Por um fio: Massa, Webber, Grosjean e Di Resta

É curiosa a lista dos pilotos que precisarão mostrar mais trabalho do que em 2012 para manter seus empregos para a próxima temporada: de Romain Grosjean, novato que errou demais da conta, a um dos mais experientes do grid – e sempre na corda bamba, sabe-se lá se por opção própria – Mark Webber.

Felipe Massa
São Paulo, Brasil, 25.04.1981
174 GPs
Em 2012: 7º, 122 pontos
O que levar para 2013:  finais de semana impecáveis da segunda metade de 2012
O que esquecer: espiral de queda de confiança após maus resultados

No meio disso, Felipe Massa diz ter reencontrado na felicidade de pilotar a velocidade que só apareceu em lampejos nos últimos três anos. De fato, o salto gritante de qualidade do brasileiro a partir do GP da Bélgica não teve nenhuma razão técnica. Talvez a maior previsibilidade dos pneus Pirelli ao longo do ano tenha ajudado, pois diminui a vantagem daqueles que se adaptam mais rapidamente, mas só isso não conta toda a história. Seja como for, o normal é que, ao longo da temporada, Massa seja superado pela constância de Alonso. Porém, mais finais de semana como mostrou ser capaz de ter na segunda metade de 2012 abrem uma nova perspectiva para sua carreira. E, convenhamos: há sete meses, isso parecia impossível.

Paul Di Resta
Uphall, Escócia, 16.04.1986
39 GPs
Em 2012: 14º, 46 pontos
O que levar para 2013:  habilidade em se manter longe de confusão
O que esquecer: quedas de performance ao longo da temporada

Paul Di Resta chegou com a pompa de ter derrotado o ex-companheiro de equipe Vettel na F-3 Euroseries e não decepcionou em seu primeiro ano, especialmente nas corridas finais de 2011. A impressão, portanto, era de que o escocês engrenaria. Porém, apesar de ficar longe de acidentes no embolado meio do pelotão, parece faltar uma pitada de sal ao escocês, que teve uma queda de rendimento acentuada após seu companheiro de 2012, Hulkenberg, começar a brilhar. Fora das pistas, um ponto de interrogação no futuro de Di Resta tem a ver com sua relação com a Mercedes: fora a Force India – que, especula-se, ensaia usar motores Ferrari em 2014 – as outras duas equipes atuais da montadora (a oficial e a McLaren) têm contratos de mais de um ano com seus pilotos.

Romain Grosjean
Genebra, Suíça, 17.04.1986
26 GPs
Em 2012: 8º, 96 pontos
O que levar para 2013:  velocidade em classificações
O que esquecer: afobação nas primeiras voltas

Grosjean mesmo admitiu não esperar que o desafio da F-1 fosse tão grande. Se a inconsistência e os erros bobos em largadas – o mais espetacular certamente foi na Bélgica, mas o de Suzuka beirou o ridículo – o fizeram balançar ao final do ano mesmo com o dinheiro francês dando uma força, é justo dizer que sua velocidade foi importante para que ganhasse uma terceira chance. Afinal, dizem que é mais fácil um piloto rápido tornar-se consistente do que um piloto consistente tornar-se rápido, não? Mas agora acabou a fase de “bixo”: o carro deve ser bom, o companheiro não incomoda, o chefe aposta nele e Grosjean tem tudo a seu favor para brilhar em 2013.

Mark Webber
Queanbeyan, Austrália, 27.08.1976
198 GPs
Em 2012: 6º, 179 pontos
O que levar para 2013:  performances como em Silverstone
O que esquecer: apagões durante a temporada

Quem parece que não gosta deste tipo de situação é Mark Webber. Aliás, a teoria dos ingleses para os comuns ataques vindos de Helmut Marko esbarra na necessidade que o australiano parece ter de ser tido como azarão, no melhor estilo Rocky. Psicologia à parte, o problema de Webber é semelhante ao de Massa: como seu companheiro consegue se virar em uma gama mais ampla de condições, tanto do carro, quanto externas, ele pode vencer algumas batalhas, mas dificilmente levará a guerra. E Webber mesmo já adiantou: se não for para correr na turma da frente, prefere promover suas corridas de aventura na Tasmânia.

Confira todos os posts sobre o quem é quem nesta temporada.

Quero ser grande: Rosberg, Hulkenberg, Vergne e Ricciardo

Há sempre aquele grupo de pilotos que está perto, mas não exatamente onde gostaria. Às vezes, nunca teve o carro para aparecer; teve companheiros cujo desempenho gerava dúvidas ou ainda a falta de vagas nas equipes maiores criou a ideia de estagnação da carreira.

Nico Rosberg
Wiesbaden, Alemanha, 27.06.1985
128 GPs
Em 2012: 9º, 93 pontos
O que levar para 2013: consistência nas corridas
O que esquecer: apagões em classificações

Um pouco de cada ingrediente faz com que 2013 seja uma temporada de provação para quatro pilotos no grid. Nico Rosberg chegou em 2006, badalado por títulos em todas as categorias de base, mas nunca fez o bastante em uma Williams em má fase para justificar o interesse de equipes grandes. Teve sua chance de mostrar serviço andando ao lado de Michael Schumacher, mas há quem acertadamente questione o tamanho do desafio frente a um quarentão que não conseguiu recuperar a forma dos sete títulos após três anos parado.

Mesmo assim, Nico superou, mas não trucidou Michael, indicativo de está mais para um Button do que um Vettel, por exemplo. Agora, terá de mostrar frente a Hamilton, de quem costumeiramente perdia quando eram companheiros no kart, se tem valor – e agressividade, algo que parece lhe faltar em momentos decisivos – suficiente para escalar entre os grandes.

Nico Hulkenberg
Emmerich am Rhein, Alemanha, 19.08.1987
39 GPs
Em 2012: 11º, 63 pontos
O que levar para 2013:  habilidade de se manter livre de confusões
O que esquecer: início do ano em marcha lenta

Se Rosberg vem numa fase de estagnação, o outro Nico chega à Sauber credenciado pelas boas performances da segunda metade do ano passado e com ares de líder da equipe. Aos 25 anos, o piloto teve um caminho tortuoso até agora na F-1, muito em função de não contar com patrocinadores do porte de rivais diretos, como Perez e Maldonado. Por isso, foi preterido na Williams e ficou um ano parado, o que lhe atrapalhou no início de 2012. Porém, as desculpas devem ficar para trás em 2013, ano da afirmação do alemão, que demonstrou ser competente em classificação e, mais importante, parece saber dosar agressividade e cuidado durante as corridas e raramente se mete em confusão.

Jean-Eric Vergne
Pontoise, França, 25.04.1990
20 GPs
Em 2012: 17º, 16 pontos
O que levar para 2013: cuidado com os pneus
O que esquecer: péssimas classificações
Daniel Ricciardo
Perth, Austrália, 1º.07.1989
31 GPs
Em 2012: 18º, 10 pontos
O que levar para 2013:  boas classificações
O que esquecer: falta de consistência em corridas

Após seu primeiro ano na F-1, Daniel Ricciardo e Jean-Eric Vergne parecem ser pilotos complementares: o australiano classifica bem e o francês, ganha vantagem nas corridas. Em outras palavras, nenhum dos dois dá pinta de estar suficientemente preparado para ocupar o eventual lugar de Mark Webber. Mas há de se notar que os pilotos do programa de desenvolvimento da Red Bull vêm direto da World Series e acabam chegando com pouca experiência. Se até mesmo um piloto especial como Vettel teve a oportunidade de testar bastante antes de correr na F-1, é de se imaginar que ambos merecem mais tempo. Mas a empresa já mostrou com Buemi e Alguersuari, que tinham características semelhantes, que a paciência não é seu forte.

Confira todos os posts sobre o quem é quem nesta temporada.

Mais que dinheiro: Maldonado, Perez e Pic

“Dinheiro não compra resultados”, twittou Sergio Perez recentemente. De fato, desclassificar um piloto apenas pelo apoio financeiro que ele traz não faz muito sentido em um mundo em que cifras e habilidade cada vez mais caminham juntos. Ou será que Alonso chegaria à F-1 sem o apoio da Telefonica? Ou Vettel sem a Red Bull? Ou Hamilton sem a McLaren?

É esse caminho que especialmente Pastor Maldonado e Sergio Perez e, em menor escala, Chales Pic, esperam trilhar nesta temporada.

Pastor Maldonado
Maracay, Venezuela, 10.03.1985
39 GPs
Em 2012:  15º, 45 pontos
O que levar para 2013:  performances em classificação
O que esquecer: falta de consistência nas corridas

Vencedor de GP e habitué do Q3 com a boa Williams em 2012, Maldonado precisa encontrar a consistência que lhe faltou nas corridas e pensar duas vezes antes de jogar seu carro na disputa de qualquer posição para se efetivar como líder da equipe. Acredita-se que seu contrato vá até o final de 2015, mas não se sabe como a saúde frágil de Chavez e as incertezas que rondam seu regime na Venezuela podem afetar o cumprimento do acordo.

Sergio Perez
Guadalajara, México, 26.01.1990
39 GPs
Em 2012: 10º, 66 pontos
O que levar para 2013:  estratégias ousadas e cuidado com os pneus
O que esquecer: inconsistência nas classificações

Pelo menos até que a Vodafone confirme sua esperada saída e abra espaço para outra gigante das comunicações, a Telmex, Sergio Perez pode dizer que sua ida à McLaren é resultado direto do desempenho mostrado na Sauber. É fato que o mexicano impressionou desde sua estreia, na Austrália em 2011, quando foi o único a fazer uma parada quando muitos precisaram de três, mas a consistência necessária para ser piloto de equipe top ainda não apareceu, principalmente em classificações. Além disso, não era segredo na Sauber que seu temperamento não é dos mais fáceis e que faltava espírito de equipe. Nada que o amadurecimento do piloto de 23 anos não possa corrigir. Resta saber se a engessada McLaren é o lugar ideal para isso.

Charles Pic
Montélimar, França, 15.02.1990
20 GPs
Em 2012:  21º, sem pontos
O que levar para 2013: boas performances em classificações
O que esquecer: inconsistência nas corridas

Os próprios jornalistas franceses reconhecem ver em Charles Pic um riquinho excêntrico que busca se distanciar da fama de milionário. Não que o piloto tenha mostrado muitos resultados para tanto antes de chegar à F-1, mas é bem verdade que Pic foi o piloto que mais deu trabalho a Glock nos três anos de Marussia. Se isso tem mais a ver com o crescimento da equipe como um todo, igualando as condições entre os pilotos, o francês terá chance de mostrar agora na Caterham. Mas vale lembrar que não seria nada mal para o piloto que seu novo time, que o contratou em grande parte buscando vantagens com a Renault, preferisse alguém com mais experiência como seu companheiro.

Confira mais sobre o Quem é Quem da temporada 2013 da F-1.

Os estreantes de 2013: Razia, Gutierrez, Bottas, Van der Garde e Chilton

Muito se fala na influência do dinheiro na revelação de jovens talentos para a Fórmula 1 nos últimos anos, resposta direta à crise e ao retorno das equipes independentes, esmagadas pelas montadoras na primeira década de 2000. No entanto, faz sentido pensar que o dinheiro vai para os mais capazes e é isso que os estreantes na categoria em 2013 querem provar.

Luiz Razia
4 de abril de 1989, Barreiras, Brasil
Estreia em 2013
Por que Razia: pelo comprometimento e crescimento mostrado ano passado
Credenciais: vice-campeão da GP2 em 2012, mostrou grande inteligência no cuidado com os pneus

Razia é o primeiro a admitir que cometeu alguns erros na carreira, indo para a GP2 imaturo demais e correndo o risco de cair em descrédito por não estar pronto para dar o próximo passo. A temporada de 2012, no entanto, foi decisiva para o baiano de 23 anos, que mostrou grande profissionalismo e aproveitou bem a oportunidade que teve de viver em Milton Keynes e trabalhar dentro da fábrica da Red Bull. Na pista, tornou-se um especialista em economizar pneus e, um a um, ir superando os rivais nas voltas finais para lutar pelo título da GP2. Com esse crescimento e apoio financeiro, tornou-se um pacote interessante.

Talvez não tanto quanto o próprio Razia esperava, é verdade. Mesmo não condenando as vagas nas nanicas, o piloto sonhava com um cockpit mais competitivo. Porém, se a Marussia não é o melhor lugar do mundo para começar na F-1, também é fato que Razia não poderia esperar mais um ano para dar esse passo e, ao lado de outro estreante, tem plenas condições de bater o companheiro e deixar uma boa impressão, se não para o público em geral, que sempre o verá se classificando lá para o final do pelotão, para quem importa, no paddock.

Esteban Gutierrez
5 de agosto de 1991, Monterrey, México
Estreia em 2013
Por que Gutierrez: chega como promessa após ser eleito o piloto que cuidou melhor dos Pirelli em 2012
Credenciais: campeão da GP3 em 2010 e terceiro na GP2 em 2012

Esteban Gutierrez tem, por enquanto, uma carreira com altos e baixos. Ganhou tudo no kart no México, tornou-se o mais jovem piloto do país a vencer um campeonato internacional, aos 17 anos, quando dominou de maneira impressionante a Fórmula BMW Europeia. Correndo pela tradicional ART Grand Prix dali em diante, não foi bem na F-3 Euroseries, mas sagrou-se campeão no ano de estreia na GP3. Demorou para engrenar na GP2, sendo terceiro colocado em sua segunda temporada, atrás de Luiz Razia e Davide Valsecchi, ambos no quarto ano na categoria.  Foi eleito pela Pirelli o piloto que cuidou melhor dos pneus em 2012.

Aos 21 anos, o mexicano garantiu uma ótima porta de entrada na F-1, beneficiado pelo investimento forte da Telmex. Na Sauber, tem um time com tradição em lapidar jovens talentos e que mostrou a maior evolução no último ano e chegou a ser copiado pelas grandes.

Valtteri Bottas
28 de agosto de 1989, Nastola, Finlândia
Estreia em 2013
Por que Bottas: nunca terminou um campeonato abaixo do terceiro lugar na base e tem experiência efetiva de 3 anos como pilotos de testes na F-1
Credenciais: campeão da GP3 em 2011

Depois de Nico Hulkenberg e Pastor Maldonado, a Williams faz sua terceira aposta em um piloto sem experiência na F-1 em quatro anos ao promover Valtteri Bottas. O finlandês foi campeão da F-Renault 2.0 no segundo ano, foi por duas temporadas terceiro colocado na F-3 Euroseries correndo pela mesma ART de Gutierrez – quando foram companheiros marcou mais que o dobro de pontos que o mexicano, com ambos em seu ano de estreia – e conquistou o título da GP3.

O ponto positivo de Bottas é a experiência com F-1, superior à maioria dos estreantes dos últimos anos – entre aqueles que queimaram a etapa da GP2, é o mais bem preparado desde Vettel em termos de quilometragem. Por outro lado, o finlandês pode estar ‘enferrujado’ por ter ficado um ano sem correr e demorar alguns GPs para engrenar, como aconteceu com Hulkenberg ano passado. De qualquer maneira, estreia por uma equipe que já conhece e que vem em evolução.

Max Chilton
21 de abril de 1991, Reigate, Inglaterra
Estreia em 2013
Por que Chilton: por enquanto, mais pelo dinheiro do que por resultados
Credenciais: mostrou evolução na terceira temporada de GP2, em que foi quarto colocado.

O terceiro estreante é Max Chilton, que luta contra o estigma de pagante. O britânico é filho de um empresário milionário do setor de gerenciamento de riscos e dono da equipe Carlin, que fechou parceria com a Marussia na GP2 em 2012. Em seu terceiro ano na categoria de acesso à F-1, Chilton foi quarto no campeonato e venceu duas provas. No entanto, sua carreira até aqui indica que está alguns passos abaixo de seus colegas estreantes de 2013.

Guiedo van der Garde
25 de abril de 1985, Rhenen, Holanda
Estreia em 2013
Por que Van der Garde: apesar de estreante, é rodado na F-1
Credenciais: campeão da World Series de 2008 e top 10 na GP2 de 2009 para cá

Parecia que Van der Garde seria a eterna promessa que nunca chegaria ao posto de titular na F-1. Afinal, desde 2007 figurava como piloto de testes aqui e ali, mas seus resultados na GP2, onde estava desde 2009, não convenciam o suficiente. Pilotando pela Caterham também na categoria de acesso, o holandês participou de seis sessões de treinos livres na F-1 em 2012. Patrocinado pela marca de roupas McGregor, trata-se de um piloto consideravelmente rodado para um estreante, que o time conhece e lhe é rentável.

Com Van der Garde e Pic, a Caterham, a exemplo da Marussia, desistiu do modelo de ter um pagante e um assalariado mais experiente, o que ceifou as vagas de Kovalainen e Glock. De fato, pode-se dizer que a estratégia não rendeu frutos muitos visíveis após três anos e nenhum ponto para ambos os times. Veremos o que o novo paradigma vai trazer.

As 5 melhores corridas da era Pirelli

É normal que corridas com reviravoltas, ora trazidas com a chuva, ora com oportunidades geradas pelo Safety Car, sejam emocionantes e inesquecíveis. Provas como em Abu Dhabi e Brasil em 2012 ou Canadá em 2011 estão certamente entre as mais movimentadas dos últimos 20 anos na F-1. Mas a grande valia da Pirelli nestas duas temporadas em que atendeu aos anseios de fornecer pneus menos duráveis foi trazer grandes disputas a GPs “normais”. Sem Safety Car ou água e quebrando a cabeça dos estrategistas, eis minha lista das cinco melhores provas da Pirelli nestes dois anos. Esqueci alguma?

1º GP do Canadá de 2012

Qual não deve ter sido a surpresa de Lewis Hamilton quando ouviu do engenheiro, tentando manter a fleuma britânica: “Continue forçando, acreditamos ser possível que eles não parem.” Era uma referência a Alonso e Vettel que, ao contrário do que esperava a McLaren, não haviam coberto o segundo pit do inglês. E Hamilton sentou a bota. Percebendo o erro, a Red Bull parou Vettel, mas era tarde demais, pois o alemão só escalou até a quarta posição. Alonso arriscou ir até o final e fechou em quinto. Enquanto isso, fazendo uma estratégia inversa em relação aos compostos usados pelos líderes, Perez e Grosjean escalaram o pelotão para terminar em segundo e terceiro.

2º GP de Mônaco de 2011

Costuma-se apontar as ultrapassagens como grande exemplo do tipo de emoção que a Pirelli ajudou a devolver à Fórmula 1. Porém, elas são resultado de algo ainda mais marcante: a abertura do leque de estratégias. E um grande exemplo disso foi o GP de Mônaco de 2011. Mesmo em um ano dominado por Sebastian Vettel, a Red Bull se colocou em posição de risco e, ajudada por uma bandeira vermelha providencial, acabou saindo vitoriosa nas ruas de Mônaco. Mas não dá para esquecer as emocionantes voltas em que Vettel, que se segurava com uma parada, Alonso, após duas trocas, e Button, voando na tática de três pit stops, andavam pelo sinuoso circuito como se fossem um só.

3º GP da China de 2012

Pilotos adotando estratégias diferentes, de três ou duas paradas, fizeram com que o GP da China chegasse ao seu final com boa parte do top 10 indefinida. Nada que tenha atrapalhado o vencedor Nico Rosberg, que dominou a prova, mas a mão de obra foi grande para pontuar. “Teve uma hora em que éramos oito na reta”, contava Button após chegar em segundo, em corrida na qual Felipe Massa e Kimi Raikkonen andaram entre os primeiros até sofrerem com o desgaste excessivo nas voltas finais. Enquanto isso, na mesma estratégia, Vettel pulou de 15º a 5º. Para se ter uma ideia, 12s7 separaram do terceiro ao décimo, após duelo incrível nas últimas voltas.

4º GP da China de 2011

Formula1 2011 Chinese Grand Prix Official Race…

Na terceira corrida da Pirelli após o retorno, Lewis Hamilton abriu definitivamente a porta para um tipo de estratégia que andava esquecido nos tempos de ultrapassagens difíceis: parar mais vezes que os adversários e confiar no ritmo mais rápido para batê-los. Apesar de muitas vezes as simulações apontarem que esse é o caminho mais rápido, é fundamental que o piloto se livre rapidamente do tráfego, como fez Hamilton em Xangai naquela tarde em que, por pouco, não largou por um vazamento. Tudo começou a funcionar no sábado, quando Lewis, percebendo que não brigaria pela pole, poupou um jogo de pneus macios. Vale lembrar que o inglês superou, na pista, Rosberg e Button que estavam na mesma estratégia que ele, além de Massa e Vettel, com pneus mais desgastados – sempre fora da zona de ultrapassagem. Prova de que a Pirelli é mais efetiva para tornar as corridas emocionantes do que qualquer outro aparato de regulamento complicado.

5º GP do Japão de 2011

F1 2011 Japanese Race Edit Official [HD]

Na frente, Vettel, Alonso e Button fizeram uma guerra estratégica vencida por quem conseguiu equilibrar melhor a economia de pneus x velocidade. Curiosamente, Vettel acabou selando seu bicampeonato mundial em uma das poucas provas em que não conseguiu impor a vantagem obtida na classificação. No final das contas, dois segundos separaram os três primeiros – e isso, sem a necessidade de chuva ou de Safety Car. Como se não bastasse, Hamilton, Webber e Massa travaram outra batalha à parte por grande parte da prova, mostrando que, naquela tarde japonesa, não havia muito entre Red Bull, McLaren e Ferrari. Só a tocada de cada um com os pneus.

Pirelli, ano 3

Se o início da temporada 2012 foi o mais competitivo da história, é bem verdade que dois conjuntos – Red Bull e McLaren – se destacaram do resto do pelotão na metade final do ano e colocaram ordem na casa. E muito desta trajetória do campeonato passado teve a ver com a dificuldade em fazer os pneus funcionarem.

O diretor esportivo da Pirelli, Paul Hembery, adiantou que não espera tanta dificuldade neste ano, mesmo que a empresa tenha alterado todos os compostos, tornando-os mais macios, mais rápidos, mais diferentes entre si e buscando provas com duas a três paradas. O britânico disse, ainda, que a tentativa de jogar mais pimenta por parte da fornecedora será adotando escolhas mais agressivas nos compostos levados a cada prova.

De fato, usar pneus ou macios demais para determinada pista, ou dois compostos com rendimento bastante diferente entre si são boas táticas para aproximar o grid. Isso porque cria estratégias alternativas desde a classificação, em que alguns pilotos podem optar por comprometer o sábado e buscar vantagem ao ter um jogo de pneus novos a mais no domingo. Nas últimas corridas de 2012, como havia um composto obviamente superior e durável, esse tipo tipo de tática, que possibilitou, por exemplo, dois pódios de Sergio Perez, se perdeu.

Mas a lógica diz que não há nada que a Pirelli possa fazer para gerar um nível de incerteza como o do início de 2012. Afinal, além dos pneus, os times grandes estavam tentando se entender com o comportamento do carro após a adoção de regras que limitaram bastante a ação do escapamento soprado no difusor. E, à medida que conseguiram reproduzir ao máximo o efeito que fez da Red Bull de 2011 imbatível, automaticamente as corridas se tornaram mais previsíveis.

Ainda assim, até no final do ano a performance relativa dos carros mudava dependendo da interação carro/circuito. E os pneus têm a ver com isso. O grande problema com os Pirelli é fazer os pneus dianteiros funcionarem, aquecendo-os de dentro para fora. Para piorar, os traseiros entram na temperatura adequada rapidamente, a dificuldade é encontrar o equilíbrio. O que normalmente acontece é que, com os pneus frios, a tendência é o carro sair de frente e, se esse comportamento se mantiver assim, apenas a superfície do pneu vai se aquecer e ele se degradará rapidamente. Por isso, vemos os pilotos freando tão fortemente antes das largadas, para tentar fazer com que uma altíssima temperatura do freio aqueça o pneu dianteiro por dentro.

Para 2012, como a Pirelli aumentou a aderência, os problemas de aquecimento devem ser minimizados. Outra mudança é que, com o fortalecimento da lateral do pneu, a desvantagem de frear e virar ao mesmo tempo deve ser menor, o que combina mais com o estilo de alguns pilotos. Por outro lado, espera-se mais degradação termal, ou seja, desgaste por excesso de temperatura. Na busca do meio termo entre performance e loteria, pelo menos no papel, parece um bom caminho.

Quatro vagas e uma chance de ouro

A experiência não anda muito popular no fundão

Enquanto a maioria se preocupa em montar o cronograma para os testes coletivos, três equipes ainda não definiram a dupla de pilotos para 2013. O motivo da demora, claro, é a eterna busca pela combinação do melhor piloto com o maior apoio financeiro possíveis. E essa definição ganha ainda mais importância quando se está perto de uma grande revolução técnica que, ao mesmo tempo em que representa uma grande chance para as equipes médias e pequenas darem um salto de produção e valoriza os pilotos mais experientes, gera a necessidade de investimento extra.

Não por acaso, as três equipes em situação financeira mais complicada seguem indefinidas. Caterham e, especialmente, Marussia, são as duas que menos recebem dinheiro do bolo que os times dividem da venda dos direitos comerciais da categoria. E a Force India basicamente serve como outdoor ambulante das empresas de seu dono, Vijay Mallya – e os negócios, principalmente da Kingfisher Airlines, que teve sua licença cassada, vão de mal a pior.

Mas isso não quer dizer que o piloto com a maior mala de dinheiro levará a vaga. Como uma posição a mais no mundial de construtores pode render de 3,4 a 17,6 milhões de dólares (a complicada conta da divisão foi explicada neste post) é importante que o recruta não seja um zero à esquerda. Ainda mais em um ano em que os gastos serão maiores no desenvolvimento de um novo projeto para 2014 – sem contar nos novos motores, que devem custar consideravelmente mais do que os cerca de 12 milhões de dólares atuais.

Isso faz com que a decisão sobre a dupla de pilotos dos times médios e pequenos seja ainda mais delicada, como explica Cyril Abiteboul, chefe da Caterham, que só fechou com o pagante e jovem Charles Pic até o momento:

“Uma opção é alguém com quem Pic possa aprender e usar como base para o que queremos de ambos os pilotos. Outra opção, mais radical, é aceitar o fato de que 2013 é um ano de transição em que continuaremos a construir a equipe antes de um período de maior estabilidade em 2014, quando muitas coisas no pacote mudarão.”

Com a dispensa de Glock, parece que a Marussia optou por esse radicalismo. Se desistiu da continuidade de um piloto experiente – e assalariado – provavelmente será para lucrar com ambas as vagas. Há, no mercado, pilotos endinheirados e com certa experiência, de Bruno Senna a Adrian Sutil, passando por Vitaly Petrov, que podem cair como uma luva nesse tipo de situação. Mas e o medo de não obter os resultados que o carro permite e, com isso, perder dinheiro vindo dos construtores?

A opção mais segura seria ter um piloto com bastante experiência e outro com certo talento e bolso cheio, como já discutimos aqui. Por outro lado, o exemplo recente da Williams, que engrenou basicamente com o bom direcionamento do dinheiro vindo de pagantes, é tentador. E a saída, não apenas de Glock, como de Kovalainen e Kobayashi, outros exemplos de pilotos assalariados, comprova isso.

É muito difícil que alguém repita o exemplo da Red Bull na última grande mudança de regras, em 2009, e passe de média a dominadora, até por não haver no pelotão estrutura e investimento semelhantes. Mas é preciso pensar bem no passo final antes da chance de ouro de tirar o pé da lama que as médias terão em 2014.

O fator Kimi e as apostas da Lotus

É fácil levantar agora a plaquinha do “eu já sabia”. Difícil era saber o que esperar de Kimi Raikkonen, dentro e fora das pistas, há pouco mais de um ano, quando a Lotus anunciou a contratação do finlandês. Em termos de pilotagem, o campeão de 2007 não vinha sendo nos últimos anos de Ferrari nem sombra do piloto que mereceu muito mais do que ganhou na McLaren e ainda por cima passara dois anos longe dos monopostos. Em termos comerciais, Kimi sempre deixou claro que não se pode esperar dele a mais aberta e clássica das abordagens. Primeiramente, era necessário apostar em sua readaptação. E, ao invés de forçar Raikkonen a ser quem não é, lucrar justamente com sua imagem de anti-garoto-propaganda.

No final das contas, ficou claro que, para ambos os fatores, a Lotus não poderia ser um ambiente melhor para o retorno do Iceman. E, do lado do piloto, isso também foi uma aposta e tanto. A equipe parecia perdida após o acidente de Robert Kubica em 2011 e a aposta pelo escapamento frontal – outra decisão arriscada, por sinal – e poucos previam que eles encontrassem o caminho e mantivessem o ritmo do desenvolvimento.

Parte das dúvidas era relacionada ao dinheiro, pois sabia-se que a Genii havia se comprometido a um pagamento a longo prazo pelo espólio da Renault e contava com o apoio da Lotus Cars, empresa que, sob a batuta do ambicioso Dany Bahar, andava com mais projetos do que recursos em caixa. Em pouco tempo, o turco foi limado da empresa malaia e a Lotus parou de investir na equipe. Em um acordo comercialmente bom para ambas as partes, o nome ficou.

O resumo da obra é que, se a abordagem mais conservadora no campo técnico em 2012 deu resultados na pista e o risco com Raikkonen acabou saindo melhor que a encomenda, as apostas comerciais ainda engatinham. A equipe sofre sérios problemas financeiros e, especula-se que deva perto de 80 milhões de euros. Não coincidentemente, surgem boatos de uma possível venda, ainda que faça sentido a posição oficial da Genii de que deseja apenas se desfazer de parte das ações.

Afinal, se Raikkonen demonstrou seu valor dentro da pista, também provou ser uma peça útil em termos comerciais. A postura da Lotus, ao deixar o finlandês à vontade, acabou provando ser a mais acertada tanto para gerar marketing positivo, quanto para fazê-lo render na pista logo de cara e se encaixou na imagem jovial que o ex-time de Flavio Briatore sempre cultivou. Kimi já chegou junto de patrocinadores menores no início de 2012, mas a intenção da equipe, a longo prazo, é usá-lo para atrair marcas mais despojadas, como a do energético Burn, da Coca-Cola. Faz bem mais sentido do que ver Kimi posando com roupas Hugo Boss.

Resta a corda não estourar antes que a estratégia der resultado também financeiro para não comprometer os investimentos no carro. Olhando neste início de 2013, parece uma façanha, mas, em se tratando do que se mostrou ser uma poderosa parceria, é melhor não duvidar de Raikkonen e da Lotus.

Chegou a hora da Mercedes?

A briga pelo título pode estar longe de ser uma meta, mas ninguém promete gerar tanto interesse neste início de ano quanto Lewis Hamilton e sua Mercedes. São várias as incertezas que cercam a equipe alemã. São várias, também, as explicações para os insucessos nestes três anos. O que resta saber é o quanto dos erros anteriores o time conseguirá reparar – e em quanto tempo.

A contratação de Hamilton tem toda pinta de obra arquitetada por Ecclestone para agradar a chefia da montadora alemã, cansada de colocar dinheiro em algo que não dá resultado. E a chegada do inglês não representa apenas uma resposta do comprometimento esportivo da equipe para a empresa: trata-se do piloto mais identificado com a cultura norte-americana do grid e com todo interesse do mundo em se promover na terra da namorada famosa e dos amigos rappers. Tudo alinhado com uma montadora que viu, em 2012, o aumento de 11,8% nas vendas nos EUA ser a grande alavanca para um de seus maiores lucros da história, mesmo com a sensível queda na própria Alemanha (-0,4%) e em boa parte da Europa ocidental.

A questão do investimento x retorno é particularmente importante no caso da Mercedes porque quando a Brawn foi comprada, a expectativa era de que o investimento não seria tão alto, uma vez que Norbert Haug e companhia acreditavam que o acordo para restrição de gastos (o RRA, em inglês) seria mais do que um trato entre cavalheiros, obrigando Ferrari, McLaren e Red Bull a enxugarem suas estruturas. Para entender a importância disso no caso da Mercedes temos de lembrar que a Brawn, em seu único ano de existência, usou um carro concebido com o orçamento gigantesco da Honda, mas teve de reduzir drasticamente seus gastos após a derrocada dos japoneses. O preço desta estagnação técnica, somada à falta de efetividade do RRA, é pago até hoje.

Um exemplo disso é o túnel de vento, que apenas ano passado foi atualizado para um modelo com escala de 60%, o máximo permitido pelo regulamento. Esta, inclusive, foi uma das justificativas para a péssima campanha do segundo semestre de 2012. De fato, o desenvolvimento do W03 pareceu estagnado após um início promissor – nas primeiras 10 provas, a posição média de classificação do melhor Mercedes foi 3,8, despencando para 9,2 na segunda parte do campeonato.

Outro problema foi a insistência em trabalhar com o DRS passivo em detrimento do melhor aproveitamento dos gases do escapamento. Ainda que a adoção de um sistema mais eficiente para o direcionamento dos gases para o difusor possa fazer o W04 ganhar muito terreno, a equipe continuará atrás das rivais diretas nesse quesito. Quem vai resolver essa questão do foco dos recursos também não é claro em uma equipe que contratou Bob Bell, Geoff Willis, Aldo Costa e Mark Elliot nos últimos anos.

Na teoria, ter um astro como Hamilton pode atrair investimentos e colocar os problemas estruturais no passado. Mas será que só isso reduziria a ampla distância para Red Bull e companhia? Será que a chegada do polêmico – e pouco efetivo nos tempos de Jaguar – Niki Lauda para fazer a ponte política entre a fábrica na Inglaterra e os acionistas alemães não trará mais um cacique em terra de pouco índio? E o próprio Hamilton, finalmente vai assumir o papel de líder no desenvolvimento de uma equipe ou continuará sob as asas dos engenheiros como nos tempos da McLaren?

Com a casa em seu quarto ano de reorganização, é de se esperar uma melhora considerável em relação ao fim de 2012. Porém, seria surpreendente ver a Mercedes como candidata costumeira às vitórias. O mais provável é que, lá pelo meio do ano, ouviremos Ross Brawn salientar as vantagens de focar no projeto de 2014. E esperar que a mudança considerável nas regras seja o empurrão que faltava para uma nova Brawn florescer.

Button tem faca e o queijo na mão na McLaren

A Red Bull tem Vettel, a Ferrari tem Alonso, a Lotus tem Raikkonen, a Mercedes tem Hamilton e a McLaren… Jenson Button. Ninguém o coloca no mesmo nível dos demais em condições iguais, mas o inglês já demonstrou que, quando tem o carro na mão, é capaz de bater todos eles. E é por isso que anda cheio de confiança antes de sua primeira temporada como líder em Woking.

Desde setembro, tanto ele, quanto a equipe, sabem quais serão os pilotos de 2013. Tempo suficiente para que o inglês tenha sido bastante ouvido em seus pitacos. É verdade que Button não pede nada demais: sua pilotagem funciona apenas com um carro absolutamente neutro, algo que, por sinal, não desagradaria em nada Sergio Perez que, quanto menos correções tiver de fazer com o volante, mais pode mostrar de seus encantos com os pneus. Nos três anos com Hamilton, a necessidade de neutralidade também existia, mas se o desenvolvimento levasse o carro a ficar mais nervoso, Lewis conseguia se virar. Agora, o foco da equipe é único.

Outra grande notícia para Button é que o problema de aquecimento de pneus – a McLaren demorou muito para compreender como lidar com os compostos de 2012 da Pirelli, com temperaturas ótimas de operação diferentes para traseira e dianteira – foi contornado no final do ano passado. Isso foi particularmente prejudicial para suas classificações e o levou a algumas corridas abaixo da crítica, como no Bahrein e no Canadá. Após uma mudança na direção do acerto e novidades introduzidas no carro para corrigir o problema, o inglês pulou de classificar-se em 16º na Inglaterra a lutar pela vitória duas semanas depois, na Alemanha.

É por essas e outras que fica difícil prever o que pode acontecer com Button agora que conseguiu, digamos, ganhar a equipe para si e tirar aquele que possivelmente é o piloto mais rápido em uma volta lançada do caminho. Ao mesmo tempo em que, com o carro na mão, pode ser imbatível, um upgrade que altere o comportamento do carro pode colocar tudo a perder. Também é questionada sua capacidade de encontrar soluções para seus corriqueiros problemas de acerto.

Politicamente, o piloto de 33 anos, que deu suas escorregadas no passado, hoje se mostra preparado para encarnar o papel de líder. E ele não se cansa de repetir isso, relembrando Perez por meio da mídia de sua inexperiência e da diferença de estar em uma equipe grande. A dinâmica entre os dois, inclusive, promete ser um dos temas espinhosos da temporada.

Fica claro que este momento, em que tem a equipe para si e o companheiro ainda em desenvolvimento, é decisivo na carreira do campeão de 2009. Ainda mais correndo pela equipe que atravessa seu melhor momento técnico desde o título de 2008: a McLaren foi quem mais vezes largou na pole em 2012 e só não venceu sete das últimas 10 etapas do ano por quebras. Além dos apagões com os pneus, são elas que Button quer ver longe nesta temporada para mostrar que merece este posto tão privilegiado.

Concorrência para os pagantes

O Brasil tem a chance real de começar a temporada 2013 com apenas um piloto no grid da Fórmula 1. Nenhuma novidade para um país em que as categorias de base de monopostos não conseguem sobreviver. Porém, a F-1 está recheada de exemplos de pilotos na mesma situação, mas ajudados pela iniciativa privada. Afinal, com o apoio financeiro, é possível ir até onde pode-se ganhar experiência.

O exemplo mais próximo de um Perez, um Maldonado ou mesmo um Bottas por aqui é Felipe Nasr, que vai para seu segundo ano de GP2 vindo de títulos na Alemanha e na contando com o contínuo apoio de empresas brasileiras, especialmente o Banco do Brasil.

Nasr, que saiu do Brasil aos 16 anos direto do kart, espera ter como grande rival pelo título um inglês fruto de uma interessante fábrica de jovens talentos. James Calado é um dos filhos pródigos do Racing Steps Foundation, entidade que, desde 2007, busca jovens talentos no automobilismo e no motociclismo no Reino Unido.

A fundação, privada e sem fins lucrativos, é mantida por um empresário do ramo de commodities, Graham Sharp, fanático por automobilismo e conhecido por suas obras de caridade. John Surtees, único campeão mundial das motos e da F-1, é o embaixador e olheiro. A seriedade da empreitada atraiu o apoio de equipes de tradição das categorias de base, como a Carlin e a ART, garantindo que os pilotos escolhidos tenham boa estrutura para se desenvolver. Outra preocupação é com a formação escolar dos meninos, uma vez que a Racing Steps trabalha com promessas desde o kart.

Para 2013, por enquanto foram anunciados quatro pilotos. Além de Calado, que faz seu segundo ano na GP2, o campeão da F-3 International, Jack Harvey, vai para a GP3. Campeão da Formula Renault NEC e vencedor do prêmio McLaren Autosport BRDC, Jake Dennis subirá para a Eurocup Formula Renault 2.0. Já John McPhee estará na Moto3.

O primeiro “graduado” da iniciativa, criada em 2007, é Oliver Turvey, hoje piloto de testes da McLaren. Mas tudo indica que Calado, estreante do ano na GP2 ano passado, será o primeiro grande fruto do Racing Steps. Curiosamente, o inglês foi vice campeão de dois pilotos que hoje estão na F-1 (de Vergne na F-3 Britânica em 2010 e de Bottas na GP3 em 2011). Em ambas as categorias, fez apenas um ano antes de seguir adiante e agora terá, na GP2, um teste com as vantagens e pressões de ser badalado como candidato ao título em sua segunda temporada.

Trata-se de uma história semelhante à de Lewis Hamilton que, se dependesse apenas do paitrocínio mesmo nos tempos de kart, estaria hoje no sofá de casa. Calado é outro menino de família humilde para os padrões britânicos e, sem o Racing Steps, muito provavelmente seria limado do automobilismo mesmo antes que pudesse mostrar serviço. A diferença em relação aos tempos de Hamilton é que a gastança de empresas ligadas à F-1, com exceção da Red Bull, com programas de desenvolvimento é coisa do passado, diminuindo a possibilidade de jovens que não tenham apoio de grandes empresas de seus países.

É nessa lacuna que o Racing Steps entra: ao invés de concorrer na “compra” de vagas, o programa busca preparar os pilotos para que eles gerem interesse de boas equipes e, assim, possam mostrar serviço para ir adiante. É a prova, que poderia muito bem ser copiada por aqui para que o exemplo de Nasr não fosse único, de que não é só de caminhões de dinheiro que se vive no automobilismo.

A era dos simuladores – parte 2

No post de ontem, expliquei a complexidade dos simuladores usados na F-1 e como eles não podem ser comparados aos jogos de videogame, mesmo com toda a tecnologia presente nos modelos atuais. Porém, a Nissan vem promovendo campeonatos virtuais que fazem de gamers pilotos de verdade. E, no que era inicialmente uma experiência mais voltada ao marketing, acabou encontrando o que parece ser um modelo de piloto do futuro.

Jann Mardenborough é o mais promissor dos vencedores do GT Academy e levanta a questão do quão preparados estão os viciados em jogos online para disputar uma categoria automobilística de “carne e osso”. O galês de 21 anos terá sua primeira experiência em um campeonato de monopostos neste ano, na Nova Zelândia, após ser vice-campeão britânico de GT3.

Mas seria possível tornar-se um piloto treinando no simulador? Tecnicamente, o problema seria a falta de noção de velocidade e a consequente sensação de compressão corporal, ou seja, o lado físico da pilotagem. “O simulador é ótimo, muito realista, mas não temos a força G”, explica Lewis Hamilton. “Contudo, todos os pilotos aprendem circuitos muito rapidamente porque fazemos isso desde a infância.”

Mas, além dos traçados, o que dá para aprender? Noção de espaço, de freada, correções de volante e todos os itens que compõem o chamado racecraft, ou seja, a habilidade de gerir uma corrida contra outros competidores, são fatores ensinados pelos jogos mais realistas, como o Gran Turismo, por exemplo, que levou Mardenborough ao programa da Nissan.

Por outro lado, a lógica diz que a tradução direta entre simulação e realidade por ser mais complicada. Como serão as reações do piloto virtual quando vir o risco de perto e não puder apertar “restart”? E a sensibilidade da interação entre asfalto e pneus, a sensação de aderência, que ainda não consegue ser totalmente reproduzida?

Isso nos leva a outra questão: o quanto de um piloto é talento nato e o quanto é treinado nas categorias de base? Não seriam todas essas questões da sensibilidade, da adaptabilidade e da superioridade em relação ao perigo algo que nasce com aqueles escolhidos? Ao menos no caso mais famoso de Mardenborough, trata-se de um jovem com quatro anos de experiência no kart na infância, que teve de abandonar o esporte por falta de dinheiro. Portanto, não é 100% gamer e já era visto como um grande talento na infância.

Há Lucas Ordoñez, espanhol que fez boa transição do GT as corridas de verdade, sem passagens anteriores por outras categorias. Mas não chegou tão pronto quanto o britânico. Ainda assim, são exemplos que abrem uma possibilidade interessante: dar a chance no automobilismo a quem não tem dinheiro para disputar categorias de base.

Um grande piloto é aquele que se adapta mais facilmente às diferentes condições e, por que não, transitar com tranquilidade do virtual ao real pode ser uma grande demonstração disso. Só fica difícil imaginar a possibilidade de queimar todas as etapas até chegar na F-1, pois, quanto mais rápidos os “brinquedos reais”, maior a ação justamente das forças que não estão presentes na simulação – e não há treino melhor para lidar com isso do que sentar no carro. Mas, para quem nasceu com jeito para a coisa, mais iniciativas como a da Nissan podem ser o empurrão que faltava na conta bancária para pular alguns anos de preparação na pista e tornar realidade o sonho de se tornar piloto.

A era dos simuladores – parte 1

Foi a preocupação com os gastos dos testes de pista que deu o empurrão que faltava à era dos simuladores na Fórmula 1. Hoje, é tão preciso o trabalho feito fora dos circuitos que a margem de erro do acerto do carro, de asas ao mapeamento de motor, é menor que 1%, mesmo antes de entrar na pista.

Isso é algo que deve ficar claro quando falamos em simuladores na F-1: eles nada têm a ver com joguinhos de videogame e não servem para treinar os pilotos – no máximo, ajudam a relembrar os traçados. “Se o jogo fosse 100% real, seria tão difícil que quase ninguém conseguiria sair do lugar”, explicou Bruno Senna, que teve de se preparar via Playstation para o GP dos Estados Unidos de 2012.

Para se ter uma ideia da precisão, as equipes chegaram ao Texas sabendo detalhes como o consumo de combustível por volta, velocidades e marchas em cada curva e até qual o tipo de configuração aerodinâmica mais adequado. Isso, em uma pista em que apenas havia sido feita uma apresentação, com a Lotus.

Os dados da pista são coletados com antecedência. “Quando vamos para um circuito novo, por meio de fotos de satélite e plantas fazemos um modelo do circuito e cada equipe tem o seu programa de simulação que é capaz de reproduzir exatamente a volta de um piloto”, explica o engenheiro brasileiro Ricardo Penteado, chefe de motores da Renault na equipe Lotus. “Há um catálogo gigantesco com todas as peças do carro. Você monta o seu carro nesse programa de simulação e cada peça do carro está modelizada, então você sabe qual é a influência de cada peça no conjunto final do carro. Quando você lança isso no simulador, ele analisa qual o máximo de aderência, qual o máximo de torque de motor que ele vai poder passar para a roda – o que vai resultar na posição do pedal do piloto.”

Assim, os pilotos não usam os simuladores apenas para aprender o traçado, mas também trabalham com um acerto bastante semelhante ao que usarão na pista. Porém, eles mesmos reconhecem que a tecnologia não dá conta de tudo. “Quando chegamos, buscamos saber qual o nível de aderência que teremos e observamos como são as zebras”, revelou Felipe Massa.

Nesse contexto, dá para interpretar as recentes declarações de Kimi Raikkonen, para quem o novo simulador da Lotus não fará muita diferença, como o padrão Kimi de não cultivar expectativas. Porém, se o finlandês, cuja capacidade de aprender pistas novas é particularmente impressionante, não se animar em ir a Enstone dar umas voltas para acertar o carro e prever o comportamento com peças novas, o piloto de testes o fará. E certamente a equipe ganha com isso. Sempre haverá aqueles que se sentem mais confortáveis testando o máximo possível – como Fernando Alonso, que deu 300 voltas na pista texana antes de pisar em Austin – e aqueles que preferem descansar para chegar às provas com baterias recarregadas. Questão de estilo. Mas podem ter certeza que o simulador não ficou parado.

Mas seria possível tornar-se um piloto treinando apenas no simulador? Esse assunto fica para amanhã.

Bernie e a sucessão

Nem a idade avançada parece arrefecer o incrível gosto de Bernie Ecclestone por tirar vantagem em seus negócios. O homem que, desde os anos 1970, parece sempre estar um passo adiante dos demais dirigentes da F-1, não dá sinais de que queira largar o osso, mesmo aos 82 anos – não acredito em prisão pelo caso Gribkowsky, sendo uma gorda multa mais adequada para um réu que não terá muito tempo de cumprir a pena; porém, ainda não se sabe qual a atitude que a empresa da qual é CEO, a CVC, agirá caso seja considerado culpado.

Se Ecclestone não demonstra vontade de estar de saída, é bem verdade que a recíproca é verdadeira. Para entender seu papel no circo, é preciso remontar a seu passado. O menino que, na época da Segunda Guerra Mundial, trocava o lanche dado na escola por mercadoria, foi um piloto frustrado, um empresário de piloto marcado por perdas trágicas, mas nunca escondeu que sentia prazer mesmo em fazer o melhor negócio possível para si. E encontrou na F-1 amadora de 40 anos atrás, cheia de apaixonados mais por carros do que por dinheiro, um palco fácil para desfilar seus dotes.

Achava que as equipes ganhavam pouco dos organizadores de provas e propôs cuidar disso em nome dos chefes de equipe, que não eram muito afeitos ao mundo dos negócios. Fez o mesmo com toda a questão logística, percebendo que seria possível economizar caso todos transportassem carros e equipamentos juntos. Fez o mesmo com os direitos televisivos. Fez o mesmo com a parte promocional. Não é exagero dizer que a F-1 partiu de uma brincadeira de entusiastas ao evento milionário, com números comparáveis a Jogos Olímpicos e Copas do Mundo de Futebol, muito devido a ele.

O que foi uma grande solução nos últimos 30 a 40 anos, hoje é um grande problema. Ecclestone é um centralizador, cuida pessoalmente dos negócios capitais da categoria, nunca apontou um sucessor. Por outro lado, as equipes demonstraram – como já haviam feito nos anos 1980 – que não conseguem sequer entrar em acordo entre si com o racha da FOTA ao final do ano passado, a saída de Red Bull, Ferrari e suas “crias”. E, entre seus chefes, ninguém desponta como um líder nato para ocupar esse papel.

Se o substituto de Ecclestone não parece vir do mundo da F-1, o mais provável é que a categoria fique nas mãos de alguém ligado ao mundo dos negócios com certa vivência em automobilismo, como o ex-piloto e atualmente CEO de uma empresa de marketing do setor Zak Brown, por exemplo. Ou, ligado ao marketing esportivo, como o CEO da Premier League Richard Scudamore. Assim, seria de se esperar o mesmo estilo empreendedor e pouco afeito a valores históricos que marca a era Ecclestone.

Mas que ninguém duvide que Bernie já tem tudo arquitetado, como quando dava lances propositalmente baixos para comprar lojas inteiras de carros usados na Londres do pós-guerra, impressionando o vendedor, que nunca havia somado o valor dos carros. Há muito tempo o mundo da F-1 já aprendeu que subestimar o baixinho é o pior dos negócios.

Quem levou a melhor?

A temporada 2012 marcou o fim de um cenário dos mais incomuns: os quatro times de ponta com as mesmas duplas de pilotos por três anos consecutivos. E, com um universo de 58 corridas, trata-se de um momento oportuno para tentar desvendar quem se deu melhor em cima do colega de box.

Na leitura dos números, aproveito para lembrar que os placares de classificação não consideram eventuais punições e os de corrida contabilizam apenas provas completadas por ambos os pilotos. O nome antes de cada placar indica quem levou a melhor. Aproveitei para destacar alguns números que me chamaram a atenção.

Vettel x Webber

201020112012
ClassificaçãoVET 12 x 7VET 16 x 3VET 11 x 9
CorridaVET 10 x 5VET 15 x 2VET 11 x 6
VitóriasVET 5 x 4VET 11 x 1VET 5 x 2
PolesVET 10 x 5VET 15 x 3VET 6 x 2
PontosVET 256 x 242 (51%)VET 392 x 258 (60%)VET 281 x 179 (61%)

Se o duelo aparentemente apertado de 2010 teve muito a ver com os mais de 60 pontos perdidos por Vettel devido a quebras, a lavada de 2011 também foge à regra – lembrando que a dupla da Red Bull entra no quinto ano de parceria em 2013.

Os dados do ano passado, porém, mostram algo interessante: tanto Vettel, quanto Webber, são conhecidos por classificar muito bem, certo? A diferença a favor do alemão é justamente que ele não é só isso. Enquanto más largadas e ritmo inconsistente marcam a carreira de Webber, Vettel vai caminhando para se tornar um piloto completo. Assim, mesmo em seu “pior” ano em termos de classificação, conseguiu a maior margem percentual em pontuação em relação ao companheiro neste ano. Maior, até, que no passeio de 2011.

Hamilton x Button

201020112012
ClassificaçãoHAM 14 x 5HAM 13 x 6HAM 17 x 3
CorridaHAM 9 x 37 x 7HAM 9 x 4
VitóriasHAM 3 x 23 x 3HAM 4 x 3
PolesHAM 1 x 0HAM 1 x 0HAM 7 x 1
PontosHAM 240 x 214 (52%)BUT 270 x 227 (54%)HAM 190 x 188 (50%)

Era de se esperar que o único duelo que colocou dois campeões do mundo frente a frente nestes três anos fosse o mais equilibrado. Porém, a balança só pendeu para Button em 2011, ano marcado por diversos erros de Hamilton. Muito da superioridade de Lewis tem a ver com as classificações, nas quais foi bastante superior ao companheiro.

Por outro lado, é curioso observar que, embora tenha ampla vantagem em posições de chegada em 2010 e 2012, Hamilton não consegue transformar isso em pontos, fazendo com que, no total dos três anos, Button o supere nesse quesito. Tudo bem que as quebras de 2012 quando estava na liderança pesaram contra nesta temporada, mas não é uma tendência que vem de hoje. Será que ter ficado com o “come queito” Button como líder após a saída do virtuoso Hamilton não foi um negócio tão ruim para a McLaren?

Alonso x Massa

201020112012
ClassificaçãoALO 15 x 4ALO 15 x 4ALO 17 x 3
CorridaALO 13 x 3ALO 13 x 2ALO 17 x 0
VitóriasALO 5 x 0ALO 1 x 0ALO 3 x 0
PolesALO 2 x 0ALO 0 x 0ALO 2 x 0
PontosALO 252 x 144 (63%)ALO 257 x 118 (68%)ALO 278 x 122 (69%)

Em classificação, Massa não tem um desempenho tão aquém em relação a Alonso comparando os números de Button contra Hamilton, mas o abismo entre as performances dos dois é bem maior porque o brasileiro não consegue recuperar o terreno perdido em corridas, nas quais o companheiro é especialista.

A impressão é de que, quando está seguro com o carro, Massa consegue andar pelo menos no ritmo de Alonso; o problema é que a grande característica do espanhol é sua consistência, ou seja, quando o brasileiro não está em um bom final de semana, o prejuízo é grande. Causa ou consequência, é difícil culpar a Ferrari pelos claros jogos de equipe, que afetam alguns comparativos em corrida e na pontuação: eles sabem com quem, dia sim, dia também, podem contar.

Schumacher x Rosberg

201020112012
ClassificaçãoROS 14 x 5ROS 16 x 310 x 10
CorridaROS 12 x 2ROS 7 x 6MSC 7 x 3
Vitórias0 x 00 x 0ROS 1 x 0
Poles0 x 00 x 0ROS 1 x 0
PontosROS 142 x 72 (66%)ROS 89 x 76 (53%)ROS 93 x 49 (65%)

Ainda que muita gente esperasse um Michael Schumacher, no mínimo, mais competitivo nestes três anos de sua volta, ao menos dá para dizer que o alemão não ficou estacionado na mediocridade no período em que foi companheiro de Nico Rosberg. As performances relativas do heptacampeão frente ao compatriota foram melhorando a cada ano, com destaque para os resultados em corrida nesta temporada. A pontuação só não reflete isso porque todas as cinco falhas mecânicas da Mercedes no ano ocorreram no carro de Schumacher.

É difícil saber o que era de se esperar de Schumacher voltando em uma equipe bem menos estruturada do que a Ferrari em seus dias de glória, com novas regras que mudaram a cara da competição, mais velho e após três anos parado. Tão difícil quanto entender o calibre da competição que enfrentou com Rosberg, que terá contra Hamilton a partir de 2013 – e com a promessa de outros três anos de parceria – seu maior desafio da carreira.

Aquecendo os motores

Muita gente gosta desta história de resolução de ano novo mas, se a Fórmula 1 tivesse a sua, qual seria? É difícil imaginar em que a temporada 2013 possa ser melhor do que a do ano passado e seu sem-número de destaques, da alta qualidade de pilotagem especialmente de Vettel, Alonso, Raikkonen e Hamilton, passando pelo crescimento das equipes médias e a montanha-russa, por vezes inexplicável, de performances principalmente no início do ano.

Por um lado, como as regras permanecem basicamente estáveis, é de se esperar que o equilíbrio atual permaneça, permitindo que equipes que há anos estavam longe das primeiras posições possam lutar, no mínimo, por pódios. É claro que, ao longo da temporada, os melhores conjuntos – e dificilmente não serão os mesmos suspeitos de sempre, pela continuidade dos modelos anteriores – tendem a se sobressair.

Ainda assim, o pelotão da frente também traz suas incógnitas, com a McLaren e suas más execuções de finais de semana, a Ferrari e seus problemas aerodinâmicos, a Lotus buscando a consolidação do terreno ganho em 2012 e a Red Bull provando que os ajustes nas regras – principalmente em relação aos testes mais rigorosos para as asas e à restrição no uso da DRS – não tirarão a vantagem técnica cujas fundações foram firmadas ainda em 2009.

Mas, pelo menos neste início de temporada, ninguém promete chamar mais a atenção do que a Mercedes, que atraiu um dos melhores pilotos mesmo ainda devendo no quesito técnico. O quanto Hamilton poderá aportar ao time alemão é uma das grandes questões de 2013.

Tudo isso em meio a novos ajustes nos pneus, repetindo a receita que deu certo para tornar 2012 inesquecível: carros com desempenho próximo e variáveis difíceis de dominar, trazendo à tona o melhor de equipes e pilotos.

Falando neles, há expectativas para todos os lados. Perez estará sob os holofotes na McLaren, ao lado de um Button que busca provar ser um líder do mesmo nível das grandes estrelas dos rivais diretos. Hulkenberg é outro que ganhou moral em 2012 e busca seguir em ritmo ascendente rumo a um time grande. Há os que têm de se provar para garantir sua permanência, como Felipe Massa, Romain Grosjean ou Paul Di Resta e quem, como Alonso e Raikkonen, chegou muito perto da perfeição em 2012 e vive o desafio de manter o padrão.

São muitos os assuntos para tentarmos entender antes da hora da verdade em pouco mais de dois meses. Encerro o recomeço explicando o sumiço repentino: não tive muita chance de me programar antes da minha cirurgia para corrigir a miopia – marcada na correria e que, aliás, recomendo a todos os reféns de óculos e lentes de contato. Confesso que escrevo estas linhas com a visão ainda um pouco embaçada, mas pelo menos já dá para prometer um novo olhar para a temporada 2013!

Até breve

Tinha uma série de posts planejados para discutirmos sobre as lutas entre companheiros de equipe em 2012, entre outros. Porém, aproveitando os últimos dias em que vale, pelo regulamento deste ano, o termo “força maior”, me recorro a ele para justificar a ausência no blog por alguns dias.

Deixo vocês com uma poesia sobre nosso tema favorito.

http://www.youtube.com/watch?v=YxuY6zArsFY

Qual foi o carro mais rápido do ano em 2012?

Muitos torcem o nariz quando se diz que o carro da Ferrari não foi competitivo ao longo da temporada, mas difícil é achar um final de semana em que o F2012 tenha sido o melhor do grid. Talvez tenha chegado mais perto em Monza, quando Alonso teve seu único problema de confiabilidade do ano, na classificação.

A Ferrari começou lutando para entrar no Q3, para ser o quinto carro do grid. Após compreender os erros iniciais e conseguir usar suas ideias, principalmente na área do escapamento, originais, o carro se tornou competitivo entre junho e julho. Depois, o desenvolvimento lento fez com que o rendimento caísse novamente em relação principalmente a McLaren e Red Bull, mas também em comparação à Lotus.

Essa não seria a história de um carro que faz um campeão. Ainda assim, Alonso lutou pelo campeonato até o final. O mérito do espanhol foi saber aproveitar-se de uma característica importante do F2012: trabalhar os pneus de forma que eles permanecessem em sua zona de temperatura correta e, assim, colocou-se em posição de lucrar em um ano atípico, em que era comum ver até seis equipes com menos de 1% de variação de tempo de volta entre elas.

Outro ponto importante, que explica tanto o campeonato de Alonso, quanto do próprio Sebastian Vettel, que foi campeão tendo um carro mais rápido em termos de velocidade pura em 7 das 20 etapas (35%): a equipe mais veloz do ano, a McLaren, quebrou e errou muito, especialmente em pit stops, e jogou pontos que Alonso, Vettel e Raikkonen agradeceram.

Equipe% média de déficit para o carro mais rápido (2012) % média de  déficit para o carro mais rápido (2011) Variação
McLaren0.180.5-0.32
Red Bull0.380.01+0.37
Lotus0.682.2-1.52
Ferrari0.750.83-0.08
Mercedes0.871.5-0.63
Williams0.962.76-1.8
Sauber1.152.75-1.6
Force India1.162.51-1.35
Toro Rosso1.823.06-1.24
Caterham3.495.18-1.69
Marussia4.836.85-2.02
HRT5.737.86-2.13
Red BullFerrariMcLarenLotus
Vitórias7371
Pódios14151310
Voltas mais rápidas7033
Poles8280
Primeiras filas143161

A McLaren também passou por um problema sério em meados da temporada, tendo dificuldade em fazer funcionar pneus cuja zona de temperatura era diferente na dianteira e na traseira. Mesmo depois que conseguiram colocar a traseira no chão, após os updates de Alemanha/Hungria, ainda tiveram quedas inexplicáveis de performance.

Também faltou explicação no início de ano da Red Bull, que sofreu com as restrições no sopro do escapamento no difusor. Vettel chegou a correr com as especificações da pré-temporada para tentar entender por que não conseguia andar nem no ritmo de Webber e o time começou a se encontrar com o grande update de Valência e, depois, com o passo gigante de Cingapura.

Essas constantes mudanças na relação de forças mostram o quão próximo esteve o grid neste ano, algo também provocado pelo crescimento das equipes médias, num ritmo superior às grandes. Afinal, as donas de orçamentos menores nunca tiveram escapamentos soprados tão desenvolvidos como as grandes e certamente sentiram menos sua falta.

Falando em médias, é curioso ver no gráfico como a Williams foi a melhor em termos de ritmo em comparação a Sauber e Force India. Porém, chegou atrás delas no campeonato, a exemplo do que ocorreu com a McLaren em relação a Red Bull e Ferrari na ponta.

Os gráficos, compilados no site F1Fanatic, têm como base a volta mais rápida de cada carro em cada final de semana. Tentei observar as tendências aos domingos por meio das voltas mais rápidas, mas, tendo em vista que a Ferrari ficou em média 0.913 longe da melhor volta numericamente – e sabemos que a realidade não é essa – fica claro que não se trata de um parâmetro válido.

Revolução de 2014 segue a pleno vapor

Bicos baixos e aerofólios menores voltarão em 2014

Há alguns meses, a declaração de Adrian Newey de que a aerodinâmica se tornaria muito menos importante na Fórmula 1 a partir das mudanças nas regras de 2014 fez muita gente sonhar com uma nova revolução como a que desbancou Ferrari e McLaren em 2009. Porém, uma decisão recente da FIA falava em “reverter as mudanças que seriam feitas na carenagem para diminuir o downforce e o arrasto para a especificação de 2012”. Estaria a entidade voltando atrás?

Parece que não. O projeto do motor V6 turbo, mesmo com as críticas de Ecclestone e Montezemolo, segue adiante, o que já provocará uma série de adaptações. E, falando especificamente da aerodinâmica, as novas regras continuariam mexendo em dois aspectos fundamentais hoje: O fluxo de ar na asa dianteira e (sempre eles!) os escapamentos.

A partir do momento em que a Brawn descobriu que era possível ganhar muito do que fora perdido em termos de pressão aerodinâmica com as regras de 2009 usando o ar que passava no difusor, todos os grandes carros passaram a tentar isso de alguma maneira. A Red Bull criou a engenhosa solução de usar os gases do escapamento para este papel, o que foi teoricamente proibido neste ano (por meio de novas regras para posicionamento dos escapes e mapeamento de motor), mas obtido, mesmo que em menor escala, com o efeito Coanda – que usa a curvatura da carenagem para direcionar o ar do escapamento para baixo, gerando pressão aerodinâmica.

Novas regulamentações, que afastam ainda mais a saída do escapamento da parte traseira do carro, farão com que seja impossível reproduzir o efeito Coanda em 2014, em mais uma tentativa de evitar ganho aerodinâmico nesta área. Será que agora a moda acaba de vez?

Nas asas dianteiras, a mudança mais clara será no fim da era dos bicos altos, por questões de segurança (devido ao risco em colisões frontais). Pela regra atual, a altura máxima do bico é de 550mm em relação ao assoalho, o que vai cair drasticamente para 185mm. Outra mudança será nas asas dianteiras, que vão perder 150mm. Isso fará com que elas terminem mais “para dentro” que os pneus, o que dificulta a condução do fluxo de ar. Ainda mais porque as end-plates, estruturas das extremidades das asas, serão restritas. Como a asa representa o primeiro contato com o ar, dá para entender por que qualquer mudança nesta área afeta todo o carro.

Quando a FIA fala em “retornar a 2012”, na verdade desiste apenas de uma nova revolução. A ideia inicial era aumentar ao máximo a eficiência desses carros, torná-los mais “verdes”, mas o projeto esbarrou, tanto nos custos, quanto nas simulações, que apontavam bólidos mais que 5s mais lentos que em 2010, superando o que fora estipulado como margem mínima pela entidade. Ainda assim, são medidas significativas, que deverão, junto dos novos motores, alterar a relação de forças entre as equipes.

Qual o piloto que mais ultrapassou em 2012?

Próximos até nisso: Vettel passou mais carros no geral; Alonso, dentro do top 10

Apesar de muito mais emoção na disputa pelo campeonato, temporada 2012 teve menos ultrapassagens do que a anterior, que detém o recorde absoluto desde 1982, quando dados confiáveis passaram a ser computados: foram 1135 manobras neste ano (média de 56,75), contra 1152 (60,63 em média) em 2011.

Em comparação com a realidade anterior, porém, os números são excepcionais. Primeira temporada com a volta das nanicas, que tinham praticamente sumido na época das montadoras, 2010 teve 547 (28,79 de média) ultrapassagens no total. Em 2009, foram 244 (14,35 por prova).

Confira os números das ultrapassagens por GP e por piloto em 2012:

ProvasUltrapassagens
Austrália41
Malásia76
China90
Bahrein72
Espanha51
Mônaco12
Canadá47
Valência79
Grã-Bretanha48
Alemanha64
Hungria16
Bélgica61
Itália59
Cingapura62
Japão39
Coreia33
Índia31
Abu Dhabi51
EUA59
Brasil144

Ultrapassagens por piloto

PilotoUltrapassagens totalUltrapassagens Top 10
Vettel7443
Webber7437
Button4526
Hamilton5636
Alonso4545
Massa6532
Schumacher6322
Rosberg5225
Raikkonen4838
D’Ambrosio20
Grosjean5827
Di Resta4816
Hulkenberg5319
Kobayashi6828
Perez6029
Ricciardo6113
Vergne678
Maldonado4417
Senna489
Kovalainen441
Petrov381
De la Rosa60
Karthikeyan10
Glock122
Pic141

Como no total de ultrapassagens, os dados do Clip the Apex não computam as posições ganhas na primeira volta, segue o saldo dos pilotos no ano:

Saldo de posições ganhas na primeira volta

PilotoPosições ganhas
Glock+47
Kovalainen+41
Karthikeyan+35
Alonso+30
Pic+28
De la Rosa+25
Hulkenberg+23
Massa+20
Vergne+17
Petrov+16
Raikkonen+14
Perez+14
Button+4
Hamilton+2
D’Ambrosio0
Ricciardo-2
Maldonado-2
Rosberg-3
Senna-3
Schumacher-8
Di Resta-8
Vettel-14
Kobayashi-21
Webber-23
Grosjean-47

Há quem possa apontar a DRS ou os pneus Pirelli como artificialidades que mascaram estes números, mas fica a análise que a Mercedes fez ano passado como prova que a arte da ultrapassagem na F-1 é bem mais complexa do que isso.

O que fica claro é que os exemplos, principalmente de Valência e Abu Dhabi, pistas estigmatizadas como as rainhas do marasmo nas corridas e que foram palco de duas das melhores provas do ano, indicam que a nova safra de traçados, com suas longas retas + setor de curvas de baixa + setor de curvas de alta, casa bem com o atual regulamento. E também com as diretrizes atuais de beneficiar o show e tornar o esporte mais atrativo, ainda que isso comprometa de certa forma seus princípios.

Nada disso mudou a natureza da F-1: o melhor conjunto carro/piloto/equipe continua triunfando, os pilotos mais completos seguem se sobressaindo. A busca pelo show só dá ainda mais emoção a uma era de ouro em termos de pilotagem.

Decisão do título não chegaria ao Brasil com a pontuação antiga

Atendendo a pedidos, eis a pontuação final deste campeonato pelo sistema utilizado de 2003 a 2009, com 10, 8, 6, 5, 4, 3, 2, 1 pontos distribuídos do 1º ao 8º lugares. Numericamente, pouca coisa muda entre as duas formas, aumentando-se apenas a diferença entre a primeira e a segunda colocações, além do crescimento sensível entre o quarto e o terceiro lugares. Por isso, pilotos que venceram mais se destacam, assim como aqueles que foram para o pódio mais vezes que os rivais diretos.

Além disso, nono e décimo lugares não rendem pontos, algo que faz diferença principalmente para Senna e Ricciardo em relação à tabela oficial.

Vemos que, pela diferença no número de vitórias (5 a 3), Vettel ganharia o campeonato de forma bem mais folgada com o sistema antigo. A decisão, aliás, nem chegaria ao Brasil, pois o alemão teria 14 pontos de vantagem em relação a Alonso (112 a 98) antes da etapa final.

PilotoAntigaAtual
1º Vettel115281
2º Alonso106278
3º Raikkonen82207
4º Hamilton84190
5º Button76188
6º Webber71179
7º Massa47122
8º Grosjean3796
9º Rosberg3693
10º Perez2666
11º Hulkenberg2163
12º Kobayashi1560
13º Schumacher1749
14º Di Resta1546
15º Maldonado1645
16º Senna831
17º Vergne416
18º Ricciardo010

Vale a pena correr por uma nanica?

Não é por acaso que a suposta vaga na Lotus – que provavelmente depende da venda ou não de ao menos parte da equipe – e o lugar na Force India andam tão concorridos: é difícil encontrar quem ganhou espaço após uma temporada na Caterham, Marussia e na finada HRT.

Nada menos que 15 pilotos atuaram pelas nanicas nos três anos de existência destas equipes que chegaram à F-1 com a promessa furada de um teto orçamentário. A lista é grande e tem, desde aqueles com bons resultados em categorias de base e que seriam candidatos naturais a qualquer vaga, até quem obviamente chegou com o dinheiro, passando por quem está na descendente da carreira.

Karun Chandhok, Bruno Senna, Sakon Yamamoto, Christian Klien, Narain Karthikeyan, Daniel Ricciardo, Vitantonio Liuzzi, Pedro de la Rosa, Timo Glock, Lucas Di Grassi, Jerome D’Ambrosio, Charles Pic, Heikki Kovalainen, Jarno Trulli e Vitaly Petrov. Deles, apenas Senna, por um caminho pouco ortodoxo (teve contratos fechados tardiamente, claramente influenciados em grande medida pelo dinheiro, além da sorte de ter se tornado titular em 2011 na hoje Lotus) e Ricciardo, que andou no cockpit da HRT “alugado” pela Red Bull e sempre soube que acabaria na Toro Rosso, saíram de uma nanica para a titularidade em um time melhor.

Por outro lado, pilotos de testes de equipes médias e com contratos bem amarrados para se tornarem titulares, como Nico Hulkenberg, Valtteri Bottas e Esteban Gutierrez, conseguiram vagas melhores.

Será que é melhor hoje ficar sem andar do que assinar com uma nanica? Perguntei isso a Luiz Razia, que descarta uma quinta temporada na GP2 após chegar muito perto do título em 2012, e ele acredita que não. Para o piloto, a falta de exemplos de nomes que ascenderam a equipes melhores vindos de das nanicas é, ou por falta de dinheiro, ou porque suas carreiras já estavam em uma descendente natural.

De fato, os únicos jovens dessa enorme lista eram Senna, Ricciardo e todos os que foram companheiros de Glock na hoje Marussia. E, entre eles, Pic foi o que mais se destacou em relação ao alemão e conseguiu uma pequena “promoção”, indo para a Caterham com o apoio da Renault.

Só é difícil ver o quanto o fato de simplesmente andar em uma nanica ajuda na questão financeira. Mesmo quem acompanha a categoria muitas vezes questiona a valia de termos estes times no grid. E me lembro de, em Interlagos, acompanhar a produção de uma matéria por parte de um grande veículo brasileiro sobre essas equipes e era curioso como os repórteres, acostumados a cobrir outros esportes, abordavam o tema. Um colega perguntou a Pic algo como “você não fica frustrado em não ter marcado nenhum ponto?”. O francês olhou com cara de interrogação, pois sabe que, se isso acontecesse com a Marussia, seria o equivalente a um título.

Mas a grande mídia e o grande público não sabem disso. E quem fecha as cotas de patrocínio no final do ano também não. É claro que dá para entender um piloto querendo mostrar serviço e se adaptando à vaga que conseguir mas, a longo prazo, não tem sido uma aposta das mais certeiras.

Dispensas de dezembro

Histórias como a de Hulkenberg são raridade

Que ninguém ache que a Fórmula 1 é lugar de caridade: nenhuma equipe está preocupada com o futuro de um piloto quando o dispensa. Mas não dá para negar que a demora para a definição tem atrapalhado o andamento da carreira de muitos jovens talentos.

Há quem possa pensar: mas esse Jaime Alguersuari nunca mostrou serviço! E o Adrian Sutil, então! Mas lembrando que Sebastian Vettel, por exemplo, cometeu erros como o que tirou Jenson Button do GP da Bélgica em sua segunda temporada como piloto de time grande ou que Lewis Hamilton teve performances abaixo da crítica já campeão do mundo em 2011 – apenas para dar dois exemplos de jovens que mostraram serviço logo de cara – é de se imaginar o que alguns nomes que ficaram pelo caminho poderiam ter feito.

Computando apenas os últimos dois anos, a lista é grande: Nico Hulkenberg, Adrian Sutil, Bruno Senna, Sebastien Buemi, Jaime Alguersuari e, por que não, Rubens Barrichello são alguns pilotos que foram dispensados após o final da temporada. Eles tinham níveis de experiência e resultados diversos. Nenhum deles conseguiu uma vaga como titular na categoria no ano seguinte.

Deles, só Hulkenberg e Senna voltaram ao grid – o primeiro, porque amarrou um contrato de piloto de testes que lhe garantiria uma promoção no ano seguinte; o segundo, por ter entrado na linha de sucessão após o improvável acidente de Kubica e a substituição de Heidfeld.

Dá para entender por que uma equipe média ou pequena demora para definir seus pilotos: é uma pura questão de barganha. Como as vagas são definidas em uma balança entre patrocínio e potencial de resultados (e mais dinheiro), os times vão esperando as ofertas aumentarem. Se o piloto titular não conseguir cobri-la, é trocado. Que o diga o próprio Senna, pela terceira vez (se considerarmos que o então vice-campeão da GP2 colocou todas as fichas na Honda em 2009 e perdeu), e Kobayashi, que aparenta estar em situação bastante complicada para o ano que vem.

Essa dura realidade acaba ceifando carreiras. Se somarmos a isso a falta de testes e a necessidade de convencer investidores a colocar um dinheiro que, convenhamos, tem retorno direto muito improvável, pelo menos nos primeiros anos, não tem sido nada fácil ser novato na Fórmula 1.

Vettel e Hamilton são dois dos últimos exemplos de pilotos formados na era dos testes. Mesmo assim, não deixaram de se desenvolver quando já estavam em times de ponta – a exemplo do que vai acontecer com Perez ano que vem. Será que não estamos esperando demais de quem está chegando agora?

Entenda como é o sistema de luzes dos pit stops

Alguns leitores questionaram o exagero do “alonsocentrismo” na transmissão da Antena 3 após uma temporada inteira acompanhando os posts em que reúno momentos-chave das corridas na ótica de três TVs diferentes. Estariam Lobato e companhia incorrendo no mesmo erro que vimos no Brasil, sucessivamente tentando atrair audiência apenas pelo sucesso de um piloto nacional?

“Se, em 2002, havia 800 mil pessoas vendo a F-1, no ano em que Fernando se aposentar, não serão 800 mil”, disse o comentarista Jacobo Vega ao blog. Se, por um lado, narrações e comentários durante as corridas são completamente parciais, a aposta dos espanhóis para cativar uma audiência que siga acompanhando o esporte mesmo sem um compatriota vencendo corridas ocorre nos programas prévios, de pelo menos uma hora, antes das corridas – no total, a emissora apresentou mais de 200h ao vivo de F-1 no ano.

Falei tudo isso para chegar no que interessa: uma destas matérias do programa prévio, em que Lobato e Marc Gené explicam e engenhoso sistema de pit stop que a Ferrari criou, sofreu para aprimorar e que hoje é copiado por grande parte dos rivais.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=e8eNxqQeAnE]

É impressionante como o sistema que simplesmente dispensava o pirulito evoluiu para uma sequência de luzes complexa, que tenta minimizar ao máximo o efeito de alguma falha humana. Notem como é importante para um pit stop rápido, mais do que o treinamento em si, que os equipamentos usados funcionem de maneira mais eficiente possível.

São estes equipamentos que explicam o grande número de falhas da McLaren no início do ano, que se converteram em alguns dos mais rápidos da história do meio para o final da temporada: era justamente o macaco dianteiro da Ferrari que o time de Woking tinha dificuldade em copiar.

A precisão do piloto também é fundamental. Às vezes, quando apenas um piloto da equipe tem uma sequência maior de paradas lentas, é mais inteligente suspeitar que ele não está fazendo sua parte do que acreditar em alguma falha proposital da equipe.

GP do Brasil por brasileiros, britânicos e espanhóis: “Drama em Interlagos”

A garoa que começou a cair minutos antes da largada para a decisão do campeonato era o prenúncio de um final histórico para um campeonato igualmente marcante. Prevendo que a água continuaria caindo e até chegando a imaginar um início com Safety Car, o destaque na Globo era para a pimenta que a chuva colocava na prova. “Era tudo o que Alonso queria. Pode ser até melhor para o Alonso do que uma chuva constante. Pode complicar para o Vettel e também para o Hamilton na pole”, prevê Reginaldo Leme.

Mas a água sequer é suficiente para obrigar os pilotos a largar com os pneus intermediários e Gary Anderson, na BBC, acha “que vai continuar seco”, pois não vê “as nuvens piorando”.

Os ex-pilotos e comentaristas David Coulthard e Marc Gené se focam na dificuldade em estar no cockpit em um momento como esse. “Acredito que todos largam com pneus de seco, porque seria arriscar demais e o tempo de parada é curto. O que me preocupa é a avaliação de aderência na primeira curva. Esses pingos tiram a confiança. Não poderia ser uma corrida mais complicada para os postulantes ao título. É muito fácil cometer um erro”, avalia o espanhol. “Os pneus não vão estar tão aquecidos – até porque é um circuito curto, sem muitos lugares para aquecer os pneus – e você chega na curva sem saber qual a aderência. É uma condição em que a pole não é uma posição muito boa. É de se esperar uma primeira volta difícil”, lembra o escocês.

Antes das luzes vermelhas se apagarem, o narrador espanhol Antonio Lobato dá o tom, após narrar um vídeo com homenagem prévia a Alonso, não importando o resultado da prova. “Não sei como estão vocês, mas a tensão é máxima.”

E ela só aumenta na largada. “Vettel lento, olha Massa, já em segundo! Oh, temos uma corrida em nossas mãos”, narra Ben Edwards, na BBC.  “Sobrou para Sebastian Vettel! Vamos olhar com cuidado onde foi. Ele vai ser obrigado a fazer uma corrida de recuperação”, diz Galvão Bueno, enquanto o narrador inglês chama a atenção para o “drama no Brasil”, pois “Vettel foi acertado e ainda não sabemos quanto estrago ele teve.”

Os espanhóis, logo nos primeiros metros, destacam que Vettel está “muito cuidadoso” e lembram da largada de Lewis Hamilton justamente na decisão de 2007. Mas, enquanto o inglês apenas escapou na Curva do Sol, o alemão vê o grid inteiro passar raspando em sua Red Bull. “Vettel rodou, está vendo todo mundo ao contrário! Olha que pode ter Safety Car”, avisa Lobato. “Se tiver Safety Car, será muita sorte. O assoalho está danificado, mas não muito”, Gené quase lamenta.

No momento em que Lobato pede calma a Alonso, já que Vettel “deve estar fora da corrida”, o espanhol faz uma ultrapassagem dupla sobre Webber e Massa e o narrador vai à loucura. “Não acredito! Espetacular, Fernando!”

Para britânicos e brasileiros, no entanto, a manobra gera menos comoção. “Que trabalho Massa fez para ajudar Alonso”, destaca Edwards. A preocupação é com a situação do título de Vettel. “Falta muita corrida, mas parece que o futuro do campeonato depende de Webber”, aposta Coulthard. Porém, vendo o replay da largada, Gené observa que “Webber não fez nenhum favor a Vettel” nos primeiros metros e Coulthard define ironicamente a batida de Vettel e Senna. “Senna foi pelo lado de dentro esperando que a Red Bulll desaparecesse, mas isso não aconteceu.”

Ainda que Galvão veja “a famosa sorte de Alonso” nas largadas, Lobato considera “um milagre que Vettel esteja na pista. Senna bateu e arrematou depois”. É a mesma linha de Luciano Burti, para quem “a pancada foi muito forte. Se conseguir ir até o final, vai ser um milagre.”

O comentarista salienta a dificuldade em decidir qual o melhor pneu quando a chuva aperta, mas não o suficiente para tornar simples a escolha pelos intermediários. “Essa é a parte mais decisiva e tensa para pilotos e equipes porque, se apertar um pouco mais, você coloca intermediários ou espera para ver se a chuva para?”

Depois de reconhecer o trabalho de Massa para proteger Alonso “até que o rendimento de seu carro melhore”, Lobato diz que Vettel só decidiu entrar nos pits “para copiar” o espanhol. “Não pode ficar na pista tentando algo diferente.”

Duas voltas depois, contudo, Jenson Button diz pelo rádio que parou de chover. “Eu estou vendo chuva”, retruca Lobato, mas Coulthard lembra que o inglês “é o mestre neste tipo de situação”. Logo depois, Anderson surge do pitlane para opinar que ficar na pista “pode ser a decisão certa.”

Os brasileiros, por sua vez, apostam que a água não vai parar de cair. “A vovó do Rubinho sempre está certa. A chuva nunca vem do aeroporto”, lembra Galvão. “Acho que essa história é mundialmente conhecida porque o Adrian Newey veio me perguntar no grid o que minha vó achava”, completa o próprio Barrichello, em tarde de comentarista da Globo. Seus colegas de cabine, Burti e Reginaldo, não entram em acordo: o primeiro vê tempos melhores de quem está com os slicks, e o segundo acredita que, pelo spray levantado, não dá para seguir sem pneus de chuva.

Gené observa que “a pista muda a cada volta. Mas, se ficar assim, o pneu intermediário vai acabar mais cedo” e os espanhóis começam a se desesperar. “Precisamos que aconteça alguma coisa. Fernando está em quarto, a 17s do terceiro. Assim, não seremos campeões nunca. Mas não se rendam. Tudo ainda é possível.”

Nem mesmo a informação da repórter Nira Juanco de que “estão me dizendo que viram, na Sky, uma ultrapassagem de Vettel em bandeira amarela. Estão analisando lá”, anima o narrador, para quem “não é a Sky que tem de analisar, são os comissários. E não apareceu nada ainda.”

Quando veem Webber abrindo para Vettel, apenas são irônicos. “O que o Webber falou outro dia na coletiva de imprensa”, diz Lobato. A manobra também é notada por Reginaldo. “Isso com todo o discurso do Webber de que não ia abrir para ninguém.”

Logo antes do Safety Car entrar, os espanhóis vão para o comercial. “Fernando estava reclamando via rádio, mas estava claro que havia muitos destroços. Agora, sua diferença com os líderes diminui muito, mas também Vettel fica mais perto da ponta”, resume Lobato.

Quando o espanhol pediu a intervenção, Edwards riu. “Ele não está inventando, podemos ver isso com nossos olhos”, diz Coulthard.

Na Globo, Galvão pedia os conselhos de Barrichello, famoso pelas boas decisões na chuva, sobre o que fazer, pois a pista parecia secar. “Geralmente, é a equipe que te chama para mudar de pneu de chuva para seco. Quando é o contrário, você é quem decide”. Quando ouve as reclamações de Alonso, o narrador pede que “entre alguém para dar um chute naquilo ali”.

O Safety Car ajuda narradores e comentaristas a dar uma respirada depois de tanta ação nas primeiras voltas. Dá até para analisar o estrago no carro de Vettel. “Seria um problema se tivesse pegado no radiador, mas está bem longe. Deve ter uma perda de performance, mas em torno de um ou dois décimos”, acredita Anderson.

Já Gené chama a atenção ao fato de que “Não ouvimos a Ferrari tranquilizando Fernando pelo rádio, ao contrário do que está acontecendo com Vettel. Ele que avisa a equipe para que estejam preparados. A maturidade está fazendo diferença. Vettel se recuperou muito bem, mas na largada deu para perceber que não estava acostumado a essa posição, como Fernando está” e Lobato destaca a corrida de Hulkenberg ainda que “a ponta não interesse”.

Na relargada, quem rouba a cena é Kobayashi, com quem, para Coulthard, Vettel precisa ter cuidado porque ele está lutando por sua carreira”. Reginaldo também cita o fato de que o japonês pode ficar fora do grid mesmo com boas atuações. “Também, chegam com caminhão de dinheiro que até o Rubinho tá apontando aqui que não tem lugar para ele”, explica Galvão.

Burti acha que a Ferrari vai ter de trocar o pneu de novo por estar com médios. “Eles deveriam estar andando mais rápido agora, mas não estão”. Essa também é a preocupação de Gené, que não sabe dizer se quem está com os duros parará de novo. Para os britânicos, a grande questão é a chuva. “O irmão do Massa estava esperando algum sol, veio de bermuda. Nem os locais conseguem entender esse clima”, brinca Coulthard. Quando Edwards vê Hulkenberg escapando e perdendo a liderança para Hamilton, conclui que os pilotos “precisam colocar um jogo de pneus novos agora, mas se pararem, a chuva pode vir e eles terão de parar de novo!”

Assim, os britânicos se surpreendem quando Vettel coloca pneus de seco. “É uma decisão corajosa da Red Bull. Eu só seguiria o que Alonso fizesse. Pelo lado da Ferrari, eles teriam de tentar algo diferente, mas não sei o que.”

Galvão acredita que colocar pneus de seco é o menos arriscado, mas Burti discorda e segue na linha de Coulthard. “Eu acho que ele até está arriscando porque se chove mais vai ter de voltar. Esperaria até ver a decisão que o Alonso toma.”

Os espanhóis também acreditam que vai ficar seco, mesmo que estejam rezando para que chova. E muito. “O positivo é que Alonso está mais rápido que Vettel, mas o negativo é que os ponteiros estão escapando. Na posição em que ele está agora, Fernando precisaria ganhar a corrida. Quem não estava convidado é Hulkenberg, que está atrapalhando Fernando”, resume Gené. “Hulkenberg está fazendo a corrida de sua vida. Precisamos de alguma outra coisa. Onde está a chuva que prometeram?”, Lobato se desespera. “Vamos ao comercial e espero que, quando voltarmos, a chuva esteja caindo sobre nós. Essa meteorologia diz que está chovendo quando caem quatro gotas. Precisamos de muito mais do que quatro gotas.”

O narrador chega a comemorar timidamente os problemas de rádio de Vettel, “mas precisaríamos que ele tivesse problemas maiores”. Quando Rosberg é o primeiro a parar para colocar pneus intermediários, Lobato chama a estratégia de “suicida”.

As elucubrações são interrompidas pela excursão de Kimi Raikkonen no traçado antigo de Interlagos. “Para onde Kimi está indo? Deve ser para algum outro lugar em SP. Que passeio!”, ri Edwards. “Dá para ver que ele veio do rali”, observa Coulthard quando vê o finlandês voltando pela grama. “Raikkonen está perdido! Deve ter pensado ‘não conheço essa curva, onde será que eu estou?’”, brinca Lobato, enquanto Barrichello destaca o cavalinho de pau “heroico” do piloto da Lotus.

Momentos depois, em disputa pela liderança, Hulkenberg espalha e tira Hamilton da corrida – ou, para Lobato e Galvão, tira ambos. “Ele estava do lado molhado, foi pelo lado de dentro porque tinha esse direito, mas perdeu o carro”, Coulthard isenta o alemão de culpa, assim como Barrichello.

Após a terceira parada de Vettel, o comentarista espanhol Jacobo Vega começou uma campanha para que Alonso aguentasse na pista para “ficar com estratégia contrária à do rival”. Porém, quando vê o espanhol quase perdendo o carro, muda de ideia. “Por Deus, por Deus! Estamos no limite da aderência!”, berra Lobato.

O piloto troca os pneus e volta atrás de Massa, mas, para Lobato, “isso não é um problema. Assim como Webber não seria um problema para Vettel.”

Os brasileiros se alarmam quando Vettel volta para os boxes para colocar intermediários. “Bateu o desespero na Red Bull”, aponta Galvão. “O erro estratégico que custou o campeonato de Alonso em 2010 pode ter acontecido com o Vettel”, completa Reginaldo.

Galvão decreta: “Acabou a calma do Vettel”. E os brasileiros fazem as contas do que Vettel precisa para ser campeão. “São dois alemães à frente, se houvesse patriotismo…”, diz Reginaldo. Já Burti lembra que, se for necessário, Webber encosta. “Não é só na Ferrari que tem jogo de equipe”. Enquanto isso, os britânicos por várias vezes lembram que o carro de Vettel tem danos, mas que não sabem a extensão deles.

Porém, nenhuma tentativa de colocar emoção nas voltas finais vinga e Vettel se sagra tricampeão por três pontos. “Alonso mais uma vez pilotou muito bem e quase fez o que precisava fazer. Vettel também foi muito bem. Esses caras estão sob uma pressão tão grande! Mesmo sendo um pouco atrapalhado hoje, Vettel conseguiu se recuperar bem. Seja quem ganhasse o campeonato nesta tarde, merecia. Alonso pilotou muito bem, Hamilton merecia muito mais, Button mais uma vez mostrou que é sensacional nestas condições… muita coisa aconteceu neste ano”, resumiu Coulthard.

Galvão Bueno não esqueceu do vencedor Button. “Anote o nome dele para o ano que vem. Não tem Hamilton e eles vão trabalhar só para ele e a equipe vem em grande fase”. Sobre o título, frisou que “Alonso é grande guerreiro. Lutou o ano inteiro com o carro e chegou em segundo em circunstâncias terríveis hoje”. Mas o grande destaque foi para Massa, que “mostrou sua recuperação na segunda parte do ano, se preparando para ano que vem” e chorou no pódio “mais do que quando acordou no hospital. Não é de chorar. Para ele chorar assim, mostra a importância desse momento de recuperação.”

Assim como os brasileiros, Lobato também valorizou seu compatriota. “Mesmo que não seja campeão, Fernando tem de ter certeza de que estamos todos orgulhosos do que ele fez. Essas são corridas de carros, e isso dilui um pouco o talento. Muito obrigado por tudo, Fernando. Não podemos esquecer que foi um milagre chegar aqui e que estamos todos agradecidos por Fernando nunca ter se rendido até a última corrida. Não fique tão sério, porque quando o carro melhorar, você vai passar por cima deles. Chegará esse momento. Ele lutou com armas menos potentes do que seus rivais, mas os colocou nas cordas até o final.”

E, se Interlagos “resumiu o ano com seus dramas”, como explicou Edwards, “Vettel sobreviveu a tudo nesta tarde para ser tricampeão. Alonso não poderia fazer muito mais”. Um belo desenho de uma final que nenhum roteirista poderia reproduzir.

Dois caminhos. Um campeonato maluco. Três pontos

Quando a temporada 2012 começou, me perguntaram o que eu esperava deste ano: “uma disputa pelo título como a de 2010 e corridas como em 2011”, disse. Todos, inclusive eu, caíram na risada. Parecia pedir demais. Mas não foi.

O épico GP do Brasil foi uma representação fiel da temporada mais emocionante – pelo menos da minha – história da Fórmula 1: equipes médias andando no meio das grandes, uma mistura de grandes e terríveis momentos de pilotagem, carros no limite com os pneus errados e muita indefinição na estratégia por parte das equipes.

Porém, se a temporada de 2012 começou e terminou como um grande tiro no escuro, premiou dois conjuntos que, com estratégias diferentes, souberam iluminar seus caminhos. Fernando Alonso e a Ferrari apostaram em uma campanha praticamente sem erros e batendo forte na tecla de que “os pontos são dados aos domingos”. Era na corrida que o carro vermelho se sobressaía, se não em ritmo puro na maior parte das corridas, aproveitando cada oportunidade, como largadas e pit stops. Alonso dominou grande parte da fase das incertezas do campeonato, quando todos chegavam a uma nova pista sem saber o que fazer, porque compreendeu o momento certo de atacar – e foi preciso em suas batalhas.

É claro que sempre seria uma estratégia arriscada. E as vezes em que pagou caro por ter um carro que não permitiu classificar-se adiante da terceira fila em 15 das 20 etapas – em Spa, de forma inocente, em Suzuka, um pouco menos – foram decisivas para que o título lhe escapasse.

E escapou quando as incertezas cessaram. Cessaram porque a abordagem do conjunto Red Bull e Vettel jogou lógica na disputa. Lutando com um carro que não agradava o piloto, a equipe procurou resolver especificamente os problemas de instabilidade de traseira e, quando o fez, o alemão deu conta do recado.

O fato de a balança ter pendido para o lado de Vettel juntamente da diminuição das incertezas a cada semana fez muitos se inclinarem a tirar o mérito do hoje tricampeão do mundo. Se Alonso foi impecável em maximizar suas oportunidades quando conjuntos melhores falharam, Vettel não deu chances para os oportunistas de plantão quando teve sua chance.

Não esqueci do post das transmissões. Espero conseguir publicar no final de semana ou, no máximo na segunda-feira.

Também gostaria de saber de vocês sobre o que querem discutir nestes três meses sem corridas. Mandem suas sugestões!

Estratégia do GP do Brasil: como Vettel “ganhou e perdeu” por duas vezes o campeonato

Conversando com outros jornalistas mesmo horas depois do GP do Brasil, a opinião era a mesma: preciso ver essa corrida de novo para entender tudo o que aconteceu. Imagino o desafio de traçar a melhor estratégia em um tipo de prova que é o terror de qualquer equipe: nem na chuva, nem no seco.

Mesmo assim, os postulantes ao título não decepcionaram, com Vettel sobrevivendo a uma bela pancada na região do escapamento, o rádio quebrado e quatro paradas para chegar em sexto e Alonso ganhando seis posições em relação à largada, só incapaz de acompanhar o ritmo da McLaren, ficando a uma posição de conquistar o título. Ambos, também, contaram com valiosas ajudas de seus escudeiros, importantes em momentos-chave da prova.

Quando as gotas, que apareceram timidamente antes da largada, se intensificaram, muitas equipes dividiram sua estratégia. Massa e Hulkenberg fizeram a boa aposta de seguir a decisão de Button de ficar na pista – é neste tipo de condição que o inglês se sobressai. Por algumas voltas, pareceu que o traçado estava realmente molhado demais, mas logo ficou claro que quem havia colocado os intermediários estava superaquecendo os pneus.

Também parecia haver uma diferença de carros. A Ferrari, ao contrário do que aconteceu no início do ano, aparentava ser particularmente difícil com pneus de seco e pista úmida. Alonso escapou por duas vezes e Massa, mais de 3s/volta mais lento, perdeu 8 posições em quatro voltas e teve de reverter sua estratégia.

Longe dos que erraram e colocaram os intermediários e os que não conseguiam gerar temperatura suficiente para se segurar na pista com os pneus de seco, Button e Hulkenberg se viram 45s à frente do rival mais próximo, Hamilton. Mas a vantagem foi dizimada pelo Safety Car em decorrência dos detritos na pista que furaram o pneu de Nico Rosberg.

Na volta 30, começou uma nova corrida, com todos com os pneus duros – a Ferrari era a única com médios, talvez esperando mais chuva, uma vez que não aguentariam até o final. Nesta “segunda prova”, Vettel “largou” em quinto, na cola de Alonso, após ultrapassar as nanicas, as Toro Rosso, Rosberg e Di Resta, vindo de 22º. A insistência em ficar na pista com os pneus para pista seca, fez com que Massa caísse para 11º.

Talvez pelos danos no carro, Vettel caiu para sétimo e perdeu 15s para Alonso. Duas voltas antes da chuva voltar a cair, fez uma troca equivocada para colocar pneus de seco. Com o alemão tendo de reverter a troca, Vettel e a Red Bull arriscaram perder o título e, talvez, estivessem em um circuito mais longo, teriam corrido sério risco, com mais carros entre o alemão e os pontos. Afinal, impressiona que o grid tenha se separado tanto em 24 voltas após o SC de forma que Vettel, mesmo perdendo cerca de 29s, tenha voltado em 11º. Dada a oportunidade de se recuperar de toda a lambança da equipe, que tinha dificuldades de comunicação, o piloto logo voltou a somar pontos suficientes para selar o título.

Após as mesmas 24 voltas, Alonso já estava a mais de 17s da ponta, mostrando que a Ferrari, na mesma condição em que havia sido imbatível até então na temporada – corrida da Malásia e treinos da Alemanha e Grã-Bretanha – ficara para trás.

Voltando à corrida de Massa, as sete voltas após a relargada foram espetaculares, com seis posições ganhas. Isso o colocou novamente logo atrás de Alonso. Ao colocar pneus de chuva uma volta antes do companheiro, voltou bem à frente, pois a inlap de Alonso foi bastante lenta pela chuva. Com Vettel em sétimo a nove voltas do final, a Ferrari ordenou a troca, justificável em uma prova na qual tudo poderia acontecer.

Por um lado, é uma pena que a chuva tenha sido um personagem tão central. Por outro, a última corrida do ano foi uma representação fiel daquela temporada que parecia um sonho distante em fevereiro: corridas animadas como as de 2011, e um campeonato de tirar o fôlego como em 2010. Vai ser difícil 2013 superar isso.

Como Vettel quer – e pode – ser grande e as tabelas finais do Mundial

Em mais uma corrida épica em Interlagos, o que mais me surpreendeu (positivamente) foi a maneira como Vettel brigou por esse título, assumindo riscos, tanto para segurar Hamilton em Austin, quanto por diversas vezes no GP do Brasil. E isso, em uma corrida em que apenas por três ou quatro voltas não esteve em posição de ser campeão, tamanha sua vantagem. Mostrou, com isso, uma necessidade de ganhar fazendo bonito, sem ficar com o regulamento debaixo do braço, que ainda não tínhamos visto em sua carreira.

Há quem chia quando ouve/lê que o piloto nunca venceu largando atrás de terceiro. Isso continua sendo um fato, mas o erro é achar que desmerece Vettel. Simplesmente diz que, pela forma como sua carreira aconteceu até agora, ele ainda não teve muitas chance de fazê-lo. Quando elas aparecerem, cada vez fica mais claro que ele vai aproveitar.

Estamos vendo o desenvolvimento daquela que tem tudo para ser uma das grandes carreiras da história da F-1. Se Vettel, hoje, não se mostra tão completo quanto Alonso, tem seis anos a menos que o espanhol e caminha para chegar e até superar seus feitos. E não estou falando em números.

A grande marca de Vettel é sua constante evolução. Diferentemente de Hamilton, cujo talento natural é inegável, mas que não consegue replicar constantemente a consistência de suas nove primeiras provas da carreira, o alemão a cada corrida mostra uma qualidade nova.

No primeiro campeonato, seu desafio era deixar de cometer erros em disputas por posição. No segundo, mostrou grande adaptação a um carro que exigia uma tocada diferente com o escapamento soprado. Agora, soube compreender junto da equipe por que não conseguia, como ele mesmo disse, “fazer seus truques” com o carro e recuperou o terreno perdido no início do ano.

Mesmo o campeonato mais maluco da história terminou coroando o melhor conjunto do ano. À Ferrari de Alonso, faltou fôlego na compreensão de como melhorar o carro, justamente o que sobrou na Red Bull. Mas não é a pilotagem mais impressionante e vistosa do espanhol ao longo do campeonato que tira qualquer mérito da conquista de Vettel. Da mesma forma que Hamilton e Raikkonen foram praticamente perfeitos e saíram de mãos abanando. Esse ano só mostra que o nível de competitividade da Fórmula 1 hoje é tão grande que não basta ser impecável na pista para levar o caneco.

Fortes emoções

A preocupação da FIA com o caos para entrevistar o mais novo membro do clube dos tricampeões mundiais fez com que Sebastian Vettel fosse levado à sala normalmente reservada aos três primeiros colocados para ser entrevistado. Assim, mesmo na primeira vez desde o GP da Itália, 13ª etapa do mundial, em que não estourou o champanhe no pódio, lá estava ele de volta.

Entrou sorridente, sentou-se e abaixou a cabeça, visivelmente emocionado. Parecia que, naquele momento, percebera que havia obtido o resultado de que precisava mesmo que sentisse que o mundo conspirava contra ele: má largada, toque na primeira volta, estratégia errada, parada lenta e até rádio sem funcionar. “Me senti exatamente como agora”, brincou ao encarar os jornalistas assim como o fez com os carros que, caprichosamente, o evitaram após o toque com Bruno Senna.

Minutos antes, era o semblante de Felipe Massa que chamava a atenção. Claramente mais rápido que Alonso pelo menos nas últimas duas etapas, o brasileiro mal podia esperar que a temporada terminasse para que, com o campeonato zerado, pudesse ter uma nova chance de correr de verdade. O pódio em casa mesmo em outra corrida na qual teve de ceder uma posição provocou uma catarse em um ano que poderia tê-lo derrubado psicologicamente de forma definitiva.

Falando em cabeça, Alonso fez de tudo para manter a sua no lugar após a terceira derrota em uma decisão. Uma diferente da de Abu Dhabi, como ele fez questão de destacar – “pois daquela vez estava nas nossas mãos e perdemos” – mas dolorida pela certeza de que não havia muito mais que ele podia fazer. Emoções tão fortes quanto distintas que só podiam florescer numa final digna do melhor campeonato da – minha – história na F-1.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP do Brasil

Duelo no anoDiferença de hoje
VET 11 x 9 WEBWEB -0s179
HAM 17 x 3 BUTHAM -0s055
ALO 17 x 3 MASMAS -0s266
RAI 9 x 10 GRORAI -0s535
MSC 10 x 10 ROSROS -0s077
DIR 8 x 11 HULHUL -0s417
KOB 9 x 11 PERPER -0s143
RIC 16 x 4 VERRIC -0s045
MAL 18 x 2 SEMMAL -0s521
KOV 13 x 7 PETPET -0s013
GLO 13 x 7 PICGLO -0s600
DLR 18 x 2 KARDLR – 0s123

Excepcionalmente neste final de semana, voltamos aos primórdios da tabela.

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placarem contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

O anti-herói da decisão

Na decisão do título de 2012 entre Fernando Alonso e Sebastian Vettel, um personagem tímido, de fala baixa, careca proeminente e jeitão pacato roubou a cena. O projetista da Red Bull, Adrian Newey, há tempos mostra sua capacidade de fazer grandes carros, ganhando ares de gênio. O inglês de 53 anos, que até hoje prefere a velha prancheta aos avançados programas de simulação, é apontado pelo espanhol como o grande responsável pela arrancada final do alemão na temporada, que marcou 133 pontos, contra 81 do rival, desde a grande atualização que teve o carro da equipe anglo-austríaca, no GP de Cingapura.

Claro que os resultados do companheiro de Vettel, Mark Webber, que fez 35 pontos no mesmo período, mostram que não é só do carro que o alemão se valeu para construir a vantagem de 13 pontos sobre Alonso. Com apenas 25 anos, ele ainda pode não ter o mesmo gabarito do espanhol de 31, mas vai amadurecendo e caminha a passos largos para se tornar um dos grandes pilotos da história. Porém, é inegável a contribuição do projetista na construção do império da Red Bull, que passou de uma fabricante de energéticos aventureira na F-1 a tricampeã mundial consecutiva, algo que apenas Ferrari, McLaren e Williams conseguiram. As duas últimas, inclusive, também emplacaram sequências de conquistas, nos anos 1990, com carros pensados por Newey. Foi ele o responsável pelos modelos da Williams que dominaram com Mansell e Prost em 92 e 93, assim como pelo McLaren de Mika Hakkinen de 98 e 99.

Os próprios pilotos reconhecem isso. Em Interlagos, Webber afirmou que só assinou com a Red Bull, em 2007, porque eles haviam contratado o engenheiro. “Ele nunca está contente. Apesar de não parecer um cara competitivo para quem olha, fica procurando coisas para melhorar no carro mesmo quando chegamos em primeiro e em segundo”, garante o australiano. “Ele não foca apenas em uma parte, tenta melhorar o carro como um todo.” Mas sua principal característica, apontada por todos que trabalharam com ele, é cada vez mais rara na F-1: “Ele ouve os pilotos, isso é fundamental.”

No mundo das simulações e tecnologia avançada, Newey, que curiosamente começou a carreira na Copersucar, única equipe brasileira na história da F-1, no início dos anos 80, mostra que o velho entrosamento entre piloto e engenheiro continua fazendo a diferença. Não é apenas contra um homem, mas sim contra uma combinação difícil de bater que Alonso luta amanhã em Interlagos: um piloto que sabe o que quer e um engenheiro que sabe ouvir.

Novo meio do pelotão começa a se desenhar

Um olho na decisão do título, outro no ano que vem. Em 2013, teremos mais um ano de continuidade de regras e, ainda que nada impeça que a Red Bull continue ditando o ritmo, com a McLaren em seu encalce e a Ferrari tentando recuperar terreno, muita coisa aconteceu no meio do pelotão nesta temporada.

Seria o crescimento da Sauber e Williams pra valer? A Lotus vai conseguir manter o nível caso os recorrentes boatos sobre suas dificuldades financeiras sejam verdadeiros? E a Mercedes, entra em fase de declínio mesmo com Lewis Hamilton a bordo?

É interessante ver como, enquanto alguns centram seus esforços em conquistar o campeonato, outras equipes utilizam as provas finais deste ano para acertar as arestas para o ano que vem. Um exemplo claro é a Mercedes, que vem executando comparações entre os escapamentos antigo e com o efeito Coanda, adotado recentemente pelo time. Em Austin, por exemplo, Rosberg e Schumacher correram com carros completamente diferentes.

Esse expediente foi muito utilizado pela Williams ano passado: o time ia tão mal das pernas que decidiu usar as provas para fazer comparativos entre peças e encontrar quais os problemas do carro. O grande salto de qualidade para este ano mostrou que a estratégia deu certo.

Se o mesmo acontecerá com a Mercedes, é impossível dizer, mas é clara a intenção de arrumar a casa antes da estrela Hamilton chegar.

O ano de 2013 será importante ainda para comprovar a consolidação da Sauber. É impressionante a maneira como a equipe vem crescendo desde que deixou de ser gerida pela BMW. O que poderia ter sido a pá de cal na equipe acabou se tornando uma possibilidade de apostar em eficiência. Ajudada pela continuidade de regras de 2009 para cá, a equipe pôde crescer e tem uma grande chance de dar um passo decisivo ano que vem.

Tri mais jovem da história será coroado em Interlagos, mas será Vettel ou Alonso?

Se há uma certeza na decisão do título em Interlagos, é que a F-1 vai coroar o tricampeão mais jovem da história. Mesmo divididos por seis anos, Sebastian Vettel ou Fernando Alonso, baterá Ayrton Senna, que conquistou o campeonato de 1991 aos 31 anos, 7 meses e 30 dias, pouco mais do que o espanhol terá domingo em Interlagos – 31 anos, três meses e quatro dias. O alemão, que pode se tornar o terceiro tricampeão “genuíno”, em anos consecutivos, da história – e o único a fazê-lo nas três primeiras conquistas – terá apenas 25 anos, quatro meses e 21 dias no domingo.

Será a 27ª vez na história que a decisão vai para a última prova, e pela sexta oportunidade o campeão será conhecido em São Paulo. Para Vettel, seria seu primeiro título na cidade, enquanto Alonso não sabe o que é selar conquistas fora de Interlagos.

O circuito recebe sua sexta decisão, sendo que em apenas uma das cinco anteriores o piloto que liderava a tabela não confirmou o título – Raikkonen, em 2007, tirou diferença comparável aos 13 pontos que separam Alonso e Vettel.

Nas 26 decisões na prova final, dez foram vencidas pelo piloto que estava atrás na classificação, sendo a última delas em Abu Dhabi, quando Vettel bateu o próprio Alonso, descontando 15 pontos. A situação do espanhol, no entanto, é bem diferente do que o alemão viveu em 2010: a vantagem de Seb é, tanto de pontos, quanto de equipamento.

Em condições normais, é de se esperar que ambos cheguem ao pódio, como aconteceu nas últimas quatro provas, dando a Vettel o primeiro recorde de precocidade que Alonso nunca teve. É curioso como a trajetória dos dois em relação a este tipo de número é parecida: o espanhol já foi dono das marcas históricas de precocidade pole, pódio, vitória, campeonato e bicampeonato, todas posteriormente quebradas pelo alemão.

Como salientei no texto anterior, cenários em que Alonso marcou ao menos 13 pontos a mais que Vettel na temporada aconteceram por quatro vezes: nos dois abandonos do alemão (Valência e Itália), quando Seb se enroscou com Karthikeyan na Malásia e quando foi punido na Alemanha. Por isso, a única chance real do espanhol é apostar no imponderável. Uma possibilidade é a chuva, condição em que a Ferrari se mostrou o melhor carro do grid na Malásia e nos treinos de Grã-Bretanha e Alemanha.

Nada impede, claro, que Vettel esteja pelo menos em seu encalce caso a água caia em Interlagos ou que o próprio Alonso se atrapalhe em uma situação em que erros – de pilotagem e estratégia – são mais comuns. Porém, se por um lado toda a lógica aponta para uma decisão morna, por outro há o alento de que, de lógica, Interlagos não sabe muita coisa.

Ganhadores e perdedores de Austin e a classificação do mundial em gráficos

A corrida de Austin mostrou que a superioridade da Red Bull nos treinos estava mais relacionada a sua capacidade de aquecer os pneus rapidamente do que ao ritmo propriamente dito. Afinal, um carro mais “no chão” gera mais pressão aerodinâmica e isso faz com que os pneus entrem na temperatura ideal mais rapidamente – algo ajudado por Vettel, que demonstra grande compreensão do que é necessário fazer os pneus funcionarem e durarem. A prova ainda deixou a questão no ar se seria apenas Hamilton que teria se arrependido de deixar a McLaren…

Apesar do evento não ter sensibilizado a mídia local, o público compareceu em peso – e que fique claro que mexicanos e sul-americanos rechearam grande parcela das arquibancadas. Na pista, houve disputas no limite exato entre rispidez e cavalheirismo e grandes recuperações de Massa e Button.

A performance do brasileiro é surpreendente pelo contexto: se o próprio piloto fez questão de ressaltar que “poucos aceitariam” jogar uma boa classificação fora em favor do companheiro, menos ainda fariam uma prova de recuperação com tanta propriedade depois de um baque desses – e mesmo Felipe já fez diversas corridas apagadas depois que algo saiu dos eixos (Cingapura 2008 e Canadá 2012 me vêm à cabeça).

E a Ferrari? A discussão fica mais próxima do público quando se trata de regulamento esportivo, mas é inegável que as equipes historicamente buscam tirar vantagem das entrelinhas. A discussão sobre o “espírito” das regras e o que está realmente escrito parece permear a história da categoria.

Como vimos em Abu Dhabi, quando a Red Bull, já sabendo que Vettel largaria em último, optou acertadamente por tirar o carro do parque fechado e largar do pitlane, há punições que, por uma questão de regulamento, podem ajudar. E esse foi novamente o caso. (Andei lendo em comentários por aí de que os carros fora do Q3 podem ser modificados, mas isso está redondamente equivocado: quem tira o carro de parque fechado larga em último, do pitlane; mudanças no câmbio provocam perda de cinco posições e, no motor, de dez. Fora isso, apenas pequenos reparos são permitidos para todos, independente da posição de largada)

No nível prático, não dá para dizer que foi um erro quando oito dos 12 pilotos que largavam do lado sujo perderam ao menos uma posição e a Ferrari sabia que os primeiros metros seriam fundamentais para as chances de Alonso, que não tinha tanto ritmo quanto nas provas anteriores.

Para ganhar o campeonato, porém, é preciso mais do que isso. Cenários em que o espanhol marcou ao menos 13 pontos a mais que Vettel na temporada aconteceram por quatro vezes: nos dois abandonos do alemão (Valência e Itália), quando Seb se enroscou com Karthikeyan na Malásia e quando foi punido na Alemanha. É fácil concluir que a certeza do tricampeonato de Vettel só esbarra no imponderável.

Vida dura (e sem novidades) para Alonso

Sobreviver à curva 1 no meio do pelotão e ganhar posições na primeira volta. Será essa a missão de Fernando Alonso para tentar levar a decisão do campeonato a Interlagos sem precisar de uma pouco provável escorregada de Sebastian Vettel.

Se, por um lado, as apresentações do espanhol e o crescimento natural da Ferrari aos domingos ao longo da temporada fazem crer que o quarto lugar é totalmente possível, por outro, as duas provas nas últimas sete em que o piloto não foi ao pódio terminaram justamente em batidas na primeira volta.

Alguns dirão que Alonso, caso não seja campeão, jogou o tri fora em acidentes na primeira curva. Porém, foram justamente suas performances nos primeiros momentos dos GPs que o colocaram em posição de lutar pelo título. Afinal, o piloto cuja posição média de largada é de 6.1 ganhou 25 posições em primeiras voltas no ano, superado apenas por aqueles que, largando lá atrás, costumam se beneficiar de acidentes (Glock, Kovalainen, Karthikeyan e Pic). E isso foi fundamental para que sua média de chegada fosse o terceiro lugar.

As classificações fizeram com que Alonso assumisse durante todo o ano muitos riscos nos primeiros metros de cada GP e a história não será diferente em Austin.

Mas o espanhol pode ter alguns adversários a mais na pista norte-americana: a colocação da zona de DRS e os pneus. O próprio explicou por que teme que não será fácil ultrapassar no circuito texano. “Os pontos de medição e de ativação do DRS estão depois dos esses rápidos do primeiro setor e ali será muito difícil estar a um segundo do carro à frente. Na largada e na primeira volta temos de recuperar quase tudo que queremos.”

Já os pneus, altamente duráveis na pista lisa de Austin, diminuem as possibilidades de trabalhar estrategicamente para ganhar posições. Se Vettel mais uma vez facilitou sua vida ao largar na ponta, ver o que Alonso pode tirar da cartola para superar todos esses obstáculos promete valer o ingresso.

Os injustiçados

O embate entre Sebastian Vettel e Fernando Alonso é logicamente aquele que chama mais a atenção, já que vale o campeonato. Afinal, mesmo em momentos diferentes da carreira, ambos buscam a afirmação do terceiro título mundial, número que acabou se tornando mágico na história da categoria. Ganhar por três vezes o título sempre separou os grandes dos bons pilotos, e é isso que o alemão e o espanhol buscam nestas duas últimas etapas.

Mas eles não são os dois únicos grandes nomes do campeonato. E é uma pena que a disputa hoje tenha se tornado exclusividade de dois homens quando Kimi Raikkonen e Lewis Hamilton pilotaram em um nível tão alto quando Vettel e Alonso.

Os avanços de Raikkonen foram freados pela falta de rendimento da Lotus. É bem verdade que a equipe evoluiu enormemente em relação ao ano passado, em que conquistou dois pódios – foram 10 neste ano – mas também não teve equipamento à altura das performances do finlandês, único a completar todas as provas do ano, sendo 17 das 18 disputadas até agora nos pontos. Mesmo as falhas em classificação no início do ano, que podem ser colocadas na conta da readaptação à Fórmula 1 após estar fora por dois anos, foram superadas. Aos domingos, Kimi foi perfeito.

Outro que deu show foi Hamilton. Depois de uma temporada 2011 pra lá de errática, o inglês teve performances irretocáveis e maximizou seus resultados, tanto em classificação, quanto em corrida. Pena que sua equipe lhe deixou na mão em inúmeras ocasiões. Talvez seu único erro de julgamento tenha sido comprar a briga com Maldonado no GP da Europa, quando assumiu um rico desnecessário – algo que há tempos é sua marca, para o bem e para o mal.

Se, por um lado, é de se lamentar que Raikkonen e Hamilton estejam fora da briga, por outro isso só valoriza a disputa entre Vettel, Alonso e suas equipes. No campeonato mais imprevisível da história recente da Fórmula 1, com nada menos que oito vencedores diferentes, o alemão pôde contar com o excelente nível de desenvolvimento da Red Bull para recuperar uma vantagem que parecia definitiva há cinco provas, e o espanhol contou com uma equipe que, embora nunca tenha lhe dado o melhor equipamento, pelo menos foi competente no acerto, na estratégia, nos pit stops, e teve um carro que nunca lhe deixou na mão.

Por essas e outras, se me pedissem hoje para fazer uma lista dos melhores pilotos da temporada, teria imensa dificuldade não apenas para definir os dois, mas também os quatro primeiros. E vocês, já têm sua lista?

McLaren dá aula de como perder oportunidades

Enquanto a Red Bull aposta na máxima de que “em time que está ganhando não se mexe” e a Ferrari faz a lição de casa para se atualizar na nova realidade do desenvolvimento “sustentável” da F-1, a McLaren falha em todos os âmbitos. O avanço do carro que começou com boa vantagem para os demais foi pra lá de irregular e os incontáveis problemas nos finais de semana tiraram seus pilotos precocemente da luta pelo Mundial – e, mesmo que seja possível questionar as classificações de Button, a dupla não pode ser culpada por isso. Ao contrário da Ferrari, que pode focar seus esforços na aerodinâmica, facilmente identificável como seu grande problema no momento, as falhas da McLaren são tão difusas que fica difícil arrumar a casa.

Curiosamente, eles são os donos do maior número de poles do ano – oito, contra 6 da Red Bull – e venceram cinco provas (todas largando da primeira fila). Se, por um lado, pode-se dizer que um carro dominante aos sábados não necessariamente teve a mesma predominância aos domingos neste ano, o fato é que 14 dos 18 GPs até aqui foram vencidos por pilotos que saíram entre os dois primeiros. Dos quatro restantes, em três há um padrão: Lewis Hamilton liderava até uma quebra ou falha nos boxes acabar com sua corrida.

Em grande forma neste ano, Hamilton não foi o único “premiado” com o sem-número de problemas por que a McLaren passou, mas perdeu uma quantidade tão incrível de pontos que os ingleses até resolveram colocar na ponta do lápis e chegaram a 110 pontos, o que lhe colocaria na ponta da tabela. Claro que dá para questionar um ou outro número, afinal, é um exercício coberto de “se”, mas é inegável que a equipe falhou demais da conta.

Jenson Button, se comportando como o primeiro piloto da equipe ultimamente, reclamou em público. “Nós tivemos algum problema praticamente em todos os finais de semanas. Precisamos dar um fim nisso. Não sei o que acontece”.

A grande questão não é ficar chorando os pontos derramados. O que deve preocupar Whitmarsh e companhia é a extensa gama de problemas vivenciados neste ano: quebras (de câmbio, suspensão, alimentação de combustível); muitos erros de acerto, que prejudicaram principalmente Button, o piloto mais sensível; pit stops inconsistentes (ainda que tenha havido uma melhora incrível ao longo do ano, ainda falta acertar sempre, como fazem os rivais diretos) e a série de decisões bizarras que levaram à desclassificação de Hamilton no sábado do GP da Espanha.

A McLaren foi a única equipe que chegou a ter um carro tão dominante quanto a Red Bull tem hoje, e o fez nas duas primeiras etapas e entre Budapeste e Monza. Mas não maximizou essas oportunidades e sofreu apagões inexplicáveis. Como resultado, levou um banho operacional de Ferrari e até da Lotus e uma lavada de desenvolvimento da Red Bull.

A Ferrari é só o braço de Alonso?

Há quem explique a posição de Alonso no campeonato apenas pelo seu próprio braço. “É 90% mérito dele e 10% da equipe”. Concordo que um piloto possa fazer a diferença em determinados momentos, mas durante um ano inteiro? A campanha da Ferrari em 2012 não vem mostrando apenas as qualidades do espanhol, mas principalmente que não é só de carro imbatível que se faz um belo campeonato.

A maneira de se vencer na F-1 mudou muito de 2008, quando a Ferrari conquistou seu último título, para cá. A restrição nos testes fez com que as simulações se tornassem fundamentais e o fato de termos basicamente o mesmo regulamento técnico desde 2009 torna os ganhos de performance, hoje, mais tímidos, pois essas regras já foram bastante exploradas. Paralelamente a isso, o pacote de mudanças para melhorar o espetáculo – Pirelli, Kers e DRS – torna mais complexa a estratégia durante o final de semana e mais difícil enxergar avanços.

É com essas mudanças que a Ferrari vem tentando lidar. E com sucesso, reconhecido pelo próprio Alonso: “Quando cheguei aqui, esse não era um time vencedor. Agora evoluímos em diversas áreas, nas estratégias, nos pit stops, na preparação para as corridas. Para o ano que vem, só falta o carro. Assim, teremos condições de lutar pelo título”, disse, ao final de 2011.

É verdade que o carro ainda não veio. Em termos de performance, a Ferrari teve um início desastroso. Não passou para o Q3 na Austrália, ficando a 1s do melhor tempo no Q2 e a 21s5 da ponta na corrida mesmo com um SC a 17 voltas do final. Após o teste de Mugello, o time se reencontrou, finalmente conseguiu instalar o escapamento original e teve uma boa sequência da Espanha à Alemanha. Em nenhum momento, porém, chegou a dominar um final de semana, sendo as duas poles de Alonso dependentes da chuva. Sem colocar o carro na pista para testar fora dos finais de semana de corrida, caiu de produção e agora depende de uma adaptação melhor ou pior a cada pista.

Então como explicar que seu piloto foi líder por 8 das 10 etapas? Seria fácil colocar tudo na conta de Alonso. É inegável a grande parcela do espanhol, reconhecida a cada prova pela própria equipe, mas isso não explica tudo. A Ferrari, hoje, está no nível da Red Bull no que costumo chamar de “execução”, que envolve preparação e decisões ao longo do final de semana.

As duas têm seus pontos fracos: a Red Bull teve problemas de confiabilidade, enquanto a Ferrari faz belas estratégias defensivas, mas peca na hora de atacar. Porém, são raros os finais de semana, nos últimos dois anos, em que o conjunto Ferrari/Alonso tenha deixado de maximizar o resultado que o carro permitia.

São fatores como acerto visando a melhor equação entre velocidade e consumo de pneus – e a regra na Ferrari é sempre priorizar a corrida, como temos visto especialmente nas últimas duas provas, em que a velocidade de reta foi fundamental para seus pilotos. Para isso, o simulador, entregue ano passado, é fundamental. Os carros também são muito bem regulados para as largadas e os pit stops são consistentemente rápidos, após a equipe ter desenvolvido equipamentos que foram copiados pelo resto do grid.

Nada disso é por acaso e a figura central nessa repaginada geral é Pat Fry, que veio da McLaren na metade de 2010 para supervisionar as operações de pista e hoje é diretor técnico.

“Não é só uma questão de tentar fazer um carro mais rápido, precisamos fundamentalmente mudar as metodologias que usamos para selecionar, desenhar e fabricar peças para que sejamos competitivos a longo prazo. Há trabalho em todas as frentes para que não deixemos pedra sobre pedra.”

Falta um deles, é claro. A aerodinâmica segue sendo o calcanhar-de-Aquiles e a equipe vem acelerando suas mudanças internas para usar do mesmo expediente da Red Bull em 2009 e aproveitar a revolução nas regras de 2014 e dar esse último passo. Não dá para apostar se dará certo, mas é fato que hoje a Ferrari é uma equipe muito mais bem preparada para vencer dentro dessa nova realidade da F-1 do que há quatro anos.

De piada a potência: Os méritos da Red Bull

Eles eram a piada do paddock. Um carro mediano, marcado pela falta de confiabilidade, e ações de marketing que não combinavam com o ambiente sisudo da Fórmula 1. Cinco anos depois, conquistariam os títulos de pilotos e construtores. A trajetória da Red Bull na categoria mostra como o sucesso no esporte depende de uma série de fatores – e de timing.

A equipe optou por comprar a estrutura da antiga Jaguar e Stewart e iniciou seu projeto em 2005. Foi uma barganha: pagaram US$ 1 pelo time falido e assinaram um compromisso de injetar US$ 400 milhões nas três temporadas seguintes, troco de pinga para quem vende mais de 4 bilhões de latas de energético ao ano.

A estratégia com os pilotos foi contratar um experiente e usar o segundo carro para promover alguém com identificação comercial com a empresa. O primeiro ano foi até melhor que o esperado: sexta no mundial, com resultados bem melhores que a Jaguar. Mas ainda faltava muito para escalar até o topo.

Faltava, por exemplo, motor – e a equipe trocou o Cosworth pelo Ferrari em 2006 e pelo Renault em 2007 – e um forte corpo técnico – e contrataram Adrian Newey, na época tido como ultrapassado após alguns carros ruins na McLaren. Quando chegou à equipe, o inglês encontrou uma obra em andamento:

“A continuidade é muito importante. Quando a Red Bull correu pela primeira vez em 2005 era, na verdade, uma Jaguar pintada de azul. Depois houve uma ascensão no desenvolvimento da cultura, com muita gente chegando. Foi um período de mudanças rápidas e demorou para nos ajeitarmos e desenvolver uma maneira de trabalhar e ferramentas como o túnel de vento e os simuladores. São coisas que não se compra em lojas de departamento.” – Adrian Newey.

Fazer e desenvolver um carro de F-1 não depende apenas das ideias vindas da prancheta de um mago. Tudo tem de ser bem planejado e executado. As três temporadas seguintes serviram para arrumar a casa. Quando todo o processo funcionava bem, veio a chance do grande salto da Red Bull: um regulamento totalmente diferente, que colocava as poderosas McLaren e Ferrari em pé de igualdade. Organizada, com pessoal competente em todas as áreas e ótimo orçamento, a Red Bull surgiria como equipe grande em 2009.

“Demorou quatro anos para que as coisas se acalmassem e a grande mudança no regulamento de 2009 ocorreu em um bom momento para nós, pois coincidiu com o ponto em que começamos a trabalhar bem juntos, algo que tornou o grupo mais coeso e, ao manter isso, a equipe continua crescendo.” – Adrian Newey

De certa forma, a história da Red Bull se confunde com a de seu grande astro. Sebastian Vettel deu seus primeiros passos na F-1 em 2005, testando pela Williams. Desabrochou entre 2008 e 2009, teve um ano vitorioso e errático, assim como a equipe, em 2010 e hoje luta pelo terceiro título com ares de veterano.

Sentados no sofá, reclamamos da estratégia de um, do carro de outro. Parece tudo simples. Mas a trajetória da Red Bull mostra como não dá para personificar o sucesso na Fórmula 1.

Pimenta bem-vinda da Pirelli

Não sei porque Bernie Ecclestone ainda não veio com a ideia de Safety Cars aleatórios, no melhor estilo roleta russa. Mesmo em uma pista insossa como Abu Dhabi e com pneus que duraram bem mais do que os 100km que a Pirelli tem como meta a cada prova, tivemos uma corrida com disputas do começo ao fim.

Brincadeiras à parte, é claro que a F-1 não pode depender disso. E não surpreende que a Pirelli tenha se comprometido a jogar mais pimenta no tempero do ano que vem.

Em primeira análise, o GP de Abu Dhabi de 2012 seria o final feliz de um conto de fadas. Afinal, imaginar que veríamos uma prova tão movimentada após o anti-clímax da procissão de 2010, enquanto o campeonato pegava fogo com mais uma incrível virada, soaria como uma heresia há dois anos.

Na F-1 modo procissão dos Bridgestone, as brigas na pista de Yas Marina eram decididas como em embates de Super Trunfo com um único quesito: velocidade máxima.

De 2011 para cá, a pista continuou a mesma, ninguém encontrou espaços milagrosos para ultrapassar em nenhum lugar que não ao final das duas longas retas do circuito e a velocidade de reta segue importante, mas há cartas com outros poderes no baralho.

Assim, a corrida de Yas Marina no ano passado, sem Safety Cars, já havia sido um passo adiante, com 55 ultrapassagens contra 13 de 2010 (quando também houve um SC) e seis de 2009. Isso, devido às duas zonas de ativação da DRS e aos pneus menos duráveis, que abrem o leque estratégico e, consequentemente, fazem com que pilotos em fases diferentes de sua tática se encontrem.

O número de ultrapassagens de 2012 foi menor – 51, muito perto da média da temporada – mas é preciso fazer algumas considerações para entender por que a prova foi tão animada. Até antes da largada, não havia motivos para acreditar que a corrida teria muito mais do que por volta de 30 manobras, como as três provas anteriores. Isso porque a Pirelli novamente havia sido conservadora ao escolher os compostos médio e macio.

Não nos enganemos. Foi o Safety Car que tornou a coisa tão interessante, como já havia ocorrido em Cingapura. Além das opções mais engessadas da Pirelli, obviamente as equipes aprenderam a trabalhar melhor com os pneus.

Sabendo disso, a fornecedora promete uma nova revolução para 2013, diminuindo ainda mais a durabilidade do composto mais duro da escala. Podem esperar, portanto, efeito semelhante ao que tivemos do final do ano passado para o início deste. Não me perguntem onde isso vai parar, se teremos, um dia, a escolha entre o pneu supermacio e o superextramacio. Mas é fato que a Abu Dhabi animada só foi mais uma prova do quanto a F-1 precisa destes pneus, digamos, não funcionando muito bem.

GP de Abu Dhabi por brasileiros, espanhóis e britânicos: “I know what I’m doing”

O GP de Abu Dhabi começou com uma dúvida: até onde Sebastian Vettel conseguiria escalar largando dos boxes? Por um lado, tinha em mãos um carro preparado para ultrapassar. Por outro, estava em uma pista famosa no passado por não dar muitas chances de recuperação. “Sem dúvida Vettel vai fazer uma corrida espetacular, mas não é uma pista normal”, lembrava Reginaldo Leme, na Globo. “Vai demorar para ele chegar. Alonso apostava no título confiando em sua famosa sorte. Acho que se livra de Button na primeira curva.” O comentarista Luciano Burti acredita que “Vettel marcará pontos e, com as modificações que fizeram em seus carros, bons pontos.”

Na Sky, Martin Brundle vê uma grande chance de Vettel provar que aqueles que duvidam de seu talento estão errados. “As pessoas pedem que não analisemos o piloto quando é a equipe que tem culpa, mas não dá para separá-los. Essa pode ser a corrida que vai fazer a fama de Sebastian, é uma grande oportunidade. Acho que ele vai passar os carros mais lentos rapidamente e imagino que os pilotos da Toro Rosso foram avisados para não o atrapalharem.”

O cobertor de aquecimento de pneus preso no carro de Pedro de la Rosa antes da volta de apresentação é um mau presságio para os espanhóis. “Má sorte para Pedro e também para Fernando, porque é um obstáculo a menos para Vettel”, lamenta o narrador Antonio Lobato.

O comentarista Marc Gené segue na mesma linha quando vê vários pilotos ficando pelo caminho na primeira volta. “Todos estes são rivais que Vettel não vai ter que passar. Mas que primeira volta espetacular de Fernando! Agora os dois que estão à frente dele são os mais difíceis de passar: Maldonado pela velocidade de reta e Raikkonen porque vai dificultar.”

O desempenho do espanhol é destacado por todos. “Alonso eletrizante na primeira volta, mostrando grande velocidade de reta da Ferrari”, lembra o narrador britânico David Croft. Depois de ter de engolir seco a afirmação anterior de que “Raikkonen não é tudo isso de largada” e ver o finlandês ganhar duas posições na primeira curva, Galvão Bueno diz que Webber “além de não ajudar na largada, ainda permitiu que Alonso passasse” e não perdoa o “rei da lambança da primeira volta”, Romain Grosjean, envolvido em toque com Nico Rosberg. “Não sei até quando a Lotus Renault vai ter paciência, mesmo ele sendo francês. Francês que nasceu na Suíça, mas com licença para correr da França.” A equipe de Enstone pode não ser mais gerida pelos franceses há dois anos, mas o repórter da Sky Ted Kravitz garante que “há caras fechadas na Lotus depois que Grosjean não deixou espaço para outro piloto na primeira volta novamente”. Grosjean, contudo, não teve culpa para Lobato. “Fazia tempo que não víamos uma confusão dele. Dessa vez estava na frente.”

Logo em suas primeiras voltas de recuperação, Vettel se toca com Bruno Senna e perde parte da asa dianteira. “O piloto até desacostuma largar atrás, é difícil andar no meio do pelotão”, justifica Galvão. “Bruno não tem culpa nenhuma”, completa Burti, que ganha o apoio de Brundle: “Seb mereceu essa” porque forçou demais. Mas Lobato não concorda. “Você está tentando se recuperar e vem Bruno Senna e lhe arranca parte da asa. Mas, por um golpe de sorte, isso não te afeta.”

De fato, Brundle e Gené se surpreendem por o dano na asa não atrapalhar tanto o desempenho do alemão. “Dá para ajustar com o diferencial, dá para mexer de dentro de carro, mas se o carro estiver saindo muito de frente, vai acabar com seus pneus”, explica o inglês.“A asa está bem danificada, com certeza está atrapalhando. Eles vão trocar quando ele parar”, aposta o espanhol.

No replay da largada, Galvão aproveita para ‘desmistificar’ Nico Hulkenberg, que ficou pelo caminho na primeira volta. “As pessoas exageram, colocaram o Hulkenberg na Ferrari e ele nem é tudo isso. Vivemos em uma era em que todo mundo quer ser pai da notícia, não importa se sabe de alguma coisa.”

As elucubrações são interrompidas pelo acidente de Rosberg e Karthikeyan. “Foi daquelas que assustam tanto que ele saiu rapidinho. Vettel agradece. Fiquei com a sensação que estava vazando óleo. Estava muito mais lento que o normal”, vê Galvão. “Rosberg foi pego de surpresa. Não é nem um ponto de freada, não teve tempo de reagir”, acredita Burti, ainda que Reginaldo afirme que “daria tempo dele ter feito outra tomada”, argumento refutado pelo narrador e o comentarista. “Repito que não é ponto de freada”, diz Burti.

“É uma curva cega, mas tenho certeza de que não é culpa do Karthikeyan”, acredita Brundle, mais preocupado com a estratégia. “É muito cedo para parar, falta muita corrida para terminar”, diz, endossado em um primeiro momento por Kravitz, para quem, “com mais cinco ou dez voltas daria para colocar o duro e ir até o final”. Quando a Red Bull decide, após novo dano na asa de Vettel por um desentendimento com Ricciardo, pará-lo e colocar os macios, o repórter volta atrás. “Ele deve conseguir ir até o final com esses pneus.”

“Por que não arriscar?”, questiona Brundle.“Eles não têm nada a perder nessa situação. Essa é a grande chance de Vettel, porque seus pneus estarão mais aquecidos do que daqueles que estavam atrás do Safety Car e, ainda por cima, estão mais novos”. Gené também acha que a tática não é a ideal, mas pode dar certo. “Duvido que seja estrategicamente correto, é pela asa, porque terão de fazer muitas voltas com os macios. Mas não é uma má estratégia porque não para mais e vai se reagrupar ao final do pelotão”. Reginaldo acredita que “vale o risco, porque quando ficar sem pneus, já estará em uma boa posição.”

Os britânicos se divertiram com Vettel atropelando a placa do DRS para evitar a traseira de Ricciardo. “Não seria a primeira vez que uma Red Bull iria encher a traseira de um Toro Rosso em um Safety Car”, lembra Croft, referindo-se ao GP do Japão de 2007. “Mundo pequeno, não?”, se diverte Brundle.

Na relargada, Vettel vai para cima de Grosjean e acaba o ultrapassando por fora da pista. “Campeão do mundo é assim mesmo, se faz passando por fora da estrada”, apoia Galvão. Mas isso não é permitido pela FIA. “Essa manobra foi feita com os quatro pneus na pista?”, questiona Brundle. “Ele precisa ficar calmo, mas não parece estar.”

Os espanhóis não percebem a manobra e Lobato quer “ver o que está acontecendo lá na frente porque Webber pode usar o DRS em cima de Fernando”. Depois do replay, percebem o ocorrido e o narrador vai à loucura, mesmo após o alemão devolver a posição. É Gené que diminui o fato. “Não vão fazer nada.”

Todos tinham até esquecido de Hamilton na ponta quando o inglês estaciona sua McLaren. “Ê, Alonso”, Reginaldo vê sorte do espanhol. “Que desgraça para Hamilton e agora Alonso está no pódio. E Raikkonen finalmente com grandes condições de ganhar a corrida”, resume Lobato, ainda que os espanhóis já estejam preocupados com a pouca distância de Vettel para a ponta. “Se todos pararem agora, ele toma a liderança”, observa Gené. Antes disso, Lobato reclamava da facilidade com que o alemão passara por Vergne – “ordem de equipe também vale de um time para outro?”

Na Globo, a discussão é sobre o que mudou no retorno de Raikkonen. “Ele voltou mais falante. Ele tinha um comportamento difícil na época da Ferrari. O Felipe diz que, em um dia, conversaram mais do que em todo o tempo juntos na Ferrari”, conta Galvão. Mas a conversa via rádio faz duvidar que Kimi seja outro. “Deixe-me em paz, eu sei o que estou fazendo”, diz a seu engenheiro. “Ele não gosta que fale no rádio, é muito autêntico”, define Gené. “O engenheiro devia falar: ‘então vamos tomar um café e já voltamos’”, defende Lobato. “Imagina como era falar para o Kimi fazer a lição de casa ou escovar o dente quando ele era pequeno”, ri Brundle.

Na pista, Alonso passa Maldonado. “Ninguém acredita porque ninguém sabia que estávamos tão perto!”, exclama o narrador, que ganha o apoio de Galvão. “A expressão da equipe é de surpresa, do tipo ‘como esse cara consegue fazer isso?’”

Mas logo fica claro que o venezuelano tem problemas e é Webber quem tenta passá-lo, sem sucesso. Os dois se tocam. “Não tentaria fechar Maldonado a não ser que tivesse o ultrapassado. Maldonado fez o que tinha de fazer e Mark esperava que ele tirasse o pé, o que não fez”, explica Brundle. “Maldonado é Maldonado. Daqui a pouco vai ter investigação”, a primeira reação de Galvão é culpar o piloto da Williams. “Ele estava na trajetória”, defende Burti, e o narrador e Reginaldo acabam concordando. Para o comentarista, inclusive, é mais uma prova de que “desde o sábado à tarde está tudo dando certo para o Alonso.”

Os espanhóis não concordam, lamentam a sorte que Vettel vem tendo na prova, e comentam sobre o incidente com atraso, pois estavam nos comerciais. “Acho que foi muito otimismo de Webber, porque Maldonado não poderia ter desaparecido”, diz Lobato.

Webber repetiria a dose voltas depois, agora com Massa. “O pior é que agora Mark está muito longe para dar a posição de volta. Acho que ele vai receber um drive through, pelo menos por um dos incidentes”, acredita Brundle. “Isso é ruim porque perde a posição para Vettel. Que erro!”, Lobato se revolta com o brasileiro. “Da forma que Webber voltou, assustou Felipe”, Reginaldo defende o compatriota. “Teve de diminuir para não dar no meio dele. Será que ele escapa das duas investigações?”, questiona Galvão. Quando o australiano sai impune, o narrador diz que os comissários “estão muito bonzinhos. Webber, que não é disso, abriu a caixa de ferramentas hoje.”

O momento das paradas dos líderes se aproxima. “Raikkonen precisa aproveitar agora que está com o pneu macio, com o qual é melhor que a Ferrari. Talvez Alonso possa tentar algo com a estratégia”, acredita Kravitz, mas Croft brinca. “Estratégia não é uma palavra que Alonso gosta de ouvir nesta pista.”

Porém, o espanhol está muito longe do líder e seus compatriotas estão mais preocupados com Vettel. Gené vai do otimismo ao pessimismo em questão de minutos. “É bom sinal que Felipe esteja reclamando dos pneus porque ele fez 25 voltas e Vettel vai ter que fazer umas 40”, diz, para logo depois fazer as contas e emendar. “O que posso garantir é que Vettel será pelo menos quarto. Fernando vai ter que correr muito para chegar à frente dele.”

Kravitz não acredita que Vettel consegue ir até o final. “Os especialistas dos pneus dizem que o pneu médio pode fazer 40 voltas. Seriam 42 com o macio… vai ser difícil”. A opinião é compartilhada por Galvão, mas refutada por Burti. Já Reginaldo espera ver em Vettel “uma característica que já vi em Alonso, Senna, Prost, Piquet e outros campeões: vai ter que economizar pneu sem perder velocidade.”

Gené acredita que é possível que Vettel não pare e está certo de que “Fernando vai chegar nele”, mas Lobato nem quer pensar nisso. “Imagine os dois líderes se pegando”. Os espanhóis se preocupam com Button, que vem em zona de DRS atrás da Ferrari. “O que cremos é que a McLaren tem a sétima marcha mais curta e Fernando pode se defender com isso”. O narrador reclama das (não) ordens de equipe da Red Bull. “O que me irrita é como eles são mentirosos. Claro que Webber tem que deixar passar, estão lutando pelo mundial!”

Lobato reconhece que Vettel “está fazendo uma corridaça, não há dúvida”, ainda que o comentarista Jacobo Vega insista que “todas as coisas estranhas que estão acontecendo ajudem Vettel.”

Quando o desânimo bate entre os espanhóis, Lobato comemora o pit stop de Vettel como se fosse um gol. “Box, box, box para Vettel!” E Gené explica a decisão. “É claro, se é para trocar, não podem esperar. Eles perceberam que Fernando iria alcançá-lo”. Burti não se conforma: “não faz sentido, para que trocar pneu? Foram conservadores, porque era possível” e Galvão explica que “não há milagre no esporte.”

A alegria dos espanhóis dura até Perez armar uma confusão que causa o Safety Car. “Madre de Diós, que desastre! Tudo saiu perfeito para Vettel”, Lobato se desespera. “Acho que o nome do meio de Vettel é sorte. Quebra duas vezes a asa dianteira e nada acontece, dois SC o ajudam, seus rivais parecem se auto-destruir no meio do caminho e o carro de Hamilton quebra”, acredita Brundle, enquanto Croft se surpreende. “Quando eu falei que ninguém nunca tinha vencido largando em último, só joguei no ar. Não achei que poderia acontecer.”

Sobre o acidente em si, Lobato se limita a dizer que “havia muita gente perigosa junto”. Afinal, tem outras prioridades. Para Galvão, “dessa vez o Grosjean caprichou”, apontando logo para o primeiro suspeito, mas Burti vê que o problema “foi como o Perez voltou para a pista”. E o narrador se rende. “Perez é outro complicado.”

A pausa serve para que os britânicos respirem. “Se você não estiver na ponta do sofá com essa corrida, não vai estar com mais nenhuma”, diz Croft. “Melhor corrida do ano junto de Valência. Não são geralmente as primeiras das listas de melhores, mas na Fórmula 1 você nunca sabe de nada”, reflete Brundle.

Os espanhóis não relaxam. “As coisas não estão boas. Fernando está perto de Raikkonen, mas teve muita dificuldade para aquecer os pneus no primeiro SC”, vê Lobato. “Além disso, Vettel tem uma sétima marcha muito longa. No momento, acho que Vettel tem mais possibilidades do que Fernando de terminar em segundo. Mas Fernando também pode ganhar, é difícil, mas pode”, completa Gené, mas o narrador não aprova. “Calma, calma, primeiro vamos pensar que tudo pode ficar como está”. Lobato chega a imaginar se Alonso não está próximo de Button de propósito para que Button tenha a DRS ativada para se defender de Vettel. “Se Button sai de sua zona de DRS, não vai conseguir se defender de Vettel.”

Após algumas voltas de entusiasmo, com Galvão dizendo que “a sorte que era do Alonso virou para o Vettel”, os brasileiros passam a duvidar que o alemão chegará em terceiro, com Reginaldo inclusive acreditando que o piloto pode “jogar fora o campeonato” se não tiver mais cuidado. “Não há reta suficiente para passar e quem se defende coloca por dentro. O único que achou que era super-homem e quis passar por fora foi Webber e bateu duas vezes”. Seria justamente por ali que o bicampeão daria o bote.

Sempre pessimista, Gené diz que Vettel “vai acabar passando”, ao que o narrador responde com um longo suspiro e um “gracias”. Lobato até oferece um “monumento para Button em Maranello se segurar Vettel e pilhas de pizzas e paellas”, mas o inglês não consegue se segurar na frente. “Vettel veio de muito longe. Foi uma pilotagem muito boa dos dois”, destaca Brundle. O “cavalheirismo” de Button também é destacado por Burti. “É um tipo de ultrapassagem que Vettel faz muito bem, é um dos pilotos que costuma ultrapassar por fora”, reconhece Gené.

Resta acreditar que Alonso possa chegar em Raikkonen, ainda que até Lobato reconheça que seria necessária “alguma mágica”. No final, o que tinha tudo para ser um domingo de lucro para Alonso termina com três pontos de ganho. “Eu achava que Fernando seria terceiro e Vettel, sexto ou sétimo, mas todos os SC o beneficiaram”, lamenta Gené. “Mas com a classificação normal, hoje Vettel ganharia e Fernando seria terceiro. Se dermos um carro para Fernando poder classificar bem… porque no final o carro foi bem. Para mim, o melhor piloto da corrida foi Fernando porque a corrida de Raikkonen foi fácil e Vettel foi muito beneficiado. Fernando se arriscou muito porque o carro não estava bom nesse circuito”, avalia o comentarista, que ganha apoio dos brasileiros. “Se Alonso ganhar, 90% é dele e 10% da Ferrari. Deve estar exausto porque novamente tirou leite de pedra”, diz Burti.

Mas quem rouba a cena no final é o vencedor Raikkonen. “Não acho que haverá uma vitória tão popular neste ano. Eu estava na última vitória da Lotus”, lembra Brundle, ainda que Croft lembre que “aquela era uma equipe bem diferente”. Para os brasileiros, pouco importa. “Volta a vencer a Lotus, que fez parte da nossa vida, a grande Lotus de Colin Chapman”, diz Galvão, enquanto Reginaldo lembra Ayrton Senna.

Discussões sobre o DNA da Lotus à parte, o jeitão do vencedor chama a atenção de todos. Para Galvão, “é um novo Raikkonen. Dois braços erguidos eu nunca vi!”, brinca o narrador, enquanto Brundle resume: “Essa corrida era do Hamilton, mas eles tiveram problemas. Raikkonen teve ritmo o tempo todo, e nem precisou da ajuda do engenheiro: ele sabia o que tinha de fazer.”

Só a “sorte” explica a corrida de Vettel em Abu Dhabi?

A decepção do sábado deu uma chance a Vettel, e ele a aproveitou

“Ele deve ser a pessoa mais sortuda da Fórmula 1”, riu Lewis Hamilton. “O Safety Car ajudou muito”, emendou Felipe Massa. Mal terminou o GP de Abu Dhabi e os rivais se apressaram em diminuir os feitos de Sebastian Vettel, que ganhou 21 posições em relação à largada para chegar em terceiro.

Há duas maneiras de olhar o feito: os detratores apontarão sorte e um carro configurado para ultrapassar; os admiradores, a prova cabal de que o bicampeão sabe ultrapassar e se dar bem largando mais atrás. Contudo, nenhuma delas explica completamente a corrida do alemão. Uma grande parcela de competência o colocou em posição de desfrutar da sorte. Algo que compararia à corrida de Alonso em Valência: o espanhol teve seus méritos ao escalar o pelotão, ter ritmo forte quando precisava, ultrapassar sem pestanejar, para depois herdar a vitória. Vettel veio de (muito) mais de trás e teve tantos méritos (e sorte) quanto seu rival.

Passemos um pente-fino na corrida do alemão, que contava com um equipamento preparado para ultrapassar após a primeira grande decisão da Red Bull após o mal-explicado erro do combustível (cuja culpa, segundo o time, é da Renault): largar do pitlane. Além de dar 10km/h a mais de reta a Vettel por meio de configurações de asa e câmbio, o tirou de uma primeira volta que seria das mais complicadas: Rosberg, Grosjean, Di Resta e Senna foram parar atrás de Vettel – o brasileiro chegou a tentar devolver a posição, em disputa que custou a primeira parte da asa dianteira da Red Bull – e Hulkenberg ficou pelo caminho. Com isso e se livrando das nanicas em 8 voltas, Vettel subiu a 13º, a 23s do líder.

Mas havia uma preocupação: seu ritmo não era semelhante ao dos líderes quando tinha ar livre, mesmo considerando que estava com os pneus médios. Seria pela asa ou o pneu macio era o melhor para a corrida? Essa questão teve uma solução apressada pelo segundo golpe, causado pelo mal entendido com Ricciardo atrás do Safety Car. E provou que o pneu macio seria o mais rápido e durável.

A primeira parada tão cedo não estava nos planos, nem mesmo a equipe sabia se os pneus aguentariam. Mas não havia escolha. Na relargada, Vettel usou muito bem a aderência (pelo pneu novo) e temperatura a mais (por não tê-lo aquecido atrás do SC) para escalar rapidamente, passando, além das nanicas, Di Resta, Grosjean, Senna novamente, as Toro Rosso com óbvia facilidade e Schumacher. Ganhou 10 posições em 11 voltas, todas na pista, antes que a rodada única de pit stop começasse.

A grande “sorte” de Vettel é que o primeiro SC o tirou do “confronto direto” com carros que seriam mais difíceis de passar pois fatalmente encontraria as Sauber e Massa e perderia mais tempo que, somado aos 23s que levava do líder na oitava volta, tornaria a diferença irrecuperável para alcançar o pódio. Mas, com 25 voltas completadas, Vettel estava a 22s do líder, com a parada custando cerca de 19s.

Passada com louvor a fase das ultrapassagens, o alemão adotou o ritmo da ponta, sendo alçado à segunda posição após os pit stops. Mais importante: os três primeiros haviam colocado mais de 12s nos demais pela “barreira” chamada Grosjean, que tentava ir até o final com pneus tão usados quanto os de Vettel e limitava os avanços de Maldonado, Perez e companhia, abrindo uma janela importante atrás de Button.

Isso deu margem de manobra para a Red Bull: se os pneus de Vettel acabassem, terminaria em quarto. Se o parassem, quarto seria o pior cenário. Resolveram dar uma chance para o alemão repetir a estratégia de Montreal e conseguiram mais três pontos com a ultrapassagem sobre Button.

Dificilmente esta ultrapassagem teria acontecido sem o segundo Safety Car. Vettel teve três voltas com ar livre após passar Button, e foi 0s5 mais rápido em uma e 1s nas duas últimas. Não dá para saber o quanto o inglês estava forçando. E o bicampeão havia voltado da parada 15s de Jenson, com 18 voltas para o final, diferença dizimada pelo Safety Car.

O saldo é de oito ultrapassagens descontando as nanicas e ritmo forte quando necessário. Carro voando na reta? Pneus melhores? Desde que o mundo é mundo ninguém sai passando todo mundo na F-1 só com o braço. Vettel fez um trabalho irretocável e teve seu resultado final aumentado pelas circunstâncias. Em um campeonato de oportunidades, colocou-se, mais uma vez, em posição de aproveitá-las. No equilíbrio entre sorte e competência, prefiro a abordagem pragmática do próprio líder do campeonato. “We had the chance to fuck it up but we didn’t.” Simples assim.

Ganhadores e perdedores de Abu Dhabi e os gráficos do mundial

Abu Dhabi continua a mesma: só dá para ultrapassar ao final das retas. Os pneus também não se degradaram a ponto de serem o motivo das brigas na pista. Mas parece que os pilotos acordaram com uns parafusos a menos neste domingo. Com ao menos seis fora de posição desde a primeira volta e zonas de DRS que permitiam nada mais que emparelhar na freada, vários tomaram decisões, no mínimo, arriscadas.

Alguns ficaram no quase, como Alonso, que esteve perto de encher Maldonado na primeira volta. Outros foram para os “finalmente”, como Webber (por três vezes!), Grosjean (duas) e Perez (responsável por um strike tão grande que valeu por duas).

O resultado foram equipes com um lado sorridente, outro nem tanto. Apenas Ferrari e Williams pontuaram com ambos os pilotos – e, mesmo entre os 10, Maldonado (crendo que o pódio seria possível sem o problema de Kers após o primeiro SC) e Massa saíram decepcionados.

Entre os felizes, se o lucro maior do domingo parece ter sido de Vettel, o saldo do final de semana é favorável a Alonso, que desde os GPs de Hungria e Bélgica não tinha tantos motivos para ser pessimista ao sair do carro após a classificação. Mas quem acertou em cheio foi Raikkonen: o sucesso da configuração de seu carro dependia muito de uma boa classificação e uma largada melhor ainda, para sair do tráfego, e foi justamente o que o finlandês executou. E, como dizem, quando a competência encontra a oportunidade…

Por outro lado, quando nada se encontra, sobram justificativas. Que o diga Jenson Button, que ficou a anos-luz de Lewis Hamilton na classificação e esperava uma revolução em seu ritmo na corrida. Ela não veio e, pior, sem velocidade de reta, ficou travado no pelotão. Restou desmerecer o trabalho de Vettel dizendo que “seria vergonhoso não me passar, pois os pneus macios tinham muito mais aderência”. Mas Button não foi a único piloto McLaren decepcionado, com Hamilton apontando problemas “nas últimas quatro ou cinco provas”. De fato, é incrível ver a dona do carro que chegou perto de poder ser chamado de “melhor” da temporada se distanciando do vice-campeonato de construtores. Pura autodestruição.

Hamilton, aliás, deve estar pagando com juros e correção os pontos que desperdiçou ano passado. Para completar, vê a Mercedes seriamente estagnada. Ou será que é pior para a McLaren ver seu novo contratado mais parecendo um “Lewis versão 2011”?

Ultrapassando em Abu Dhabi

“O circuito permite ultrapassagens, mas você também tem de ter velocidade”. A definição daquele que é considerado por muitos como o símbolo de que o circuito de Abu Dhabi não é exatamente a antítese da ultrapassagem, Kamui Kobayashi, explica o que se desenha para a prova de amanhã.

A corrida deve ser semelhante ao GP da Índia, apesar dos cenários tão distintos: uma parada, com os pilotos podendo forçar um pouco mais porque a degradação não é tão alta, mas com as trocas de posição dependendo muito da velocidade de reta de cada carro.

Mesmo que as pistas tenham características diferentes – Buddh é um circuito recheado de curvas de alta, enquanto Abu Dhabi é travado – as ultrapassagens acabam restritas ao final das retas. O resultado é que carros sem velocidade final, mesmo que tenham rendimento muito melhor no geral, ficam travados atrás de outros que correm mais na reta.

Ambos os estilos de traçado fazem com que o acerto do carro seja um grande desafio. Os carros são acertados antes da classificação e pouca coisa pode ser alterada até a corrida. Um dos pontos principais é a relação de marchas. A grosso modo, pode-se optar por privilegiar o carro usando a DRS o tempo todo – na classificação – ou não. Ao adotar uma sétima marcha mais curta, melhora-se a aceleração e, consequentemente, o tempo de volta. Por outro lado, chega-se ao limitador de 18 mil giros mais cedo em retas longas e, sem conseguir ganhar velocidade a partir de determinado momento, fica difícil ultrapassar.

Abu Dhabi deu uma aula clara dessas há dois anos e tivemos outra no último GP, com Kimi Raikkonen de um lado e Fernando Alonso do outro. Já na primeira volta deu para perceber que a Ferrari havia sacrificado o tempo de volta em favor da velocidade de reta, enquanto a Lotus adotara a tática contrária.

Não dá para dizer que a fórmula x é mais vencedora que a y, pois é uma opção que depende das características do carro. Se sentir que é bom o bastante para largar na frente, não é necessário apostar em velocidade de reta; se acredita que estará no meio do pelotão, é melhor preparar-se para ultrapassar.

A julgar pelos dados da classificação, esse segundo caminho foi o escolhido pela Williams e novamente parece ter sido a opção da Ferrari, que não se adaptou como esperava a Yas Marina.

Esse seria é um fator que complicaria ainda mais a corrida de Sebastian Vettel – e explica a decisão da equipe de tirar o carro do parque fechado, levando o piloto a largar do pitlane. A Red Bull tem um carro mais voltado à classificação, com as piores velocidades de reta do grid todo e irá mudar a relação de marchas do carro do piloto para reverter isso. Caso contrário, mais uma vez acabaria acusado de não saber ultrapassar. Com justiça?

Quando você acha que a história da Lotus que não é Lotus não pode se complicar mais…

A confirmação da permanência de Kimi Raikkonen na Lotus, logo na segunda-feira após os rumores acerca da viabilidade da equipe terem se agigantado durante o final de semana do GP da Índia não poderia ser uma mensagem de marketing mais forte. Aquele que, para mim, tem sido o piloto mais impressionante do ano pela velocidade que mostrou logo de cara após o retorno e pela consistência absurda, mantendo-se longe de problemas mesmo andando no perigoso meio do pelotão pela maior parte da temporada, decidiu permanecer em um barco que muitos já davam como furado.

Isso, porém, não encerra o caso. É impressionante como as histórias que cercam o espólio da Toleman/Benneton/Renault conseguem se complicar ainda mais mesmo quando acreditamos que não seja mais possível. Seus donos, a empresa de investimentos baseada em Luxemburgo Genii, venderam não apenas o papel de patrocinador principal, como também o nome da equipe para a Lotus Cars, por sua vez, comandada pela montadora malaia Proton, uma das empresas da DRB-Hicom.

O problema é que o elo entre a Genii e a Lotus Cars foi cortado no início deste ano. Com isso, acordo de patrocínio foi cancelado, devido às dificuldades financeiras da empresa, que saiu gastando o que não tinha com os projetos do ex-CEO Dany Bahar. Porém, o nome continuou sendo utilizado.

Hoje, na prática, a equipe Lotus gasta uma enorme quantidade dos espaços mais valiosos de seu carro fazendo publicidade gratuita a uma montadora que não lhe paga. Faz isso porque o nome Lotus lhe dá mais status e porque a imagem da equipe já foi construída em cima dele. Teoricamente, é um negócio bom para ambos os lados.

Mas status obviamente não paga as contas do time de Enstone. Quem o faz é a Genii, pois, gastando seu melhor espaço com a Lotus Cars, a equipe não tem grandes patrocinadores como o Santander na Ferrari, a Vodafone (acredita-se que não por muito tempo) na McLaren, ou a Petronas na Mercedes.

Por isso, a Genii estaria interessada em vender parte de suas ações, mas sem perder o controle. No paddock, fala-se em até 49%; a equipe admite negociar “porcentagens minoritárias”. Com a confirmação de Raikkonen e o quarto lugar assegurado no campeonato de construtores – que, ano passado, rendeu mais de US$ 70 milhoes –, a situação da equipe não tem motivos para ser tão crítica quanto se propagandeia.

O fato é que a Genii não quer mais colocar dinheiro do próprio bolso e busca investidores, algo comum para pequenas ou grandes empresas quando um projeto começa a vingar. Ainda que o desenvolvimento do carro tenha sofrido um golpe com a dificuldade da equipe em lidar com o DRS duplo, recentemente um novo sistema de escapamento foi adotado e peças foram colocadas até na última prova. Ou seja, são todos sinais de que, embora a Geniii compreensivamente busque investidores, não vai abandonar o barco em que colocou muita grana de uma hora para a outra.

GP da Índia por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Vão ter que fazer uma estátua”

É Reginaldo Leme, na Globo, quem dá o tom do que se espera do GP da Índia: “Vettel pode dar passo decisivo para o título e Alonso pode mostrar por que ainda diz que é possível.” Por sua vez, o narrador da Sky britânica, David Croft, salienta a importância de uma boa primeira volta. “Button passou quatro carros no início do GP do ano passado e alguns pilotos estão preocupados, especialmente a Red Bull, porque eles não têm boa velocidade de reta. Especialmente Alonso sabe que não pode ter os dois McLaren a sua frente ao final da primeira volta”, completa o comentarista Martin Brundle.

Até porque, com a estratégia, não é possível fazer muita coisa. “Uma parada é, no papel, cerca de 5 a 10s mais rápido, mas veremos quem será forçado a fazer duas. Ouvimos que Webber pode ser um pouco mais duro com os pneus. Saberemos perto da volta 15. Para uma parada, será perto da 25”, resume o repórter britânico Ted Kravitz, enquanto os espanhóis, na Antena 3, lembram que os pneus de Alonso têm três voltas a mais do que Vettel e Webber, pois o melhor tempo do asturiano foi feito na primeira saída do Q3, quando utilizou os mesmos compostos do Q2. E o comentarista Marc Gené explica que “alguns pilotos podem começar a poupar pneu para fazer uma parada, enquanto outros podem forçar tudo e ver quando o pneu se desgasta. Ninguém fez voltas suficientes na sexta para saber quando o pneu acaba.”

Croft destaca ainda que “Webber ganhou mais corridas largando em segundo do que da pole e Alonso larga pela oitava vez consecutiva fora do top 3.” Contudo, o espanhol mostra que sua intenção é chegar entre os três primeiros o mais rápido possível, e vai para cima das duas McLaren, superando-as na reta, mas levando o troco na freada. Na curva cinco, consegue passar Hamilton.

Os brasileiros se agitam. “Olha o que faz o Alonso. Manobra de craques da Fórmula 1. Impressionante”, define o narrador Luis Roberto. “Era muito importante o Alonso ser terceiro, mas Button, que não é de arriscar, e Hamilton, jogaram pesado com ele porque sabem que ele tem mais a perder. Principalmente se a corrida for de uma parada, não é bom ficar metido em disputas”, completou o comentarista Luciano Burti.

Gené não concorda com o brasileiro. “Primeiro, como Fernando foi espetacular na reta e, depois, como Hamilton foi muito corajoso na freada. Para passá-lo, Fernando teve de arriscar muito, deixou o espaço mínimo.”

Os britânicos destacam os três envolvidos. “Que vácuo que Alonso pegou das duas McLaren! Muita habilidade para não ter havido nenhum toque. A briga foi incrível nas curvas três, quatro e cinco. Só três pilotos deste calibre não teriam um acidente na freada”, se impressiona Brundle. E Alonso mostrou que tem uma sétima marcha longa, que vai ajudá-lo no decorrer da corrida. Ao contrário das McLaren, que parecem ter parado no meio da reta. A Ferrari fez uma estratégia para pegar essas duas McLaren, porque sabe que não estão nem perto da Red Bull. Eles arrumaram o DRS e alargaram a sétima marcha”, observa o comentarista. “Foi uma péssima primeira volta para a McLaren, eles tinham de ter se colocado entre as Red Bull”, completa Croft.

Provando a teoria do ex-piloto, Alonso passa Button com facilidade na quarta volta. “Vamos, Fernando. Próxima parada: Mark Webber”, se anima Lobato. Se ele chegar em Mark, vai passar fácil, porque, com o DRS aberto, chegou a 319km/h e o australiano, a 311km/h.”

Os espanhóis vão seguindo os tempos a cada setor. “Falta só um pouco de ritmo para Fernando”, aponta Lobato, enquanto Gené busca uma saída. “A chance de Fernando é trabalhar com a degradação. Não que a Ferrari seja muito melhor, mas ele pode arriscar fazer uma parada se a Red Bull fizer duas.” Quem pode ter de fazer duas paradas é a McLaren, observa Brundle. “Eles não têm ritmo.”

As atenções se voltam para a briga de Bruno Senna – citado pela primeira vez na Globo na volta 4 – com Pastor Maldonado e Romain Grosjean. O brasileiro aproveita o descuido do companheiro para ultrapassá-lo. “Bruno andou bem por todo final de semana, que é o que importa, mesmo tendo tido uma classificação ruim. Ele leu isso muito bem, não quis dar uma de esperto, esperou a situação se definir para atacar”, elogia Brundle. “Ficou de espectador e se aproveitou. Linda manobra de Bruno Senna. Sem dúvida, dá mais prazer porque disputa com o companheiro é como um primeiro campeonato para um piloto”, diz Reginaldo.

“São os chifres da Toro Rosso”, brinca Brundle sobre os toques que rasgaram os pneus de Schumacher e Perez. Mas, para Reginaldo e Luis Roberto, “desde que assinou com a McLaren, Perez ficou com a cabeça meio atrapalhada.”

Os pilotos da ponta demoram a fazer sua primeira parada e Croft explica o fenômeno de convergência de massas de ar que causa uma espécie de neblina na região do circuito. “Com menos de 20 voltas, já estou falando do clima”, brinca o britânico. Na Antena 3, contudo, Lobato havia superado-o, dizendo na volta sete: “Não tente limpar sua tela, o cenário é esse mesmo.”

A conversa sobre o clima acaba com a aproximação de Alonso em relação a Webber. Os espanhóis vão seguindo os tempos a cada setor. “Falta só um pouco de ritmo para Fernando”, aponta Lobato, enquanto Gené busca uma saída. “A chance de Fernando é trabalhar com a degradação. Não é que a Ferrari seja muito melhor, mas ele pode arriscar fazer uma parada se a Red Bull fizer duas”. Logo, segue uma série de ‘e se’, que dura por toda a prova. “É uma pena os primeiros metros, quando os McLaren o atrapalharam”, vê Lobato. “Ou também se tivesse se classificado melhor”, completa Gené, que lembra que “Vettel está em outro planeta em relação a seu companheiro de equipe.”

O comentarista, falando sobre a eterna briga de Massa com Raikkonen, que demonstra estar mais rápido, mas não consegue sequer colocar de lado, compara a situação do finlandês, sem velocidade de reta, a Alonso em Abu Dhabi 2010. “Ele bate no limitador no meio da volta, optou por uma sétima marcha de classificação.”

Ainda assim, os brasileiros se preocupam quando o piloto da Lotus faz sua parada uma volta antes de Massa. “Geralmente, quem para antes tem vantagem e Kimi pode voltar à frente”, aponta Burti. De fato, Raikkonen consegue superar, mas o ferrarista tinha um plano, que passa despercebido: até fritou o pneu para garantir que teria direito a usar a DRS na reta e dar o troco.  “Massa ajuda Raikkonen ao fritar o pneu na entrada da curva e Raikkonen passa depois de 30 voltas. Mas todo o bom trabalho não vale nada por causa da DRS”, lamenta Croft. “Que sétima curta que o Kimi tem, não adiantou fazer todo o restante do trabalho”, avalia Lobato.

Luis Roberto se perde nas contas e vê a possibilidade de Hamilton passar Alonso e Webber (que estavam mais de 10s à frente) ao permanecer mais tempo na pista, enquanto Reginaldo se preocupa porque “Massa não consegue imprimir o mesmo ritmo da última prova.” Os espanhóis têm a explicação: é Alonso quem está fazendo a diferença. “Subindo pelas paredes, fazendo o possível e o impossível. A televisão não mostra o quão boa é a corrida de Fernando. O problema é que tudo o que Alonso faz não é o suficiente. Estamos comparando-o com Vettel e Webber, mas o mais justo é comparar com Massa e está 26s à frente”, diz Lobato, que ganha o apoio de Gené. “E estamos vendo o melhor Massa do ano. É uma das melhores corridas de Fernando em relação a ritmo.”

O narrador espanhol reclama – várias vezes – pelo fato da transmissão não mostrar Alonso chegando em Webber. “É incrível que tenha de acompanhar a corrida pelo GPS.”

Enquanto isso, os britânicos acreditam que Alonso, a exemplo de Massa, tem problemas de combustível e, inclusive, checam a informação com a Ferrari, que nega. “Disseram para ele tirar o pé cedo e frear tarde, isso só pode ser combustível”, crê Brundle. “Eles tinham de arriscar”, lembra Croft.

As dúvidas cessam quando o espanhol passa Webber, para delírio de Lobato. “Se aproxima, se aproxima! Mágica, mágica! Tomaaa!”, berra o narrador. “O fato de ter sido com DRS tem menos mérito, mas, para chegar até aí…”

Burti lembra que “além do DRS, há algumas voltas Webber reclamava de falha no Kers”. Brundle destaca que, “de alguma maneira, ele conseguiu se colocar entre as Red Bull. Ele estava longe demais, imagino se Mark não tem um problema maior. Estava tão mais rápido que quase bateu.”

O segundo lugar enche os espanhóis de orgulho. “É mais uma corrida que mostra como Fernando merece o campeonato. Faria duas leituras. Claro, Vettel é o favorito, mas Fernando manteve-se vivo e mostrou que o ritmo da Red Bull não é tão melhor. De longe, ele é o que tira mais de seu carro”, aponta Gené. “Que pena que o carro não ande um pouco mais. Em Maranello, eles costumam hastear uma bandeira a cada vitória. Acho que deviam, depois dessa corrida, colocar uma estátua de Fernando lá. O que fez hoje foi brutal”, completa Lobato.

As faíscas que estavam “sparkling like hell” (algo como “brilhando pra camamba”, na definição do engenheiro de Alonso, Andrea Stella), no carro de Vettel deram o último suspiro para os espanhóis. “Pode haver uma ilegalidade, porque a placa de madeira pode estar se desgastando. Ou é alguma parte do assoalho que se descolou”, explica Gené. “Que pena que não faltam mais 10 voltas. Que pena a classificação, o tempo perdido com a McLaren no início”, lamenta Lobato.

“Pode ser a volta da famosa sorte de Alonso”, aponta Reginaldo, enquanto Burti diz que “não faz sentido o assoalho bater no chão desta maneira.” Brundle também fica com a pulga atrás da orelha. “É aquela parte que a FIA tenta fazer com que as equipes não flexionem. Será que ele atacou muito forte uma zebra? Ferrari e McLaren vão querer saber por que isso está acontecendo, porque é uma zona de performance.”

Luis Roberto não se conforma com luta de Massa e Raikkonen. “Olho para o computador e tenho a impressão de que ele quebrou porque a diferença é sempre a mesma”. Brundle também brinca com a dupla, dizendo que “Raikkonen vai poder explicar como é a traseira de uma Ferrari”. Mas na há tempo para mais nada e Vettel leva a quarta seguida, “superando dois mitos, Clark e Lauda, e agora tem 205 voltas na liderança. Massa suportou a pressão de Kimi a prova toda e Bruno Senna foi muito bem com volta rápida pessoal no final”, avalia Reginaldo.

Falando em volta mais rápida, os espanhóis se divertiram com Alonso e Button tirando a volta mais rápida de Vettel para que ele não conseguisse o grand chelem. Além disso, talvez o alemão não tivesse saído com a diferença que esperava no campeonato. “Fernando pode estar frustrado, porque, depois de uma corrida como essa, é difícil aceitar que não foi suficiente para vencer. Mas, se melhoramos um pouco mais em Abu Dhabi, ele pode lutar. Acho que ele está mais feliz que Vettel”, crê Gené, mesma linha de Burti. “Alonso sai quase como vencedor. A diferença está ficando grande, mas ainda em um nível em que dá para reverter.”

A conversa na Antena 3 volta à comparação direta com Massa, que não usou todas as atualizações que a Ferrari levou à Índia. “Existe um campeonato, sem dúvida, porque Fernando tira a diferença com o braço”, conclui Gené, enquanto Brundle também chama a atenção para a distância entre os ferraristas. “Alonso está meio minuto na frente de seu competente companheiro Felipe Massa, que voltou a andar bem. É um piloto extraordinário. Gostaria de vê-los juntos, mas parece que Vettel é aquele que vai assumir o manto de Alonso.”

Essa é uma ideia que não passa pela cabeça dos espanhóis, que destacam como “Vettel conversa com o membro de sua equipe e Webber, seu companheiro, sentado ao lado de seu maior rival”, como observa Lobato. E Gené emenda: “estão todos os pilotos alinhados com Fernando”. Seja como for, os pontos estão cada vez mais a favor de Vettel. “Agora, não é só minimizar os danos. Temos de causá-los”, defende Lobato.

GP da Índia em números: rivais estragam grand chelem de Vettel

Foi no mínimo curiosa a chuva de voltas mais rápidas no último giro

Não, isso não é um déjà vu. Não estamos em 2011. Mas não dá para fugir dos números de um piloto que vem reescrevendo a história da temporada que começou como uma das mais imprevisíveis da história. Sebastian Vettel conquistou sua quarta vitória seguida, algo inédito em um mesmo ano para o alemão que agora tem mais conquistas – 26 – do que anos de idade. E mais: em sete delas, sendo as últimas três, liderou todas as voltas.

Quem mais fez isso na história foi Ayrton Senna, em nada menos que 19 oportunidades. O brasileiro é seguido por Jim Clak com 13, e Jackie Stewart e Michael Schumacher, com 11. Na Índia, por exemplo, os espectadores presentes às duas edições da prova realizadas no país devem pensar que é impossível haver um líder diferente, uma vez que Vettel liderou todas as voltas no circuito de Buddh.

Agora, o alemão parte para novos desafios. Apenas cinco pilotos conseguiram vencer cinco provas ou mais em sequência: Alberto Ascari (nove, descontando as 500 Milhas de Indianápolis, da qual não participou, como vários pilotos na época em que a corrida fazia parte do campeonato), Michael Schumacher (seis, por duas vezes, sendo uma em 2004 e outra entre 2000 e 2001), Jack Brabham, Jim Clark e Nigel Mansell, com cinco.

Ascari, também, é dono de outro recorde perseguido pelo piloto da Red Bull: tendo liderado 205 voltas em sequência, Vettel está a 100 de igualar o recorde do italiano. Antes disso, ainda teria de passar Ayrton Senna (267 entre 1988 e 1989 e 237 em 1989) e Nigel Mansell (235 voltas seguidas na liderança em 1992).

No ranking dos pilotos mais vitoriosos da história, o próximo em que Vettel pode chegar é Stewart que, curiosamente, conquistou seus 27 GPs em 99 provas. Justamente, o número que o alemão alcançará no GP de Abu Dhabi. Na próxima prova, também, a Red Bull pode conquistar seu terceiro título seguido, caso a Ferrari não tire 5 pontos de sua atual vantagem e a McLaren,15.

Mesmo que Vettel tenha tentado fechar seu terceiro grand chelem na carreira ao fazer sua volta mais rápida da prova no último giro, seu tempo foi superado por Alonso, Senna e Button, que também apertaram o ritmo no final. Birra da concorrência?

A Red Bull pode estar acostumada às vitórias nas últimas quatro temporadas, mas nunca havia fechado a primeira fila por três vezes seguidas. Antes dela, quem obteve a proeza foi a McLaren, em 2007.

Falando em McLaren, Hamilton marcou o 6000º ponto britânico na Fórmula 1. O Reino Unido tem 6013.28, contra 4163.5 da Alemanha e 2891 do Brasil. Para quem estranhou o número quebrado, ele vem de um caso curioso no GP britânico de 1954, quando, em uma época em que os cronômetros sequer contavam a diferença em décimos, sete pilotos marcaram a volta mais rápida. Como o feito rendia um ponto, a solução foi dar 1/7 de ponto para cada e dois pilotos da casa estavam entre os contemplados.

Longe da ponta, o GP da Índia também trouxe marcas curiosas. Michael Schumacher bateu de forma pouco gloriosa, como retardatário, a marca de Rubens Barrichello de maior número de voltas completadas O brasileiro fez 16.631 giros, enquanto o alemão agora tem 16.644. Entre os pilotos em atividade, o segundo maior número é de Button, com 11.826.

E a “maldição do contrato”, que parece ter assolado Mark Webber por algum tempo após sua renovação, agora ataca em cheio a nova casa de Hamilton, a Mercedes, que não pontuou desde o anúncio de sua mais nova contratação, mesma realidade vivida por Sergio Perez, que ocupará a vaga do inglês.

Mundial de pilotos e construtores em gráficos

Alonso costuma dizer que luta contra Adrian Newey no campeonato. Sua lógica é de que, enquanto o engenheiro não tinha feito a diferença, superava Vettel na tabela. Mas os gráficos mostram outro viés. Comparando o crescimento do alemão com o de Webber, que também foi notório nas últimas provas mesmo com o toque com Grosjean no Japão, percebe-se que é o conjunto Vettel/Red Bull, e não apenas o carro, que vem fazendo a diferença.

São vitórias fáceis, três liderando desde a primeira curva e outra que caiu no colo pelo abandono de Hamilton? Para aproveitar as oportunidades, é preciso fazer um trabalho competente o suficiente para estar no lugar certo quando elas aparecerem. Mesmo com problemas como o que Webber teve no Kers, se tiver uma diferença maior, a exemplo do companheiro, não teria tanto com que se preocupar. Diferentemente do australiano, que se coloca em posição mais vulnerável, principalmente com largadas falhas e ritmo de corrida abaixo do companheiro – pois, em classificação, está conseguindo tirar tanto do carro quanto Vettel – o líder do campeonato aproveita ao máximo o carro que tem em mãos.

Caprichando no discurso

Decisão de campeonato sem joguinhos de palavras não é decisão de campeonato. A Fórmula 1 de hoje em dia pode não ser como o UFC, em que vale até colocar a família no meio e dar ombrada para intimidar o adversário, mas, em um tom um pouco mais sofisticado, Vettel e Alonso mandaram suas mensagens neste final de semana.

A campanha do espanhol é clara: se eu perder o campeonato, não é porque Vettel pilotou melhor. O espanhol, afeito a frases de efeito cuidadosamente escolhidas, pode ter terminado a classificação num quinto lugar, mas tirou a atenção do mal resultado – que mostrou a nova falha da Ferrari em melhorar significativamente seu carro – e ganhou as manchetes do mundo com o “estamos lutando contra Newey, não contra Vettel”, algo que repetiu nas entrevistas em espanhol e inglês.

A resposta do líder do campeonato veio hoje. E foi repetida exaustivamente. “Todos estão trabalhando muito duro e não há apenas um que faça a diferença. Acho que todos juntos, na fábrica e na equipe de corrida, estão fazendo seu melhor.” Assim, não só tira o foco de Newey, como também diz a Alonso de forma implícita que ele, Vettel, também tem grande parcela no sucesso atual da equipe.

Enquanto isso, o espanhol, deita e rola com mais uma performance além do esperado após a classificação. Colocando o foco sobre ele mesmo, mais uma vez esconde a deficiência da Ferrari. “Sempre fazemos a melhor corrida possível e se decidirá ao final do ano se o prêmio foi justo. Não vamos ganhar o mundial porque Vettel terá uma punição, abandonará ou algo do tipo – porque, se acontecer, vão achar que é sorte – mas sim por essas corridas que estamos fazendo agora. É como disse ontem: lutamos com uma espada pequena contra um exército.”

Mas, mesmo que o piloto da Ferrari siga com seu discurso messiânico, Vettel faz questão de salientar que andou tão rápido quanto foi necessário. “Estávamos muito bem no começo e até senti que aguentava mais tempo na pista com os macios. Com os pneus duros, a McLaren e a Ferrari eram muito rápidas, por vezes melhores que nós, então foi importante ter aberto uma vantagem. No final, me dei ao luxo de perder bastante tempo em algumas voltas com retardatários.”

Mas a melhor resposta do piloto da Red Bull seria sobre o rumor acerca de sua transferência para a Ferrari. Conversa, aliás, que some e reaparece nos momentos mais oportunos. “Você nem sempre tem a chance de falar com todos na equipe e essas besteiras da imprensa podem trazer preocupação à fábrica, mas estou 100% com eles e sinto que eles estão 100% comigo. Quero deixar isso claro.”

Dois pilotos tão talentosos, quanto inteligentes – e, como parte do pacote, com um belo ego a ser cultivado. E uma briguinha de palavras que promete durar bem mais que até o próximo nocaute.

Uma hora de tensão pura

“Tinha decidido colocar combustível apenas para uma volta, mas cometi um erro na configuração do carro, que fez com que o equilíbrio de freio estivesse completamente errado. Daí, não tive uma segunda chance por causa do combustível. Então, meu melhor tempo acabou sendo com os pneus usados.”

O relato de Kamui Kobayashi sobre sua classificação para o GP da Índia é prova de quanta coisa pode dar errado naquele que é, talvez junto da largada, o momento de maior tensão em um final de semana de corrida.

São várias as decisões que podem levar uma classificação do céu à terra. A começar pelo momento em que se decide sair dos boxes: em uma sessão como da Índia, por exemplo, em que a pista evoluía a cada minuto, você vai optar por deixar para a última hora ou garantir que não será atrapalhado pelo tráfego? E apostará tudo em uma volta lançada, como fez Kamui, ou dará mais margem no combustível?

A questão do tráfego é sempre importante não apenas na volta em si, como também na hora de aquecer os pneus. Que o diga Mark Webber, que afirmou ter perdido a pole justamente por um trabalho mal feito com os compostos.

E há também as configurações de volante citadas por Koba. Um erro no diferencial, um ponto de freada perdido e lá se vão décimos preciosos, principalmente em um treino no qual 11 pilotos ficaram separados por cerca de 1s no Q2.

Além dos problemas de sempre, a tomada de tempos na Índia teve outro fator complicador: a pista. “Há muitas chicanes e entradas de curva rápidas. Você tem de ser muito preciso. Se você sai um pouco da trajetória, perde tempo. Vimos muitos cometendo erros, do começo ao fim do grid.” De fato, Massa, Hamilton, Vettel, para citar alguns, foram pegos de surpresa pelas armadilhas do veloz sobe e desce indiano.

Um carro equilibrado, claro, sempre ajuda. Porém, com tantos fatores que podem dar errado dentro de uma hora de treino, há de se respeitar quem, corrida sim, corrida também, consegue escapar de cada uma das armadilhas.

Ferrari contra-ataca em território Red Bull

Vai ter déjà vu?

A Ferrari promete o contra-ataque ao domínio da Red Bull justamente em uma pista na qual Vettel teve sua prova mais dominadora ano passado. O GP da Índia tomou ares decisivos para o desenrolar do campeonato mas, pelo menos no papel, não há nada que faça duvidar que a grande fase do alemão deva se estender por mais um final de semana.

Em 2011, na primeira prova disputada no segundo circuito de maior média horária da temporada – muito em função da combinação entre longas retas e curvas de média/alta – Vettel conquistou seu primeiro grand chelem.

Na ocasião, a Pirelli levou seus compostos macios (equivalentes aos atuais médios) e os duros, que apenas Red Bull e McLaren conseguiam colocar na temperatura ideal de funcionamento. Assim, reinou a tática de duas paradas, com o menor tempo possível com os duros. Por isso, mesmo repetindo-se os compostos, espera-se mais equilíbrio e mais variáveis nas estratégias, abrindo, inclusive, a possibilidade de fazer apenas uma parada, uma vez que o pneu duro deixou de dar dor de cabeça. Tudo vai depender do quanto os macios vão aguentar com os carros pesados no início da corrida.

Como a expectativa é de que as temperaturas caiam na parte final da prova e os pneus macios sofrem bolhas quando isso acontece, a expectativa é que os stints finais sejam feitos com pneus duros.

Outro ponto importante é que, como a pista tende a melhorar muito ao longo do final de semana pelo fato de praticamente não ser usada durante o ano e começar a sexta-feira muito suja, os dados dos treinos livres devem ser estudados com cuidado.

São dois os fatores que trabalham a favor da Red Bull. As características do circuito, especialmente nos dois últimos trechos, premiam um carro que gere mais pressão aerodinâmica, e foi isso que o RB8 mostrou após seu grande update de Cingapura.

O DRS duplo também promete ser uma grande vantagem, pois é utilizado por cerca de 62% da volta em classificação. Na corrida, apesar do sistema não dar grande benefício direto, significa que o carro pode ser configurado com maior carga aerodinâmica, o que traz tempos de volta mais baixos quando não se usa o DRS. As equipes que não têm o DRS duplo, por outro lado, são obrigadas a diminuir as asas para não perder muito em classificação.

Ou seja, em condições normais, apostar que o campeonato sai com Vettel à frente por 16 ou, no mínimo, 13 pontos de vantagem é uma boa pedida.

Garantir dinheiro dos pilotos pagantes ou apostar em pontos para o Mundial?

Há pouco tempo, era fácil: o piloto pagante trazia o dinheiro; o “assalariado”, o talento. E as equipes poderiam escolher pelo caminho mais fácil a curto prazo, de ter a grana em caixa e se virar com o Zé Mané, ou apostar no talentoso e tentar financiar-se por meio do dinheiro trazido por mais pontos no campeonato, como vimos no post de ontem, e pela publicidade positiva em ter bons resultados, atrair patrocinadores, etc.

Notadamente após a saída das montadoras, ao final de 2009, o cenário se tornou muito mais complexo. Tanto, que pilotos que não levam patrocínio, como Kamui Kobayashi, viraram raridade no meio do pelotão. Enquanto, nos times de ponta, grandes pilotos atraem grandes patrocinadores, do meio para o final do grid, pilotos com patrocinadores ganham as vagas.

Isso porque as empresas logo perceberam que a melhor forma de vender suas marcas era associando-se a uma jovem promessa e, com isso, automaticamente ganhando espaço de luxo nos carros do meio do pelotão a um preço bem mais acessível.

Assim, nascem fenômenos como Perez e Maldonado. Por mais que o venezuelano tenha mostrado uns parafusos a menos nestas duas primeiras temporadas, é difícil enquadrar um campeão de GP2, vencedor de GP e que colocou a Williams no top 5 no grid por quatro vezes em 2012 na velha definição de pagante braço duro. O mexicano, então, nem se fala. Além de ter arranjado vaga na McLaren, ainda abriu caminho para Gutierrez, que venceu três corridas em sua temporada de estreia na GP2.

Em escala muito menor, Nico Hulkenberg leva seu dinheiro da Dekra, mostrou consistência e, não coincidentemente, é um nome forte no mercado e parece acertado com a Sauber. Os suíços seguiram a nova cartilha à risca: fizeram uma escolha acertada com Perez em 2011, apostando em um menino então com 21 anos e muita grana por trás, gerando condições financeiras de fazer um bom carro em 2012. Com isso, Perez respondeu na pista e fez com que o time ganhasse duplamente, brigando atualmente pelo quinto lugar no campeonato – e por mais dinheiro. Assim, tornou-se o melhor lugar para um piloto de meio de pelotão mostrar serviço, atraiu mais gente talentosa, ganhou poder de barganha. Logo, hoje pode unir dinheiro e talento em sua dupla e seguir em linha ascendente.

Dependendo da situação da equipe, há outra fórmula interessante: quando a distância para os rivais é tão grande que mais vale o dinheiro de um e a experiência de outro – que vai ajudar no desenvolvimento e para cavar as oportunidades que aparecerem. É o que Caterham e Marussia vêm fazendo ao manter os “assalariados” Glock e Kovalainen ao lado de pagantes. E, ao menos por enquanto, Glock deu um baita lucro à equipe com o 12º lugar de Cingapura, que garante, no momento, cerca de US$18 milhões a mais aos cofres do time! Porém, não seria de estranhar que essas equipes apostassem em dois pagantes com certa experiência para dar aporte financeiro a seu crescimento.

O caso da Williams

Endinheirado ou não, apostar em um jovem é sempre um risco, como percebeu a Williams. O time vinha tentando uma estratégia de meio termo, com o talento de Rosberg e o desconto que Nakajima trazia dos motores. Ia de mal a pior financeiramente até que chegou Maldonado com o gordo cheque da PDVSA. Em um ano, a equipe estava no azul, conseguiu organizar-se para fazer um bom carro e, ainda assim, contratou um segundo piloto pagante. Contudo, não há muitos Perez por aí e faltaram os resultados para dar o passo seguinte.

Dá para imaginar que a Williams tem carro para lutar com a Sauber pelo sexto lugar entre os Construtores, ou seja, levando em consideração os números do ano passado, poderiam estar ganhando cerca de US$10 milhões a mais do que pela atual oitava posição. E, acreditem, ainda entram na conta das equipes prejuízos com batidas e na imagem. Calcula-se que Maldonado leve cerca de US$ 30 milhões/ano; Senna, mais US$ 12 milhões. Será que, agora que o dinheiro venezuelano e brasileiro já ajudou o time a sair do buraco, continua valendo a pena?

Tudo indica que eles mesmos se perguntam isso, a julgar pelas recentes declarações do diretor-executivo Toto Wolff, de que “tem de pesar as opções a curto e a longo prazo e às vezes  o que é melhor agora pode não ser o melhor no futuro”. Afinal, uma saída para a Williams seria dar chance ao promissor Valtteri Bottas – que também traz patrocínios, mas não do mesmo nível de Bruno Senna – na tentativa de unir fundos e talento.

O problema é dar um passo maior que a perna, como a Force India descobriu, ao apostar todas as fichas na luta pelo quinto lugar entre os Construtores e ficar devendo no desenvolvimento inicial do carro deste ano. Com uma dupla competente, recuperou-se nesta segunda metade, mas provavelmente não a tempo de reaver o sexto lugar de 2011. Resultado: para 2013, volta a leiloar uma vaga ao lado de Di Resta, ainda mais com os negócios extra-F-1 de Mallya indo de mal a pior.

Quanto vale uma posição no mundial de construtores da F1?


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Começo avisando que não há uma resposta 100% correta para a pergunta de quanto vale uma posição no mundial de equipes da F1. Isso, por dois motivos. Primeiro, o montante que é dividido entre os times vai mudando a cada ano. Segundo, os termos exatos que definem esta divisão são guardados a sete chaves no Pacto da Concórdia, contrato que rege os pilares de como o campeonato da Fórmula 1 é organizado e financiado.

O que se sabe sobre o acordo que foi assinado em 2020 e que vale até o final de 2025 é que as equipes têm direito a 50% do total arrecadado pela Liberty Media, que detém os direitos comerciais da F1. No entanto, se o montante passar de um determinado valor, essa porcentagem cai e esse é o cenário atual: com os ganhos anuais passando dos 3 bilhões de dólares, o percentual estaria em 45%.

Antes da divisão do dinheiro das equipes, as campeãs pegam seus bônus

A Ferrari, por seu valor histórico, ganha uma parcela deste valor que é destinado aos times antes mesmo dessa divisão começar. Os detalhes também não são totalmente conhecidos, mas eles teriam direito a 5% do total se ele estiver em um patamar X, percentual que aumenta dependendo do total – e os 3 bilhões de ganhos anuais teriam acionado essa porcentagem maior.

Essa foi uma grande vitória ferrarista, que conseguiu manter seu bônus independentemente de suas performances na negociação do Pacto da Concórdia de 2020 (que entrou em vigor em 2021). Ele se chama Longest Standing Team Payment (LST). Mercedes, McLaren, Red Bull e Williams também tinham direito a um bônus nos contratos feitos na época de Bernie Ecclestone, mas isso acabou com o primeiro acordo fechado pela Liberty Media. Ou, melhor dizendo, tomou outra forma:

Além do bônus da Ferrari, as equipes que foram campeãs têm direito a um pagamento adicional, que vai aumentando dependendo de quantos campeonatos foram conquistados.

E também há uma fórmula que premia os três primeiros colocados dos últimos 10 anos, que se chama Past Performance Matrix (PPM). Se você foi campeão, você tem 3 pontos por campeonato.

Então pegando como exemplo a Mercedes, entre 2014 e 2023: são oito títulos, um terceiro e um segundo. Portanto, eles somam 27 pontos e, com isso, ganham um bônus maior do que as outras dentro dessa parte da fórmula.

Depois de retirar todos esses bônus por valor histórico ou por performance histórica e dos últimos anos é que começa a divisão com base na posição do campeonato anterior. Estima-se que 20-25% do valor total que é dividido entre as equipes financie apenas os bônus.

Por que só é possível estimar os valores pagos pela posição no mundial de equipes?

Dá para entender por que as quantias que vemos em sites por aí são meras estimativas. Porque não se sabe exatamente quanto exatamente é dividido e nem quanto é destinado a essa parte dos bônus.

E as estimativas não param por aqui. Também não há consenso sobre qual percentual é destinado para cada posição no campeonato de equipes. Acredita-se que a quantia vá diminuindo de 0.89% em 0.89%, começando com 14%.

Ou seja, você pega a quantia que foi destinada às equipes, retira de 20 a 25% daqueles bônus todos e, deste novo montante, vai dividindo da seguinte maneira:

Posição no mundial de equipesPercentual recebido pós-pagamento dos bônus
Campeã14%
13.1%
12.2%
11.3%
10.4%
9.6%
8.7%
7.8%
6.9%
10º6%

Afinal, quanto cada equipe recebe dependendo da posição no campeonato?

Feitas todas as estimativas, os valores atuais (2025) significariam que uma posição no mundial de construtores “custa” cerca de 10 milhões de dólares. Mas sempre lembrando que, entre os grandes – e também Williams e Alpine, que foram campeãs no passado – esse não é o único valor recebido.

E quanto estaria sendo pago para cada posição no campeonato? Considerando apenas esta divisão respeitando a posição no campeonato anterior, os 14% da campeã estaria na casa dos 140 milhões de dólares, enquanto a premiação para a última colocada seria de cerca de 60 milhões de dólares.

São quantias muito significativas se lembrarmos que a F1 opera com um teto de gastos de 135 milhões de dólares por ano, embora a conta seja MUITO mais complexa do que isso.

Atualmente, o teto real é de pouco mais de 150 milhões de dólares, e não inclui vários gastos, como salários dos pilotos e marketing. Na realidade, uma equipe pequena opera na casa dos 200 milhões de dólares. O teto serve mais para controlar o que é investido diretamente na performance do carro.

LEIA TAMBÉM: Tudo sobre o teto de gastos da Fórmula 1

E é bom lembrar também que, com a saúde financeira da F1 atual, com recordes de receita sendo batidos a cada ano, todas as equipes têm de controlar em certa medida os gastos. Mesmo os times pequenos não podem gastar tudo o que têm à disposição para melhorar a performance de seus carros.

O que acontece com a entrada de um 11º time na F1?

Não é por acaso que rolou toda a novela para a entrada da Andretti, que depois virou Cadillac, no grid da Fórmula 1. Ok, houve vários motivos para isso. No final das contas, a Liberty Media queria mesmo ver o comprometimento total de uma gigante norte-americana como a GM, e conseguiu. Mas há uma questão de timing também.

O atual Pacto da Concórdia vale até o final de 2025. E a Cadillac acertou sua entrada no campeonato de 2026, e será, portanto, signatária no novo acordo. A tendência é que as bases financeiras fiquem relativamente estáveis, mas tudo tem que ser adaptado para que a divisão seja entre 11 equipes. Atualmente, a equipe nova teria que pagar 200 milhões de dólares, que seriam divididos entre as rivais para diluir as perdas da entrada de mais um para dividir o bolo.

Mas isso vai mudar. Com equipes médias sendo avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares, esse valor ficou desatualizado. E também há propostas de impedir que a nova equipe faça parte da divisão dos lucros nos primeiros anos.

Fora isso, não é de se imaginar que haja alterações no cálculo da PPM, mas fala-se em limitar em 5% o que a Ferrari pode ganhar dentro do LST, independentemente do tamanho do bolo total dividido.

De qualquer maneira, é um erro comum dizer que cada equipe vai perder 1% do que ganha atualmente com a chegada de uma nova equipe. Dá para perceber que a conta é bem mais complexa – e com números nebulosos – do que isso.

Situação dos motores para as provas finais

Com o campeonato na reta final, começam a aparecer os alarmantes reportes a respeito da alocação de motores para as últimas provas. Afinal, todos já usaram ao menos sete dos oito motores a que têm direito e ainda faltam quatro provas.

À primeira vista, a situação parece apertada, mas há algumas considerações a serem feitas na maneira como as equipes usam esses motores. O mais importante é que não é necessário respeitar a linearidade (diferentemente dos câmbios, por exemplo), nem usar o mesmo motor por todo um final de semana de corrida.

Gráfico do site vivaf1 com dados da FIA

Ou seja, o fato de Lewis Hamilton ter usado o oitavo motor no Japão não quer dizer que o inglês terá apenas esta unidade para as seis etapas finais, pois os motores podem ser trocados aleatoriamente em cada final de semana e, inclusive, entre a sexta-feira e o sábado. Isso, aliás, é de praxe: usa-se um motor em final de vida útil no primeiro dia de treinos livres e outro, mais novo, para o final de semana em si.

Cada motor pode ser utilizado sem problemas por cerca de três GPs – isso, contabilizando apenas os sábados e domingos, em que rodam por menos de 500km. Depois, ficam relegados os treinos livres. A conta não é fixa porque cada circuito exerce um desgaste diferente nos propulsores, o que depende, entre outros fatores, do período total de aceleração e da altitude em que o traçado é localizado, tendo em vista que, quanto mais alto, menor a oxigenação do ar que alimenta o motor. “Sufocado”, ele se desgasta mais rapidamente.

É esse o motivo da maioria das equipes ter estreado dois motores em Spa e Monza, justamente os circuitos mais duros com os propulsores pela combinação entre estes dois fatores. Daqui até o final da temporada, a pior pista sob esse ponto de vista será Interlagos, a cerca de 800m do nível do mar.

Apesar da curta vida útil dos motores, que chegam de 2100 a 2200km, o desgaste não é tão acentuado, sendo de 0s1 a 0s3/volta aos 2000km de uso. Como já foi explicado, nessa fase eles há algum tempo não são utilizados em situação de corrida.

Considerando todos estes fatores, dá para entender por que nem mesmo as duplas de McLaren e Mercedes correm sério risco. Note que as estratégias de ambos os times são diferentes da maioria dos rivais, ou seja, há mais motores que podem ser reutilizados nas próximas provas, enquanto os demais optaram por praticamente esgotar a quilometragem das outras unidades antes de recorrerem ao motor final.

Obviamente, esta expectativa desconsidera quebras que, inclusive, não ocorreram com nenhum Mercedes ou Ferrari neste ano. Quatro Renault (dois Williams e dois Caterham) e dois Cosworth (ambos no carro de Pic que, portanto, teve de recorrer a um nono propulsor) falharam até aqui.

Portanto, considerando uma temporada sem quebras e com oito propulsores para 20 corridas – a grosso modo, um a cada 2,5 GP – a situação não é preocupante.

Outro fator a se notar é que, embora sejam obrigadas a informar à FIA quando usam um motor pela primeira vez, as equipes dificilmente divulgam exatamente qual propulsor está sendo utilizado em determinado GP. Por isso, qualquer previsão de como será a distribuição daqui em diante – por exemplo, afirmar que Vettel estava com o sétimo no Japão e na China e recuperará o quarto para Abu Dhabi – seria puro chutômetro.

O fato é que a situação é muito diferente de 2010, quando os propulsores deram muita dor de cabeça. Focando na luta pelo título, Alonso tem certa vantagem por ter saído na primeira volta em dois circuitos de alta velocidade – Spa e Suzuka. Por outro lado, não há indicativos de que Vettel tenha problemas em mesclar os motores que ainda estão em uso junto do último a que tem direito nas quatro provas finais.

GP da Coreia por brasileiros, espanhóis e britânicos: “Sem criar falsas expectativas”

“Há dois anos, Alonso transformou aqui um déficit de 14 pontos em uma vantagem de 11. Agora, ele está sob risco. Com as duas vitórias de Vettel, há uma tendência se apresentando”, o narrador da BBC Ben Edwards define o cenário do campeonato antes do GP da Coreia.

Com a disputa se afunilando, as questões de sempre da estratégia – todos acreditam que os ponteiros devem fazer duas paradas, mas chamam a atenção para quem vem de trás e larga com os macios, podendo fazer apenas um pit – se misturam com uma dúvida: como a Red Bull vai agir tendo seu principal piloto na luta pelo título largando atrás do companheiro. “É preciso deixar a corrida rolar até a parte final e daí ver o que é melhor para a equipe”, defende Coulthard, mesmo pensamento de Marc Gené, na Atena 3, da Espanha. “Fazer algo na primeira curva é complicado, mas na reta é mais fácil de controlar. Porém, não acredito em nada na primeira volta, porque as diferenças são muito pequenas”. Mas o narrador Antonio Lobato desconfia que não vá demorar tanto: “Não podemos garantir que Webber terá o mesmo cenário depois da largada”, diz, ainda na volta de apresentação.

De fato, o alemão toma a ponta logo na primeira curva, para desconfiança do espanhol. “Vettel já está à frente, mas vem Webber tentando voltar. Não creio, não creio, não creio. Ele só está tampando os que vêm atrás. Até agora, Grosjean se comporta bem e Vettel se vai. Como sabia que isso ia acontecer?”

Na Globo, o narrador Luis Roberto está mais empolgado com Massa. “Vamos lá, Felipe! Que primeira volta de GP!” O comentarista Reginaldo Leme contradiz Lobato. Pelo menos, em termos. “Webber não deu moleza. Tentou de todas as formas segurar a posição, mesmo que fosse trocar de posição depois.”

Para Luciano Burti, “é ótimo para Vettel passar Webber, mas é ainda melhor para Alonso ter superado Hamilton, porque ele seria muito difícil de ultrapassar. Agora pode imprimir o ritmo da Ferrari. Surpreendeu o fato de que quem largou por fora foi bem.” Mas Lobato tem sua explicação: “Na largada, Webber atrapalhou todos os que largavam do lado limpo.”

Coulthard ressalta o “contraste entre aqueles com mais e menos experiência” nas manobras dos seis primeiros e do meio do pelotão, onde Kobayashi fez strike em Button e Rosberg. O inglês chama a manobra do japonês de “idiotice” e o comentariSta considera essa “uma boa maneira de descrever o que acabou de acontecer. Ele veio do nada”. Voltas depois, quando o drive through é confirmado para o piloto da Sauber, o escocês reclama que “parece uma pena pequena quando você tirou dois carros da corrida, mas não há muito o que se possa fazer.”

Preocupados com a diferença de ritmo entre Ferrari e Red Bull, os espanhóis custam a perceber que a bandeira amarela na reta oposta anula o DRS. Mas os brasileiros logo observam. “O resgate não tem muita prática e acabou demorando demais. Várias ultrapassagens deixaram de acontecer porque os carros estavam mais próximos nas primeiras voltas”, lamenta Burti. “O maior prejudicado foi Massa, porque ele estava conseguindo se manter perto de Hamilton, mas agora está a 1s2”, diz Luis Roberto, sem ver que Raikkonen passou todo o período de bandeira amarela bem próximo do brasileiro.

Os espanhóis se resignam com o rendimento da Red Bull, pelo menos na primeira parte da prova. “Com este composto, a Red Bull tem mais rendimento que a Ferrari. A grande questão é saber se, com o pneu duro, as forças mudarão. Não sabemos se a Ferrari pode ser melhor. O que sabemos é que o equilíbrio do carro para ir bem com o supermacio ou o macio é muito diferente”, Gené mantém as esperanças.

Porém, depois de ficar por todo o primeiro stint comparando o ritmo de Alonso em relação a Vettel, Gené tem um golpe de realidade na primeira parada e começa a se preocupar com Hamilton. “A Ferrari tem pouca margem”, avisa, quando o espanhol demora para marcar a parada do inglês. Lobato fica nervoso: “Tem que voar, tem que voar”, repete durante a parada. “Muito no limite! Não estamos preparados para estas emoções.”

Os brasileiros também ‘se emocionam’ demais e lamentam a posição perdida por Massa no box para Hamilton, ainda que o inglês nunca tenha deixado de ser quarto. “A primeira rodada de paradas não funcionou como esperado para a Ferrari”, lamenta Luis Roberto. “A explicação é que o tempo de parada de Massa foi muito pior”, emenda Reginaldo. Aparentemente avisada pela produção, a dupla volta atrás. “Explicando: depois da parada, Felipe não conseguiu superar Hamilton”, diz o narrador.

A dificuldade de Perez em se manter na trajetória quando encontra Alonso e Hamilton saindo dos pits com pneus novos mostra para Burti e Coulthard que a tentativa de fazer uma parada não está dando certo mas, para Luis Roberto, o mexicano “abriu para o Hamilton passar.”

Na volta 21, Gené percebe que imaginar que Alonso possa pressionar Vettel é querer demais. “Ele tem que pensar na segunda colocação e em perder menos pontos.” Enquanto isso, a briga é entre Massa e Hamilton. “Lewis não defendeu muito, mas não tem o que fazer quando o outro é 15km/k mais rápido na reta”, diz Coulthard quando brasileiro supera o inglês, que tem graining, segundo o engenheiro da Ferrari, Rob Smedley. Já os britânicos acham que o inglês tem borracha presa na asa dianteira, prejudicando sua performance. Porém, quando Hamilton recebe a mensagem de que tem um problema mecânico que afeta o equilíbrio, Gené mata de primeira. “Pode ser com a barra estabilizadora.”

Mas a suspeita inicial de Smedley abre uma gama de possibilidades para os espanhóis, que veem graining nos pneus de Webber, pois Alonso está se aproximando. “O que o telespectador está se perguntando agora é ‘por que isso não acontece com Vettel?’”, questiona Lobato. “Pode ser acerto ou estilo”, responde Gené.

Ainda que destaquem a “grandíssima” e “surpreendente” corrida de Massa, os espanhóis dão atenção à perseguição de Alonso a Webber e ignoram os tempos do brasileiro, que ganha destaque na Globo. “O grande passo que Felipe deu foi no ritmo de corrida. Fizeram alguma coisa com o certo porque esse era o principal problema no início do ano”, diz Burti. “Dizem que ele vai anunciar que fica na Ferrari em pouco tempo, mas isso nos faz imaginar se ele não melhoraria sua performance se as conversas tivessem bem encaminhadas antes”, acredita Coulthard.

A pausa no “caso Massa” se dá pela luta de Hamilton para ficar à frente de Raikkonen, mesmo muito mais lento. “É o tipo de piloto que agrada todo mundo. Menos o chefe dele porque ele apronta as suas”, opina Reginaldo. “Lewis é um racer. Ano passado, conseguiu se defender de Webber pela segunda posição, e agora luta pela quinta”, lembra Edwards, enquanto Coulthard vê falta de agressividade em Kimi. “Ele está muito bem em seu retorno, mas é verdade que ele tem sido muito cuidadoso em suas disputas. Fico imaginando o que seria se arriscasse mais, como no Bahrein, quando poderia ter vencido.”

Hamilton tem de parar novamente e os espanhóis riem da mensagem de seu engenheiro, que lhe diz que está mais rápido que Ricciardo. “Você está lutando pelo mundial e te dizem que está mais rápido que Ricciardo. Ele deve pensar ‘mas… Ricciardo’?”, se diverte Lobato.

Na luta da ponta, o foco não sai do minucioso acompanhamento da diferença entre Alonso e Webber. “A Red Bull parou Webber para se defender de Fernando. O que ele poderia fazer é ficar mais tempo na pista para apostar que terá pneus mais novos no final. A Ferrari tem de torcer para que a Red Bull tenha errado e entrado no box cedo demais”, avalia Gené. É isso que o bicampeão faz.

Porém, ao invés de se aproximar de Webber após a segunda parada, Alonso cada vez tem Massa mais por perto. “Não apareceu na TV, mas vimos que Alonso perdeu muito tempo com a Caterham no terceiro setor”, justifica Coulthard, em volta na qual o espanhol foi 1s5 mais lento que o brasileiro. “O Massa mais rápido não é algo que vemos com frequência, mas não acho que a Ferrari vai permitir essa ultrapassagem, a não ser que Fernando tenha um problema. Eles precisam economizar pneus, é uma prova longa;”

O escocês chega a supor que talvez seja uma boa ideia para a Ferrari que Massa passe Alonso. “Ele está perguntando sobre os tempos de Webber, talvez mandando a mensagem de que poderia atacá-lo. Ele não está longe, então não seria uma tática ruim o Alonso deixá-lo passar para ver se conseguiria lutar com Webber, porque eles poderiam reverter na última volta sem problemas.”

No entanto, isso nem passa pela cabeça dos espanhóis. Quando Smedley diz a Felipe que “está um pouco perto demais de Fernando”, comentário que causa risos dos britânicos, Lobato afirma que “é uma conversa que serviu para explicar bem as coisas”. Para Gené, “pediram para ele dar espaço, primeiro porque se tentar uma ultrapassagem corre o risco de bater e segundo porque seguir um carro tão próximo causa mais degradação.”

Há certo desconforto entre os espanhóis quando Alonso está envolvido em qualquer episódio de favorecimento dentro da equipe, portanto, após uma das inúmeras paradas para publicidade, o narrador Lobato trata de explicar a situação. “Estávamos conversando durante o comercial que Massa não poderia passar Fernando, que está lutando pelo mundial. As ordens de equipe existem e é a mesma situação que ocorreu com Webber e Vettel na primeira volta. Afinal, é uma questão de sair daqui líder do mundial ou não.”

Os brasileiros tratam de evitar “falsas expectativas”, como define Luis Roberto. “O jogo de equipe faz parte. Alonso está disputando o campeonato.” Reginaldo ressalta que “está claro que Felipe chega quando quer no Alonso. Ultrapassaria se fosse permitido. É talvez sua melhor corrida dos últimos dois anos.”

Burti destaca que o próprio Alonso deve estar se surpreendendo com sua falta de ritmo. “Quando se viu em terceiro, talvez imaginasse que conseguiria passar Webber.” Os espanhóis, contudo, têm uma explicação. “Dá a sensação de que Fernando tem problemas de graining”, diz Lobato. “Dá para ver isso claramente nas imagens. E é muito. Os pneus não estão funcionando bem nesta temperatura”, atesta Gené. Nesse caso, como diz Jacobo Vega, “o bom para Fernando é que Massa está atrás.”

Quando Hamilton arranca um pedaço da grama artificial, Luis Roberto pede que as áreas de escape sejam de asfalto, enquanto Burti pondera que “isso existe em todos os circuitos e não costuma haver problema, é só essa que não está bem presa.” Gené lembra que havia falado “com o Charlie Whiting e ele me disse que, se isso acontecesse, ia colocar o SafetyCar”. Mas, depois de alguma consideração, Lobato acha que é melhor que nada ocorra. “Acho que está difícil de qualquer jeito”, o narrador se rende.

Luis Roberto e Lobato tentam dar emoção à corrida no final, com as mensagens ameaçadoras do engenheiro de Vettel, Guillaume Rocquelin, o Rocky. Gené não se impressiona com o tom de preocupação, pois acredita que “isso está ocorrendo com todos”, mas ele e Lobato se divertem com o tom da conversa. “Ele falando que pode acontecer qualquer coisa é como se dissesse ‘cara, você não apenas vai perder o campeonato, pode acontecer um acidente horrível’”. O comentarista diz que “Vettel deve estar com medo porque nunca vi um engenheiro repetindo tantas vezes a mesma coisa.”

Mas não há nada que Rocky dissesse que diminuísse o ritmo de Vettel atrás de sua terceira vitória seguida e da liderança do Mundial. “É a segunda vez que a Red Bull coloca os dois pilotos no pódio, mas Alonso continua lá. Pode ter perdido a liderança, mas a Ferrari não vai desistir deste título”, diz Edwards, que não se surpreende com a vitória dominadora do alemão em Yeongam. “Só há umas 12 voltas que não liderou em três corridas aqui. Não fosse pela quebra de 2010, teria vencido as três provas.”

Coulthard concorda, dizendo que “não há dúvidas de que este menino é especial”, mas sente por Webber, que “deve estar frustrado por, novamente, não ter convertido uma boa classificação em vitória após uma largada ruim.”

Reginaldo, em meio aos destaques para Massa, que “fez a segunda melhor volta, foi consistentemente melhor e provou que poderia fazer outro pódio”, chama a atenção para a semelhança desta final de campeonato com 2010, “mas agora Vettel tem a experiência de dois títulos”, enquanto Burti destaca Newey como o maior vencedor da Coreia. “Concordo com Alonso: será a corrida da Índia que vai definir. Se as atualizações da Ferrari não forem suficientes, será muito difícil.”

Gené segue nessa linha. “O único lado bom é que são duas semanas até a próxima corrida e veremos se vamos conseguir produzir um pequeno milagre. Essa diferença com Fernando não é real. Ele tinha margem. Tiveram mais do que três décimos hoje e esse é um circuito diferente de Suzuka. Uma pena é que o resultado do Japão não é justo, porque era para Fernando ter sido segundo”, diz o comentarista, enquanto Lobato trata de valorizar seu piloto. “Fernando deu o máximo. E quando é ele quem dá o máximo há pouco o que dizer. Vitória para a Red Bull, que fez bem o dever de casa e melhorou o carro. Fernando tem de estar preocupado porque a Ferrari não reage. Ele já não pode dar mais.”

Mesmo destacando a melhora do ritmo da Ferrari em relação à McLaren, Edwards não pode deixar de concordar com o domínio da Red Bull – e usa uma expressão um tanto estranha para definir o momento positivo de Vettel. “O assassino sorridente ataca novamente, depois de ter dado um duro golpe na liderança de Alonso em Suzuka, ele passa à frente e a possibilidade de seu terceiro título seguido é cada vez mais realista.”

Estratégia do GP da Coreia: de olho no dianteiro direito

Em plena 16ª etapa, as equipes largaram sem a certeza de quanto os pneus durariam. Porém, ao contrário da primeira metade, quando os ponteiros preferiam parar mais vezes a arriscar ver o “penhasco” (termo usado para designar quando a borracha acaba totalmente e os tempos de volta vão às alturas), hoje se tem maior controle e os carros e pilotos estão mais adaptados aos pneus, fazendo com que as estratégias se tornem mais previsíveis.

Desta vez, estavam todos de olho na parte interna do dianteiro direito, aquele que sofre a maior carga em Yeongam. Porém, as primeiras paradas na volta 13 e a expectativa de que o pneu macio duraria cerca de 24 voltas, foram boas notícias.

Isso, no entanto, não fez com que os pilotos pudessem relaxar. Tudo bem que os repetidos alertas que Vettel recebeu no final mais pareceram uma forma de evitar que o alemão corresse riscos desnecessários para buscar mais uma volta mais rápida, mas a prova inteira foi marcada por um ritmo determinado via box a fim de garantir que o pneu chegaria até o final.

Na luta pela vitória, Vettel chegou mais inteiro ao final de cada stint e construiu sua vantagem para Webber, que também perdia em relação a Alonso, mas não o suficiente para se sentir ameaçado.

Na Ferrari, a justificativa de Alonso para ter um ritmo pior que Massa no terceiro stint foi a economia de pneus, na tentativa de chegar em Webber no final. De fato, quando o brasileiro recebeu a mensagem que de “agora Fernando começou a forçar”, na volta 46, a tendência anterior se inverteu, mas inegavelmente Felipe guiou a Ferrari mais rápida do dia.

Lotus travada

Algo curioso ocorreu com a Lotus. Há algumas etapas, Raikkonen vem reclamando que tem dificuldade em ultrapassar com esse carro e, na Coreia, isso se mostrou decisivo, tanto para ele, quanto para Grosjean. Kimi andou perto de Massa no primeiro stint, mas, ao retornar do pit atrás de Perez, demorou a passá-lo, permitindo que o brasileiro abrisse 2s5. Depois, perdeu mais 6s5 com Hamilton ainda que, a essa altura, o inglês já tivesse problemas de suspensão. Sem ritmo, ainda teve de se preocupar com Hulkenberg no final.

O alemão havia superado a outra Lotus após uma luta que durou praticamente todo o GP. Hulk ultrapassou o cuidadoso Grosjean na largada que, mesmo mostrando mais ritmo, não conseguiu dar o troco no primeiro stint – e a equipe não ajudou ao pará-lo na mesma volta do alemão. O francês permaneceu colado na caixa de câmbio da Force India até logo depois da segunda parada, quando – aí sim – parou uma volta antes de conseguiu o undercut, mas Hulkenberg lhe daria o troco, na pista.

Toro Rosso brilha

No meio do pelotão, a Toro Rosso pontuou com ambos os carros mesmo largando em 16º (Vergne) e 21º (Ricciardo) com uma estratégia que, surpreendentemente, tem sido mais rara nesta era Pirelli. Normalmente, quando vemos um piloto que vem de fora do top 10 para pontuar, é porque, largando com os pneus mais duros disponíveis, consegue fazer uma parada a menos que aqueles que, por força da regra, já começam com os macios desgastados.

Mas isso não funciona em provas como a da Coreia, em que os pilotos que tentaram fazer uma parada ou perderam muito tempo (Maldonado) ou desistiram no meio do caminho (Perez e Di Resta), pois o desgaste era muito acentuado.

As táticas, em si, foram diferentes – Ricciardo largou com os supermacios e Vergne, os usou na última parte da prova – mas o lucro da Toro Rosso foi usar a aderência e durabilidade maiores dos pneus não utilizados por seus pilotos na classificação. Além disso, adotaram um acerto de baixa pressão aerodinâmica, facilitando as ultrapassagens.

E pensar que tudo parecia perdido para o francês, que perdeu tempo atrás de Maldonado no início, lutou contra uma ordem de equipe (quando ouviu que estava atrapalhando a estratégia do companheiro, se negou a entregar a posição e foi para cima do venezuelano para mostrar que poderia ser mais rápido) e levou os pneus macios apenas até a volta 13. Porém, no segundo stint, Vergne fez ultrapassagens importantes em cima de Perez e Di Resta e conseguiu fazer os pneus durarem por 25 voltas. Nessa altura, estava em décimo e lucrou com os problemas de Hamilton e do próprio Ricciardo para ser oitavo.

Corrida para esquecer da Williams

Bruno Senna perdeu muito do terreno que ganhou na largada ao ser ultrapassado pelas Toro Rosso ainda no primeiro stint, quando relatou problemas de inconsistência com sua asa dianteira. A falha fazia com que o consumo de seus pneus fosse maior, algo que se repetiu no final do segundo stint, quando já era o último do pelotão descontando as nanicas. Após a segunda parada, tirou em 3 voltas os 5s de desvantagem para Maldonado, que errara ao apostar em uma parada, mas amargou quase 20 voltas atrás do companheiro bem mais lento, sem que a equipe interferisse. A quase 20s da zona de pontuação, no entanto, isso não mudou muito seu resultado em um final de semana em que a Williams não andou bem em condição alguma.

Casados, pelo bem das crianças

É curiosa a forma como a Ferrari tratou a renovação de Felipe Massa. Geralmente, vemos textos de piloto enaltecendo a equipe e vice-versa. E isso vale até para um novo recruta da HRT. Mas o release dos italianos tinha um quê de ‘ok, te demos outra chance, agora o débito é seu’: “Sempre apoiamos Felipe, mesmo nos momentos mais difíceis de sua carreira e sabemos de seu valor. Temos certeza de que ele saberá pagar a confiança que essa renovação prova que temos nele”, foram as palavras creditadas a Stefano Domenicali.

Não dá para discordar da posição da Ferrari, pelos motivos que apontei após o pódio de Suzuka. Se é bem verdade que Massa cresceu nas últimas provas, isso não parece mudar sua posição de barganha dentro da equipe. A Ferrari reconhece a evolução, sabe do que Felipe é capaz tendo em vista seu desempenho em anos anteriores e valoriza ter alguém que, como eles costumam dizer, “compreende que o time está acima de tudo”. Se isso vale ou não para o outro lado do box ou se é justo que seja assim de antemão, é outra história.

No entanto, palavras como as de Domenicali comprovam que a decisão foi tomada mais por falta de opção, o que ocorre não por uma seca de talento no grid, mas pela dificuldade em encontrar um piloto com o perfil para essa vaga ao mesmo tempo atrativa por ser em uma equipe de ponta e desprezada por toda a politicagem que a cerca.

Mesmo que seja na mesma equipe em que o vento não lhe sopra a favor desde a chegada de Alonso, não deixa de ser uma nova chance para Massa. Algo que ele acredita ser sua melhor opção. Quando embalado e confiante, o brasileiro parece se transformar, porém, uma série de circunstâncias nunca voltará ser a mesma de 2007-08. O casamento passou pela crise dos sete anos, enfim, mas já não é o mesmo.

GP da Coreia em números: Vettel/Red Bull x Clark/Lotus e as chances perdidas de Webber

Jim Clark e Niki Lauda. Com a terceira vitória seguida e a 25ª da carreira, Sebastian Vettel está em ótima companhia na lista dos maiores de todos os tempos. A comparação com o escocês é particularmente interessante: são 72 largadas para Clark na Lotus, com 25 vitórias e 35 pódios, enquanto o alemão tem 24 triunfos e 42 pódios em 71 GPs pela Red Bull.

Nesse ritmo, por que não pensar que o finger boy pode superar seu ídolo, Michael Schumacher? As médias, por enquanto, estão boas: as 91 vitórias ainda estão longe, mas Schumi demorou 92 provas para atingir as 25 que Vettel tem agora, com 97 largadas. O outro piloto que superou o número no atual grid, Fernando Alonso, demorou 154 provas para fazê-lo.

A última sequência de triunfos de Seb tem sido com estilo. Após o abandono de Lewis Hamilton em Cingapura, são 145 voltas em sequência na liderança. A marca ainda está longe, contudo, do recorde de Alberto Ascari: 305 voltas em primeiro somando cinco GPs em 1952. Permanecendo na ponta nas próximas duas corridas e nas 46 iniciais do GP dos Estados Unidos, Vettel bate a marca.

As palavras Vettel e liderança, aliás, costumam estar na mesma frase de Coreia. O piloto da Red Bull esteve na ponta em 153 das 165 voltas disputadas no circuito de Yeongam.

Mais uma pole jogada fora por Webber

Na primeira dobradinha da temporada, o dono da 200ª pole position de um motor Renault (segunda maior marca da história, atrás da Ferrari, com 208), Mark Webber, aumentou sua porcentagem de largadas em primeiro lugar que não são convertidas em vitórias. Foram sete, 64% das poles conquistadas. Apenas Kovalainen e Hulkenberg (100% ao perderem sua única chance de vencer largando em primeiro) têm porcentagem maior no grid atual.

Apesar de ser normal vermos Vettel dominar as corridas saindo da ponta (o alemão nunca venceu largando abaixo do terceiro lugar e conquistou 23 das 25 vitórias saindo da primeira fila), quem tem o melhor aproveitamento de poles no grid é Fernando Alonso, com 36% desperdiçadas. Porém, o espanhol tem 22 poles, contra 34 do alemão.

A nova falha de Webber na largada fez com que o GP da Coreia tivesse o quarto pódio exatamente igual, com Vettel, o australiano e Alonso, algo que iguala outros três trios como as combinações que mais se repetiram em determinada ordem: Ayrton Senna, Alain Prost, Thierry Boutsen; Mika Hakkinen, David Coulthard, Michael Schumacher; Michael Schumacher, David Coulthard, Rubens Barrichello.

Este, também, foi o décimo pódio com os mesmos personagens, independentemente das posições. E, claro, ainda esperamos que uma corrida termine com troféus para Vettel, Alonso e Hamilton. Será que a mudança do inglês para a Mercedes vai fazer disso um tabu?

Mundial de pilotos e construtores em gráficos

A McLaren certamente terá de rever muita coisa ao final desta temporada. E, isso, mesmo que consiga virar contra a Ferrari e terminar pelo terceiro ano seguido com o vice de construtores, título que não conquista há mais de 10 anos. Um panorama complexo explica o cenário atual da equipe, que teve por duas vezes na temporada – no início e entre Hungria e Cingapura – o melhor carro: erros de acerto, estratégias engessadas, pit stops inconsistentes e vários apagões no desenvolvimento fazem com que arrumar a casa para o ano que vem não seja missão das mais simples.

É diferente, por exemplo, da realidade da Ferrari, que vem passando por uma profunda reestruturação nos últimos três anos, sob a batuta do ex-McLaren Pat Fry. Tanto, que a atuação da equipe durante os finais de semana está no nível de excelência atingido pela Red Bull nos últimos três anos. O problema, agora, é concentrado nos equipamentos para mensurar novas peças, algo que também parece afetar a Lotus.

No Mundial de Pilotos, Vettel aparece como uma flecha, usando com maestria sua capacidade de facilitar sua vida aos sábados, enquanto Raikkonen continua impressionando com sua consistência. Outro que cresceu muito é Massa, provavelmente fazendo até mais do que a Ferrari esperaria neste final de semana. Hulkenberg também aparece bem na hora certa: a exemplo do que ocorreu em seu ano de estreia, em 2010, cresceu junto da Force India na metade final do campeonato.

Mais uma batida na 1ª volta. Mais uma bronca

Mais uma corrida acaba com um piloto soltando os cachorros. Desta vez, Jenson Button não apenas criticou Kamui Kobayashi por tê-lo tirado da prova na Coreia, como também aquele que será seu companheiro ano que vem, Sergio Perez. E o inglês, obviamente falando no calor do momento, pegou pesado: “Tem caras que acham que a corrida termina em dois quilômetros. É uma pilotagem fraca para quem está no topo do automobilismo.”


É a mesma bronca de Mark Webber, há uma semana, no Japão, afirmando que Romain Grosjean “está tentando chegar à terceira curva o mais rápido que pode enquanto o resto de nós luta por resultados decentes a cada final de semana.”

Não é de hoje que tem se criando uma ideia de que os pilotos jovens, que vêm da GP2, tendem a ser mais afoitos e a cometer erros bobos, prejudicando a corrida dos demais. Após ser tirado pelo mesmo Grosjean da corrida da Bélgica, Alonso criticou “a cultura da GP2. Vimos acidentes fortes na GP2 e na GP3 e todos os meninos que estão chegando destas categorias têm essa tendência.”

Na ocasião, a opinião do espanhol foi apoiada até por quem veio recentemente da categoria, como Perez, vice-campeão de 2010. “Não sei se é porque não estou mais dentro da corrida, mas não lembro de serem tão loucas e perigosas antes. Eles vão no limite, pilotam como se estivessem em karts.”

Pilotos que estrearam nas últimas temporadas na F-1, com ou sem passagem pela GP2, Bruno Senna e Daniel Ricciardo veem o outro lado da moeda. “Quando você está na GP2, que é o último palco antes da F-1, às vezes você exagera porque tem que se provar”, lembra o brasileiro, enquanto o australiano salienta que essa necessidade continua nos primeiros GPs na F-1 porque “você não tem muitas provas para se firmar.” Ainda que a pressão não dê o direito de ninguém tirar outro piloto da pista, não deixa de ser um ponto de vista a ser considerado, principalmente dentro de uma realidade com poucos testes e muita coisa para os novatos lidarem durante o final de semana de corrida.

Mas será este um problema novo? E mais, será que um piloto que comete muitos erros no início da carreira pode ser imediatamente classificado de barbeiro?

Pilotos arrojados têm histórico de erros no início da carreira. Foi assim com campeões como Senna, Schumacher, Hakkinen e Sebastian Vettel, chamado há dois anos de ‘crash kid’ por Martin Whitmarsh. O próprio Felipe Massa chegou a ser dispensado da Sauber justamente por sua agressividade exacerbada.

Há exageros nas categorias de base? Sempre houve, afinal, elas existem para treinar, também, limites. Claro que há alguns casos irrecuperáveis, outros cujo desenvolvimento é demasiadamente lento mas, antes de crucificar seus meninos, os pilotos deveriam lembrar que há uma diferença, por vezes difícil de enxergar, entre falta de qualidade e falta de experiência.