De capacete à prova de balas a cockpit que aguenta até 250t

Um acidente fatal no automobilismo sempre é motivo de comoção e há quem não entenda o sentido da atividade ser considerada um esporte. Contudo, assim como, em todas as modalidades, os cuidados com o treinamento e exames físicos preventivos seguem padrões muito mais rígidos nos dias de hoje, diminuindo o risco de algo que deveria ser saudável tirar a vida de alguém, os padrões de segurança nas pistas em nada lembram os que motivaram a Mercedes abandonar as competições na década de 1950 ou a Suíça banir as corridas de seu território.

É claro que, assim como é menos provável que haja uma UTI móvel num jogo de campeonato de futebol estadual de segunda divisão, há diversos níveis de segurança nas diferentes categorias do automobilismo. Um caso emblemático é o de Robert Kubica. Quando o polonês se acidentou de F1 no GP do Canadá, em 2007, foi submetido a uma força de 28 vezes a aceleração da gravidade e saiu apenas com uma torção no tornozelo. Três anos e meio depois, quando sofreu um acidente bem menos violento durante o Rali de Andorra, correu risco de morte e sofreu sérias lesões na perna, ombro, braço, cotovelo e mão direitos. A lentidão no atendimento e a fragilidade de seu carro, que foi praticamente cortado ao meio por um guard rail, dão a exata dimensão de como a F1 é segura.

Claro que esta foi uma lição aprendida a duras penas, mas hoje o aparato de segurança na categoria máxima do automobilismo é extenso e impressionante.

Armadura do piloto

A decisão de introduzir o HANS (Head and Neck Support) na F1 foi consequência da fratura de crânio sofrida por Mika Hakkinen em 1995. No entanto, como a adaptação do aparato, inventado na década de 1980, ao pequeno cockpit foi difícil, nem o bicampeão mundial de 1998 e 1999 chegou a usá-lo. Ele estreou em 2003, com a função de diminuir a movimentação da cabeça e do pescoço durante os acidentes.

Alonso já equipado com HANS e capecete. Nessa imagem as entradas de ar ficam bem visíveis

Trata-se de um colar de fibra de carbono ligado ao capacete por duas fitas elásticas. O aparato faz com que o movimento da cabeça caia em 44% numa batida e com que as forças de desaceleração diminuam em 86% no pescoço e 68% na cabeça – transferindo-as em parte do crânio à testa, que é mais resistente.

O capacete pesa cerca de 1250g e tem duas camadas, uma de Kevlar, usada em equipamentos à prova de bala e outra mais deformável, de polietileno, com a mesma proteção antifogo do macacão. Há pequenos buracos, protegidos por telas, para melhorar a ventilação na cabeça do piloto.

O visor também é feito de material ultra resistente e recebeu neste ano uma camada de Zylon, outro material à prova de balas, em consequência do acidente de Felipe Massa em 2009. Ele tem um tratamento que impede o embaçamento.

Apenas desde 1975 os macacões têm proteção antifogo. O que antes era um material pesado, hoje é feito de duas a quatro camadas de Nomex, fibra inteligente desenvolvida em laboratório. As roupas passam por testes em que, quando submetidas ao calor entre 600 e 800ºC, a temperatura interna não pode passar de 41ºC – e isso só pode acontecer durante 11s.

Há uma espécie de ombreira nos macacões dos pilotos, que serve para que eles sejam puxados pelos comissários em caso de acidentes.

Os sapatos são feitos de couro leve e os solados são bem mais finos que os normais, para que isso não afete a sensibilidade nos pedais.

Crash tests

Introduzidos em 1985, os crash tests hoje são divididos em dinâmicos e estáticos. Os primeiros são feitos por todos os ângulos (lados, frente e traseira) e na barra de direção. A célula de sobrevivência tem que ficar intacta e a desaceleração medida no peito do boneco colocado na posição do piloto não pode ultrapassar 60G. Os carros ainda passam por 12 testes de carga estáticos. As paredes do cockpit devem suportar impactos equivalentes a 250 toneladas.

Célula de sobrevivência

É o local onde fica o cockpit. Nenhuma linha de combustível, óleo ou agua pode passar pelo habitáculo de 85cm de comprimento, 45cm de largura na área do volante e outros 52cm onde fica o piloto. Até as laterais são construídas num ângulo de ao menos 16º para reduzir o risco de, se um carro voar sobre o outro, o piloto ser atingido.

A célula é construída em material deformável que absorve a energia na caso de batidas. É protegida por 6cm de carbono e Zylon, material usado em equipamentos à prova de balas, para que nenhum pedaço de carbono a corte.

Veja os botões E, de extintor, N, de neutro, e o que indica que o KERS está operando

O assento deve ser removível. Assim, quando um piloto é atendido, ele é retirado do carro junto do assento, para evitar lesões na coluna. Os cintos de segurança são obrigatórios desde 1972 (!) e hoje contêm seis pontas. É isso que vemos os mecânicos ajustando quando os pilotos entram no carro. Como não há espaço para o próprio piloto apertá-los, é preciso ajuda externa para se assegurar de que estão bem presos. Como todas essas 6 pontas terminam no mesmo lugar, na altura da barriga do piloto, o cinto é de fácil remoção.

Não poderia ser diferente. Os pilotos devem poder sair do carro em 5s. É só bater o cinto, tirar o volante e pular para fora.

O carro contém um sistema antifogo interno, acionado por um botão, e outro que desliga a parte eletrônica e a bomba de combustivel. Eles ficam do lado de fora do carro e podem ser operados pelos comissários ou mesmo pelos pilotos.

Salvamento

O cockpit ainda tem um gravador de dados, que envia ao volante um sinal indicando o quão forte foi o impacto.  Além de ajudar a equipe médica, dependendo desses dados, o piloto terá, mesmo se sair ileso, que passar por uma checagem no centro médico. Caso mais procedimentos tenham que ser realizados, sempre há um hospital próximo de prontidão.

Falando em salvamento, são seis carros ao total, espalhados pelo circuito de forma que cheguem em ao menos 30s ao local do acidente. Um dado curioso é que, além dos médicos e paramédicos, as equipes em Mônaco contam com pilotos, para evitar que sofram acidentes ao se encaminhar à cena do acidente.

Ecclestone x Todt: duas maneiras, um objetivo

Depois de um 2010 relativamente calmo em termos políticos, a disputa por poder na Fórmula 1 está voltando a se aquecer, com a chiadeira de sempre da Ferrari e os desparos de Bernie Ecclestone. Cada um querendo manter suas regalias no novo Pacto da Concórdia, que já está sendo negociado e entra em vigor a partir de 1º de janeiro de 2013.

Mas há uma diferença fundamental nesse cenário. Quando o último acordo foi firmado, em meados de 2009, era o autoritário Max Mosley quem estava no comando da FIA. Não coincidentemente, as últimas negociações chegaram até a um breve racha entre a entidade e as equipes, que colocou o futuro da F1 em dúvida. Há 15 meses no poder, o francês Jean Todt já mostrou que aposta na diplomacia para chegar onde quer – e não mede esforços políticos para isso.

Bernie Ecclestone (GBR) F1 Supremo and Jean Todt (FRA) Ferrari
Velhos tempos que não voltam mais...

Ao contrário de Ecclestone, é avesso a lavar a roupa suja em público, o que muitas vezes é tido como omissão. Contudo, se observarmos como o atual presidente da entidade máxima do automobilismo tem lidado com a herança podre de Mosley – o julgamento pouco embasado do caso de Cingapura, a regra das ordens de equipe e, principalmente, as consequências da guerra promovida pelo antecessor às montadoras – temos a certeza de que o baixinho consegue o que quer.

Ele se livrou de um processo na justiça comum que certamente absolveria Briatore e Symmonds, condenados sem qualquer embasamento nas regras (que não previam penas para não licenciados, como membros das equipes, apenas para times e pilotos em si, algo que Todt corrigiu); baniu a regra que jamais foi respeitada e forçou a aprovação de um novo regulamento de motores em 2013 que fez com que o esporte voltasse a ser interessante para fabricantes que não atuam no mercado de supercarros.

E agora ele quer uma fatia do dinheiro de Bernie.

Em 2001, a União Europeia determinou que a FIA deixasse de ter o controle comercial da F1, sob alegação de que se tratava de um monopólio. Ecclestone e Mosley, então, chegaram a um acordo: o direito de negociar os contratos da categoria ficaria nas mãos da empresa comandada por Bernie por 100 anos (!), em troca de US$ 360 milhões, uma miséria tendo em vista a quantia movimentada pela categoria.

Uma vez que não se pode mexer nesse contrato, a intenção de Todt é conseguir mais dinheiro para a FIA por meio do Pacto da Concórdia – que é negociado mais ou menos duas vezes por década e nada mais é que uma espécie de divisão dos lucros entre a FOM, a FIA e as equipes. O francês, inclusive, contratou um diretor de marketing, algo inédito na história da entidade.

É lógico que Ecclestone sabe que o páreo é duro. Todt tem se alinhado com a associação das equipes, a FOTA, e espera juntar forças para arrancar ao menos uma fatia dos rendimentos de Bernie, responsável pela negociação dos direitos de TV e com os organizadores das provas.

Não demorou para que o outro baixinho reagisse. Primeiramente, atacando os motores menos potentes de 2013, depois, mirando no trabalho, ou melhor, na “piada” que seria o trabalho de Todt no comando da FIA. “Sinto que o confronto, a não ser que seja necessário para atingir uma meta, é perda de tempo”, o presidente da entidade mandou seu recado numa recente entrevista ao Financial Times. Pelo jeito, Bernie vai brigar sozinho. E ainda corre o risco de sair perdendo.

O GP da Malásia será um teste de fogo para os pneus Pirelli

É bem verdade que muita gente ficou com um pé atrás depois que o GP de abertura da temporada, na Austrália, não foi exatamente um salve-se quem puder no quesito pitstops. O rendimento do pneu, especialmente do composto macio, foi tão diferente em relação ao visto na pré-temporada e não demorou para surgirem os primeiros boatos de que, temendo um desastre comercial, a Pirelli havia os alterado.

Isso era algo previsto há tempos por muita gente: ou os pilotos e equipes faziam uma espécie de pacto de silêncio e evitariam criticar a empresa, ou os italianos, cujo negócio principal é vender pneus para quem anda a 60km/h pelas ruas da cidade e não tem interesse algum em comprar um produto que se desfaz com pouco uso, fatalmente fariam um composto mais durável.

pirelli pneus f1
Há suspeitas de que a Pirelli tenha mudado os pneus em relação à pré-temporada

O GP da Malásia tem tudo para tirar a prova dessa teoria: forte calor, alta umidade, asfalto abrasivo, longas retas, curvas de alta e freadas fortes. Sepang não é um circuito exatamente caracterizado pelo alto desgaste de pneus, mas são todos ingredientes que praticamente não estiveram presentes na corrida da Austrália – certamente nenhum deles na intensidade do que os pilotos encontrarão nesta segunda etapa.

O fato é que algumas equipes culparam os pneus por não terem conseguido reproduzir em Melbourne o rendimento mostrado nos testes de pré-temporada, especialmente Ferrari e Lotus. A dificuldade em aquecer o pneu na classificação – que, curiosamente, se transformou em desgaste no domingo, ao contrário do que acontecia no ano passado – era clara na tocada de Massa e Alonso.

Ver justamente a Ferrari ficar para trás é interessante, tendo em vista que muitos apostaram que, por ser italiana, a Pirelli desenvolveria um pneu sob medida para a Scuderia. Mais uma prova de que a F1 é um jogo de interesses, não de nações.

Como citou Martin Brundle, que também teve essa impressão, durante a transmissão da TV britânica, é uma decisão que deve ter sido tomada há algum tempo, já que esses pneus demoram para ser fabricados.

De qualquer forma, sempre que questionados, os membros da Pirelli trataram de acalmar as teorias do apocalipse e disseram esperar que a prova da Austrália tivesse dois pitstops. Acertaram quase em cheio, não fosse a façanha de Perez e a dificuldade das Ferrari e de Webber. Será que não foram as equipes que superestimaram o consumo em Melbourne?

Agora, Hembery e companhia falam em três a quatro paradas nos boxes para a etapa malaia. Imagine se houvera um caos numa Melbourne em temperatura agradável, o quanto as equipes estariam chiando com medo de simplesmente não ter o que colocar nos carros na Malásia?

Uma das grandes propagandas da Fórmula 1 é a necessidade do campeão enfrentar pistas de alta e de baixa velocidade, desertos, dilúvios, provas de rua ou em meio a florestas para conquistar o titulo. Logo, é impossível fazer um pneu que esfarele em todos os tipos de circuito presentes nas 19 etapas da temporada.

Como sempre, haverá corridas com mais e menos degradação. A única certeza, que não tínhamos ano passado, é que existirá algum desgaste com o qual certos carros e pilotos vão lidar de maneira mais eficiente que outros. Porém, se há lugares em que vão passar por apertos, um deles é Sepang.

Malásia, a hidratação e o marketing nas garrafas

Quando se fala do GP da Malásia, o assunto que logo vem à cabeça é o desgaste físico dos pilotos. Também, pudera. O clima no país lembra o de cidades brasileiras próximas à Linha do Equador, como Manaus ou Belém. Um calor de rachar seguido de uma bela pancada de chuva. E mais calor.

No ano passado, os treinos livres foram disputados com 35º de temperatura ambiente, 52º de pista e umidade relativa do ar de 58%, o que aumenta ainda mais a sensação térmica. Dentro do cockpit, as temperaturas passam dos 60º. E isso é algo que os pilotos enfrentam “devidamente” trajados com três camadas de tecido, entre macacão e roupas anti-fogo.

button australia
Cada piloto escolhe um tipo de composto para repor as energias

O grande risco de desidratação, que causa queda na performance muscular e de concentração a partir do momento em que se perde 1 ou 2% do peso corporal, faz com que os profissionais tomem um cuidado adicional com a ingestão de líquidos. Quem nunca viu pilotos  com seus squeezes, tomando uns goles mesmo durante as sessões de treinos? Pois, bem, a melhor maneira de repor líquidos é ingeri-los em pequenas porções, continuamente, por isso as garrafinhas ficam sempre à mão.

É lógico que as fabricantes de bebidas viram ali um filão altamente lucrativo para expor suas marcas. Logo, a Red Bull estampou seu logo na garrafa de seus pilotos e outros, como Felipe Massa com o Guaraná Antártica, conseguiram até patrocínios pessoais com isso.  Não coincidentemente, quando acabam uma sessão de classificação, mal saem dos carros e os três primeiros já correm para pegar seus squeezes e gerar exposição às marcas nas fotos que rodarão o mundo.

Isso não quer dizer, no entanto, que Vettel beba energético ou Massa ingira guaraná antes de uma prova. Os pilotos consomem água ou algum repositor eletrolítico/bebida isotônica. Isso porque estão tentando não apenas restaurar os estoques de água em si, como também de sais minerais, como sódio e potássio, que perdemos com o suor.

massa alonso button gp da itália 2010
Massa e sua inseparável garrafinha de guaraná, mas sem guaraná dentro!

Publicidade à parte, para ajudar na hidratação durante a prova, os pilotos contam com um reservatório de 1 a 1,5l de água dentro do carro. Ativado por um botão (sempre um botão!), o mecanismo leva a água até o piloto por meio de um cano acoplado ao capacete.

Mas, é claro, este sistema pode falhar. Quem foi vítima de uma quebra em péssima hora foi Fernando Alonso durante o GP do Bahrein de 2009. Por estar no deserto, sem a umidade relativa do ar tão alta como na Malásia, a corrida barenita não é tão desgastante. No entanto, as temperaturas são muito altas e o suadouro, grande.

Sofrendo não apenas com uma falha no sistema de hidratação, como também no isolamento do calor que passava da traseira do carro ao cockpit, o espanhol perdeu perto de 6kg em líquidos durante a prova, cerca de 10% de seu peso corporal. Pálido e com queimaduras nas costas, deu algumas entrevistas e desabou ao final da corrida.

A cena não deve se repetir nesse ano, com os pilotos afirmando que o ritmo mais lento imposto pelo pneu Pirelli faz com que o desgaste seja menor. Mas isso não torna a Malásia menos quente: as garrafinhas continuarão mais que presentes.

Perez x Kobayashi: a façanha em que nem a Pirelli acredita

Kamui KobayashiSergio Perez
Posição na classificação13º
Tempo da Classificação (Q2)1’25.405 (-0.703)1’26.108
Posição na corrida8º*7º*
Voltas58/5858/58
Pit stops2 (16, 32)1 (23)

*são as posições de chegada; foram desclassificados após a prova

Sergio Perez protanozinou a estreia dos sonhos até 3h após a prova, quando foi desclassificado junto de seu companheiro Kamui Kobayashi por irregularidades na asa traseira de seu Sauber. Isso não tira o valor de seu feito: nem mesmo os especialistas da Pirelli acreditavam que o mexicano de 21 anos havia conseguido completar a prova com apenas um pitstop. Achavam que a TV e a organização não tinham captado a segunda parada do novato.

Mas essa foi apenas uma parte da façanha de Perez, que tem a carreira cuidada pelo milionário do ramo das telecomunicações Carlos Slim desde os 12 anos e é membro do programa de desenvolvimento de pilotos da Ferrari. O mexicano ficou a menos de 0s1 de Kobayashi no Q1 e se disse atrapalhado por Nico Rosberg no Q2, quando foi cortado.

Largou em 13º e sofreu com uma pane no rádio durante a volta de apresentação, logo quando o engenheiro passa vários parâmetros a serem acertados no volante e dados sobre a temperatura dos freios.

Perez estreia gp da australia 2011
Antes da largada, a impressão era de que Perez estava feliz só em fazer parte do grid

Solitário com os pneus duros, perdeu uma posição na largada e depois foi ultrapassado por Barrichello e Maldonado. Chegou a rodar até 2s mais lento que Kobayashi, mas, com a degradação do composto macio que o japonês usava, os tempos de equilibraram. Para pela única vez 7 voltas após o companheiro. Até aí, a ideia era fazer 2 paradas.

Mas o rendimento de Perez com os pneus macios foi incrível. Além de aguentar 35 voltas com um composto que suportava de 10 a 16 voltas na concorrência, ainda fez seu giro mais rápido na prova – o 6º melhor da corrida – na 16ª volta do pneu!

Com os pneus iguais aos de Kobayashi – ainda que mais novos – foi Perez quem passou a andar 1s, 1s5 mais rápido que o companheiro. E, quanto o japonês parou pela segunda vez na volta 32, o mexicano seguiu firme e, com isso, foi subindo na classificação até a 7ª posição, logo à frente do outro carro da Sauber. Nas últimas 13 voltas, o japonês tirou um pouco a diferença, mas Perez ainda teve fôlego para fazer dois giros seguidos em 1min30s8 nas voltas 52 e 53, sendo o 5º mais rápido da pista naquele momento.

Hamilton x Button: que diferença uma fila no grid faz!

Muito já foi dito no post sobre as estratégias a respeito das diferenças entre as corridas de Vettel e Webber, Alonso e Massa. Durante o final de semana, a dinâmica entre outras duplas também chamou a atenção: Hamilton tirou leite de pedra na classificação e relegou Button à segunda fila. Encaixotado na largada, foi parar no meio da muvuca. E, como dizem os ingleses, o resto é história.

O sobe e desce entre os companheiros da Sauber foi outro ponto interessante, mas este é um tema para o próximo post. Por ora, voltemos à McLaren.

Nos treinos livres, Button parecia mais confortável com o carro e dava a pinta de que superaria Hamilton, que por várias vezes aparecia fritando os pneus. Porém, repetindo algo que não é exatamente uma novidade no confronto entre os dois, Lewis brilhou no Q3 e evitou a 1ª fila da Red Bull, enquanto Jenson se perdeu e justificou a grande diferença em relação ao companheiro com a turbulência por ter feito a volta rápida muito próximo de Rosberg.

Lewis HamiltonJenson Button
Posição na classificação
Tempo da Classificação (Q3)1’24.307 (-0.47201’24.779
Posição na corrida
Voltas58/5858/58
Pit stops2 (16, 36)3 (16*, 17, 37)

*drive through

Ambas as McLaren não largaram bem, mas enquanto Hamilton conseguiu se valer

da vantagem por ter o Kers e se defender de Webber, Button se viu num sanduíche, entre Petrov e Alonso, e acabou perdendo 2 posições.

Ficou preso atrás de Massa, que se defendeu muito bem dos ataques de um carro bem mais rápido. Sua corrida acabou ali. Na volta 10, a diferença para o líder já superava os 20s – e chegava a 18s em relação ao companheiro. Mas o cenário poderia piorar: repetindo Alonso em Silverstone, cortou a chicane para passar o brasileiro, demorou para devolver a posição, o piloto da Ferrari fez o pitstop e Button acabou punido com um drive through.

Sem Massa a sua frente, conseguiu melhorar o ritmo em 1s por volta. Após a punição, levava 30s de desvantagem para Vettel, o que aumentou para 62s depois de fazer sua primeira troca de pneus – seus pneus já estavam acabados, mas a equipe parece tê-lo deixado na pista o máximo possível para que ele atrapalhasse Vettel, quando o líder voltava dos boxes.

Enquanto isso, Hamilton se mantinha a 2, 3s do líder, cujos pneus se degradaram mais rapidamente.

Hamilton Button McLaren Australia 2011
Esse foi o mais próximo que Button chegou de Hamilton, quando companheiro parou nos boxes pela primeira vez

No segundo trecho, passou a andar ligeiramente mais rápido que Hamilton – a distância caiu para 50s –, que já não conseguia se manter no mesmo ritmo de Vettel e viu a diferença para o líder subir para 12s na volta 36, quando ambos fizeram a segunda parada. O inglês teve que diminuir o ritmo, pois o assoalho de seu carro, que completava o maior número de voltas em sequência desde o lançamento, estava se soltando

Button se beneficiou da batida entre Rosberg e Barrichello e passou Kobayashi para voltar a encontrar Massa, mesmo após o drive through. O ritmo do brasileiro era, novamente, cerca de 1s mais lento. O inglês o passou na volta 48 e manteve a 6ª posição até o final. Terminou 31s à frente do piloto da Ferrari, sendo 10s deles ganhos nos boxes e o restante, na pista. Descontando o tempo do drive through, ficaria entre Alonso e Webber, ou seja, não é de se descartar que lutaria por um pódio caso tivesse se mantido longe de confusão.

GP da Austrália por ingleses, brasileiros e espanhóis: estreia, trauma e diversão

Tanto a BBC quanto a La Sexta trouxeram novidades para sua transmissão neste ano. A primeira, estreando uma dupla de ex-pilotos na narração e comentários: Martin Brundle e David Coulthard.  A segunda também tem agora seus ‘companheiros de equipe’: Pedro de la Rosa retorna aos comentários, junto de Marc Gené. Enquanto isso, a Globo segue na mesma toada, apostando nos “2 brasileiros e 5 campeões mundiais”.

Logo na primeira corrida, a relação dos ‘companheiros’ ingleses se mostrou harmoniosa, mas os pilotos de testes de McLaren e Ferrari, mesmo em clima de brincadeira, trocaram algunas farpas.

Antes da largada, as atenções se voltaram para os pneus, cada um a seu jeito. A corrida nem começou e os ingleses já foram informados de que a diferença esperada entre os compostos é de 1s e a queda de rendimento de 0s2 – algo que acaba não se conformando na corrida. Brundle chama a atenção para Schumacher, o primeiro do que têm à disposição pneus macios novos.

Na Globo também ficamos sabendo dos pneus usados, ou “cheios de sujeirinha”, como prefere o narrador Luis Roberto. Já na La Sexta destacam que quase todo o grid calçou os compostos macios e Jacobo Vega aposta que Vettel estará em apuros: a Red Bull, sem Kers, seria presa para Hamilton na largada ou na 3ª volta, quando poderão usar a DRS (drag reduction system ou asa traseira móvel). “Cara, se Vettel estiver liderando na 3ª volta, já terá sumido”, de la Rosa acaba com as esperanças do pobre comentarista, que passa o resto do GP calado.

A largada marcaria um início difícil para Luis Roberto. Perdido, por várias vezes, inclusive no replay, o narrador confunde Alonso, que havia se atrapalhado na 1ª curva, com Massa. Parece não acreditar que o brasileiro esteja na frente. Na La Sexta, o narrador Antonio Lobato acompanha muito bem a largada… de Alonso. Quando vê um carro saindo da pista (Barrichello), enxerga Perez.

Quem foi bem em sua primeira largada como narrador foi Brundle. Viu Hamilton largando mal, Button preso entre as Ferrari, destaca Massa, Di Resta e Heidfeld e ainda vê o pega entre as Toro Rosso. Tudo ao vivo.

Na transmissão espanhola, começa a aparecer o trauma que dá o tom da transmissão. “Não sei o que é pior, ter o Kobayashi na frente ou o Petrov. Acho que o Petrov”, diz Gené. Alonso passa fácil pelo japonês e o foco vai para Button e Massa. “Essa é a Ferrari mais larga que eu vi em algum tempo. Massa está defendendo como se sua vida dependesse disso”, observa Brundle. “Vai se divertindo o Felipe”, diz Luis Roberto pela primeira, mas não última vez. “Olhe como ele está lutando”, se impressiona Gené. Todos comentam como a DRS não está ajudando Button – ainda que Luis Roberto, na volta 11, se surpreendia por Massa, que ia à frente, não usar o dispositivo! Só na volta 25 ele observaria que  o gráfico aponta quando o piloto pode ativá-lo. Em tempo.

massa button australian gp 2011
Massa defendendo a posição "como se sua vida dependesse disso"

Reginaldo Leme se preocupa com uma possível punição.  “O Felipe não mudou de trajetória em nenhum momento”, enquanto Lobato também se preocupa, com Alonso. “Ele está muito mais rápido que o Massa. Quando chegar, a Ferrari vai ter que pedir para deixar passar, lembrando que as ordens de equipe estão liberadas.” E isso com Button ainda entre os dois. Os pilotos comentam sobre como Felipe não gostaria nada de ouvir isso e de la Rosa aproveita para alfinetar. “Se há uma equipe capaz de dar ordem de equipe na primeira prova, é a sua, Marc” e ouve que “é que na McLaren são mais ingleses, mais finos.” Enquanto isso, o repórter Ted Kravitz informa na BBC que o time de Woking estuda parar Button para tirá-lo do sanduíche de Ferrari.

Tarde demais. Button ultrapassa Massa por fora da pista e todos identificam imediatamente a necessidade de devolver a posição. “A defesa dele é que na curva 11 já tinha passado”, de la Rosa tenta dar um desconto para o companheiro de equipe, mas vê o replay e volta atrás, enquanto Luciano Burti se surpreende “por um piloto tão experiente como o Button, numa McLaren, ainda não ter devolvido a posição” e Lobato acha que a Ferrari deu, sim, uma ordem para Alonso passar Massa “assim o Button tem que devolver duas posições”.

Seria bem pior que isso para Button, já que as Ferrari logo fizeram seu pitstop. Uma volta antes, na parada de Webber, Reginaldo já havia identificado que “é um sinal claro de que vão a 3 paradas” e de la Rosa torcia por Hamilton – “parece que eles vão a 3, e nós só a 2”. O problema na Globo e, em menor escala, na La Sexta, foi identificar o pneu. Mas com Brundle e Coulthard, até sabíamos se o pneu já era usado ou não. A dupla, aliás, se surpreende ao ver Vettel no box antes de Hamilton. “Agora têm que esperar a degradação, e não o aval da equipe, então voltam no meio do tráfego”, explica Brundle. “É por isso que achamos que vai haver mais disputas”, completa Couthard, que só erra nas contas de perda no pitstop: insiste que é cerca de 28s, quando os gráficos da TV mostram de 22 a 24s. “Ao contrário do ano passado, quem para antes tem vantagem”, é a explicação de Burti.

O escocês está impressionado com a falta de utilidade da asa traseira móvel. “Quando elas abrem, não acontece nada”. Brundle raciocina: “a última curva aqui é muito complicada, o piloto que vem atrás perde pressão aerodinâmica e não entra tão colado.” O comentário é o mesmo na La Sexta. “A última curva é muito rápida. Sigo pensando que colocaram a zona no lugar errado”, diz de la Rosa. Ninguém reclama do sistema. “Corríamos na F1 com o turbo, também era um botão. Não há problema em usar tecnologia”, avalia Coulthard.

Na TV brasileira, lembram-se de Barrichello apenas na 21ª volta. “É legal a gente ver o Rubinho se divertindo na F1”, Luis Roberto insiste que os brasileiros não estão lá para competir. Logo, o piloto da Williams se encontra com Nico Rosberg e tira o alemão da prova. “Rubinho se empolgou, estava muito longe, às vezes acontece”, analisa Burti. Brundle aproveita a ocasião para alfinetar Couthard, que fez uma manobra semelhante em Wurz em 2007. “Parece tão maluco dentro do carro quanto na TV?” O escocês não compra a briga: “uma manobra um pouco desesperada do piloto mais experiente da F1.”

Nesse meio tempo, os espanhóis não paravam de evocar seus fantasmas de Abu Dhabi: ora era o medo de parar e voltar no meio do tráfego, ora a simples cena de Schuamcher abandonando já trazia lembranças do Safety Car que embaralhou as estratégias na última prova do ano passado. De tanto chamar ‘coisa ruim’, Alonso emergiu bem atrás dele, Petrov, aquele que “amaldiçoou sua existência em Abu Dhabi. Se bem que o problema não foi Petrov, foi dentro de casa”, lembra Lobato. De qualquer forma, os ingleses também não perdoam. “Alonso tem experiência em seguir Petrov”, diz Coulthard. “Só não tem muita experiência em ultrapassá-lo”, completa Brundle.

2011 Australian Grand Prix - Sunday Albert Park, Melbourne, Australia 27th March 2011. Vitaly Petrov, Lotus Renault GP R31.
Ninguém acreditava que Petrov faria uma corrida perfeita

O russo, aliás, é um dos destaques da prova, mesmo que Lobato, após afirmar que o piloto “não erra”, salienta que o Renault “anda muito”. Para Burti, Petrov “não  acusou o golpe” de andar na frente.

Os ingleses estão mais impressionados com Perez. “Os pneus dele não se desgastaram tanto. Será que os outros erraram?” questiona Brundle. Kravitz interrompe: “tenho que lembrar que a traseira desse carro é uma Ferrari (motor, câmbio, transmissão, Kers e suspensão). E, ao menos hoje, está cuidando melhor dos pneus.” Já Lobato chama a façanha do mexicano de “fenômeno paranormal”, enquanto Gené admite que a Ferrari “nem chegou a imaginar” fazer apenas uma parada.

Falando em estratégias, de la Rosa revela que os simuladores da McLaren apontavam “que o melhor era fazer 3 paradas, mas tudo tinha que sair perfeito”, enquanto Gené admite que, “se não fosse os problemas de Fernando na largada, provavelmente faríamos 2.”

A performance de Perez é uma decepção para Luis Roberto, que esperava “que os pneus derretessem”. Mesmo na volta 50, o narrador pergunta ao ar “todo mundo vai ter que parar de novo, né?”, ainda que Burti alertara, 13 voltas antes, que pilotos como Hamilton e Vettel não parariam mais.  “Só a degradação pode mudar alguma coisa nessa 10 voltas”, afirma de la Rosa, que emenda. “O imporante é que os pneus de Petrov acabem.”

Ter o piloto de testes da McLaren e da Ferrari comentando juntos, aliás, é uma experiência interessante. Gené via Alonso e Webber brigando pelo pódio, mas de la Rosa preferia enxergar Button brigando com ambos e o pódio definido. Eles também não entravam em acordo em relação à vantagem de se ter o Kers – e o quanto a Red Bull vai ganhar quando se livrar de seus problemas com ele: para o ferrarista, 0s6; para o funcionário da McLaren, 0s4.

Enquanto isso, Webber e Massa são os alvos prediletos. “Que corridinha do Massa”, despreza Lobato. “Foi uma das poucas vezes no final de semana que vemos Massa freando tarde sem bloquear os pneus”, observa Brundle quando o brasileiro ultrapassa Buemi.

Para de la Rosa, o mais impressionante (negativamente) “é o ritmo de Webber”. Segundo Reginaldo, “mais uma vez ele vai mal em casa. Ano passado foi a pior corrida do ano”.

Em dado momento, Lobato pergunta em quantos km/h é feita determinada curva. “Uns 245 se você tiver uma Red Bull e uns 220 para o resto”, responde de la Rosa. Não tinha mesmo como tirar a vitória de Vettel, ainda que o narrador tentasse ver o lado positivo  – “a boa notícia é que temos ritmo, só temos um ‘pequeno’ problema aos sábados, que é parar este senhor”. Os ingleses concordam, ao menos que o alemão soe como um senhor no rádio. “Parece um comandante quando, na verdade, só tem 23 anos. É uma das coisas que o faz especial”, observa Coulthard. “Como éramos com 23?”, pergunta seu ‘companheiro de equipe’ de transmissão Brundle. “Nem tinha começado meu primeiro GP!”, exclama o escocês.

Para quem chegou ao Faster neste ano e está curioso para saber como foram as transmissões do ano passado, os textos estão na categoria transmissões e nas tags abaixo.

Vettel alcança número de vitórias de Rubinho e Massa

Vettel red bull australia 2011 celebrations
Vettel venceu 9 GPs entre 2009 e 2010

Após 63 grandes prêmios disputados e apenas dois anos e uma corrida na Red Bull, Sebastian Vettel alcançou 11 triunfos, o mesmo número de vitórias que Felipe Massa levou 107 provas (e 3 anos de Ferrari) para conquistar – isso ocorreu no GP do Brasil de 2008 – e Rubens Barrichello, 281 GPs (6 anos de Ferrari e mais 13 corridas na Brawn) – seu último 1º lugar foi no GP da Itália, em 2009.

A marca do atual campeão do mundo é comparável à de Lewis Hamilton, que chegou à 11ª vitória em sua 49º prova, no GP de Cingapura de 2009, no 13º GP de sua 3º temporada pela McLaren. Hoje, o campeão de 2008 soma 14 primeiros lugares.

Hamilton, aliás, tem caminhado para superar a média de pódios de Schumacher. Os números relativos do alemão estão em queda livre desde que sua volta à F1 – de 61,6% para 57,0% em 20 GPs de “seca” – enquanto o inglês aparece com 51.4%.

Os ótimos números são reflexo direto da longa parceria com a McLaren. No GP da Austrália, Hamilton se igualou com Jim Clark, que correu apenas pela Lotus na F1, em número de eventos defendendo a mesma equipe, 72. A diferença é que o escocês demorou 9 temporadas para alcançar a marca. Ambos, longe dos 181 GPs de Schumacher com a Ferrari.

Voltando a Vettel, o alemão venceu 4 das últimas 5 corridas, sendo 3 em sequência – Brasil, Abu Dhabi e Austrália. Lembrando que, de 2000 para cá, quem viria a ser campeão venceu a prova de abertura da temporada 8 oportunidades, o piloto da Red Bull foi o primeiro dos que ostentavam o nº1 em seus carros a subir no degrau mais alto do pódio logo na primeira prova desde Alonso em 2006. Este foi o 20º pódio e a 16ª pole – com direito a recorde da pista, 1min23s529 – de Sebastian.

Mas a volta mais rápida ficou com Massa pela 13ª vez, algo que não acontecia desde Mônaco, em 2009.

Outro brasileiro que colocou seu nome nos recordes na Austrália foi Barrichello, ao iniciar sua 19ª temporada, superando a marca de Graham Hill.

Enquanto isso, Webber continuou sua sina negativa correndo em casa: repetiu pela 3ª vez um 5º lugar, seu melhor resultado na Austrália. O mesmo que obteve na estreia, em 2002, pela Minardi e em 2005 pela Williams.

Webber red bull australia 2011
Outro GP da Austrália para Webber esquecer: conseguiu o mesmo resultado com um Minardi e um Red Bull

O piloto foi, por muito tempo, estigmatizado pelo extenso currículo e a falta de vitórias. Mas, nesse quesito, ninguém supera Nick Heidfeld, que completou sua 175º prova sem conseguir um triunfo sequer. Ainda que seja difícil, mais 39 GPs e o alemão alcança o recordista Andrea De Cesaris.

O GP da Austrália também foi um dia de estreias. Com a punição a Perez, coube a Di Resta se tornar o 70º piloto a marcar pontos em sua primeira corrida. Curiosamente, quando Kubica fez seu primeiro GP (Hungria, 2006), também chegou em 7º e foi desclassificado. E, tecnicamente, correndo pela mesma equipe do mexicano, a BMW.

Outro que fez história foi Vitaly Petrov, primeiro russo a subir ao pódio na F1. Apesar do equilíbrio da disputa nos últimos anos, chegar entre os 3 primeiros é tarefa para um seleto grupo: o piloto da Renault é a primeira cara nova no pódio desde a vitória de Vettel no GP da Itália de 2008. Se ele é o primeiro piloto a dormir com o troféu, como disse que faria, já não dá para saber.

Estratégia: escolha dos compostos foi a chave

O GP da Austrália marcou o início do que deve ser uma revolução em termos de estratégia. Quando utilizavam o pneu à prova de balas da Bridgestone, a tendência era o piloto esperar pela queda de rendimento, mas principalmente por uma brecha 20 a 25s atrás de si. Com a alta degradação dos pneus Pirelli – mesmo que em Melbourne não tenha sido tão acentuada como se esperava – a ordem era parar assim que o pneu se desgastasse.

Isso se tornou chave porque, além da degradação ser abrupta e definitiva, fazendo o piloto perder muito tempo quase que de uma volta para a outra, a diferença de rendimento dos pneus novos é tão grande que as ultrapassagens são bem mais facilitadas que num passado recente. Um bom exemplo disso foi a rapidez com que Vettel se livrou de Button logo após sua parada.

Perez Peter Sauber Australia Melbourne 2011
Punição à parte, a estratégia de largar com os pneus duros de Perez é de se observar

A prova da Austrália teve 3 tipos de estratégia: 1 parada (apenas com Perez, que fez impressionantes 35 voltas com o pneu macio), 2 (a maioria) e 3 (Ferrari, Webber, Barrichello e Alguersuari). O mexicano e Trulli foram os únicos que largaram com os compostos duros. É evidente que é uma característica específica da Sauber ser suave com os pneus, mas o sucesso do mexicano, que terminou 6 posições à frente do que largou, deve fazer algumas equipes repensarem suas decisões.

Falando em compostos, o grande erro do dia foi apostar nos pneus duros nos stints da metade da corrida – dependendo da estratégia adotada, 2º ou 3º. Foi isso que arruinou a prova de Massa e Webber, pois o ritmo caiu muito em relação aos rivais neste período. Quando os demais calçaram o duro, ao final da prova, a diferença não foi tão acentuada.

Tomando como exemplo os pilotos da Ferrari, Massa perdeu cerca de 10s para Vettel nas últimas 10 voltas com pneu duro antes de seu 3º pitstop (a diferença subiu de 48s6 para 57s5). Enquanto isso, de pneus macios, Alonso descontou de 50 para 41s a vantagem do líder. É fato que a performance do brasileiro também não ajudou: em seu último stint, se manteve entre 86 e 85s da liderança – ainda que Vettel calçasse pneus duros e ele, macios. Já Alonso, também de duros, porém mais novos que do alemão e com uma maior necessidade de forçar, pois brigava com Webber e tentava chegar em Petrov, descontou mais 11s.

Muitos criticaram a estratégia da Ferrari. De acordo com o comentário do piloto de testes Mark Gené durante a transmissão da TV espanhola, foi uma opção circunstancial pois seus carros se envolveram em várias disputas logo de cara e tiveram que ser mais agressivos. Originalmente, parariam 2 vezes, como os demais. Também pareceu uma tentativa de evitar o pneu duro, que deu trabalho para Alonso e Massa em mais um final de semana em que tinham dificuldade em aquecer o composto. É preciso esperar algumas corridas para ver se isso será uma tendência.

Os compostos escolhidos por cada piloto

(veja quem fez o pit em cada volta aqui)

Piloto1º trecho2º trecho3º trecho4º trecho
Sebastian VettelMacioMacioDuro
Mark WebberMacioDuroMacioMacio
Lewis HamiltonMacioMacioDuro
Jenson ButtonMacioMacioDuro
Fernando AlonsoMacioMacioMacioDuro
Felipe MassaMacioMacioDuroMacio
Michael SchumacherMacioMacioMacio
Nico RosbergMacioDuro
Nick HeidfeldMacioMacioDuro
Vitaly PetrovMacioMacioDuro
Rubens BarrichelloMacioMacioMacioDuro
Pastor MaldonadoMacio
Adrian SutilMacioMacioDuro
Paul di RestaMacioDuroMacio
Kamui KobayashiMacioMacioDuro
Sergio PerezDuroMacio
Sebastien BuemiMacioMacioDuro
Jaime AlguersuariMacioMacioDuroDuro
Heikki KovalainenMacioMacio
Jarno TrulliDuroMacioMacio
Timo GlockMacioMacioDuro
Jerome d’AmbrosioMacioDuroDuro

O problema é que uma estratégia de 3 paradas só faz sentido se o piloto guiar no limite durante toda a prova, pois ele precisa descontar em tempo de volta cerca de 24s de perda por fazer uma parada a mais. E, para isso, quem planeja usar 4 jogos de pneu não se preocupa com economia. Porém, tanto Massa, quanto Webber pareceram ter tido dificuldade para fazê-lo.

Comparando as duas Red Bull, nas primeiras 9 voltas, Webber já perdeu exagerados 0s75 por volta. Naquele momento, após dois giros acima de 1min33 e um em 1min34s2 – no momento em que o companheiro fazia 1min32s5! – a equipe o chamou para os boxes, na volta 11. Assim que Vettel e Hamilton viraram acima de 1min33, pararam imediatamente. A diferença é que isso ocorreu 3 voltas depois para o líder, ou seja, Vettel teve cerca de 20% a mais de tempo de pista com o primeiro set que Webber.

Tentando evitar mais um stint curto devido à degradação que sentia, Webber optou pelo composto duro. Foram os tempos que fez durante esse período que o fizeram cair do 3º para o 5º lugar ao final da prova. Nas 15 voltas com o composto, viu a distância para Vettel aumentar de 16 para 25s5. Ao mesmo tempo, a diferença para o 4º colocado Petrov caiu de 5 para 2s e, para Alonso, de 13 para 3s da volta 10 à 25. Assim, perdeu a posição para o russo por fazer uma parada a mais, e para o espanhol, pelo ritmo ruim.

Jenson Button penalized Melbourne Australia 2011
Button estava na briga pelo pódio até o drive through

A tática só funcionou com Alonso: 9º ao final da 1º volta (o que deve ter sido fundamental para a escolha da estratégia, tendo em vista que o piloto teria que atacar), o espanhol fez 3 ultrapassagens cruciais em seu 1º stint, mas já perdia 10s em relação a Petrov antes da primeira parada. Logo que chegou num carro mais veloz que o seu, de Button, foi para o box. A demora da Renault chamar Petrov fez com que o russo perdesse sua vantagem em relação ao espanhol e saísse do pit bem a sua frente. Novamente preso, Alonso parou na volta 27 e, diferentemente do companheiro, optou por pneus macios, talvez para tentar passar Petrov, talvez já de olho em Webber, mesmo que isso significasse que fatalmente teria que fazer outra parada.

O bom rendimento dos 3 stints com pneu macio o colocou à frente de Petrov e na cola de Webber. Sua corrida, então, era com o australiano. A Ferrari marcou a parada da Red Bull e saiu na frente. O bicampeão ainda foi à caça do piloto da Renault, mas não chegou a tempo, cruzando a linha de chegada a 2s do russo. Levando em consideração o déficit inicial de 10s e os cerca de 24s de perda pelo pitstop a mais em relação a Petrov, não foi um mau negócio. Provavelmente, tivesse copiado a estratégia dos demais, chegaria em 5º.

KERS será mais fundamental para a Red Bull na Malásia

A Red Bull sobreviveu sem grandes traumas de um grande prêmio em que todo o domínio de seus carros poderia ter sido seriamente ameaçado na largada e nas primeiras voltas. Mesmo no sábado, essa era a grande preocupação da equipe austríaca. O motivo: Vettel e Webber lutariam contra o exército do Kers.

Lewis Hamilton ficou incrédulo quando, sentado ao seu lado na coletiva de imprensa após a classificação do GP da Austrália, Sebastian Vettel e Mark Webber afirmaram que não haviam utilizado o dispositivo durante a sessão. Mesmo assim, o alemão tinha assegurado a pole por incríveis 0s7 de vantagem.

Não demorou para começarem a surgir as mais escabrosas teorias, pautadas pela genialidade do projetista Adrian Newey. A que ganhou mais força foi do jornalista inglês James Allen, de que a Red Bull teria um sistema mais compacto, a ser usado apenas para as largadas. Por não precisar se recarregado durante as corridas, apenas nos boxes antes da prova, não necessitaria das pesadas baterias.

Largada do GP da Austrália 2011
Para sorte da Red Bull, as McLaren tiveram que se preocupar em defender as posições na largada

Os carros largaram e não havia nenhum sinal de uso do Kers na câmera onboard de Webber. Segundo a equipe, a questão é bem menos mirabolante: com problemas de confiabilidade, a Red Bull decidiu retirar o sistema de seus carros, confiante de que a superioridade de seu conjunto seria suficiente para bater os rivais. E foi, ao menos com Vettel.

O problema é que Newey não quis mudar o conceito do carro para equipá-lo com o Kers e o RB7 é tão enxuto que a equipe teve problemas para refrigerar o sistema. Isso reabre a questão de 2009: apesar do empecilho do peso, que desencorajou muitas equipes há dois anos, não fazer mais sentido, a adoção do aparato pode interferir na aerodinâmica. Num carro tão bom e compacto como o Red Bull, a dúvida é se os cerca de 0s3 por volta de ganho compensam o sacrifício.

Mesmo assim, haveria um momento em que os carros ficariam severamente expostos, como vimos em várias ocasiões em 2009, quando poucas equipes utilizavam o Kers: a largada. O entanto, ambas as McLaren, que estavam lado a lado com Vettel e Webber, largaram mal e só puderam ativar o sistema ao final da reta. Com isso, as posições da Red Bull foram salvas.

Albert Park sempre seria um circuito em que, largando das primeiras filas, o prejuízo de não ter o Kers seria menor, uma vez que a primeira curva é bem próxima da posição da pole, apenas 200m.

O cenário não poderia ser mais diferente para o próximo GP, na Malásia. Caso a versão de Christian Horner e companhia seja a verdadeira, eles não poderão se dar ao luxo de correr sem o Kers novamente.

GP da Austrália em dados: velocidades máximas

Maiores velocidades por setor

Setor 1Setor 2Setor 3 (linha de chegada)
1 Webber 276.0Sutil 292.8Button 304.8
2 Vettel 274.5Barrichello 291.3Alonso 299.3
3 Button 273.8Perez 291.2Kobayashi 297.3
4 Alonso 273.6Alguersuari 290.4Buemi 297.1
5 Alguersuari 273.3Buemi 290.2Massa 296.7
6 Perez 272.5Alonso 289.7Heidfeld 296.1
7 Massa 272.3Maldonado 289.3Barrichello 295.6
8 Kobayashi 271.6Webber 287.9Webber 295.4
9 Petrov 271.2Heidfeld 287.4Sutil 295.3
10 Buemi 270.7Massa 287.2Petrov 295.0
11 Barrichello 270.4Di Resta 286.7Hamilton 293.4
12 Sutil 270.0Petrov 286.3Di Resta 293.4
13 Hamilton 269.3Hamilton 286.3Vettel 293.3
14 Heidfeld 267.8Button 286.2Perez 292.9
15 Di Resta 267.3Rosberg 285.4Schumacher 292.6
16 Maldonado 266.7Vettel 284.8Alguersuari 291.1
17 Trulli 266.0Kobayashi 284.6Maldonado 288.3
18 Rosberg 263.9Kovalainen 283.9D’ambrosio 287.4
19 Schumacher 262.7Trulli 283.3Trulli 283.0
20 D’ambrosio 261.1D’ambrosio 282.8Glock 281.9
21  Kovalainen 259.0Glock 281.8Rosberg 281.9
22  Glock 258.1Schumacher 281.3Kovalainen 279.2

Ao contrário do que aconteceu na maioria dos circuitos no ano passado, ao menos na Austrália muitos carros equipados com motores Ferrari se colocaram entre os mais rápidos, invadindo o território dos Mercedes. Contudo, os propulsores alemães foram os líderes com Sutil e Button, deixando o reinado do setor 1 para a dupla da Red Bull, que não costumam liderar, ao menos este tipo de classificação.

Mas talvez a velocidade final não fosse tudo em Melbourne, visto que o segundo colocado, Hamilton, aparece nas posições intermediárias em todos os setores, assim como Petrov, que completou o pódio. Mesmo as Red Bull despencam nos setores 2 e 3.

Button Massa GP da Austrália 2011
Button teve diversas oportunidades de testar a asa traseira móvel

Velocidades máximas (final da reta)

1 J. Button313.4
2 S. Perez312.6
3 M. Schumacher309.7
4 A. Sutil309.5
5 F. Alonso309.1
6 P. Di Resta308.6
7 N. Heidfeld308.6
8 K. Kobayashi308.3
9 S. Vettel307.4
10 V. Petrov307.4
11 F. Massa307.4
12 M. Webber306.3
13 R. Barrichello305.9
14 P. Maldonado305.4
15 J. Alguersuari304.6
16 S. Buemi303.8
17 J. D’ambrosio301.0
18 L. Hamilton299.3
19 J. Trulli299.0
20 T. Glock296.8
21 N. Rosberg294.5
22 H. Kovalainen292.7

A comparação de Hamilton com seu companheiro e líder das velocidades máximas dá uma boa ideia da ajuda que o DRS, ou drag reduction system, proporciona: com o mesmo carro, de asa acionada, Button foi perto de 14km/h mais rápido.

Porém, não dá para cravar que esta seria a diferença. São vários fatores: a marca de Button foi obtida ás 17h45 pelo horário local, enquanto Hamilton fez a sua com bem menos combustível, às 18h16. Pelos horários, não é possível saber quais os pneus utilizados naquele momento e em que situação estavam. Ainda pode haver a influência do vácuo e do Kers no caso de Jenson – prova disso é que Webber, cuja melhor passagem coincide com a caça à Ferrari de Alonso, foi apenas 7km/h mais rápido que Hamilton, sem o Kers.

É mais um fator que ficará mais claro ao longo da temporada.

 

GP da Austrália em dados: 24 pitstops a mais que em 2010

hamilton gp da austrália 2011
Hamilton faz sua parada, uma das mais rápidas do dia
PilotoEquipePit 1Pit 2Pit 3
AlguersuariToro Rosso1/26.89817/24.46335/26.348
SchumacherMercedes1/25.02117/23.988
WebberRed Bull11/23.42626/22.52041/26.230
AlonsoFerrari12/23.25127/24.73342/24.181
MassaFerrari13/23.84231/24.50048/24.095
BarrichelloWilliams13/23.64323/37.85640/26.309
VettelRed Bull14/22.60336/24.036
Di RestaForce India14/24.86336/24.332
d’AmbrosioVirgin14/25.25938/26.446
BuemiToro Rosso15/25.34229/23.100
HeidfeldRenault15/22.99430/25.098
HamiltonMcLaren16/23.22736/23.199
PetrovRenault16/24.53536/25.683
RosbergMercedes16/23.716
KobayashiSauber16/24.06432/24.192
SutilForce India16/25.97837/23.871
TrulliLotus16/24.89937/24.848
ButtonMcLaren19/23.30337/22.681
KovalainenLotus17/24.865
GlockVirgin18/23.79219/8:56.552
PerezSauber23/23.438

*os drive through de Button, na volta 17 (16s867) e de Barrichello, na 28 (16s892), não foram contabilizados

Falaremos sobre as estratégias em si mais adiante na semana. Os tempos revelam a perda total nos boxes. Os 4 pitstops mais rápidos foram, não coincidentemente, dos carros mais velozes do final de semana, Red Bull e McLaren, ao passo que a Ferrari não trabalhou bem.

Outra curiosidade é observar a tendência de aumento do tempo de perda total quanto menos recursos a equipe tem. Enquanto as grandes trabalham, no caso da Austrália, numa faixa de 23s, as médias ficam em 24s e as nanicas, entre 25 e 26s. Prova de que até a contratação e o treinamento dos mecânicos que executam a troca é uma espécie de diferencial de performance.

Isso se torna ainda mais importante num ano em que os mecânicos devem trabalhar mais. Em comparação ao GP da Austrália do ano passado, mais movimentado que o normal devido à chuva, foram 24 pitstops a mais: 22 contra 46.

Os 37s856 de perda de Barrichello indicam algum tipo de problema para o brasileiro na segunda parada.

E, para os amantes das teorias da conspiração, vale observar que as paradas de Massa, Button e Webber foram, em geral, melhores que de seus companheiros “queridinhos”.

GP da Austrália em dados: voltas mais rápidas

As segundas-feiras seguintes aos GPs serão recheadas de dados aqui no Faster. Teremos as voltas mais rápidas, a disputa entre os companheiros para ver quem termina o ano com as melhores marcas no domingo, as maiores velocidades atingidas e uma tabela mostrando como cada piloto administrou suas paradas nos boxes, num ano em que a estratégia promete ser fundamental.

Durante a temporada, acompanharemos ainda a quantas anda o consumo das cotas de motores e câmbios. Será que alguém chegará no final do campeonato rezando para que a prova do Bahrein não seja realizada?

Melhores voltas do GP da Austrália

Massa Alonso Gp da Austrália 2011
Os dois últimos carros a fazerem suas paradas foram os mais rápidos do dia
PilotoEquipeTempoDif.Volta
1F. MassaFerrari1:28.94755
2F. AlonsoFerrari1:29.4870.54049
3M. WebberRed Bull1:29.6000.65350
4S. VettelRed Bull1:29.8440.89744
5J. ButtonMcLaren1:29.8830.93649
6S. PerezSauber1:29.9621.01539
7V. PetrovRenault1:30.0641.11755
8L. HamiltonMcLaren1:30.3141.36741
9K. KobayashiSauber1:30.3841.43751
10J. AlguersuariToro Rosso1:30.4671.52041
11S. BuemiToro Rosso1:30.8361.88944
12R. BarrichelloWilliams1:31.4042.45747
13A. SutilForce India1:31.5262.57955
14P. Di RestaForce India1:31.9412.99440
15N. HeidfeldRenault1:32.3773.43043
16J. TrulliLotus1:32.5503.60352
17N. RosbergMercedes1:33.5034.55621
18P. MaldonadoWilliams1:34.1025.1557
19J. d’AmbrosioVirgin1:34.5235.57644
20H. KovalainenLotus1:34.9185.97119
21M. SchumacherMercedes1:35.3196.37213
22T. GlockVirgin1:35.7896.84248

É claro que os dados são mascarados pelos diferentes momentos das trocas de pneus. Mas é interessante cruzar os dados dos pitstops com das voltas mais rápidas. Entre Vettel e Hamilton; Webber e Alonso, por exemplo, que tiveram estratégia similar, qual a diferença?

Os 0s540 de Massa para Alonso podem surpreender, mas, sabendo que a volta do espanhol, seis giros antes, foi com pneus duros, é de espantar. A comparação não é 100% válida, mas dá uma boa noção da diferença entre os compostos: na classificação, as Ferrari fizeram a primeira tentativa com pneus duros e giraram entre 0s7 (Massa) e 0s9 (Alonso) mais lentas que com os macios, que colocaram logo depois.

Luta entre companheiros pela volta mais rápida

Vettel0 x 1Webber
Button1 x 0Hamilton
Massa1 x 0Alonso
Schumacher0 x 1Rosberg
Heidfeld0 x 1Petrov
Barrichello1 x 0Maldonado
Sutil1 x 0Di Resta
Kobayashi0 x 1Perez
Buemi0 x 1Alguersuari
Kovalainen0 x 1Trulli
Liuzzi0 x 0Karthikeyan
Glock0 x 1d’Ambrosio

Asa e Kers não revolucionam, mas pneu mexe na estratégia

As regras podem ter sofrido alterações, mas o início de 2011 teve muito do final de 2010. Não apenas pelo domínio de Vettel, sempre perfeito quando larga na ponta, mas com a McLaren como segunda melhor equipe, Webber apagado e a Ferrari dependente de Alonso. Além, é claro, de Petrov atrapalhando a vida do espanhol e nos fazendo imaginar do que Kubica seria capaz com esse Renault.

Mas nem tudo é continuísmo. A diferença fundamental está nos pneus. Ainda que muita gente tenha esperado um caos, os sinais de que a entrada da Pirelli e sua abordagem mais agressiva foi bem-vinda são claros. Numa corrida sem a entrada do Safety Car ou a interferência da chuva, tivemos 3 tipos de estratégias entre os 7 primeiros colocados: enquanto os três primeiros pararam duas vezes – o que foi a regra entre a grande maioria dos pilotos – Alonso e Webber passaram por 3 vezes pelo pit.

Já o sucesso da opção de Perez, que largou com o pneu duro e pôde estender bem mais seu primeiro stint, deixará a porta aberta para alguém arriscar fazer o mesmo largando do top 10.

Ainda sobre pneus, a tão propagandeada superioridade da Ferrari em cuidar da borracha não se tornou realidade. Ainda assim, o melhor rendimento do composto macio permitiu que Alonso chegasse a 1s2 de Petrov, mesmo tendo completado a primeira volta 3 posições atrás do russo e perdido cerca de 25s com uma parada a mais. É outra opção de estratégia para se pensar. Apenas os carros vermelhos e Webber adotaram tal tática hoje. Massa variou a ordem dos compostos em relação ao companheiro e não se deu bem.

Button Massa australia 2011
Button saiu da briga depois que a briga com Massa acabou em drive through para o inglês

No quesito ultrapassagens, ainda não foi possível julgar a serventia da asa traseira móvel. Estava claro desde antes do final de semana começar que, na reta dos boxes da Austrália, seguida por uma chicane em que é difícil ultrapassar, ela não seria decisiva.

Percebemos ao menos que a asa não tornará as ultrapassagens fáceis demais. Sua função é mais de evitar que um carro bem mais rápido fique preso atrás de outro, algo que vinha acontecendo com muita frequência. E vimos isso, com Button e Massa, Massa e Buemi. É importante que a asa não seja tão boa que elimine as tentativas de manobras em outros pontos do circuito. E isso também não aconteceu. No entanto, a Malásia deve dar uma ideia melhor a respeito da novidade.

As surpresas, claro, foram Petrov e Perez, cuja estreia, colocando a Sauber nos pontos e chegando à frente do companheiro Kobayashi, pode ser comparada à de Hamilton em 2007, ainda mais levando-se em conta que o mexicano testou muito menos. Ambos os pilotos da Sauber, contudo, foram desclassificados após a checagem da FIA ter encontrado irregularidades na asa traseira do carro. A equipe vai apelar.

As próximas corridas mostrarão se o vice-campeão da GP2 em 2010 apenas se aproveitou da estratégia, mas o início foi bem mais positivo que os últimos exemplos que tivemos nestes tempos de restrição nos testes, como no caso de Hulkenberg, Petrov, entre outros.

Depois de muita especulação, nada de Kers nos carros da Red Bull. Assim como em 2009, quando disputaram com a Brawn mesmo sem o difusor tão desenvolvido, seus segredos permitem que a performance esteja lá mesmo sem o dispositivo.

Curiosamente, isso não fez tanta diferença na largada, que seria o momento mais frágil, mas era de se esperar que Webber conseguisse a ultrapassagem sobre Alonso caso tivesse o dispositivo.

Luta entre companheiros na classificação

Button0 x 1Hamilton
Schumacher0 x 1Rosberg
Vettel1 x 0Webber
Massa0 x 1Alonso
Barrichello0 x 1Maldonado
Heidfeld0 x 1Petrov
Sutil0 x 1Di Resta
Buemi1 x 0Alguersuari
Kovalainen1 x 0Trulli
Liuzzi1 x 0Karthikeyan
Kobayashi1 x 0Perez
Glock1 x 0d’Ambrosio

Diferenças hoje

Hamilton x Button: 0s472
Rosberg x Schumacher: 0s365
Vettel x Webber: 0s866
Alonso x Massa: 0s625
Maldonado x Barrichello: – (*)
Petrov x Heidfeld: 1s696
Di Resta x Sutil: 3s668
Buemi x Alguersuari: 0s221
Trulli x Kovalainen: 0s088
Liuzzi x Karthikeyan: 1s934
Kobayashi x Perez: 0s703
Glock x d’Ambrosio: 0s036
* Barrichello não marcou tempo no Q2

As disputas internas começaram mais ou menos como terminaram 2010, com Vettel, Hamilton, Alonso e Rosberg levando vantagem sobre seus companheiros, num sábado de diferenças gritantes, com destaque para os impressionantes 0s866 que o atual campeão do mundo impôs a Webber.

As surpresas do dia foram Petrov, na segunda classificação em que fica à frente de um companheiro em sua carreira na Fórmula 1, e d’Ambrosio, que estreou andando junto de Timo Glock.

Paul Di Resta também mostrou serviço, superando Sutil, enquanto Buemi colocou ordem na casa e passou para o Q3, ao contrário de Alguersuari. A Toro Rosso, inclusive, depois de amargar o corte no Q1 por diversas oportunidades em 2010, deu sinais de que é o time que mais evoluiu neste ano.

Kobayashi também mostrou serviço ao novo recruta Sergio Perez, e andou 0s703 mais rápido que seu companheiro.

Os pilotos já começaram a cuidar dos pneus hoje

Sebastian Vettel esteve, como dizem os ingleses, on a class of his own, absoluto em Melbourne. E sem usar o Kers! Mas a questão mais importante da classificação foi o manejo dos jogos de pneus. Para o treino que define o grid de largada e a corrida, os pilotos têm à disposição 3 jogos de pneus duros e 3 macios. Equipes grandes, como a Ferrari, decidiram sair com pneus duros no Q1 e acabaram tendo que voltar para a pista para se garantir – Alonso e Massa chegaram a ficar em 16º e 17º. Com a diferença de rendimento dos pneus, como o brasileiro descobriu, passando sufoco após perder a melhor volta com o composto macio, não dá para classificar com o duro.

Isso fez com que os pilotos chegassem ao Q3 com apenas um jogo de pneus macios novos – incluindo os que serão usados durante a corrida. Por isso e por sua dificuldade em aquecê-los, especialmente com a temperatura ambiente na casa dos 16ºC, a Ferrari decidiu fazer apenas uma tentativa. Mas nem isso ajudou os italianos. Quem chegou mais perto da Red Bull – ou de Vettel, uma vez que até Webber levou uma lavada incomum hoje – foi a McLaren. Curiosamente, com Hamilton, que andou em grande parte do final de semana atrás de Button. O vencedor dos últimos dois GPs na Austrália, no entanto, culpou o tráfego pela comunicação de rádio da equipe.

Vettel australian gp 2011
Vettel ficou quase 0s8 à frente de Hamilton - e sem usar o KERS

A manchete do Q1 foi a eliminação de Nick Heidfeld, sofrendo uma derrota para Petrov (9º na sessão) que Robert Kubica só levou uma vez em 19 GPs ano passado. É de se imaginar o que o polonês estaria fazendo com a Renault.

Outra surpresa foi a Lotus, a apenas 0s6 da Virgin e 2s atrás dos demais. E, no final das contas, Liuzzi ficou a dois segundos do concorrente mais próximo. Nada mal para quem ainda não havia dado uma volta cronometrada sequer.

Depois de passar boa parte da terceira sessão de treinos livres parado nos boxes por um problema no câmbio, Barrichello rodou no início do Q2 e ficou de fora do restante do treino. Seria a primeira das rodadas dos brasileiros, uma vez que Massa não ajudou nada a saúde de seus pneus no Q3 ao rodar logo na saída do pit.

O Q2 ainda traria algumas notícias que não são exatamente novidade. Di Resta já começou a colocar pressão em cima de Sutil, que errou em sua tentativa final e largará atrás do estreante; Alguersuari mais uma vez perdeu a disputa interna com Buemi – embora tenha evoluído bastante em classificações, seu ponto fraco, no final do ano passado; e Schumacher novamente ficou atrás de Rosberg, num dia em que a Mercedes prometia mais que um 11º e um 7º.

Melhor para Kobayashi, que colocou um mundo de distância em Perez para chegar ao Q3 pela Sauber.

O sábado de muitos erros e fritadas de pneus foi apenas o aperitivo para uma corrida em que estratégia e o cuidado com os Pirelli serão fundamentais, lembrando que muito da borracha utilizada por uns, destruída por outros, hoje será usada amanhã.

Treinos livres acabam com gostinho de Red Bull na frente

Mesmo com as McLaren na ponta, ver os pilotos da Red Bull numa tocada tão limpa pode levar a crer numa temporada sem graça, pelo menos na disputa pela ponta, mas um olhar mais atento aos tempos mostra que ao menos Alonso está mais próximo do que parece. Comparando as saídas de 6 voltas do piloto da Ferrari com as de Sebastian Vettel, temos: 1:29.436, 1:35.365, 1:28.819, 1:33.075, 1:27.958, 1:27.749 contra 1:30.154, 1:28.434, 1:34.009, 1:27.869, 1:27.739 e 1:28.065. Se estará perto o suficiente para ameaçar o time austríaco no domingo, depende de quanto jogo anda sendo escondido.

A perda de rendimento dos pneus não foi tão dramática quanto o esperado. Vettel fez um stint de 20 voltas em que os tempos variaram de 1:31:0 para 1:31:7, sugerindo, no máximo, três pitstops para a corrida. É impossível, no entanto, saber quanto combustível o alemão carregava – Webber, em 14 voltas, foi de 1:32.3 para 1.34.0. Os pilotos da McLaren se concentraram em saídas curtas na segunda sessão, e os Ferrari não passaram de 10 voltas seguidas.

Felipe Massa teve algumas saídas de pista nesta sexta-feira. O brasileiro admitiu que sofreu um pouco com os pneus duros, mas frisou que a equipe “testou tudo o que podia”.

Massa não foi o único a fazer incursões fora da pista. Com o Kers e a velocidade extra da asa traseira, vários pilotos cometeram erros nas freadas. Isso é ainda mais prejudicial nesse ano porque causa deformações incríveis nos pneus.

Chandhok crash australia fp1 2011
Quem exagerou mesmo foi Chandhok, logo na 1ª volta do dia

O brasileiro foi o que teve o pior desempenho entre os ponteiros com o pneu macio, com 1:26:7. A exemplo de Button e das Red Bull, conseguiu sua melhor marca na segunda volta lançada com o composto, enquanto Hamilton e Alonso fizeram o giro mais rápido na primeira tentativa.

As McLaren, por sua vez, se concentraram em saídas um pouco mais longas, de até 12 voltas, na primeira sessão, e não passaram de stints de 6 na segunda. Certamente não estão tão longe quanto se alardeava. O que deu para observar foi a tendência, em ambos os treinos, de Button manter um ritmo mais estável – e ligeiramente mais lento – que Hamilton.

Quem surpreendeu foi Barrichello na Williams (positivamente, inclusive se dizendo em ”lua de mel com o KERS”) e a Renault (negativamente). Curiosamente, os estreantes (à exceção de Maldonado), terminaram o dia à frente de seus companheiros, com destaque para Perez na Sauber.

A Hispania continua sem dar uma volta cronometrada sequer com o F111, enquanto a Virgin tomou 8s no primeiro treino, e 6s2 no segundo. Desse jeito, não larga no domingo, uma vez que ficou, em ambas as sessões, acima do limite de 107% – sua melhor marca ficou a 0s242 do limite e a cerca de 1s do concorrente mais próximo, a Lotus.

Treino livre 1

PilotoEquipeTempoDiffVolta
1º Mark WebberRed Bull1’26.8315/5
2º Sebastian VettelRed Bull1’27.1580.3272/5
3º Fernando AlonsoFerrari1’27.7490.9186/6
4º Nico RosbergMercedes1’28.1521.3211/6
5º Rubens BarrichelloWilliams1’28.4301.5995/5
6º Jenson ButtonMcLaren1’28.4401.6091/1
7º Lewis HamiltonMcLaren1’28.4831.6526/6
8º M. SchumacherMercedes1’28.6901.8596/6
9º Kamui KobayashiSauber1’28.7251.8942/2
10º Vitaly PetrovRenault1’28.7651.9345/5
11º Felipe MassaFerrari1’28.8422.0115/7
12º Nick HeidfeldRenault1’28.9282.0973/3
13º Adrian SutilForce India1’29.3142.4834/4
14º Sebastien BuemiToro Rosso1’29.3282.4974/4
15º P. MaldonadoWilliams1’29.4032.5727/7
16º Daniel RicciardoToro Rosso1’29.4682.6374/5
17º Sergio PerezSauber1’29.6432.8122/6
18º Nico HülkenbergForce India1’31.0024.1713/3
19º H. KovalainenLotus1’32.4285.5973/6
20º J. d’AmbrosioVirgin1’35.2828.4515/7
21º Timo GlockVirgin1’35.2898.4581/1

Treino livre 2

PilotoEquipeTempoDiffVolta
1º Jenson ButtonMcLaren1’25.8543/3
2º Lewis HamiltonMcLaren1’25.9860.1321/1
3º Fernando AlonsoFerrari1’26.0010.1472/3
4º Sebastian VettelRed Bull1’26.0140.1605/5
5º Mark WebberRed Bull1’26.2830.4294/4
6º M. SchumacherMercedes1’26.5900.7361/1
7º Felipe MassaFerrari1’26.7890.9354/4
8º Sergio PerezSauber1’27.1011.2476/6
9º Rubens BarrichelloWilliams1’27.2801.4261/1
10º Nico RosbergMercedes1’27.4481.5943/3
11º Jaime AlguersuariToro Rosso1’27.5251.6713/3
12º Vitaly PetrovRenault1’27.5281.6741/1
13º Nick HeidfeldRenault1’27.5361.6822/2
14º Sebastien BuemiToro Rosso1’27.6971.8431/5
15º K. KobayashiSauber1’28.0952.2413/3
16º Paul di RestaForce India1’28.3762.5223/3
17º Adrian SutilForce India1’28.5832.7291/1
18º P. MaldonadoWilliams1’29.3863.5321/1
19º H. KovalainenLotus1’30.8294.9753/6
20º Jarno TrulliLotus1’30.9125.0583/4
21º J. d’AmbrosioVirgin1’32.1066.2521/2
22º Timo GlockVirgin1’32.1356.28110/10

Os 5 campeões na pista e o grande momento da F1

A temporada que começa nesta madrugada já é histórica antes do primeiro carro entrar na pista em Albert Park. Afinal, é a primeira vez desde 1970 que o grid terá cinco campeões mundiais. Em 2010, Michael Schumacher, Fernando Alonso, Lewis Hamilton,  Jenson Button e Sebastian Vettel irão emular o que Jack Brabham, John Surtees, Denny Hulme, Graham Hill e Jackie Stewart fizeram há mais de 40 anos.

O encontro de cinco campeões mundiais na mesma geração diz muito sobre o atual momento da Fórmula 1. Após os anos de domínio absoluto de Schumacher, de 2000 a 2004, os dois títulos seguindos de Alonso, nos anos seguintes, deram a impressão de que uma nova dinastia se iniciava. No entanto, a partir daí, tivemos não apenas 4 campeões diferentes, como também vindos de equipes distintas.

Mais 4 figurinhas entraram neste álbum desde 2005

Depois do último título do espanhol, de Renault, Raikkonen ganhou pela Ferrari, Hamilton pela McLaren, Button pela Brawn e Vettel de Red Bull. Isso indica que as constantes mudanças de regras pela qual o esporte passou a partir de 2005, se não serviram para aumentar a emoção nas corridas na proporção esperada, ao menos chacoalharam o equilíbrio de forças entre as equipes. Quem imaginaria que Ferrari e McLaren, que haviam dominado os mundiais de 2007 e 2008, estariam tão longe da Brawn, nascida das cinzas da “ex-lanterna” Honda, no ano seguinte?

É lógico que o material humano não pode ser menosprezado. Talvez à exceção de Button, que necessita de um carro bem acertado para andar bem, todos os outros têm bala na agulha para colocar seus nomes entre os grandes. Isso explica porque tenhamos visto batalhas tão intensas, como os 4 pilotos na disputa pelo título ano passado até a última etapa, mesmo com diferenças de equipamento.

E essa boa safra de pilotos também não é coincidência. O período anterior ao domínio de Schumacher marcou, não somente um continuismo nas regras, como também a decadência de alguns campeonatos de F3 e, principalmente, da F3000.

A partir de 2005, com o nascimento da GP2, além de uma F3 Euroseries forte, começaram a pipocar nomes como Nico Rosberg, Lewis Hamilton, Robert Kubica, Sebastian Vettel, entre outros. Bem preparados e aportados por grandes empresas (Mercedes, McLaren, Renault/BMW, Red Bull), esses pilotos não demoraram para dar conta do recado na categoria máxima do automobilismo.

A boa notícia é que, ao contrário do que aconteceu naquele 1970, não se trata de um momento de transição entre duas gerações. Excetuando-se Schumacher, que tem mais dois anos de contrato, essa é uma turma que deve lutar por campeonatos pelo menos pelos próximos 5 ou 6 anos – no caso de Button e Alonso – e 10 anos – Vettel e Hamilton. A grande revolução de 2013 leva a crer que os regulamentos continuarão mutantes, portanto não é de se duvidar que esse recorde de número de campeões dividindo o grid seja quebrado em pouco tempo.

Massa Webber Nurburgring, Germany, Sunday 12 July 2009.
Massa e Webber estão de olho numa vaguinha nessa turma

Outra marca importante daquela época é o de número de campeões diferentes. De 1964 a 1970, o título mudou de mãos 7 vezes: Surtees, Clark, Brabham, Hulme, Hill, Stewart, Rindt. O mesmo se repetiu entre 1976 e 1982, com Hunt, Lauda, Andretti, Scheckter, Jones, Piquet e Rosberg, em outro encontro de duas eras.

Hoje, na prática, quem tem mais chance de se tornar o 6º elemento dessa turma, levando em consideração a expectativa em torno de seu equipamento, é Mark Webber, seguido de perto por Felipe Massa. Ambos têm a experiência e estão no lugar certo para almejar o título. Mas não são os únicos. Pensando a médio prazo, temos Rosberg e Kubica (dependendo, é evidente, de como o polonês voltará após o acidente de rali do qual se recupera) acumulando anos importantes em carros menos competitivos. Se darão conta do recado quando a pressão pelas vitórias chegar, é impossível dizer. Mas certamente terão muitos exemplos em que se espelhar.

De onde vieram e onde podem chegar os estreantes de 2011

Há 10 anos, integravam o time de estreantes ninguém menos que Kimi Raikkonen, Juan Pablo Montoya e Fernando Alonso – numa turma que incluía ainda o brasileiro Enrique Bernoldi. Apenas o último continua na categoria, mas os três certamente deixaram sua marca, seja pelo arrojo, pelas grandes vitórias, pelos títulos, pelas polêmicas, ou por um certo desprezo pelo circo, que acabou levando os dois primeiros para outros caminhos.

alonso raikkonen montoya bernoldi rookies 2001
Há 10 anos, estreavam nada menos que 2 futuros campeões do mundo

Neste final de semana, estream outros 4 pilotos: Pastor Maldonado, Sergio Perez, Paul Di Resta e Jerome D’Ambrosio. Será que algum destes um dia chegará ao título?

É impressionante como os tempos são outros. Raikkonen, principalmente, e Alonso são exemplos de uma geração que sofreu com a decadência das F-3 na época e andou muito pouco com monopostos antes de chegar na Fórmula 1. Contudo, quando chegaram, podiam testar muito mais – o espanhol estreou aos 19 anos, 2 depois de sair dos karts, sem fazer uma curva sequer num F1, mas, em 2002, fez um ano inteiro como piloto de testes, enquanto o finlandês só tinha 20 corridas no currículo antes do GP da Austrália de 2001, e de F-Renault!

Entre os estreantes de hoje, o menos experimentado é Paul Di Resta. Mesmo assim, o escocês já soma seis anos longe dos karts. Em contrapartida, a quilometragem dos novatos com carros de F1 é bem menor.

E, para quem diz que ser piloto de testes hoje não vale mais nada, é interessante observar que apenas Perez fez sua estreia durante os ensaios destinados a jovens pilotos, em Abu Dhabi, no final do ano passado. Maldonado andou pela primeira vez de F1 em 2004, pela Minardi, enquanto Di Resta e D’Ambrosio eram test drivers e participaram de algumas sessões de treinos livres ano passado.

Embora essas questões sejam complexas (como já discutimos aqui aqui e aqui), apenas Di Resta se afasta da imagem de piloto pagante. O mexicano Perez e o venezuelano Maldonado são bancados por gigantes de seus países de origem (a Telmex, do ramo de comunicações, e a petrolífera PDVSA, respectivamente). O belga D’Ambrosio é um dos pilotos da agência Gravity – um dos braços da Genni, proprietária da Renault – e pagou pouco mais de R$ 10 milhões pela vaga.

Em relação aos currículos, Di Resta e Perez são os que melhor fizeram a lição de casa até aqui. O escocês tinha como companheiro ninguém menos que Sebastian Vettel quando foi campeão da F3 Euroseries, em 2006; nos anos seguintes, correndo na equilibradíssima DTM, teve uma ascensão meteórica (5º no primeiro ano, com um carro defasado, depois 2º, 3º e 1º). Chega à F1 numa equipe que vinha em franca ascensão até o ano passado, quando sofreu com a saída de algumas peças-chave na engenharia; tem um companheiro que leva dinheiro à equipe e pode esperar muita pressão: a Force India precisa aproveitar qualquer chance que tiver de pontuar.

Vettel  Hamilton Di Resta f3 euroseries
Di Resta correu contra Vettel e Hamilton na F3 Euroseries, entre 2005 e 2006. Lewis ganhou o 1º round e o escocês, o 2º

Já Perez dominou completamente o campeonato da F3 Inglesa e levou o título em seu ano de estreia, em 2007, além, é claro, do vice na GP2 ano passado. Ao lado de Kobayashi, chega numa Sauber bem mais sadia financeiramente em relação a 2010.

Maldonado teve uma dura e longa fase de aprendizado na GP2 antes de tornar-se campeão, em 2010 (antes, foi 11º, 5º e 6º), ao passo que D’Ambrosio nunca brilhou (foi 11º em seu ano de estreia, 9º em 2009 e 12º no ano passado) na categoria que é o último passo antes da F1 e que já teve como campeões Rosberg, Hamilton e Hulkenberg.

O venezuelano provavelmente terá o melhor carro dos 4, um Williams, e um belo professor como companheiro de equipe. Rubens Barrichello, inclusive, falou bem do novato em entrevista ao TotalRace. Por sua vez, o belga estreia numa equipe que faz seu segundo ano, a Virgin, e tem em Timo Glock um companheiro experiente e consistente.

Saiba mais sobre os estreantes nos previews da temporada:

Pastor Maldonado
Sergio Perez
Paul Di Resta
Jerome d’Ambrosio

Marca de Alonso veste as TVs espanholas

Já discutimos diversas vezes por aqui o “alonsocentrismo” das transmissões da TV espanhola e as deformações que isso causa, mesmo que haja uma preocupação notável em utilizar a informação para cativar o espectador, relativamente novo para o esporte.

Não é de surpreender, portanto, a notícia de que a linha de roupas de Alonso, chamada FAster (gostaria de dizer que não sou patrocinada!), irá vestir a equipe de transmissões da La Sexta.

Isso já vem acontecendo, a partir dos testes e pré-temporada deste ano, na TPA, ou Televisíon del Principado de Astúrias, em sua cobertura automobilística.

O repórter Miguel Martínez, da TPA

A ideia da marca é semelhante ao projeto do Senninha aqui no Brasil. É algo relacionado ao piloto, não apenas restrito a roupas, mas que tem uma imagem própria, como explica a mensagem de divulgação desta parceria com as TVs. “Esta aliança convoca as multidões que se sentem identificados com o espírito de superação e a vontade de enfrentar qualquer meta que se apresente, e que no dia a dia dão tudo de si em seu trabalho, família, esporte.”

Os logos do FAster e da La Sexta, unidos

Seja qual forem os motivos os quais a marca pretende expor, a parceria escancara a parcialidade dos profissionais. Isso, aliás, é uma tradição do jornalismo esportivo espanhol, que não faz questão alguma de esconder o protecionismo em relação a seus ídolos – raramente, por exemplo, vemos uma matéria questionando o atual campeão da Volta da França de ciclismo Alberto Contador, que enfrenta um processo por doping. Na F1, também não chega a ser uma novidade. Os membros da La Sexta têm suas credenciais autografadas por Alonso.

Escancarar a torcida e fazer jornalismo esportivo em paralelo é o estilo espanhol, e muitas vezes o italiano. Há quem prefira um apoio mais velado. Há quem se distancie o máximo possível. A chave é entender cada uma das abordagens e tentar discernir o que é fato e o que é esperança.

Novidades de 2011: regulamento esportivo

Não são só os carros sofrem alterações neste ano. Várias mudanças foram feitas no regulamento esportivo. A grande maioria é a tentativa de correção de algo que não funcionou bem ano passado.

Mais poder aos comissários

Quando um piloto cometia uma infração esportiva, os comissários tinham 3 opções: drive-through, subtrair 10s do tempo total da prova ou tirar 10 posições no grid no evento seguinte. A partir de 2011, essas punições por tempo podem ser dadas na quantidade estabelecida pelos comissários, não necessariamente de apenas 10s; uma reprimenda (que, informalmente, já era usada); exclusão da prova ou até uma suspensão para a próxima corrida.

Dos acordos entre cavalheiros às regras

Hamilton e Vettel saíram com uma reprimenda desta disputa ano passado

Juntamente das punições mais duras, agora comportamentos dentro da pista cuja legalidade ou não era uma questão de acordo de cavalheiros, agora estão explicitadas nas regras. Ações como mudar de traçado mais de uma vez na defesa de posição, espremer o carro até que ele saia do circuito – determinado pelas linhas brancas – e mudanças anormais de direção serão punidas. O comportamento dos retardatários também ganhará atenção especial.

 

Maior segurança no pitlane

O pitlane agora pode ser fechado por questões de segurança. Quando isso acontecer, os carros só podem entrar nos boxes para reparos “essenciais e evidentes”. A “fila dupla”, à qual às vezes assistíamos na saída do pit, estão proibidas. Os carros deverão permanecer em fila indiana.

Limitações nos pneus

Esse assunto e como isso afeta as estratégias já foi tratado amplamente por aqui. O único adendo é que as equipes entraram em acordo com a FOTA para, em eventos selecionados, testarem compostos experimentais da Pirelli ou receberem um jogo extra de pneus prime (os mais duros disponíveis), para serem usados somente na sexta-feira.

Duração dos câmbios

O câmbio tem que durar por 5 provas consecutivas, ao invés de 4, como ocorria até o ano passado. Trocas antes disso só serão permitidas se o piloto não completou a corrida anterior. Isso faz com que a vida útil de uma caixa de câmbio tenha que aumentar de 2100 para 2625km. Apenas em 2011, os pilotos não receberão a punição prevista (perda de 5 posições no grid) na primeira troca.

Toque de recolher dos mecânicos

ferrari cingapura mecânicos 2010
Trabalhar de madrugada, agora, só em Cingapura

Todos os profissionais cujo trabalho esteja ligado à operação dos carros não pode entrar no circuito na madrugada. A regra fala em 6h de toque de recolher nas 10h que antecedem os primeiros treinos livres de sexta-feira e de sábado. Normalmente, isso quer dizer que ninguém trabalha da meia-noite às 6h na sexta e da 1h às 7h no sábado, pelo horário local.

A volta da regra dos 107%

É algo que retorna junto com as nanicas, que haviam sofrido um processo de extinção nos últimos anos e voltaram com a redução dos custos. No entanto, mesmo querendo um grid cheio, a F1 não tolera lentidão. Pilotos cuja melhor volta no Q1 for 7% pior que daquele que foi o mais rápido na sessão não largarão. Há exceções, em caso de “circunstâncias excepcionais”.

A queda das ordens de equipe

Todo o rebuliço do GP da Alemanha de 2010 certamente fez mal à imagem da categoria, mas ao menos serviu para que fosse retirado do regulamento o artigo 39.1, que proibia (mas sem definir os limites ou em que consistiam) as ordens de equipe. Presente desde 2003, o texto pouco foi respeitado pelas equipes. Porém, isso não quer dizer que esteja tudo liberado. O artigo 151c, sobre ações que prejudiquem o esporte, será usado para punir excessos.

Novidades de 2011: regulamento técnico

Não tem jeito. Todo ano, a FIA faz alguma alteração nas regras, ora numa aposta para tornar as corridas mais interessantes, ora para corrigir alguma brecha que as equipes tenham encontrado no ano anterior. O jeito é aprender tudo de novo a cada início de temporada. Para 2011, a entidade promoveu mudanças importantes, tanto no regulamento técnico, quanto no esportivo.

Hoje nos concentraremos mais nas mudanças técnicas, que prometem ser as principais novidades do ano.

Asa traseira móvel

asa traseira móvel renault f1 2011
Antes e depois da asa traseira móvel em ação

A FIA chama o novo dispositivo para ajudar nas ultrapassagens de sistema de redução de arraste (drag reduction system, ou DRS). Sua função é, basicamente, a mesma do duto aerodinâmico: flexionar uma das lâminas do aerofólio para gerar um ganho de velocidade nas retas. As diferenças são que a ATM será acionada por meio de um botão no volante, é item obrigatório a todos os carros e tem regras especiais de uso.

O aerofólio traseiro é composto de duas lâminas, sendo que a móvel é a de cima. O regulamento prevê que essa lâmina se curve (de uma hora para a outra, não pode ser lentamente) e se distancie em 50mm – equivalente ao tamanho de uma pilha AA – da outra. Isso forma um “corredor”, que reduz a resistência do ar e gera um ganho de cerca de 10km/h – o que varia de acordo com o circuito e o carro. Quando o piloto frear, a asa volta ao normal.

A novidade poderá ser utilizada a todo momento nos treinos livres e de classificação, mas tem restrições durante as provas.

Aos domingos, a FIA determinará uma zona de ultrapassagem – geralmente nas retas dos boxes, a partir de 600m do próximo ponto de freada – e esse será o único local em que a asa poderá ser utilizada.

Somente o piloto que está menos de 1s atrás do concorrente na tomada da curva anterior a essa zona pode acionar a asa nas corridas. Linhas pintadas no asfalto ajudarão a mostrar quando e onde isso ocorrerá. Neste momento, a FIA emitirá um sinal e o piloto verá uma luz acender em seu volante e, só assim, poderá acionar o botão. As transmissões também terão um aviso de que o procedimento está liberado.

Essas engenhosas regras para as corridas podem sofrer alterações durante a temporada. A ideia é evitar procissões como a do Bahrein – que originou o projeto – e de Abu Dhabi, sem tornar as ultrapassagens fáceis demais. É esperar para ver.

KERS

O sistema de recuperação de energia cinética volta mais atraente após a desastrosa estreia de 2009. O aparato capta a energia térmica gerada pela frenagem, a transforma em energia cinética e, consequentemente, potência para o motor. Com o aumento do peso mínimo do conjunto carro + piloto de 605kg para 640kg, o problema deixou de ser os quilos a mais. A batalha agora é distribuir as baterias de maneira que não comprometam a aerodinâmica, respeitando a distribuição de peso fixa, sobre a qual trataremos no item a seguir.

O piloto pode acionar o botão em qualquer momento da volta, mas apenas por 6,67s por giro. Sua maior valia é o torque nas saídas de curva e nas largadas.

Apenas as equipes que estrearam ano passado não usarão o KERS em 2011, por motivos financeiros.

Limite mínimo e distribuição de peso

Como dito anteriormente, o limite mínimo de peso subiu para 640kg, para que a adoção do KERS fosse vantajosa. Outra alteração é na distribuição de peso, fixada em 53.5% a 54.5% na traseira e 45.5% a 46.5% na dianteira. Como os pneus Pirelli são novidade para todos, a decisão de engessar, apenas neste ano, esses números, veio para prevenir mudanças na distância entre eixos durante a temporada, o que traria um gasto a mais.

Fim dos dutos aerodinâmicos e difusores duplos

difusuor duplo brawn 2009
O difusor duplo da Brawn em 2009 deu o que falar

Dois diferenciais de performance que causaram polêmica nos últimos anos e acabaram sendo permitidos pela FIA agora estão banidos. O difusor duplo, que Brawn, Williams e Toyota interpretaram como legal no início de 2009, e que devolveu grande parte da pressão aerodinâmica que deveria ter sido perdida com a drástica repaginação aerodinâmica pela qual os carros passaram ao final de 2008. Vale lembrar que as regras foram alteradas na época visando o aumento do número das ultrapassagens.

Outro artefato que é passado é o duto foi trazido pela McLaren no início de 2010. Como utilizava o piloto com uma espécie de apêndice aerodinâmico – ele tinha que tapar, com mãos ou pernas, uma entrada que direcionava o ar à asa traseira, provocando um efeito semelhante ao da ATM – ele gerou discussões e agora é ilegal.

Rodas mais presas

Depois de vermos várias rodas saírem voando em acidentes em 2010, as equipes terão que instalar uma segunda barra que resista aos impactos.

Como domar os pneus Pirelli?

O assunto principal desse início de temporada é a degradação dos novos pneus Pirelli. A empresa italiana seguiu à risca o que lhe foi pedido e produziu uma borracha que obrigará os pilotos a fazerem ao menos o dobro de pitstops em relação ao ano passado.

E não demorou para que os famosos conservadores de pneus, como Button e Heidfeld, aparecessem contando vantagem. Todavia, a julgar pelas descrições que os pilotos vêm dando sobre o comportamento dos novos compostos, há mais probabilidade de errar e detonar o pneu já nas primeiras voltas que de tirar vantagem com um estilo mais suave.

A sensação geral é de que, mesmo se adotar uma tocada mais suave, o pneu dura apenas 1 ou 2 voltas a mais. Como esta tocada seria mais lenta, não haveria grande vantagem. “Tentei guiar de forma diferente, digamos, 20% mais devagar, e isso lhe dá uma volta a mais”, garantiu Adrian Sutil. “O problema é que, depois de um certo número de voltas, o pneu acaba, não importa o que o piloto faça”, completou Sebastian Vettel.

Formula One Testing, Day 1, Barcelona, Spain, Tuesday 8 March 2011.
Identificar a hora de fazer a parada será a chave

Entender essa característica dos Pirelli citada pelo atual campeão mundial, de que o rendimento cai bruscamente de uma hora para a outra, promete ser a grande chave para o ano. “O piloto vai sentir a degradação antes que a equipe possa ver isso nos tempos. Então, creio que o piloto terá um papel fundamental em saber quando os pneus estão prestes a acabar. Se você tomar a decisão de parar uma ou duas voltas depois do que deveria, pode perder 5 ou 6s”, acredita Pedro De la Rosa, que atuou como piloto de testes da Pirelli. “O feeling de quando o pneu acabar será extremamente importante. Os pneus têm uma degradação linear até sofrer uma queda abrupta”.

É essa perda de rendimento que o piloto tem que pressentir e evitar a qualquer custo. “Você terá que perceber isso e já avisar a equipe que está entrando (para fazer o pitstop). Será interessante – não é só uma questão de ter os engenheiros olhando uma tela e decidindo quando você vai parar.”

Outro ponto imporante relacionado aos novos pneus é que eles obrigam a adaptar na maneira de pilotar. E quem o fizer primeiro – e melhor – leva vantagem, independente do estilo. “Com os Pirelli, não podemos frear tão forte. Antes, chegava ao final da reta e pisava com todas as minhas forças. Se faço isso agora, o mais normal é que os frite, principalmente os traseiros, como se tivesse puxado o freio de mão”, descreve Fernando Alonso. “A tração também piorou bastante. Quando antes saía de uma curva e pisava com o acelerador, era agressivo, mas este ano tenho que medir a pressão. Só piso fundo quando estiver na 3ª ou 4ª marchas. Tem que ser muito mais sensível.”

E possível reter a audiência 20 anos depois do último título?

Os dados do post de domingo sobre as realidades distintas vividas pelas emissoras que detêm os direitos de transmissão no Reino Unido e na Espanha levantam uma questão importante. Observando as médias históricas de ambos os países, vemos o óbvio estouro no interesse espanhol pela F1 a partir de 2004 e números de espectadores compatíveis, se não comparativamente melhores, mas o quanto dessa força será retida se o país não tiver um substituto à altura de Fernando Alonso? Como a emissora poderia remediar a perda anunciada?

Nós vivemos essa realidade por aqui após a morte de Ayrton Senna e a própria Espanha teve o exemplo do ciclismo com Miguel Indurain, nos anos 1990, que fez o esporte explodir no país, mas cuja aposentadoria causou uma queda vertiginosa nos números de audiência. Países como França na era pós-Prost e até a Alemanha, nesse hiato entre as glórias de Michael Schumacher e o surgimento de Sebastian Vettel, passaram por fenômenos parecidos.

Sobre a relação entre Senna e a audiência, transcrevo trecho de uma matéria da revista Veja de 3 de maio de 1994. “Em setembro de 1992, o diretor de mídia da agência McCann-Erickson, Loi Borjas, avaliou o apelo que o piloto tinha. Segundo o publicitário, no campeonato mundial de 1992, o pico de audiência foi de 24 pontos, quando o piloto inglês Nigel Mansell já havia conquistado o título de campeão. Nos momentos em que Senna estava bem, o pico era de 30 pontos. Ou seja, 6 milhões de telespectadores só tinham interesse em assistir à corrida por causa da performance de Senna.

Senna gp do brasil 1991
O apelo essencialmente patriota da Era Senna trouxe desdobramentos negativos

Uma pesquisa da agência de publicidade carioca J.W. Thompson, encomendada em 1988 para a Esso, uma das patrocinadoras da transmissão até 1991, demonstra que Senna era a grande estrela dos GPs. A audiência diminuía quando ele parava. No Grande Prêmio do Brasil daquele ano, por exemplo, a média da audiência às 13h45m, exato momento em que Senna ultrapassou Piquet e alcançou a quarta colocação, era de 40 pontos, tanto no Rio quanto em São Paulo. Quinze minutos depois, Senna foi desclassificado. A audiência caiu imediatamente para de 36 pontos. No final da prova, a audiência já havia baixado para cerca de 33 pontos.

Uma queda semelhante ocorreu no Grande Prêmio de Mônaco, realizado em 15 de maio de 1988, Senna estava em primeiro lugar às 10h45m. A audiência no Rio era de 21 pontos e em São Paulo de 24 pontos. Às 12h15m, Senna bateu e abandonou a pista. Nesse horário, o índice estava em 19 pontos no Rio e 24 em São Paulo. Quinze minutos depois, muita gente já havia desistido de assistir a corrida. A audiência despencou no Rio para 17 pontos. A diferença em São Paulo, terra do piloto, foi mais significativa. A audiência diminui para 15 pontos.

Esse fenômeno não aconteceu quando o piloto Nélson Piquet foi para o box e abandonou a mesma corrida. A desistência ocorreu entre as 10h45m e às 11h, quando o Ibope registrava uma audiência entre 24 e 26 pontos. A audiência permaneceu nos 26 pontos até 45 minutos depois da saída de Piquet”.

A grande variação no nível de interesse é, inclusive, um dos motivos pelos quais determinadas redes de televisão não investem em esportes menos tradicionais em seus países. Isto, é claro, acaba reforçando tal tradição e impedindo que outras modalidades encontrem seu espaço. Aí entramos na discussão da obrigação ou não das TVs serem mais informativas, algo que deveria ser forçado por meio dos contratos de concessão, mas nosso sistema as vê simplesmente como fontes de lucro e entretenimento facilmente digerível, fazendo com que qualidade e conteúdo sejam deixados de lado.

É normal que a F1 não tenha tanta audiência quanto nos dias de Senna, mas o fato dela ter caído, em média, pela metade, mesmo que ainda tenhamos pilotos no grid em grandes equipes por praticamente todos esses 20 anos desde o último título do país, deixa a impressão de que, tivessem cuidado melhor do produto e apresentado-o sob uma ótica mais ampla que da torcida, os resultados poderiam ser bem melhores.

massa alonso hockenheim 2010
O sentimento de que Massa "traiu a nação" em Hockenheim mostra o nível de compreensão gerado pela cobertura

Não é algo que acontece só por aqui. O GP de Abu Dhabi foi apenas o 2º em que a RTL, da Alemanha, passou dos 10 milhões de espectadores desde a 1ª aposentadoria de Schumacher. Os números são comparáveis aos da Espanha que, como vimos ontem, bateu o recorde com mais de 9 milhões de espectadores, e da Itália, país no qual a audiência da última prova do ano dobrou em relação ao ano passado, chegando a 10.6 milhões de pessoas, ou 50% de share.

Com Hamilton tendo menos chances, os britânicos não se animaram muito e os números de Abu Dhabi ficaram perto da média de 4 a 5 milhões de espectadores (5.3). Curiosamente, os números na França chegaram a 5.6 milhões, mas não superaram o GP de abertura da temporada, no Bahrein.

A comparação com o Brasil é difícil, pois aqui os números são divulgados em pontos de audiência. Eles têm permanecido entre 12 e 15 pontos, caindo para cerca de 8 nas provas disputadas de madrugada. Nenhum desastre, principalmente levando-se em conta o horário das provas. Mas a forte oscilação quando há um brasileiro na briga continua: o GP do Brasil de 2008 marcou 33 pontos de média. Será que nada desse público poderia ser retido para as demais provas?

Resta esperar que a concorrência ajude a melhorar o produto que recebemos por aqui. Comenta-se que a Record está preparando uma proposta milionária para tirar da Globo os direitos de transmissão a partir de 2014. Ao contrário dos problemas encontrados na Inglaterra pela emissora pública BBC, que arca com os custos da transmissão sem vender comerciais, a F1 está longe de ser uma barca furada por aqui. Para 2011, a Globo fechou cotas de patrocínio para a categoria no valor de R$ 60 milhões, aumento de 10% em relação ao ano anterior. Mesmo subaproveitado, é um produto com forte apelo.

20 anos do tri de Senna: Ayrton para o Leão e leva o 3º

Depois de um começo arrasador, Senna e sua McLaren tinham perdido terreno para Mansell e a Williams e a diferença na tabela, que já havia sido de 34 pontos, caíra para 8. Na 10ª etapa, no sinuoso Hungaroring, Senna começou a reação com uma vitória de ponta a ponta, aproveitando-se da dificuldade em se ultrapassar no circuito húngaro. Neste último post contando a história do tricampeonato do brasileiro, em parceria com o Café com F1, contaremos como aconteceu essa virada.

O GP seguinte, da Bélgica, marcaria a estreia de Michael Schumacher, substituindo Bertrand Gachot, que havia tido problemas com a polícia londrina após disparar gás num taxista. Spa foi o palco de mais uma vitória de Senna, que largou na pole, foi para 3º após os pitstops e herdou o 1º posto com as quebras de Mansell e Alesi. A performance de seu McLaren havia melhorado, com a introdução de um novo motor Honda, equipado com válvulas de altura variável, controladas eletronicamente.

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Na Itália, Senna mais uma vez largou na pole e caiu para 5º durante os pitstops, deixando o caminho livre para a vitória de Mansell. O brasileiro passou Schumacher, teve a 3ª posição entregue pelo escudeiro Berger e superou Prost na penúltima volta para ser 2º. A diferença no campeonato era de 18 pontos, faltando 4 etapas para o final.

A próxima seria em Portugal. Com as Williams dominando a prova, desta vez foi Patrese quem cedeu a posição a Mansell. Porém, o inglês teve um problema no pitstop e caiu para 17º. O “leão” se recuperou, mas recebeu bandeira preta pelo incidente nos boxes quando já era 6º. Coube a Senna marcar pontos importantes em 2º, atrás de Patrese.

No GP da Espanha, Senna largou em 3º, mas chegou à liderança após um rápido pitstop. O brasileiro deixara Berger passar para segurar Mansell, mas rodou e o inglês rapidamente chegou na cola do austríaco, que acabou abandonando. Senna ainda seria ultrapassado por Patrese e Alesi e chegaria apenas em 5º.

A performance foi ruim, mas a diferença já era confortável. Senna tinha 16 pontos de vantagem, com 20 em jogo. No GP do Japão, as McLaren fecharam a 1ª fila, com Berger se classificando, como nas últimas provas, à frente de Senna. O brasileiro repetiu a estratégia da Espanha, deixando Berger escapar e segurando Mansell, que precisava da vitória. Pressionado, o inglês rodou na 10ª volta e entregou o 3º título de bandeja a Senna.

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Na entrevista coletiva antes do último GP da temporada, o agora tricampeão criticou fortemente os dirigentes da categoria. Mesmo dois títulos depois, o homem que não aceitava perder não havia se esquecido de 1989. “Em 89, fui roubado feio pelo sistema e isso eu jamais esquecerei. Em 91, nós conseguimos um campeonato limpo, sem políticos. Foi um campeonato técnico e esportivo. Espero que isto seja um exemplo, não só para mim mesmo, mas para todos que competem na Fórmula 1 agora e no futuro também”. Ayrton não se intimidou com a advertência de um repórter, de que poderia ser sancionado pelo que estava dizendo. “Que se fodam as regras que dizem que não se pode dar opinião, que não se pode falar o que se está pensando, que não se tem autorização para dizer que alguém cometeu um engano, que alguém fez alguma coisa errada. Merda! Estamos num mundo moderno e somos pilotos profissionais”.

Senna reconheceu que batera de propósito em Prost na final de 1990. “Por quê? Por que eu causei o acidente? Porque se você se fode cada vez que tenta fazer seu trabalho de modo limpo e correto, se o sistema te fode, se outras pessoas tentam se aproveitar disso, o que se deve fazer? Ficar atrás e dizer obrigado, sim, obrigado? Não! Temos de lutar pelo que achamos que é certo”.

As declarações fizeram com que o dirigente Jean-Marie Balestre falasse em punir o piloto, mas mudanças políticas tinham dado muito poder ao presidente da FISA, Max Mosley, com quem Senna tinha boa relação.

Porém, era claro que o brasileiro tinha mudado bastante desde seu primeiro título. Continuava disposto a tudo para ganhar, mas já não tinha a mesma paixão por seu esporte. “Meus sonhos mais recentes são quase sempre ligados às corridas e à necessidade de ficar distante das pistas e dos carros. Sonho que estou fazendo um monte de coisas que me desligam do automobilismo”, disse, na época do 3º título. Seria o início de uma época particularmente frustrante para Ayrton.

O tricampeão foi se fechando cada vez mais com o tempo

Paralelamente, seu rival também passava por maus momentos. Depois de um campeonato mais que discreto e de ter chamado sua Ferrari de “caminhão”, Prost foi demitido antes de última etapa, na Austrália. Sob forte chuva, Senna venceu, numa corrida que não chegou ao fim.

O que terminaria naquele ano era uma página importante na história da Fórmula 1. Seria a última temporada em que Mansell, Piquet, Senna e Prost, que haviam monopolizado as disputas desde meados dos anos 1980, estariam juntos nas pistas. Piquet se aposentou da F1 ao final do ano. Prost tirou um ano sabático para voltar, ser tetracampeão em 1993 e pendurar o capacete. Mansell fez o mesmo, foi campeão em 1992, mudou-se para a Indy em 1993 e retornou por 4 provas em 1994, justamente na vaga deixada pela morte de Senna.

O que os analistas diziam sobre os testes há um ano

Ferrari na frente, Red Bull andando junto, McLaren e Mercedes um pouco atrás. Seria a previsão para o GP da Austrália, com base nos dados da pré-temporada? Não, é a reprodução do que os jornalistas estavam dizendo um ano atrás. E as apostas não mudam muito para este ano. Também, pudera. Uma história como a da Brawn/Honda, saindo do fundo do grid para chegar ao domínio total de uma temporada para a outra, é fato raro na F1, e é mais provável que isso aconteça após uma grande revolução nas regras. Portanto, as análises de pré-temporada não costumam ser muito entusiasmastes.

Ainda por cima, muitas vezes os resultados dos testes mascaram a realidade. Até a Jaguar já despontou como surpresa num passado não muito distante. É claro que os treinos dão indicativos. Poremos dizer com certeza que a Red Bull teve ensaios bem menos problemáticos que a McLaren. Porém, quando cada um está avaliando um aspecto do carro, faz pouco sentido ficar se debruçando sobre os tempos e determinar a exata ordem dos times.

A abordagem curiosa da McLaren nos testes agradou ano passado

Para refletir um pouco sobre tudo o que é escrito sobre os testes, resolvi dar uma passeada pelo que era dito há um ano. “As estatísticas mais óbvias apontam uma McLaren ligeiramente superior às demais”, dizia matéria do UOL. “O time que reúne os dois últimos campeões mundiais fez os melhores tempos de Jerez de La Frontera e Barcelona. Além disso, a McLaren também foi a equipe que mais vezes esteve entre as três melhores da sessão, com oito ‘pódios’, contra sete de Ferrari e Sauber, que ficam no segundo lugar no quesito.”

O melhor tempo da última sessão em 2010 fez com que a McLaren assumisse um papel que hoje é o da Mercedes: será que a evolução mostrada em Barcelona será suficiente para chegar nos rivais? “A sensação é que o time vai brigar por pole positions, mas ainda precisa evoluir um pouquinho para acompanhar o ritmo de corrida de algumas das principais rivais”, cravou a matéria do Tazio. Os ingleses estavam mais otimistas. “Não foi apenas a simulação de classificação de Hamilton que impressionou, seus long-runs também atraíram olhares invejosos dos rivais”, publicou o F1 Insight. O que se viu na primeira prova, no Bahrein, foi um time a 1s da Red Bull na classificação. Pode ter ganho 2 das primeiras 4 provas, mas de maneira circunstancial, não pela performance.

O curioso é que a Mercedes, há um ano, também prometia um extenso pacote que mudaria o carro da noite para o dia. E não foi o que aconteceu. Os analistas já duvidavam. “A preocupação é clara. Parece o retrato do fim do ano: carro confiável, rápido, mas que foi ultrapassado no desenvolvimento”, afirmou Téo José, em seu blog. “Ao contrário da McLaren, faltam alguns décimos de segundo para os ponteiros com o carro leve, mas o ritmo de corrida é bom”, apostou o Tazio. A desconfiança não era dividida pelos ingleses, que acreditavam nas palavras do heptacampeão, de que havia ficado otimista com os updates (como neste ano?). “Devem estar na disputa por vitórias”, definiu o The Telegraph.

Os analistas não acreditavam muito na Red Bull. Preocupavam-se com as quebras – que realmente atrapalharam Vettel no início de sua campanha – e com o ritmo de corrida. “Em termos de performance, o carro da Red Bull é um dos mais fortes no grid. Mas os problemas de confiabilidade preocupam. Se resolver isso, é candidata ao título”, dizia o Tazio. Há um ano, era a Ferrari o carro a ser batido. “Particularmente na mão de Alonso”, o F1 Insight já apontava. “O desgaste de pneus é um dos pontos positivos, a equipe está no geral um pouco à frente. Eu diria que é o carro mais equilibrado. Em classificação ainda precisa melhorar um pouco”, afirmou Téo José.

Como de costume, há otimismo em relação à Williams

Todos viam a Williams como candidata a surpreender – e o time começou a temporada com resultados piores que a Force India. “O time do Barrichello vai lutar para ser a quinta força. Pelo menos no começo do ano e, quem sabe, em uma corrida ou outra possa ser a quarta”, acreditava Téo José. Enquanto isso, a Renault que, de fato, foi essa 5ª e eventual 4ª força no campeonato, estava desacreditada. “Kubica é um grande piloto, mas pela pré-temporada parece que esse será mais um longo ano para o time de Enstone”, dizia o Telegraph.

Para encerrar, num sintoma clássico de alarme falso de testes, o jornal inglês dá a maior bola fora de todas. “A Sauber poderia fazer alguns pódios se tudo funcionar”.

Mas, se mesmo depois de tudo isso você não resistir dar uma olhada nas previsões, recomendo pelo menos um pouco de humor britânico com Sniff Petrol.

20 anos do tri de Senna: o histórico GP do Brasil de 1991

E neste penúltimo dia do especial sobre o 3º título de Ayrton Senna na F1, feito em parceria com o Café com F1, é hora de lembrar do Grande Prêmio do Brasil. Não teria como deixar aquela corrida passar em branco, considerada uma das mais importantes e emocionantes na vida do piloto.

Uma das imagens míticas de Senna é a do pódio do GP do Brasil

A história começa pelos treinos classificatórios. Com a pista úmida, o brasileiro dominou o primeiro treino e a primeira qualificação. Sim, naquele tempo eram duas sessões, uma na sexta-Feira e outra no sábado e os tempos combinados entre elas definiam o grid de largada. Mas no sábado Interlagos amanheceu com um sol forte e as Williams cresceram. Nigel Mansell e Riccardo Patrese fizeram dois belos tempos e ficaram com a primeira fila.

No entanto, quem viveu a época Senna lembra que ele gostava sempre de ir para a pista no último segundo, para ser o último a completar uma volta, que geralmente era a mais rápida. E naquela tarde em São Paulo não foi diferente e lá foi o piloto da McLaren para sua volta salvadora. Usando cada milímetro da pista, Senna conseguiu o que parecia impossível e marcou a pole position.

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Na corrida, o brasileiro manteve a ponta enquanto Mansell deixava para trás Patrese e ia para cima de Senna. Mas o piloto da McLaren resistiu com bravura às investidas do “Leão” e em determinado momento até conseguiu abrir uma pequena vantagem. Na volta 25, o inglês foi obrigado a fazer uma parada prematura nos pits por causa de um pneu furado. Mas depois que todos pararam, ele voltou para a segunda posição e muito mais rápido que Ayrton Senna.

Mansell foi então à caça do brasileiro, mas, na volta 59 acabou rodando na pista devido a um problema no câmbio e abandonou. Senna liderava a prova com uma imensa vantagem para Patrese, o segundo colocado, e a prova encaminhava para o fim. Não poderia ser melhor para o piloto, que parecia que enfim venceria a corrida do Brasil depois de bater na trave várias vezes. Mas a sorte virou e o McLaren do piloto começou a apresentar problemas.

Primeiro ele perdeu a terceira e  a quarta marchas, o que começou a exigir dele um esforço extra para controlar o carro e já havia o feito perder 3s para Patrese. Mas assim que conseguiu se virar com a situação, duas voltas depois, a quinta também falhou. Ficou só com a sexta velocidade e não olhou mais a placa que lhe mostrava a diferença para o segundo colocado, só acelerou.

Mesmo com muitas dores e achando que não seria possível vencer, Senna se superou e em nome do sonho de vencer em casa, deu um jeito de se virar e foi levando. E se como perder as marchas não fosse o bastante, começou a chover no circuito. Ficou dramática a vida do piloto, pois se já estava complicado reduzir a velocidade nas curvas, reduzir com a pista molhada era inimaginável. A chuva aumentou e a direção de prova decidiu encerrar a prova.

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O esforço foi tão grande que o Senna teve que se resgatado pelo Safety Car, pilotado por Wilson Fittipaldi, para retornar aos boxes. Na chegada ao pit lane, o piloto vê o pai dentre as várias pessoas que o cercavam e gritou para que se aproximasse. Quando chegou perto do pai, Senna desabou no ombro dele e pediu um beijo. No pódio, faltou força para levantar o troféu, devido aos espasmos musculares que sentiu no fim da prova.

“Só voltei à realidade quando vi a bandeirada. (3s à frente de Patrese). Aí senti um imenso prazer em viver, em estar em Interlagos, na minha terra e vendo a minha gente feliz. Não foi a maior vitória da minha vida, mas foi a mais sacrificada.”

Há quem considere a façanha impossível e fique procurando algum sinal nos vídeos onboard. O fato de o piloto reduzir para pegar sua bandeira do Brasil com um fiscal seria a prova de que o carro não tinha tantos problemas, mas o sofrimento estampado no rosto de Senna naquele pódio vale mais que mil palavras.

Foi uma corrida de gigante, uma vitória de gênio, que o engrenou para a conquista do tricampeonato.

20 anos do tri de Senna: Ayrton começa arrasador, mas Mansell encosta

Nada menos que 19 times e 41 pilotos competiram durante aquela temporada de 1991, cuja história começamos a contar hoje no especial dos 20 anos do tricampeonato de Ayrton Senna, feito em parceria com o Café com F1. Os cinco menores times tinham que enfrentar uma pré-classificação. Inicialmente, eram Jordan, Dallara, Modena, Fondmetal e Coloni (as duas últimas corriam com apenas 1 carro!). Como os três primeiros tiveram bons resultados, foram promovidos, deixando a pré-classificação para AGS, Footwork e ex-campeã do mundo Brabham. Eram 34 carros competindo por 26 lugares no grid. A Jordan, que fazia sua estreia depois obter títulos nas categorias inferiores, acabou sendo a grande surpresa do ano – e ainda deu a 1ª chance a Michael Schumaher.

Naquele ano, houve uma mudança na pontuação. O vencedor levaria 10 pontos, um a mais do que antes, aumentando a diferença para o 2º colocado, que seguia ganhando 6. E todos os resultados contariam – até 1990, somente os 11 melhores valiam para o campeonato.

O cenário estava aberto quando o ano começou, no GP dos Estados Unidos. As atenções ainda estavam voltadas ao duelo entre os rivais Ayrton Senna e Alain Prost, devido ao controverso final da temporada anterior, e a Ferrari apareceu bem nos testes de pré-temporada. No entanto, Senna e a McLaren tiveram uma arrancada arrasadora, com 4 poles e 4 vitórias nas 4 primeiras corridas, enquanto aquele que viria a ser seu principal rival pelo título, Nigel Mansell, abandonou as 3 primeiras etapas. Uma delas foi o GP do Brasil, mas esta é uma história para amanhã. Outra foi no GP de Mônaco, de ponta a ponta. “Há pouca coisa que o estouro da champanhe da vitória não cure”, disse um exausto Senna após a prova, com a mão em carne viva após as 3.120 trocas de marcha feitas durante a corrida.

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Mansell voltara para a Williams depois de uma passagem desastrosa pela Ferrari. O “leão”, então com 37 anos, havia anunciado a aposentadoria, mas foi convencido por Frank Williams de que teria um carro vencedor. A equipe, que também contava com Riccardo Patrese, estava desenvolvendo seu sistema de suspensão ativa e o câmbio semi-automático, obra de Patrick Head e do jovem projetista Adrian Newey, mas ainda não dominava a tecnologia.

Quem substituiu Mansell na Ferrari foi a revelação Jean Alesi, que, junto do companheiro Alain Prost, teve que lidar com uma frágil Ferrari.

A Williams só mostrou seu potencial na 5ª etapa, no Canadá, e fechou a primeira fila. Seria uma vitória tranquila e bastante lucrativa para o campeonato, uma vez que Senna abandonou com uma falha no alternador. Mas Patrese teve um pneu furado e Mansell, saudando a torcida na última volta, fez com que os giros do motor caíssem demais e o propulsor apagou. A trapalhada deu a última vitória da carreira a Nelson Piquet.

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Mas já ficara claro que as Williams haviam encontrado sua forma. Com uma dobradinha no México, e vitórias de Mansell na França – após grande ultrapassagem sobre Prost, que corria em casa – e na Inglaterra, quando Senna arriscou colocar menos combustível para tentar chegar no inglês e acabou parado na pista com uma pane seca, cena que se repetiu na Alemanha, embolaram o campeonato. “Se não estivermos em igualdade técnica com os Williams em três corridas, o campeonato estará perdido”, alertou Senna. A grande vantagem dos rivais era o câmbio semi-automático. Como as equipes ainda não conseguiam 100% de confiabilidade com a novidade, a McLaren optara por continuar usando a opção manual. “Parece que o Mansell acelera um motor turbo e eu um aspirado”, reclamou o brasileiro. Outra diferença era que o motor V12 Honda, da McLaren, era 21kg mais pesado que o Renault.

Passada a metade do ano, Senna tinha 51 pontos contra 43 de Mansell. A Williams se mostrava superior e a McLaren tentava, desesperadamente, encontrar uma forma de bater o rival. Para piorar a situação do brasileiro, enquanto Patrese lhe tirava pontos, seu companheiro, Gerhard Berger pouco contribuía. Era preciso reagir na 2ª metade da temporada, sobre a qual falaremos na sexta-feira.

20 anos do tri de Senna: quem eram os rivais

Dando sequência ao especial sobre os 20 anos do tricampeonato de Ayrton Senna, feito em parceria com o Café com F1, é hora de relembrar quem eram os grandes rivais do brasileiro naquela conquista. Para falar a verdade, até o torcedor mais crítico de Senna deve ter imaginado naquele início de temporada que o piloto levaria o título com “os pés nas costas”, tamanho foi o domínio apresentado. O piloto e a McLaren simplesmente venceram as quatro primeiras provas da temporada, mas no decorrer do campeonato apareceram alguns rivais para dificultar a conquista do brasileiro.

senna mansell carona go da inglaterra 1991
Senna pegando uma carona com Mansell depois de abandonar em Silverstone

Os principais

Nigel Mansell: O inglês partia para a 11ª temporada na Fórmula 1 e continuava devendo um título. Depois que bater na trave em 1986 e 87 e de ter uma passagem desastrosa pela Ferrari, ele estava de volta à Williams, que contava com um super carro empurrado pelos potentes motores Renault. Não teve um belo início de temporada, mas chegou ao fim disputando o título.

Alain Prost: depois de expulsar Mansell da Ferrari em 1990, passou a ser a principal aposta da equipe italiana para lutar pelo título e tirá-la da fila que completava 10 anos naquela temporada. Mas o carro não era confiável e o piloto somou uma porção de quebras durante o ano. Com a velha mania de disparar contra todos, o francês acabou se dando mal na Itália, pois ninguém critica a Ferrari e continua na equipe para contar a história. Foi demitido e anunciou o fim da carreira. Voltaria em 1993 para ganhar o tetracampeonato.

Ricardo Patrese: o italiano tinha ainda mais tempo de estrada do que Mansell, pois entrou para a Fórmula 1 em 1977 e, antes de chegar à Williams, passara por Shadow, Arrows, Brabham e Alfa Romeo. Todos esperavam que ele seria rebaixado a escudeiro de Mansell, mas, durante a temporada, mostrou que estavam equivocados e chegou até a vencer prova depois de ultrapassar o Leão nas últimas voltas. No entanto, matematicamente fora da disputa, acabou ajudando o companheiro na briga contra Ayrton Senna.

Mansell, Patrese Senna GP do México 1991
Mansell, Patrese e Senna no pódio do GP do México

Os coadjuvantes

Nelson Piquet: o brasileiro da Benetton não tinha o carro ideal nas mãos, para comprovar o talento que já havia demonstrado outrora, mas mesmo assim andou sempre no pelotão da frente e chegou a vencer corrida.
Jean Alesi: depois de despontar com uma grande promessa na temporada anterior pela Tyrrell, foi contratado pela Ferrari, mas não manteve o mesmo brilho que havia demonstrado em 1990.

Michael Schumacher: apesar de estrear do meio para o fim da temporada, o alemão terminou na zona de pontuação na metade das provas que disputou, dando mostras do que viria nos anos seguintes. Outro estreante daquele ano foi Mika Hakkinen, correndo pela já cambaleante Lotus.

Nos próximos capítulos, mostraremos como foi a disputa do campeonato e as histórias daquele marcante GP do Brasil de 1991.

Vettel fica em casa e Hamilton se prepara para novos saltos

A imprensa italiana até que tentou armar um estardalhaço tirando de contexto as declarações de Sebastian Vettel para alimentar boatos de que o alemão poderia ir para a Ferrari num futuro próximo, mas a Red Bull se mexeu e anunciou hoje a renovação do contrato do atual campeão mundial até o final de 2014.

Isso pouco surpreende. Afinal, a Red Bull tem o melhor carro desde meados de 2009 e não dá sinais de que seu domínio corre risco de terminar logo. O próximo grande pacote de mudanças acontecerá em 2013 e, até lá, a base que começou com o RB5 deve prevalecer.

Ainda por cima, ao não transformar Vettel em segundo piloto nas últimas corridas de 2010, mesmo tendo Mark Webber em condições bem mais favoráveis de conquistar o título, a equipe mostrou seu total apoio ao alemão, que tem motivos de sobra para se sentir em casa ao lado da empresa que o apoiou desde os tempos de kart, em 1998.

vettel 2000 karting
A Red Bull forjou a carreira de Vettel desde 1998

O anúncio, ainda antes do início da temporada 2011, serve para acalmar os rumores que começavam a brotar sobre uma possível ida à Ferrari, uma vez que o contrato de Vettel terminaria ao final desde ano – com uma opção para 2012. A boataria ganhou força depois que declarações do atual campeão do mundo foram mal interpretadas. Perguntado por qual equipe gostaria de guiar caso não pudesse estar na Red Bull, o alemão de 23 anos respondeu, com seu tom brincalhão, que “pagaria férias a Alonso ou Massa para guiar seus carros”. Nada de outro planeta, tendo em vista que os italianos disputaram o título até o final em 10 dos últimos 12 anos. Mas a imprensa italiana resolveu interpretar isso como se Vettel estivesse se oferecendo para correr pela Scuderia, ainda mais agora que o futuro do antes preferido para o cockpit vermelho, Robert Kubica, é incerto.

Além disso, a Mercedes era outra equipe à qual o nome de Vettel era ligado, em virtude da nacionalidade.

Por outro lado, o alvo das especulações na Red Bull volta a ser Mark Webber. O australiano teve seu contrato renovado por mais uma temporada em meados de 2010 e, aos 36 anos (completa 37 em agosto), tem que conviver com os boatos de aposentadoria. Webber já se indispôs com a equipe ao final do ano passado, ao dizer se sentir “emocionalmente prejudicado” em relação ao companheiro. Continuar na mesma linha pode deixá-lo de mãos abanando em 2012.

Numa outra notícia muito interessante sobre o futuro de outra grande – e jovem – estrela da F1, Lewis Hamilton deu um passo gigante no caminho de se tornar um popstar ao se associar ao empresário Simon Fuller. Explico melhor a história no PodiumGP.

20 anos do tri de Senna: a construção de um mito

A obstinação e o desejo de vencer acima de tudo dentro das pistas, mesclados com uma imagem frágil e uma fé inabalável fora delas fazem de Ayrton Senna um dos pilotos mais admirados da história da F1. Naquele 1991, todos já sabiam o que teriam pela frente quando viam aquele McLaren vermelho e branco, com o capacete amarelo ao centro: fosse em termos de velocidade pura, em uma volta lançada, fosse disputando roda com roda por posição nas corridas, era osso duro de roer.

Como a grande maioria dos pilotos, Senna começou ainda criança no kart, conquistando 6 títulos entre brasileiros e sul-americanos, sendo que uma de suas grandes frustrações foi nunca ter sido campeão mundial. Estreou na Fórmula Ford 1600 em Brands Hatch, em 1981, com um 5º lugar. Na prova seguinte, foi 3º e, 15 dias depois, venceu sua primeira corrida em monopostos, no que seria o início de uma carreira recheada de recordes na F-Ford, inglesa e europeia. Em 1983, estreou na F3 batendo o então prodígio inglês Martin Brundle de maneira controversa, mostrando a agressividade que seria seu cartão de visitas na F1.

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O brasileiro chegou a testar com equipes grandes, mas estreou na categoria pela modesta Toleman, em 1984, marcando seus primeiros pontos logo na 2ª corrida, na África do Sul. Mas foi uma performance em Mônaco, debaixo de chuva, que deu notoriedade ao tímido garoto, então com 24 anos. Largando em 13º, foi abrindo espaço até ultrapassar Niki Lauda pelo 2º lugar na volta 19 e ir à caça de Alain Prost pela vitória. Ayrton chegou a passar Prost, mas a prova havia sido interrompida e valeu a ordem da volta anterior, por questões de segurança. Não faltariam oportunidades de vingar o triunfo negado.

O piloto deu seu primeiro salto na carreira ao assinar com a Lotus para a temporada seguinte. Ainda não era um carro para lutar pelo título, mas Senna pôde, ao menos, mostrar à concorrência duas daquelas que seriam suas marcas registradas: colecionar pole positions e dominar corridas no molhado. Em sua primeira vitória, logo na 2º prova do ano, em Portugal, obteve o que apenas 21 pilotos conseguiram até hoje: um grand chelem (pole, volta mais rápida e vitória liderando todos os giros), com direito a uma volta de vantagem sobre o 3º colocado. O ano de 1985 ainda resultaria em mais 6 poles, mais 2 melhores voltas e outra vitória, na Bélgica. Mais 8 poles e 2 vitórias marcaram a temporada seguinte e, em 1987, finalmente venceria seu primeiro GP de Mônaco, cena que se repetiria outras 5 vezes.

Terceiro colocado no campeonato daquele ano, Senna foi contratado para ser companheiro do então bicampeão mundial Alain Prost. Começou sua carreira na McLaren com uma pole position no GP do Brasil. Após uma pane na largada, fez uma prova de recuperação e foi desclassificado quando estava em 2º. Curiosamente, teve que esperar até 1991 para vencer na terra natal pela primeira vez.

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Num ano em que o duelo se polarizou apenas entre as duas McLaren, que venceram 15 das 16 provas, Senna emplacou uma forte sequência de 6 vitórias em 7 provas na metade do campeonato e levou a melhor sobre Prost por 3 pontos, dando início a uma das maiores rivalidades que a F1 já viu. A conquista foi suada. Senna fez a pole, mas o carro morreu na largada, o que o levou à 14ª posição. Foi ultrapassando um a um até vencer o GP do Japão e se tornar campeão pela 1ª vez. “Quanto mais difícil, melhor, mas não achei que tinha que passar por este sofrimento todo. Só Deus sabia que seria tão duro. Mas agora que acabou acho que foi melhor assim. Guiei o que podia e o que não podia. Foi a corrida da minha vida”, disse na época, num claro exemplo de frase de efeito sennista, alguém que soube usar a mídia como poucos. Fora das pistas, teve um bate-boca com Nelson Piquet por meio da imprensa, marca de uma rivalidade que sobrevive até hoje.

No ano seguinte, Prost conseguiria a revanche e o tricampeonato, mas o clima dentro da equipe havia se tornado insustentável. O acidente entre os dois e a consequente desclassificação no GP do Japão decidiu o campeonato e colocou Senna contra os dirigentes da época, particularmente o francês então presidente da FIA Jean Marie Balestre. Já Prost acreditava que Senna era privilegiado na McLaren e arriscou uma mudança para a Ferrari, que não era campeã havia 10 anos.

Isso não acabaria com a rivalidade dos dois, que disputaram palmo a palmo o campeonato de 1990. Senna chegou à penúltima prova do ano com chances de ser campeão. Revoltado com a posição do pole, que não lhe daria muita vantagem, e ainda se sentindo injustiçado pela decisão de 1989, Senna jogou o carro em cima de Prost e, assim, tornou-se bicampeão, numa das jogadas mais polêmicas da carreira. Era nesse clima que chegava a 1991 com pompa de favorito.

Craques na pista não são garantia de lucro para TVs

As transmissões de F1 estrangeiras, particularmente da Inglaterra e da Espanha sempre estão em voga no Faster. Afinal, o blog nasceu para mostrar que existem outras formas de ver o esporte, muito diferentes do produto que recebemos. Curiosamente, ao mesmo tempo em que ambos têm motivos de sobra para comemorar feitos de Button, Hamilton e Alonso, respectivamente, suas TVs não poderiam passar por momentos mais distintos. Em notícias publicadas no mesmo dia, enquanto o jornal britânico Guardian crava que a F1 na BBC corre perigo, a espanhola La Sexta comemora o aumento do espaço para a categoria em sua grade de programação de 2011.

Depois de anos sendo a TV oficial da F1 na Inglaterra, a BBC perdeu os direitos de transmissão ao final da temporada de 1996 para a emissora privada ITV, que levou a categoria à casa dos britânicos até o final de 2008. Nos últimos dois anos, de volta ao lar, o produto ganhou consideravelmente em qualidade, mas não cresceu no mesmo nível em termos de audiência.

BBC F1 team
Equipe da BBC comemora com a Brawn em 2009

 

A BBC é uma TV pública, financiada por uma taxa paga pelos cidadãos britânicos para receber seu sinal em casa. Em outubro de 2010, a emissora fechou um acordo com o governo para fixar essa quantia anual em 145,50 libras (em torno de R$ 390) pelos próximos 6 anos. Com isso, terá que cortar cerca de 14% de seu orçamento. O objetivo é diminuir em 340 milhões de libras ao ano os gastos até 2014. Estima-se que 60 milhões devem ser tirados do esporte.

De acordo com o Guardian, a F1 é uma das modalidades que estão na mira dos cortes, juntamente do tênis. A BBC paga 40 milhões de libras (mais de R$ 100 mi) ao ano pelos direitos de transmissão, além dos gastos com o envio de uma considerável equipe aos GPs, um gasto que não condiz com sua audiência. Pode parecer pouco perto dos 300 milhões de libras que a emissora investe anualmente em cobertura esportiva – número que viria bastante em anos de Copa do Mundo e Olimpíada –, mas os ingleses não querem mexer na cara cobertura futebolística devido a seu retorno garantido.

Não é, contudo, algo a ser decidido agora: o contrato da BBC com a FOM dura até 2014. No entanto, é mais um dos inúmeros sinais de que o atual modelo comercial de quem controla a categoria já não faz maia sentido.

Por outro lado, a espanhola La Sexta, que também tem os direitos da F1 desde o início de 2009, anunciou que suas transmissões agora começarão nada menos que 2h antes das corridas – “e só não fazemos mais porque a FIA não nos permite”, garantiu o apresentador Antonio Lobato.

A emissora fala em disponibilizar mais de 250 horas ao vivo, 400 entrevistas e 900 reportagens durante o ano, com 11h de F1 a cada final de semana de grande prêmio, incluindo flashes ao vivo desde a quinta-feira, treinos livres de sexta-feira por meio de sua página na Internet e sessões de sábado e domingo ao vivo na TV, incluindo a GP2.

Nada mal para quem começou a ver a F1 pra valer em 2004, com a Telecinco, que manteve os direitos até 2008. Antes disso, era a TVE que transmitia as corridas. O contrato da La Sexta, uma emissora menor e que tem apostado na cobertura de eventos esportivos, a exemplo da Record por aqui, dura até 2013. Mesmo em 2004, antes do primeiro título de Fernando Alonso, a audiência já chegava aos 13,5 pontos em média, mas o recorde absoluto  se deu justamente na última corrida de 2010: 7.430.000 espanhóis viram seu compatriota perder o título em Abu Dhabi, o que significa 49,4% de share e mais de 29 pontos de audiência, sendo que o segundo programa mais visto na semana do evento foi justamente o pós-GP. A melhor marca anterior era do GP de Cingapura, com perto de 2 milhões a menos de espectadores. Se combinadas as audiências da La Sexta e da TV3, que tem os direitos no território catalão, o número passa dos 9 milhões.

hamilton champion massa gp brasil
A BBC ainda não conseguiu bater a audiência que a ITV teve no GP do Brasil de 2008

São marcas semelhantes às da Inglaterra, país em que a audiência flutua entre 4 a 5 milhões por corrida e cujo maior pico dos últimos anos foi o GP do Brasil de 2008, quando mais de 9 milhões de espectadores viram Lewis Hamilton conquistar o título – a  coroação de Jenson Button foi assistida por “apenas” 6,6 milhões. Para efeito de comparação, a população do Reino Unido é de 61,8 milhões, enquanto a Espanha tem 45,9 milhões de habitantes.

“Eu e meu companheiro precisamos trabalhar juntos no desenvolvimento do carro”

A frase poderia ser de qualquer piloto do grid e é o exemplo máximo do bom mocismo – se é que o termo existe – que marca as entrevistas na F1 hoje em dia. Lendo o material para escrever o post de quarta-feira, fiquei pensando sobre como nos sentimos à vontade para julgar atitudes que ouvimos dizer/escolhemos acreditar que outros fizeram, ou mesmo questionar atos que não nos dizem respeito, como aqueles vizinhos chatos que dão palpite na sua vida, mesmo só vendo você entrar e sair de casa. Enfim, como cultivamos o politicamente correto, mesmo que sejamos enganados por ele.

Talvez sempre tenhamos sido assim, mas a Internet, a diminuição aparente das distâncias e a difícil barreira entre a vida particular e pública parece ter dado voz e projeção a esse costume de fofoqueiro de bairro. Teria muitas perguntas a fazer a quem se importa tanto com que os outros fazem, como por exemplo, por que o fato de Ronaldo ter saído com um travesti incomoda até hoje, mas esse não é o ponto do texto.

É lógico que os setores de marketing estão muito atentos a isso. E não vão querer ligar as marcas que representam a alguém cuja imagem é qualquer coisa diferente de imaculada. Até aí, estão em seu direito. O problema é quando a neurose é tão grande que suprime as personalidades. O blog fala de F1, mas isso é algo que tem acontecido até com bandas de rock, símbolos da transgressão em outros tempos.

O shit happens marqueteiro depois da Turquia convenceu alguém?

Não demora para surgir as reclamações dos saudosistas, para os quais os pilotos/astros de antigamente eram melhores porque tinham personalidade. Que esses, de hoje em dia, são uns vendidos. Que já não há rivalidade de verdade como antes, e blá, blá, blá.

Personalidade não é item opcional, todo mundo tem. A diferença é que a de uns é mais forte que de outros, mas será que é uma questão de ter ou de poder mostrá-la? Até chegar ao topo e viver de suas glórias, dependendo da imagem que você constrói, terá certas empresas a seu lado – ou nenhuma.

Liuzzi, por exemplo, campeão mundial de kart e da F3000. Não é nenhum zero à esquerda. O quanto do fato dele estar na Hispania hoje tem a ver com o que realmente fez pelas equipes por que passou e o quanto suas dificuldades no caminho foram resultado do temperamento/imagem forte?

Além disso, há a questão da mídia. Imagine se um piloto resolve ter uma noite de James Hunt na véspera de decisão do título mundial. Provavelmente, alguém terá uma câmera a postos – ainda que seja do celular – e, antes mesmo de acordar, o talvez futuro campeão do mundo já estará na capa de todos os portais da Internet como, no mínimo, um irresponsável.

O slogan desta propaganda de 2007 diz tudo: "Racing is a state of mind"

Aí fica fácil de entender o desfile de declarações e posturas pasteurizadas no paddock, como em outros esportes e setores. Quanto mais dinheiro envolvido, mais profissionalismo é exigido e até falar o que pensa se torna proibido. E, ao mesmo tempo em que os pilotos são acusados de omissão em situações como no recente cancelamento da prova do Bahrein, quem mostra a cara logo é jogado na parede.

Convenhamos, é maçante ouvir as declarações de um Vettel, um Massa, um Kubica, um Hamilton. Só dizem o que é esperado deles. Mas não os julgo: se não o fazem – como quando, recentemente, o atual campeão do mundo brincou que gostaria de pagar férias a um dos pilotos da Ferrari para que ele assumisse um dos carros vermelhos – são massacrados. Isso, sim, é uma chatice só.

Há um circuito na F1 que anda comemorando os lucros

Não vá se animando com o título do post. Ninguém achou a receita infalível para recuperar o dinheiro das cifras absurdas cobradas por Bernie Ecclestone pelo direito de sediar uma corrida de F1. Pelo menos para os organizadores – dependendo da localização do circuito, a cidade lucra com o evento – esta continua sendo uma tarefa inglória.

Mas o exemplo de Silverstone é importante para os países que têm tradição no esporte, mas não conseguem concorrer diretamente com o caminhão de dinheiro dos emergentes que vêm tomando o calendário. O circuito é de propriedade do Clube de Pilotos Britânicos e precisa encontrar na iniciativa privada e na própria receita recursos para se sustentar.

É claro que esse modelo foi o que quase tirou o GP da Inglaterra da antiga base aérea da 2ª Guerra Mundial, mas o excesso de ganância do projeto de reconstrução de Donington Park e uma inteligente contra-proposta deixaram Ecclestone sem escolha.

Com um projeto de modernização, que inclui a construção de um novo paddock e a transferência da reta dos boxes para o local entre as curvas Club e Abbey, serão investidos US$ 47 milhões (US$ 64 no total, incluindo as alterações já feitas na pista). Uma barganha se comparado aos planos de gastar quase US$ 220 milhões na renovação de Donington. A intenção é que a obra diminua a diferença da estrutura do velho Silverstone em relação às obras faraônicas do Oriente. Depois de muita resistência, a pressão de Ecclestone, que fez um verdadeiro leilão, ameaçando o futuro do GP que marcou o início da F1 em 1950, fez os administradores botarem a mão no bolso. Isso sem qualquer ajuda governamental.

Novo paddock deve ficar pronto em maio

Mas Silverstone tem lenha para queimar. O circuito movimenta ao menos US$ 75 milhões ao ano – tem crescido a um ritmo de 14%/ano de 2007 para cá – e teve um lucro de US$ 3,24 milhões em 2010.

Há vários motivos para o sucesso na gestão do circuito. Especula-se que o contrato para a realização do GP da Inglaterra, fechado em dezembro de 2009, renda cerca de US$ 20 milhões aos cofres da FOM, sendo que o valor é aumentado em pelo menos 5% a cada ano. Apesar de ainda ser uma quantia considerável, é pouco se comparado ao que países menos tradicionais pagam. Afinal, um circuito inglês tem mais poder de barganha que um coreano, por exemplo, pois há muito mais investimento vindo de nações como Inglaterra, Itália e, nos dias de hoje, Espanha, que de qualquer outro lugar.

Mesmo assim, eventos em outros locais tradicionais têm passado por dificuldades. O presidente da Catalunha reclamou dos prejuízos, Spa e Hockenhein também andam perdendo dinheiro, e a França sequer tem um GP. Qual seria o segredo dos ingleses?

Uma explicação plausível, comprovada pelo fato do aumento do dinheiro movimentado nos últimos 4 anos, é o sucesso de Lewis Hamilton e o ressurgimento de Jenson Button. A Inglaterra ficou 12 anos sem ter um campeão do mundo e emplacou logo dois seguidos. Na esteira do sucesso na categoria máxima, o fato de ambos serem cria do automobilismo local faz crescer o interesse pelo esporte em geral.

Com isso, outro diferencial de Silverstone é sua alta rotatividade durante o ano, uma vez que a cultura do esporte a motor na Inglaterra, não somente da F1, é muito forte. Mesmo as categorias de base atraem um ótimo público. No total, o circuito recebe nada menos que 1 milhão de pessoas por ano.

Depois da corrida, tudo acaba em música em Silverstone, com a participação de pilotos e "músicos" ligados ao circo

Assim como construções para Jogos Olímpicos e Copas do Mundo, muitos dos circuitos novos ficam às moscas durante boa parte do ano. Isso, porque são pensados exclusivamente para atender às demandas da F1, quando poderiam ser utilizados até para outros tipos de eventos, não necessariamente automobilísticos. Mas como atrair público para qualquer coisa que aconteça no meio do nada, no caso de pistas como Abu Dhabi, Istambul Park e Shanghai?

Ao menos no Brasil, Interlagos é localizado numa área urbana e vem sendo utilizado para eventos extra-F1. O quanto São Paulo paga à FOM pelo direito de organizar a prova é segredo de Estado, mas não ouvimos reclamações da prefeitura, mesmo sendo ela quem arca com os custos das reformas, que consomem entre R$ 15 e 20 milhões ao ano. Ainda assim, a estrutura do circuito há tempos não comporta a F1 de hoje e a promessa é de que um novo paddock será feito. Talvez não nos moldes de Silverstone – quem sabe no dia em que o circuito atrair 1 milhão de pessoas por ano! – porém, ficar parado, da maneira como os ingleses fizeram por anos, esperando que a tradição lhes salvasse, não é uma opção.

Mais uma vez, a McLaren tem que correr atrás do prejuízo

Uma das grandes questões desta pré-temporada tem sido a McLaren. Não é a primeira vez que o time parece ao menos perdido, o que não necessariamente resultou em fiascos no passado, mas o desânimo de Lewis Hamilton e Jenson Button, somado à disparidade de voltas completadas em relação aos rivais diretos ao título cobre de dúvidas o real potencial do MP4-26.

Ao final dos treinos de ontem, o campeão de 2008 falou em limitar os danos no início do campeonato. “O carro pode melhorar. Se mantivermos o caminho certo no desenvolvimento durante diversas corridas, poderemos diminuir a distância e competir por vitórias. Se conseguirmos marcar pontos nas primeiras provas, ficando, por exemplo, no top 5, quando o carro for capaz de vencer corridas, o título ainda será possível. Então, definitivamente não estou desistindo do ano”.

O desafio da McLaren é compreender suas inovações

Seu companheiro também não anda muito otimista. “Há trabalho para ser feito para sermos tão rápidos quanto Red Bull, Ferrari e um ou dois times, mas estamos melhorando e é um ótimo sentimento. Ficaria surpreso se andarmos no ritmo de Red Bull e Ferrari em Melbourne, é pedir muito considerando a quilometragem e a performance nos testes até agora.”

Hamilton reclamou muito dos pneus e quem viu o carro na pista observou que os McLaren se movem mais que a concorrência, são mais ariscos, o que favorece o desgaste da borracha. Aparentemente, falta downforce para o carro.

O que dá para perceber é que a equipe tem tido problemas em quase todos os dias de testes. Ontem, por exemplo, Hamilton sofreu uma pane hidráulica e uma falha no escapamento. Assim, não conseguem evoluir na mesma proporção que os rivais, que têm passado constantemente da marca de 100 voltas por dia.

Em entrevista ao f1.com em 21 de fevereiro, o diretor Jonathan Neale indicou qual seria o caminho durante os testes. “A primeira tarefa é ter certeza de que o carro não tem gremlins que prejudiquem a quilometragem, que os números do túnel de vento batem com os da pista e que o carro é estável. Se você tem um problema, particularmente aerodinâmico, você tem que voltar e repensar até os updates que já estão preparados, pois terá que mudar a base. Por isso, todos nós trabalhamos para firmar nossa base.”

E parece que a base não está bem firmada. O time decidiu estrear o carro novo apenas na segunda bateria de testes, a fim de estabelecer uma boa comparação para os pneus Pirelli num carro já conhecido. Fez o lançamento do bólido de 2011 dia 4 de fevereiro e impressionou com as diferentes entradas de ar, tanto nos radiadores, quanto na carenagem.

Tanta inovação tem custado caro aos engenheiros, cuja dificuldade nos testes é compreendê-las. Até uma troca de peças para a avaliação de diferentes configurações tem dado dores de cabeça que projetos menos ambiciosos não geram. Além disso, muito tempo de pista foi perdido por falta de peças de reposição.

Até agora, o MP4-26 deu 741 voltas, contra 1211 da Red Bull e 1285 da Ferrari. Nenhum dos pilotos conseguiu ainda fazer uma simulação completa de corrida, ao mesmo tempo em que os rivais chegam a completar 2 por dia. Nada disso, no entanto, significa que o carro seja exatamente lento, como frisou o chefe Martin Witmarsh em entrevista publicada hoje. “Tivemos algumas dificuldades de confiabilidade durante os testes até agora, mas estamos confiantes de que estamos na direção certa agora.”

Cruzando todas essas informações, do sentimento dos pilotos de que este (ainda) não é um carro vencedor, com a explicação de Neale e Witmarsh, o tipo de dificuldade encontrada e os dados de quilometragem, parece que os planos iniciais devem ter sido refeitos e que a McLaren chegará à Austrália alguns passos atrás dos rivais, que já começam a fazer até simulações de classificação, buscando performance pura. Uma vez reencontrado o norte, o time terá que correr atrás do prejuízo para tirar a diferença.

A equipe sempre aparece com maneiras diferentes de coletar dados

Isso não quer dizer que o carro nasceu ruim, como o modelo de 2009, que tinha problemas fundamentais. Aliás, Hamilton se adiantou em dizer que se sente muito melhor com esse modelo em relação àquele, que começou a pré-temporada a cerca de 2,5s em relação aos líderes.

O déficit de desenvolvimento inicial se parece mais com o que aconteceu ano passado. Hamilton levou mais de 1s1 do pole Vettel na 1ª classificação de 2010 e, com um misto de boas estratégias e rápida evolução, a McLaren chegou à liderança entre os construtores ainda em maio.

Mesmo vendo a história se repetir – olhando para trás, é difícil lembrar de alguma temporada recente em que a McLaren tenha despontado como favorita na pré-temporada – Neale rebate as críticas e diz que está tudo sob controle. “Ano passado, jornalistas de menor reputação julgaram que estivéssemos com problemas devido ao número de sensores que usamos no carro. Nós somos muito mais disciplinados em relação a como usados os testes”. Provavelmente no último dia de testes, quando todos ensaiarem com pneus supermacios, pouco combustível e com todas as atualizações já prontas no carro, veremos o quanto há de disciplina e o quanto há de trabalho duro pela frente.

Sebastian Vettel fazendo escola na Alemanha

Bacana a chamada para a temporada de F1 2011 na TV alemã RTL. Qualquer fã da categoria já identifica na hora, mesmo sem um carrinho sequer…

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Vendo o vídeo, imaginei: se fosse feito no Brasil, qual seria o símbolo, o gesto, o que definiria nossos pilotos?

Vários jeitos de ver os 10 anos de Fernando Alonso na F1

Os 10 anos de Fernando Alonso na F1, completados dia 4 de março, não passaram despercebidos por aqui, nem, é claro, em seu país natal. Diferentes foram as abordagens, cada um exagerando para um lado, em muitos exemplos de como não fazer jornalismo. Perseguido para uns, mau caráter para outros, não é de se estranhar que a verdade fique em segundo plano quando o objeto de discussão é um piloto que nunca fez muita questão de agradar.

Os espanhóis destacam que Alonso terminou sua primeira corrida, o GP da Austrália de 2001, de Minardi, a 2 voltas de um certo Michael Schumacher. Nunca havia feito uma curva sequer com o carro, cujo motor tinha 3 anos de defasagem. Sua volta mais rápida foi mais de 3s pior que do alemão que, em 5 anos, se converteria em seu rival pelo título. “Bernie Ecclestone o comparava com Ayrton Senna e a imprensa de todo o mundo dizia que se tratava de um novo campeão”, cita o jornal El Comercio, das Asturias. Ao fim daquela corrida, prossegue a publicação, Alonso “anunciou a essência de sua filosofia: ‘me ultrapassam carros, não pilotos’”.

O Diario AS destacou que a audiência da estreia do asturiano não chegou a 200.000 pessoas, nada comparado ao estouro que o esporte teria na Espanha nos anos seguintes, e definiu Alonso como “polêmico de longe, extrovertido de perto”.

Os jornais também destacam os números do bicampeão, que já é o 6º na história em número de vitórias e 5º em pódios. Neles, no entanto, assim como na matéria veiculada pelo canal de TV Antena 3, os pontos polêmicos da carreira de Alonso não são citados.

"Dos títulos con Renault, un infierno en McLaren y un futuro en Ferrari", é a definição do canal Antena3

O mesmo não acontece na TV La Sexta, que detém os direitos de transmissão da F1 na Espanha. No especial comemorativo da data, há uma página dedicada às sanções tomadas pelo piloto, numa lista que não deixou de fora sequer a penalização por atrapalhar Robert Doornbos na GP da Hungria de 2006. Surpreendentemente, tudo escrito sem tomar partido, ainda que o início do texto saliente que “o asturiano teve que se esforçar ao máximo para se tornar uma lenda do automobilismo, mas também sofreu inúmeros tropeços que impediram que aumentasse seu currículo”. O problema é terem ignorado o papel do espanhol no caso da espionagem em 2007.

O episódio também é ignorado pelo El Mundo, ainda que o “Alonsismo em 10 atos”, mais autoral, dê uma ideia muito boa da jornada do menino de Oviedo. É interessante como os espanhóis sofrem do mesmo complexo de vira-lata brasileiro, no melhor estilo “apenas um brasileirinho contra o mundo”. O texto salienta que Alonso, como Pau Gasol, Rafa Nadal e a seleção de futebol, levou a Espanha a feitos que antes só eram “dos outros”.

Há alguns dados interessantes, como o fato de Briatore ter conseguido que os direitos de transmissão fossem repassados de graça para a Espanha em 2003 – lembrando que não havia cobertura contínua até então – e como começou a briga entre Alonso e Ron Dennis, por uma caixa de câmbio quebrada no GP da França.

O único especial com material exclusivo, contudo, foi publicado em doses homeopáticas pelo Marca. A longa entrevista, disponibilizada no original pelo blog do Octeto, tem 5 partes, e gerou várias das manchetes nos sites brasileiros nos últimos dias (parte 1, 2, 3, 4 e 5). Os italianos (aqui e aqui) também usaram essas entrevistas, destacando a diferenciação que o piloto fez entre a McLaren e a Ferrari e as ligações com a Itália, que permeiam sua carreira na F1, passando pela Minardi e Briatore.

Aliás, se a ideia é mesmo saber o que os pilotos disseram e em que contexto o fizeram, o remédio é sempre procurar os originais.

Por mais que a imprensa daqui tente colocar brasileiros na história, a única pedra no sapato de Alonso não responde nem por Massa, nem por Piquet

Isso nos leva ao texto do portal UOL, cujo título já evoca “coleção de conquistas e desafetos”. Entre suas “frases polêmicas”, há uma “dedico o título para mim e mais ninguém”, que teria sido proferida depois do primeiro triunfo. De fato, uma declaração de Alonso na época deu o que falar, mas foi outra (retirada devidamente da transcrição da coletiva da FIA, de 25 de setembro de 2005): “acho que o título é o máximo que posso alcançar em minha vida, em minha carreira, e é graças a 3 ou 4 pessoas, não mais que isso”, referindo-se a seus pais, sua irmã e sua avó.

As conquistas são tratadas com desdém, fruto de “mudanças de regras como a ausência de trocas de pneus”, que prejudicaram a Ferrari. Com o que o site chama de desafetos, o espanhol daria uma de “João sem braço”. O engraçado é que o texto prossegue sem imputar culpa alguma a Alonso nos episódios citados, ao menos em relação aos brasileiros. E, novamente, ao falar do GP da Hungria de 2007, falta contexto e a questão das provas é omitida.

Curiosamente, na retrospectiva do portal Terra, quem leva a pior é Felipe Massa. De maneira errônea, o site aponta que Alonso já se colocava entre as Ferrari em 2004, citando Massa como um dos pilotos. Não seria Barrichello? Enfim, outra publicação, que, a exemplo da maioria das espanholas, decidiu tangenciar as polêmicas.

Apesar da imprensa brasileira tentar criar inimigos para Alonso entre os brasileiros, o rival de verdade do espanhol é Lewis Hamilton. Na terra do inglês, encontrei apenas uma matéria, no site especializado YallaF1. Ali, nada de juízos de valor. E se você quiser saber o que aconteceu naquele final de semana do GP da Hungria, que acabou com qualquer possibilidade do casamento Alonso e McLaren dar certo, terá que se esquivar de fontes brasileiras e espanholas. Embora Max Mosley provavelmente contaria uma história um pouco diferente, o texto é o que melhor apresenta os fatos.

Dois temas que dão o que falar: o show e Schumacher

Peço desculpas aos leitores fiéis do Faster, mas a blogueira que sequer descansou no Ano Novo decidiu tirar uns dias para recarregar as baterias e começar com tudo a temporada. Deixo vocês com dois temas polêmicos sobre os quais escrevi no PodiumGP nos últimos dias:

A Fórmula 1 é espetáculo ou esporte?

“Não é de hoje que o esporte em geral, não apenas a Fórmula 1, flutua entre o profissionalismo e o entretenimento. Ser um esportista não é a mesma coisa que trabalhar das 9 às 18h num estabelecimento qualquer e o fato da grande maioria dos eventos serem realizados aos finais de semana é prova disso.

A competição em si não depende do público, mas toda a estrutura para que ela aconteça, sim. Por isso, não é de se estranhar que as pessoas que regem – e faturam com – o esporte tenham a necessidade de fazer de um produto esportivo um espetáculo.

A superioridade conquistada na pista muitas vezes incomoda quem investe

Isso não é de hoje. Ao final do campeonato de 1988, em que sua McLaren deixou de vencer apenas um GP, Ron Dennis recebeu uma ligação do presidente da Phillip Morris, sua patrocinadora, pedindo que maneirasse no ritmo e começasse a perder às vezes, pois o domínio era ruim para a competição.

O problema é que esporte e show têm objetivos conflitantes. Ao invés do “que vença o melhor”, a mentalidade do espetáculo gera a necessidade de criar emoção onde não há, alternativas onde a realidade é pragmática. Enquanto na primeira situação o melhor vence, na segunda, é a disputa que tem que prevalecer. Quando não é encontrado um meio termo, o esporte desvirtua o show, e o show desvirtua o esporte.

É o que vem acontecendo com a F-1 nos últimos anos. Após o domínio absoluto de Schumacher e da Ferrari, a categoria sentiu a necessidade de se recriar. E tem feito isso sucessivamente.”

Leia o texto na íntegra aqui

A volta de Schumacher mancha o mito Schumacher?

“Michael Schumacher é o homem que levou ao limite todos os aspectos em que poderia ter alguma influência como piloto. O preparo físico, a interação com os engenheiros, a liderança dentro da equipe e a maximização do uso de todos os dispositivos disponíveis no cockpit, como o equilíbrio de freio, chegando ao perfeccionismo de treinar entradas de box para ver até onde poderia acelerar antes da linha que limita a velocidade no pitlane. O alemão nos deu incontáveis aulas de como a Fórmula 1 pode ser quase uma ciência exata.

Desde a estreia, em 1991, Schumacher sempre foi o símbolo da obstinação

Mas nem tudo foram flores em sua carreira. Quando se sentiu pressionado, quando as coisas não saíram exatamente como planejado, Schumacher frequentemente mostrou até onde era capaz de ir para atingir seus objetivos. Foi assim quando jogou o carro em cima de Damon Hill e Jacques Villeneuve nas decisões de título de 1994 e 1997, respectivamente, e quando decidiu estacionar o carro em plena Rascasse na classificação para o GP de Mônaco em 2006, por exemplo.

“Voltar provavelmente foi mais difícil que Michael imaginou que seria. Ele já não tem mais 24 anos e está lutando contra pilotos jovens e ambiciosos, que querem deixar sua marca no esporte”.

Ross Brawn, em julho de 2010.

Perder nunca foi – e nem poderia ser – o forte do piloto mais vitorioso da história da categoria, chegando ao degrau mais alto do pódio por 91 vezes. Aquele que, ainda garoto e inconstante, já incomodava os grandes Prost e Senna com sua Benetton amarela; aquele que cometeu o que descreveu mais tarde como a maior loucura da vida ao ir para uma Ferrari bagunçada em 1996, trabalhou duro por 5 anos para moldar a Scuderia à sua feição e começou a história mais vencedora que já se viu na F1, com 5 títulos seguidos; aquele que detém a grande maioria dos recordes no esporte: foram 72 triunfos apenas como piloto Ferrari, 68 pole positions, 76 voltas mais rápidas, entre muitos outros.”

Leia o texto na íntegra aqui

As brigas internas de 2011: Ferrari e McLaren

Continuando o post anterior, sobre as rivalidades que nos esperam em 2011, a dinâmica que mais interessa aos brasileiros é a que ocorre dentro da Ferrari, entre o já não tão queridinho Felipe Massa e o inimigo da nação, Fernando Alonso.

Massa x Alonso

Talvez seja o desfecho mais imprevisível do ano. Será que os pneus Pirelli removerão toda a diferença que marcou 2010? Quais serão os desdobramentos da ordem de equipe na imagem que Felipe tem dentro da equipe e perante si mesmo? O quanto vai pesar o trabalho que Alonso fez ano passado de trazer a equipe para seu lado? Será que isso só dura enquanto ele andar na frente?

O fato é que a Ferrari contratou Alonso sabendo o que vinha no pacote. Sua experiência dividindo as atenções com Hamilton na McLaren não foi nenhum conto de fadas e sua maneira absolutista de trabalhar acabou se encaixando como uma luva no modo de pensar ferrarista. No final das contas, é inegável que o espanhol – ajudado pelos erros da Red Bull, claro – levou a Scuderia a disputar um título com o qual a performance do carro não permitia sonhar. E que a falha em Abu Dhabi gerou um sentimento de débito do time com o piloto, embora este tenha cometido erros tolos no início do ano.

“Não posso falar que estou feliz da vida, porque, para mim, a felicidade é a vitória. Não corro aqui para chegar em segundo”. Felipe Massa, após o GP da Alemanha de 2010.

“É provavelmente a maior vantagem que tive sobre um companheiro e isso me deixa feliz”. Fernando Alonso sobre seu desempenho em 2010.

Do outro lado do box, um piloto cujo contrato termina ao final de 2012 e que foi humilhado ano passado. Tanto nas vezes em que teve que ouvir que era mais lento, quanto por indiretas nada sutis do chefe, que afirmou pensar que era seu irmão quem estava ao volante.

Felipe tem um incômodo histórico: em 5 anos de Ferrari, viu seu time disputar o título de pilotos até a última etapa 4 vezes, sendo que em 3 delas eram seus companheiros que estavam na briga – mesmo que 2 deles fizessem seu 1º ano na equipe. Conhecido como um guerreiro, é de se esperar que Massa esteja se concentrando em dar a resposta na pista. Afinal, iniciando sua 6ª temporada como titular na Ferrari, o brasileiro bem sabe que as crises se dissipam tão rapidamente quanto chegam em Maranello. Sabe também que, se repetir 2010, não deve se segurar por lá e, na pior das hipóteses, tem que render para valorizar seu passe numa possível transferência.

Resta saber qual o interesse da equipe nessa possível recuperação. Pelo menos, na Ferrari, não haverá surpresas: quem estiver na frente na metade do campeonato terá clara prioridade. É assim que o esporte funciona para os italianos.

Hamilton x Button

A postura não poderia ser mais diferente na McLaren. A constante necessidade de mostrar o quão igualitário é o tratamento entre pilotos e o quão bem se relacionam Lewis Hamilton e Jenson Button já deixou muita gente desconfiada. No entanto, se houve qualquer problema entre os dois em 2010, são atores de primeira.

“Aquele cara nunca desiste. Ele é como um pitpull”. Jenson Button descreve Lewis Hamilton.

“A McLaren está encantada com Lewis e Jenson. Na verdade, acho que eles causam inveja às outras equipes”. Martin Witmarsh.

Embora haja uma grande rivalidade entre seus fãs na Inglaterra, Hamilton e Button acabam, tanto atraindo públicos diferentes fora das pistas, quanto trilhando caminhos opostos dentro delas. Enquanto Button é o homem das decisões e oportunidades, Hamilton é o cara dos riscos, das voltas impossíveis. A vantagem para a Ferrari na pontuação ano passado, apesar da performance similar dos carros, mostra o quanto isso é benéfico à equipe.

Há quem acredite que estilos tão diferentes acabem perturbando o foco do desenvolvimento do carro que, aliás, foi o ponto fraco de 2010. Por outro lado, se há um time com capacidade técnica para suplantar necessidades tão distintas, é a McLaren.

Em 2010, vimos muito do impressionante Hamilton de 2007, o que comprova a teoria de que um bom companheiro de equipe é tudo o que um piloto precisa para dar o melhor de si. O mesmo pode ser dito sobre Button, que chegou a impressionar mais nas corridas no molhado do início do ano que em sua campanha inteira pelo título. Resta saber o quanto o fato do campeão de 2009 já estar adaptado e ter dado pitacos desde o início do projeto de 2011 pode mudar a dinâmica entre os dois, uma vez que, apesar da diplomacia, ninguém duvida que o território prateado tenha dono.

As brigas internas de 2011: Red Bull e Mercedes

Um campeonato de F1 não é completo sem “aquela” rivalidade para animar a disputa. E se os algozes estiverem dentro da mesma equipe, melhor ainda. Às vezes, dois pilotos mal podem se olhar, mas, se este não for o caso, logo a imprensa já começa a dizer que, por trás da calmaria, o circo está pegando fogo. E sempre escolhe o piloto mais midiaticamente palatável como mocinho e aquele que não faz muita questão de agradar como bandido.

As nacionalidades também ajudam, claro. Mansell, tido aqui pelos fãs de Piquet como um piloto mediano, que não conseguiu bater o brasileiro mesmo sendo o queridinho da Williams, é visto na Inglaterra como um dos maiores e mais azarados pilotos da história. Talvez a verdade esteja no meio do Atlântico, longe da falta de objetividade de uns e outros.

Um dos grandes atrativos da temporada passada foi a briga interna nos times grandes, e a expectativa é de que os capítulos que vêm a seguir sejam ainda melhores. Quem diria que Rosberg levaria a melhor sobre Schumacher ou que Webber seria uma pedra no sapato de Vettel?

Schumacher x Roberg

Claro que, até que a temporada comece para valer, só podemos imaginar o que acontecerá. No caso da Mercedes, as indicações são de que o carro não nasceu bem novamente. Porém, ao contrário do ano passado, Schumacher não tem motivos para reclamar dos pneus. Eles não privilegiam pilotos que lidam melhor com carros que saem de frente, como ano passado e, portanto, devem igualar o jogo dentro da equipe alemã. Isso, se a F1 não se provar dinâmica demais até para um dos melhores pilotos da história da F1.

“Eu não acho que tenha prejudicado o mito dele. Ele é um heptacampeão mundial e sempre permanecerá no livros históricos. Mas com certeza me senti bem em vencê-lo”. Nico Rosberg.

O normal da briga interna na Mercedes seria um equilíbrio, pendendo para Schumacher devido à abordagem mais agressiva do heptacampeão nas corridas. Interessante será ver qual a reação de Rosberg caso isso aconteça: em 2010, o alemão mais jovem foi exemplarmente político e falou na pista. Que reação teria caso saísse perdendo? Qualquer mal estar com a equipe só prejudicaria a ele mesmo, pois Schumacher tem mais uma, duas temporadas pela frente. A longo prazo, Nico sabe que é nele que o time tem que confiar. Como o carro de 2011 não deve fazê-los lutar pelo título, o mais inteligente seria pensar lá nos frutos que pode colher num futuro próximo.

Vettel x Webber

Já na Red Bull, nada indica que a postura de qualquer dos envolvidos seja muito diferente do que foi em 2010: Vettel dando uma alfinetada aqui, guiando de forma perfeita ali; Webber se colocando na posição de outsider; Marko se assegurando de que seu pupilo receba os devidos mimos; Horner se fazendo de desentendido e Mateschitz garantindo que o esporte fica em 1º lugar.

“Não vou para a pista para prestar primeiros socorros a ninguém. Acho que há ambulâncias suficientes para isso no circuito”. Sebastian Vettel, quando perguntado se ajudaria Webber a ganhar o título ano passado.

“Claro que já não tenho mais 20 anos, mas Sebastian não tem nenhuma tatuagem ou brinco, então talvez se eu fizesse algo do tipo poderia ajudar”. Mark Webber.

O que pode tornar 2011 diferente são as corridas iniciais do agora campeão do mundo. Ano passado, problemas técnicos lhe tiraram duas vitórias certas nas duas primeiras provas, o que certamente mudou a história do campeonato. Ninguém duvida do enorme talento de Vettel e o normal é que o alemão domine o australiano ao longo de uma temporada. Porém, 2010 mostrou que Webber, e seu complexo de vira-lata, é capaz de guiar muito mais do que se espera dele quando se sente deixado para trás. Aquela vitória em Silverstone que o diga.

Vettel, no entanto, parece não se preocupar. Recentemente, quando listava os rivais pelo título, deixou o companheiro por último, e afirmou que “se o carro for bom, ele estará na luta”. Para bom entendedor, já bastou.

A diferença, para Webber, é que ele não tem o contrato para 2012 fechado e, se quiser permanecer na Red Bull, terá que se manter calado. As especulações sobre seu futuro já começaram e Mateschitz chegou a afirmar que “Mark é um piloto muito forte e certamente outras equipes vão se interessar por ele”. Parece que ninguém se importa em cutucar o australiano.

Os pneus Pirelli prometem complicar a vida dos grandes

Temos ouvido muita conversa a respeito das múltiplas paradas de boxes que nos esperam em 2011 e do impacto que os novos pneus Pirelli terão nas estratégias de corrida. Isso deve gerar provas mais emocionantes, pela oportunidade da adoção de diferentes estratégias e pela maior possibilidade de erros, tanto nos pitstops em si, quanto de estratégia – com uma degradação tão forte quanto a que vimos nos testes até agora, esperar uma volta a mais para parar pode arruinar uma corrida.

Tenho que concordar com Fernando Alonso quando ele diz que as equipes chegarão à corrida da Austrália com 1 set de pneus macios e 3 de duros e não terão muito o que inventar, mas o espanhol bem sabe que isso serve para os ponteiros, que terão que largar com o pneu com que se classificaram. De uma hora para a outra, ser o 11º com mais jogos de pneus no bolso se tornou um negócio bem razoável.

Tudo porque o regulamento guarda alguns pormenores interessantes:

Cada piloto tem à disposição 6 jogos de pneus prime e 5 option para o final de semana, lembrando que são chamados de prime sempre os mais duros disponíveis, e de option os mais macios. Além disso, podem ser usados 4 jogos de intermediários e 3 de pneus de chuva.

As opções de chuva só podem ir para a pista se esta for declarada molhada pela direção de prova e as de seco, como nada é simples na F1, são distribuídas em doses homeopáticas.

Pouco pneu e muita degradação. E não é uma reclamação

Antes da 1ª sessão de treinos livres, as equipes recebem 2 jogos de prime e 1 de option. Ao final dessa 1h30, devolvem 1 jogo de prime. Quando a sexta-feira acaba, os outros dois voltam para a Pirelli. Não é de se estranhar, portanto, que a pista fique tanto tempo vazia num momento que serviria para testes.

Com isso, os pilotos têm que fazer as demais sessões do final de semana com os 8 jogos restantes (4 de cada tipo), que são entregues no sábado.

Novamente, nada de simplificar: antes do início da classificação, mais dois jogos (1 de cada tipo) também têm que ser devolvidos. Para quem se perdeu na conta, cada piloto tem à disposição 3 jogos de pneus duros e 3 de macios para fazer a classificação e a corrida.

Se na Era Bridgestone isso já era pouco, nos tempos dos Pirelli “Pacman” será um desafio e tanto para as equipes. E colocará ainda mais pressão em cima dos pilotos na classificação. Eles terão que tirar tudo do carro de cara, sem o direito de trocar de pneu ou mesmo uma 2ª volta lançada, pois a diferença da 1ª para a 2º volta no composto macio tem sido de 1s.

Um time grande, por exemplo, que tem como objetivo largar entre os 10 primeiros, deve usar um jogo de duros no Q1, um de macios no Q2 e mais dois sets de macios no Q3, seguirem o formato que usavam até o ano passado. Um dos macios será usado na primeira fase da corrida e sobram 2 jogos novos de duros para o restante da prova. Se as corridas tiverem, como alguns esperam, mais de 2 paradas, fatalmente os pilotos terão que recorrer a borracha usada – e escolher o momento apropriado para fazê-lo, provavelmente no final da prova, com a pista mais emborrachada.

Mas não daria para economizar pneus na classificação? Com a diferença, calcula-se, de 0s8 entre o composto duro e o macio, os escolhidos para as primeiras etapas, seria arriscado guardar os mais velozes apenas para o Q3 – e minha suposição dá conta de que um único set de duros seria usado para o Q1 e Q2, o que não sei se será possível, devido ao desgaste. Para efeito de comparação, ano passado houve provas em que a diferença entre o melhor tempo do Q2 e o 11º colocado (e 1º eliminado) ficou em 1s5 no Bahrein e chegou a 1s7 na Hungria, mas na grande maioria dos eventos não passou de 1s – no Canadá e em Valência, inclusive, os 11 primeiros ficaram separados por apenas 0s5.

E no Q3, não dá para fazer apenas uma tentativa? É a saída mais plausível, mas novamente entramos na questão da pressão e da impossibilidade de tirar rendimento de uma segunda volta lançada, no caso de um erro.

“Na classificação, são necessários pelo menos 3 sets, e isso se tudo correr bem. Se houver uma bandeira amarela ou vermelha, ou mesmo um erro, você perde o pneu. Não dá para reciclá-lo e fazer uma segunda tentativa.”

Sebastian Vettel

Além disso, a diferença de rendimento entre os compostos torna difícil a decisão de arriscar fazer o Q3 com duros: uma posição na 4ª ou 5º fila do grid é quase certa, mas será que valerá a pena largar com essa borracha mais resistente e deixar os macios para o final da corrida? Novamente, só quem está em posição de apostar vai tentar algo assim. Quem poderia tentar? Renault, Mercedes, Williams ou ninguém?

Outra questão é que, quem não chegar ao Q3, provavelmente terá usado um set de duros no Q1 e dois de macios no Q2. Isso dará uma flexibilidade ainda maior, porque não há a obrigatoriedade de largar com o pneu com o qual se classificou.

Quem se adaptar melhor aos botões no volante sai na frente

Ouvimos os pilotos reclamarem da quantidade de botões no volante deste ano e há quem não entenda tanto falatório, afinal, é o mesmo desafio para todos. Um deles, de acordo com o jornalista inglês James Allen, inclusive respondeu ao engenheiro, quando este lhe pediu que apertasse mais um botão “Só tenho um par de mãos!” A questão é que eles mesmos sabem a dor de cabeça que vem pela frente – e que haverá rivais que se adaptarão muito mais rapidamente e tirarão proveito disso.

Nada disso é novidade. Há anos vemos pilotos que modificam com mais frequência o equilíbrio de freios. Em 2010, houve os que acionavam por mais vezes o duto aerodinâmico e os que melhor lidaram com as regulagens da asa dianteira, que ajudavam a cuidar dos pneus. E, em 2011, não será diferente. Mas isso deve fazer mais diferença, uma vez que a asa traseira móvel e o KERS juntos representam até 1s por volta, como vimos no post de ontem.

Num vídeo que já postei no blog, podemos ver claramente a diferença entre um piloto que se aproveita de todos os dispositivos possíveis (Alonso) e seu companheiro (Piquet), mais concentrado em apenas guiar. Naquela classificação, 0s3 separaram os então pilotos da Renault e é difícil dizer o quanto dessa diferença veio dos “botões”.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=NiejwnTOO5g&w=480&h=390]

A questão, portanto, não é que os pilotos acham que não terão capacidade para lidar com todas as novidades. Mas, sim, sabem que é muito difícil conseguir tirar proveito de 100% delas, em 100% do tempo.

As novidades no volante deste ano são a asa traseira móvel e o KERS. Ambos podem ser utilizados em treinos livres e classificações sem restrições – a não ser a de 6s6 por volta do sistema de recuperação de energia cinética. Aos domingos, as regras mudam para a ATM. Ao menos no início do ano, certamente veremos erros.

E essa não é uma consequência dos botões em si. Ambos os dispositivos mexem com a velocidade final dos carros. Portanto, se os pilotos dispararem tanto o KERS, quanto a asa traseira móvel, cedo demais, a tendência é o carro rodar; se voltarem à “configuração normal” tarde demais, irão com muita velocidade para a entrada da curva. Além de pressionar o botão certo, o momento também terá que ser exato.

Isso leva a crer que muitos pilotos vão preferir não se arriscar e deixar os botões de lado. Isso vai refletir nos tempos de volta, principalmente em classificação. E quem se der melhor não será apenas pelo carro, nem pela pilotagem, mas também pela capacidade de pensar/fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Isso tem tudo para fazer grande diferença nas classificações, que prometem ganhar em emoção em 2011 – mesmo que os sábados já tenham sido mais atraentes que os domingos em várias oportunidades nos últimos anos. Como as diferenças de tempo são mínimas, o bom uso de KERS e ATM se farão indispensáveis. Além disso, como veremos amanhã, os pneus terão papel importantíssimo, também, no sábado.

O pequeno grande Ecclestone não dá ponto sem nó

Vou interromper um pouco a sequência de posts mais técnicos da semana para escrever algumas linhas sobre Bernie Ecclestone. Foi só o manda-chuva dos direitos comerciais da F1 jogar a isca de mais uma “ideia” mirabolante que, mais uma vez, muita gente mordeu. E olha que a pérola já era antiga, a de provocar chuva artificial para dar emoção aos GPs

Não, Bernie não está gagá ou vai propor algo como isso para as equipes ou a FIA. Adepto – ou inventor? – da máxima “falem mal, mas falem de mim”, vez ou outra o inglês dá alguma entrevista bombástica para tentar encobrir uma notícia que não lhe agrada ou para abordar en passant uma discussão que realmente lhe apetece. E, sempre, estamos falando de dinheiro, e não de corridas emocionantes e desse blá blá blá de ultrapassagens que não deve fazer sua cabeça.

Bernie tinha algumas manchetes para esfriar nesta terça-feira, quando foi publicada a tal entrevista (inclusive, pelo site comandado pela empresa da qual é CEO, o F1.com). Sua biografia não autorizada revelou detalhes de sua vida que não queria que fossem colocados em público e um texto assinado por Jackie Stewart no The Telegraph, no sábado, culpando os projetos de seu protegido, Hermann Tilke, pela falta de emoção nas provas, vinha ganhando apoio e visibilidade.

Além disso, com o cancelamento dos testes do Bahrein, que começariam nesta quinta-feira, há hiato na presença da F1 na mídia. E isso é um incômodo e tanto para Bernie.

‘Ah, se todos os lugares fossem como a Malásia para eu marcar a corrida para o horário daquela pancada de chuva...’

Daí a “sugestão” da chuva artificial, que nem foi o ponto mais interessante da entrevista. Ecclestone costuma escolher muito bem as palavras e o momento de dizê-las. Aparentemente, sabe que não será possível encaixar o GP do Bahrein no final do ano: fazer 3 GPs em finais de semana seguidos não é de praxe no caso de um deles (Índia) ser estreante, em local cuja logística ainda é desconhecida, e a segunda opção, da trinca Abu Dhabi-Bahrein-Brasil, impõe um deslocamento ainda maior para as equipes, além de levar o final do campeonato para dezembro, na mesma data da última rodada do Brasileirão. Por isso, o chefão está empurrando aos times a possibilidade de fazer o evento durante as férias de agosto e já garantiu que estabeleceu junto a Jean Todt que uma decisão tem que ser tomada antes do início do campeonato.

“É muito simples. Não precisamos de uma corrida alternativa aqui na Europa ou em qualquer outro lugar. Precisamos correr no Bahrein. Acho que os times são sensíveis o bastante para correr lá até nas férias de verão, apesar das altas temperaturas, porque é a maneira de apoiarmos o país”

Bernie Ecclestone

Sim, para garantir seus milhões (leia-se “apoiar o país”), Bernie quer sacrificar as férias dos profissionais e rasgar a parte do acordo de restrições de gastos que prevê o fechamento das fábricas em agosto para correr num lugar cuja temperatura média em agosto é de 38ºC! E ainda são as chuvas artificiais que ganham as manchetes…

Outro ponto interessante foi Ecclestone indicar que uma mulher poderia substituí-lo no controle da FOM, já que elas “não são tão influenciadas pelo ego e são melhores na tomada de decisões”. Nada de se estranhar vindo de alguém que, nos bastidores, tenta emplacar sua advogada, Sacha Woodward-Hill, como sua sucessora. E ainda são as chuvas artificiais que ganham as manchetes…

E, para finalizar com chave de ouro, um exemplo do estilo Bernie Ecclestone de controlar pilotos – o ex-chefe de equipe, inclusive, disse que contrataria Vettel e Alonso se tivesse um time, e que saberia como controlar as tensões internas. Perguntado o que faria se fosse chefe de Kubica, não titubeou.

“Ele estava fazendo um rali entre dois testes. Teria dito a ele: ‘você vai correr de rali semana que vem então imagino que estará muito cansado para o teste na semana seguinte. Vou colocar seu companheiro de equipe e o piloto de testes nas sessões.’ Você acha que ele teria participado do rali? Acho que não”.

KERS se torna a principal dor de cabeça da pré-temporada

O desgaste dos pneus pode ser a grande fonte de viriáveis em 2011, mas o que vem dando mais dor de cabeça às equipes nesta pré-temporada é o KERS.

Ele é o culpado pela maior parte das falhas nos carros até agora, além de trazer dificuldades para o projeto e até para as estimativas que os times fazem para ver onde estão em termos de rendimento em relação às rivais.

E não é um sistema em particular que está gerando problemas: Renault, Mercedes e Williams, cada uma usando seu próprio KERS, são as campeãs de tempo perdido.

Tanto, que o diretor técnico da equipe de Rubens Barrichello, Sam Michael, admitiu que eles devem adotar o sistema mecânico, que utiliza uma turbina, ao invés de baterias, para o ano que vem. Ele foi abandonado por ora devido à dificuldade de encaixar o equipamento no pequeno espaço disponível, mas, se as baterias continuarem a prejudicar a equipe, isso deve ser revisto.

Barrichello e seu companheiro, Pastor Maldonado, inclusive, têm feito muitas sessões sem o dispositivo no carro, para evitar mais perdas de tempo de pista.

Por enquanto, clientes de Renault e Mercedes parecem satisfeitos

Renault e Mercedes também vêm tendo problemas, enquanto há poucas notícias de reclamações de seus clientes, Red Bull, dos franceses, e McLaren e Force India, dos alemães. Curiosamente, o sistema da Ferrari, que teve um nascimento complicado em 2009, vem apresentando boa confiabilidade.

Mas o mau funcionamento não é o único porém. Nico Rosberg disse que é complicada a interação entre o desgaste dos pneus e o KERS. Isso porque, à medida que os pneus traseiros vão perdendo rendimento, fica cada vez mais difícil recuperar a energia por meio da frenagem sem desequilibrar o carro. Quando isso acontece, o normal é os pneus traseiros travarem, o que desgasta ainda mais a borracha, criando um círculo vicioso. Para corrigir o problema, o piloto é obrigado a mudar constantemente o equilíbrio de freios, o que geralmente é feito por meio de uma alavanca ao lado do volante.

As equipes já tiveram que passar pelo desafio de encaixar as baterias numa traseira bastante povoada pelo tanque de combustível, praticamente duas vezes maior que o usado em 2009. Isso, sem comprometer o fluxo de ar, no ano em que os difusores duplos, fundamentais para o aumento da pressão aerodinâmica, foram banidos. Para completar, como a distribuição de peso foi fixada neste ano em 45.5 a 46.7% na frente e 53.3 a 54.5% na traseira e há, portanto, um limite de carga para se trabalhar.

Outra questão causada pelo KERS é a dificuldade de leitura que o sistema causa nas voltas. As equipes fazem análises de acústica, entre outras, para determinar os níveis de combustível dos concorrentes e desvendar sua real performance, mas pouco pode ser feito em relação ao sistema de recuperação de energia e à asa traseira móvel. De acordo com Pat Fry, da Ferrari, o tempo de volta pode variar de 0s7 a 1s se ambos os dispositivos forem ou não utilizados.

Mais um motivo para os times trabalharem duro em cima do sistema que, ao contrário de quando surgiu pela primeira vez, em 2009, hoje é um diferencial de performance importante, daqueles itens obrigatórios a todos os carros. Se algum desses times não conseguir resolver suas questões, fica difícil concorrer com as demais. Além de perder 0s3 a 0s4 por volta, verão toda a concorrência passar como um foguete nas largadas.

Novos pneus prometem premiar os pilotos mais sutis

Muita gente vem apostando que, mesmo em tempos de asa traseira móvel e KERS, são os pneus que farão a diferença em 2010. Isso porque, a julgar pelos testes realizados até agora, a Pirelli levou ao pé da letra a recomendação de produzir borrachas que se degradam rapidamente.

É sabido que diferentes carros causam interações distintas com o asfalto, provocando níveis de desgaste diversos. Os pilotos também têm seu papel: os que privilegiam a velocidade em entrada de curva, atrasando virar o volante ao máximo e fazendo-o de forma agressiva (como se a curva fosse “quadrada”), tendem a desgastar mais esses compostos mais moles da Pirelli e a sofrer com a degradação, a não ser, é claro, que mudem seu estilo de guiar. Vettel, Hamilton e Alonso são exemplos disso.

Button é um dos mais interessados na nova borracha

A marca italiana afirma que, como sua borracha foi projetada para trabalhar em altas temperaturas, condições sob as quais a grande maioria dos GPs é disputada, a degradação deve ser menor do que aquela vista nos testes até agora – daí o prejuízo do cancelamento dos ensaios no Bahrein.

Outras características que a Pirelli não espera ver durante os finais de semana de corrida é a falta de emborrachamento da pista – a aderência não tem melhorado de um dia para o outro – e o excesso dos chamados “marbles”, ou bolas de gude – restos de pneus que se desprendem e sujam a pista.

É uma boa notícia para Sebatian Vettel, que já se declarou preocupado com o excesso de sujeira fora do traçado. “Em meia distância de corrida haverá tantos detritos na pista que a asa traseira ajustável não vai ajudar. E, por causa disso, quando você sai do traçado ideal, você precisa frear muito mais cedo”, afirmou o piloto da Red Bull à revista alemã Auto Motor und Sport. A julgar pelas previsões da Pirelli, isso não acontecerá.

Mas o certo é que as corridas terão mais paradas nos boxes que na época dos Bridgestone. Mesmo que a degradação não seja tão forte quanto no asfalto de uma Barcelona invernal, o comportamento dos pneus é muito diferente do que tínhamos até o ano passado. Quando eles acabam, é de uma vez.

Os gráficos abaixo, cortesia de James Allen, comparam as saídas longas nos testes em 2010 e em 2011. Repare como os tempos de volta do ano passado até melhoram com o passar das voltas, mostrando que os pneus são tão bons que o efeito da queda do combustível se sobrepõe ao desgaste. No caso dos dados recentes, o rendimento de todos apresenta forte tendência de queda.

Os tempos mantinham uma linha ascendente com os Bridgestone
Já com os Pirelli, a queda de rendimento é acentuada

A Pirelli já anunciou que levará os compostos duro e macio aos primeiros GPs. Calcula-se que a diferença entre eles seja de 0s8 e que, enquanto o primeiro tipo dura 20 a 22 voltas, o segundo não passa das 14.

Observando que, mesmo os carros considerados os que melhor cuidam dos pneus, Red Bull e Ferrari, têm uma queda de rendimento de 2 a 3s nas saídas de mais de 10 voltas, poderemos assistir a um campeonato mais de resistência que de velocidade. Isso porque, se um piloto conseguir, andando num ritmo um pouco mais lento e que force menos o pneu, dar mais voltas, ele pode economizar os cerca de 25s de um pitstop.

É preciso esperar para determinar a reação da borracha em altas temperaturas mas, ao que tudo indica até agora, andar rápido talvez não seja mais uma grande vantagem.

Falta base e apoio para o novo campeão brasileiro na F1

País de 8 títulos mundiais, empatado com a Alemanha e a 1 da Inglaterra, o Brasil começa a temporada 2011 de F1 com apenas 2 representantes como titulares – e outros 2 no monótono cargo de reserva. E o cenário para o futuro a curto prazo não é muito animador.

O Brasil tem apenas Luiz Razia na categoria de acesso à F1, a GP2; tem Cesar Ramos, campeão da F3 Italiana, na qual Victor Guerin ingressa em 2011, caminho também trilhado por Nicolas Costa e João Jardim (resultado do apoio da Fiat); Felipe Nasr, Lucas Foresti, Yann Cunha e Pipo Derani na F-3 Inglesa… não foge muito disso. Pouca quantidade para se tirar qualidade e nada que surpreenda quem vê há tempos as fórmulas de base do país e o kart abandonados. Quem quer ser piloto tem que tentar a sorte cedo na Europa, com 15, 16 anos.

E praticamente bancando do próprio bolso. Como vimos em posts anteriores (aqui e aqui), enquanto o dinheiro de grandes empresas tem ajudado pilotos de países menos tradicionais a ganhar espaço (com o patrocínio, eles conseguem boas vagas, bons resultados, e vão subindo de categoria), os brasileiros perdem espaço. Afinal, se uma empresa nacional não aposta neles, por que uma estrangeira o faria?

A saída tem sido buscar espaço longe dos monopostos. O turismo é o caminho predileto e até no Mundial de Rali tem piloto brasileiro. Ou seja, não é mão de obra que falta, mas sim investimento no caro mundo do automobilismo europeu.

A pergunta que fica é: por que as empresas brasileiras não investem em automobilismo? Mesmo a que seria a categoria de monopostos que sobrevive no país tem grid de 8 carros e é apoiada pelas multinacionais Fiat e Santander. Por aqui, há o apoio da Cervejaria Petrópolis, que patrocina nada menos que 25 pilotos, a maioria no turismo. E não passa muito disso.

A agora dupla dinâmica brasileira não tem exatamente muitos anos pela frente

Colocando em números, segundo recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Marketing Esportivo, o automobilismo tem o mesmo nível de patrocínio de esportes como atletismo, natação, ginástica, boxe, vela, judô e esgrima que, juntos, respondem por 12% do total investido em modalidades esportivas no país. A liderança incontestável é do futebol, que fica com quase dois terços dos R$ 328 milhões injetados. Bem atrás, aparecem vôlei (R$ 49 milhões), basquete (R$ 16 milhões) e o futsal.

Isso, num país em que a audiência de F1 fica entre 11 e 15 pontos, chegando a dobrar quando brasileiros disputam o título. Nada mal para um produto subaproveitado transmitido nas manhãs de domingo. Os índices dos jogos de futebol, para efeito de comparação, giram em torno dos 20 aos 30 pontos (dependendo dos times que estão em campo), somando Globo e Bandeirantes.

Se mesmo pilotos que chegaram a uma categoria de tanta visibilidade têm dificuldade em encontrar apoio (o caso de Bruno Senna, que não consegue muito apoio mesmo contando com a força do sobrenome, é emblemático), a base anda mais que abandonada. E isso não é “privilégio” do automobilismo. A ajuda governamental, por meio do bolsa atleta, só recentemente começou a chegar a quem ainda não lidera nenhum ranking ou tem bons resultados internacionais. Um recente levantamento do Tribunal de Contas da União, inclusive, mostrou que a maior parte dos recursos fica com profissionais de esportes não olímpicos, um crime num país que pretende sair da atual 23ª posição para a 10ª no quadro de medalhas nos Jogos do Rio, em 5 anos.

Justamente com a proximidade, tanto das Olimpíadas, quanto da Copa do Mundo, o cenário para o automobilismo não é nada positivo, pelo menos até 2016, quando Barrichello terá se aposentado e Massa completará 35 anos. À exceção de Lucas Di Grassi e, talvez, Bruno Senna, é difícil ver um futuro a curto prazo para o Brasil na categoria, ao menos em termos de performance. Assim como o Comitê Olímpico Brasileiro tem tudo para aprender na Olimpíada do Rio com o desastre anunciado, a F1 vai servir de exemplo de que não se forma campeões sem trabalho de base e investimento.

Por que a F1 precisa de um teto orçamentário?

Lunático talvez tenha sido o termo mais leve atirado a Max Mosley quando o então presidente da FIA propôs o teto orçamentário de US$ 65 milhões. Na época, em 2009, a Toyota gastava US$ 445 milhões e sequer disputava o título, a McLaren torrava US$ 433 milhões e a Ferrari, US$ 414. De ambos os lados, era pedir demais. Afinal, foram décadas de trabalho para chegar construir uma imagem tal que permitia a cobrança de cifras exorbitantes por patrocínio. E, quanto mais dinheiro disponível, mais se gasta.

Por outro lado, os times menores, que não eram nem bancados por grandes empresas, nem conseguiam atrair grandes patrocinadores, estavam desaparecendo: não era exagero pensar num grid com 16 carros, ou até menos.

Mas o mercado se regula, e foi isso que aconteceu de lá para cá. Em meio à crise financeira, a receita diminuiu e as contas, também. É claro que o acordo de restrição de gastos (RRA) ajudou a disciplinar as equipes neste sentido, mas dá para se observar também uma tendência natural de queda nos investimentos, principalmente com a saída dos gastões Toyota e Honda.

Todavia, os orçamentos atuais, que giram entre US$ 200 e 300 milhões, ainda não são exatamente uma barganha. É nesse sentido que o RRA trabalha, mas ainda não sabemos até qual quantia as equipes pretendem chegar.

Os US$ 65 mi de Mosley eram um exagero

O fato é que cada vez fica mais claro que um teto orçamentário é uma solução a ser estudada. Não os US$ 65 milhões do velho Max, mas uma quantia que permitisse a manutenção do DNA do esporte e, ao mesmo tempo, garantisse sua saúde e independência financeira. O termo acabou ganhando má fama pela campanha desastrosa da FIA em 2009, porém, na prática, é o objetivo final do RRA. Os gastos limitados incentivam novos investidores, que não mais verão a F1 como um buraco negro, além de dar sustentabilidade ao negócio e cortar os excessos que nada acrescentam – alguém sente falta daqueles lançamentos espalhafatosos de um passado recente, por exemplo?

Além das finanças, um teto pode, de quebra, ajudar no lado da competição e substituiria a atual festa das mudanças de regras, que tem servido mais para confundir o público que melhorar o espetáculo. Ultrapassagens dependem da aerodinâmica, mas também de diferenças. Com um regulamento mais livre que as contas, um carro pode ter características diferentes do outro, já que cada grupo de engenheiros encontraria sua solução.

Faço parte dos que acreditam que o nível de ultrapassagens não é de todo ruim. Elas têm que ser como um gol no futebol, não como uma cesta no basquete. As mudanças feitas nos pneus e alterações em algumas pistas em que tradicionalmente as manobras são mais raras – Bahrein, Valência, Abu Dhabi, etc. – já resolveriam a questão. Tentar impor ultrapassagens por regulamento, além de dar a ideia de artificialidade, gera gasto em cima de gasto.

Na verdade, qualquer limitação/imposição por meio das regras gera o trabalho/gasto de, a cada 2, 3 anos, refazê-las para nivelar o jogo, porque alguém interpretou o texto de forma mais extrema.

Regras como a asa traseira móvel geram mais gastos que resultados

Um óbvio problema do teto orçamentário é que as brigas, que hoje giram em torno do regulamento técnico, com uma equipe acusando outra de estar trapaceando, certamente entrarão no campo financeiro – como, aliás, já está acontecendo com a Red Bull. Aí é uma questão de vontade política para estabelecer formas de controle fiscal rígidos – papel da FIA, que anda quieta em relação ao assunto, e não das próprias equipes. O momento é propício, uma vez que o primeiro passo, de reconhecer que se anda gastando demais, já foi dado.

Outra questão é que, com a nova regulamentação de motores de 2013, é muito provável que as montadoras voltem a se interessar pelo esporte. O que impediria que os custos voltassem a subir? Pode-se deixar tudo nas mãos da autorregulação do mercado – confiando que as empresas tenham aprendido com os exemplos do passado ou enxerguem a nova conjuntura econômica – ou estabelecer um teto orçamentário compatível com o senso elitista e inovador da F1, ao mesmo tempo em que se assegura a saúde econômica da categoria.

Patrocinar uma grande equipe é um ótimo negócio

Mesmo que anunciar na F1 não seja nada barato, é altamente lucrativo. Até a Red Bull, cujo tipo de investimento na categoria não é nada ortodoxo, teve um ganho em chamado “valor de exposição” maior que o orçamento de suas duas equipes somadas: US$ 345 milhões gastos contra US$ 366,6 milhões obtidos em termos de imagem. Isso sem contar nas cifras acumuladas pelo título de construtores e pelas demais cotas de patrocínio que ambos os carros ostentaram durante o ano.

Também, pudera. A categoria comemorou mais um ano de crescimento em sua audiência, chegando aos 527 milhões de espectadores em 2010. Os números do ano passado não foram divulgados oficialmente, mas acredita-se que não tenham passado dos 520 milhões. Os dados desse ano significam que cerca de 27,7 milhões de pessoas estavam ligadas em cada corrida, em média. Isso, nos 188 países que recebem as transmissões da categoria.

Ganhar dinheiro de forma pouco convencional é a especialidade da Red Bull

O “valor de exposição” é o cálculo do tempo que a marca apareceu durante as transmissões transformado na quantia que seria paga caso a empresa tivesse optado por comprar uma cota publicitária de TV. Os números da Red Bull sugerem um retorno de 150% em relação ao valor investido, tanto na equipe principal, quanto na Toro Rosso. A marca monopolizou nada menos que 30,5% de toda a exposição durante as etapas do mundial, o que é explicado pelo fato de estar presente em dois times, mas principalmente por um deles ser o carro mais rápido do grid.

Melhores retornos de patrocínios em 2010

MarcaEquipeValor de exposição estimado
1º Red BullRed Bull, Toro RossoUS$ 366,6 milhões
2º VodafoneMcLarenUS$ 122,4 milhões
3º SantanderFerrariUS$ 99,3 milhões
4º PetronasMercedesUS$ 85,4 milhões
5º RenaultRenault, Red BullUS$ 69,3 milhões

Não por acaso, as equipes arrecadam grande parte de seu orçamento com patrocínio, e as cotas dos grandes times são bem mais salgadas. Uma parceria com a extensão da Vodafone – que, inclusive, dá nome à McLaren – ou do Santander na Ferrari sai entre 50 e 70 milhões de dólares ao ano. Em 2010, enquanto a primeira teve retorno de 190% do investimento, o banco espanhol chegou aos 200%. Num acordo fechado há mais tempo, antes da crise financeira, estima-se que a Phillip Morris pague cerca de US$ 100 milhões por sua propaganda subliminar nos carros vermelhos.

Além de lucro, a parceria entre McLaren e Vodafone ainda rendeu boas risadas:

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Mas não é preciso investir tanto para colocar seu nome num carro de F1 – ao menos que não se importe de ter um espaço menos visível e/ou numa equipe que apareça menos. As 141 marcas que patrocinam as 12 equipes tiveram uma exposição conjunta em 2010 que vale US$ 1,2 bilhão, média de US$ 62 milhões por GP. Cada uma delas injeta, em média, US$ 4,31 milhões ao ano – ou US$ 607,710 milhões ao todo. Ou seja, tem muita gente fazendo dinheiro por meio da categoria.

No entanto, há uma certa dose de risco envolvido. É fato que um grande patrocinador de uma das equipes que dominam o campeonato terá muita visibilidade. Mas, se sua empresa não tiver muita bala na agulha, o retorno não é tão garantido, pois sua marca pode ficar escondida no meio do pelotão e, assim, uma ferramenta de marketing mais tradicional, como os comerciais de TV, por exemplo, pode ser mais lucrativa. Por isso, as equipes pequenas têm mais dificuldade em prospectar clientes.

Orçamentos caem após o acordo de restrição de gastos

Como vimos no post de terça-feira, os gastos na F1 chegaram a um patamar tão alto em meados da primeira década de 2000 que apenas as grandes montadoras poderiam bancar. Não demorou para que as primeiras medidas fossem tomadas pela FIA, cujo então presidente, Max Mosley, tinha convicção de que, ao primeiro sinal negativo, as empresas retirariam seu investimento de uma hora para a outra, para reduzir os custos. Restrições nos motores, câmbios, carros reserva, testes, etc. Tentou-se parar, por regulamento, uma gastança que parecia incontrolável.

No entanto, os números de 2008 não eram nada animadores e uma crise financeira ameaçava assolar a categoria.

Recursos dos times em 2008

Toyota: $445.6m
McLaren: $433.3m
Ferrari: $414.9m
Honda: $398.1m
Renault: $393.8m
BMW Sauber: $366.8m
Red Bull Racing: $164.7m
Williams: $160.6m
Toro Rosso: $128.2m
Force India: $121.85m
Super Aguri: $45.6m

Total: $3,073.45m

Mas as restrições geravam um outro problema. Ao impor limitações, não estariam privando a F1 de sua vocação de explorar tudo ao máximo? As respostas dadas recentemente, com a adoção, programada para 2013, de motores 1.6 turbo trabalhando em até 12.000 rpm, mostram bem que a sobrevivência econômica falou mais alto em relação a uma das características fundamentais da F1.

Em 2009, vendo que as restrições não estavam surtindo o efeito desejado, Mosley partiu, então, para um saída mais radical: impor um teto orçamentário de cerca de 65 milhões de dólares, excetuando o gasto com marketing e o salário dos pilotos e funcionários do alto escalão. É lógico que a ideia foi mal recebida pelas equipes, que chegaram a ameaçar formar uma categoria paralela.

Mosley apertou demais as equipes e acabou fora da FIA

Talvez o teto tenha sido tão mal recebido por impor uma quantia máxima exageradamente pequena de uma hora para a outra. Talvez a ideia de ter a FIA controlando as contas não soou bem para algumas equipes. O fato é que a associação dos times (FOTA) ganhou a queda de braço com a federação ao propor o acordo de restrição de recursos (RRA), que prevê a diminuição paulatina de gastos, incluindo regras para o uso de túneis de vento/CFD e número de funcionários (280 em 2011).

Houve algumas mudanças no texto original durante negociações em 2010, que afrouxaram as restrições em si e apertaram a fiscalização. As regras atuais valem até 2012, quando um novo acordo, que já está sendo costurado, entrará em vigor.

O RRA prevê multas em dinheiro para quem desrespeitar as regras. Por exemplo, se um time passar do limite em 5%, deixa de receber a mesma quantidade dos recursos garantidos pela posição no mundial de construtores. Quanto maior a infração, maior a multa – de 5-10%, o valor é multiplicado por 1.1, e assim em diante. Há suspeitas de que a Red Bull tenha gastado mais do que deveria ano passado, mas nenhuma ação formal foi tomada até agora.

Orçamentos de 2010

EquipeNº de funcionáriosOrçamento
Scuderia Ferrari900US$ 325 milhões
McLaren Mercedes550US$ 298 milhões
Mercedes Grand Prix600 (450  Brackley e 150 Stuttgart)US$ 251 milhões
Red Bull Racing550US$ 203 milhões
Renault F1 Team494US$ 142 milhões
Scuderia Toro Rosso257US$ 142 milhões
AT&T Williams500US$ 122 milhões
Force India F1 Team280US$ 108 milhões
BMW Sauber F1260US$ 101 milhões
Lotus F1 Racing260US$ 88 milhões
Virgin RacingdesconhecidoUS$ 61 milhões
HRT F1 TeamdesconhecidoUS$ 54 milhões

Essa conta da Renault particularmente parece discrepante, uma vez que, além de fabricar seus motores, foi divulgado que os 15 milhões que Vitaly Petrov traz para o time representam 7% do orçamento. Ou seja, se esses 15 milhões forem em euros, a conta final da equipe é de US$ 285 milhões; se for em dólares, “apenas” US$ 214 milhões.

O quanto Petrov gasta sozinho dos 15 milhões que traz à Renault não se sabe

O interessante é perceber o quanto a McLaren gasta, mesmo sendo cliente dos motores Mercedes. Uma vez que seu projeto é desenvolver o próprio propulsor a partir de 2016, a quanto chegará essa conta?

Há ainda equipes que terceirizam outros componentes, o que também ajuda a economizar. Isso implica em menos funcionários e na economia do desenvolvimento. Com isso, uma empresa como a Williams, que visa usar as tecnologias desenvolvidas na F1 para vendê-las ao mercado automobilístico, acaba tendo um gasto maior na F1 que, por exemplo, a Force India. Como a diferença entre ambos é de apenas 14 milhões de dólares, fica claro o malabarismo que a equipe de Grove faz.

O fato é que os times têm gastado menos. Com a saída de várias montadoras, sobre as quais falamos em detalhe ontem (aqui e aqui), os orçamentos diminuíram 10% em média já em 2009. Em relação a 2010, a queda foi de 35%. Mesmo assim, o orçamento das 12 equipes juntas chega perto de 1,8 bilhões de dólares, pagos em parte pelos 175 patrocinadores que a categoria reúne. Cada um deles injeta, em média, 4.31 milhões de dólares ao ano. Mas patrocínio é um assunto para amanhã.

Contar com as pessoas certas é uma das chaves do sucesso

Como vimos no post anterior, a relação entre investimento e sucesso na F1 não é direta. Talvez o exemplo mais curioso seja dos alemães da BMW. Tudo bem que sua meta de fazer frente à rival Mercedes, uma marca tradicional na F1, cuja parceria com a McLaren se mostrara vencedora, era um tanto inglória, mas tudo levava a crer que eles estavam no caminho certo. Apesar de terem sido fornecedores de motor no passado, a ligação com a Williams, que teve início em 2000, parecia levá-los a uma incorporação ou, ao menos, a um modelo semelhante ao do concorrente. Os alemães injetaram muito dinheiro na equipe de Grove, que contou com o segundo maior orçamento, ficando atrás apenas da Ferrari, em 2002: os US$ 353.3 milhões resultaram num vice-campeonato de construtores.

Só faltou a última meta para a BMW: disputar o título

Como a incorporação da Williams encontrou uma grande barreira nos chefes da equipe, a solução foi a compra da Sauber, em 2006. Com o total controle do time, a BMW estabeleceu uma meta: pontos no 1º ano, pódios em 2007, vitórias em 2008 e lutar pelo campeonato no ano seguinte. O orçamento foi mantido no mesmo nível dos tempos de Williams – embora os rivais tenham aumentado bastante seus gastos na época, levando a agora BMW Sauber ao 6º lugar entre os mais gastadores – e os planos corriam bem, até que o mal nascido carro de 2009 deixou o time bem longe das pretensões da montadora. Alegando preocupações ambientais, os alemães deixaram a F1 quando viram que, além de investimento e planejamento, era necessário ter paciência para vencer na categoria.

Foi o que não faltou à Red Bull. Como Mark Webber bem disse após vencer em Mônaco ano passado, eles um dia foram a piada do paddock e hoje são o time a ser batido. Investiram bastante e de maneira planejada, assim como a BMW, mas perceberam que a F1 traz algumas surpresas e não é tão engessada quanto as metas alemãs.

Ao final de 2004, a Jaguar vendeu sua estrutura em Milton Keynes para o milionário austríaco do ramo de bebidas energéticas Dietrich Materschitz, pelo preço simbólico de US$ 1 somado à promessa de investir US$ 400 milhões nos 3 anos seguintes. Materschitz passou, então, a recrutar profissionais de outras equipes, como Gerhard Berger, Adrian Newey, Geoff Willis e Neil Martin, ao invés de contratar pilotos caros. Preferiu trazer David Coulthard e Mark Webber já em fim de carreira, para ajudar a desenvolver o carro, e apostou em jovens talentos de seu programa de desenvolvimento. Embora tenham sofrido muitas quebras nos primeiros anos, o time logo deu um salto de produção em relação aos anos de Jaguar, pulando de 10 para 34 pontos já na 1ª temporada.

Tudo bem que a Red Bull se esforçou para virar a piada do paddock

Mesmo assim, o time ainda era tido pelos concorrentes como apenas uma ferramenta de marketing da Red Bull, e não como uma equipe séria. Mas a genialidade do projetista Adrian Newey finalmente fez a diferença e, aproveitando-se das mudanças no regulamento de 2009, lá estava a “piada do paddock” lutando pelo campeonato até a penúltima etapa. E em 2010, com a evolução do carro, veio o primeiro título de pilotos e de construtores.

O orçamento da Red Bull, pelo menos oficialmente, não é dos maiores, mas os cerca de US$ 200 milhões têm sido suficientes para acompanhar o ritmo de desenvolvimento dos gigantes Ferrari e McLaren. Se as acusações dos rivais, de que o time vem desrespeitando o acordo de restrição de gastos, nosso assunto de amanhã, são choradeira de perdedor ou verdade, é difícil saber. O fato é que eles são um exemplo de como investir corretamente na F1.

Dinheiro não é garantia de felicidade na F1

É comum ter os times que lutam pelo campeonato encabeçando a lista dos maiores gastadores a cada temporada, o que leva à conclusão inicial de que dinheiro é fundamental neste negócio. Porém, isso não é regra. A invasão das montadoras na categoria, que marcou a primeira década dos anos 2000, foi a demonstração prática de que um grande orçamento não é prova de sucesso. Os japoneses da Toyota e da Honda, para citar os exemplos mais claros, gastaram os tubos e abandonaram a “brincadeira” de mãos abanando.

Os maiores times têm mais recursos porque atraem mais patrocinadores e gastam mais porque têm os melhores profissionais a bordo e continuam desenvolvendo o carro, em paralelo à concepção do modelo do ano seguinte, até a última prova, caso estiverem lutando pelo título.

Um time médio até gostaria de gastar todo o possível, mas o normal é que tenha mais dificuldade em atrair patrocínio e investimento. A não ser, é claro, que ele seja controlado por uma grande empresa disposta a investir o que for preciso para promover sua marca.

Os mais otimistas podem dizer que a Red Bull sempre teve a vitória em seu DNA

Ainda mais se esta empresa for uma montadora de carros: qual a valia para quem trabalha com automóveis manter uma equipe de F1 que não vence? Qual a mensagem que você mandaria para seus possíveis consumidores se andasse no meio do pelotão?

Paralelamente a isso, a manutenção do investimento no esporte está interligada ao desempenho financeiro da montadora fora dele. A Ford, dona da Jaguar, foi a primeira a pular fora do barco. Seu investimento não era dos maiores – estima-se que, depois de comprar a Stewart por cerca de US$ 100 milhões, investiu cerca de US$ 160 milhões por ano, praticamente uma barganha quando o assunto é F1. Não coincidentemente, caiu do 4º lugar que o time do tricampeão Jackie Stewart havia conseguido em 1999 para o 9º lugar no ano seguinte, com apenas 4 pontos marcados. Não melhorou muito nas temporadas seguintes, marcando uma média de 11,25 pontos por ano até vender a equipe para o milionário Dietrich Materschitz, dono da fabricante de energéticos Red Bull. Pouco tempo antes, quedas nos lucros da Ford foram anunciadas.

A história recente também mostrou que, assim como a economia, a abundância também não é garantia de sucesso. A Honda percorreu o mesmo caminho da Jaguar: começou fornecendo motores para a BAR e tomou o controle definitivo da equipe em 2005. O orçamento da BAR-Honda já não era dos mais enxutos: US$ 225.1 milhões em 2002, por exemplo, mas chegou perto dos US$ 400 milhões em 2008.

Após um começo animador, com o 4º lugar entre os construtores em 2006 e um ótimo campeonato de Jenson Button, o time caiu drasticamente de produção e marcou apenas 20 pontos se somados os dois anos seguintes. Em meio a notícias de prejuízos da montadora, os japoneses anunciaram sua saída da F1 no final de 2008.

Japoneses deram dois exemplos de como não fazer na F1

Curiosamente, apostando todas as suas fichas num grande pacote de mudanças nas regras, o time havia contratado Ross Brawn, um dos pilares da era Schumacher na Ferrari, e concentrara seus investimentos e esforços, que incluíam a utilização simultânea de 2 túneis de vento, no projeto de 2009. Desistiram meses antes de ver o fruto de todo esse esforço detonar a concorrência e dominar o campeonato, sob o nome de Brawn.

Especula-se que o estilo de gestão japonês, mais horizontal, e a consequente demora na tomada de decisões tenha sido o fator chave para o fracasso da Honda, teoria que ganhou força com a ainda mais desastrosa experiência da Toyota na categoria.

Eles estouraram todos os limites do que se imaginava ser possível gastar na F1: com um orçamento beirando os US$ 450 milhões anuais, marcaram em média 34,8 pontos em cada um de seus 8 anos na categoria. Em outras palavras, gastaram quase US$ 13 milhões por ponto! A média é alavancada pelos 88 pontos de 2005, um ano atípico para quem nunca passou do 2º lugar em nenhuma das 276 oportunidades que teve (contando ambos os carros).

O fato de terem insistido em pilotos experientes que nunca tiraram aquele algo a mais do carro, como Olivier Panis, Ralf Schumacher e Jarno Trulli, ou a falha em formar um corpo técnico mais eficiente são algumas das explicações plausíveis para o insucesso da Toyota, que contou com investimento e paciência de sobra. Mas o fato é que o time viveu uma montanha-russa de resultados e, já sem a concorrente Honda fazendo-lhe sombra, decidiu abandonar seu projeto ao final de 2009. E a verdade é que não fez falta.

Red Bull e Ferrari um passo à frente de Mercedes e McLaren

Tudo indica que Adrian Newey acertou a mão outra vez

Sabemos que uma equipe tem um bom teste quando não passa por muitos problemas, não necessariamente quando seus carros lideram a tabela de tempos. E, nesta ótica, Red Bull e – um degrau abaixo – Ferrari têm motivos para estarem confiantes ao menos para este início de temporada.

Vendo os carros desfilarem pelo circuito de Barcelona, o comentarista da TV britânica e ex-piloto Martin Brundle fez a seguinte análise: “A Mercedes tem tração ruim, a McLaren parece como se estivesse em pneus frios o tempo todo, as demais balançando”. Fica óbvio que todos têm trabalho a fazer.

É claro que ainda há tempo para se encontrar em meio aos dados coletados nestas 3 sessões de testes e acrescentar pacotes, principalmente aerodinâmicos, que podem mudar a história daqui para frente, mas, ao mesmo tempo em que Red Bull e Ferrari apresentam boa confiabilidade e bom ritmo nos long runs (várias voltas em sequência, simulando situações de corrida), McLaren e Mercedes acumulam problemas.

Os alemães pareceram evoluir nestes 4 dias de testes em Barcelona, completando 427 voltas e algumas simulações. No entanto, não se livraram totalmente do que os ingleses chamam de “gremlins” no carro, especialmente em seu KERS, e também não chegaram a empolgar no ritmo dos long runs. O diretor Norbert Haug admitiu que, se o campeonato começasse hoje, seus pilotos estariam fora do top 10. Pode estar blefando, mas parece que a briga da flecha de prata é mais com a Renault que com os times dominantes.

Quanto as equipes andaram até agora nos testes

EquipeVoltas em BarcelonaTotal
Ferrari4351184
Red Bull3491002
Mercedes427968
Sauber392926
Renault363867
Force India*272863
Williams351863
Toro Rosso317847
McLaren*331843
Virgin329764
Lotus251429
Hispania**188375

*usaram o carro do ano passado nos primeiros testes

**ainda não estreou o carro de 2011

Embora também use o KERS Mercedes, a McLaren pode, ao menos, confiar no equipamento. Seus problemas são outros, decorrentes do risco assumido com o novo projeto: de tão inovador, qualquer pequena mudança se torna uma odisseia para os engenheiros. Além de ter lançado o carro após o primeiro teste, a equipe também se mostra indecisa em relação a qual a melhor saída para os escapamentos – o que demanda tempo: o time demorou 2h para reposicionar o escapamento no teste de Jerez. Nada disso ajuda a garantir quilometragem. Hamilton conseguiu, enfim, cruzar a barreira das 100 voltas no último dia de Barcelona, mas o time contabilizou apenas 331 nos 4 dias.

McLaren anda sofrendo com carro inovador

Para exemplificar os problemas do time de Woking, no sábado Hamilton deveria fazer uma saída de 11 voltas. Ao invés de fazê-las em sequência, a cada uma que completava, voltava aos pits para mexer no carro. Terminou o dia um pouco cabisbaixo. “Vejo o Webber fazer 139 voltas e só posso rir”, admitiu. O inglês também parece, observando seu ritmo nas saídas mais longas que fez até agora, estar castigando mais os pneus que os rivais. Na próxima bateria de testes, a partir do dia 8 de março, poderemos ter uma ideia melhor do verdadeiro ritmo da McLaren.

A volta de Felipe Massa no final do treino de Barcelona foi numa simulação de classificação mas, como a Red Bull ainda não tirou o máximo do carro, seu melhor tempo entre os 4 dias não quer dizer muita coisa. Os engenheiros acreditam que os atuais campeões mundiais estejam 0.4s à frente da Ferrari. Como o melhor tempo do 3º dia, de Nico Rosberg, também foi resultado de um ensaio de uma volta lançada, podemos dizer que a Mercedes, 0s5 mais lenta que a Ferrari, tem muito trabalho pela frente.

Alguersuari disse acreditar que a Toro Rosso está à frente entre as intermediárias. Curiosamente, o espanhol afirmou que seu carro está entre 0.8s a 1s dos Red Bull, enquanto Rubens Barrichello vê 0.7s entre sua Williams e os atuais campeões. O fato é que ambas as equipes parecem ter melhorado, embora o KERS esteja dando uma dor de cabeça e tanto ao time do brasileiro.

Como a Sauber se beneficiou do uso de todo o conjunto traseiro da Ferrari, incluindo a suspensão, é esperado que a equipe de Kobayashi e Perez também deixe a Force India para trás.

É difícil julgar o ritmo da Lotus, que tem mostrado velocidade – calcula-se que o time tenha ganhado 1s em relação ao ano passado – e falta de confiabilidade. O fato de andarem sem o KERS no início da temporada pode custar caro, principalmente nas largadas. A Virgin, por outro lado, tem conseguido dar diversas voltas, mas fica devendo no quesito performance.

Para onde vai o orçamento das equipes de F1?

Os custos da F1 são maiores que das demais categorias porque esta é a nata do automobilismo. É um campeonato de construtores, então o custo do carro de F1 é muito maior, uma vez que uma das funções da categoria é desenvolver e se equipar com tudo o que há de melhor quando o assunto são carros de competição. É claro que uma fatia considerável é gasta com marketing, mas qual seria o sentido de tanta abundância se ninguém fosse lucrar?

O aumento da importância da tecnologia a partir do final dos anos 1980 já começou a escalonar os gastos, que chegaram a números impressionantes em meados da primeira década de 2000. Capitaneados por seis montadoras (considerando a Mercedes como parceira e então acionista da McLaren), os orçamentos chegaram aos 450 milhões de dólares ao ano.

Não por acaso, a FIA passou a impor regras que limitavam alguns grandes focos de gastos e foi fechado um acordo entre as equipes para que os investimentos caíssem, mas isso é assunto para quinta-feira.

A restrição aos motores não é coincidência

Uma das restrições é no motor, que hoje tem que durar, efetivamente, 2,5 finais de semana de corrida, embora as equipes utilizem os propulsores de forma menos ortodoxa. Olhando a “tabela de preços”, a FIA acertou em mirar primeiramente neles. Os motores representam grande parte do orçamento – e explicam em parte porque times que fazem seus próprios modelos estão na frente em qualquer lista de gastos.

Outra peça que compromete o orçamento é o câmbio. Não coincidentemente, o atual regulamento prevê que o equipamento tem que durar 5 corridas. Veja o valor estimado de alguns componentes:

Quanto custa cada peça de um F1

Motor US$ 214.300
Monocoque US$ 117.900
Câmbio US$ 148.600
Telemetria US$ 137.150
Sistemas eletrônicos US$ 54.500
Suspensão US$ 35.300
Asa dianteira US$ 21.500
Asa traseira US$ 12.900
Escapamento US$ 11.600
Volante US$ 12.500
Tanque US$ 10.700
Bodywork US$ 8.500
Roda (4x) US$ 7.200
Visor do volante US$ 5.200
Caixa de direção US$ 4.300
Discos de freio (4x) US$ 4.800
Pneus (4x) US$ 2.600
Pedais US$ 2.200
Espelhos US$ 1.300

De acordo com uma estimativa publicada na revista F1 Racing de março de 2008, o motor aparece como o grande vilão das contas das equipes. É claro que quem compra as unidades não consome tanto de seu orçamento com o equipamento. Na outra ponta, a exploração de tecnologias no desenvolvimento dos propulsores é interessante para as companhias que os fornecem, o que justifica o investimento maior.

Equipes como a Honda tinham 2 túneis de vento operando 24h por dia

Divisão de Gastos

Motor 50%
Pesquisa e desenvolvimento 8,8%
Produção de peças 7,5%
Equipamentos 6,3%
Equipe de corrida 6,3%
Pilotos 5%
Equipe de testes 5%
Sistemas hidráulicos 3,8%
Aluguel, contas gerais 3,8%
Prospecção de patrocinadores 3,8%

Em dados de 2004, antes das restrições impostas pela FIA, aparece outro comedor de dinheiro, o túnel de vento, cujo uso é bastante restrito hoje em dia. As maquetes em tamanho real só podem ser utilizadas 4 vezes por ano (se não forem realizados testes em linha reta). No restante do tempo, apenas escalas de até 60% são permitidas. Outro gasto que anda bem mais reduzido é com os testes, que geravam contas ainda mais “gordas” e hoje não podem passar de 15.000km por equipe. Por outro lado, essa restrição fomenta o uso dos simuladores, longe de ser uma tecnologia barata.

Pesquisa e desenvolvimento

1. McLaren $25.50m
2. Toyota $25.10m
3. Williams $22.60m
4. Ferrari $22.40m
5. Renault $18.70m
6. Sauber $18.06
7. BAR $17.40m
8. Red Bull $11.40m
9. Jordan $7.50m
10. Minardi $7.02m

Túnel de vento

1. Ferrari $11.25m
2. McLaren $9.96m
3. Williams $9.76m
4. Toyota $8.95m
5. Sauber $8.78m
6. BAR $7.80m
7. Renault $6.18m
8. Red Bull $3.95m
9. Jordan $3.20m
10. Minardi $0.38m

Produção de peças

1. Toyota $3.40m
2. Ferrari $3.20m
3. McLaren $2.70m
4. BAR $2.40m
5. Williams $2.25m
6. Sauber $1.70m
7. Renault $1.62m
8. Red Bull $1.45m
9. Minardi $0.75m
10. Jordan $0.64m

Motores

1. Toyota $192.50m

2. BAR (Honda) $181.50m
3. Williams (BMW) $169.00m
4. Ferrari $165.00m
5. McLaren (Mercedes Benz) $144.00m
6. Renault $121.00m
7. Red Bull (Cosworth) $66.00m
8. Sauber (Ferrari) $28.00m
9. Jordan (Toyota) $10.50m
10. Minardi (Cosworth) $10.00m

Viagem e acomodação

1. Ferrari $17.61m
2. Toyota $12.72m
3. McLaren $11.74m
4. Williams $9.10m
5. BAR $7.72m
6. Renault $7.33m
7. Sauber $6.65m
8. Red Bull $4.90m
9. Jordan $4.16m
10. Minardi $0.95m

Testes

1. McLaren $64.96m
2. Williams $63.04m
3. Ferrari $62.72m
4. BAR $56.64m
5. Toyota $53.06m
6. Renault $28.40m
7. Sauber $20.00m
8. Red Bull $4.88m
9. Jordan $4.20m
10. Minardi $1.78m

Equipe de corrida

1. Ferrari $35.85m
2. Toyota $28.30m
3. Williams $26.16m
4. McLaren $24.13m
5. Renault $23.90m
6. Sauber $22.89m
7. BAR $22.14m
8. Jordan $20.33m
9. Red Bull $18.59m
10. Minardi $9.77m

Folha salarial

1. Ferrari $48.30m
2. Toyota $44.40m
3. McLaren $36.12m
4. Williams $35.64m
5. Renault $34.20m
6. BAR $33.30m
7. Sauber $32.40m
8. Red Bull $26.28m
9. Jordan $15.40m
10. Minardi $7.60m

Salário dos pilotos

1. Ferrari $51.00m
2. McLaren $31.00m
3. Toyota $24.00m
4. Renault $11.00m
5- BAR $8.00m
5- Williams $8.00m
7. Sauber $4.00m
8. Red Bull $3.00m
9. Minardi $0.60m
10. Jordan $0.50m

Eventos corporativos

1. Williams $10.04
2. Ferrari $8.91
3. McLaren $8.24
4. BAR $6.69
5. Renault $6.21
6. Toyota $5.76
7. Sauber $3.96
8. Red Bull $2.59
9. Jordan $1.35
10. Minardi $0.40

Prédios e equipamentos

1. Ferrari $426.24
2. Toyota $397.21
3. McLaren $359.33
4. Williams $355.59
5. BAR $343.59
6. Renault $258.54
7. Sauber $146.44
8. Red Bull $143.04
9. Jordan $67.78
10. Minardi $39.25

O único que não quer saber de cortes orçamentários é Bernie

A notícia pode ficar um tanto escondida em meio ao furor pelo óbvio cancelamento do GP do Bahrein, sobre o qual já discutimos (em duas oportunidades, aqui e aqui), mas tem até mais importância. Quase simultaneamente, autoridades ligadas aos GPs da Austrália e da Espanha declararam que suas corridas correm risco de deixar de acontecer num futuro próximo.

Isso se enquadra muito bem no nosso tema da semana, sobre os orçamentos da F1. Ao mesmo tempo em que as regras restringem gastos e as equipes se comprometem a diminuir suas contas, Bernie Ecclestone continua fazendo contratos de cifras inimagináveis para simplesmente ceder o direito de que um país organize uma etapa do campeonato.

Os preços variam e dependem do poder de barganha da localidade. Um GP querido no calendário e que produz grandes disputas – o que gera visibilidade e, é claro, dinheiro – como o do Canadá ganhou um “desconto” para voltar à temporada em 2010, depois de não ter o contrato renovado no ano anterior. Especula-se que Montreal pague hoje 11 milhões de euros. Bastante, mas ainda longe dos 20 milhões da Turquia ou dos 60 do Bahrein.

Os australianos há tempos não andam felizes com seu evento. Primeiro, eram questões ambientais, somadas agora a sucessivos prejuízos com a queda no interesse local e aumento nas contas. “Era um bom negócio em 1996, quando custava ao governo apenas US$ 1.7 milhões mas, com a diminuição do público e os contribuintes tendo que arcar com US$ 15 milhões por ano, o governo deveria minimizar as perdas e cair fora”, disse o parlamentar Michael Danby, que afirmou ter feito uma pesquisa com moradores e revelou ter o apoio de 90% dos 600 entrevistados.

Asturianos em peso em Barcelona

Mas o exemplo mais emblemático é o da Espanha. O evento reúne mais de 100.000 espectadores somente aos domingos desde o estouro do fenômeno Alonso e, mesmo assim, dá prejuízo. Além disso, o país anda assustado com a crise financeira. “Todos sabem que temos restrições no orçamento e que a F1 é deficitária. Mas também temos que considerar o impacto econômico e como o evento promove o país”, disse Artur Mas, presidente da Catalunha, que disse não garantir a realização da prova até o final do contrato atual, em 2016.

Eles não são os únicos organizadores descontentes. Outros GPs que reúnem bom público e se tornaram tradicionais no calendário, como Bélgica e Alemanha, recentemente reportaram prejuizos e ameaçaram retirar seus eventos caso as taxas não sejam revistas. O GP da Inglaterra – outro que está sempre lotado de entusiastas – correu, recentemente, sério risco de não acontecer já que, sem apoio governamental, os organizadores tiveram dificuldades na arrecadação de fundos para fazer as reformas necessárias para competir com as obras faraônicas dos circuitos recém-integrados ao circo.

O que tem acontecido é que, mesmo levando-se em conta o impulso econômico que a visita da F1 dá a qualquer cidade – é o evento que gera mais dinheiro para uma gigante como São Paulo, por exemplo – o custo da organização está se tornando insustentável.

É uma tendência que Ecclestone cisma em não enxergar, maravilhado pelos candidatos que não param de aparecer, desde os norte-americanos até os russos. Mas quanto tempo demorará para eles receberem a conta e perceberem que os números não se encaixam? Será que já teremos perdido Spa, Hockenheim, Silverstone, e todos os outros circuitos que nos trazem boas corridas até lá?

Liberar a cabeça dos engenheiros ou os gastos das equipes?

“Os melhores pilotos, guiando, nos melhores circuitos, os melhores carros, feitos pelos melhores engenheiros. A Fórmula 1 é, essencialmente, uma categoria elitista. Isto está em seu DNA, foi por isto que ela foi criada, nos anos 1950. E, por ser a nata do automobilismo, é a que atrai maior atenção da mídia, de gente chegada em poder e em dinheiro.

A principal diferença da F1 para as demais categorias do automobilismo é ser, em essência, um campeonato de construtores. O fato de cada equipe ter que construir seu carro e de haver uma competição milionária entre os times fez com que os gastos crescessem exponencialmente ao longo do tempo. E, especialmente nos últimos 2 ou 3 anos, isso se tornou muito fora de moda. O mundo está percebendo que uma abordagem sustentável é a saída mais inteligente para continuar crescendo. Mesmo as economias emergentes que Bernie Ecclestone foi caçar no Oriente Médio e no Sudoeste Asiático vão secar – ou implodir, como estamos assistindo no Bahrein. É fácil entender, portanto, por que a F1 anda tão preocupada com seus gastos.

A Toyota mostrou que dinheiro não traz felicidade na F1

Somado a isso, a engenharia (particularmente, a aerodinâmica) evoluiu tanto que já não serve mais para as corridas de automóvel. Os modelos de hoje são tão perfeitos que usam todo o ar “bom” para si e jogam o resto para fora. Aí também fica fácil entender por que um carro feito para andar de cara para o vento não consegue seguir outro, que joga todo o ar “turbulento” para trás.

Não adianta falar em volta do efeito solo, freios menos eficientes, o que for: hoje há tecnologia para melhorar tudo o que já funcionou para dar emoção às corridas um dia”.

Este é um trecho do post que publiquei hoje no PodiumGP e que abre a discussão aqui no FasterF1 dessa semana: por que se gasta tanto na F1? Onde se gasta? Como tornar a categoria sustentável, sem mexer em seu DNA de ser a nata do automobilismo?

O que a F1 está esperando?

A Federação Internacional prefere um silêncio lacônico, Bernie Ecclestone tenta convencer a todos que a situação no Bahrein está melhorando e a associação das equipes (FOTA) chega à conclusão de que o melhor é seguir a recomendação das autoridades – do automobilismo, não do país. Todos esperam que a decisão de cancelar o primeiro grande prêmio de 2011, que hoje parece inevitável, não tenha que ser tomada.

O fato é que a F1 está cheia de conexões com monarquias árabes “amigas” do Ocidente. Parte da equipe de GP2 do filho de Jean Todt, presidente da FIA, é de investidores do próprio Bahrein. A Williams tem negócios no Qatar, a Ferrari tem um grande patrocinador e um parque temático com seu nome nos Emirados Árabes Unidos e a McLaren – cujo chefe também é presidente da FOTA – tem 41% de suas ações nas mãos justamente do governo que anda sendo questionado por sua própria população, que protesta diariamente em busca de voz ativa e mais igualdade social. Isso sem contar o contrato que, especula-se, gira em torno dos 60 milhões de euros para que os barenitas garantam seu enfadonho circuito como palco da abertura da temporada.

Bernie e o Príncipe do Bahrein

Ninguém, é claro, quer correr o risco de sair no prejuízo. Preferem esperar a situação se acalmar – ou “tudo explodir de vez”, como disse Ecclestone – para respirar aliviados e embarcar o restante do equipamento ao Bahrein, como se nada tivesse acontecido. Já vimos um esforço parecido, mesmo que a incerteza naquele momento fosse causada por outros motivos, na Coreia no ano passado. Falando em equipamentos, boa parte já foi enviada ao Bahrein, o restante iria nesta semana para os testes, de 3 a 6 de março – datas, inclusive, já devidamente reservadas também no circuito de Barcelona. Mais um motivo para estranhar a lentidão em se tomar uma decisão.

Seria difícil imaginar que o governo barenita conseguisse garantir a segurança de todos os envolvidos na F1 se continuasse a responder com o uso da força. Estamos falando de algumas centenas de pessoas, dentre elas muita gente importante no mundo dos negócios, muita gente com seguros que possivelmente não permitirão que corram tal risco, muita gente que seria um alvo preferencial. Isso sem contar na recente recomendação de países como Reino Unido e Estados Unidos, de que seus cidadãos cancelem qualquer viagem “não essencial” ao país. É lógico que explodir tudo de vez não seria muito inteligente, mesmo a curto prazo. Não coincidentemente, o príncipe do Bahrein vem tentando uma saída política para a crise.

Assim, deixariam de perder o dinheiro negociado com Ecclestone e teriam uma chance e tanto de propagandear sobre como são fundamentais para a saúde financeira e a ordem do país, como merecem ficar no poder. E não há dúvidas de que a F1 aceitaria se prestar ao papel de palco para o desfile dessa ditadura bem disfarçada, pelo menos aos olhos do Ocidente.

Como Ecclestone já declarou que a decisão está nas mãos do príncipe, se a prova não acontecer, são os barenitas que arcarão com o prejuízo. E o velho Bernie pode lavar as mãos.

Por mais que todos neguem que queiram se associar com um país de liberdades restritas, por mais que digam que só aparecem por lá uma vez por ano para correr, a F1 está envolvida até o pescoço com essa gente. A rápida dissipação dos protestos e a vitória do governo barenita é tudo por que FIA, Ecclestone e FOTA estão esperando.

Novas regras trazem sentido à volta do KERS em 2011

Depois de um ano abandonado por comum acordo entre as equipes – nunca deixou de constar no regulamento – o KERS, ou sistema de recuperação de energia cinética, volta com tudo em 2011. Com o ajuste do regulamento, o equipamento que foi usado apenas pelas maiores equipes em 2009, quando foi introduzida, será imprescindível neste ano.

O KERS é um sistema de baterias que capta a energia calorífica gerada pela frenagem e a transforma em energia cinética. Trata-se de uma das alternativas de reaproveitamento energético e é, portanto, uma das apostas para tornar a indústria automobilística mais “verde”. Voltando à F1, quando se aperta um botão no volante, essa energia é transformada em potência e ajuda a incrementar a velocidade final. Seu uso está limitado por regulamento em 6s6 por volta, gerando cerca de 80cv.

Não é exatamente um mar de potência, o que gerou um problema de custo/benefício em 2009: além do alto valor do projeto em si, como o peso mínimo do conjunto piloto + carro era de 605kg, muitos acharam que era comprometer demais a balança para obter dividendos de menos. Como resultado, apenas 4 equipes começaram o ano utilizando o aparelho: BMW, Renault, Ferrari e McLaren.

As duas primeiras logo pularam fora, enquanto a Ferrari, que parecia não conseguir tirar tanto proveito da potência extra quanto os rivais, selecionava certas pistas para utilizar o aparato, sendo a McLaren a equipe que mais apostou no KERS – e acabou sendo a dona da primeira vitória de um carro equipado com ele, no GP da Hungria.

Mecânicos com luva de borracha em volta do carro é sinal de KERS ativo

Dessa vez, no entanto, o KERS tem tudo para ficar. Ao contrário dos primeiros modelos, que pesavam por volta dos 40kg, a Mercedes anuncia que seu KERS para 2011 não passa dos 25kg.

O limite mínimo de peso do conjunto carro + piloto foi aumentado dos 605kg de 2009 para 640kg, o que elimina a questão da balança. O problema, agora, é outro: com o fim do reabastecimento, as equipes terão que ser criativas para encaixar as baterias junto de um tanque de combustível consideravelmente maior que o usado em 2009. Isso, tendo que balancear o excesso de peso concentrado na traseira com a necessidade de gerar o mínimo possível de carga nos pneus (ainda por cima pneus Pirelli, menos duráveis que os Bridgestone).

Esse aumento no limite de peso, no entanto, não elimina a necessidade de pilotos que são mais pesados que seus companheiros terem que emagrecer. Mark Webber, Jenson Button e, em menor escala, Fernando Alonso, terão que suar a camisa para reduzir a desvantagem para seus companheiros “baixinhos”. Quanto mais leve o piloto, maiores as possibilidades de jogar com os lastros.

O KERS não é necessariamente um sistema de baterias. Exemplo disso é o sistema mecânico, por meio de uma turbina, que a Williams desenvolveu (mas não usou) em 2009. A engenhoca continuará no armário por enquanto, já que não há espaço para a turbina com o tanque de combustível atual, mas trata-se de uma boa solução para 2013, quando a F1 usará motores menores e menos beberrões, de 4 cilindros. Na oportunidade, inclusive, espera-se uma boa melhora na potência que pode ser gerada pelo KERS.

A partir dos 26s dá para ver o KERS de Kimi Raikkonen em ação, na largada e relargada do GP da Bélgica de 2009:
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Há um sensível ganho nos tempos de volta quando se usa o KERS, mas sua principal valia é nas largadas. Isso porque o sistema gera um tipo de torque que funciona muito bem em baixas rotações, daí sua larga utilização também em saídas de curva. Nada impede, no entanto, que seja usada junto da asa traseira móvel. Cabe ao piloto determinar qual o melhor momento de gastar seu ‘boost’ de 6s6/volta.

O equilíbrio de frenagem também muda com o torque a mais. Vitaly Petrov revelou que teve dificuldades nos primeiros testes. “Ainda preciso me acostumar, porque a traseira escapa com mais facilidade.” O russo, inclusive, não deve estar nada feliz com a escolha de Nick Heidfeld como seu companheiro: tem 1,85m e 75kg, contra 1,67m e 58kg do alemão. É outro que deve entrar na fila do regime.

Mesmo com os atrativos dessa reintrodução do KERS – que poderiam ser muito maiores, claro, se o regulamento previsse um aumento de potência – as equipes menores optaram por não utilizá-lo. Também, pudera: a Mercedes, por exemplo, cobra nada menos que 6 milhões de euros (mais de R$ 13,5 milhões) por seu sistema. “Em uma volta lançada, ainda não é uma grande vantagem, mas em largadas e durante as corridas, sim. Nós só não vamos usar no início da temporada porque isso desviaria recursos de nosso setor de engenharia e cremos que precisamos acertar outras coisas antes de poder usufruir do KERS”, reconheceu o diretor técnico da Lotus, Mike Gascoyne. Além do time de Trulli e Kovalainen, Virgin e Hispania dispensaram o aparato.

Quem usa o KERS de quem

EquipeSistema KERS
Red BullRenault
McLarenMercedes
FerrariFerrari
MercedesMercedes
RenaultRenault
WilliamsWilliams
Force IndiaMercedes
SauberFerrari
Toro RossoFerrari
LotusA princípio, não usará
HispaniaNão usará
VirginNão usará

Enzo não viu a época mais vitoriosa da Ferrari

Neste último dia do especial sobre a vida e obra de Enzo Ferrari, feito a quatro mãos com o Café com F1, passaremos para os últimos anos da equipe, que viveu um verdadeiro período de glória na década anterior com Michael Schumacher e sua turm.

A fase na equipe não era nada boa. O último título havia sido conquistado em 1979 com o sul-africano Jody Scheckter e, daí para frente, o que se viu foi um período de bastante confusão na gerência da equipe, que resultou nestes anos de jejum, assim como uma traumática transição dos motores aspirados para os turbo e as tragédias que tiraram Gilles Villeneuve e Didier Pironi de comcate quando a Scuderia tinha feito um bom carro, em 1982. Coincidentemente, foi em 79 que Luca di Montezemolo deixou o time para encarar novos desafios para a carreira. Na década de 90, o mesmo Montezemolo retorna à equipe de Maranello com um grande desafio nas costas: reconstruir a Ferrari, mas sem fazê-la perder a alma que cativou milhares de fãs ao redor do mundo.

Schumacher admite que ir para a Ferrari em 96 foi a maior loucura que fez na carreira

Começou-se aos poucos a montar uma seleção de profissionais para retornar ao pelotão da frente. O começo não foi fácil, nem Nigel Mansell ou Alain Prost deram certo em Maranello. No fim de 1993, tentou fechar com o brasileiro Ayrton Senna, para que o piloto encabeçasse o projeto de levar a equipe ao título, mas ele preferiu fechar com a Williams. Para chefiar o time dos boxes, Montezemolo levou Jean Todt, que era diretor da Peugeot nos rallies. Em 1995 foi a vez de atrair a Philip Morris, gigante do setor do tabaco, que injetou um grande capital financeiro na equipe. Com o dinheiro da Malboro, foi a vez de ir atrás do piloto que levaria a equipe novamente às vitórias: Michael Schumacher, já bicampeão mundial.

A primeira temporada na equipe foi difícil, mas promissora, pois terminaram o ano com três vitórias. Para 1997, Schumacher, que já tinha a equipe nas mãos, convenceu Montezemolo a contrarar Rory Bryne e Ross Brawn, que trabalharam com ele nos títulos de 1994 e 1995. Era o que faltava para o time retornar com força a disputa do título. Em 1997 foram cinco vitórias e a disputa contra Jacques Villeneuve até o fim. Em 1998, mais seis vitórias e a briga desta vez foi contra Mikka Häkkinen. Mas o título, que era a grade meta da equipe, ainda teimava em fugir.

Em 1999, ano que a equipe completaria 20 anos de espera, era a oportunidade de ouro para conquistar o título. O carro nasceu forte, mas Michael Schumacher sofreu um acidente em Silverstone, que o tirou da disputa da temporada. Eddie Irvine, que assumiu o posto de primeiro piloto, entrou na briga pelo campeonato e levou a decisão até o fim. Schumacher voltou no fim da temporada e trabalhou para ajudar o companheiro de equipe, mas Häkkinen levou novamente o título.

Schumacher comemorando vitória com a equipe em 2000

Ano 2000, o ano da virada. Começou a era Schumacher na categoria e os frutos plantados nos últimos anos começaram a ser colhidos. Michael venceu nove das 17 provas do ano e tirou a equipe da fila de títulos. Em 2001, novamente nove vitórias em 17 provas e o bicampeonato. Em 2002, o domínio foi maior e foram 11 vitórias em 17 provas e o tricampeonato. Já em 2003 foi mais complicado, e a decisão foi para a última prova, mas foram seis vitórias e o tetra do piloto com a equipe. 2004 foi covardia, tanto que obrigou a FIA a mudar o sistema de pontuação: 13 vitórias, sendo que 12 foram nas 13 primeiras provas. Quinto título da parceria com o time de Maranello.

Tamanho domínio tinha que acabar em alguma hora e em 2005 a Ferrari viu a Renault e a McLaran passearem, pois os pneus Michelin eram bem mais rápidos que os Bridgestone. Em 2006, o alemão pendurou as luvas em grande estilo, vencendo mais sete vezes e ficando com o vice-campeonato. Não acabou aí o sucesso da Ferrari na década. Em 2007, Kimi Räikkönen substituiu Schumacher na equipe e logo no primeiro ano conquistou mais um título para o time, o sexto da década que entrou para a história.

Kimi Räikkönen, o último campeão da equipe. Até quando?

A equipe criada por Enzo Ferrari no fim da década de 40 tornou-se uma potência, tanto nas competições quanto nas vendas, e conquistou fãs nos quatro quantos do planeta. E não dá indícios de que vá diminuir o ritmo. Em 2010, lá estavam eles novamente disputando o título até a última prova, com o espanhol Fernando Alonso e, em 2011, a tendência é que eles estejam novamente na disputa. Mais do que um império, o comendador criou uma marca que se confunde com a própria F1.

A situação do Bahrein e as minas de ouro de Ecclestone

Com os conflitos entre protestantes e forças militares no Bahrein se intensificando, há uma grande possibilidade de que o último teste de pré-temporada, que seria realizado no país entre os dias 3 e 6 de março, e a prova de abertura do mundial, na semana seguinte, sejam cancelados. A GP2 Asia, marcada para este final de semana, já foi, por falta de médicos.

Um boa medida do quanto a situação é séria é a declaração de hoje de Bernie Ecclestone, que prometeu anunciar uma decisão entre terça e quarta da semana que vem. Logo ele, sempre o último a afastar qualquer chance de prejuízo, não se arrisca a dizer se a corrida será realizada ou não – claro que não consegue evitar as brincadeiras de sempre e abriu a possibilidade de fazer a corrida após o GP do Brasil, em dezembro, “uma corrida natalina”. Essa demora para um posicionamento da FIA e da FOM é praticamente uma carta branca para que o governo do Bahrein faça ‘o que for necessário’ para calar a população e evitar que o reino perca dinheiro com o cancelamento da prova – estamos falando de algo em torno de 60 milhões de euros. E isso não cheira nada bem.

Seria possível desviar os testes para a vizinha Abu Dhabi, mas dificilmente um outro GP ocuparia o lugar do Bahrein, já que parte dos equipamentos das equipes já foi enviado ao país. Seria o caso, portanto, de iniciar a temporada em Melbourne e, provavelmente, guardar o projeto do campeonato mais longo da história para depois.

Povo do Bahrein tem algo mais importante para fazer do que assistir corrida no momento

Não seria a primeira vez que um GP é cancelado por problemas políticos. Isso já aconteceu durante a ditadura argentina, nos anos 1970. O passado ainda guarda algumas histórias inacreditáveis de momentos em que a política invadiu o automobilismo, como o sequestro de Juan Manuel Fangio quando este foi a Cuba para o GP de Havana. Mas nada pode ser comparado às proporções que o esporte tomou nas últimas décadas.

Correr em países de regimes autoritários também não é novidade para uma categoria que esteve na África do Sul do Apartheid (dos anos 60 aos 80), no Brasil da Ditadura Militar (anos 70 e 80), na Argentina da Guerra Suja (de 1976 até 1981), na Espanha de Franco (começo dos anos 50, e depois entre fins dos 60 até os 70), em Portugal do Salazar (fim dos anos 50), e na Hungria socialista (final dos anos 80). Hoje, além do Bahrein, Emirados Árabes Unidos, China, Malásia e Cingapura também podem entrar na lista, ao menos, das semi-democracias que gastam montanhas de dinheiro com a F1.

Curiosamente, é a segunda vez que se fala em cancelamento em bem pouco tempo. Em outubro de 2010, era a Coreia que perigava não aprontar a pista a tempo de fazer sua estreia na categoria. A lentidão das licitações governamentais e as chuvas foram as vilãs dos coreanos, que chamaram até o exércio para aprontar o básico e realizar a prova. Em 2009, foi o GP da Espanha que esteve ameaçado, contudo mais por histeria devido à gripe H1N1 que qualquer fato mais concreto.

A questão é que a expansão comercial promovida por Ecclestone não enxerga muito mais que dinheiro. Não importa de onde ele vem, se o negócio se sustenta. O que interessa é explorar mercados e cobrar uma taxa inacreditavelmente alta por isso – acredita-se que cada GP seja negociado por um preço, enquanto o Canadá pagaria RS 25 milhões por prova, a conta da Turquia chegaria a R$ 58 milhões. Não coincidentemente, os eventos de Valência e da Austrália enfrentam oposição popular, de gente que vê muito dinheiro sendo investido em algo cujo retorno não é tão claro. Se a família real sair enfraquecida dos confrontos no Bahrein, é outra mina de ouro que tende a esvaziar.

Enzo Ferrari se vai em 1988, mas a paixão não morre

Enzo Ferrari não devia estar gostando do que via naquele 1988, então aos 90 anos. Em 14 de agosto, deixou órfã sua equipe sem ter a oportunidade de ver uma salvadora vitória em Monza, a única que escapou das mãos das McLaren Honda de Senna e Prost naquele ano. Uma rara dobradinha, nos obscuros anos 1980 da Scuderia.

Na época, Enzo já não era um líder tão ativo e já não comparecia à maioria das corridas, mas fazia questão de manter-se fiel a seus princípios: o que dizer de um homem cujos funcionários tinham medo de sequer mencionar que faltava potência nos propulsores Ferrari nas reuniões com o chefe? Se um piloto reclamava, provavelmente a crítica não chegada ao chefe, que costumava dizer que “aerodinâmica é coisa de quem não sabe fazer motor”.

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Essa era sua marca: era um líder presente e implacável. “O Commendatore queria saber tudo e todas as decisões – favorecer este e aquele piloto, exercer pressão sobre aquele membro da equipa – eram tomas apenas e só por ele. Quase todos os problemas tiveram problemas com essa situação. Hawthorn, Behra, Surtees. Hill, entre outros, abandonaram a equipa por motivos pessoais. Outros, como De Portago, Collins, Bandini, estavam sob grande pressão quando tiveram os seus acidentes fatais”, contou o fotógrafo Bernard Cahier, que ra próximo de Ferrari. “Ele vivia em Maranello como um Imperador. Quando não tinha muito interesse em receber alguém, fazia o esperar durante duas horas ou mais, sem razão aparente. Até o Rei da Bélgica passou por isso… A sala dele era pontada de branco e não tinha decoração, para além de umas cadeiras e uma mesa. Uma vez disse-me, na brincadeira, que ia fazer uma placa de homenagem ao visitante desconhecido, encontrado morto na sala de espera!…”

O velho comendador já podia ir-se em paz: sua missão de criar um império construindo carros de corrida e verdadeiras obras de arte para alguns abonados e sonhos para os demais mortais estava mais que cumprido. Mesmo os anos de seca não arrefeceram a paixão dos torcedores, que acabaram sendo conhecidos simplesmente como tifosi, embora a palavra italiana sirva apenas para designar o torcedor, de qualquer esporte.

O Comendador morreu aos 90 anos, em 1988

A Ferrari se tornou ao longo dos anos um símbolo de uma Itália que poderia ser diferente da realidade caricata da política do país, da economia trepidante, da impunidade. É um toque de arte de um povo conhecido pela atenção aos detalhes, seja de esculturas e quadros, sapatos e alfaiataria, e pelo bom gosto no design.

E não é uma paixão que se resume aos amantes dos carros. A Ferrari é uma das marcas mais consolidadas no mundo, e não dá mostras de declínio. Em janeiro desde ano, a empresa ficou em 1º lugar na Itália e em 3º lugar no mundo numa classificação por “Texto 100”, que investiga citações em blogs, comunidades e espaços abertos na Internet, ficando apenas atrás do Google e da Coca-Cola

Enzo convenceu os italianos – e, com eles, muita gente ao redor do mundo – de que seus carros têm alma, que são mais que puras máquinas. A Scuderia, então, tornou-se algo sagrado. O piloto que quer ganhar o coração dessa família precisa, antes de tudo, colocar-se abaixo dela, repetir a cada momento que ela é diferente e nunca, sob hipótese alguma, deve deixar transparecer que não deu 200% de si dentro daquele carro.

Mesmo que a equipe tenha ganhado embates políticos por baixo do pano, tenha sido beneficiada por acordos comerciais e seja um constante empecilho à democracia na F1, ninguém em sã consciência quer imaginar a categoria sem o império dos sonhos de Enzo Ferrari.

Pirelli promete movimentar as estratégias de corrida

Nesse estágio em que as grandes equipes ainda não buscaram a performance pura, o mais interessante dos treinos está longe da tabela final de tempos. Afinal, certamente não veremos a Williams colocando 1s7 na Red Bull na primeira corrida no Bahrein (se a F1 for mesmo ao Bahrein, mas essa é outra história). A grande manchete desses ensaios tem sido a diferença de tempos entre a 1ª e a última voltas de uma mesma saída.

Essa diferença de tempo é o chamado drop off, que determina a degradação dos pneus. Numa situação de corrida, começando com o tanque cheio, é normal que o tempo caia à medida que o peso do combustível é eliminado, e que ele suba devido ao desgaste dos pneus. A tendência é que a diminuição do peso tenha uma ação maior, ou seja, que os tempos de volta caiam lentamente até determinado ponto em que a degradação é tão forte que eles se estabilizam. Até o ano passado, era por esse momento de estagnação nos tempos que as equipes esperavam para fazer suas paradas.

Pode apostar: pneus vão dar mais emoção às provas que a asa móvel

Com os pneus Pirelli, tudo indica que a história será diferente. Assim como ocorria na época da Bridgestone, serão 4 tipos de pneus (duro, médio, macio e super macio). A diferença entre eles é simples de entender: quanto mais rígido, mais durável e lento. Agora, a diferença entre a borracha fornecida pelos japoneses e a dos italianos promete dar muita dor de cabeça para os estrategistas – e proporcionar corridas cheias de alternativas.

São levados apenas 2 tipos para cada corrida e, salvo algum caso especial, as combinações possíveis são duro-macio e médio-super macio. As equipes não costumam divulgar com qual pneu estão testando mas, ao que parece, a diferença entre super macio e médio seria de 1s3 em média (isso depende, e muito, do carro e do estilo de pilotagem), e do macio para o duro, 2s2. Muito provavelmente, tendo em vista que um pitstop demora cerca de 25s, dependendo da pista, a hora em que vai compensar perder o tempo de trocar os pneus que continuar rodando lento na pista vai chegar muito antes do que com os Bridgestone.

É bom já ir começando a praticar pitstops...

Por isso, estamos vendo drop offs altíssimos nos testes até agora. Tomando como exemplo a saída em que Barrichello fez o melhor tempo em Jerez: depois de rodar na casa do 1min19 na 1ª volta, terminou sua saída, 7 voltas depois, andando 3s mais lento. Quando calçou os pneus duros, rodou por 25 voltas, com um drop off de apenas 2s. A Mercedes de Schumacher apresentou um quadro semelhante. O que estamos vendo até agora é que os carros mais equilibrados têm uma queda menor no rendimento: Vettel perdeu cerca de 1s em ritmo num stint de 11 voltas, enquanto Alonso fez 19 voltas, com perda de 1.2s entre as primeiras e as últimas.

Nesse quadro do F1 Fanatic, que leva em conta os stints de Schumacher, Alonso e Vettel feitos na tarde de sábado, dia em que as condições de pista mais se assemelhavam com um dia de corrida (temperatura de pista em 33ºC) é possível ver como Ferrari e Red Bull (provavelmente mais leve) mantêm uma linha com menor variação de tempos que a Mercedes.

De qualquer maneira, o espanhol disse que eles não estão conseguindo fazer mais de 40 voltas no mesmo pneu, o que confirma a tese de que serão necessárias ao menos 2 paradas.

Para a próxima bateria de testes, em Barcelona (pista comedora de pneus dianteiros esquerdos, especialmente), a Pirelli vai levar um novo super macio. Parece que é o composto mais rápido e menos durável que tem preocupado as equipes. Tanto, que os italianos confirmaram hoje que não vão arriscar: levarão os compostos duros e macios para as primeiras quatro provas (Bahrein, Austrália, Malásia e China).

O cockpit da Ferrari sempre foi lugar para os grandes

Neste terceiro dia do especial sobre a vida de Enzo Ferrari, feito em conjunto com o site Café com F1, vamos falar dos anos em que a equipe arrasou e também sobre as grandes feras que pilotaram em seus carros . A equipe de Maranello sempre causou admiração e desejos em todos os amantes do automobilismo, e com os pilotos não foi diferente. Basta ver dois exemplos recentes: Fernando Alonso tanto fez que conseguiu dirigir para a equipe e o campeão de 2010, Sebastian Vettel, anda dando declarações sobre o sonho de pilotar o carro vermelho no futuro.

O motivo para isto não é segredo! Além da enorme tradição e sucesso na categoria, a legião de fãs que conquistaram com o tempo faz com que ser piloto Ferrari eleve a carreira de qualquer um.

É difícil determinar quem veio antes: se a Ferrari é especial porque sempre teve grandes pilotos ou se esses pilotos são atraídos porque a Ferrari é especial. De qualquer maneira, logo nos primeiros anos de F1, o cockpit da equipe italiana já contava com um astro das pistas, o argentino Juan Manuel Fangio, que conquistou o título de 1956 com a Scuderia. Giuseppe Farina, o primeiro campeão da história da F1, também passou pelo time em 1952 e 1953. Mas o primeiro grande ano mesmo da Ferrari foi em 1961, quando conquistou o título de equipes e pilotos com norte-americano Phil Hill.

Enzo Ferrari, Wolfgang von Trips, Maglioli, Phil Hill e Chitti no GP da Itália de 1960

A Ferrari 156 daquele ano foi um carro revolucionário, aproveitando-se das várias mudanças que o regulamento sofreu, como a adoção dos motores de 1,5 litro. Além de Hill, a equipe contava com o alemão Wolfgang von Trips e a luta pelo campeonato ficou restrita aos dois. Até que, no GP da Itália, o piloto sofreu um acidente e faleceu. Para a última prova, a Ferrari que já estava com o título garantido, resolveu se retirar em homenagem a Von Trips, atitude que não agradou muito Phil Hill, que gostaria de festejar o título correndo em casa para sua torcida. Enzo Ferrari definia Phil Hill como um piloto que não era de alto nível, mas que era seguro e eficiente em circuitos rápidos. “Ele amava retas longas e curvas de pé em baixo, mas ele não era tão interessado nas curvas sinuosas e em circuitos mais difíceis, que exigiam precisão contínua”, disse Enzo.

A equipe também teve outras grandes temporadas, mas outra que precisa ser citada é a de 1975. Um tal de Andreas Nikolaus Lauda deu um verdadeiro show naquele ano. Ele começou muito mal o campeonato, marcando apenas cinco pontos nas primeiras quatro provas, mas daí o austríaco se transformou e venceu cinco corridas até o fim da temporada, ficando com o título. Os amigos mais próximos do comendador costumavam dizer que Lauda não fazia parte apenas da equipe Ferrari, mas também do coração de Enzo Ferrari, que tinha total admiração pelo piloto.

Niki Lauda marcou época a bordo dos Ferrari

Mas talvez o piloto mais venerado pelos ferraristas e tido como filho pelo comendador tenha sido Gilles Villeneuve. Apesar de nunca ter sido campeão pela Scuderia, a garra e determinação do canadense conquistaram o coração dos italianos. Curiosamente, o piloto sofreu por sua lealdade à equipe duas vezes. Em 1979, concordou em não ultrapassar o companheiro Jody Scheckter, que acabou sendo campeão. Depois, em 1982, viu a Ferrari de Pironi desrespeitar uma ordem de equipe e privá-lo de uma vitória em Imola. Morreu num acidente, nos treinos para a prova seguinte, contrariado. “Sua morte dos privou de um grande campeão – um que eu amava muito. Meu passado é cheio de luto por meus pais, irmão, filho. Minha vida é cheia de memórias tristes. Olho para trás e quando vejo os rostos de meus entes queridos, vejo Gilles entre eles”, disse Enzo. Segundo o diretor técnico da Ferrari na época, Harvey Postlethwaite, era a sinceridade do canadense que cativou tanto o chefe. “Ele não era político, era totalmente descomplicado. Se estivéssemos testando e ele sentia que o carro era ruim, simplesmente dizia ‘não me levem a mal, eu poderia guiar o dia inteiro, mas o carro é uma porcaria e acho que devo dizer isso’. Enzo o amava por isso.”

Enzo tinha Villeneuve como um filho

Outros grandes pilotos passaram pela equipe no decorrer dos anos: Mario Andretti, John Surtees, Jody Scheckter que conquistou o título de 1979 pela equipe, o último antes de um longo período de jejum. Mas tarde, Nigel Mansell e Alain Prost, foram os mais famosos dentre os contratados para tentar tirar a equipe de anos sem título. Sem sucesso. Mas recentemente, Kimi Räikkönen e Fernando Alonso, estrelas da nova geração, que com certeza já entraram para o hall das estrelas que passaram pela equipe.

Para fechar com chave de ouro os grandes anos da equipe, é preciso falar de Michael Schumacher e a fase entre o ano de 2000 e 2004, quando conquistaram cinco títulos mundiais. Apesar de Enzo Ferrari já ter falecido nesta época, foi o apogeu da equipe criada por ele 53 anos antes. Uma parceria que destruiu todos os recordes existentes até então na categoria.

Um dos motivos para este sucesso talvez tenha sido os novos rumos que a Ferrari tomou depois da morte de Enzo Ferrari, assunto que será tratado amanhã, no quarto dia deste especial.

Red Bull e Ferrari são os reis da confiabilidade até agora

Enquanto alguns times quebram a cabeça para entender os Pirelli (assunto sobre o qual falaremos mais amanhã), outros têm questões mais urgentes para resolver. Dos grandes, McLaren, Mercedes (com os mesmos problemas hidráulicos de Valência) e Renault não estão conseguindo tanta quilometragem quanto os líderes da confiabilidade: Red Bull e, principalmente, Ferrari – que já tem mais de 400km a mais rodados que os rivais mais próximos, justamente os rubro-taurinos. A McLaren sofreu com alguns problemas mecânicos e teve seus testes aerodinâmicos atrapalhados pelo vento nesse que foi o primeiro teste do carro novo e deu apenas 233 voltas, contra 463 da Scuderia.

Alonso e Massa andam justificando o salário

Entre as médias, é a Williams que tem enfrentado mais problemas, principalmente no KERS, enquanto a Virgin surpreende pelo número de voltas dados em relação às concorrentes mais próximas.

Quanto as equipes andaram até agora nos testes

EquipeVoltaskms
Ferrari7493196
Red Bull6532782
Force India*5912479
Mercedes5412310
Sauber5342274
Toro Rosso5302261
Williams5122158
McLaren*5122149
Renault5042135
Virgin4351834
Lotus2511089
Hispania*188753

*usaram o carro do ano passado nos primeiros testes

Quanto cada piloto andou

  VoltasDivisão em %
Red BullVettel32449% 
Webber32951% 
McLarenHamilton17735% 
Button24448% 
Paffett9117% 
FerrariAlonso45260% 
Massa29740% 
MercedesSchumacher35165% 
Rosberg19035% 
RenaultKubica20038% 
Petrov15031% 
Senna6814% 
Heidfeld9618% 
WilliamsBarrichello33065% 
Maldonado18235% 
Force IndiaSutil21837% 
Di Resta30252% 
Hulkenberg7111% 
SauberKobayashi23845% 
Pérez29655% 
Toro RossoBuemi30157% 
Alguersuari19837% 
Ricciardo316% 
Team LotusTrulli13252% 
Kovalainen11948% 
HispaniaKarthikeyan188100% 
0% 
VirginGlock24756% 
d’Ambrosio14344% 

Enzo Ferrari e os primeiros – vencedores – passos na F1

Continuando o especial sobre Enzo Ferrari, feito em parceria com o Café com F1, depois da criação da equipe em 1947, eles entraram de cara nas competições. Primeiramente, com os carro sports, que deram a primeira vitória à equipe. Em 1949, o americano Luigi Chinetti e o inglês Lord Selsdon conquistaram as 24 Horas de Le Mans pilotando o modelo 166M da equipe.

Chinetti e a primeira vitória da Ferrari no automobilismo

Em 1950, a Ferrari começou também a disputar a Fórmula 1, que foi criada naquele ano. Apesar de não participar da primeira prova em Silverstone, a equipe italiana já estava no grid na segunda em Mônaco. Mas a vitória só apareceu no ano seguinte, em 1951 com Jose-Froilan Gonzalez, justamente no GP Britânico. Em 1952, Enzo Ferrari conquistou o primeiro título de piloto na categoria, com Alberto Ascari, que em 53 levou o bi.

Mas Enzo mantinha, com sucesso, o braço da equipe nas competições de turismo e na década de 50 conquistou sete títulos em nove temporadas do Campeonato Mundial de Carros Esportivos. Na Le Mans, o sucesso também continuava e em 1954 estrearam uma equipe de fábrica, conquistando o caneco. Venceram também em 58 e de 1960 a 1965.

E o Brasil teve presença nesta história inicial da empresa de Enzo Ferrari no automobilismo. Chico Landi foi para a Europa no fim da década de 40 para participar de algumas provas e acabou batendo a porta do comendador para pedir um carro para competir. Ele costumava lembrar que enxugou o suor da mão direita no bolso da calça antes de estendê-la a Enzo Ferrari. Enzo teria dito ao brasileiro: “Não costumo vender nem alugar minhas máquinas. Mas vou ceder uma a você, Chico, porque você é bravíssimo.”

Chico Landi e a Ferrari verde e amarela

Mas ele pilotou apenas 1 prova com a Ferrari, no GP da Itália de 1951. Diz a história que Enzo Ferrari, que já admirava o talento do brasileiro, ofereceu-lhe um contrato para correr pela equipe na categoria, mas Landi disse que só aceitaria se pudesse pintar o carro com as cores do Brasil. Enzo não aceitou, explicando que a cor vermelha da equipe era insubstituível, e o contrato não foi para frente. Curiosamente, Enzo acabou acertando com o argentino Juan Manuel Fangio.

Seria o primeiro dos grandes pilotos que passaram pela Ferrari desde então, mas isso é assunto para o próximo capítulo.

A vaga de Kubica na Renault nunca foi de Bruno Senna

Ao contrário da onda que se criou, especialmente na imprensa brasileira, Bruno Senna nunca esteve em posição de ocupar a vaga de Robert Kubica na Renault. Usando uma declaração do chefe da equipe, Eric Boullier, no lançamento do carro, de que o brasileiro seria o piloto reserva, muita gente se esqueceu – ou fingiu esquecer – de que o acidente de Kubica criava uma circunstância extraordinária: alguém teria que assumir a liderança da equipe desde o 1º GP até, provavelmente, o fim do campeonato.

E, assim, as declarações de Boullier de que o time precisava de um piloto experiente e que Bruno só andaria para testar o carro eram ignoradas, na tentativa de inventar uma notícia que não existiu. No final das contas, mais um episódio de afobação e falta de discernimento, que acabou marcando a cobertura do acidente do polonês desde o início – mais alguém notou a tom do “Kubica volta à UTI”, nas manchetes do final de semana, como se isso não fosse um procedimento normal após a cirurgia?

E Bruno não pode ser responsabilizado por esse carnaval feito em cima de seu nome. Esperou alguns dias para se pronunciar e, quando o fez, pelo twitter, se limitou a desejar melhoras a Kubica. “Desejando ao Robert recuperação completa e rápida, para que ele possa continuar mostrando o grande talento naquilo que ele mais gosta! Correr”. Enquanto Heidfeld estava no carro, salientou que não havia uma luta pela vaga. “Animado para o teste de amanhã e espero ajudar a equipe no desenvolvimento do carro.” Mas isso não vende, claro.

Bruno não caiu na onda do "vestibular"

Chegado o “dia do vestibular”, Bruno andou, assim como Paffett na McLaren e Hulkenberg na Force India, para citar alguns exemplos, para dar informações ao time e manter-se um pouco na ativa, numa categoria em que as oportunidades de se treinar são escassas e o termo “piloto de testes” não faz muito sentido.

No final das contas, a tabela dos melhores tempos pode mostrar que Bruno foi 1s mais lento que Heidfeld – como também 1s mais rápido que Vitaly Petrov, o outro piloto titular da equipe – mas não haveria valor algum em colocá-los frente a frente, exatamente nas mesmas condições. Afinal, já que não há uma disputa pela vaga, o que importa à Renault neste momento é desenvolver o carro, testar seus componentes e avaliar o rendimento dos diferentes compostos dos pneus Pirelli combinados aos distintos níveis de combustível com os quais terão que andar nas corridas.

De acordo com os engenheiros da equipe, o brasileiro ficou a 0.2s do tempo de Heidfeld andando sob circunstâncias similares e só perdeu um pouco no quesito consistência, em que, diga-se de passagem, o alemão foi excelente. Depois de 2 saídas de checagem de sistemas, mandou ver 1:21.933, 1:21.849 e 1:21.898, em sequência, logo de cara, e em vários outros momentos mostrou lidar muito bem com o desgaste dos pneus (veja os tempos na íntegra aqui). É isso que a Renault espera dele.

Enquanto isso, Bruno fez o papel de um piloto reserva, o que o brasileiro nunca deixou de ser na equipe. Esse, aliás, foi apenas seu 2º teste na F1 (o outro havia sido com a Honda, uma vez que a Hispania não treinou). Sua verdadeira ambição não tem nada a ver com o lugar de Kubica, mas sim em mostrar em cada chance que tiver de entrar no carro que pode fazer um trabalho melhor que o inconstante Petrov para, apostando numa maior independência financeira da equipe, lutar por uma vaga como titular em 2012.

O próprio piloto adotou o tom político e apoiou a decisão de não lhe dar um cockpit agora. “Só tive um dia no carro e foi bom, mas para se preparar você precisa muito mais que isso – eles precisam de um piloto que esteja pronto”, reconheceu. E é nisso que ele tem que trabalhar.

Enzo Ferrari fez do pós-guerra uma oportunidade

Qualquer um que já tenha assistido a uma corrida de F1 percebeu que a Ferrari não é uma equipe como as outras. Não é por acaso. Ao contrário das grandes montadoras ou dos independentes, a Scuderia é uma equipe de corridas que se tornou fabricante de carros. Apesar de ser um gigante, são as corridas que estão em seu DNA. Continuando a parceria com o Café com F1, que já mostrou as trajetórias de Bernie Ecclestone, Ron Dennis, Frank Williams e Colin Chapman, além das histórias dos 30 anos do 1º título de Nelson Piquet na F1 (dá para acessar tudo isso aqui), o nome da semana é Enzo Ferrari.

E pensar que toda essa história começou mais por força das circunstâncias que por qualquer outro motivo. Enzo Ferrari nasceu em 1898, em Modena, no coração da Itália. Viu o pai e o irmão morrerem em decorrência de uma epidemia de gripe e os negócios familiares ruírem durante a 1º Guerra Mundial. Após ele mesmo ter contraído a doença e ficado com a saúde bastante debilitada, foi dispensado do exército italiano, o qual chegou a servir.

Tendo que começar do zero, decidiu apostar no sonho de infância de ser piloto de corridas. Seu pai, Alfredo, levou-o à primeira corrida quando o menino ainda tinha 10 anos, e ensinou a paixão pelo automobilismo. Sem formação, Enzo tentou uma vaga na Fiat, mas não foi aceito. Foi trabalhar, então, na CMN, uma pequena montadora italiana, em que tinha a possibilidade de testar carros e participar de corridas.

Correndo contra Tazio Nuvolari com sua Alfa Romeo

Por intermédio de um amigo, conseguiu ir para a Alfa Romeo, em 1920. Corajoso e arrojado, seguiu competindo e teve alguns bons resultados, culminando com a vitória na Coppa Acerbo, em 1924. O sucesso fez com que Ferrari se tornasse o piloto principal da fábrica. Com o novo título, poderia ter largado no já prestigioso GP da França, mas aparentemente uma crise de confiança fez com que o italiano desistisse daquela que seria sua maior corrida até então – ao invés de correr com carros de segunda mão em eventos locais, agora eram os últimos modelos da Alfa que estavam sob seu comando. Enzo ainda disputou algumas provas, tendo até sucesso, mas o acontecido serviu para mostrar que pilotar não era com ele.

Nessa época, Ferrari já era dono de uma revendedora da Alfa em Modena. Fundou sua própria companhia em 1929, a Scuderia Ferrari. Como a Alfa parou de disputar corridas na época, a função da Ferrari era prover suporte mecânico e outros serviços para que os abonados clientes da marca pudessem alinhar seus carros no grid. Em troca, Enzo trazia conhecimento técnico para sua empresa, acordo similar ao que firmou com Bosch, Pirelli e Shell.

Com as parcerias, conseguiu atrair dois grandes pilotos italianos da época, Giuseppe Campari e Tazio Nuvolari, quem Enzo considerava o melhor de todos os tempos. É claro que, com 50 pilotos – Enzo mesmo correu até 1932, até que seu primeiro filho, Dino, nasceu –, a Scuderia Ferrari colecionou títulos logo em seu primeiro ano. Nenhum deles era assalariado, apenas recebia parte da premiação pelas vitórias.

O nascimento do filho Dino fez Enzo parar de vez com a carreira de piloto

Um desses pilotos era Rene Dreyfus. Recém-chegado da Bugatti, o francês teve uma primeira impressão bastante distinta da imagem que a Scuderia tenta vender hoje. “Com Ferrari, aprendi o negócio da corrida, porque sem dúvida ele era um homem de negócios. Enzo era amigável e agradável, mas não muito afetivo. Não era como pertencer a uma família, a exemplo do que acontecia com os irmãos Maseratti, nem dava intimidade que tinha com Meo Constantini (Bugatti). Enzo Ferrari amava as corridas, sem dúvida, mas era mais do que o amor de um entusiasta: ele tinha a visão prática de que aquilo poderia resultar num império rentável.”

Na década de 1930, a Alfa Romeo queria sair de vez do mundo das corridas, mas a Pirelli convenceu a empresa de que a Ferrari poderia ser o braço esportivo da montadora. Mesmo contando com uma boa estrutura e ótimos pilotos, foram anos difíceis para os italianos, que não conseguiam superar a força dos alemães da Mercedes.

Em 1937, a Alfa Romeu decidiu retomar o controle de seu departamento de corridas e Enzo não admitiu ser relegado novamente ao posto de funcionário. A Scuderia, então, rompeu com a montadora e passou a andar com as próprias pernas.

Como, por contrato, eles não podiam competir contra a Alfa por 4 anos, Enzo criou a Auto-Avio Costruzioni e passou a construir seus próprios carros. A 2ª Guerra Mundial interrompeu a disputa e inclusive, devido aos bombardeios, fez a Scuderia mudar-se de Modena para a pequena Maranello. Ao invés de carros, produzia artigos bélicos. Apenas em 1947, quando a poeira baixou, Enzo Ferrari fundou a Ferrari S.p.A, empresa que se tornaria um império de sonhos e paixões.

O que a preferência por Heidfeld diz sobre a Renault

Tudo bem que trazer de volta de uma segunda possível aposentadoria um piloto cujo único recorde na F1 é o de maior número de GPs sem vencer uma corrida sequer não é nada comparado ao craque que a Renault tinha liderando sua equipe até o acidente do último domingo, mas é uma clara opção pela segurança. Todo mundo sabe o que Nick Heidfeld pode fazer, enquanto apostar por um novato seria uma loteria.

Heidfeld sabe dar os atalhos para que os engenheiros desenvolvam o carro – algo fundamental, especialmente para um projeto inovador como esse Renault –; não vai se apavorar naquele momento em que é preciso tirar tudo do carro no finalzinho do Q2 (e a classificação tem se mostrado o grande calvário dos pilotos menos experientes); vai saber dosar os pneus para se aproveitar da estratégia; não vai se afobar por uma ultrapassagem; e ainda tem mais experiência que os demais com os novos pneus, pois foi piloto de testes, mesmo que apenas na fase inicial, da Pirelli. Em 173 GPs, soma uma pole, 8 segundos lugares e 4 terceiros.

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Por outro lado, sabem também que o alemão nunca foi daqueles pilotos brilhantes, que levam o carro a posições as quais ele não merece. É correto, aproveita oportunidades em que os menos experientes podem falhar, como em provas na chuva, mas, por exemplo, se a Renault estiver no mesmo nível do ano passado, ele estará longe do pódio que Kubica conseguiu em Mônaco.

Ou seja, para uma equipe que ainda não está no nível de uma McLaren, Ferrari e, principalmente, Red Bull, e depende do brilho de seu piloto para alçar voos mais altos, trata-se de uma opção ultraconservadora. A Renault mostra, com isso, que quer minimizar os danos, e não arriscar um salto. Sabemos que os pontos no mundial de construtores valem muito dinheiro, e financiamento não é exatamente o forte da equipe.

Num pensamento mais ousado, eles poderiam muito bem arriscar. E se Bruno Senna fosse capaz de fazer um trabalho tão bom quanto Heidfeld? Seria isso tão difícil de acontecer, tendo em vista que o brasileiro foi 3º na F-3 Inglesa em seu segundo ano de carreira e vice-campeão da GP2 2 anos depois? É lógico que poderia dar muito errado: Bruno poderia classificar-se mal, se envolver em muitos acidentes, etc. – e por isso é uma aposta. No entanto, já que perderam Kubica e já têm o ano comprometido, por que não?

Ao que parece, a Renault só tinha reserva para Petrov

Paralelamente a tudo isso, é interessante a dinâmica entre o que acontece no hospital e na cabeça dos dirigentes – quem será que está tomando essas decisões? – da Renault. Com as notícias que vêm da Itália, de que Kubica conseguiu mover os dedos (o que significa que a reconstrução das veias deu certo e que sua mão está salva), cada vez fica mais claro que a volta do polonês é mais uma questão de “quando” que de “se”, embora ainda seja muito cedo para responder “em que condições”. E a preferência por Heidfeld denota a confiança da equipe de Enstone na volta rápida de sua estrela, já que eles não parecem sentir a necessidade de encontrar um substituto para o projeto, apenas para o cockpit.

Por outro lado, toda essa revolução causada pelo acidente de Kubica é mais uma prova do risco em se contratar um piloto pagante, no qual a equipe não deposita qualquer esperança, a não ser receber os pagamentos em dia. Se acontecesse com Vettel, Webber assumiria a liderança e Ricciardo, a vaga; na McLaren, Button faria o papel de Hamilton tranquilamente e Paffett está pronto para subir ao cockpit; na Ferrari, Massa estaria na mesma posição, ficando a dúvida se os italianos, que têm a tradição de só colocar pilotos rodados em seus carros, optariam por Bianchi. Todos teriam seu prejuízo, é claro, mas poderiam confiar muito mais, tanto nos pilotos que seriam alçados à liderança, quanto nos substitutos, já envolvidos no trabalho da equipe. Na hora da verdade, ficou claro qual o peso de Petrov na Renault. Nenhum.