certo que a dupla vai fazer bonito – e dar trabalho.

Carros não serão mais à prova de balas: quando um Max Chilton consegue completar todas as corridas da temporada a bordo de uma nanica, temos a noção de como os carros eram confiáveis até o ano passado. As complicadas unidades de potência híbridas, com as quais as equipes têm pouquíssima experiência, vão jogar um tempero a mais de incerteza.

Ultrapassagens até o final: pelo menos a Pirelli garante que seus pneus estão soltando menos borracha ao longo das provas. Há diversos fatores que interferem no número de ultrapassagens, mas o que vimos nos últimos anos foi uma dificuldade de fazer manobras no final das provas devido à sujeira na pista, causada pelos chamados marbles (ou bolinhas de gude). Isso não deve ser um problema em 2014.

O que pode dar errado

Dificuldade de leitura das corridas: será que este carro está lento mesmo ou apenas poupando combustível? Esta será uma das dificuldades, bem exemplificadas pelo sistema de punições pela troca de elementos da unidade de potência: cinco unidades poderão ser usadas no ano. Elas são compostas por motor, os geradores de energia calorífica e cinética, o turbo, a bateria e o controle eletrônico. Se toda a unidade for trocada pela sexta vez, o piloto larga do pit lane. Caso isso ocorra com qualquer um destes itens isoladamente, serão 10 posições a menos. Se o mesmo acontecer com um segundo item, serão mais cinco posições.

Disputas em banho-maria: como este novo regulamento foca em eficiência, os carros terão de completar os GPs com cerca de 35% menos combustível. Isso significa uma necessidade de adaptação do estilo de pilotagem e em GPs mais estudados. É possível que ninguém queira arriscar no início com medo de acabar pagando o preço no final.

Diferença entre os motores grande demais: pelo que vimos na pré-temporada, a Mercedes é a mais bem preparada entre as fornecedoras, com grande diferença em relação à Renault, que poucas vezes conseguiu fazer toda a unidade de potência funcionar. Isso gerou diferenças de mais de 20km/h nas retas nos testes, o que dividiria a F-1 em sub-categorias. O grande número de mudanças também pode gerar protestos e dúvidas a respeito da legalidade dos carros.

Volta por cima da Red Bull parece ser uma questão de tempo

Motor Racing - Formula One Testing - Bahrain Test Two - Day 3 - Sakhir, Bahrain

Terceira equipe que menos andou na pré-temporada, atrás da nanica Marussia e da Lotus, que só participou dois terços dos testes. Dona da sétima volta mais rápida, a quase 2s5 da Williams. Oitava mais veloz em reta, a mais de 20km/h da líder Ferrari. Nem rápida, nem confiável, a Red Bull começa, quem diria, como a grande incógnita do ano. Mas será um caso de game over para os fãs de Vettel e companhia?

Há quem se apresse em lembrar de um famoso projeto errado de Adrian Newey: em 2003, com a McLaren – um erro tão grave que o MP418 foi para o museu sem uma corridinha sequer no currículo. Com aquele MP418, o RB10 tem a semelhança de apresentar entradas de ar pequenas demais e, consequentemente, ter problemas de arrefecimento. Porém, há indícios de que as coincidências param por aí.

É bem verdade que as dificuldades dos tetracampeões foram se proliferando à medida que o carro ganhou quilômetros – mesmo que a passos lentos – durante os testes. Primeiro, questões de software da unidade de potência, de responsabilidade da Renault; depois, falta de refrigeração suficiente – novamente, acredita-se, algo relacionado à imprecisão e à demora das informações passadas pelos franceses a respeito das dimensões das entradas dos radiadores – e, por fim, comportamentos inconsistentes do novo sistema de freio eletrônico. Ufa!

Certamente, a lista de problemas a resolver é extensa e o próprio consultor da equipe, Helmut Marko, reconheceu que “a temporada está começando dois meses do que deveria” para o time, mas é o potencial demonstrado pelo RB10 quando ele conseguiu ir à pista que dá a impressão de que a Red Bull pode, se não virar, ao menos igualar o jogo.

Os rivais não cansam de repetir isso. “Tenho certeza de que eles têm um carro muito rápido”, disse Hamilton. “É sempre legal dizer que a Red Bull está em dificuldades e que pode lutar com a Caterham, mas pode esquecer. Não será assim. Eles têm um problema para resolver, mas quando estiver resolvido, estarão lá”, endossou Massa. Contudo, o depoimento mais interessante veio de Jenson Button, que se impressionou com a maneira como foi ultrapassado por Daniel Ricciardo durante os testes:

“Estava pilotando com Ricciardo por algumas voltas e ele não conseguia me passar nas retas. Ele me passou por fora na curva 11, que é de alta. Nunca tinha visto algo assim. É um carro que parece funcionar bem do ponto de vista aerodinâmico e acho que, quando eles tiverem confiabilidade, serão muito, muito competitivos.”

A recuperação passa pela Renault, que precisa fazer sua lição de casa, e o espaço para melhora de todos os rivais também é grande. Mas o que está claro é que não se trata de um carro totalmente equivocado, como o MP418. Isso, junto de um poder de recuperação já demonstrado em campanhas como dos últimos anos, faz crer que é mais uma questão de “quando” e não de “se” eles vão se reerguer.

O ano de Massa?

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Felipe Massa foi, ainda que nos centésimos, o mais rápido da pré-temporada. Rivais como Alonso e Button veem a Williams na frente. Frank Williams fala em “aproveitar a oportunidade”. Então quer dizer que o piloto brasileiro vai arrasar a concorrência e partir para um título quando ninguém mais acreditava nele? A uma semana do início da temporada mais imprevisível da história da Fórmula 1, tudo é possível, mas vamos aos fatos.

Primeiro sobre o piloto Massa. Se ele nunca foi capaz de responder aos anseios da expectativa criada na temporada de 2008 – quando viveu uma combinação especial de um grande carro nas mãos, apoio da equipe e um rival errático – acabou sendo tratado como piloto de segunda linha após as decepções das últimas temporadas de Ferrari. Massa nunca foi um virtuoso e, de fato, sofreu problemas de adaptação e de confiança que foram colocando-o em uma espiral negativa no time italiano, mas está longe de ser um braço duro.

Nesta temporada, corre com a experiência a seu lado frente a Valtteri Bottas – mas o duelo interno está longe de ser uma barbada. O finlandês é um piloto mais cerebral, qualidade importante para lidar com o novo regulamento, e há quem diga dentro da Williams que se trata de um futuro campeão do mundo.

E há, claro, os rivais. Apostar em um campeão do mundo no momento é um chute do meio do campo. A Fórmula 1 passa por sua maior revolução técnica de todos os tempos, com a adoção de sistemas híbridos com os quais equipe alguma tem experiência. Isso quer dizer que não há quaisquer garantias de que o carro que vencer o GP da Austrália no próximo dia 16 será o melhor sequer daqui dois meses, tamanha a possibilidade de desenvolvimento ao longo do ano. E isso serve inclusive para a Red Bull, que deve sofrer no início, mas pode muito bem se recuperar e virar o jogo ao longo da temporada.

O que dá para falar com certa propriedade no momento é que a Williams andará no bolo da frente no início do ano, ao menos antes dos carros passarem por sua primeira grande “reforma” no GP da Espanha, em maio. As quatro primeiras etapas serão uma chance de ouro para os pilotos do time inglês e da Mercedes, as duas equipes que deram todos os indícios durante a pré-temporada de estarem mais bem preparados – tanto em termos de confiabilidade, quanto de velocidade.

Só uma grande revolução nas regras explica tamanho salto, se lembrarmos que a Williams foi a terceira pior equipe do ano passado. De lá para cá, além do motor, também mudaram as caras no comando técnico do time, lideradas por Pat Symonds. A estrutura já era boa e dinheiro não falta. Mas será o suficiente para a equipe se tornar uma nova Red Bull, que se estruturou para aproveitar uma mudança no regulamento e pular do meio do pelotão para a ponta? No momento, quem veste melhor essa carapuça é a Mercedes, uma vez que o projeto da Williams está muito mais verde do que o do time hoje tetracampeão mundial em 2009. Isso pesa contra, e teremos uma ideia melhor de como pode ser o ano do time de Grove em Barcelona.

Portanto, melhor não incorrer nas mesmas expectativas exageradas de alguns anos atrás em cima de Massa. O carro parece bom hoje, assim como o da Mercedes, mas isso pode mudar. Afinal, a lógica indica que, quando se fala em campeonato longo, desta vez não é só força de expressão.

Ferrari mais veloz, mas não por muito tempo

Motor Racing - Formula One World Championship - German Grand Prix - Race Day - Nurburgring, Germany

Até agora, fala-se que o motor Mercedes não é apenas melhor porque é confiável ou rápido, mas principalmente porque é mais eficiente, ou seja, usa melhor as tecnologias que o alimentam sem a combustão. Prova disso são os dados de velocidade máxima na pré-temporada, publicados no site alemão Auto Motor und Sport.

Olhando a tabela do link, à primeira vista parece que a Ferrari voa. Porém, o F14 T só passou dos 335km/h por três vezes, denotando que, ainda que os sistemas turbo + recuperação de energia funcionem, o time ainda não está confiante o suficiente para mantê-los em sua máxima carga o tempo todo. E Fórmula 1 não é sprint. Por outro lado, a Williams foi quem mais vezes ultrapassou 330km/h, seguida de perto pela Mercedes. Ambas atingiram a marca em todos os dias de teste.

Mas isso não significa que todos os carros com os motores alemães serão igualmente eficientes: quanto melhor a performance aerodinâmica do carro, menos resistência ao ar ele oferece e menos combustível é necessário para que ele vá mais rápido.

Além disso, o bom emprego do conjunto de configurações que se padronizou chamar de “mapeamento de motor”, a adoção de melhores estratégias e a adaptação da pilotagem a essa nova realidade vão ajudar a determinar quem chegará primeiro no GP da Austrália.

Basicamente, o mapeamento do motor regula a relação entre a posição de pedal definida pelo piloto e o torque que o motor vai gerar. É algo controlado eletronicamente pela ECU e é ajustado ao gosto de cada piloto. Os mapas também controlam o chamado overrun, ou seja o torque quando o acelerador estiver zerado – o que vai acontecer muito nesta temporada devido às técnicas de “coasting” que serão empregadas mais do que nunca pelos pilotos: tirar o pé antes do normal e deixar que o freio-motor ajude a parar o carro para economizar combustível. Fazer as curvas em marchas mais altas do que o normal também ajuda – e novamente um mapeamento de motor bem feito para ajustar o torque é bem-vindo.

Do lado dos estrategistas, Pat Symonds, da Williams, garante que haverá uma mudança considerável na escolha do número de paradas: a degradação dos pneus, variável mais importante dos últimos anos, perderá importância.

“O GP do Bahrein é uma corrida em que três paradas, no papel, teria sido o caminho mais rápido. Porém, agora temos de considerar que ser mais rápido também significa maior consumo de combustível. Cruzando estas duas informações, chegamos à conclusão de que parar duas vezes seria o melhor caminho para usar nossos 100kg de combustível.”

Isso também indica que, embora os carros não sejam necessariamente mais lentos, um regulamento voltado à eficiência deve tornar as corridas em si mais lentas. O melhor tempo dos testes do Bahrein foi de Felipe Massa, com 1min33s2, 0s9 mais lento que a pole de Nico Rosberg em 2013. Se por um lado é um projeto totalmente novo, com muito mais espaço para crescimento do que o carro do ano passado, o tempo foi obtido com pneus mais macios.

Mas o mais interessante é o ritmo de corrida da Mercedes do próprio Rosberg, com tempos flutuando entre 1min39 e 1min42. Ano passado, a corrida começou com Sebastian Vettel andando em 1min41 e fechando em 1min38. Basicamente, depois de todo um GP, os carros de 2014 chegariam um minuto depois no estágio atual de desenvolvimento. Como nos tempos de Fangio, o segredo será vencer sendo o mais lento possível.

Último dos moicanos

Felipe Nasr

Não é de hoje que Felipe Nasr é tido como uma espécie de salvador da pátria para o automobilismo brasileiro. Com uma rara combinação de escalada sólida nas categorias de base, patrocínios duradouros e carreira bem gerenciada, o brasiliense de 21 anos tomou ares de último dos moicanos, resultado de um total descaso com a formação de pilotos no País de 10 anos para cá.

Entretanto, mesmo tendo sido confirmado como piloto de testes da Williams nesta temporada, Nasr está longe de poder se sentir garantido na Fórmula 1. São dois os fatores que podem travar o futuro do brasileiro: os dois anos de certa forma decepcionantes na GP2 e a disputa com rivais que trazem maior aporte financeiro.

Por isso, 2014 será muito importante para Nasr: estará em uma equipe que promoveu recentemente Valtteri Bottas (2013) e Nico Hulkenberg (2010) a titulares, com a confirmação de que andará em cinco sessões de treinos livres às sextas-feiras e justamente no ano em que os testes durante a temporada voltam a ser permitidos. Isso sem contar no valioso trabalho no simulador e junto aos engenheiros. Ou seja, tem a possibilidade sólida de ganhar experiência para se colocar em uma posição melhor no mercado em 2015.

Outro ponto importante para a temporada de Nasr será na GP2, categoria que ele disputará pelo terceiro ano. Lá, o brasiliense tem a chance de se livrar da incômoda marca de nunca ter vencido uma corrida na categoria e de provar que é mais do que apenas um piloto cerebral. Isso porque, apesar de ter chances de título até a última etapa, o piloto deixou a impressão de que poupava em demasia o equipamento, sem saber a hora de atacar. Mais do que nunca, é o momento de mostrar as garras.

Pensar em uma promoção na própria Williams a curto prazo não parece estar nos planos nem de seus empresários, vide o acordo de apenas um ano com o time de Grove. Isso porque o contrato de Felipe Massa é de três anos e Bottas é considerado um futuro campeão do mundo por lá, e apenas sairia para um time maior. Mesmo nesse caso, por questões financeiras, é difícil imaginar um time 100% brasileiro no ano que vem.

Se não é o caso de promoção direta, a meta de Felipe Nasr é mostrar evolução para buscar uma vaga como titular em 2015. Nos planos iniciais de seu staff, o brasiliense teria conquistado o título da GP2 ano passado e sido promovido a titular da Fórmula 1 nesta temporada. Sem o campeonato e sem experiência com a categoria de cima, o plano teve de ser adiado e repensado. Que seja pela última vez.

Coluna publicada no jornal Correio Popular

O fantasma da homologação dos motores

Motor Racing - Formula One Testing - Bahrain Test One - Day 1 - Sakhir, Bahrain

A data-limite é hoje: 28 de fevereiro, prazo máximo de homologação das unidades de potência de 2014 até 2020. Pior para a Renault, que enfrenta sérios problemas nesta pré-temporada. Mas será tão ruim assim? Afinal, como funciona essa homologação e o que os franceses podem fazer a partir de agora para mudar o jogo?

A boa notícia para a Renault é que a homologação das unidades de potência não é total. Na verdade, devido à extensão das mudanças para esta temporada, apenas 8% – ou cinco itens – ficam congelados, todos eles relacionados ao motor turbo. Em um programa divulgado no regulamento técnico deste ano, haverá uma progressão na porcentagem de itens homologados – 23% em 2015, 35% em 2018 e 95% em 2019.

Lembrando que também existe a possibilidade de uma montadora solicitar à FIA a permissão para alterar algum item homologado, caso comprove uma disparidade. A própria Renault conseguiu isso em 2008. Para tal, é necessário que os demais fornecedores concordem, em um processo demorado.

Outro ponto que pode ser comemorado pelos franceses é que toda a parte de não-combustão da nova unidade de potência – os sistemas de recuperação de energia calorífica e cinética – apenas será homologada em 2019. E é justamente esta a área que vem dando dor de cabeça para os fornecedores de Red Bull, Lotus, Toro Rosso e Caterham.

As notícias vindas dos testes dão conta de que os problemas da Renault passam pela programação dos softwares que controlam a gestão da energia elétrica gerada pelos sistemas híbridos, interação entre estes sistemas e superaquecimento especialmente na Red Bull. Depois de algumas destas questões terem sido resolvidas com a força-tarefa após o desastre do teste de Jerez, os carros começaram a ganhar um pouco mais de quilometragem e novos desafios foram aparecendo, ligados à dirigibilidade. Basicamente, a retomada de potência é muito agressiva, dificultando o controle, e a velocidade final deixa a desejar (provavelmente, porque os sistemas de recuperação de energia não estão funcionando a contento). Uma falha no Kers, por exemplo, que representava cerca de 0s3/volta até ano passado, hoje representa por volta de 1s.

Os problemas são maiores ou menores dependendo da equipe. Na Red Bull, há quem diga que uma versão B do RB10 está sendo preparada, com uma parte traseira totalmente remodelada. Aerodinamicamente, o carro parece refinado e os pilotos se mostram contentes. O problema é a compressão que isso causou nos sistemas internos, o que, somada aos problemas da Renault, fazem com que a equipe sofra mais que as demais.

Uma explicação curiosa, inclusive, foi dada pelo chefe do time, Christian Horner. Quando o Kers foi introduzido pela primeira vez, em 2009, o então comandante da equipe Renault (hoje Lotus), Flavio Briatore, decidiu que seria a fábrica do time, em Enstone, e não a divisão esportiva da montadora, em Viry, que desenvolveria o sistema. Isso fez com que, nos últimos anos, a própria Red Bull cuidasse de seu Kers – que, por sinal, era praticamente o único calcanhar-de-Aquiles dos carros tetracampeões mundiais. Com mais know-how do sistema, a hoje Lotus não economizou em saídas de arrefecimento em seu E22 – e não vem tendo o mesmo tipo de problema com os mesmíssimos motores Renault que a rival usa.

A culpa é de Briatore, então? Menos. Os reflexos de uma decisão tomada em 2008 não podem surpreender uma equipe que se mostrou tão eficiente nos últimos anos. O jeito é trabalhar e aproveitar que a homologação de hoje está longe de representar o fim da linha para a Renault.

Saiba tudo sobre os bastidores das notícias na Fórmula 1

Há quem aposte que acompanhar o circo da Fórmula 1 pelos quatro cantos do mundo nas coberturas jornalísticas seja o trabalho dos sonhos, mas desafios não faltam para quem embarca nessa aventura – e tem muita história para contar.

O TotalRace abriu o espaço para que os leitores tirassem suas dúvidas sobre como é a cobertura e o resultado foi um bate-papo entre os jornalistas Felipe Motta, Luis Fernando Ramos e Julianne Cerasoli sobre os bastidores das notícias, viagens e, como não poderia deixar de ser, a lista dos pilotos mais “gente fina” – e o indiscutível grande mala do grid.

Confira alguns trechos desta edição especial do podcast “Credencial” abaixo e confira o programa inteiro aqui:

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Gustavo Querodia Tarelow: Gostaria de saber qual o piloto mais antipático e o que proporcionou melhores entrevistas a vocês nesses anos de cobertura da F-1.

Felipe Motta: Gosto muito do Vettel, do Button, o Kobayashi é uma figura. Felipe Massa também é um cara legal. O Alonso eu não incluiria porque, apesar de ser muito profissional, é uma pessoa difícil. Uma coisa eu respeito nele: é como o [ex-goleiro] Marcos, do Palmeiras. Quando o time ia bem, ele falava, e quando as coisas estavam péssimas, também não fugia. A maioria dos jogadores vai direto para o vestiário em uma situação dessa.

Já o mais mala felizmente não estará no grid neste ano: Paul Di Resta. O Rosberg tem seus bons e maus momentos, mas o Di Resta nunca teve. E muitos especulam que a o motivo para a saída dele – até porque os resultados de pista não foram tão ruins – é o relacionamento. Motivo da demissão: ‘malice’.

Julianne Cerasoli: Acredito que esse conceito de ser legal para nós tem muito a ver com os conteúdos das entrevistas, com dizer coisas interessantes e, de certa forma, dar manchetes para nós. Por isso eu citaria pilotos como Pastor Maldonado e Romain Grosjean, que prestam atenção no que você está perguntando e tentam fugir do lugar comum nas respostas.

Jopa: Com o passar do tempo, a experiência e o conhecimento mais a fundo dos personagens, pilotos, técnicos e engenheiros, dá para “ler” nas expressões, no semblante, na linguagem corporal e compor com as respostas verbalizadas uma impressão diferente do que foi dito?

Luis Fernando Ramos: É muito diferente estar lá. Por exemplo, o Massa nos dias de Ferrari: trata-se de uma equipe que limita muito o que os pilotos vão dizer. No caso do Felipe, apesar do discurso estar muito afinado com o time, a expressão dele dizia muito mais do que ele falava. Outro exemplo é o Vettel, um piloto que adora fazer gracinhas nas entrevistas. Já vi coisas que eles disse só para fazer algum repórter rir na hora ser publicado como se fosse alguma provocação. Por vezes, foi algum comentário infeliz.

Edu Bassan: Qual a rotina da equipe nos fins de semana de um Grande Prêmio? Minha curiosidade é saber como é normalmente o cronograma da equipe, desde acordar, chegar no autódromo, apurar notícias, preparar matérias, entrar ao vivo na rádio, horário de almoço etc., até a hora de dormir.

Luis Fernando Ramos: A rotina de um dia normal de GP é acordar, ir para a pista, trabalhar o dia inteiro, procurar um lugar para comer e ir dormir. Pegando como exemplo uma prova na Europa, chegamos ao circuito cerca de uma hora antes do início da primeira sessão de treinos do dia, às 10 ou 11h da manhã. Depois tem a sessão da tarde, colhemos as entrevistas e produzimos o material, saindo da pista por volta das 21h.

Felipe Motta: A gente aprende a trabalhar melhor o tempo porque algo que acontece muito é o acúmulo de cansaço, que faz com que, em algum momento da temporada, você fique doente. Temos de ter a sensibilidade de saber o dia em que o bicho vai pegar e quando guardar a energia. Os dias mais cansativos são a quinta-feira, dia reservado às entrevistas, e o domingo, que é um dia muito físico.

Cristiano Seixas: Qual corrida deu mais satisfação em cobrir in loco?

Luis Fernando Ramos: O GP do Brasil de 2008 foi muito marcante por tudo o que envolveu aquela prova, com a chance do Massa ser campeão em casa. E pela maneira como tudo aconteceu, desde a largada atrasada pela chuva que caiu quando os pilotos já estavam no grid, depois secou e choveu de novo e houve aquele final apoteótico.

Outra corrida que me marcou foi o GP de Cingapura de 2008. Ela se tornou histórica [quando Nelsinho Piquet denunciou que a vitória de Fernando Alonso havia sido arranjada] um ano depois, mas desde o primeiro momento achamos tudo o que acontecera muito estranho. A prova terminou umas 23h e eu e o Felipe saímos 10h da manhã e o cara que tinha a chave da sala de imprensa estava dormindo. Sobramos apenas nós dois.

Felipe Motta: Acho que toda decisão de título é especial, como Brasil 2008 ou Abu Dhabi 2010. Mas, citando duas provas avulsas, lembro de duas em Valência. Em 2012, confesso que meu olho lacrimejou com aquela vitória do Alonso largando em 11º e parando o carro para celebrar junto de sua torcida. Aquilo foi lindo. E em 2009, quando o Rubinho venceu logo na prova seguinte da demissão do Nelsinho e do acidente do Massa. Foi mágico. Rubinho estava tomando pau do Button, desacreditado, e guiou muito naquele final de semana.

Julianne Cerasoli: Uma prova que me marcou foi o GP da Espanha de 2012. Primeiro, pela vitória da Williams de Maldonado, que de uma hora para a outra andou muito naquele final de semana e justamente em um circuito no qual o melhor carro sempre ganha. Era difícil de explicar. E, na comemoração, o box da equipe pega fogo. Eu estava na entrevista do Stefano Domenicali e os telões do motorhome começaram a mostrar a fumaça. Ele, com toda a calma do mundo, disse: ‘e vocês ainda dizem que nós, italianos, é que somos fogosos’. Deu cinco segundos e todos saíram correndo para ver o que estava acontecendo.

Patinho excêntrico

Motor Racing - Formula One Testing - Bahrain Test One - Day 2 - Sakhir, Bahrain

Na segunda bateria de testes de pré-temporada da Fórmula 1, já começamos a nos acostumar com as diversas soluções para a seção final dos bicos. Mas há um carro que teima em não passar despercebido, tamanha sua discrepância em relação a seus pares: o E22 e seu bico duplo.

O regulamento obriga os carros a terem um bico baixo, especifica que apenas é permitido um bico e determina sua posição – em relação a altura e distância, sem mencionar que a seção final do bico deve estar centralizada. Foi aí que entrou a solução engenhosa da Lotus.

Apenas uma das pontas corresponde exatamente ao que as regras dizem em termos de dimensões e posicionamento – a mais longa, da direita. E a da esquerda é no mínimo 51mm mais curta para respeitar a regra. Ou seja, é justamente por uma questão de legalidade que as duas pontas são diferentes, pois a ponta da esquerda seria considerada não um segundo bico, mas uma parte estrutural de seu “irmão”.

Aerodinamicamente, trata-se de um conceito já empregado pela Audi em seu protótipo no Mundial de Endurance há alguns anos. O motivo? Limpar o fluxo de ar. Isso também não é óbvio logo de cara, pois, entre os extremos de ambas as pontas, há uma distância bem maior do que dos bicos “únicos” dos concorrentes – acredita-se que 4cm mais. Porém, é a abertura entre as pontas que harmoniza o fluxo de ar ao diminuir sua obstrução. Como trata-se do primeiro contato do ar com o carro, esse fluxo ganha importância.

Tanto, que ao menos a Toro Rosso admitiu ter estudado solução semelhante. “Estudamos isso no início, quando o carro estava menos maduro, e em teoria funcionaria bem. Mas na realidade sentimos que havia muitas desvantagens. Eles têm um túnel de vento mais desenvolvido do que nós, então talvez tenham descoberto algo que não conseguimos.”

É claro que a Lotus foi nessa direção porque viu que há mais vantagens do que riscos, dentro de sua filosofia de concepção aerodinâmica – algo que faz com que nem todos os times consigam trabalhar bem com determinadas soluções que funcionam para seus rivais. Porém, ao que tudo indica, o estranhamento visual do novo bico deve ser mais significativo do que sua efetividade na pista – segundo o diretor técnico da Ferrari, James Allison, não se ganha mais do que um ou dois décimos nesse setor: “É na traseira que está a pressão aerodinâmica”, explica.

Não é a primeira vez nos últimos anos que o time de Enstone ousa em um conceito técnico. Em 2011, o time apostou em um escapamento frontal, cuja saída era localizada ao lado da entrada dos radiadores e visava aumentar o poderio aerodinâmico de seus gases. Naquele caso, a dificuldade em lidar com o sistema acabou sendo maior do que o ganho teórico. No caso do bico duplo, trata-se de um risco menor e, pelo que temos visto nesse trôpego início – o E22, equipado com a até aqui problemática unidade de potência da Renault, não participou dos primeiros testes e vem andando pouco desde que foi à pista pela primeira vez, em um dos chamados “testes promocionais” –, deve ser o menor dos problemas do time.

Fonte de discórdia na Ferrari

PRESENTAZIONE FERRARI F1/2014

Colocar dois galos como Fernando Alonso e Kimi Raikkonen no mesmo galinheiro é, ao mesmo tempo, garantia de pilotagem de alto nível e de disputas internas. Afinal, os dois são maduros – porém ainda muito perto do auge – o suficiente para saber como fazer uma equipe trabalhar para si e têm a confiança que acompanha qualquer campeão do mundo. E, ainda que seja cedo para arriscar uma avaliação de como essa relação vai se desenvolver, os primeiros sinais mostram uma dinâmica interessante.

Lembremos que Raikkonen teve o contrato rescindido pela Ferrari ao final de 2009 em meio a uma chuva de críticas relacionadas a sua falta de interesse – ao mesmo tempo em que o próprio Alonso chegava junto do patrocínio de um banco espanhol com forte participação no Brasil de seu então companheiro, Felipe Massa.

Cinco anos depois, Kimi volta com pressão semelhante. Mesmo sendo o único campeão pela Ferrari na era pós-Schumacher, o finlandês nunca chegou a ser unanimidade em Maranello, em parte porque seu estilo não combina com as juras de amor às quais o time está acostumado.

“Quando o trocamos pelo Alonso, ele não estava feliz. Agora o vejo com um grande desejo de fazer bem feito”. Foi com frases como esta, de Stefano Domenicali, que o piloto foi recebido. Mas a pressão ferrarista por um Raikkonen altamente comprometido com o time seria algo que tem a ver apenas com o jeitão do finlandês?

Quando perguntado sobre em que aspecto Massa faria mais falta à Ferrari, Alonso disse: “Certamente, Felipe é um trabalhador puro. Ele trabalha dia e noite pela equipe para melhorar a performance do carro. Não conheço Kimi, mas os rumores dizem que fala pouco e que fica um pouco mais isolado. Portanto, a Ferrari pode sentir falta disso.” O recado é claro.

Uma das queixas do espanhol na turbulenta época da McLaren era que ele se sentia sozinho no desenvolvimento e acerto do carro, enquanto o então novato Lewis Hamilton se aproveitava. Se era chororô ou não, o fato é que Alonso não demonstra ter confiança de dividir as tarefas com Raikkonen. E a desconfiança nesse sentido seria péssima para o clima interno.

Além disso, é sabido que o espanhol não consegue usar o simulador da equipe em Maranello – utilizando apenas outro modelo, que tem em casa – por sentir náuseas, e o trabalho acabava sendo conduzido por Massa e por Pedro de la Rosa, piloto de testes contratado justamente para preencher esta lacuna. Não é difícil juntar as peças e prever que é no desenvolvimento do carro que pode nascer a discórdia na Ferrari.

Coluna publicada no jornal Correio Popular

Campeonatos mais ricos não se livram de problemas

No post de ontem, vimos como a Fórmula 1 é um dos esportes mais lucrativos do mundo, mas tem equipes que penam para sobreviver. E não está sozinha. O maior campeonato de futebol do mundo é a Premier League. Seus contratos de direitos televisivos chegam perto de 2 bilhões de dólares, seus jogos são assistidos por 4.7 bilhões de pessoas ao longo de uma temporada (o que representa cerca de 12,3 milhões por jogo), seis de seus clubes estão entre os 20 mais ricos do mundo – mais do que qualquer outra liga – e os 20 times somam uma receita de 3.85 bilhões de dólares.

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O futebol em si está crescendo. A receita anual dos 20 clubes mais ricos é de 6 bilhões de dólares anuais. Nos últimos 20 anos, inclusive, o volume movimentado pelo esporte cresceu bastante: todos os 30 maiores clubes têm receita superior aos 100 milhões, enquanto, em 1997, apenas o Manchester United atingia essa soma.

Mas o mundo da bola também tem seus problemas. A margem operacional na Inglaterra é pequena, de 4%, e o grande bicho-papão são os salários, que consomem 83% do orçamento. É uma questão de difícil solução, pois os diferentes campeonatos teriam de adotar um teto salarial semelhante para que ninguém saia perdendo, mas há países em que existe um  protecionismo em relação aos clubes, considerados importantes para seu turismo e imagem. Por isso, mesmo que o dinheiro gire, os grandes clubes convivem com grandes dívidas, em um cenário parecido com o da F-1. Na Premier League, os 20 clubes acumulam perdas na casa de 330 milhões de dólares/ano.

O cenário é bem diferente do outro lado do Atlântico. A liga mais lucrativa do mundo é a NFL, com receita de NOVE bilhões ao ano e lucro perto de um bilhão. Direitos televisivos? Contando só as três emissoras dos EUA, o contrato atual – e que vale até 2022 – é de 3,81 bilhões de dólares/ano. Sim, o dobro do que a F-1 arrecada no total.

Lá também houve muitos problemas com a alta dos salários, mas acordos trabalhistas permitiram que, enquanto a receita total cresceu de 6.5 bi em 2006 para os 9.2 de hoje, a média salarial subisse de 1.7mi para 2mi no mesmo período. E planos de criar a própria rede de celulares, ampliar os serviços do Fantasy Game (incluindo permitir acompanhar os jogadores de seu time em tempo real) e vender os direitos de transmissão via internet de maneira customizada (os direitos já foram adquiridos pela liga, que agora estuda a melhor maneira de usá-los) fazem os comandantes do esporte mirarem uma receita de 25 bilhões em 2027.

A NFL, claro, não é a única liga norte-americana que movimenta muito dinheiro. A receita anual do Major League Baseball é de 7,5 bi e da NBA é na casa dos 5 bilhões.

É difícil uma comparação direta, pois esses esportes têm mais eventos, mais equipes, mais potencial de lucro. Porém, não é segredo que a forma como a Fórmula 1 vem sendo gerida trava seu crescimento.

A regra da pontuação dobrada para a última etapa é um exemplo de como quem manda no esporte está distante do que anseiam seus espectadores, com pesquisas na internet apontando mais de 90% de rejeição. As restrições ao uso das imagens na internet é outra questão complicada, assim como a própria dinâmica do esporte: mesmo que o regulamento deste ano seja uma evolução para a relevância da categoria no mercado automobilístico, ele provavelmente vai dificultar a compreensão das corridas.

Fazendo fortuna com a Fórmula 1

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Uma receita acima de 1.5 bilhões de dólares por ano – e subindo anualmente. Uma audiência total de 450 milhões de espectadores por temporada – o que significa mais de 23 milhões por prova. E equipes vencedoras sofrendo para pagar suas contas. Ficam duas perguntas no ar: será que a Fórmula 1 é tão grande quanto poderia ser? E por que o dinheiro não chega para quem faz o espetáculo?

Vamos por partes.

Há um velho ditado que apregoa que “se você quiser fazer uma pequena fortuna com o automobilismo, comece com uma grande fortuna”. Parece existir uma tradicional divisão no esporte entre aqueles que entram para lucrar e os que querem vencer – e os primeiros nunca sujaram a mão de graxa. E, curiosamente, mesmo com o fim da era do romantismo na Fórmula 1 há muito tempo, a velha máxima continua viva.

O Formula One Group é um conglomerado composto por 30 a 40 companhias, cuja matriz é a Delta Topco. A CVC Capital Partners (aquela da qual Bernie Ecclestone saiu do cargo de CEO recentemente enquanto responde ao processo por suborno na justiça alemã) tem 35.5%, a companhia norte-americana Waddell and Reed tem cerca de 20%, a Lehman Brothers tem 12%, a trust familiar de Ecclestone tem 10% e o inglês possui mais 5% das ações (alguém achou que o afastamento dele do posto na CVC era o fim da linha?). São eles que estão realmente fazendo dinheiro com a Fórmula 1.

A grana vem, de modo geral, dos 500 milhões de dólares pagos pelos direitos de transmissão, dos 500 milhões pagos pelos promotores das corridas, dos 250 milhões arrecadados com patrocínio e dos 250 milhões da venda de ingressos para empresas. Principalmente os dois primeiros itens são as minas de ouro cuidadosamente exploradas por Mr. E: em grande parte dos GPs, há no contrato o aumento anual da taxa em torno de 10%, garantindo o crescimento constante da receita mesmo que o calendário não cresça; além disso, a F-1 vem migrando fortemente para canais pagos, com contratos mais valiosos do que os antigos com as emissoras abertas. Aliás, dá para contar nos dedos os países em que ver a categoria como no Brasil é possível.
//e.infogr.am/negocio-lucrativo

Outra forma usada pelo Formula One Group para aumentar seus lucros é fechar grandes contratos de patrocínio para a categoria, prática que tem se intensificado nos últimos anos. Tais acordos garantem mais exposição do que apoiar uma equipe, pois independe do sucesso do time e de sua visibilidade nas transmissões. Na mesma proporção, vemos times grandes como a Lotus, a McLaren e a Williams sem um patrocinador master. Mais uma vez, os donos do esporte lucram, enquanto quem o faz tem dificuldades para fechar as contas.

É claro que 47,5% do dinheiro obtido com os lucros é divido com as equipes, o que está explicado aqui e respeita uma divisão que privilegia os grandes – as maiores ficam com cerca de 100 milhões, e as menores, com 30. O restante fica com os donos do esporte, os mesmos que chamam de “piada” as atuais mudanças de regulamento que oneraram ainda mais os times. Só a nova unidade de potência custa em torno de 20 milhões de euros, dependendo do fabricante. Não por acaso, o esporte gera lucro mesmo com a queda de audiência, mas seus atores seguem respirando por aparelhos.

Amanhã, veremos como a Fórmula 1 não é a única que vive esta situação.