Turistando off-season: Giro pela ex-União Soviética

Conseguir um voo decente para Baku é sempre um drama. Como não é tão longe assim da Europa, mas está algumas horas de fusos para trás, os horários nunca são dos melhores para a chegada – tem um concorrido voo da Turkish que pousa às 22h, mas a maioria chega no meio da madrugada. No caminho de volta, a maioria prefere sair na madrugada de domingo para segunda mesmo – nada contra a cidade em si, sinto que o mundo da F1 aprendeu a gostar de Baku depois do preconceito inicial, mas a temporada já começa com uma quantidade bem razoável de viagens e dias fora de casa.

Mas quando eu vi que o voo mais barato era da Ukrainian Airlines (sim, a mesma companhia do voo que caiu no Irã, inclusive numa época em que eu deveria estar por lá, mas essa é outra história), enxerguei ali uma oportunidade: e se eu ficasse na Ucrânia depois de Baku? Mais do que isso: não sei se contei por aqui mas durante um trajeto de van entre duas cidades na Macedônia do Norte surgiu a resolução de ir para todos os países da Europa até o final de 2020 (muito provavelmente vai ficar para 2021, e eu culpo o calendário da F-1, mas seguimos forte na meta!). E, passando primeiro por Kiev, poderia aproveitar e visitar Belarus e Lituânia, e pegar um voo barato de volta a Londres desde Vilnius.

Depois de me empolgar ao assistir Winter on Fire (documentário que está no Netflix) no voo, fundamental para entender a história recente da Ucrânia, peguei uma Kiev vazia por conta do feriado da páscoa ortodoxa. A cidade e a comida me lembraram muito Moscou, mas com os olhos voltados para o ocidente. E muitas cores, talvez para compensar o cinza do céu. 

Há quem chame de turismo macabro. Mas também é preciso conhecer o que deu errado

Não poderia deixar de ir até Chernobyl – e sim, essa viagem foi antes da série da HBO que fez os tours explodirem por lá. As casas abandonadas parecem montadas para aparecer no Instagram, fato, mas entrar na usina, comer com os funcionários e chegar perto do reator sobre o qual tanto ouvi falar na minha infância foi uma experiência mais marcante do que esperava que fosse. Mas o melhor momento foi ver de perto o radar Duga, que os soviéticos esconderam por tanto tempo dos americanos. Impressionante como a guerra fria fomentou a criatividade dos cientistas.

Segui voando para Minsk, a capital de Belarus. Lembra que falei em uma Moscou (hoje uma cidade muito moderna, e uma das minhas metrópoles prediletas desse mundão) querendo ser ainda mais ocidental quando estava em Kiev? Minsk, por outro lado, foi uma volta no tempo. Estátuas de Lênin para todo lado, tudo muito limpo, funcional e grandioso. Ah, tinha vários prédios de Art Deco pelo menos para mudar um pouco o tom soviético. Mas que tudo parecia parado no tempo, isso sim.

Visitei alguns castelos no interior de Belarus (infelizmente, não tinha tempo suficiente para ir para Brest, palco de um famoso combate na Segunda Guerra, e também uma cidade mais tradicional do que a capital escolhida pela URSS), lotados de armamentos desde a era medieval – o país sempre foi marcado pelos conflitos – e fui de ônibus para Vilnius, a capital da Lituânia.

Geralmente, as pessoas fazem um roteiro dos países bálticos – Lituânia, Letônia e Estônia. Mas eles só começaram a ser “agrupados” assim depois da dissolução da URSS. Não existe uma identidade cultural entre eles, especialmente a Lituânia. Então, totalmente na sorte, acabei fazendo quase o certo: Finlândia, Estônia e Letônia em uma tacada, e Lituânia e Belarus na outra. Só seria perfeito se tivesse incluído a Polônia, cuja história se mistura com a dos lituanos, na segunda “tacada”.

Vilnius ficou famosa por uma campanha publicitária para conquistar mais turistas europeus que comparava a cidade ao Ponto G: “Ninguém sabe onde é, mas quando você encontra, é incrível”. E desde então entrou no mapa. É daquelas cidades antigas europeias que têm um ar jovem de certa forma. Rodeada de arte urbana – os brasileiros Os Gêmeos inclusive deixaram sua marca por lá – bem mais sossegada do que outras capitais europeias e pouco pretensiosa, Vilnius parece mesmo ter menos cicatrizes da época em que fazia parte do Bloco Socialista – digo culturalmente, não economicamente – que suas vizinhas (a Letônia me pareceu ainda não ter se desgarrado da “mãe Rússia”, enquanto a Estônia é a filha rebelde que saiu de casa e não olhou para trás, mas guarda ressentimentos).

Pertinho de Vilnius está o castelo de Trakai, construído antes mesmo de o Brasil ser “descoberto”. Um cenário que parece de filme e cuja visita vale a pena.

Tive tempo ainda de ir para outro “país”: a república de Uzupis, que fica dentro mesmo de Vilnius e tem sua própria constituição e “governo”, cuja sede é um… bar. No dia 1 de abril, a água do chafariz central vira cerveja. Fica a dica.

Carros separados por centésimos: por que não no grid todo?

Quem acompanha os textos da sessão Nostalgia no blog já percebeu que não é de hoje que se reclama do nível de competitividade da Fórmula 1. O pessoal dos anos 70 sonhava em voltar aos 60, os dos 80 tinham saudades dos 70, e por aí vai. Mas isso não quer dizer que não haja o que melhorar. Sim, politicamente será sempre difícil tirar os privilégios de quem os têm, e todas as vezes que alguém tentou fazer isso, os grandes ameaçaram ir embora. E a F-1 está vivendo outro momento como este, com o Pacto da Concórdia ainda não finalizado para 2021.

Na pista, temos hoje uma situação muito interessante: há alguns anos, o que se costuma chamar de F1B se firmou como um campeonato extremamente imprevisível. Não faz muito tempo que a categoria tinha o pelotão da frente, o meio do pelotão e o fundão. Depois que Marussia, Caterham e HRT morreram na praia, e a Haas entrou com um modelo de negócio mais sustentável para uma equipe nova, formou-se um grupo homogêneo, em que as diferenças são ínfimas (excluindo a Williams, que está chegando) e no qual há, por conta disso, muita variação na relação de forças dependendo do circuito.

A transmissão oficial parece não ter se atentado a isso: grandes disputas estão acontecendo na tal F1B e acabamos não vendo, com as câmeras focando nos 0s03 que Leclerc tirou de Bottas na última volta, por exemplo. E isso fomenta a ideia de que a F1 não é competitiva.

Mas se há igualdade para sete das dez equipes do grid – com a McLaren tentando desgarrar-se desse grupo – por que ela não pode se espalhar para o restante?

A resposta óbvia é dinheiro. Enquanto o orçamento de Ferrari e Mercedes está na casa dos 400 milhões de dólares, dificilmente um time da F1B passa dos 200 – as exceções são McLaren e Renault, mas ainda assim eles não superam os 250 milhões. É por isso que a Liberty lutou tanto para implementar o teto orçamentário em 2021 – mas há quem duvide que, mesmo com o máximo estipulado em 175 milhões de dólares (excluindo pilotos, principais funcionários e marketing) seja algo totalmente controlável, especialmente para quem, justamente como Mercedes e Ferrari, fabrica os próprios motores.

Outro caminho tentado pela Liberty foi a padronização de peças cujo desenvolvimento é caro, mas não traz tanta diferença de performance. Mas os times barraram muitas dessas padronizações, segundo eles, para proteger o “DNA do esporte”. 

Um fator importante para a divisão entre F1A e F1B é a diferença nos motores. O regulamento prevê que as montadoras ofereçam o mesmo produto que usam para seus clientes, mas eles podem muito bem cobrar mais pelo upgrade. Além disso, se você é um cliente e está pagando caríssimo pelas unidades de potência, vai pensar duas vezes antes de usar toda a potência disponível e correr o risco de quebrar.

Mas o que o dinheiro compra na F-1 e torna as equipes ricas tão superiores? Primeiramente, profissionais mais gabaritados e numerosos, e que podem errar mais. Explico: com mais recursos, é possível experimentar mais na hora de projetar peças, já que o quadro de funcionários é muito mais robusto e o orçamento, maior. 

As ferramentas de simulação, fundamentais na última década, também tendem a ser melhores para quem pode investir mais, e isso economiza tempo de trabalho e dinheiro. E até as peças podem ser mais novas: lembro de Felipe Nasr contar como os cobertores de pneus e ferramentas de pit stop da Sauber eram os mesmos usados há 10 anos quando ele estava por lá – o time, inclusive, acabou de ganhar seu primeiro simulador! E ano passado a Racing Point se viu forçada a continuar usando muita coisa do carro de 2018 pelo “apagão” de recursos que teve no meio da temporada.

É também por todos esses motivos que dinheiro per se não resolve tudo. A própria Mercedes teve que abrir os cofres para começar a ganhar, e só conseguiu porque acertou a mão no motor em 2014 (ainda que os motivos para isso sejam um tanto sombrios). Também por motivos sombrios, a Honda acertou a mão na outra mudança de regulamento, em 2009, mas não ficou para ver o baile. Para ver a brecha que os outros não enxergam, é preciso bons engenheiros e boas ferramentas de simulação, ou seja, de muito investimento ao longo de anos.

É por isso que tenho lá minhas dúvidas sobre a eficiência teto orçamentário a médio prazo. É sem qualquer teto que as equipes projetarão os carros de 2021, e não é difícil imaginar quem tem mais chance de encontrar o caminho das pedras.

Uma temporada diferente na F-1

Se há uma aposta que já dá para fazer mesmo antes dos carros serem lançados é que se falará muito de 2021 nesta temporada da F1. Desde quando será a hora de colocar a maior parte dos recursos no carro do próximo ano até a movimentação do mercado de pilotos. Nada disso é por acaso: ano que vem a categoria vai enfrentar um desafio completamente novo, com uma grande mudança de regulamento acompanhada de um teto orçamentário.

Tal teto é oficialmente de 175 milhões de dólares, mas com algumas exclusões, como marketing e os principais salários (pilotos + os três mais altos), e por isso estima-se que os times grandes vão gastar pelo menos 250 milhões, caso o teto realmente funcione (sim, porque há quem defenda duas teorias distintas: uma de que é fácil, especialmente para quem também faz o motor em casa, jogar despesas de um lado para o outro; e outra dando conta de que, se a punição não for duríssima, os times vão continuar gastando da mesma maneira).

Mas vamos supor que o tal teto orçamentário realmente funcione: times como Mercedes e Ferrari vão ter que diminuir seus gastos em 20% pelo menos. A Red Bull, um pouco menos. E para o restante, pouco muda.

Voltando um pouco no tempo, em 2014 a Ferrari não se preparou como deveria para a mudança de regras (como, aliás, já havia acontecido em 2009). Nos anos seguintes, gastou os tubos para finalmente chegar no motor da Mercedes, em 2017. Isso não será mais possível com o teto orçamentário.

É com isso em mente que os times já começaram o projeto do carro de 2021 há tempos. Eles costumam organizar os engenheiros em times diferentes (um fica com o carro atual, e o outro com o novo) e, aos poucos, a porcentagem que trabalha no projeto futuro vai ficando maior.

É essa decisão estratégica de quão rapidamente o time de 2021 ficará mais numeroso que será a grande dúvida para os times. Seguindo no exemplo da Ferrari, seria uma bela notícia ir para 2021 tendo saído da fila depois de mais de 10 anos. Mas e se isso significar começar 2021, e logo 2021, com um projeto mais verde que os demais?

Talvez a Red Bull seja a equipe que tenha a resposta mais pronta (e a Toro Rosso, ou Alpha Tauri, pode muito bem agradecer por isso). Com o motor Honda ainda em desenvolvimento (e o regulamento de UPs constante em 2021), é hora de apostar todas as fichas em 2021 (mesmo que eles digam o contrário). Até porque o terceiro lugar entre os construtores eles têm com folga. Mesmo que a McLaren cresça, até mesmo Zak Brown admite que só dá para chegar na luta real por pódios em 2021. Ou seja, é mais um time com grandes chances de mudar o foco antes dos rivais.

No caso da Mercedes, todos os esforços são para ter um início de ano semelhante ao de 2019. E esse seria o pior pesadelo para os rivais, pois significaria que o time prateado focaria mais cedo no projeto novo.

Outros não podem se dar ao luxo de pensar muito em 2021 no momento. A Haas tem de fortalecer seu sistema de simulação e seu corpo técnico, já que o chassi é terceirizado; a Alfa vai entrar agora numa fase de descobertas com seu novo simulador, e precisa calibrar a correlação com a pista primeiro, e depois focar em 2021. A Renault precisa convencer o board de que vale a pena investir – ainda mais agora que o teto orçamentário está bem no nível do que os franceses têm usado nos últimos anos. A Racing Point terá a dura tarefa de faz um carro e desenvolver o outro ao mesmo tempo que investe em uma nova fábrica, que só deve ficar pronta no fim do ano. E a Williams, bem… pelo menos 2019 foi um ano em que o time finalmente conseguiu desenvolver seu carro, uma boa notícia para quem, desde 2014, vinha colocando peças que acabavam não surtindo efeito, e terminando os campeonatos pior do que começou.

Enquanto os diretores técnicos quebram a cabeça, os chefes de equipe estarão cheios dos “contatinhos”. Poucos pilotos – Verstappen, Leclerc, Ocon e Perez me vêm à cabeça – têm contrato para 2021, o que significa que quatro das seis vagas nos times de ponta começam o ano indefinidas para a próxima temporada. Por isso, espera-se que os rumores se iniciem mais cedo – no máximo, em Mônaco, GP que é visto pelos italianos como o de ultimato para Vettel – e garantam nossa diversão antes mesmo de os carros irem para a pista.

Podcast No Paddock da F1 com a Ju: Entrevista Odinei Edson


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Julianne Cerasoli entrevista Odinei Edson, a voz por trás das transmissões da F1 da BandNewsFM. Ele fala sobre a profissão e relembra a época de Senna

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A magia de Interlagos

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui. Esse é o último da série e, sem dúvida, meu predileto. Espero que também gostem de mergulhar nessa história!

Por Cinthia Venâncio

Em 2019 finalmente consegui realizar meu sonho de ir ao GP Brasil de Fórmula 1. Para realizar esse sonho de infância, tive que fazer um grande exercício de paciência, controle de ansiedade e financeiro. Como todos já sabemos, automobilismo é uma brincadeira bem cara, então foi preciso me programar. O objetivo desse texto é contar um pouco da parte prática de ir para Interlagos pela primeira vez (gastos com viagens e afins) e falar também de toda a parte emocional que esse momento envolve.

Minha preparação começou ainda em janeiro, quando decidi oficialmente que faria a viagem. Quando comecei a conversar sobre isso com a Déborah do Boletim do Paddock, ela ofereceu a casa dela como hospedagem, eu ficaria com a minha amiga e seria um gasto a menos, maravilha né? Mesmo assim cheguei a procurar por hospedagem na época, porque vai que alguma coisa dava errado? 

Ao longo do ano, mensalmente eu separava uma grana e pagava o boleto “GP BRASIL”. Obviamente não era um boleto real, mas era o valor que eu juntava para a viagem. Como eu sempre fui bastante controlada com dinheiro – obrigada, mãe! – não tive problemas para fazer essa poupança. Se você é mais desregrado, uma dica que eu te dou é: tenha um lugar exclusivo para esse investimento. Sugiro algum desses bancos digitais que não possuem taxas e ainda fazem seu dinheiro render. Eu consegui fazer tudo só com aquele roxinho lá, mas existem opções azul, laranja, verde, etc. Guarde o dinheiro para o “projeto” lá e deixa quieto. Não fica andando com o cartão pelo amor do que for sagrado para você! Não leve a tentação contigo! 

Ao longo do ano, fui juntando tudo o que podia. Qualquer economia era válida, até a do sorvete de R$1,50. Sim, porque a gente não é de família rica e tem que abrir mão de algumas coisas para conseguir outras. Então você tem que pesar suas prioridades para saber como um evento desses afeta o seu orçamento. 

O valor total a ser gasto depende muito do que você vai fazer lá [MAS CÊ JURA?]. Comece pelo mais fácil: o setor em que você vai ficar. O setor A me custou R$ 870,00 parcelados em 4x sem juros (quem compra antes consegue parcelar em 5x). As passagens de avião exigem um pouco mais de cuidado, não deixe para a última hora porque você pode pagar muito mais caro e correr o risco de ficar sem nada. O voo Fortaleza-Guarulhos saiu por R$ 740,00 (ida e volta de madrugada com taxas e escolha de assento, passagem comprada em agosto e o preço não baixou até novembro – eu sei porque um amigo foi a para a CCXP agora em dezembro e acabou pagando um pouco mais caro que isso). Se eu tivesse escolhido Congonhas, esse valor teria triplicado então, mesmo pagando R$ 90 reais de Uber para ir do aeroporto até a casa da Débora, saiu mais barato assim. Você pode fazer como eu e criar um alerta de preço nesses sites que vendem passagens, mas a minha dica é sempre conferir no site da companhia aérea para não ter problemas. Outra coisa, procure por voos que te deem uma margem de segurança no horário da volta, assim você aproveita Interlagos ao máximo (quem está no setor A pode invadir a pista depois da bandeirada) – se você tiver que voltar cedo, pode não curtir esse momento. Meu voo saiu de Guarulhos às 23:35 do domingo, deu super de boas. Algumas agências de viagem criam pacotes para o GP que incluem passagem, hospedagem e traslado para o autódromo, pode ser uma boa caso você não queira ter trabalho com isso. A essa altura, os gastos já estavam em R$ 1.610,00 e eu nem tinha saído do Ceará ainda.

Algumas coisas que você não pode deixar de levar para Interlagos: protetor solar, boné, óculos de sol e capa de chuva. Não importa a previsão do tempo, leve e use! Além disso também levei uma daquelas blusas UV que os surfistas usam pra ajudar na proteção. O outfit para o fim de semana incluiu shorts e sandália para os três dias (sim, a cearense aqui encarou 18ºC com chuva em São Paulo e se sente muito orgulhosa disso). Na verdade fui vestida assim porque a Déborah me deu uma dica valiosa: vista algo que dê tempo secar em caso de chuva. Usei tênis apenas no domingo porque fez sol, se tivesse ido com eles na sexta, teria voltado com um par de tênis molhados no avião. Ah! Usar shorts/bermuda na chuva é melhor do que ficar com calça molhada e grudenta no corpo – pense nisso!

Você vai passar o dia inteiro no autódromo então prepare o bolso para gastar com comida lá dentro. Uma garrafa de 300ml de água por R$ 6,00 é a coisa mais barata que você vai conseguir comprar. Gosta de cerveja? Cada latinha vai te custar R$ 15,00, o mesmo valor de um cone de batata frita e de um potinho de sorvete que custa R$ 4,00 em qualquer mercadinho perto da sua casa. O espetinho custa R$ 13,00 e o sanduíche natural é R$ 18,00. Ainda tem pastel e cachorro quente que custam uns R$ 10,00 mais ou menos. Tudo isso é pago com um cartão “cashless”. Você faz a retirada no lugar indicado no site oficial do GP e recarrega na hora ou lá no autódromo, esse cartão custa R$ 10,00. Eu gastei R$ 149,00 nos três dias só com comida e água, você pode pedir reembolso do que não gastar, mas não valia pegar a fila pra fazer isso, então ficou um real lá. Esse ano autorizaram a entrada de três alimentos por pessoa no autódromo, então levei salgadinho e biscoito recheado, já ajudou bastante.

Dentro de Interlagos existem lojas vendendo produtos oficiais. Esse ano só teve Mercedes, Ferrari e Red Bull, em algumas, você encontrava coisas da Alfa Romeo e pouquíssimos itens da Renault. Não tinha nada, nadinha da McLaren, absolutamente 0 coisinhas para os Papayas como eu. Nem das outras equipes. O que me deixava triste e feliz ao mesmo tempo, porque eu economizei uma grana gigantesca. Um boné de equipe não saía por menos de R$ 300,00 e as camisas por R$ 400,00. Vi um casaco da Alfa Romeo por absurdos R$ 1.500,00! Os produtos mais baratos estavam na loja do Senna, bonés e camisas a partir de R$ 80,00. Acabei trazendo uma camisa de R$ 120,00 para o meu pai. Lá tinha uns chaveiros com os carros clássicos do Senna por R$ 80,00, mas fiquei só olhando. Para mim mesma, só comprei um copo decorado de R$ 15,00 e um cordão de crachá de R$ 20,00. Foi o que teve para o dia.

As atividades no autódromo se encerram no fim da tarde, à noite existem algumas opções de lazer pra você não ficar forever alone no hotel. Na sexta, fui para o encontro do Boteco F1, gastei R$ 46,00. E no sábado teve o encontro do Café com Velocidade que eu não fui porque dei plantão no hotel para encontrar os pilotos da McLaren – e consegui! Recomendo que você não estique a saída no sábado porque domingo é o dia que você mais precisa acordar cedo para chegar no autódromo logo e garantir um bom lugar. 

No fim das contas, somando todos os gastos, foram cerca de R$ 2.300,00 o fim de semana inteiro. E as dívidas já acabaram porque a fatura do cartão de crédito foi paga em dezembro. Como ficou tudo dentro do que eu tinha planejado, já tenho uma grana para o ano que vem. Tomara que dê certo de novo!

Acho que deu para falar bem sobre a parte prática e financeira da viagem, agora vamos para o outro lado. 

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A princípio, controlar a ansiedade foi muito, mas muito mais difícil para mim do que controlar o dinheiro. Dormir e acordar pensando em tudo o que poderia acontecer sempre me fazia rir ou chorar, não importava onde eu estivesse. Depois que comprei ingressos e passagens, em agosto, fiz um trabalho psicológico bem forte para não ficar contando dias e surtar até novembro. Tentava falar sobre o assunto apenas quando alguém vinha me perguntar – contei para poucas pessoas sobre o GP. Cheguei em São Paulo com o sentimento de “não vou criar expectativas”, meu pensamento era o de aproveitar ao máximo tudo o que acontecesse, assim eu evitaria me decepcionar com o que “perdi”. 

Fomos de metrô para o autódromo na sexta, já pegando chuva, por isso deixo aqui a minha gratidão às capas de chuva de R$ 5,00. Entrar no autódromo na sexta-feira é tranquilo, a fila é pequena e tem revista, você passa seu ingresso na maquininha (e fica com ele depois) e voilá, lá está você dentro do templo sagrado do automobilismo. A entrada do setor A é num lugar lindo, nas arquibancadas logo depois da subida dos boxes, por ser bem alto, dá pra ver boa parte da pista de lá. Fiquei um tempinho admirando a paisagem e processando a ideia de que eu finalmente estava naquele lugar, que o meu sonho estava realmente se realizando. Ali começavam os melhores três dias da minha vida, independentemente do que acontecesse. 

Pegamos nossos lugares embaixo das árvores perto da posição 23 e fomos nos apresentando para a galera. É muito legal conhecer de fato todas aquelas pessoas que você tem contato quase que diário pela internet, ótimos abraços naquela hora. Início de TL1 e o coração começou a acelerar, como estávamos em frente à entrada dos boxes, dava para ver os pilotos voltando das voltas de instalação, até que Carlos Sainz Jr. passa rasgando a reta na nossa frente. Nesse momento eu não resisti, comecei a gritar e a chorar de emoção. O momento que eu mais esperava estava bem ali diante dos meus olhos cheios de lágrimas com muitos gritos e aplausos. Logo quem? Um piloto McLaren, o Smooth Operator, o que seria um dos grandes nomes da corrida de domingo. 

Voltar ao seu estado normal não é tão fácil assim, o bom é que quem está lá contigo não se importa porque eles sentem exatamente o mesmo que você. Inclusive, quem vai há mais tempo gosta de olhar para a cara de quem vai pela primeira vez só pra ver a expressão facial da gente “na hora da largada”. Ouvi alguns “vai, pode chorar” na primeira volta do Sainz. Consegui fazer alguns vídeos e fotos para guardar de lembrança e depois fiquei com os olhos na pista, mesmo sendo só treino livre, quis aproveitar tudo ao máximo e ver cada detalhe possível – e eu também não tinha credencial de cinegrafista para filmar o treino inteiro, né? Só quis curtir o frio, a chuva e o treino. Que sensação incrível aquela! Acho que foi nesse momento que a ficha realmente caiu. 

Ainda de manhã aconteceu uma coisa bem chata, no setor A tinha um lounge coberto com uns puffs e dois painéis bem legais para tirar foto. Um desses painéis tinha imagens de alguns pilotos como Raikkonen, Hamilton, Vettel, Leclerc e Verstappen. Eu fui tirar fotos com as meninas e tava tudo bem até aí. Quando fui tirar uma foto da Rafaela (do Garota da F1) no painel do Hamilton, chegou um cara bêbado perto de mim se oferecendo para tirar uma foto minha e da Rafa juntas, eu só disse que não queria e voltei a olhar pra frente. O cara continuou insistindo, “mas vocês não são amigas? Vai lá” e eu dizendo não até ficar de saco cheio e ter que endurecer um pouco o tom de voz para dizer “moço, eu não quero”. Tirei duas fotos da Rafa e me afastei o mais rápido que pude, acho que o cara ainda ficou lá falando besteira. Só contei essa história para lembrar a toda que não significa não. Independente do quanto você queira ser legal, se a pessoa não quer nada de você, ela não quer nada de você. Aceite. E quando a gente fala em respeito às mulheres, por favor entenda que não é só cantada sem graça e mão boba que incomodam, qualquer tentativa de aproximação que você não tem abertura pra fazer não deve ser feita. Deixa a gente quieta. Não insista e não encha o saco. A gente só quer circular livremente sem ninguém incomodando. É isto.

O treino da tarde foi tranquilo, tinha parado de chover, mas ainda estava frio – para mim fez frio o tempo todo. A volta pra casa foi de metrô, a Débora e a Rafa foram para os hotéis tentar encontrar os pilotos, eu preferi voltar porque jamais conseguiria encarar o frio da noite só de short. 

Banho morno e fui com o Rubens (Boletim do Paddock) para o encontro do Boteco F1, as meninas encontraram a gente lá depois, tava bem apertadinho no local, mas foi bem legal encontrar a galera. Depois fomos para outro barzinho ver o pessoal do Café com Velocidade, é sempre bom seguir o pessoal da mídia alternativa porque eles são ótimas opções para reunir o público, assim você pode conhecer mais gente e compartilhar experiências #FicaADica.

Sábado de manhã lá estávamos nós novamente, previsão de tempo nublado e sem chuva, para mim, frio. Aproveitamos que tinha pouca gente para tirar umas fotos, eu fiz uma camiseta com a frase icônica do Kimi Raikkonen para esse dia e levei a da McLaren na mochila, junto com uma calça jeans e um agasalho. A ideia era ir ao hotel tentar encontrar os pilotos da McLaren.

Estar bem em frente à entrada dos boxes tinha suas vantagens, uma delas era ver os carros passando bem lentamente na nossa frente. O lado ruim era ouvir o motor Honda de perto, que barulho feio! Parecia um Fusca engasgado. Horrível! Mas funcionou, né? Max Verstappen foi o pole no sábado. 

Ver o qualy com live timing na mão ajuda bastante porque o autódromo não tem aquela torre com as posições dos pilotos que a gente vê em outros lugares e às vezes você não consegue ouvir a narração do autódromo por causa do barulho da arquibancada. Mas eu só descobri isso lá, então a cada volta eu tinha que ficar pescoçando o celular de alguém para saber o que tava acontecendo. 

Naquela altura eu não sabia o que tinha acontecido com o carro do Sainz ainda, só sabia que ele não ia treinar, mas fiquei super feliz com o 7º lugar do Lando Norris, mais uma vez como o melhor do resto. A McLaren teve uma ótima temporada em 2019 e eu estava lá para testemunhar isso. 

Fim de treino e fui com a Débora para os hotéis tentar encontrar os pilotos, contei no Twitter como foi essa aventura. Para esse texto não ficar ainda mais longo, deixei tudo nesse Moments para quem tiver curiosidade. 

Como o campeonato já estava decidido, as atenções se voltavam para ver quem ficaria com o terceiro lugar. Eu só queria ver o caos. E a corrida de domingo me deu o caos desejado. Esse GP serviu para provar que Interlagos não precisa de chuva para ter uma corrida boa, vou usar esse argumento toda vez que alguém disser que tem que chover. 

Antes da corrida teve a homenagem ao Ayrton Senna com o Bruno pilotando a McLaren clássica vermelha e branca. Meus amigos, QUE MOMENTO! Eu ainda era criança quando o Senna faleceu, então quase não tenho memória reais dele, mas não teve como não se emocionar com aquele momento. Que fim de semana perfeito para se estar em Interlagos! 

O caminhão que levou os pilotos para o desfile passou na nossa frente duas vezes, já que ele sai dos boxes pela entrada, na contramão, para dar a volta no circuito. Nessa hora eu estava com o celular numa mão e minha camisa-troféu na outra (ver o Moments vai entender por que). Fim do desfile, agora era hora só de esperar a corrida começar. O coração batendo mais forte e a ansiedade aumentando. O alinhamento dos carros no grid deu uma quebrada nesse turbilhão em que eu estava porque ele acontece de uma forma que eu nunca imaginei. Eu achava que os carros chegavam ao grid e cada um ia para o seu lugar como na volta de apresentação, mas quando eles deixam as garagens, os mecânicos já vão todos para a pista, os carros param no fim do grid e são empurrados até suas posições de largada. Tanto que o Carlos Sainz foi o primeiro a chegar lá, a equipe trabalhou no carro dele até o último minuto e valeu a pena, viu? Ô se valeu! Eu lembro de ter comentado com o Rubens (do Boletim do Paddock) “já pensou se o Carlos chega em 3o”? Ali eu ainda não sabia, mas nós dois tínhamos apostado nesse resultado do Sainz, literalmente. Quando a largada acontece, todos mundo volta correndo para os boxes e essa cena é infinitamente melhor ao vivo.

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Acompanhar corrida ao vivo é ainda mais difícil do que o qualy quando se trata de saber as posições oficiais dos pilotos. Adicione dois safety car e a festa está completa. Quando percebi, o Sainz já estava na zona de pontuação e nessa hora bateu o medo do pit stop, sabe como é a McLaren, né? Ainda bem que deu tudo certo. Eu ficava contando os carros que passavam para saber onde os Papayas estavam. Ficar no setor A é ótimo, tem sombra na parte da tarde e o vento é frio, mesmo com o sol que fez no domingo. A gente vê a corrida de pé e eu confesso que estava esperando algum incidente acontecer por ali, mas a Bo77ada e a treta entre os carros da Ferrari foram bem longe, fazer o que né?

Perto do fim da corrida, comecei a sentir uma coceira muito grande nos olhos, muita irritação, depois o Rubens me disse que era fuligem, mas para todos os efeitos eu estava chorando de emoção haha 

Bandeirada final e chegou o momento da invasão à pista. Fazer isso é uma aventura! A gente corre para um canto que tem um buraco na grade. Para passar por esse buraco, é preciso pular a mureta. Pulando a mureta, você se depara com um mini-barranco e torce pra sair inteiro de lá. Se isso soa difícil, imagina quando centenas de pessoas tentando essa empreitada ao mesmo tempo! O esforço vale a pena, andar na pista de Interlagos é sensação maravilhosa. Vi a cerimônia do pódio e gritei o nome do Gasly com todo mundo lá, queria ter podido gritar o do Sainz também. Quem sabe na próxima? 

Quando a champanhe acabou, ainda fiquei por lá tirando fotos com o pessoal, registrando tudo o que podia. Vi gente levando pedaço de asfalto pra casa, eu me contentei com uma estrelinha na posição 7. Depois de uma última foto da posição 23, fomos para casa. Estava no McDonald’s (pela terceira vez em quatro dias) quando saiu a notícia da punição do Hamilton. Pódio da McLaren que eu queria muito ter visto e comemorado, pelo menos fui com o coração leve pra casa. Valeu muito! 

Já no aeroporto, vi algumas pessoas com camisa de equipe, supus que eles também estavam no GP e só desejei que eles tivessem tido um fim de semana tão incrível quanto o meu. Sou muito grata por ter podido viver tudo isso. Ir ao GP Brasil superou qualquer expectativa que eu pensei em ter, no melhor estilo “não vamos estabelecer uma meta” porque a meta foi batida e dobrada inúmeras vezes. 

E daí que eu mal dormi, me alimentei mal e passei frio? Ir para Interlagos faz cada gota do seu suor valer a pena. Cada centavinho que você juntou vai garantir uma felicidade diferente de todas as outras que você já experimentou. Ouvir e ver aqueles carros de perto é algo que definitivamente não tem preço. Se você tiver dúvida se deve ir ou não e aceitar meu conselho: vá. Apenas vá. Depois você me diz se eu tenho razão ou não. 

Binotto: uma bomba relógio

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Sergio Milani

Depois de muitos meses balançando, em 7 de janeiro de 2019 foi anunciado que, após quatro anos, Maurizio Arrivabene deixava o comando da equipe de Fórmula 1. O italiano, vindo da área de Marketing da Phillip Morris, não era querido dentro do meio: sujeito de trato difícil, foi colocado por Sergio Marchionne (presidente da Ferrari) e veio com a missão de sacudir a equipe. Sob sua batuta, a Ferrari voltou a andar na frente na era híbrida e consolidou a política de “um carro italiano feito por italianos”. Mas esta mudança foi feita às custas de um crescente afastamento da equipe com a imprensa e a ampliação de brigas internas.

[Faço uma nota aqui: o grande problema de Arrivabene era sua falta de capacidade para atuar em um cargo que exige um conhecimento mais amplo do que o de um homem de marketing. Não é a toa que a equipe foi se fechando para a mídia, era necessário brindá-lo para que sua incapacidade não ficasse evidente. E é nessa brecha que essa história começa a desenrolar.]

A maior briga foi com a área técnica. Este setor era comandado por Mattia Binotto, profissional que fez toda a sua carreira na Ferrari e foi o responsável por coordenar o trabalho de vários técnicos que, como ele, eram também da casa e não tinham tanto contato assim com o programa da F1.

Desde quando assumiu o posto em 2016, este suíço-italiano de fala e semblante tranquilo foi ganhando espaço. O trabalho desempenhado no desenvolvimento das unidades híbridas o cacifou para ser “o cara” da área técnica da Ferrari. E isso foi sendo notado pela cúpula ferrarista, que via o estilo “duro” de Arrivabene não fazendo o mesmo efeito de antes.

Embora fosse negado, o caldeirão político de Maranello estava a todo vapor e dois mundos se chocaram. A escolha de Charles Leclerc para ser o companheiro de Sebastian Vettel em 2019, orquestrada por Marchionne antes de sua morte e indo contra a preferência de Arrivabene, que era favorável à permanência de Raikkonen, acabou por ser um indicativo de quem estava “prestigiado” na casa.

E a Ferrari começou o ano com novo comandante. A esperança é que as coisas fossem mais tranquilas, pois teríamos alguém com mais vivência esportiva, conhecedor de todos os tijolos de Maranello e pudesse ter a tranquilidade para comandar a equipe para bater a Mercedes. Mas o tiro saiu em parte pela culatra.

Inicialmente, a perspectiva parecia interessante: o SF90 parecia ser bem-nascido e andou na frente na pré-temporada. Tanto, que o plano era que Binotto acumulasse o posto de chefe de equipe com o de Diretor Técnico. Mas Melbourne acabou sendo um balde de água fria, com a Mercedes sendo dominadora e os italianos um tanto quanto perdidos.

Ao longo do ano, a calma de Binotto pode ter sido confundida com uma espécie de transe. Embora tudo parecesse desmontar, seu olhar impassível por trás dos grossos óculos permanecia o mesmo. E os problemas não eram poucos: conceito do SF90 pouco efetivo, disputa dentro da equipe pelo posto de número 1, desenvolvimento do carro insuficiente… Binotto seria um homem de visão, com uma paciência de monge tibetano, ou simplesmente não entendia o que se passava à sua volta?

Embora contasse com o apoio da cúpula, uma série de ações foram tomadas (contratação de novos técnicos, reestruturação da área técnica) e após as férias, as começaram a mudar: um novo pacote aerodinâmico veio, junto com um motor revisado e a Ferrari venceu na Bélgica e Itália. A pressão reduziu, mas não foi embora totalmente. 

Embora a área técnica parecesse resolvida, dois problemas permaneceram: a gestão de estratégia de corrida e o controle dos pilotos. Embora sejam diferentes, em vários momentos se misturaram. O maior exemplo foi em Singapura, quando Leclerc foi orientado a andar mais devagar para controlar o consumo de pneus e acabou levando o “undercut” de seu próprio companheiro, Sebastian Vettel….

As estratégias na Ferrari foram um caso à parte. Justamente pelo fato do carro não ter um gerenciamento de pneus tão bom, as estratégias tinham que ser “menos convencionais”.

Sobre os pilotos, foi algo que os antigos chamavam de “crônica de uma morte anunciada”. A vinda de Leclerc configurou um daqueles típicos casos de um jovem impetuoso contra um medalhão estabelecido. Esta situação foi concebida por Marchionne, queria ser evitada por Arrivabene e estourou no colo de Binotto. Que optou por levar ao máximo no fio da navalha a situação. O resultado foi um equilíbrio sinuoso até o Brasil, onde os dois se chocaram de forma até bizarra no final da prova.

Binotto chega ao fim da sua primeira temporada à frente da Ferrari como um sobrevivente, cheio de cicatrizes, porém ainda guerreando. Aparentemente, conseguindo resistir à pressão interna e externa. A calma aparentemente está lá, bem como o método. Afinal, um bom técnico o utiliza para o desenvolvimento de suas tarefas. E isso que parece diferenciar este suíço dos demais. Ao que parece, 2020 será sob seu comando e a vontade de não cometer os mesmos erros está lá. 

Entretanto, se a Ferrari mostrar novamente equívocos semelhantes aos de 2019, não apostaria muitas fichas que Mattia Binotto prossiga à frente do time italiano. Não à toa que os boatos de uma possível vinda de Toto Wolff circulam por aí. Muita gente acha que tem calma demais ali, faltaria um “gosto de sangue na boca” para dar uma sacudida nas coisas. O que não deixaria de ser uma volta ao estilo “italiano” tipo Arrivabene. Pode até servir para a galera, mas não para o bom andamento das coisas. Este parece ser a filosofia de Binotto, que se vê mais como um “tutor” do que um “gestor”.

O desempenho da Ferrari em 2019 tem muitos pais e Binotto é um deles. Embora no banco de réus, não pode ser o único culpado. Mas pode ser o perfeito bode expiatório.

Verstappen: ame-o ou deixe-o

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Valentina Peña Orozco (estudante de jornalismo colombiana mandando muito bem no português!)

Para ninguém é um segredo que o Verstappen é um dos preferidos para se virar próximo campeão do grid num futuro mais perto do que longe. O holandês que é reconhecido pelo seu jeito agressivo e arriscado de conduzir, consegue despertar emoções muito diferentes nos fãs do esporte: por um lado, tem uma das maiores torcidas que leva o nome da “Orange Army”, mas por outro, também é bastante criticado e às vezes odiado pela sua personalidade particular. Falar o que pensa sem se importar com as consequências e se arriscar até o limite para defender ou ganhar uma posição parecem ser dois dos seus hobbies preferidos e isso já gerou bastante drama no universo da Fórmula 1. 

É impossível esquecer daquelas declarações acusando a Ferrari de trapacear depois do GP dos Estados Unidos, onde coincidentemente a equipe italiana não tive uma boa corrida após a FIA esclarecer as regras específicas sobre o fluxo de combustível. Para o holandês, a queda de desempenho não foi uma surpresa e os comentários e reações não demoraram a chegar. Jornalistas, fãs e membros da Ferrari se manifestaram bastantes chateados pelas palavras do piloto de 22 anos e até Mattia Binotto procurou Christian Horner para conversar sobre o assunto. 

Mas suas palavras não são as únicas julgadas, pois suas ações na pista também já deram o que falar. O exemplo mais recente foi a controvérsia no GP do México na qual o Max tinha conseguido a pole, mas foi sancionado com três posições no grid de largada por não desacelerar após a bandeira amarela no final da Q3 causada pelo acidente do Bottas. A ação foi qualificada por muitos com irresponsável e imatura e virou um tema de conversa bem interessante entre os fãs no twitter. 

Mas a verdade é que Max não seria ele não fosse pela sua autoconfiança, suas respostas sinceras demais nas conferências de imprensa e seu instinto animal quando ele sai na pista. Michael, meu melhor amigo norte-americano, tem uma frase que explica bem essa situação: “You gotta love it or hate it, there’s no in-between”. Verstappen é desses pilotos por quem você pode se apaixonar perdidamente pelo seu jeito único de ser e agir ou odiar com todas as forças do seu coração: não tem meio-termo nesse relacionamento com o holandês. E isso é o que faz ele ser tão diferente ao resto do grid.

A F1 pode ser sustentável?

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Aline Mariño

A Fórmula 1 estabeleceu metas e planos para uma das suas próximas ambições: Tornar o esporte menos poluente. A intenção é, até o ano de 2030, reduzir as emissões de carbono para zero, eliminando os poluentes produzidos nos carros e nas atividades ao redor das pistas. O CEO da F1, Chase Carey, disse que é a primeira vez que o esporte tem uma estratégia de sustentabilidade. 

Essa estratégia consiste em desenvolver um motor híbrido de combustão interna com produção de carbono zero, que funcione a partir de biocombustíveis desenvolvidos para poluírem menos. Nesse aspecto, o fim repentino e sem justificativa plausível para a parceria da Petrobras com a McLaren, promovido pelo atual governo, fecha as portas de uma ótima oportunidade para o Brasil estar entre esses desenvolvedores. Falta de visão, no mínimo. Seguindo o plano da Liberty Media, que administra a F1, a segunda parte do plano consiste em focar nas questões ao redor e fora das pistas, ou seja, respectivamente na logística entorno de cada Grande Prêmio e nos transportes envolvendo todo o circo da F1. 

A maior parte da emissão de carbono vem exatamente desses dois últimos segmentos e não do próprio carro de corrida. Na verdade, é pífia a porcentagem que a máquina produz em relação aos outros processos. No entanto, para um grupo de pessoas a imagem que fica é a de que a Fórmula 1, com seus carros com motor movidos a hidrocarbonetos, são um retrato do atraso. O interessante é que a categoria sempre ignorou qualquer ação nessa direção mais sustentável. Então, convém analisar mais a fundo esse recente movimento.

O impulso dado nessa direção menos agressiva ao meio ambiente ocorreu em meio às seguintes circunstâncias: primeiro cenário é que o mercado automobilístico na Europa como um todo está mudando. Um após o outro, vários países do velho continente estão aprovando medidas para que, nas próximas duas décadas, não haja mais carros que não sejam movidos por fontes limpas. É uma tendência europeia, mas até virar uma realidade global são outros quinhentos. O segundo cenário é a Formula E recebendo os holofotes oriundos dessa onda mais consciente e é ai que dói mais no calo da F1. 

Hoje a principal categoria de automobilismo tem seu grid formado somente por dez equipes, das quais apenas três também são fornecedoras de motores, e passa por dificuldades para encontrar outras equipes que se interessem em fazer parte do seu universo. Já a FE, em seu sexto ano de campeonato, já tem doze times e potencial para seguir expandindo esse número. As equipes estarem mais interessadas pela FE não é só devido a um custo bem mais reduzido em relação a F1, mas é também uma jogada de marketing e um alinhamento das marcas à tendência do mercado de “ser mais verde” e serem bem vistos aos olhos de uma parcela do público. 

A Fórmula 1 está em um momento de certa fragilidade, já que conta com poucas opções de equipes, sendo ainda recorrentemente assombrada pela incerteza quanto à permanência de algumas delas. Certas marcas até estudaram se juntar a F1, mas optaram pela FE. O novo regulamento de 2021 virá para ajudar a reduzir custos e igualar um pouco as coisas dentro da pista. Isso tornaria mais agradável as variáveis financeiras para atrair novas montadoras, mas ainda não causaria nenhum impacto à imagem da F1 quanto à questão da sustentabilidade. 

Está no DNA da F1 ser uma categoria de experimentações e testes de novas tecnologias para depois vê-las aplicadas no dia a dia. Logo, embarcar nessa “onda verde” pode não ser apenas um passo na direção certa em termos de imagem, mas um ponto crucial para a sobrevivência a longo prazo (juntamente, é claro, com o advento do novo regulamento). Dizer que a FE irá substituir a F1 ou que ambas poderiam se fundir parece ainda uma visão bastante nebulosa, visto que a FE ainda precisa avançar quanto a sua unidade de potência e ao seu consequente descarte, dentre outras coisas. O futuro a médio prazo está mais para uma coexistência separada dessas duas categorias, testando e desenvolvendo suas peculiaridades tecnológicas, e a Fórmula 1 caminhando para o uso dos biocombustíveis menos poluentes possíveis e com a meta de criar a nova unidade de potência prometida pela Liberty Media.

Discordando da fala do Greg Maffei, chefe-executivo da Liberty, que afirmou segundo o site RaceFans ser puramente questão de estar na moda a ocorrência da popularidade dos carros à energia, o sucesso e crescimento do grid da Fórmula E provam o contrário disso, assim como as medidas aprovadas pela Europa. Quanto à Fórmula 1, resta esperar o prazo para ver se toda essa mudança prometida sairá realmente do papel com ações claras (coisa que até o momento não aconteceu) ou só serviu para dar um breve retoque na imagem da principal categoria do automobilismo.

Dez temporadas de DRS e as ultrapassagens artificiais enraizadas

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Eduardo Costa

A temporada 2020 da Fórmula 1 caminha para ser uma transição. Com as mudanças radicais nas regras para 2021, a tendência é que o próximo ano tenha uma conjuntura semelhante à de 2019. Porém, a categoria atingirá um marco que passa despercebido: será a décima temporada do DRS.

O Drag Reduction System chegou à F1 em 2011. O objetivo era fazer com que, em situações específicas (com um piloto a no máximo um segundo de diferença em relação ao adversário à frente em um ponto pré-selecionado do circuito), a asa traseira pudesse ser aberta, diminuindo o arrasto aerodinâmico do carro e gerando um ganho enorme de velocidade, para promover mais ultrapassagens.

Desde então, o artifício gera muita polêmica. Já a partir de sua introdução, era clara a existência de dois grupos: os que defendiam que ele traria mais ultrapassagens e, consequentemente, mais emoção; e os que questionavam a artificialidade do sistema. E esta última característica tem se mostrado bastante presente.

Do começo de seu uso, em 2011, até hoje, a asa traseira móvel inegavelmente promoveu um boom de ultrapassagens. Se do início do século XXI até 2010 nenhuma temporada teve mais de 500 ultrapassagens, de 2011 para cá só uma ficou na casa dos 500 (2015, com 509). Todas as outras tiveram, no mínimo, 600 ultrapassagens. Destaque para 2018, com absurdas 1056.

A lógica automática é de que corridas que promovem muitas ultrapassagens naturalmente são mais emocionantes. Mas se tivemos uma explosão de trocas de posição, realmente podemos dizer que as corridas ficaram tão melhores assim?

O DRS, de fato, não é um artifício de todo ruim. Porém, a forma como é utilizado hoje cria ultrapassagens extremamente artificiais, que se assemelham muito mais a trocas de posição, sem disputa alguma no roda a roda. E se, afinal, uma das principais formas de se medir a habilidade de um piloto é pela sua capacidade de disputar posições, como levar os números em conta se tais disputas são facilitadas pela asa móvel?

 O sistema cria uma espécie de “injustiça”. A não ser que o piloto da frente esteja perto de um retardatário, ele fica completamente vendido: o piloto de trás abre a asa, diminui absurdamente o arrasto, chega a ter uma vantagem de até 30 km/h em algumas pistas e não gera a menor possibilidade de defesa.

Em praticamente todas as corridas, o público perde muitas oportunidades de presenciar belas brigas entre os pilotos justamente porque não existe tal chance. É diferente de sistemas como o push-to-pass, da IndyCar Series – por mais que ainda seja um artifício, ele é distribuído de forma igual e pode ser usado por todos os pilotos a qualquer momento, o que também é mais um componente para as estratégias.

Tomemos como exemplo o Grande Prêmio do Brasil de 2019, penúltima etapa do ano. Após o acidente entre as Ferraris de Sebastian Vettel e Charles Leclerc, o safety-car foi acionado a poucas voltas do fim. A bandeira verde veiona penúltima volta e, após disputas ferrenhas, Lewis Hamilton e Pierre Gasly chegaram para a reta final lado a lado.

 Em um raro momento de drag race na Fórmula 1, os dois subiram a reta principal de Interlagos colados, arrancaram a respiração do público e decidiram na foto quem chegaria em segundo. Se o DRS fosse utilizado (e faltou apenas uma volta, pois ele é liberado a partir da terceira volta em bandeira verde), o inglês teria trucidado o francês e tomaria a posição sem dificuldades. Sem o artifício, eles protagonizaram uma disputa épica, Gasly segurou a posição e comemorou seu melhor resultado na carreira.

Podemos voltar um pouco mais no tempo para relembrar a última corrida sem DRS na história da Fórmula 1 (até agora): Grande Prêmio de Abu Dhabi de 2010. Enquanto Mark Webber se enrolou nas próprias pernas e Sebastian Vettel disparou na frente, Fernando Alonso sofreu com uma estratégia no mínimo questionável da Ferrari e se viu tendo que escalar parte do pelotão para sair com o tricampeonato.

Eis que, após sua única parada, ele encontrou pela frente a Renault de Vitaly Petrov. O espanhol tentou de todas as formas a ultrapassagem por longínquas 39 voltas, mas o russo não deixou a peteca cair. A cena ficou marcada na história recente da Fórmula 1 e decidiu o campeonato de 2010. Fica o exercício de imaginação: teríamos aquela emoção com o DRS?

E se quisermos voltar mais no tempo ainda, tentando ao máximo evitar o pachequismo e o saudosismo: o DRS nos teria tirado a épica disputa lado a lado entre Nigel Mansell e Ayrton Senna em Barcelona/1991. Seria apenas mais uma “ultrapassagem”.

Por outro lado, retornando a 2019, vimos algo diferente e interessante na última corrida. Duas semanas depois do GP do Brasil já citado, a F1 foi até Abu Dhabi encerrar sua temporada. E graças a um problema no sistema, o DRS ficou desativado nas 17 primeiras voltas.

Obviamente, a corrida não se tornou radicalmente emocionante, pois o problema de ultrapassagens da F1 vai além do DRS. Mas vimos algumas disputas maiores em situações nas quais, em condições normais, as ultrapassagens seriam simples, como a de Valtteri Bottas em Lance Stroll e de Carlos Sainz em Daniel Ricciardo. Sem a asa móvel, a tocada e até mesmo a estratégia de alguns pilotos teve que mudar.

Apesar disso tudo, ao que parece o sistema está longe de ter sua utilização revista ou até banida. Muito pelo contrário: nos GPs da Austrália, Bahrein, Canadá, Áustria, Cingapura e México deste ano, a F1 optou por um aumento para três zonas de utilização em cada pista. Além disso, o DRS sofreu um aumento de 30% na abertura nesta temporada, indo de 65cm para 85cm.

O que vemos então, em algumas corridas devido às características dos circuitos, é um festival de ultrapassagens artificiais. No GP da França de 2018, por exemplo (o retorno de Paul Ricard à F1), 39 das 48 ultrapassagens ao total foram feitas com a asa traseira móvel.

[Faço uma nota aqui: a área de abertura de asa aumentou juntamente com a ampliação da asa traseira na temporada 2019, e as revisões das zonas de ativação têm sido constantes. Inclusive, algumas delas têm sido reduzidas. Além disso, Ross Brawn já disse em várias ocasiões que um dos grandes objetivos da linha de pensamento que rege o regulamento de 2021 é acabar com o DRS. Para isso, é preciso reduzir drasticamente a turbulência gerada pelos carros e, de acordo com as simulações do grupo comandado por Brawn, isso será uma realidade em pouco mais de um ano. Porém, primeiramente eles precisam confirmar os números para, então, retirar o DRS.]

E uma situação perigosa começou a acontecer nos últimos anos. Com o “sucesso” do seu uso na Fórmula 1, o DRS já começa a ser expandido para outras categorias. Além do DTM na Alemanha, as Fórmulas 2 e 3 já o utilizam, fazendo com que jovens pilotos cresçam no automobilismo levando o auxílio como algo padrão – e até necessário. Uma cultura de pilotos moldados por ultrapassagens artificiais pode ser péssima para o esporte.

Isso faz também com que nós, o público, e quem cobre a Fórmula 1, se acostume com isso. Partindo para a décima temporada, o DRS está longe de ser questionado como algo que pode maquiar as corridas ou disputas de posição. Pelo contrário: muitas alas defendem a sua continuidade argumentando que, sem ele, as ultrapassagens seriam mais difíceis e, consequentemente, escassas na categoria.

Daí fica o questionamento: não seria melhor dessa forma? Até porque se a categoria bane o sistema e as ultrapassagens ficam mais difíceis (além de diminuírem consideravelmente), o público pode abrir os olhos para o real cerne do problema.

A falta de grandes disputas na Fórmula 1 atual está longe de ser culpa do DRS, muito pelo contrário: o excesso da influência da aerodinâmica nos carros e o comportamento ruim dos mesmos quando estão vindo atrás de outros são os principais pontos que precisam ser melhorados.

Mas o sistema, facilitando brutalmente as ultrapassagens em determinadas situações, faz com que os números apontem para mais trocas de posições nas corridas. Com isso, público e pessoas ligadas à F1 se iludem, achando que as corridas estão mais emocionantes. Não estão.

Nos debates do novo regulamento para 2021, o DRS chegou a ser um tema mais batido. Hoje ele já está confirmado, e a tendência é que tenha poucas alterações (ou nenhuma) no novo regulamento. O que é bastante prejudicial ao esporte.

Ressaltando novamente: o DRS não é o causador dos problemas de ultrapassagens da Fórmula 1. Como destacou o hexacampeão Lewis Hamilton, em uma entrevista de março de 2019: “No fim das contas, o DRS é um band-aid para a corrida de qualidade pobre que nós temos com a forma como os carros são projetados”.

Mas em uma categoria em que a aerodinâmica tem uma influência muito acima do necessário e os fãs estão sedentos por corridas mais emocionantes, as ultrapassagens artificiais que o Drag Reduction System provoca não ajudam em nada na conjuntura. Muito pelo contrário.

5 curiosidades da Itália que você não sabia


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Poucos países são tão próximos do Brasil, mas há curiosidades da Itália que escaparam das lembranças da nonna. Ainda mais relacionadas à F1

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Alonso x Vettel e a última década na Ferrari

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Abdul Rahim Abou Ghonaim Neto
twitter/instagram: @abdulragn

Alonso e Vettel lideraram a Ferrari nos últimos 10 anos: o espanhol, de 2010 a 2014, e o alemão, que chegou para substituí-lo, e permanece até hoje na equipe.

Em 2010, Alonso, com uma Ferrari que terminaria apenas em terceiro lugar no campeonato de construtores, conseguiu brigar pelo título contra uma Red Bull que fez 15 poles naquele mesmo ano. Alonso chegou à última etapa na liderança do campeonato, mas um erro estratégico da Ferrari lhe custou o título. Vettel, que chegou em Abu Dhabi atrás até mesmo de Webber na tabela, venceu e se tornou campeão.

Em 2011 houve amplo domínio da Red Bull, que fez 18 poles. Vettel conseguiu 11 vitórias, e Alonso, apenas uma.

A temporada de 2012 começou equilibrada, Alonso liderando a primeira metade com inteligência e atuações épicas, como as poles na chuva na Alemanha e na Grã Bretanha, e vitórias como a de Valência, largando da 11a posição, e na Malásia, sob chuva. Porém, na segunda metade, foi vítima de acidentes e a Red Bull voltou a dominar, com Vettel vencendo o campeonato, apenas três pontos a sua frente.

O domínio da Red Bull aumentou em 2013 [na verdade, o campeonato estava bastante parelho até os estouros de pneus em Silverstone obrigarem a Pirelli a mudar os compostos, o que favoreceu a Red Bull e Vettel], com Vettel vencendo 13 corridas e chegando ao tetracampeonato. Alonso ainda conseguiu duas vitórias, ficando com o vice.

O ano de 2014 é bastante representativo porque, enquanto Alonso destruía Raikkonen, chegando ao final da temporada com quase o triplo de pontos que seu companheiro de equipe, Vettel, na Red Bull, era batido por Ricciardo que, estreando na equipe, venceu três corridas e largou 12 vezes a sua frente. Vettel não venceu nesse ano, chegando em quinto no campeonato, 71 pontos atrás do companheiro. Ele, então, deixou a Red Bull.

Com a dificílima tarefa de substituir Alonso, Vettel chegou na Ferrari em 2015, conseguindo três vitórias e marcando 278 pontos contra 158 de seu companheiro de equipe. Um desempenho mais discreto e modesto que o de Alonso em relação a Raikkonen, apenas um ano antes, em condições bem parecidas.

No ano seguinte, a Ferrari teve uma queda de performance, e Vettel teve desempenho próximo ao de Raikkonen, chegando apenas 26 pontos a sua frente ao final da temporada.

Em 2017, a Ferrari tinha um carro competitivo, capaz de brigar por vitórias e até pelo título, mas erros de Vettel, como no Azerbaijão, onde propositalmente bateu em Hamilton, e em Singapura, onde causou um acidente na largada, custaram vitórias e pontos que acabaram com as chances da Ferrari de lutar pelo campeonato, vencido pela última vez há dez anos.

Quando a Ferrari finalmente conseguiu construir o melhor carro do grid, com uma unidade de potência que lhe dava grande vantagem, principalmente na classificação, Vettel mostrou que definitivamente não tinha condições de liderar a equipe, que provou ter um carro competitivo já no início de 2018, obtendo duas vitórias nas 3 primeiras corridas, mas, na 4a etapa, o gp do Azerbaijão, o alemão, largando da pole pela terceira vez no ano, cometeu o primeiro de muitos erros de muitos naquele ano. Na França, oitava etapa, Vettel, largando na terceira posição, acerta Bottas na largada, danificando seu carro e perdendo várias posições. Na 11a etapa, em casa, liderando o campeonato e largando da pole, o alemão comete o erro mais importante do ano, ao sair da pista úmida e bater enquanto liderava, abandonando a corrida, e vendo Hamilton, que largou em 14o, vencer e assumir a liderança do campeonato. Na Itália, viu Raikkonen fazer a pole, e, disputando posição com Hamilton, rodou na primeira volta da corrida. Nos GPs do Japão e Estados Unidos, voltou a rodar em disputa por posição. Foram tantos erros, alguns infantis e grosseiros, que permitiram a Hamilton conquistar o campeonato antecipadamente no México, faltando ainda duas etapas para o término da temporada. [A Mercedes, no final do campeonato, tinha um carro definitivamente melhor, depois da primeira parte ter sido bastante parelha, e isso também contribuiu para o final antecipado da disputa].

Com a chegada de Leclerc em 2019, Vettel sentiu ainda mais a pressão, continuou cometendo erros inadmissíveis, como a rodada no Bahrein, a escapada no Canadá, a batida na Grã Bretanha, outra rodada, dessa vez sozinho, na Itália, e quando jogou o carro contra Leclerc no Brasil, acabando com a corrida dos dois. Terminou o ano derrotado na classificação pelo placar de 12×9, fazendo duas poles e conquistando uma vitória, contra sete poles e duas vitórias de seu companheiro. Mesmo jovem e cometendo vários erros, Leclerc conquistou mais pontos e terminou a sua frente no campeonato de pilotos.

Vettel nunca venceu uma corrida largando além da terceira posição no grid, evidenciando a necessidade de um carro muito mais rápido que o dos concorrentes, para, dessa maneira, largar na frente e vencer, evitando disputas diretas na pista. Além dos erros recorrentes nos últimos anos, o que não era visto com tanta frequência na Red Bull, 2019 mostrou que ele talvez não seja tão rápido assim na classificação, fazendo apenas duas das nove poles da equipe. O carro era comprovadamente rápido, e um tetracampeão legítimo deve adaptar-se a qualquer equipamento e condição.

Partindo do pressuposto de que Vettel foi genial de 2010 a 2013, coincidentemente, os anos em que a Red Bull reinava na F1, seu último ano na Red Bull e seus anos na Ferrari mostraram inconsistência, debilidades e inseguranças, colocando em cheque sua genialidade, não seu talento, sem dúvida, acima da média.

Em comparação direta com Alonso, que chegou muito próximo do título em duas oportunidades com Ferraris pouco competitivas, ambos tiveram Raikkonen como companheiro, e Vettel não mostrou a mesma capacidade e força mental do espanhol, mesmo com equipamento melhor.

A Ferrari parece ter finalmente percebido que Vettel é o problema da equipe, o piloto não resistiu a pressão da mídia italiana e da Scuderia, que agora se vê forçada a ir atrás de Hamilton para substituí-lo em 2021. Mas esse movimento tem uma razão implícita, não é simplesmente a substituição de um ótimo piloto por um ainda melhor, fosse isso bastaria chamar de volta Alonso, que terminou 2018 em excelente forma, com o placar de 21×0 a seu favor sobre Vandoorne. Trazendo Hamilton, eles enfraquecem também a Mercedes, principal rival.

O balanço da última década mostra que a Ferrari deveria ter convencido Alonso a ficar na equipe (ou se o dispensou, deve ter se arrependido amargamente), ou mesmo ter trazido o outro piloto da Red Bull em 2014, Ricciardo, para a equipe.

Para 2020, resta a Ferrari apostar suas fichas em Leclerc, já com mais experiência dentro da equipe e na F1.

Quem é Ecclestone: Bernie, o chefe de todos


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Bernie Ecclestone mostrou às equipes que faltava liderança à F1 para fazer dinheiro. Aliou-se a Max Mosley e os dois tomaram o controle da categoria

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Quem é Ecclestone: Bernie, o chefe de equipe


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Como Bernie Ecclestone reergueu a equipe Brabham e conquistou títulos com Nelson Piquet na Fórmula 1. É a terceira parte do especial sobre a vida do inglês

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As desventuras de Otto Stuppacher: o pior piloto da história?

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Paulo Abreu

Houve um tempo na F1 em que era relativamente fácil disputar um GP. Comprando um chassi de linha corrente (Marchs, Brabhans, Lotus e Tyrrells), com um bom motor Ford Cosworth, um punhado de pneus Goodyear ou Firestone, era uma questão de se inscrever e tentar a sorte contra os melhores pilotos daquela época. Isso foi muito comum quando a Fórmula 1 visitava regularmente a África do Sul nos anos 60 e 70 para realizar seus GPs. Pilotos privados compravam e/ ou alugavam carros e se inscreviam para disputar o GP. E isso não era apenas na África do Sul. Na maioria dos países por que a categoria passava, sempre havia pilotos locais que usavam essa “facilidade” para poderem correr seu GP local. No GP da Áustria de 1976, um desses casos tornou-se um dos mais cômicos – ou bizarros – da história da categoria. O nome do piloto: Otto Stuppacher.

Nascido em Viena em 3 de março de 1947, Stuppacher teve uma carreira formada basicamente em provas de subida de montanha na Áustria, onde conseguiu certo sucesso. Arriscou a sorte em provas de longa duração, mas a sua melhor colocação nesse tipo de corrida foi na inauguração de Zeltweg, em julho de 1969, quando chegou em terceiro ao volante de um Porsche 906, logo atrás do vencedor Andrea de Adamich e de Jo Bonnier. Em 1970, lá mesmo em Zeltweg, dividiu um Porsche 910 do Bosch Racing Team com Niki Lauda. Largaram em 17º e encerraram a prova em 21º. Otto ainda tentou algo em outras categorias de turismo e endurance e nas provas de subida de montanha, sem conseguir nada de concreto. Em 1972, ele abandonou o automobilismo, mas retornou em 75 para disputar provas de endurance.
No GP da Áustria de 1976, o time local, a ÖASC Racing Team, resolveu disputar a corrida e alugou junto à Tyrrell um velho 007 que a equipe havia usado até a temporada de 75. Era um bom carro, que quase levara Scheckter ao título de 74, e ainda foi um bom carro na temporada de 75. Qualquer bom piloto poderia levá-lo, pelo menos, a largar no meio do grid. Otto foi inscrito para aquele GP, mas os comissários recusaram sua entrada por entenderem que ele não tinha nada de interessante em seu currículo. Inconformado, Otto tentou um abaixo-assinado com os demais pilotos para que pudesse correr. Mas isso não aconteceu e ele ficou de fora da corrida. Seu compatriota Karl Oppitzhauser, pilotando um March 761, conseguiu treinar, mas não obteve uma marca suficiente para largar.

Dois GPs mais tarde, o nome de Otto reapareceu na lista dos pilotos que iriam disputar o GP da Itália. Desta vez, ele conseguira se inscrever e persuadiu a equipe da ÖASC a disputar as últimas corridas daquele ano. Monza é um circuito rápido e, de certa forma, simples. O piloto não tem um trabalho brutal como para correr, por exemplo, em Mônaco ou até mesmo em Nurburgring, em que a técnica conta muito. Em Monza, a velocidade é vital para o sucesso. Mesmo assim, isso não facilitou a vida de Otto. No treino classificatório, ele conseguiu ser 13s97 mais lento que a pole daquele GP, que foi de Laffite com a marca de 1min41s35 e Stuppacher, assim, não conseguiu a qualificação. Mas o melhor estava por vir. Mais tarde, Hunt e Mass pela Mclaren e Watson pela Penske foram desclassificados por irregularidades no combustível e isso abriu a chance para Merzario e Otto poderem correr o GP italiano. Mas o desafortunado do austríaco tinha voltado para a Áustria no mesmo dia, e assim não pode desfrutar desse “presente”. Em um desses casos obscuros da F1, a CSI acabou permitindo a volta de Hunt, Mass e Watson para o grid saindo das últimas três posições

A prova seguinte era o GP do Canadá e nada mudou com relação ao que tinha sido apresentado em Monza. Stuppacher conseguiu outra volta extremamente lenta, ao ficar 12s695 atrás da pole feita por Hunt com o tempo de 1min12s389. Resultado: mais uma vez fora do grid de largada. E nem o fato de Chris Amon e Harald Ertl serem retirados antes do início da corrida, após se acidentarem durante o warm up, fez com que Otto pudesse participar. Enquanto seu nome já virava piada pelo paddock e alguns sugeriam seu retorno para sua belíssima Áustria (ele estampou no bico do seu Tyrrell uma bandeira da Áustria com os dizeres “Austria is Beautiful” e daí surgiu a piada feita por um comissário “Se a Áustria é tão bonita, por que ele não volta para lá?”).

Se em Monza e em Mosport a exibição tinha sido penosa, o que dizer de sua performance em Watkins Glen, na semana seguinte? Para ser mais justo, as comparações têm que ser feitas com os seus rivais pelas derradeiras posições: os tempos marcados por Lunger (Surtees), Merzario (Wolf) e Pescarollo (Surtees) fizeram, respectivamente, 1min51s373, 2min00s932 e 2min05s211. Pois bem, são tempos extremamente altos, visto que a pole de Hunt foi feita em 1min43s622. Mas na última posição, para variar, aparece Otto e o que mais impressiona é o tempo que ele marcou: 2min11s070! Eram gritantes 27s448  mais lento que James – que ainda é recorde de diferença entre o primeiro e último colocado de um grid de largada. A CSI, como era de esperar, não autorizou a sua participação no GP.

A experiência que a ÖASC teve com Otto foi pavorosa. Um gasto danado que não surtiu em nada e talvez por isso, não tentaram nem ir para o GP do Japão. Mais tarde surgiu um fato que acabou explicando a sua lentidão durante os treinos: ele se preocupava mais em olhar os retrovisores para não atrapalhar quem viesse logo atrás. Com o seu humor ácido, Niki Lauda, então líder do mundial de 1976 e na luta contra James Hunt pelo título, lamentou a não ida de seu conterrâneo a Fuji dizendo “que Otto poderia ajudá-lo a atrapalhar Hunt na pista”.
Stuppacher desapareceu da cena automobilística ainda em 76 e só reapareceu em 2001 quando foi noticiada a sua morte em Viena, aos 54 anos.

Quem é Ecclestone: Bernie, o vendedor de carros


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Bernie Ecclestone mostrou uma habilidade ímpar de enxergar maneiras de levar vantagens em negócios e construíu o império na F1 do nada

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A primeira vitória dos brasileiros na F1

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Thales Oliveira, estudante de jornalismo e criador do blog Fórmula Automobilismo (formulaautomobilismo.car.blog)

Muito graças aos nossos três campeões mundiais, Fittipaldi, Piquet e Senna, o Brasil é um dos grandes países da Fórmula 1. Somos o país não-europeu com mais títulos, e atualmente, um dos maiores públicos da categoria. Para reafirmar um pouco de toda essa história do Brasil com a F1 – que está num hiato – vamos relembrar a primeira vitória de cada um de nossos pilotos na categoria.

Emerson Fittipaldi – GP dos Estados Unidos de 1970

Emerson foi pioneiro para o Brasil no automobilismo internacional. O primeiro brasileiro a ser campeão da F1, foi também o primeiro a vencer uma corrida na categoria. Após ser campeão da F3 britânica em 1969, migrou para a F2 europeia no ano seguinte. Ainda em 1970, depois de um bom começo de temporada, começou a correr pela Lotus na F1.

Em 1970, também tivemos a primeira transmissão televisiva da categoria no Brasil, pela Record. A estreia, Brands Hatch, primeira corrida de Emerson na Fórmula 1. Infelizmente a cobertura do campeonato foi esparsada e o GP dos Estados Unidos de 1970 não foi transmitido.

Nos Estados Unidos, penúltima etapa da temporada, Emerson conquistou sua primeira vitória. Após largar da terceira posição e completar 108 voltas, Emerson e seu Lotus-Ford terminaram a corrida em primeiro. Com a vitória do brasileiro, Jochen Rindt se tornou o primeiro e único (até agora) campeão póstumo da F1.

José Carlos Pace – GP do Brasil de 1975

Exite primeira vitória melhor que aquela em casa? Para Pace, sua primeira e única vitória na Fórmula 1 foi essa. Na quarta edição do GP do Brasil, terceira como etapa válida do campeonato, o autódromo de Interlagos em seu antigo traçado – de quase 8 km – viu a Brabham #8 de José Carlos Pace ser o primeiro carro a completar as 40 voltas da corrida.

No pódio, o atual campeão Emerson completou a dobradinha brasileira em casa. A temporada de 1975 foi a melhor do piloto, terminando em 6º com 24 pontos somados, após pontuar em Kyalami e Zandvoort, além dos pódios em Mônaco (3º) e Silverstone (2º).

Pace morreu em 1977, num acidente de avião. Em sua homenagem, o autódromo de Interlagos, onde teve sua única vitória na Fórmula 1, foi batizado de Autódromo José Carlos Pace, em 1985.

Nelson Piquet – GP do Oeste dos Estados Unidos de 1980

Em sua segunda temporada completa na Fórmula 1, Piquet mostrou ao mundo que ser campeão era questão de tempo. Na temporada anterior, 1979, terminou apenas 5 das 15 corridas. Em 1980, começou a temporada conquistando seu primeiro pódio, um 2º lugar na Argentina, a primeira etapa da temporada.

A primeira vitória veio em 30 de Março, no GP do Oeste dos Estados Unidos, realizado em Long Beach. Nada como a Califórnia como casa da primeira vitória de um carioca.

O fim de semana foi perfeito para Nelson. Na classificação, o melhor tempo, 1:17.694. Único carro na casa dos 17 segundos, com quase 1 segundo de vantagem para o segundo colocado. Na corrida, o Brabham BT49 e seu motor Ford-Cosworth DFV V8 brilharam nas mãos de Piquet, com liderança de ponta a ponta em uma corrida limpa e sem ameaças. Na volta 38, o brasileiro ainda anotou a volta mais rápida da corrida, garantindo que sua primeira vitória fosse um Grand Chelem.

Ao fim da prova Piquet foi ao topo do pódio, acompanhado de Ricciardo Patrese e Emerson Fittipaldi (último pódio de Emerson). No campeonato, empatou com René Arnoux na liderança, com 18 pontos. Ao fim da temporada, Alan Jones se tornou campeão e Piquet foi o vice. O primeiro título ficou para 1981.

Ayrton Senna – GP de Portugal de 1985

Senna é, considerado por muitos, um herói nacional. Mas nem sempre foi assim. Em 1984, era apenas um menino estreante. Claro, houve Mônaco naquele ano, além dos 3º lugares em Brands Hatch e Estoril. Mas ainda assim, um estreante se tornando promessa. Promessa essa, que  começou a se tornar realidade em 21 de Abril de 1985.

Chegando no GP de Portugal, vindo de um pódio no ano anterior (última etapa de 1984) e de um abandono na abertura do campeonato em Jacarepaguá, Senna começou suas conquistas na F1.

Nos treinos, com pista ainda seca, Ayrton garantiu a pole em cima de Alain Prost, seu grande rival histórico e na época, ainda futuro companheiro de equipe.

Para a corrida, chuva. Muita chuva. Senna liderou de ponta a ponta, mostrando ao mundo sua habilidade de baixo d’água. Diversos outros, não tiveram sorte com as águas e Prost e Keke Rosberg foram uns dos que rodaram. O brasileiro também marcou a volta mais rápida da corrida, igualando a marca de Piquet e tendo como sua primeira vitória um Grand Chelem.

Ao fim da corrida, na volta 67, três antes do programado por conta da chuva, menos da metade do grid conseguiu terminar a prova. Ayrton também deu pelo menos uma volta em todos a partir do 3º colocado. O segundo colocado, Michele Alboreto, terminou na volta do líder à 1:02.978 de distância de Ayrton

Senna voltou a vencer no GP da Bélgica do mesmo ano, e terminou a temporada em 4º.

Rubens Barrichello – GP da Alemanha de 2000

Na Fórmula 1 desde 1993, Rubinho teve um começo promissor. Com resultados bons, e em certo nível constantes, para as equipes menores onde corria, em 2000 chegou à Ferrari. Ao longo da temporada, foi, basicamente, escudeiro de Michael Schumacher. Isso, até chegar em Hockenheim.

Na Alemanha, a classificação não foi boa. Barrichello ficou apenas com o 18º lugar no grid. Na corrida, a sorte sorriu para ele. Já na volta de apresentação, o motor de Jenson Button não ligou e o britânico foi forçado a largar do fim do grid. Rubens ganhou uma posição. Na primeira volta, Schumacher e Giancarlo Fisichella bateram e não passaram da primeira curva.

Além da sorte, o brasileiro ainda passou outros cincos carros, totalizando um ganho de oito posições na primeira volta, de 18º para 10º. Na volta 15, já era o terceiro e na volta 17 fez sua primeira parada nos boxes, sendo primeiro a parar.

Um dos fatos mais marcantes da corrida aconteceu na volta 25, quando um homem invadiu e atravessou a pista. O homem era um ex-funcionário da Mercedes que havia sido demitido. O ocorrido causou a entrada do Safety Car na pista e os carros fizeram suas paradas nos boxes. O invasor foi imobilizado pelos fiscais de prova e retirado da pista.

Pouco depois, Jean Alesi e Pedro Paulo Diniz se envolveram e um acidente trazendo o Safety Car de volta à pista. Na corrida, ainda tinha a chuva para chegar e favorecer o paulista acostumado com água na pista.

Após as 45 voltas previstas, Barrichello recebeu a bandeira quadriculada e ganhou sua primeira corrida na F1. Depois, só voltou a vencer em 2002 na Áustria no GP da Europa em Nurburgring.

Felipe Massa – GP da Turquia de 2006

Depois de três temporadas na Sauber, Massa estreou pela Ferrari em 2006, e assim como Rubinho foi companheiro de equipe de Schumacher, em seu último ano na Fórmula 1 (até chegar 2010).

Antes da Turquia, já tinha visitado o pódio em quatro ocasiões na temporada: GP da Europa (3º), GP dos Estados Unidos (2º), GP da França (3º) e GP da Alemanha (2º).

No circuito de Istambul, o sábado foi promissor e Felipe cravou a pole com o tempo de 1:26.907, superando os grandes Alonso e Schumacher que disputavam o título daquele ano. Para a corrida, um domingo de sol quente. Mesmo com um Safety Car por conta de um incidente com Liuzzi, a corrida foi tranquila para Felipe Massa. O brasileiro foi quase coadjuvante na corrida de sua primeira vitória, graças a batalha entre Schumacher e Alonso pelo titulo da temporada 2006.

Massa voltou a vencer ainda em 2006, na última corrida da temporada, o GP do Brasil. E em 2008 teve seu melhor ano na F1, disputando o título da temporada com Lewis Hamilton até o último GP, de novo aqui no Brasil, como todos se lembram.


O Brasil gerou grandes pilotos, não só para a Fórmula 1, e esses foram aqueles que conseguiram subir ao lugar mais alto do pódio em um GP. Hoje nos resta esperar um novo brasileiro alinhando no grid de mais um Grande Prêmio.

Quem é Ecclestone: Bernie , o piloto


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Este inglês que nasceu em 1930, na vila de Saint Peter, já esteve do outro lado do jogo, dentro dos carros. Na infância, chegou a colher batatas para ajudar a família, mas logo o lado negociador começou a aflorar no jovem que se tornaria, na prática, o dono da F1 até 2016.

Falando em batatas, existe até uma passagem marcante de sua vida, quando se escondeu no meio da plantação quando os aviões alemães faziam a blitz na Inglaterra durante a segunda guerra mundial.

Bernie largou a escola aos 16 anos para trabalhar num gasômetro e logo entrou para o mundo dos negócios, vendendo peças para motocicletas. Depois, passou a vender carros.

Neste período ele conheceu Fred Compton com o qual montou a primeira equipe, a Compton & Ecclestone, de motociclismo. Logo se mudou para as quatro rodas e foi por onde começou a competir.

Até que Bernie já teve pinta de piloto

As primeiras experiências foram na antiga 500cc Fórmula 3, categoria que deu origem a todas as F3 espalhadas pelo mundo. Em 1951 ele venceu a corrida de categoria Júnior e terminou em quarto na principal num campeonato realizado em Brands Hatch.

No mês seguinte, foi o vencedor das duas provas da mesma competição. Já no Troféu Internacional de Goodwood, no mesmo ano, terminou em segundo na prova de Maio.

Acidente tirou Ecclestone das pistas

Daí para frente Bernie foi somando bons resultados até que num forte acidente, em Brands Hatch, quando seu carro saiu da pista e foi parar no estacionamento do circuito, decidiu deixar as pistas. Ecclestone adquiriu a equipe Connaught e passou a empresariar pilotos, com destaque para Stuart Lewis-Evans, que chegou à Fórmula 1 com a equipe do empresário.

Em 1958, a bordo de um carro da própria equipe, Bernie voltou a se aventurar atrás de um volante novamente, tentando se classificar para a etapa de Mônaco da F1. Entretanto, não conseguiu se colocar entre os 16 pilotos que alinharam para a prova. Lewis-Evans, ainda pupilo de Bernie, mas já na equipe Vanwall, se classificou em sétimo.

Mais tarde, ele tentou se classificar para outra prova da categoria, em Silverstone, mas ficou a 40s do último colocado do grid. “Não é que eu não era tão bom quanto gostaria de ser. Comandava um negócio, e isso era mais importante que correr. Então me concentrei no negócio e decidi parar de correr”, Bernie não reconhece que simplesmente isso não era para ele.

Após estas tentativas fracassadas de se classificar para uma prova da Fórmula 1 e o acidente que levou à morte seu pupilo Stuart Lewis-Evans no GP do Marrocos no dia 19 de Outubro de 1958, Bernie abandonou o volante de vez para se concentrar no mundo dos negócios. Mas esta história fica para os outros capítulos deste especial sobre Ecclestone.

Confira também:
Bernie, o vendedor de carros
Bernie, o chefe de equipe
Bernie, o chefe de todos

Um ano para as mulheres comemorarem

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Rafaela Oliveira

O campeonato de 2019 da Fórmula foi repleto de grandes comemorações. Em um ano com grandes disputas, novos pilotos talentosos aparecendo e primeiros pódios de alguns deles, não se pode ignorar que as mulheres fãs e profissionais do automobilismo têm o que celebrar.

É aquela velha história -um passo de cada vez-, claro que parece que esses passos estão lentos, mas o fim da década pareceu promissor. Este foi o ano com mais mulheres subindo ao pódio: primeiro foi a engenheira Marga Torres representando a Mercedes no Canadá. Demoraram alguns GPs para Hannah Schmitz, estrategista sênior da Red Bull Racing, subir ao pódio no Brasil e então Lewis Hamilton foi acompanhando da profissional de marketing e conselheira administrativa da Mercedes Britta Seeger, na última etapa do calendário, em Abu Dhabi.

(Faço uma nota aqui: importante destacar que a Hannah subiu ao pódio por ter tomado a decisão estratégica final que deu a vitória a Verstappen. Aliás, é curioso como o número de mulheres estrategistas é grande no grid)

Além dessas presenças ilustres, a participação de Aseel Al Hamadna entrega do “troféu” de pole position no Grande Prêmio de Abu Dhabi foi bem emblemática. Sendo uma região conhecida por seu pouco interesse nos diretos das mulheres, a presença da primeira mulher membro do conselho da Federação Saudita de Automobilismo, foi muito exaltada.

O ano também deu o ponta pé inicial para a nova categoria que promete ajudar mulheres a alcançarem seu espaço como piloto de Fórmula 1. Ninguém sabe se a W Series vai trazer um resultado real, mas a tentativa é mais do que válida.

Cada vez mais vistas, seja nas arquibancadas, na sala de imprensa ou no box as mulheres parecem com mais força e quem sabe até mesmo mais “à vontade” para impor sua presença.

A caminhada ainda é longa, mas o ano termina com um saldo positivo e devemos comemorar.

 

 

Um exemplo para a F-1

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Marcio Ventura

Falar da temporada de 2020 será o mesmo que chover no molhado já que, com o atual cenário, o título será novamente disputado entre as três principais equipes (Mercedes, Ferrari e Red Bull), principalmente em função da atual divisão de renda do esporte.

É assim que desejo demonstrar o que a Fórmula 1 (Liberty + FIA + equipes), podem aprender com os quase 30 anos de Premier League.

A Premier League é o maior campeonato de futebol do mundo, não só em termos de receita, como também por seu número crescente de fãs – eu aqui, por exemplo, há quatro anos acompanho este campeonato.

(Um parênteses da Ju aqui: a transformação do campeonato inglês na Premier League é um case interessantíssimo. O modelo financeiro adotado surgiu da ameaça dos grandes clubes de fazerem sua própria liga, nos anos 1980. Nessa época, o futebol inglês era bem diferente do que é hoje: a violência tomou a conta dos estádios a ponto da Inglaterra ser banida de competições internacionais; os jogadores ingleses preferiam jogar na Itália e na Espanha; os estádios eram sucateados e atraíam poucos fãs. A situação começou a mudar com a nova distribuição de dinheiro acordada em 1986 e depois da adoção de regras baseadas no relatório Taylor, que estabeleceu novos padrões e condutas para os clubes especialmente em relação à segurança. O campeonato como um todo se tornou um negócio melhor para as TVs, que colocaram mais dinheiro. E esse dinheiro foi mais bem distribuído. E um dos patinhos feios do futebol europeu virou o maior do mundo)

E o que faz este interesse subir a cada temporada? O equilíbrio entre as equipes, a possibilidade de uma equipe fora do Big Six (Manchester United, Manchester City, Arsenal, Chelsea, Tottenham e Liverpool), ser competitiva e até ser campeã, como o Leicester City na temporada 2015/2016.

Voltando para a Fórmula1, temos hoje o cenário da Big Tree (mais para Big One nas últimas seis temporadas, visto o domínio completo que a Mercedes impôs, fato antes nunca visto na categoria). E olha que acompanho a mesma desde 1980, quando um australiano, chamado Alan Jones, disputou aquele campeonato com o nosso tricampeão Nelson Piquet.

Bom, qual foi o segredo da Premier League, e que na minha opinião está nas mãos das equipes, FIA e Liberty: refazer a divisão dos valores arrecadados com os direitos de transmissão das mídias, patrocinadores e em cada etapa, de forma mais igualitária e que permita que as equipes do meio e fim de pelotão possam trabalhar com mais folga nos orçamentos e assim desenvolverem monopostos mais competitivos. Honestamente, foi ridículo o que ocorreu na etapa da Rússia, onde a Williams recolheu o Kubica da pista de forma a evitar um acidente, pois poderia não ter peças para as etapas finais do mundial. Uma categoria que se valoriza hoje pela tecnologia que implanta em seus carros e destes para os carros de rua, não pode ter este tipo de cenário em seu campeonato, assim como não é o correto ver a falência da Williams, pois se a Ferrari faz parte da história e fatura US$ 100 milhões ano por isso, porque a Williams, por ser a última equipe das tradicionais garagens inglesas, não teria direito a uma verba extra!

(Faço outro parênteses: o total recebido pela Ferrari em 2019 por questões que não dependem do resultado na pista chega a 114 milhões de dólares. A Williams recebe, sim, um adicional pelo valor histórico, mas ele foi de 10 milhões neste ano)

Assim, na minha opinião, o certo seria acabar com estes privilégios e permitir que as 10 equipes do grid possam disputar o campeonato em melhores condições. É claro que sempre haverá os favoritos e os que irão completar o grid, mas como seria bom ver as equipes com diferenças menores de tempo entre si e com a possibilidade de conquistarem posições a cada etapa, pois não dá apenas para depender da condição meteorológica para que tenhamos treinos classificatórios ou etapas com cenários diferentes do que vem ocorrendo em condições normais de temperatura e pressão.

Não saberia dizer se a divisão da Premier League seria a melhor para a Fórmula 1: a princípio, 50% do faturamento é dividido em partes iguais e os outros 50% em uma escala de classificação e prêmios para os vencedores, porém é fato que nestes 30 anos, nenhuma liga cresceu tanto em todos os sentidos como a Premier League e por isso que vejo que a Fórmula 1 precisa de alguma forma entender isso, para no futuro ter um campeonato muito melhor, pois com isso, sem sombra de dúvidas, o faturamento irá crescer a níveis nunca vistos, já que a sua popularidade irá aumentar a cada ano, após a decadência das últimas duas décadas.

Assim, que 2021, seja realmente um ano de mudanças, não apenas na parte técnica, e não da continuidade que a Fórmula 1 se encontra.

Três histórias da Fórmula 1 que merecem ir para o cinema

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Arthur Marques

O automobilismo não é exatamente um campeão de popularidade com os produtores de
cinema de Hollywood. Além das questões como os custos de produção envolvidos, em
geral esportes que possuem maior identidade com os EUA, são escolhidos pelos produtores
dos grandes estúdios.

Porém, vez ou outra o esporte a motor é retratado nas telonas de cinema, produzindo obras
que cativam os apaixonados pelo esporte. No passado tivemos Grand Prix (1966), estrelado
por James Garner, e o filme As 24 Horas de Le Mans (1971) com Steve McQueen como
ator principal. Rush (2013) foi o último filme em que o automobilismo foi representado nas
telonas. O filme vem contando a histórica rivalidade entre Niki Lauda e James Hunt,
representados por Daniel Bruhl e Chris Hemsworth.

Mais recentemente, o filme Ford vs. Ferrari, que contou a história do lendário Carroll Shelby, responsável cenário o desenvolvimento do icônico Ford GT40. A produção dirigida por James Mangold conta com nomes como Matt Damon e Christian Bale em seu elenco.

Aproveitando o lançamento do filme, e a saudade que os amantes da Fórmula 1 sentem
desde o lançamento de Rush, nós escolhemos aqui 3 histórias da Fórmula 1 que são dignas
de virarem filme.

A rivalidade entre Senna x Prost
Uma das maiores rivalidades da história do esporte, e provavelmente a maior já
vista na Fórmula 1. Senna x Prost protagonizaram em pistas ao redor do mundo, no final
dos anos 80 e começo dos 90, cenas dignas das maiores telas de cinema do mundo. Com
direito a finais felizes e tristes (dependendo de para quem você torce), cenas de tensão,
discussões e brigas, a rivalidade entre ambos mudou a história e os rumos da Fórmula 1,
aumentando muito a sua audiência global.

Essa história é tão rica, e contém capítulos tão bons, que poderia ser escrito em formato de
trilogia (no melhor estilo O Senhor dos Anéis). Uma primeira parte retratando um Alain Prost
já consagrado, e bicampeão do mundo na McLaren. Em paralelo a história de um certo
Ayrton Senna, lutando para mostrar o seu potencial, e conseguir um lugar em uma grande
equipe e lutar pelo seu sonho de ser campeão na Fórmula 1.

O período em que ambos foram companheiros de equipe na McLaren merece um filme à
parte. Aqui, podemos ver Senna recebendo sua grande oportunidade de mostrar o seu
potencial. Em contraste, temos Prost vendo sua posição na equipe ameaçada pelo jovem
talento e suas ambições. O resultado já é conhecido, tendo cada um levado um título e
ambos arrancado os poucos fios de cabelo existentes na cabeça de Ron Dennis. As
histórias desse período marcaram toda uma geração de fãs da Fórmula 1, como a polêmica
decisão do campeonato de 1989, que marcaria o final deste segundo filme.

E no que seria último filme dessa franquia, a história se inicia com a ida de Prost para a
Ferrari, então maior rival da McLaren à época. Com um enredo passando pela acirrada
temporada de 1990 e retratando o acidente entre ambos em Suzuka, o que deu o
bicampeonato à Senna. Em seguida o ano 1991, quando Senna iguala o número de títulos
de seu ex-companheiro de equipe, e antigo ídolo. Por fim, o ano sabático de Prost, além do
sofrimento de Senna com uma temporada pouco competitiva da McLaren em 1992; o
retorno do Professor na Williams (e com um detalhe: vetando a presença de Senna) para
ser tetracampeão, com direito à reconciliação entre ambos no final da temporada.
Uma trilogia e tanto para os amantes do automobilismo se jogarem na pipoca, e nas salas
de cinema no mundo todo. Difícil somente vai ser achar um ator que para interpretar o Alain
Prost.

A biografia de Colin Chapman
Não é exagero nenhum dizer para um amante do automobilismo que Colin Chapman está
para a Fórmula 1, assim como Steve Jobs está para a tecnologia. O projetista foi um gênio
criativo, inovador e ousado, que revolucionou a construção dos carros de Fórmula 1 nos
anos 60, 70 e começo dos anos 80, fazendo com que a Lotus se tornasse uma das grandes
equipes da época.

Chapman introduziu à categoria conceitos inovadores de aerodinâmica. Se hoje nós
conhecemos os carros em sua concepção com aerofólios, deve-se à ele. Suas ideias são
atemporais, como o efeito-solo. Uma inovação aerodinâmica introduzida em 1977 no Lotus
79, e que deverá ser adotada pelo regulamento nos carros da Fórmula 1 em 2021.

A Lotus também produziu grandes campeões nesse período. Alguns com relação muitopróxima ao dono da equipe, como Jim Clark e Jochen Rindt. Porém, com o passar do tempo,
a concorrência foi se acirrando, e outras equipes recuperaram o terreno perdido. Some-se a
isso polêmico envolvimento de Colin com John DeLorean, as dívidas da Lotus com o
governo Inglês, além da saúde de Colin já não estar lá muito em ordem. Assim, o homem
que jogava o boné a cada vitória de um carro seu, perdeu a corrida contra a própria saúde,
sofrendo um ataque cardíaco e falecendo no ano de 1982.

Além dos amantes do automobilismo, trata-se de uma histórica humana rica em conteúdo,
onde é retratado um gênio da inovação automobilística e da engenharia.

A temporada de 1982
O ano de 1982 é marcante para a Fórmula 1 por várias razões. Nesse ano morreram Gilles
Villeneuve e Riccardo Paletti em acidentes dentro da pista, além do já citado Colin
Chapman fora das pistas. Também neste ano, Didier Pironi, que se tornara favorito ao título,
teve sua aposentadoria forçada após um acidente nos treinos para o GP da Alemanha. E
Jochen Mass decidiu por se afastar das pistas por um tempo, após sofrer um forte acidente
no GP da França

Mas, não pense que esta temporada se resumiu à mortes e derramamento de sangue no
asfalto. O ano de 1982 marcou o retorno de Niki Lauda às pistas, uma inédita greve dos
pilotos antes da corrida de abertura, guerras políticas entre FISA e FOCA, brechas no
regulamento, o começo de uma era dos motores Turbo na categoria, boicotes das equipes,
a ferrenha rivalidade entre Villeneuve e Pironi, troca de tapas em plena pista, um GP da
Suíça que na verdade foi na França, três GPs nos EUA e um título definido na última etapa
do campeonato em favor de um piloto que venceu somente uma única corrida ao longo da
temporada. Ufa!

Em uma temporada com cenas dignas de filmes dirigidos e escritos por Quentin Tarantino,
o finlandês Keke Rosberg se sobressaiu por meio da regularidade ao longo do ano, levando
a Williams (que utilizava um motor aspirado nessa época) ao seu segundo título de pilotos
em menos de 3 anos, superando as favoritas Ferrari, Renault e Brabham. Algo nada
parecido essa Williams que a gente vê hoje na pista. Detalhe: Rosberg conseguiu esse feito
tendo vencido somente uma única corrida, repetindo o feito de Mike Hawthorn em 1958.
Nunca mais esse fato foi repetido na história da Fórmula 1.

E você, gostou das nossas escolhas? Tem alguma sugestão de história que poderia virar
filme? Deixe seu comentário aqui embaixo, e conte para nós a sua opinião!

Quem foi campeão da F1 em novembro (no século XX)


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Nem sempre os campeonatos da F1 foram tão longos como agora. Nos primeiros 50 anos da categoria, só houve 4 campeões em novembro na categoria

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A audiência subiu!

Lá nos idos de 2010, eu comecei um blog totalmente independente. Minha ideia era escrever coisas que eu gostaria de encontrar na internet, mas não conseguia. E não é que tinha mais gente com a mesma “sede” que a minha? Não demorou para o Faster F1 ser notado por profissionais da área e, no final do ano, Luis Fernando Ramos, o Ico, me convidou para escrever um texto no blog dele. E logo depois ele e o Felipe Motta me chamaram para fazer parte do time do TotalRace. Quase dez anos depois, chegou a hora de eu retribuir. Selecionei 12 textos entre as dezenas que me mandaram e espero que curtam o material que vai ser publicado até meados de janeiro por aqui.

Por Karine Gomes

Carros velozes, ronco de motor, corridas muito disputadas… Ingredientes não faltam para o amante de automobilismo assistir a F1. Mesmo assim, a não presença de um representante brasileiro poderia deixar uma pulga atrás da orelha de alguns possíveis telespectadores.

Mas não foi o que aconteceu em 2019. Pelo segundo ano, a F1 foi transmitida em TV aberta mesmo sem um piloto do Brasil na pista. E o resultado não decepcionou. O site Máquina do Esporte destaca que as transmissões da Globo alcançaram 98,3 milhões de pessoas ao longo das 21 provas da temporada, segundo o Painel Nacional de Televisão. Isso significa uma média de audiência de 9 pontos, ou seja, o melhor índice em oito anos.

Em relação a 2018, ano já sem um piloto brasileiro, houve um crescimento de 13%.

Isso nos faz questionar: o que pode ter acarretado esse aumento? Por isso, separei alguns motivos que podem ter levado mais fãs a assistirem a modalidade, que terminou este ano com o título de Lewis Hamilton.

1 – Grid formado por pilotos mais jovens

A Fórmula 1 teve um grid repleto de jovens neste ano, inclusive a média de idade baixou em relação a 2018. Max Verstappen, da RBR, e Charles Leclerc, da Ferrari, já começaram 2019 sendo nomes promissores da modalidade e os fãs criaram boas expectativas. E estavam certos. Ambos protagonizaram excelentes disputas e terminaram no top 5 do ranking de pilotos na temporada. 

Mas, além deles, 2019 contou com outros jovens na F1: Lando Norris (19), George Russell (20), Lance Stroll (20), Pierre Gasly (22), Alexander Albon (22), Carlos Sainz (24),  Antonio Giovinazzi (24) e Daniil Kvyat (24).

Essas foram as idades em que os pilotos começaram a temporada. Alguns já tinham mais experiência na F1, outros eram estreantes, mesmo assim todos despertaram a curiosidade e a ansiedade por boas corridas. Hockenheim e Interlagos resumem bem o que aconteceu.

2 – Hegemonia da Mercedes 

A escuderia vem dominando a F1 desde 2014, tanto entre os pilotos como também entre os construtores. Em 2019 não foi diferente e Lewis Hamilton e Mercedes sagraram-se campeões, mas no início do ano a expectativa era diferente. Esperava-se que Ferrari e RBR pudessem quebrar essa sequência, levando mais emoção às corridas. Emoção teve, mas o título continuou com a Mercedes. 

Quem ficou em segundo lugar e mais perto de quebrar essa hegemonia foi a Ferrari, mas os erros da temporada deixaram a escuderia cada vez mais distante no número de pontos. Principalmente com o crescimento de Leclerc, a disputa interna entre os pilotos não deixou o clima entre os melhores. E, claro, esse foi mais um motivo para nós assistirmos tudo de perto. 

3 – Série na Netflix sobre F1

A série “Fórmula 1 – Dirigir para Viver” (Drive to Survive, em inglês) alcançou não só os amantes de F1, mas também públicos que não acompanhavam assiduamente a modalidade. A atração da Netflix registrou a temporada de 2018 e foi lançada neste ano contando como foram as corridas e também os bastidores do que aconteceu no ano passado. 

Sem Mercedes e Ferrari, a primeira temporada focou na briga entre Red Bull, Renault e Haas, trazendo também momentos de McLaren, Force India, Sauber, Toro Rosso e Williams.

Com isso, não é difícil perceber que o sucesso da série também ajudou no aumento de audiência da F1. E a nova temporada já está confirmada, inclusive com a presença de Mercedes e Ferrari.

“‘Dirigir para Viver’ nos permitiu alcançar uma base de fãs global inteiramente nova, e a parceria com a Netflix para uma segunda temporada garante que nós continuaremos colocando os fãs como o centro daquilo que fazemos, tornando o esporte mais aberto e acessível a todos”, declarou Ian Holmes, diretor de direitos de imagem da Fórmula 1.

Esses foram alguns motivos que podem ter feito a F1 aumentar a popularidade. É claro que outros fatores também podem ter colaborado, como o engajamento de Lewis Hamilton fora das pistas ou até mesmo a forte presença da modalidade nas redes sociais. O que importa é que os números aumentaram e a categoria segue viva no país, mesmo sem um representante. 

E você? Quando começou a se interessar por F1?

Politicagem à vista

Enquanto os engenheiros finalizam os carros de 2020, que serão os últimos de uma era, os bastidores da Fórmula 1 continuam em ebulição. Cartas importantes estão sendo jogadas e os acontecimentos dos últimos meses geraram um cenário pra lá de tumultuado. Chase Carey tenta fechar a divisão da receita da categoria entre as equipes, tirando muitos dos privilégios construídos na era Bernie – o que, muitos dizem no paddock, seria seu ato final antes da aposentadoria – ao mesmo tempo em que Red Bull e Mercedes se sentem traídas pela Ferrari.

Afinal, eles esperavam que o time italiano usasse seu poder de veto na votação das regras de 2021, mas os italianos não o fizeram. Quem acompanhou os drops dos bastidores soube que, já no México, antes do anúncio oficial ferrarista, Toto Wolff estava irritadíssimo.

Há quem diga que ele apostava no veto para costurar sua maior articulação feita até hoje no paddock, de olho justamente no posto de Chase. Parece até que ele andou lendo a biografia de Bernie Ecclestone, que chegou ao poder da F-1 justamente assim, fazendo o meio de campo entre todos os poderosos para tornar-se o maior deles. Não que isso tenha começado hoje: há anos Wolff vai além dos limites da Mercedes e seus clientes em suas articulações.

Mas essa jogada foi neutralizada pela própria Ferrari, que se colocou em uma situação política favorável ao dar a bênção às regras. Eles estão com a faca e o queijo na mão no momento: de bem com a Liberty, e com Jean Todt, que vem fazendo vista grossa para a questão da legalidade do motor ferrarista. Afinal, a Mercedes já dominou por muito tempo e o grande pupilo de seu filho veste vermelho, então faz todo o sentido.

Voltando à questão da divisão dos lucros, quando fui sondar os times médios, eles pareciam razoavelmente satisfeitos. Ouvi coisas como “está mais justo” e “estamos chegando lá”. Isso ainda em outubro. Ainda assim, a novela da renovação dos contratos de todas as equipes deve continuar pelos primeiros meses do ano que vem, indicando que são os grandes que não estão de acordo com a nova ordem.

Afinal, seriam duas bordoadas: a primeira é o teto de gastos, ainda que eles tenham conseguido tirar gastos importantes – pilotos, marketing – da lista. Com isso, embora o limite seja de 175 milhões, estima-se que as despesas reais para os grandes cheguem nos 250 milhões. Ainda assim, um time como a Mercedes gasta bem mais de 400 milhões por ano, então haverá, sim, uma necessidade de reajuste.

Na complicada configuração atual, a Ferrari ganha mais do que qualquer outra equipe mesmo se não ganhar o campeonato. Isso porque eles recebem, de cara, 73 milhões de dólares só por serem a equipe mais antiga, e ainda fazem parte da lista de cinco times que ganham um adicional por valor histórico (junto de Mercedes, Red Bull, McLaren e Williams – sim, é totalmente questionável essa divisão, mas foi a estratégia de Bernie de 2012). Ela é ainda mais maluca aos olhos dos norte-americanos, acostumados a fórmulas que visam a manutenção da competitividade entre seus times/franquias. Não precisa ser vidente para prever muita reunião tensa por aí.

Troféu melhores da temporada

Surpresas germânicas

Stroll na liderança, Williams pontuando, Mercedes fazendo lambança, Toro Rosso no pódio e Verstappen vencendo mesmo depois de ter dado um 360º na pista. A chuva que ia e vinha, e que muitas vezes só atingia algumas curvas, levou os engenheiros da F1 à loucura e os pilotos a cometer um erro atrás do outro. Leclerc e Hulkenberg foram dois dos que entenderam onde estavam os limites de pista na última curva, enquanto Lewis Hamilton não venceu na chuva pela primeira vez em muitos anos. A vitória ficou, é claro, com seu “herdeiro” direto no molhado.

 

Disputas em Silverstone

O traçado da pista de Silverstone, com suas curvas de alta e média velocidade em sequência, muitas vezes atrapalha as brigas por posição devido à turbulência. Mas, se houve uma pista em que as regras de 2019 surtiram mais efeito, acabou sendo justamente lá. As batalhas entre Lewis Hamilton e Valtteri Bottas, e entre Max Verstappen e Charles Leclerc foram épicas. Já a tentativa de Vettel em cima de Max, nem tanto…

 

O amadurecimento de Verstappen

Havia gente no paddock que acreditava que ele nunca conseguiria deixar de ser um piloto obviamente rápido, mas errático. E neste ano ele passou em branco até em Mônaco – e quase ganhou ainda por cima. Sim, ele ainda tem umas Maxices, como aquela do sábado no México (até porque círculo mais próximo o faz acreditar que é cool falar publicamente que não levantou o pé sob bandeira amarela – e para muitos fãs, de fato é), mas a invasão holandesa está cada vez mais se espalhando para etapas diferentes do calendário, e é uma excelente notícia para o futuro da F1 que 2019 tenha deixado um gostinho de que estamos longe de ver a melhor versão de Max Verstappen.

 

O fenômeno Charles

Quem não tinha percebido que esse tal de Charles Leclerc era especial nas categorias de base ou no seu primeiro ano na Fórmula 1, certamente não teve mais dúvidas depois do GP do Bahrein. A maneira como ele fez a pole e depois peitou Sebastian Vettel na pista e a própria Ferrari no rádio foi o cartão de visitas para quem julgava que a Scuderia tinha cometido um erro ao promover um piloto de apenas 21 anos. Ao longo do ano, ele foi muito forte em classificações, abriu caminho no pelotão, resistiu à pressão de Hamilton (e do mundo) para vencer em Monza, superou um tetracampeão do mundo. Sim, ele cometeu vários erros, uns maiores do que os outros, mas entra para a conta da falta de experiência. E uma pitada de bastidores: sempre quando ele para para tirar fotos com fãs ou é gentil com alguém, ouve de alguém do paddock “never change, Charles”. Por enquanto, deu certo. E essa é a cereja no bolo.

 

O melhor dos bastidores: Monopoly

Ok, classificação e corrida no domingo foi dureza, mas curtir a noite japonesa (o que é sempre uma caixinha de surpresas) sem ter que se preocupar com o horário na sexta e depois passar o sábado praticamente inteiro jogando Monopoly foi um dos melhores momentos da temporada. E não era um Monopoly qualquer, era o da Mercedes, então estávamos construindo boxes e pit walls nos diferentes GPs do ano. De certa forma, até que estávamos trabalhando!

(PS.: Eu tinha colocado a foto que estava salva para o piores antes… claro sinônimo de necessidade absoluta de férias! E optei por não colocar o Lewis porque é de coisas que me surpreenderam e/ou chamaram a atenção ele ser extremamente consistente já virou regra. É o “preço” de estar pilotando como um dos melhores da história)

O bi de Piquet e a legalidade da Brabham

No GP da África do Sul, Nelson Piquet conquistou seu segundo título mundial com o que pode ser chamado de nó tático em Alain Prost, da Renault, que chegara à última etapa do campeonato de 1983 liderando o campeonato por dois pontos. O francês tinha 57 pontos, contra 55 do brasileiro e 49 de René Arnoux, da Ferrari, que também tinha chances.

Depois de um 1982 recheado de acidentes, o efeito-solo foi proibido, o que fez com que os carros evoluíssem bastante ao longo da temporada e se alternassem na relação de forças. Isso, aliado às quebras, bem mais comuns em uma época em que a F1 se rendia aos motores turbo (Piquet, por exemplo, abandonou quatro das 15 etapas), fizeram com que o campeonato fosse bastante aberto e disputado, ainda que a Ferrari tenha se mostrado com o melhor conjunto ao longo do ano, com as Renault também fortes e a Brabham do campeão melhorando muito na parte final.

A Brabham de Piquet era legal?

Tanto, que Piquet venceu a primeira etapa, no Brasil, e só voltaria ao primeiro lugar com três corridas para o final, fechando o ano com três vitórias para ser campeão. A explicação seria uma alteração na turbina do motor BMW, e as adaptações feitas pelo lendário projetista Gordon Murray.

É bem verdade, contudo, que os títulos de Piquet na Brabham são questionados no paddock. Assim como é comum falar que a Benetton com a qual Schumacher foi bi era ilegal, há dúvidas se os campeonatos de 81 e 83 foram limpos.

Em relação ao bi, o que se comenta é que o carro estava sempre abaixo do limite de peso e, como a medição na época era feita apenas após as corridas, Gordon Murray e companhia usavam o combustível como uma espécie de lastro para não serem pegos. Essa suspeita vem do fato de que Piquet sempre fazia o reabastecimento bem depois dos rivais e usava o ritmo obtido nestas voltas em que o carro estava leve para ter vantagem.

“Tudo o que posso dizer é que sempre tentávamos fazer com o que o carro estivesse o mais leve possível”, disse o ex-chefe de mecânicos da Brabham, Charlie Whiting. “Costumávamos fazer 60 a 70% da corrida no primeiro jogo de pneus porque isso significava que podíamos correr muito perto, ou abaixo, do limite de peso antes de ajustá-lo com a quantidade de combustível que colocávamos”, admitiu o próprio Murray.

Como aconteceu em várias ocasiões na F1, ainda que o carro chegasse ao final de forma legal, fica claro que a competição não era totalmente justa. Um exemplo mais recente disso, ainda que menos contundente, são as questões levantadas em relação à flexibilidade das asas da Red Bull no ano de seu domínio.

Voltando à corrida do título de Piquet

Essa teoria, inclusive, muda a cara daquele GP da África do Sul, pois nele foi adotada justamente a tática inversa, de fazer um primeiro stint muito curto. A lentidão de Piquet na parte final da prova, então, não seriam resultado dos abandonos dos rivais, mas sim (ou também) da necessidade de poupar combustível.

A versão oficial, contudo, é outra. Depois de vencer as duas etapas anteriores, Piquet foi o segundo colocado na classificação, atrás de Tambay, da Ferrari. Passou o francês nas primeiras voltas e passou a imprimir um ritmo muito forte. “De 220 litros, saímos só com 70 litros no tanque. Eu abria quase três segundos por volta”, contou o brasileiro, que viu seus rivais ficarem pelo caminho: Arnoux teve problemas em sua Ferrari logo na nona volta, e Prost viu o motor Renault quebrar na 35ª de 77 voltas.

A vantagem aberta no início em relação aos demais era tanta que Piquet fez o reabastecimento e voltou ainda em primeiro, mas diminuiu o ritmo, uma vez que seria campeão com um quarto lugar. Foi ultrapassado por Patrese, Lauda e De Cesares, todos os que estavam na mesma volta que ele, mas com a quebra do austríaco voltou ao pódio, selando o bi por dois pontos.

Troféu piores da temporada

Q3 em Monza

O quão patético foi ver carros de Fórmula 1 andando como se estivessem na Marginal Tietê às 19h, justamente na pista que é conhecida como o templo da velocidade? Uma coisa é explicar para o fã do esporte que ninguém queria ficar sem o vácuo, mais poderoso neste ano devido à novas dimensões das asas traseiras. Mas, fala sério, o quão chato é explicar isso? Pelo menos serviu para alguns bons memes…

 

Estratégia da Ferrari

Foram vários momentos, no mínimo, confusos. Tendo um carro (motor) muito forte na classificação, mas sem ritmo para ganhar aos domingos na grande maioria das provas, a Ferrari teve que arriscar na estratégia, e correr mais riscos. Mas algumas decisões foram difíceis de explicar, como colocar pneus médios nos pilotos num dia frio na classificação em Baku ou as diversas vezes que eles ficaram mudando do plano A para o plano Z, sem a mínima firmeza.

 

Vettel no centro das atenções

“Foram duas vitórias”, dizia Sebastian Vettel ao fazer sua retrospectiva de 2019. Ele se referia, claro, ao GP do Canadá, um momento errado para a Fórmula 1 resolver ser dura ao impor as regras. Outro ponto baixo do campeonato em que o alemão – desta vez, por sua própria culpa – foi a maneira bizarra como ele encheu a traseira de Max Verstappen durante o GP da Inglaterra. E ainda ficou bravo com o Max! Teve também a manobra questionável do Brasil, a rodada sozinho na Itália, a tática João sem braço da Rússia. A lista não foi pequena para ele.

 

Perdas

Já contei aqui que meu ano começou com eu chegando na sala de imprensa na Austrália e ouvindo “Charlie morreu”. Depois foi Niki, depois Hubert. Não sei se é possível notar isso do lado de fora, mas a Fórmula 1 é uma comunidade muito pequena. Essas perdas afetam a todos porque, mesmo se não é algum conhecido seu, alguém do seu lado está sofrendo. E a partida destes três, depois de tudo o que foi dito sobre eles por quem os conhecia melhor, deixa lições importantes: tratar todos com igualdade e honestidade.

 

O pior dos bastidores: sala de imprensa na Alemanha

Vocês podem falar ‘ah, lá vai ela reclamar de trabalhar cobrindo F1 na Europa’, mas ficar o dia todo numa tenda provisória sem ar condicionado com mais de 40 graus do lado de fora, sem água (só tinha água com gás muito pesada, para pegar água natural eu tinha que ir na McLaren encher minha garrafa) e só com alguns lanchinhos sem vergonha e linguiça para comer foi dose. A estrutura em Hockenheim andava bem descuidada nos últimos anos e é uma prova que não vai fazer falta nesse sentido.

Sim, foi a corrida mais maluca do ano, mas isso fica para o próximo post.

Podcast No Paddock da F1 com a Ju: Entrevista Guilherme Pereira


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Julianne Cerasoli entrevista Guilherme Pereira, que dividiu o microfone da TV Globo com Mariana Becker entre 2017 e 2019. Relembramos os causos da cobertura da F1

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Em busca de um legado

“Não quero ser apenas o maior piloto da história da Mercedes”. A frase pode soar um tanto quanto arrogante, mas foi solta por Lewis Hamilton durante uma entrevista em que conversamos muito sobre seu envolvimento em questões ambientais. Essa é apenas a última das empreitadas do inglês, que talvez não tenha idade para isso, mas muito provavelmente seja o piloto mais millennial do grid. Mesmo próximo de chegar nos números de Michael Schumacher e se tornar o mais vencedor da história, seu título máximo parece ser encontrar um propósito.

Enquanto tem vida fácil nas pistas, Hamilton usa a Fórmula 1 como plataforma para dar publicidade a seus outros projetos e visibilidade a questões que ele considera importantes. Os desafios que vêm com isso ficaram claros para o inglês durante os últimos dois anos, quando essa tendência se intensificou: quanto mais ele entra no estilo de vida do mundo da moda, marcando presença no maior número possível de desfiles e festas, maior a cobrança nas pistas, algo com que ele lidou bem até agora. E, quanto mais ele fala em sustentabilidade, mais é questionado se não está no esporte errado.

As mais ou menos 6h30 em que os carros de Fórmula 1 podem ficar na pista – na prática, algo em torno de 4h descontando o tempo em que ficam parados nos boxes – usando o motor mais termoeficiente do mundo representam pouco em termos de poluição, mas desde os quilômetros e mais quilômetros de viagens de avião até os pneus que só duram algumas voltas, é fácil dizer que Hamilton deveria primeiro deixar as pistas para depois começar a falar em sustentabilidade. Mas ele sabe que esse seria o jeito fácil de fazer: o mais difícil é mudar o mundo da Fórmula 1 ao mesmo tempo em que usa-o para influenciar as pessoas.

E é aí que mora o aspecto humano mais interessante dessa história. Hamilton gosta de dizer que o desafio para se manter na ponta dentro das pistas está cada vez maior, mas o que vimos nesta temporada foi ele pontuando mais do que qualquer um inclusive depois que a Mercedes teve sua hegemonia quebrada no GP da Áustria. Nem precisou ser tão brilhante como de costume nas classificações para ganhar com sobras. 

Talvez o faça novamente ano que vem. Não surpreende, então, que ele busque desafios fora das pistas. 

Porém, à medida que as metas de Hamilton vão ficando mais ambiciosas, vale a reflexão de como isso vai refletir quando ele, de fato, for ameaçado nas pistas. Fica a questão, ainda, se ele vai se importar o suficiente depois tatear o “mundão”, bem longe do círculo do automobilismo em que foi inserido desde a infância – embora muitos tenham tentado evitar que esse fosse o mundo dele. Afinal, de que importa ser o melhor piloto da história da Mercedes, ou mesmo da história da F-1, quando ele pode se tornar o piloto que mudou os rumos da categoria?

O curioso caso de Sebastian Vettel

Sebastian Vettel agora está por tanto tempo na Ferrari quanto Fernando Alonso esteve em Maranello. Ganhou mais, fez mais poles e pódios, mas nunca esteve tão próximo do título quanto o espanhol, em duas oportunidades – 2010 e 2012. É justo dizer também que Vettel pegou a Ferrari mais longe do melhor carro do grid do que Alonso, mas o time, com praticamente todas as peças diferentes da época do espanhol, trabalhou muito melhor para se recuperar de 2015 para cá. E viu seu piloto número 1 errar muito mais.

Não é por acaso que Vettel termina a temporada 2019 muito mais questionado do que começou a de 2015. E olha que, no ano anterior, as performances ruins em comparação com o então companheiro Daniel Ricciardo já tinham servido de alerta.

Vettel tem como sua grande força a administração do ritmo de corrida. O que a equipe precisa que ele faça, ele entrega, unindo velocidade e cuidado com os pneus. E isso era algo que podíamos ver muito mais quando ele conseguia controlar as corridas da ponta, na época da Red Bull.

Isso tem a ver, é claro, com a falta de ritmo de corrida da Ferrari, mas também com o efeito Charles Leclerc: o monegasco foi mais rápido que o tetracampeão aos sábados neste ano, então quando a Ferrari teve a chance de controlar o ritmo da ponta, não foi com ele. Junte-se a isso o fato do racecraft não ser exatamente o ponto mais forte de Seb, e suas fraquezas ficaram mais expostas.

Mas por que Vettel sofreu tando para andar no ritmo de Leclerc neste ano? Pego emprestado um trecho de um texto em que falo sobre o abismo entre Webber e Vettel, de outubro de 2013, pouco antes do alemão conquistar seu tetracampeonato.

“Por que Webber não consegue? Note que os problemas do australiano sempre aumentam quando a Red Bull encontra formas de driblar as restrições do regulamento e usa os gases do escapamento para melhorar a aerodinâmica (temporada 2011 e segundas metades de 2012 e 2013). O piloto não consegue se adaptar a um carro que se comporta de forma contraintuitiva, ao contrário de Vettel.”

Aqueles carros da Red Bull do início da década tinham a traseira muito presa, tanto pelo uso dos gases do escapamento para gerar pressão aerodinâmica, quanto pelas próprias características do motor Renault, que tinha uma dirigibilidade melhor que a dos rivais. E esses dois pontos foram eliminados com o regulamento de 2014.

Não que Vettel não tenha tido ótimas performances desde então, como no GP da Malásia de 2015 (um belo exemplo de uma prova em que ele usou sua melhor qualidade) e neste ano, na Alemanha, numa corrida de recuperação na chuva. Mas, desde que as traseiras dos carros ficaram naturalmente mais soltas, ele vem tendo mais dificuldades que rivais diretos para se adaptar.

Engana-se quem pensa que ele jogou a toalha. A segunda metade deste ano foi uma prova do quanto Vettel está disposto a trabalhar para virar o jogo. Ele e a Ferrari. A confiança dele com o carro foi aumentando na parte final da temporada e isso só não se materializou em resultados porque o carro não foi tão forte – segundo ele, porque os circuitos não permitiam, mas também é possível que seja pelo motor ter “perdido” potência. Resta saber qual será o limite para ele, especialmente sabendo que, em 2021, os carros estarão ainda mais longe em termos de comportamento de sua época dourada da Red Bull.

Nascidos nos anos 90

Era mesmo inevitável. Quando Webber, Button, Alonso, a turma que nasceu no começo dos anos 80, começou a se despedir da Fórmula 1, obviamente abriu espaço para uma nova turma. Seria a ordem natural das coisas não fosse por um detalhe: quem está assumindo esse espaço nasceu mais de 15 anos depois da geração anterior. E, rapidamente, fala-se em aposentadoria de Sebastian Vettel, Nico Hulkenberg sai da F-1, Daniel Ricciardo se vê sem espaço e sai de uma equipe grande, Fernando Alonso tenta voltar mas não encontra espaço e aí por diante.

Vettel sofre com Leclerc, Hulkenberg foi substituído por Ocon, Ricciardo quis se ver longe de Verstappen e Alonso não faz falta à McLaren porque Carlos Sainz e Lando Norris estão dando (muita) conta do recado.

Não é uma geração especialmente diferente em termos de pilotagem, mas sim na velocidade com que as coisas aconteceram em suas carreiras. E o motivo disso tem nome e sobrenome: Max Verstappen mostrou que não é necessário fazer todas as etapas das categorias de base para chegar preparado à Fórmula 1. E isso interessa àqueles que gerenciam carreiras e programas de desenvolvimento porque torna todo o processo mais barato.

Mas, ao mesmo tempo, gera uma pressão enorme que nem todos conseguem suportar. Antonio Giovinazzi e Pierre Gasly são dois bons exemplos disso: são rápidos na pista, mas mais lentos na adaptação que alguns de seus pares. E isso é quase um crime dentro da geração Verstappen.

No outro lado do espectro, Leclerc, Norris e Albon se adaptaram rapidamente, mas também erram acima da média. São eles mesmos que dizem que esta é sua lição de casa para a próxima temporada – e Lando e Alex mesmo admitem que precisam errar mesmo ao mesmo tempo em que devem ser mais agressivos, o inglês nas disputas na pista, e o tailandês no trabalho com os engenheiros, forçando mais a equipe a trabalhar para ele.

Dentro da mesma geração ainda temos Russell, que correu sozinho em sua temporada de estreia – e deve fazê-lo de novo em 2020. Ocon, que estará de volta tendo deixado algumas dúvidas no paddock antes de perder a vaga de titular. E Sainz, que já se mostrou tão veloz quanto Verstappen no passado, e hoje também prima pela consistência, especialmente aos domingos.

Na verdade, talvez ele e Max sejam exceções, mas todos esses pilotos parecem ter algo em comum: são muito fortes em classificação, área bastante exigente na Fórmula 1 devido ao formato aliado aos pneus e aos sistemas de recuperação de energia.

Fora das pistas, é uma geração que também deixa sua marca ao ter um cuidado todo especial com suas mídias sociais, contratando profissionais para fazê-las. Gostam de uma festa e não escondem isso – ainda que muita gente na Red Bull ache que Gasly gosta um pouco demais delas – mas também passam horas acertando seus carros virtuais e disputando corridas. Esse, inclusive, é um fator importante para a queima de etapas e a chegada precoce à Fórmula 1, o que indica que estamos vendo não uma coincidência, mas uma tendência que veio para ficar. E Hamilton talvez tenha que repensar logo logo sua promessa de aposentar quando perder uma corrida para alguém que nasceu nos anos 2000.

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lewis hamilton campeão de 2019

Meus melhores textos estão no e-book da temporada 2019 da F1, contando a história do campeonato vencido por Lewis Hamilton e pela Mercedes

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F1 on demand: o futuro de Vettel e quem fecha a sala de imprensa

É a hora de tirar as dúvidas e saciar as curiosidades vocês no F1 on demand dessa semana, em que são os assinantes do projeto No Paddock da F1 com a Ju é que mandam:

Jessica Oliveira: Ju, te acompanhando um pouco mais de perto agora e vendo outros repórteres ao longo dos anos na Fórmula 1, acabo me perguntando o quão tarde vocês ficam no autódromo. Porque a corrida acaba por volta das 17:00 no horário europeu, e queria saber se existe horário limite que o repórter pode fica no mediacentre e como é para vocês após as corridas? São curiosidades dos bastidores.

Há limites de horários todos os dias, menos no domingo, em que o media centre tem que ficar aberto até o último jornalista sair. Geralmente, é algum japonês, já que eles trabalham com o fuso bastante complicado.

Todos os quatro dias de trabalho no circuito, de quinta a sábado, são de pelo menos 10h por dia para nós freelancers, que temos que atender a vários clientes. Já o pessoal dos tabloides ingleses, por exemplo, basicamente vão na coletiva do Hamilton, fazem uma matéria sobre ele e alguma coisa menor para o digital e vão embora bem mais cedo. E o pessoal de TV depende: quem faz a cabo geralmente não precisa ficar produzindo coisa para depois, faz o ao vivo e está liberado. Já os repórteres da Globo, por exemplo, têm de ter os textos aprovados antes de gravar, e isso pode virar uma novela dependendo do fuso.

Para mim, chego perto do horário do início das sessões porque geralmente estou com “vantagem” no fuso em relação ao Brasil. E fico por umas 10-12h. No dia da corrida, chego pelo menos  4h antes da largada e saio, no mínimo 5h depois da bandeirada. Isso se não tem alguma investigação que exige mudanças em todo o material já produzido, o que não é incomum. Mas o que tento fazer é deixar o material de segunda já pronto, uma vez que é o dia em que volto para casa. Alguma coisinha, contudo, sempre sobra para o avião.

Cleber Balieiro: Tenho a impressão de que a questão do desgaste dos pneus da Ferrari tem se tornado mais crítica – é isto mesmo?

Eu fiz uma pergunta nessa linha para o Vettel depois do GP de Abu Dhabi e ele nem me deixou terminar. “Eu discordo”, ele repetia. Disse que foram as pistas do início da segunda metade da temporada que deram a impressão de que a Ferrari tinha melhorado mais do que ela efetivamente tinha conseguido. Curiosamente, ele destacou o GP da Rússia como um ponto fora da curva, em que o time conseguiu um bom desempenho onde não esperava ir tão bem.

Mas que o final da temporada ferrarista foi confuso, isso foi. Por mais que Binotto jure que eles estavam experimentando com o nível de downforce dos EUA até o fim, esse período coincidiu com a chegada da diretiva técnica acerca do motor, que certamente foi a grande arma ferrarista, especialmente aos sábados.

Li sobre possibilidade de Vettel na Red Bull. Seria possível?

Escrevi sobre uma sensação que tive em Abu Dhabi, mas não tenho nenhuma informação, de fato, nesse sentido. Desde que saiu da Red Bull, Vettel mantém uma boa relação com Horner e com Newey, que gosta muito dele. E, por mais que ele tenha crescido especialmente aos domingos a partir de Singapura, o mais natural é que a Ferrari vire a equipe de Leclerc. A vontade política é forte e as performances dele sustentam isso. Assim, se a vontade dele for realmente ficar na F1, tentar uma volta nesse “relacionamento antigo” é uma saída que vale a pena. 

E por que digo “se a vontade dele for realmente ficar”? É porque lembro da entrevista que ele deu em Austin logo depois das regras de 2021 terem sido anunciadas. Ele disse que queria estudar com calma, mas de supetão basicamente reclamou de tudo o que foi decidido.

Estratégia do GP de Abu Dhabi e os pilotos tomando a dianteira

Um carro de Fórmula 1 nunca é feito especificamente para uma pista ou um tipo de situação. No sábado, Lewis Hamilton explicava, por exemplo, que a Mercedes focou tanto em melhorar o carro para as corridas, depois de sempre sofrer quando estava no tráfego nos anos anteriores que o carro decaiu bastante na classificação. Mas existe algo na filosofia do carro alemão nos últimos seis anos que se casa perfeitamente com o circuito de Abu Dhabi.

Agora já são seis vitórias, vindas de seis vezes em que os dois carros prateados também fizeram os melhores tempos na classificação. A vantagem, como nos anos anteriores, veio principalmente no travado terceiro setor. A Mercedes é boa em curvas de baixa e no cuidado com os pneus e, no asfalto abrasivo de Yas Marina, são dois trunfos importantes.

Com Valtteri Bottas fora da luta pela vitória pela punição pela troca de motor, Hamilton passeou em sua última corrida com o carro que lhe ajudou a conquistar o hexa, alheio ao alto consumo de pneus que complicou a vida das Ferrari, cujo carro escorregava muito principalmente no tal terceiro setor.

Na largada, as duas Red Bull pareceram sofrer com o aquecimento dos pneus médios com os quais escolheram largar: Verstappen foi superado por Leclerc e Albon sofreu para permanecer à frente das duas McLaren. Único no top 5 que escolheu largar com os macios, por estar se sentindo melhor com o composto que dá mais aderência nas entradas de curva, Sebastian Vettel não conseguiu aproveitar a aderência superior para ganhar posições, e as primeiras colocações ficaram com Hamilton (já claramente muito superior), Leclerc, Verstappen, Vettel e Albon.

A Pirelli previa que seria uma corrida feita facilmente com uma parada para quem largasse com o médio, mas não para o macio. Ou seja, seria mais uma daquelas em que o 11º colocado no grid – Perez – seria premiado na batalha do meio do pelotão, como de fato aconteceu (ainda que ele tivesse que esperar até a última volta para passar Norris, se arrastando após fazer só uma parada).

O fato das duas McLaren e das duas Renault (os quatro carros mais lentos que tiveram que largar com o macio porque estavam no top 10) estarem travando o pelotão poderia ter ajudado e muito Valtteri Bottas a chegar no pódio que ele almejava (mesmo reconhecendo que um pódio sem champanhe não era lá essas coisas para ele), mas uma pane no sistema que controla os dados da FIA que controlam quem pode ativar o DRS fez com que a asa móvel fosse desabilitada por 16 voltas, bem no momento mais crucial para Bottas deixar o pelotão para trás. Após a bandeirada, o diretor de provas Michael Masi não quis falar de quem foi a culpa, mas a forte presença de gente da FOM na sala (algo que eu só tinha visto quando deu aquele outro rolo da corrida ter terminado uma volta antes devido a uma falha do painel, no Japão) deu um belo indicativo de quem cuida do tal sistema.

Além de dificultar a vida de Bottas, a falha do DRS também fez com que as duas McLaren e Ricciardo, que anteciparam suas paradas, ficassem presos atrás da Haas de Grosjean, facilitando a vida de Hulkenberg – e mesmo assim ele terminaria a prova fora dos pontos.

Voltando à disputa da frente, quando a janela de pitstops abriu a Ferrari tinha o seguinte problema: Leclerc, mesmo com os médios, e Vettel, que tinha conseguido fazer mais voltas do que se imaginava com os macios, estavam reclamando do desgaste. E o monegasco não tinha conseguido abrir em relação a Verstappen. Temendo que a Red Bull fizesse um undercut, a decisão foi parar os dois na mesma volta. E um problema para trocar o traseiro esquerdo de Vettel lhe custou 1s5. Foi o suficiente para a Red Bull tentar reagir e chamar Albon, mas ele não ganhou tempo o suficiente para voltar à frente de Vettel.

Hamilton, Verstappen e Bottas continuaram na pista, com missões diferentes: Bottas tinha que esperar até ter o equivalente a um pit stop de vantagem para o pelotão B; Verstappen tinha que abrir também um pitstop de diferença para Leclerc e Hamilton tinha que esperar Verstappen parar.

Só o holandês não conseguiu, e acabou voltando 5s atrás da Ferrari, embora com muito mais ritmo. Com o DRS funcionando novamente, não teve dificuldade para passar o monegasco e retomar o segundo lugar. Bottas, com pneus mais novos e toda a potência do motor, vinha sendo 1s por volta mais rápido quando passou Albon. 

Pouco antes disso, Vettel tinha ido para o box para sua segunda parada, na volta 38. A tentativa era, já imaginando que seria superado na pista, como Leclerc tinha acabado de ser, tentar algo diferente. E foi um pedido do alemão.

O mesmo estava acontecendo no outro cockpit, algo curioso três corrida depois que Leclerc prometeu ser mais assertivo no rádio quanto à estratégia, após aceitar passivamente a tática de duas paradas que o tirou da vitória no México. O monegasco insistiu muito para que o parassem até ser atendido. Curiosamente, foi mais uma parada dupla da Ferrari, e de novo Vettel perdeu mais tempo que Leclerc. 

Quem também pediu para mudar de estratégia foi Carlos Sainz, que com isso chegou na frente das duas Renault na briga particular entre os que largaram com o macio no top 10. Já Norris teve um ritmo tão bom que quase bateu os dois mais bem colocados que largaram com os médios na luta da F1 B – sofreu a ultrapassagem de Perez na última volta, mas superou Kvyat.

Lá na frente, Hamilton se despediu de 2019 com uma vitória absoluta, com Verstappen em segundo e Leclerc em terceiro, segurando-se para não ser superado por Bottas mesmo com pneus mais novos, evidenciando uma tarde dura para a Ferrari. Vettel ainda conseguiu superar Albon mesmo com um pitstop a mais e o tailandês fechou o top 6 de uma corrida até mais movimentada que o normal em Abu Dhabi, mas sem surpresas.

Drops do GP de Abu Dhabi e os causos de família

O último GP do ano começou com Valtteri Bottas mandando indiretas na entrevista coletiva, dias depois de sua mulher, Emilia, ter pedido o divórcio. Foi uma entrevista cheia de “eu tenho que ser uma pessoa melhor, assim como um piloto melhor”, então dava para ter uma boa ideia do que aconteceu, né? Pelo menos sabe-se que ele tinha um contrato pré-nupcial, então ficou mais o prejuízo moral do que o financeiro. Mas que doeu, doeu.

 

O terceiro filho de Sebastian Vettel – o primeiro menino – nasceu às vésperas do GP, e fez o alemão chegar só na madrugada da quinta para sexta, horas antes do primeiro treino livre. Curiosamente, Vettel veio com o pai para a corrida. No final das contas, ele escapou das perguntas sobre o incidente do Brasil, pelo qual, a julgar pelas declarações de Leclerc e Binotto, foi considerado culpado dentro da equipe. Por todo o final de semana, não parecia muito presente, o que não tem sido exatamente incomum.

 

Aproveitando a deixa, fui pedir para Kimi Raikkonen conselhos para o pai de menino de primeira viagem, já que ele recentemente revelou que não acharia que ficaria tão nervoso ao ver o filho correr. “Primeiro, ele não está correndo, é só um hobby!”, disse Kimi, rindo. Parece que ele está falando em voz alta para ver se acredita. (Aliás, falando em GP Brasil, Toto Wolff me garantiu que a mesa da casa dele ficou intacta mesmo com os dois pilotos fora do pódio)

 

Nos bastidores de Abu Dhabi, corre a informação de que as equipes estão pressionando a Pirelli para não adotar os pneus que eles fizeram para 2020 e que estão sendo testados nesta semana. Isso porque, quando os protótipos foram usados nos treinos livres no GP dos EUA, os pilotos reclamaram muito de falta de aderência. Do lado da Pirelli, a justificativa era de que os carros não estavam ajustados aos novos compostos e, para o teste, a pressão será diminuída em 1.5 psi, o que é significativo, porque, nos demais testes, eles conseguiram resultados melhores nessa configuração. Mas não deixa de ser irônico que as equipes queiram manter os pneus que deram tanta dor de cabeça no começo do ano. Lembremos que eles até votaram em junho para voltar aos compostos de 2018!

 

Em mais um round para ver quem fica com o GP do Brasil a partir de 2021, JR Pereira, promotor do Rio, e Alan Adler, que entrou na jogada de Interlagos devido à resistência da Liberty em relação ao promotor atual, estavam perambulando pelo paddock em Abu Dhabi. Flavio e Eduardo Bolsonaro, por motivos diferentes, também estavam por lá. Flavio foi mesmo com a missão de acalmar a Liberty acerca dos temores em relação às questões ambientais que permeiam a construção do circuito no Rio – e inclusive foi munido de camisetas da seleção brasileira com os nomes de Chase Carey e Lewis Hamilton – e Eduardo estava em visita oficial aos Emirados Árabes.

 

Conversei com Sergio Sette Camara logo depois da pole position dele em Abu Dhabi, e novamente após o final de uma etapa em que venceu no sábado e foi terceiro no domingo, de longe seu melhor na categoria. E a mentalidade dele me pareceu bem clara – e correta: ou ficar na F2 só se for equipe que permita lutar por vitórias (e me parece que não há mais vagas desse tipo) ou ir com a superlicença garantida para outro campeonato mais forte e usar exemplos como Hartley, Wehrlein e até mesmo Albon para manter vivo o sonho da F-1 ou mesmo da F-E. Por conta disso, ele está com negociações avançadas com a Indy. 

Mas isso significa que o Brasil ficará sem piloto na F-1 e na F-2? Pedro Piquet está perto de ser anunciado na equipe júnior da Sauber, pela qual ele testa nesta semana em Abu Dhabi. Outro que chega da F-3 para o grid da F-2 é o campeão Robert Shwartzman, que vai ser companheiro de Mick Schumacher na Prema. Sobre isso, ouvi a frase mais engraçada do fim de semana no mais experiente jornalista do paddock, um suíço, muito próximo a Michael. “Ele vai destruir o Mick, isso é um absurdo”. Sim, ele estava falando sério. E, sim também, Shwartzman foi campeão num grid forte na F-3 com Armstrong, Vips e outros, e seria uma surpresa se ele não superasse Mick até com facilidade ao longo da temporada. A não ser que a politicagem que sempre foi forte na F-2 falar mais alto.

Simbolismos

Formula One F1 – Abu Dhabi Grand Prix – Yas Marina Circuit, Abu Dhabi, United Arab Emirates – December 1, 2019 Mercedes’ Lewis Hamilton celebrates after winning the race with second placed Red Bull’s Max Verstappen and third placed Ferrari’s Charles Leclerc REUTERS/Hamad I Mohammed

Um Lewis Hamilton irrepreensível, compensando com juros e correção o erro das últimas voltas do GP do Brasil – foi ele mesmo quem disse que fazia questão de ser perfeito em Abu Dhabi depois do toque com Alex Albon. Ao seu lado no pódio, seus dois herdeiros mais óbvios, com Max Verstappen na frente, outro retrato da temporada. Ainda que Charles Leclerc tenha impressionado muitos que talvez não tinham prestado tanta atenção ao seu grande ano de estreia, ele ainda parece errar um pouco mais que Max, embora sua curva de aprendizado pareça ser mais inclinada. Com Hamilton fazendo questão de dizer durante todo o final de semana que estava se sentindo “com 22 anos”, não coincidentemente a mesma idade de Max e Charles, é justo dizer que o pódio foi o reflexo não só desta temporada da F-1, mas foi também um aperitivo para o ano que vem.

A etapa que colocou um ponto final em uma temporada que todos que trabalham no esporte concordam que foi longa demais deixou também outros “sinais”. Mesmo em um circuito que, em teoria, não favorece seu carro, a McLaren pontuou com os dois carros, com a maior experiência de Carlos Sainz aparecendo quando o espanhol viu que o pneu duro estava durando menos que o esperado e pediu para parar de novo. Ele já estava atrás de Lando Norris naquele momento, e chegou atrás, mas pelo menos conseguiu usar a aderência extra do pneu novo para superar as Renault. Foi impressionante a evolução da McLaren neste ano e muito disso teve a ver com a maneira aberta como Sainz e Norris trabalharam. E os poucos erros que eles cometeram na pista – ainda que o próprio Norris estivesse lamentando o que ele sentiu que foi falta de agressividade na pista, e prometendo uma nova versão de si para o ano que vem.

A corrida teve também uma não-corrida de Sebastian Vettel, para “coroar” uma não-temporada. Ele mesmo admite que não teve um bom ano e fiquei em dúvida neste fim de semana se não está ensaiando um retorno à Red Bull, vendo que perdeu, definitivamente, terreno na Ferrari. 

Pelo menos teremos muitas especulações para fazer durante o que se chama na F-1 de férias de inverno – menos para Daniel Ricciardo, que estava jogando na cara de todos que voltará para a Austrália, onde será verão, como no Brasil: Lewis Hamilton deu mil e uma voltas quando foi perguntado se havia sentado para conversar com a Ferrari, e não negou. Deixou claro que seu futuro depende muito do que Toto Wolff vai fazer. Não é segredo que se estabeleceu uma espécie de simbiose entre os dois e, como Michael Schumacher já ensinou no passado, não se muda de equipe sozinho.

Turistando na F1 e os sabores de Abu Dhabi

Hummus pra que te quero é o lema de Abu Dhabi, não muito diferente do Bahrein. A pasta de grão de bico e a carne de cordeiro são os carros-chefes – e a mistura dos dois, na foto, foi a melhor versão de hummus que já comi. E olha que foram vários nas minhas andanças pelo Oriente Médio…

Tenho que admitir, contudo, que não experimentei ainda nenhum dos pratos típicos de Abu Dhabi. Na verdade, é um pouco difícil escolher lugares para comer por lá. Na cidade, diferentemente das proximidades da pista, os estabelecimentos são muitas vezes tão simples que você fica meio sem saber se arrisca ou não, e não é raro acabarmos comendo em hotéis ou na pista mesmo, onde ganhamos um voucher diário para pegar um prato de comida (então minha tática é pegar uma salada ou sanduíche na sala de imprensa para comer à noite e almoçar na Mercedes, como forma de economizar também).

Aliás, falando em economizar, o melhor mesmo em Abu Dhabi é ficar no chá: como em todo país muçulmano, não é em todo restaurante que se encontra álcool e, nos Emirados, quando encontrar a bebida certamente terá preços proibitivos. Lembro de ter visto cerveja sendo vendida a 16 euros nas proximidades do circuito. Um copo, tá?

Feito o parênteses, tudo isso então significa que eu não experimentei pratos que tive de consultar o Google para conhecer. Aí está o top 5 da culinária local: harees, outra pasta, feita de trigo, frango e sal; machboos, arroz com carne temperado com especiarias como açafrão; safrona, uma sopa de carne com legumes, e madrooba, um tipo de peixe. Comer peixes e frutos do mar em Abu Dhabi – como também na vizinha Dubai – é uma ótima pedida sempre. Mar é o que não falta ao redor!

Todas essas comidas são bastante simples, mas o que marca a culinária árabe são os temperos: cominho, noz-moscada, açafrão, cardamomo, são todos temperos muito densos e que deixam a comida com um tom meio de terra, talvez para combinar com o cenário desértico ao redor. E sempre, claro, as refeições são acompanhadas de pão árabe, delicioso.

A exemplo do Japão, também gosto de ir no supermercado em Abu Dhabi para me perder nos temperos de lá – e nos pistaches também! Mas tenho que focar para ficar longe das sobremesas, divinas, apesar de extremamente doces. Há uns dois anos comprei halva no supermercado, pensando em levar para minha família no Brasil experimentar. Mas cometi o erro de abrir. E até hoje estão esperando a tal halva lá em casa.

Trata-se de um doce – muuuuito doce – com base de mel e gergelim, que pode ter vários acompanhamentos – no caso, comprei com pistache, um dos meus sabores preferidos na face da terra, e os culpo por ter acabado com um doce que não era pequeno em cinco dias (talvez quatro) sozinha. Falando em doce, além da clássica baklava, lokma é outra gordice boa de se comer naquela região, uma massinha doce frita, sobre a qual eu já falei no Turistando de Marrakesh no começo do ano. Era de lokma o cheiro que senti na rua e automaticamente associei à Jordânia, onde tinha conhecido a sobremesa.

Doces e hummus à parte, acaba não sendo uma etapa gastronômica para acabar a temporada até porque as atividades de pista começam mais tarde por lá e saímos quando a cidade está querendo mais é dormir.

Podcast No Paddock da F1 com a Ju: Entrevista Daniel Ricciardo


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Julianne Cerasoli entrevista Daniel Ricciardo, com perguntas dos fãs. São mais de 20 minutos de momentos hilários. E uma ou outra resposta mais séria. É aqui que ele revela seu amor pelo brigadeiro.

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Por dentro da F-1 e a “aula” de estratégia – parte 2

Na primeira parte do especial tratei das variáveis que estão na cabeça dos estrategistas quando eles tomam decisões que, muitas vezes, ficamos sem entender logo de cara. Afinal, escolher o número de paradas e os compostos de pneu depende de inúmeros fatores, e é comum diferentes equipes terem leituras distintas.

À primeira análise, escolher o número de paradas e o composto a ser utilizado em cada uma delas é fundamental quando se fala em estratégias, mas não é tudo. Nesta segunda parte, o foco é em como o ritmo é decisivo para a estratégia, e em como decidir a hora exata para fazer a parada.

 

Como o ritmo vira estratégia?

Lewis Hamilton começou a perceber que Max Verstappen tinha largado no GP Brasil determinado a fazer duas paradas logo no início da corrida. Ele avisou seu engenheiro: “Ele está forçando, eu quero ir também.” Por que Hamilton não decide aumentar o ritmo sozinho? Por que os pilotos dependem tanto dos engenheiros? Não é por falta de talento deles, mas sim pela forma como o ritmo de corrida atua diretamente na estratégia.

Mas por que isso não existia antigamente? É simplesmente pela falta de informações. Hoje, as equipes controlam tudo, dos traços de GPS, para determinar onde estão os demais carros, à temperatura dos pneus. Ou seja, eles têm a imagem do todo e os pilotos sabem disso. Sabem, também, que sua melhor chance é confiar em quem tem essa imagem do todo.

Voltando à história do GP Brasil. Pelo ritmo de Verstappen no início da prova, a Mercedes tinha motivos para acreditar que ele faria duas paradas. E por que a Red Bull decidiu isso de antemão? Porque sabiam de sua vantagem nas retas, o que daria mais chances de Max fazer ultrapassagens caso isso fosse necessário – e também por saberem que, no Brasil, as manobras são possíveis nas zonas de DRS.

Há, também, o cenário totalmente contrário. Em algumas pistas, principalmente as de rua, as ultrapassagens são tão difíceis que, na linguagem dos estrategistas, a posição de pista é soberana. Ou seja, mesmo se, no papel, for mais rápido fazer duas paradas, a melhor opção é adotar um ritmo mais conservador e fazer uma parada a menor. Essa tática tem ainda outras vantagens, e por isso é muito usada: quando é necessário um delta grande entre dois carros para se fazer uma ultrapassagem, como em Austin, por exemplo, vale adotar um ritmo mais lento para fazer com que o rival fique no ar turbulento e acabe antes com seus pneus, ainda que isso gere um foco de tensão que vamos discutir um pouco mais adiante… 

O exemplo máximo dessa tática de segurar o ritmo na temporada foi o GP de Singapura. A missão do pole Leclerc, numa pista em que as ultrapassagens são raridade, era adotar o ritmo mais lento possível para que o pelotão ficasse tão compacto que ninguém tentaria o undercut, pois voltaria no trânsito. O que aconteceu para a tática não dar certo para Leclerc (para a Ferrari, saiu melhor que a encomenda) foi bem documentado na época, mas teve mais a ver com a execução do que com a tática em si.

 

De olho no SC 

Um dos dados aos quais os estrategistas ficam de olho é na taxa de probabilidade de Safety Car de cada pista. Em Singapura, por exemplo, ela é de 100%, pois nunca uma corrida passou em branco por lá. Isso faz com as táticas fiquem mais abertas, e abre a chance, especialmente para quem larga mais atrás, de já sair com um composto mais duro, por exemplo, e ficar na pista justamente esperando o SC.

Isso porque os engenheiros têm todos os números, e sabem quando é mais provável que o SC apareça – em algumas pistas mais travadas, é nas primeiras voltas (quando a avaliação prévia é saber se seria possível colocar o composto mais duro disponível e ir até o final); em outras, quando os pneus começam a se degradar, os carros ficam mais difíceis de pilotar e carros se encontram na pista em estratégias diferentes.

 

Como decidir a hora de parar

A resposta mais óbvia seria: quando os pneus acabarem. Mas não é tão simples assim. O primeiro dado importante é o que está acontecendo na pista 20, 22s atrás do carro, já que ele não pode voltar com o pneu novo, e tendo a chance de usar o rendimento da borracha nova, no trânsito.

Antes da corrida, os estrategistas fazem as simulações das maneiras mais velozes de se terminar a corrida – e na hora da prova, cruzam isso com a posição de pista dos pilotos. Vamos supor que você está em primeiro e consegue deixar pelo menos 5s para o segundo colocado no final de cada stint. Isso quer dizer que você vai fazer a estratégia otimizada, pois só dependerá de você.

Mas o que vimos nas últimas corridas foram os times mexendo na estratégia para tentar ganhar posições ou se defenderem, e aí que as provas ficam interessantes. Como a Mercedes chamou Hamilton cedo no México, e confiou que ele se viraria quando atacado no final por Vettel. Ali, o time inglês temia um undercut da Ferrari, e por isso arriscou. Vettel vinha próximo de Hamilton na pista e, se parasse antes do inglês, muito provavelmente voltaria à frente. Por isso, chamou Lewis antes do previsto. A Ferrari viu a jogada e, já sabendo que Vettel não ganharia a posição naquele momento, esperou para chamar Seb na esperança de que a borracha mais nova o ajudasse no final.

É mais comum o undercut ser melhor que o overcut, ou seja, numa luta direta por posição, as duas equipes vão monitorar se há espaço para voltar sem trânsito e parar o quanto antes assim que está aberta a janela de pit stops (pré-determinada por cada time com base na tática mais rápida para terminar a corrida), ou para tentar ganhar a posição, ou para defendê-la.

O pior cenário, é claro, é quando são companheiros de equipe que estão disputando posição. Cada equipe tem uma abordagem diferente para isso. Na Mercedes, eles costumam dividir as estratégias, o que por vezes dá vantagem para quem está atrás, enquanto na Ferrari parece haver uma divisão entre as equipes de cada piloto, com pouca informação sendo compartilhada. De qualquer forma, é algo que sempre traz polêmica.

 

O fim do dono da tríplice coroa

Lá nos idos de 1975, em uma semana como esta, Graham Hill voltava com outros quatro integrantes de sua equipe, a Embassy Hill, de um teste em Paul Ricard e seguia a caminho de uma festa em Londres sob intensa neblina. Devido à falta de visibilidade, Hill não percebeu que voava muito perto das árvores quando passava por um campo de golfe. Bateu em uma delas e o avião pegou fogo. Nenhum dos cinco sobreviveu.

Foi assim que acabou a trajetória, aos 46 anos, daquele que é o único até hoje a ter conquistado a Tríplice Coroa, além de dois títulos na F-1.

Conhecido pelo estilo empreendedor e desbravador, e pelo ótimo senso de humor, Hill demorou para se tornar piloto. Na verdade, tirou sua carteira de motorista aos 24 anos e dizia que seu primeiro carro, de tão ruim, foi importante para que ele desenvolvesse uma característica importante nas corridas: saber antecipar o que viria adiante.

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Seu primeiro esporte, na verdade, foi o remo, algo que permaneceu como sua marca registrada no desenho do capacete, depois copiado pelo filho Damon. As corridas surgiram na sua vida devido ao trabalho na parte mecânica. Cursando a escola técnica, tornou-se aprendiz de engenheiro e chegou a servir à marinha britânica como engenheiro. Já fora da carreira militar, embora tivesse mais interesse em motos, resolveu entrar em uma corrida de F3 e, a partir daí, passou a apostar no automobilismo.

Na Lotus, contudo, começou como mecânico, mas logo tornou-se piloto, estreando na F1 no GP de Mônaco de 1958. O Principado, inclusive, seria como uma segunda casa para Hill, vencedor por 5 vezes em Monte Carlo e conhecido como o Mr. Mônaco. Sempre foi tido mais como um piloto que trabalhava duro do que um virtuoso.

O britânico trocaria a Lotus pela BRM e seria campeão com o time em 62, mas voltaria ainda na década de 1960, dominada pelo outro piloto do time, Jim Clark. Após a morte do escocês, no início de 68, coube a Hill desenvolver o Lotus 49 e chegar ao segundo título. 

Os bons tempos, contudo, não durariam muito. No GP da Espanha de 1969, Hill sofreu grave acidente e quebrou as pernas. A partir dali, não teve mais resultados muito expressivos na F-1, ainda que tenha conquistado a vitória nas 24h de Le Mans em 1972. As 500 Milhas de Indianápolis, por sua vez, ele tinha vencido em 66, em época que ficou conhecida como a invasão britânica pela quantidade de pilotos do país que se espalhava pelas vitórias também fora da Europa.

Apesar de ter começado na F-1 relativamente tarde, já perto dos 30 anos, Hill teve a carreira mais longa de sua geração: a marca de 176 GPs disputados só seria batida nos anos 1980, já com mais corridas no calendário e a família Hill foi a primeira a ter dois campeões do mundo.

F1 on demand e as curiosidades sobre quem consegue acesso ao paddock

No F1 on demand dessa semana, tiro as dúvidas do Marcelo Kanno, que é um dos Credenciados no projeto do Catarse No Paddock da F1 com a Ju.

Pierre Gasly sabe o motivo da diferença de desempenho que ele teve na Red Bull, e agora que ele voltou para a Toro Rosso? Me parece que ele vem fazendo boas corridas ultimamente, ele entendeu qual diferença nos carros ajuda/atrapalha ele (ou foi só “cabeça” mesmo)? Ele vai ter ou teve a oportunidade de sentar com os engenheiros da Red Bull novamente para discutir isso?

Ele diz que, por diversos motivos, estava usando 80% do seu potencial na Red Bull. Sei que ele teve problemas com o engenheiro de pista e que havia problemas dentro da equipe de engenheiros que trabalhavam diretamente com ele, então quando ele diz que aprendeu o quanto a F1 é um esporte de equipe, provavelmente está se referindo a isso. E do lado dele o que se questiona no paddock é o nível de foco. Pierre gosta das suas baladas, de se divertir com os amigos, e há quem avalie que ele estava exagerando.

 

Alguma novidade sobre alguns dos rumores/assuntos como por exemplo: Situação do Pietro na Haas e do Sette Camara na Mclaren, Haas está a venda mesmo, Vietnam vai acontecer mesmo ano que vem…

 

Pietro deve fechar com a Haas nos próximos dias, e vou falar com o Serginho sobre futuro quando encontrá-lo em Abu Dhabi. Essas conversas de venda da Haas deram uma acalmada depois da divulgação do regulamento de 2021, mas Gene é um cara com faro para negócio e, se aparecer um interessado, vende. Sobre o Vietnã, me pergunte em janeiro, quando alguns membros da F1 vão para lá acompanhar a situação de perto. Mas agora passou a época das chuvas e a obra está andando.

 

Curiosidade 1: Como os “VIPs” conseguem passes de paddock para as corridas? Eles pagam, ou só pedem para a F1/FIA/equipes e conseguem? Por exemplo, se o Rubinho quer ir numa corrida, ele tem passe livre para entrar no paddock, ou tem que pedir pra alguém? E alguma outra celebridade, são as equipes / F1 que convidam?

Eles podem ou ser convidados por equipes/patrocinadores, como também podem pedir. O exemplo que você citou do Rubinho: provavelmente ele pediu direto para a F1, já que não estava em nenhuma equipe. O Matthew McConaughey, que entrevistei em Austin, estava a convite da Mercedes. Fica escrito na credencial: Mercedes guest, F1 guest, e assim vai. Para os ‘reles mortais’, é possível pagar. Dei uma olhada em quanto fica para o GP de Abu Dhabi na semana que vem e, quem tiver 30 mil reais sobrando pode ter acesso de um dia ao paddock e passar o resto do final de semana no paddock club. Pelo menos a comida e bebida são ‘de graça’.

 

Curiosidade 2: Como você consegue os passes de imprensa para ter acesso ao paddock, sendo freelancer? A FIA/F1 pede que tipos de comprovação do seu trabalho, se você não tiver uma emissora por trás (sei que você tem a BandNews FM, mas e se não tivesse, conseguiria cobrir a F1 sendo totalmente independente, só com conteúdo na internet?)

Minha credencial é pelo UOL Esporte. Você tem de mostrar os números de audiência/cliques para comprovar que o meio que representa é relevante. Há casos de freelancers que têm só seu nome na credencial, mas isso acontece com gente já com muito tempo de “casa”. Os meninos do Projeto Motor, por exemplo, conseguem credencial. É só comprovar os números de tráfego.

Estratégia do GP do Brasil e os segredos de Interlagos

Tão logo acabou o GP do Brasil, Ross Brawn afirmou que a corrida do último domingo era um caso a ser estudado. Quer tirar exemplos para, quem sabe, mudar alguma regra para que provas como a que vimos em Interlagos sejam mais comuns. Ora, um fator que ajudou a abrir a primeira parte da corrida, fazendo inclusive time grande errar foi a diferença de temperatura da chuvosa sexta para o ensolarado domingo, de 24C para 48C na pista. O que fazer então, controlar o clima? Não é de hoje (ou de domingo) que está claro que diminuir os dados das equipes antes da corrida ajuda, mas eles insistiram em manter os treinos livres como estão para 2021, apenas fazendo com que o parc fermé comece mais cedo (ou seja, mudanças fundamentais não poderão ser feitas depois que começa o FP3).

Essa falta de conhecimento sobre quanto os compostos durariam no calor e qual deles seria a melhor opção pautou a primeira parte da corrida, que foi emocionante, mas que tinha tudo para se estabilizar.

A corrida começou quente, com Hamilton passando Vettel por fora, Leclerc deixando para trás Norris e Ricciardo, que potencialmente poderiam complicar sua vida, chegando em 10 voltas aos sexto lugar, e Sainz pulando de 20º para 15º em quatro voltas. A evolução rápida de Leclerc deveria ter chamado a atenção para o rendimento do pneu médio, mas nem todas as equipes entenderam o recado.

Embora a Pirelli insistisse que, com as temperaturas mais altas, o duro poderia entrar em ação, a opção para este ano tinha sido levar a Interlagos os três compostos mais duros (C1, C2 e C3) e, por isso, embora durável, ele era lento demais. O jeito, então, seria fazer duas paradas.

Lá na frente, a Mercedes logo entendeu que essa era a única chance de vencer a corrida com Hamilton, que vinha tirando, pouco a pouco, a vantagem de Verstappen na ponta. O melhor trato com os pneus era o único trunfo que a Mercedes tinha neste final de semana, algo que tem a ver com a altitude, como também é o resultado da maneira como a Honda lidou com seus motores durante o ano: o fato dos motores Honda, trocados pela última vez na Rússia, estarem mais frescos, além de já lidarem melhor trabalhando com menos oxigênio no ar, fez a diferença.

Mesmo assim, Lewis Hamilton construiu uma chance de ouro: na volta 20, tinha chegado perto o suficiente, a menos de 2s, de Max Verstappen, que começava a ter dificuldades com os pneus. Era a hora de tentar o undercut. O inglês fez sua parada e voou na volta de retorno dos boxes. Mas ele precisava de mais do que isso: sabendo da vantagem de potência do motor Honda em Interlagos, era fundamental que ele escapasse da zona de DRS, caso contrário não conseguiria responder. Para isso, tinha que desligar a função de recarga automática das baterias na segunda volta após a parada, quando já tinha Max na sua cola (já que o undercut tinha funcionado e Verstappen, mesmo respondendo à parada de Hamilton na volta seguinte, tinha voltado atrás) para tentar abrir pelo menos 1s.

Mas a tática não deu certo. Hamilton chegou a fugir do DRS no primeiro ponto de ativação, na reta principal, mas já tinha acabado com suas baterias. Teria que sobreviver uma volta para carregá-las de novo. Max não lhe deu esse luxo, e o passou com mais de 30km/h de vantagem do DRS na reta oposta + a diferença da energia híbrida.

Com um ritmo inferior (na volta 20, Sebastian Vettel já estava a mais de 7s do líder), restou à Ferrari tentar deixar em aberto se adotaria a tática de uma parada, chamando o alemão só na volta 25 e colocando-o com os médios, enquanto Hamilton e Verstappen tinham se comprometido a fazer duas paradas, com os macios. Sua função era se manter a menos de 22s dos líderes e fazer com que eles tivessem que ultrapassá-lo na pista no final. Porém, parecia uma missão quase impossível.

Na volta 43, a Mercedes encontrou outro vão na pista para, novamente, tentar o undercut com Hamilton em cima de Verstappen. Mas, sabendo o que tinha acontecido da primeira vez, a Red Bull sequer pensou em antecipar a parada de Max para se defender. E, de fato, não funcionou. Verstappen parou na volta seguinte e se manteve na ponta.

Bottas estava sofrendo com o equilíbrio do carro e a Mercedes cometeu o erro de colocá-lo no lento composto duro, algo que teve de corrigir 15 voltas depois. Curiosamente, a Ferrari cometeria o mesmo erro com Leclerc três voltas depois, mas deixaria por isso mesmo. A parada a mais o colocou atrás do monegasco e seu motor, que já dava sinais de estar no fim da vida útil desde a classificação, quando ele era muito mais lento que os demais nas retas, abriu o bico. O finlandês parou o carro num lugar seguro, mas ele ficou travado num buraco e os fiscais não conseguiram retirá-lo sem o trator – Ross, taí uma receita infalível! – e o SC teve de ser chamado.

Faltavam 20 voltas para o final, Vettel já tinha desistido da tática de uma parada, o carro mais rápido do fim de semana estava na frente e só cinco pilotos estavam na mesma volta. Tinha tudo para ser um fim de corrida processional até o SC provocado por Bottas. E tudo o que aconteceu dali em diante foi definido por este momento, já que alguns pilotos aproveitaram para parar, outros não, gerando diferenças entre compostos, e a regra que permite que os carros recuperem uma volta colocaria o meio do pelotão de volta na briga.

Sabendo que Hamilton pararia caso Verstappen seguisse reto, a Red Bull chamou o holandês, decisão difícil de tomar para quem está na ponta, mas muito mais fácil numa pista como Interlagos do que em Mônaco, para dar um exemplo extremo. Lewis fez o inverso do rival, como era de se esperar, e passou a pedir toda potência do mundo para a relargada, sabendo que seria atacado.

Mais atrás, Sainz estava em nono antes do SC, num misto das ultrapassagens que fez e da adoção da tática de uma parada, que ele seria o único a conseguir executar. Começaria a parte mais impressionante da sua corrida, conseguindo se segurar como pelotão compactado e pneus mais velhos. Mas ele contou com a sorte também, pois estava “protegido” por Raikkonen e Giovinazzi, que também não pararam e estavam logo atrás. Mais à frente, Albon não parou, depois passou Vettel, que também ficou na pista, e pulou para terceiro, deixando o alemão na mira de Leclerc, que tinha borracha nova.

O que aconteceu na briga das Ferrari ficou bem documentado. Com os dois fora, Gasly, que tivera um ótimo ritmo o tempo todo, mantendo-se em sétimo correndo sozinho por toda a corrida, agora aproveitava que três carros dos grandes tinham saído de sua frente e era o quarto. Com sua parada a menos, Sainz era quinto, seguido pelas duas Alfa. No final das contas, todos os que decidiram não parar no SC de Bottas se deram bem. Menos Hamilton, que seria engolido por Verstappen, por fora. Como muitas vezes aconteceu com o inglês contra seus adversários, não importaria a tática, o carro mais rápido do dia ganharia.

O hexacampeão ainda tentou uma última cartada, pedindo para fazer o pitstop no SC seguinte, causado pelas Ferrari, na volta 66. Voltando em quarto, ele teria 5 voltas para recuperar o terreno perdido, e partiu para o tudo ou nada, passando Gasly, mas errando na dose com Albon. Com o toque entre ambos, o francês agradeceu e conquistou o primeiro pódio, com o segundo lugar. Hamilton ainda conseguiu continuar e cruzou em terceiro, mas foi punido pelo toque e Sainz acabou comemorando, também, seu primeiro pódio.

Em última análise, foram os detalhes da era híbrida que fizeram Interlagos vibrar como nos velhos tempos: o “apagão” de Hamilton e, principalmente, o desgaste de motores que têm de fazer pelo menos sete corridas para amortizar parte dos gastos com uma unidade de potência cara demais.

Drops do GP do Brasil e as almas boas

Não sou uma pessoa que se emociona facilmente. Na Fórmula 1, lembrava de ter segurado as lágrimas só duas vezes. Uma na primeira vez que tive acesso ao grid, em Interlagos, em 2012,

e vi meus amigos, aqueles que tinha conhecido justamente lá na arquibancada A, acenando de volta para mim. Na outra foi quando encerramos, eu e o Ico, a transmissão do GP de Abu Dhabi de 2016, em que ele, um irmão para mim, fez seu discurso de despedida e de “passada de bastão” para mim na Band.

Então sei lá o que deu em mim no último domingo, no que foi meu 100º GP cobrindo a F-1 in loco. Um misto da energia positiva que recebi de todo mundo que se apertou lá no nosso encontro da sexta, e por todo fim de semana, e da ajuda que tive de algumas das boas almas do paddock que são o que vale a pena rodar o mundo e que confiaram em mim para fazer outras boas almas brilharem. A homenagem ao Ayrton me tocou demais, assim como ver a Bia e a Aninha levantando a galera no grid.

Na manhã de domingo tinha ido até onde o MP4/4 estava – infelizmente, bem longe do paddock a contragosto da Liberty Media, e é por detalhes como este que eles levam tão a sério a proposta do Rio mesmo com as questões que pairam sob a construção do autódromo por lá – e, na volta, passei pelo local onde estavam expostos vários capacetes e troféus de Ayrton. Na caminhada de volta ao paddock, ouço o Tema da Vitória com narração do Galvão ao fundo. Sabe a famosa saudade do que a gente não viveu? Imaginei como seria estar me preparando para entrar no ar com ele no grid.

Fui correndo acompanhar o carro da mureta, com as arquibancadas cantando o olê olê olê olá, Senna, Senna. E vejo primeiro Caio Collet, com seus 17 anos, fazendo o mesmo. Caminho um pouco mais e avisto um senhor baixinho, em cima de um banquinho, olhos marejados fixos na pista mesmo quando o carro estava do outro lado. Era Josef Leberer, treinador de Senna de 1988 a 1994 e hoje na Alfa Romeo. Não há ninguém no paddock hoje em dia que tenha tido uma conexão mais forte com Ayrton do que ele. Só dei um abraço nele e o deixei viver seu momento.

 

Logo depois seria a hora de entrar com a Ana Luiza Kalil e a Bia Rosenburg no grid, numa história que começou ano passado. Foi a Bia que entrou em contato comigo ano passado, se não me engano, para eu tentar fazer com que o Daniel Ricciardo ficasse sabendo da história da Aninha, que tinha participado de um concurso que ele estava fazendo desafiando seus fãs a fazerem shoeys.

As duas tinham participado: Bia comemorando sua formatura (num vídeo que eu já tinha mostrado ao Daniel e que ele tinha amado) e a Aninha, o sucesso do seu transplante, parte do tratamento de um câncer raro em adultos.

Por sorte, eu tinha uma exclusiva marcada com o Ricciardo, e comentei com ele que a doença tinha voltado e a Aninha está tendo de passar pela quimio outra vez. Na hora eu nem sabia o que esperar dele. Ele quis saber se ela viria ao GP e pediu para conhecê-la.

Tive a ideia de não falar diretamente com ela. Faria uma surpresa com a ajuda da Bia, mas no fundo queria tentar levar as duas para o paddock, sabendo que ambas adorariam conhecê-lo. Naquele momento achei que conseguiria o passe por algumas horas, na sexta, com a própria Renault.

Mas acabei comentando da história com o produtor da F1, Jason Swales, que na hora disse que eles mesmos cuidariam dos passes. A história rapidamente chegou a Sean Bratches, que aprovou, inclusive, a ida ao grid. Tudo isso seria feito sem câmeras, a pedido de Ricciardo.

Quando fui buscá-las no portão, a Bia só sabia sabia que a Aninha conheceria o Daniel. Vocês tinham que ver a cara delas quando falei que as duas tinham VIPs para os três dias!

Durante o primeiro tour, passei para perguntar algo ao assessor da Racing Point, Will Hingis, e ele logo ofereceu dar acesso a nós três para o box da equipe durante o primeiro treino livre. Fomos logo depois do tal encontro com o Ricciardo, um fofo como de costume.

Elas viraram celebridades instantaneamente no paddock, mas nem sabiam o que estava por vir. Domingo de manhã, receberam a notícia de que iriam ao grid. Fiz questão que elas fossem comigo, não ia perder essa, e qual foi minha surpresa quando vi a arquibancada A toda acenando para elas, logo depois de terem ouvido a história pelos auto-falantes? Sim, depois teve toda aquela corrida sensacional, mas para mim tudo já tinha valido a pena.

Sei que essa coluna geralmente é mais recheada de informações dos bastidores do que de histórias. E eles estão mais quentes do que nunca na questão do futuro do GP Brasil. Esta é uma semana decisiva para uma decisão que tem diversas vertentes. Tem dinheiro, política, velhas e novas táticas de mostrar qual o projeto mais robusto e muitas dúvidas não só sobre onde será o GP, mas quem o mostrará – e se o mostrar – na TV. Já vou avisando que os drops de Abu Dhabi devem ser quentes…

Receita perfeita

Campeonato decidido, um traçado que permite ultrapassagens, condições de pista muito diferentes entre a sexta-feira de treinos livres e o domingo, e motores chegando no final da temporada já no limite, e um Safety Car que veio na hora certa para recompactar o grid quando só cinco carros estavam na mesma volta. Desta vez, nem precisou chover em Interlagos para termos muito provavelmente a corrida mais aberta da temporada. E que teve a

o mesmo tempo manobras espetaculares e campeões do mundo exagerando na dose.

Não foi à toa que Max Verstappen estava com um sorriso de orelha a orelha quando saiu do carro. Não é todo dia que se ganha uma corrida ultrapassando Lewis Hamilton em duas oportunidades, uma por dentro e, outra, que ele elegeu como sua manobra favorita, por fora. Além de seu talento, ele contou também com dois fatores ao seu favor: um motor Honda muito menos rodado do que os dos rivais, e a decisão da estrategista Hannah Schmitz, que representou a Red Bull no pódio depois de ter bancado a parada de Max nos boxes no primeiro Safety Car, o que naquele momento tirou-lhe posição de pista, mas que no final das contas lhe deu a vitória.

(Aliás, o parênteses é necessário: já vinha sendo uma corrida com ultrapassagens e pilotos com estratégias diferentes, mas a única questão realmente em aberto quando o motor de Bottas abriu o bico era se Vettel conseguiria fazer a estratégia de uma parada funcionar, mas mesmo isso parecia, a cada volta, mais improvável. O SC, que acabou acontecendo porque o carro de Bottas ficou travado num buraco, não só reagrupou o pelotão como também a regra dos pilotos descontarem a volta que levaram colocou caras como Gasly e Sainz de volta na corrida).

Mas Verstappen não era, de longe, o mais feliz após a bandeirada. Pierre Gasly admitiu que nenhum champanhe francês chegou perto do sabor especial que ele sentiu no pódio em Interlagos, ainda mais com todo o calor da galera que invadiu a pista. No final das contas, parece que Marko acertou mesmo primeiro em fazer a inversão entre ele e Albon no meio do ano, e agora em manter os

 dois onde estão. Foi a saída de inesperada Ricciardo que atrapalhou os planos de sucessão na Red Bull, e agora um piloto que é veloz, mas que sempre precisou de mais tempo para se desenvolver está fazendo um ótimo trabalho na Toro Rosso, e o outro, mais calmo e constante, terá condições de, finalmente, ter um pouco de continuidade na carreira depois da loucura que sua carreira se tornou nos últimos anos.

Esse é o consolo de Albon: seus pódios e vitórias são uma questão de tempo. Por ora, foi atingido numa manobra pra lá de otimista e até meio fora de comum de Lewis Hamilton, que logo admitiu o erro e sequer quis se defender para os comissários.

Desconheço como foi todo esse processo entre ele saber que estava sendo investigado e pedir para o representante da Mercedes comunicar a FIA que se considerava culpado pelo toque. Mas se tudo tivesse sido mais ágil poderíamos ter tido uma festa ainda maior no pódio: sério candidato a um dos três melhores pilotos da temporada, Carlos Sainz mais uma vez mostrou que é o verdadeiro “smooth operator” do grid, indo de último a terceiro e o único a conseguir fazer apenas uma parada numa prova com dois SCs no final, ou seja, em que os pilotos com pneus mais desgastados estavam bastante expostos.

Gasly e Sainz só tiveram a chance de estrear no pódio porque a Ferrari viveu outro momento de autodestruição. Leclerc vinha com pneus mais novos, mas Vettel estava até conseguindo responder em termos de ritmo, até que levou a ultrapassagem no S do Senna. Ele teria o DRS na Reta Oposta, e grandes chances de dar o troco. Mas primeiro surpreendeu escolhendo o lado de fora, mesmo com Leclerc ficando no meio da pista, e depois tentou diminuir o espaço do companheiro, numa cena muito parecida com o GP da Turquia de 2010. Como as Red Bull naquela ocasião, parecia que as Ferrari foram atraídas magneticamente.

Com isso, e com a quebra do motor de Bottas, que só deixou claro como a Mercedes está no limite nesse quesito, e indicando que isso pode explicar em boa parte por que eles estão mais lentos nas retas que a Ferrari e agora também que a Honda, no lucro após todas as punições ao longo do ano, tivemos o primeiro pódio da era híbrida sem um representante do time alemão e do italiano. Um aperitivo de como a Fórmula 1 pode ser bacana numa questão de detalhes.

Rapidinhas do GP do Brasil

Sobrou a brincadeira de Sebastian Vettel para cima de Max Verstappen, dizendo que agora é o motor da Red Bull que está gerando desconfiança. O motor Honda, na verdade, já demonstrou lidar bem com a altitude, e Verstappen parece estar começando a desenvolver uma relação especial com esse tal circuito de Interlagos. Ele disse que gosta das cambagens da curva, que fazem a pista parecer uma montanha-russa.

Fazendo um parênteses, o holandês fez questão de dizer que essa é a terceira, e não a segunda pole nele. Fica o registro.

Mas será que a Red Bull tem ritmo de corrida para vencer essa corrida? Os treinos livres mostraram um certo equilíbrio, mas uma Mercedes um pouco melhor. Os dois carros prateados largam na segunda fila, e uma das lições de casa de Lewis Hamilton era estudar as largadas dos últimos anos para ver como ele pode se posicionar. Não é muito fácil escolher o lado em Interlagos: fazer o lado de fora do primeiro S e ficar por dentro no segundo ou o contrário? 

 

A largada deve ser um ponto importante da prova porque, estrategicamente, deve ser seguido um roteiro de cuidar do pneu o máximo possível no primeiro stint para conseguir fazer só uma parada. Não é por acaso que Vettel citou que “vai ser preciso escapar à tentação de parar umas quatro voltas cedo demais.” Ele se refere à grande possibilidade de estar em posição de fazer um undercut em Verstappen, antecipando sua parada para tentar voltar à frente. Mas se a Ferrari exagerar na dose vai faltar pneu para o fim e, em Interlagos, dá para ultrapassar.

 

Outra variável estratégica deve ser o composto duro. Ele não foi muito usado nos treinos livres, mas deve estar muito mais quente no domingo em comparação com a sexta e, como o composto duro trabalha numa faixa de temperatura mais alta, ele pode se tornar uma boa opção, pois fica mais rápido. Os times grandes vão torcer para algum time médio colocar os duros logo no começo da corrida para ver se ele será, mesmo, uma boa.

 

Deve haver também muitos pilotos no miolo do grid largando com o médio para tentar usar o macio só com menos peso na parte final da prova. Foi essa a tática da Ferrari para Charles Leclerc porque o monegasco já sabia que perderia 10 posições no grid pela troca do motor que quebrou nos treinos livres em Austin. Mesmo assim, ele não esperava largar em 14º e estava decepcionado com o erro no Q3. Para a sorte nossa, vai querer compensar no domingo.

Turistando na F1 e os causos do Brasil

Quem sou eu para falar sobre a culinária brasileira para vocês, mas a ideia aqui é diferente. Mesmo no GP Brasil, eu saio com a mesma turma do restante da temporada na maioria dos dias, e são todos gringos. E sempre vão em uma churrascaria pelo menos uma noite, na qual eu desisti de acompanhar depois de uma conta absurdamente cara acho que em 2012. Acho que ficou uns 200 reais por cabeça porque o pessoal se empolgou na caipirinha doce que o restaurante servia. E eu tinha comido basicamente salada, coração de frango e alguns poucos pedaços de carne. Na época eu comia carne normalmente, hoje parei porque sinto que não me faz bem, mas não é muito a minha me empanturrar de carne à noite. Nem pagar 200 reais para isso.

Mas, aos poucos, eles também foram cansando da rotina de churrascaria todo dia – até porque hoje em dia reclamam do quão cara é São Paulo. Mas não são muitos gringos que abraçam a culinária local.

Ano passado, como fazia tempo que não voltava ao Brasil, estava salivando por mandioca e carne seca. Quando meus amigos viram aquela carne tão vermelha, não acreditavam que não era crua e nem quiseram provar. Azar deles, que preferiram a segurança de um bife com batata frita. 

Mas há quem arrisque, sim, algo além da famosa carne brasileira – aliás, os gringos acham que vivemos em churrascarias ou comemos carne em todas as refeições. Certa vez levei um sueco em um restaurante de comida mineira. Nunca vi alguém comer couve no alho com tanto gosto!

Mas incursões como esta são raras. Os gringos aprenderam rapidamente que São Paulo tem grande presença de descendentes de italianos – acho que ter visto Fittipaldi, Senna, Barrichello, Massa, Di Grassi nas pistas e a Cerasoli, o Motta, o Oricchio, etc fora deles tenha ajudado nessa percepção! – e de japoneses – o que eles descobrindo frequentando o karaokê da Liberdade – e sabem que podem comer boa comida japonesa e italiana por aqui. Quer dizer, boa comida italiana e uma versão meio livre da japonesa. A mania brasileira de colocar cream cheese em tudo incomoda.

Embora a grande maioria goste do café brasileiro, a não ser um americano que veio reclamar para mim do quão forte é o café Pilão, e se impressionou quando eu falei que ele nem era tão forte assim, o café da manhã brasileiro é polêmico entre os gringos. Eles acham que brasileiro só come bolo de manhã, pois é o que geralmente encontram nos hoteis. Não é muito comum ao redor do mundo comer doce de manhã, o café da manhã é geralmente uma refeição salgada, a não ser no Brasil e na Itália (pelo que eu lembro de cabeça dos lugares onde eu fui).

E todo ano a caipirinha faz vítimas – geralmente na segunda-feira eu sou uma delas. “Ah, a caipirinha me derrubou, a caipirinha é muito perigosa, muito forte, é a pior ressaca do mundo”, dizem eles. Sim, é uma bebida forte, mas não ajuda o fato dos gringos tomarem como se fosse água. Uma vez estávamos saindo de um bar que tinha comanda e um amigo pediu para eu confirmar a dele. Não lembro o número exato, mas tinha mais de 10 caipirinhas naquela comanda, e os drinks naquele lugar eram bem fortes. Perguntei a ele se era possível que ele tinha bebido tanto. E ele, com a camisa aberta, suado e lutando para ficar em pé disse que “era provável”.

Outra história com a bebida foi na corrida do ano passado, quando um amigo que vinha pela primeira vez ao Brasil estava sofrendo para decorar o nome do que ele, sem ter a mínima noção do que estava falando, chamava de caiputinha. Depois de tentar ensinar e ele continuar com a versão dele, achei melhor me oferecer para fazer os pedidos para ele pelo resto da noite. No dia seguinte, acordo com uma mensagem dele. “Por que absolutamente tudo está doendo?”. A caipirinha tinha feito mais uma vítima.

Por dentro da F-1 e uma aula de estratégia – parte 1

Minha grande diversão após as corridas é tentar decifrar as estratégias das equipes. Isso porque, quando você vai atrás das explicações, sempre aprende algo novo e entende um pouco mais do nível de detalhamento com que um time de F-1 trabalha. Como vimos tantas vezes nesta temporada, a diferença entre um erro e um acerto na estratégia pode jogar no lixo todo o trabalho de um final de semana, de meses desenvolvendo o carro. E as decisões têm de ser tomadas com muita pressão e pouco tempo. E envolvem inúmeras variáveis.

Mas o que está na cabeça dos estrategistas? Vou dividir algumas explicações em dois capítulos. Neste primeiro, o foco será no número de paradas e nos compostos escolhidos. Mas, primeiro, vamos com um breve glossário de estratégia:

Stint: quantidade de voltas nas quais um mesmo jogo de pneus é usado.

Undercut: quando um piloto antecipa sua parada em relação ao rival e usa a aderência superior do pneu novo para ganhar tempo. Assim, quando o rival faz seu pitstop, acaba voltando atrás.

Overcut: quando um piloto fica na pista mesmo depois que o rival que vai à frente para. A tentativa é usar o ar limpo para andar mais rápido e voltar na frente quando fizer a parada. Costuma funcionar apenas quando há diferenças consideráveis entre a performance dos carros e quando o rival tem problemas de aquecimento e/ou pega tráfego no retorno dos boxes, já que a tendência é quem tem pneu mais novo ter vantagem.

Janela de Safety Car: Cálculo de tempo (de geralmente 10 a 12s) entre um piloto e outro, significando que, se houver um SC ou um VSC, é possível parar e ainda voltar à frente.

Delta: Diferença de performance entre diferentes compostos para uma volta lançada.

Como funcionam as regras:

As equipes têm liberdade para selecionar a quantidade de cada composto que levarão à corrida, e isso pode gerar diferenças no domingo. Cada piloto sempre terá 6 jogos para a classificação e a corrida, e geralmente usará pelo menos três jogos de macios na classificação. Para os ponteiros, portanto, dificilmente eles terão macios novos para a corrida, o que diminui a possibilidade deles fazerem duas paradas nas corridas.

Como decidir com que pneus largar?

Essa decisão começa no sábado para as equipes grandes. Nos treinos livres, uma das avaliações é a diferença de performance entre os compostos. Caso o pneu macio estiver sofrendo com muita degradação e o delta em relação ao médio não for muito alto – na média, não passar de 1s – os grandes podem tentar fazer o Q2 com este composto para evitar usar o macio na corrida (uma vez que quem passar para o Q3 tem de largar com o pneu usado para fazer o melhor tempo no Q2). Neste caso, o mais comum é que a tentativa com o médio seja a primeira e os carros saiam com macios na segunda, para garantir que ficarão entre os 10 primeiros no caso de melhora significativa dos demais. Se essa melhora não acontecer, os pilotos abortam a volta. 

Mas a decisão de largar com o médio não tem a ver somente com sua performance em uma volta: em circuitos nos quais há muitos metros até a primeira freada, é arriscado largar com este composto, que precisa de mais calor para entrar em sua janela de temperatura – e, assim, gerará menos aderência – nos primeiros metros. De nada vale ter uma estratégia que, no papel, é mais rápida, se perder posições na largada.

Como definir o número de paradas

Essa matemática é teoricamente simples: os treinos livres de sexta-feira mostram os padrões de degradação dos três compostos. Com isso, os times conseguem prever por quantas voltas ficar com cada jogo e com qual combinação de compostos é mais rápido terminar a corrida, contabilizando também a perda de tempo no pitstop.

Mas essa conta define somente o que é melhor para um carro sozinho na pista e, muitas vezes, fazer duas paradas pode ser benéfico no papel. Contudo, isso significaria ficar atrás de outros carros, o que é geralmente pior, mas totalmente determinante de certas pistas de difícil ultrapassagem. Dois exemplos clássicos são Mônaco e Singapura. É sempre muito limítrofe fazer somente uma parada em Mônaco, pois isso exige muita administração de ritmo (e a atuação do ritmo na estratégia estará na segunda parte da “aula” de estratégia) mas, como se diz na F1, a “posição de pista é a rainha” em pistas de rua, até porque o limite de velocidade no pitlane é menor.

Não que as equipes sempre larguem sabendo o número de paradas. Como os pneus Pirelli são muito sensíveis à temperatura, pequenas alterações da sexta-feira para o domingo já podem mudar completamente o cenário para os estrategistas, e um pneu pode ter mais ou menos degradação, graining, etc. Neste tipo de cenário mais aberto, os estrategistas estarão sempre de olho em pilotos que estão em táticas diferentes – por exemplo, quem largou do fundo do pelotão com os duros – para determinar não só o número de paradas, como principalmente o próximo item…

Como escolher o composto

Pelas regras da F-1, é preciso usar dois tipos de composto na corrida. Nos treinos de sexta-feira, as equipes conseguem ter uma boa ideia de quais serão usados: na maioria dos casos, o duro fica de lado; em outras, é o macio que se degrada demais (o que gera aqueles cenários em que os grandes fazem o Q2 com os médios), e acertam seus carros com base nisso, uma vez que o comportamento muda bastante dependendo do composto.

Mas, principalmente pelas questões de temperatura citadas acima, é possível que toda a preparação venha por água abaixo. Por exemplo: se faz mais calor no domingo, o composto duro, que trabalha numa zona mais alta de temperatura, tende a funcionar melhor. Aí entra a avaliação feita com base na observação do ritmo dos rivais com o mesmo composto para se decidir se é mesmo melhor mudar o plano original.

No caso de dúvida tanto do número de paradas, quanto dos compostos, o melhor é sempre deixar a estratégia em aberto, ou seja, não repetir, no segundo stint, o mesmo composto do primeiro, pois isso implica que haverá uma segunda parada. Entretanto, essa opção de manter o composto mais macio pode ser tentadora se houver a possibilidade de fazer um undercut. Mas isso é assunto para o próximo Por Dentro da F-1.

“Aquela” decisão que deu 1º título a Schumacher

Não sei se é daquelas peças que a memória prega na gente, mas, quando penso naquele GP da Austrália de 25 anos atrás, a primeira imagem que me vem à mente é de um Schumacher atrás do alambrado com um sorriso amarelo no rosto. Teria sido amarelo mesmo ou escolhi guardar isso na memória dessa forma? O fato é que, por pouco menos de dez anos, parecia que todo título de F-1 seria resolvido com um piloto tirando o outro da pista, o que foi ótimo e horroroso para o esporte ao mesmo tempo. E aconteceu pela terceira vez em seis anos naquela decisão entre o alemão e Damon Hill.

Mesmo tendo começado o ano (com uma ajudinha do controle de tração ilegal da Benetton) disparado na frente (ele ganhou seis das primeiras sete), Schumacher chegava à última corrida do ano apenas um ponto à frente de Hill, depois de um campeonato em que aconteceu um pouco de tudo. Depois da morte de Senna, na terceira etapa, muita coisa mudou no regulamento e a Williams também foi melhorando um carro que não tinha nascido bem, uma vez que o time era o mais desenvolvido no uso da eletrônica e grande parte dela tinha ficado pelo caminho no final de 1993. Além disso, a temporada tinha sido cheia de polêmicas, com direito a duas desclassificações de Schumacher – uma por excesso de desgaste na placa de madeira que fica no assoalho, o que significa que o carro não respeitava a altura mínima, e outra por ignorar uma bandeira preta. Para piorar, Schumacher ainda foi excluído de duas provas na parte decisiva do campeonato devido ao problema com a altura.

Hill ganhou essas quatro corridas em que Schumacher não pontuou, e com isso tirou quase toda a vantagem construída no começo do ano.

Relatada como “uma daquelas raras corridas que te pegam pela garganta”, o GP da Austrália foi movimentado em sua primeira parte. Nigel Mansell largara na ponta, depois de superar Schumacher por apenas 18s – o alemão foi parar no muro tentando bater o tempo do Leão – e Hill largou em terceiro.

Mansell perdeu a liderança nos primeiros metros e ainda rodou pouco depois, caindo para quinto, enquanto os dois rivais travavam sua batalha particular na frente. Ambos estavam na estratégia de três paradas para reabastecer, então o ritmo era alucinante. Hill não deixava Schumacher escapar por mais de 1s5, e volta e meia fazia voltas mais rápidas, mostrando que tinha ritmo para atacar mais adiante na corrida.

A diferença chegou a ficar em 0s4 depois que Schumacher foi atrapalhado por um retardatário, mas Hill não conseguiu se aproveitar. Na volta 32, subiu para 2s3 (a maior da corrida até então), mas Frentzen segurou Schumacher, a distância voltou a diminuir, aumentou novamente quando foi a vez de Hill passar a Sauber e caiu mais uma vez na volta seguinte: 1s9.

Foi quando Schumacher cometeu um erro e saiu da pista, batendo no muro. O alemão tentou, então, voltar para a pista exatamente quando Hill estava passando. O inglês fez a trajetória normal, talvez imaginando que Schumacher abriria por estar com o carro danificado, mas o líder do campeonato virou bruscamente como se Hill não estivesse ali (ou talvez justamente porque Hill estava ali) e os dois bateram. Schumi ficou por lá mesmo – e daí a tal lembrança do sorriso amarelo atrás do muro – enquanto seu rival se arrastou até os pits, mas abandonou com a suspensão quebrada.

Aos 25 anos e 10 meses, em recorde que seria quebrado por Alonso e por Vettel anos depois, Schumacher se tornava o mais jovem campeão do mundo da história desde Emerson Fittipaldi em 1972.

A corrida acabou caindo no colo de Mansell, que tinha passado toda a prova em meio a batalhas com Barrichello, Hakkinen e Berger. Ele e o austríaco se alternaram na liderança por terem estratégias diferentes, e parecia que o ferrarista levaria a melhor, sobrevivendo a forte pressão, até a volta 64, quando Berger cometeu um erro. Mansell ainda sofreria a pressão do rival até o final, mas celebraria sua última vitória na carreira, ajudando a Williams a conquistar o Mundial de Construtores.

Já seu companheiro evitou atacar Schumacher diretamente e preferiu ver o lado positivo. Ele nunca foi considerado páreo para o rival, e até por isso ficou feliz de tê-lo induzido ao erro. “Agora que acabou tenho um sentimento de vazio muito forte. Mas eu dei trabalho a ele. Ele certamente estava sentindo a pressão quando saiu da pista. Ir para a decisão contra Schumacher com um ponto a menos sempre te coloca em uma posição em que tem tudo a perder.”

Na redenção de Senna, F1 vê nascer uma estrela

O GP dos Estados Unidos de 1990 não parecia ter os ingredientes para se tornar um clássico, mas dois nomes mudaram a história da prova disputada em um circuito com traçado sem nenhum atrativo em Phoenix (que, não coincidentemente, só recebeu a F-1 por três vezes, entre 1989 e 1991).

Um deles era Ayrton Senna, que não estava para brincadeira e isso não era por acaso. O brasileiro vinha em guerra aberta com o então presidente da FISA, Jean-Marie Balestre, devido à condução da decisão do título do ano anterior, no Japão. Duramente criticado por Senna, o chefão ameaçou tirar a superlicença do piloto da McLaren caso ele não se desculpasse. E isso não aconteceu. Mas Ron Dennis tinha um plano: inscreveu Jonathan Palmer como titular e colocou Senna como seu substituto. Quando Balestre tentou impedir o brasileiro de correr, Dennis ameaçou processá-lo. E ficou por isso mesmo.

O outro nome daquele domingo seria Jean Alesi. Mais do que isso, a Fórmula 1 deixou o Arizona crente que tinha visto a primeira grande performance de um piloto que viria a ser campeão do mundo. O francês de origem italiana já tinha impressionado antes, ao chegar em quarto logo em sua estreia, que aconteceu no meio do campeonato, substituindo Michele Alboreto, ao mesmo tempo em que ele ainda disputava a F3000. 1990 seria sua primeira temporada completa, e não poderia ter começado melhor.

Como pano de fundo, os relatos da época destacavam as arquibancadas vazias e eram críticos à política caça-nível que Bernie Ecclestone adotou, trocando Watkins Glen por Phoenix em 89. A prova não “pegou” e logo saiu do calendário, gerando um hiato do GP dos Estados Unidos que duraria até o retorno a Indianápolis em 2000 – e sabemos como isso acabou.

Voltando à pista, o grid acabou ficando bagunçado pois não havia muita aderência no circuito de rua e os pilotos que usavam o pneu Pirelli saíram beneficiados. Isso fez com que a Minardi conseguisse ficar na primeira fila, com Pierluigi Martini, Andrea de Cesaris colocasse a Dallara em terceiro no grid e o jovem que viria a ser a grande estrela do dia, Jean Alesi, se classificasse em quarto com a Tyrrell. A pole ficou com Gerhard Berger, de McLaren com pneus Goodyear, e seu companheiro Senna teve problemas elétricos e largou em quinto.

Embora tivesse dito nas entrevistas antes da corrida que lhe faltava motivação para correr por toda a confusão com Balestre, Senna mostrou no domingo que estava “mordido”, e não deixaria Alesi levar aquela corrida.

O francês de 25 anos fez uma largada incrível e pulou de quarto para primeiro. Como a expectativa era de que o pneu Pirelli se desgastasse mais rapidamente, ninguém esperava ver o que se seguiu nas voltas seguintes: Alesi foi obtendo uma boa margem na frente enquanto Senna ia abrindo caminho no meio do pelotão.

Não demorou para faixas pretas aparecerem no pneu da Tyrrell, mas mesmo assim Alesi foi se segurando por 34 voltas, até Senna chegar e iniciar uma disputa que se tornou épica. O francês vendeu muito caro a liderança, e a batalha que se seguiu nas duas voltas seguintes foi um show de ataque e defesa.

No final, deu a lógica e Senna venceu até com facilidade, mas quem comemorou mais efusivamente foi Alesi, segundo colocado. Bastante agressivo e bom na chuva, o francês teria outras corridas fortes, como o GP de Mônaco naquele mesmo 1990, e seria adorado pelos italianos na passagem pela Ferrari, entre 1991 e 1995. Mas sua trajetória foi mais de brilharecos que consistência, e ele encerrou a carreira em 2001 com apenas uma vitória – no GP do Canadá de 1995 – no bolso.

F1 on demand: o grande problema do teto orçamentário e o crescimento da McLaren

Hora dos Credenciados do Projeto No Paddock da F1 com a Ju tiraram as suas dúvidas. Essas foram as que sobraram quando eu fiz uma live com eles no grupo fechado do Facebook direto da fila interminável do check-in no aeroporto da Cidade do México.

 

Henrique Gianetti: Com tanta mudança para 2021, você acha que as equipes vão colocar menos esforço para desenvolver os carros de 2020 já que pouco deste ano vai ser aproveitado nos anos seguintes? Lembro 2013 que foi o último antes da mudança de motor, Vettel e Red Bull ganharam muito mais fácil que os anos anteriores, como se fosse continuação do ano anterior.

 

Essa é uma pergunta muito interessante porque está diretamente relacionada a algo que metade das equipes do grid questionaram muito durante esse processo decisório das novas regras. O projeto do carro do ano seguinte na Fórmula 1 geralmente começa assim que a temporada inicial se inicia. É lógico que, no começo, os recursos no desenvolvimento das ideias do carro seguinte são muito pequenos, e depois vão aumentando ao longo do ano.

Quando os times entram em uma temporada já sabendo que o carro mudará completamente, como será no caso de 2020, a porcentagem inicial de atenção para o modelo seguinte já começa o ano aumentada.

E por que isso gerou discussão entre as equipes? Quando se tem mais recursos, é mais fácil cobrir o desenvolvimento dos dois carros ao mesmo tempo. Ah, mas não vai ter o teto orçamentário? Sim, mas só a partir de 2021, ou seja, as equipes grandes vão gastar rios de dinheiro para ter carros com muito mais chance de serem melhores.

Para o consolo das médias, metade do grid gasta menos que o teto atualmente por falta mesmo de recursos, então na operação delas não faz muita diferença. O teto, diga-se de passagem, é considerado alto (ele é de 175 milhões de dólares na teoria, mas calcula-se em 250mi na prática, incluindo todos os custos que ficam de fora da conta pela regra). Para quem ter orçamento no nível da Racing Point em diante, eles queriam chegar a 100-120 milhões no máximo. Mas a ideia é que haja uma retração paulatina ao longo dos anos.

Respondendo à pergunta: foca em 2020 ou 2021? Para os grandes, tanto faz. Para os demais, tudo vai depender de como a temporada começar, lembrando que a posição no campeonato continua sendo determinante na distribuição do dinheiro 

 

Marcos Barni: A McLaren está começando a vir para frente ou foi o circuito que era favorável?

A McLaren já é consistentemente a quarta força do grid há algum tempo, mas eles tiveram uma série de azares em várias corridas depois da volta da pausa de agosto mas, na grande maioria das vezes em que tiveram corridas sem percalços, demonstraram um ritmo forte, vide as quinta e sexta colocações de Sainz na Rússia e no Japão.

Um problema curioso que a McLaren vem tendo, contudo, não tem nada a ver com ela. Como consegue colocar os dois carros no Q3, mas não tem tanto ritmo assim para classificar com o pneu médio, os dois pilotos ficam em muita desvantagem em corridas como as últimas duas, nas quais largar com o pneu macio era muita desvantagem. Foi por isso que eles acabaram perdendo para pilotos que saíram de fora do top 10 (Perez no México e Ricciardo nos EUA).

Falando nisso, achei curiosa a declaração do Pierre Gasly para mim no último sábado. Perguntei justamente dessa desvantagem (porque ele também foi ao Q3 nestas duas corridas) e ele me disse “pelo menos acho que vão mudar isso para o ano que vem”. Bom, para isso ocorrer, é preciso de unanimidade. E os grandes têm sempre barrado o fim dessa regra de largar com o pneu do Q2 em todas as vezes que ela foi votada nos últimos anos.

Estratégia do GP dos EUA com Ferrari perdida e táticas divididas

O GP dos Estados Unidos coroou o campeão Lewis Hamilton mais uma vez como era esperado. Mas as confirmações pararam por aí. A Ferrari, que tinha vencido a corrida ano passado, viu os rivais de tão longe quanto no final de julho em Budapeste. E foi a Red Bull quem chegou mais perto – e que poderia ter dado muito mais trabalho às Mercedes. Por fim, foi Valtteri Bottas quem fez a pole e venceu. Mas como explicar tudo isso?

Hamilton saiu da classificação sem entender por que o carro ficou imprevisível de uma hora para a outra no Q3. No final das contas, ele tinha batido na tampa do modulador de equilíbrio de freio, que ficava voltando à configuração que jogava o freio para trás, mesmo depois que Lewis tentava jogá-lo para frente. Foi algo que a equipe só notou depois.

Assim, a briga pela pole ficou restrita a Bottas, Verstappen e Vettel, até porque Charles Leclerc teria que usar um motor antigo depois da quebra no FP3. E, por menos de um décimo, deu Bottas.

Logo saberíamos que, dos três, só dois teriam ritmo para vencer, ainda que a tarefa de Verstappen fosse muito difícil pela vantagem que a Mercedes já aparentava ter nos treinos livres.

Isso porque tão logo as luzes se apagaram, a Ferrari já estava fora de combate. Como de costume em Austin, o lado do pole gera muito mais aderência, dando vantagem a Verstappen e Hamilton na briga com Vettel e Leclerc. E os dois sofreriam com um carro que saía muito de frente, como no início da temporada, mas desta vez sem aviso. O caso de Vettel parecia pior, já que a tendência do comportamento piorar virando à direita era o sinal de que algo estrutural estava errado. E logo a suspensão se foi.

No caso de Leclerc, o comportamento do carro não era muito diferente, especialmente de tanque cheio. Era clara a falta de estabilidade da Ferrari, mas o péssimo ritmo, que fez o ferrarista correr praticamente sozinho para chegar em quarto, deixou muita gente em dúvida se eles não perderam também rendimento do motor em Austin. Mas Binotto assegurou que nem a falta de velocidade de reta tem a ver com potência. Disse que eles testaram uma configuração diferente, focando mais nas curvas, e ficaram satisfeitos na classificação, mas completamente perdidos na corrida.

Mais atrás, Albon se chocou com Sainz e teria que escalar o pelotão por duas vezes para chegar em quinto. E, na briga pelo “melhor do resto”, Ricciardo faria outra bela corrida de administração de pneus, depois de passar Norris na volta 8. A McLaren tentou um undercut, mas a Renault não mudou seu plano de uma parada e o time inglês acabou percebendo que Norris não conseguiria ir até o final com uma parada apenas, e reagiu a tempo de converter sua tática em duas paradas.

Não que a McLaren ou a Renault foram para a corrida com a certeza de qual seria a melhor estratégia. Era uma dúvida que todos tinham, devido ao aumento das temperaturas da sexta para o domingo. É curioso lembrar que o cenário em termos de aumento significativo de temperatura era o mesmo no México e nos EUA, mas o calor do domingo significava coisas diferentes devido às características da pista e do asfalto: no México, mais calor significou que o pneu funcionou melhor que o esperado, pois evitou o graining. E nos EUA, levou ao superaquecimento e a uma prova que começou, na mente dos engenheiros, como de uma parada, mas acabou sendo mais rápida com duas.

Lá na frente, a Red Bull acabou tomando a decisão para a Mercedes, quando chamou Verstappen aos boxes muito cedo, na volta 13. Mesmo com os pneus duros, a outlap dele foi tão forte que os alemães tiveram que responder com o líder Bottas. Àquela altura, Hamilton já tinha decidido que faria só uma parada e, por isso, estava gerenciando o ritmo. Com as paradas dos dois que vinham a sua frente, Hamilton assumiu a liderança.

O inglês pararia na volta 24. Nesse momento, a equipe sabia que tinha a dobradinha, porque o ritmo da Red Bull tinha caído muito com os pneus duros. E o que eles viam em termos de degradação apontava para uma vantagem para a tática de duas paradas. Até foi curioso que as mensagens para Lewis não eram tão incisivas quanto em outras corridas quando ele dizia que não tinha certeza se o plano daria certo.

Para a Mercedes, agora era uma questão de parar Bottas logo depois de Verstappen, o que eles fizeram na volta 35, e torcer para que seus pilotos não fizessem nada estúpido, porque eles certamente se encontrariam na pista. Para Hamilton, era necessário salvar um pouco de rendimento para o fim e, para Bottas a tarefa era tirar 14s ao mesmo tempo em que garantia que teria pelo menos 1s5 de vantagem ainda nos pneus quando chegasse em Hamilton, já que é esse o cálculo de diferença para que um carro possa passar o outro na pista de Austin.

Bottas chegou com seis voltas para o final e passou Hamilton com cinco, de maneira decidida. Para o agora hexacampeão, que tentou de todo o jeito transformar o detalhe bobo da classificação numa vitória épica, não lhe restavam mais armas.

No final das contas, foi uma boa forma de Bottas selar seu vice, melhorando significativamente em relação ao ano passado, quando foi quinto, e de Hamilton comemorar mais um título. A briga fica agora entre Leclerc, Verstappen e Vettel. Mais do que saber quem vai ao FIA gala receber o troféu, pelas acusações de Max após a corrida em Austin sobre a queda de potência do motor Ferrari, vamos descobrir também quem tem razão numa discussão que é chave para 2020.

Drops do GP dos Estados Unidos com polêmica para uns, celebração para outros

Toto Wolff estava irritadíssimo no paddock em Austin. Ele se sente traído por Mattia Binotto pelo fato da Ferrari não ter usado o poder de veto para as regras de 2021. Agora, parece que vai ser mesmo um efeito cascata, e o que mudou, mudou. Como não há sinais de que o poder de veto da Ferrari vá cair, a Scuderia está mais uma vez dando as cartas, uma vez que, para mudar qualquer coisa no regulamento de 2021 a partir de agora, tem que ser por unanimidade.

 

Mas a aprovação das regras trouxe um problema para a Ferrari: a paz que estava instaurada entre as equipes grandes para que elas conseguissem barrar (como fizeram com sucesso) grande parte das mudanças que estavam sendo programadas já não precisa mais existir. Depois do GP do Japão, a Red Bull enviou um questionamento à FIA sobre a possibilidade de se aumentar o fluxo de combustível nos intervalos (calculados em milissegundos) entre as medições que controlam os 100l/hora. 

 

Adivinha quem estaria fazendo isso, na opinião da Honda? A Ferrari, claro, e isso explicaria porque a vantagem dela era tão grande em acelerações. E explica essa declaração do Verstappen para mim em Suzuka, e todas as outras do último domingo.

 

As equipes fazem esse tipo de “consulta” para tentar acabar com vantagens que os rivais possam ter. Eles basicamente perguntam à FIA se podem fazer algo que acreditam que um rival está fazendo. Isso gera diretivas técnicas, como a que foi distribuída em Austin. A partir da distribuição da diretiva, quem continuar fazendo seja lá o que tenha sido considerado ilegal corre risco de protesto e desclassificação.

 

Do lado da Ferrari, Binotto garantiu que o motor de Austin era igual ao do México. Porém, vale a ressalva de que a FIA não checou especificamente o fluxo ferrarista. O que a diretiva técnica diz é que aquilo que a Red Bull perguntou se podia, não pode.

 

Não sei como está a situação aí no Brasil, mas a concentração de scooters (acho que ainda são conhecidos como patinetes aí, certo?) nas ruas de cidades grandes nos EUA é impressionante. Isso porque eles são um sistema de transporte por aqui, como aquelas bicicletas que você pode pegar na rua pagando muito pouco. A diferença é que anda-se de patinete na calçada, e não na rua ou em ciclovias, e isso gera alguns acidentes às vezes. Que o diga o membro da equipe da Sky Italia que acabou caindo do seu patinete e fazendo um corte na cabeça. Ficou de molho.

 

Mas o rei do patinete na Fórmula 1 foi justamente quem mais celebrou no final de semana. Lewis Hamilton foi do inferno ao céu em 24h, e tenho um exemplo numérico para dar. Sua entrevista no sábado no grupo que divido com Globo e mais dois canais de TV foi de menos de 2min. E no domingo, passou de 8. A comemoração, pelo jeito, foi com tequila, já que ele disse que tinha ganhado algumas no México e guardado para celebrar. Como já não tem mais 20 e poucos anos, como alguns de seus rivais, pode demorar alguns dias para se recuperar…

A cara de Lewis Hamilton

Um GP mais com a cara de Lewis Hamilton, impossível. Tem que ter um pouco de drama, como a classificação ruim (algo sintomático em um ano no qual, ao contrário de toda a sua carreira, Hamilton não brilhou tanto aos sábados); um pouco de família (na verdade, teve até tio caribenho que nunca tinha vindo para nenhuma corrida); celebridades (o ator texano Matthew McConaughey disse, inclusive, que Lewis é convidado em seu rancho na hora que ele quiser) e, para este sexto título, não podia faltar uma bela dose de administração de pneus.

Sim, porque a Mercedes é um excelente carro, sem dúvida, mas Hamilton também fez a diferença aos domingos para conquistar seu sexto título. Adaptou-se mais rápido que os outros a cada condição, com pneus cuja janela de funcionamento não permite titubeios.

Em Austin, ele nem sabia como tinha deixado as duas Ferrari para trás tão facilmente logo nas primeiras curvas. E depois percebeu que, mesmo seguindo Verstappen razoavelmente de perto, seus pneus estavam em condições melhores do que os dele. Pôde fazer uma parada a menos e chegou a sonhar com a vitória, mas acabou vendo um Bottas muito mais forte no final passá-lo como se fosse um retardatário. Nada mal para quem largou em quinto. Muito mais do que ele precisava para selar o título.

Mas Max Verstappen não podia deixar de puxar um pouco do protagonismo para si. O holandês aproveitou as entrevistas pós-corrida para zombar da falta de ritmo das Ferrari, creditando-a à diretiva técnica distribuída pela FIA que, para a Red Bull, desvenda o mistério do motor ferrarista. É fato que a vantagem nas retas foi menor na classificação que vinha sendo nas últimas corridas mas, especialmente se lembrarmos que a vantagem ferrarista era maior na classificação do que na corrida, é muito pouco provável que Leclerc tenha ficado tão atrás (52s) por conta do motor. Os dois pilotos relataram uma dianteira muito instável, o que provavelmente jogou Vettel na zebra que o tirou da corrida.

O carro da Ferrari tem uma janela de funcionamento menor que os demais. E claramente estava fora dela em Austin.

No mais, três corridas a serem destacadas: no segundo final de semana seguido em que cuida dos pneus como poucos, Daniel Ricciardo foi o melhor do resto. Em seu 100o GP, Carlos Sainz foi muito veloz na classificação, levou um toque de Albon e ainda conseguiu se recuperar. E Perez se recuperou muito bem de um erro bobo na sexta-feira para colocar a Racing Point no top 10.

A quarta vitória de Bottas no ano também o confirma como o vice-campeão da temporada. Foi seu melhor ano na F-1 até aqui, mas sem a consistência suficiente para atacar Hamilton. Resta a briga pelo terceiro posto, entre Leclerc, Vettel e Verstappen. Na aposta do holandês, não deve ser um feito tão difícil assim…

Alheio às desconfianças de Max, Hamilton vira e mexe encaixava em suas respostas que não está pronto para parar, que ama o que faz. E não parece ser para chegar em Schumacher ou em quaisquer outros números. É para ter esses dias de Lewis Hamilton.

F1 on demand: Da Williams-2020 às “trapaças” no grid

Essa semana tem mais perguntas dos Credenciados no projeto do Catarse No Paddock da F1 com a Ju. Confira no link como participar também dos próximos! 

Essa semana tem mais perguntas dos Credenciados no projeto do Catarse No Paddock da F1 com a Ju. Confira no link como participar também dos próximos! 

Kleber Jorge: Essas ficam para o On Demand. A Liberty Media está com algum plano ‘B’ na mesa caso as obras em Zandvoort e Hanói não fiquem prontas a tempo? Ou esse cenário já está descartado?

Falei com o Jos Verstappen semana passada e ele ainda acredita que a prova não vai rolar. Existe a questão da construção da via de acesso, que enfrenta restrições de ambientalistas, e também melhorias na pista. Ele disse que eles não podem começar a construir nada ainda, pois não há autorização, e o inverno na Holanda costuma ser muito chuvoso. Já sobre o Vietnã, agora a temporada das chuvas está acabando e parece que a obra está andando melhor.

E tem alguma novidade sobre aquele boato da equipe espanhola chegando para 2021 e que traria o Pascal Werhlein?

Não ouvi mais nada sobre o assunto

Ney pergunta: Russell e Latifi na Williams no ano que vem? 

Russell está confirmado e até onde eu sei Latifi já tem contrato para o ano que vem com a condição de conseguir a superlicença. Falta apenas uma rodada dupla para a temporada acabar e a pior posição possível para ele na F2 é um quinto lugar – e isso já lhe daria a superlicença. Então não entendo o porquê da demora, ainda que tenha sido o padrão da Williams nos últimos anos.

Tenho minhas dúvidas, contudo, se seria o melhor caminho para a equipe. Latifi não é nada disso, e a Williams já percebeu recentemente que ter um pai bilionário não significa injetar bilhões na equipe (e nem tantos milhões assim). Bilionários, afinal, não chegam a esse nível gastando dinheiro a rodo, e sim reconhecendo bons investimentos, como Stroll fez na Racing Point, a equipe mais eficiente do grid nos últimos anos.

Vou aproveitar três temas trazidos pela Ana Luiza Kalil que acabei não respondendo depois do GP do Japão, mas que são assuntos que continuam dando pano pra manga:

Sobre o ajuste de freios eletrônico da Renault:

No paddock no México, rivais da Renault me diziam que tinha “saído barato” para a equipe, provavelmente porque todos os times estão em meio à renegociação de contratos. E ouvi também que deveria ser algo desenvolvido ao longo da temporada. Mas o que Abiteboul disse é que o sistema está no carro há mais tempo.

Todavia, o mais interessante é que a punição veio no código esportivo e não no técnico. Ou seja, eles foram julgados culpados pelo artigo que diz que “o piloto deve pilotar sozinho e sem ajudas”. É um artigo super amplo, e há vários sistemas no carro que poderiam ser considerados ajudas, como o brake by wire, por exemplo. E Abiteboul pediu para que a F1 “modernize” seu regulamento por conta disso. Uma bela virada de mesa, isso sim.

2 – Quanto à suspeita de irregularidade do motor da Ferrari, eu entendi pelo que você falou na live que não houve protesto formal por parte da Red Bull e da Mercedes, apenas comentários no Paddock, mas seria a mesma questão de suspeita de irregularidade do ano passado que formalmente não deu em nada, apesar de o rendimento da Ferrari ter caído na segunda metade do campeonato?

Como não se sabe exatamente o que eles estão fazendo, é difícil cravar, mas deve ser algo que eles começaram a explorar ano passado, a FIA mandou cortar, mas eles conseguiram driblar de novo. Parece ser daqueles casos em que é mais algo que fere o espírito das regras do que o texto em si. Mas lembre-se que houve muitas mudanças na federação neste ano, e se comenta no paddock que virou um samba do crioulo doido e eles estão fazendo vista grossa para muita coisa (e não só na Ferrari). É importante colocar sob perspectiva o momento que a categoria vive, com as equipes sem contrato para além de 2020. Sei que vivo batendo nessa tecla, mas isso as coloca com a faca e o queijo na mão.

3 – Saiu uma nota falando que o contrato da Petrobras com a McLaren foi rescindido, mas acredito que não seja verdade pelo valor de contrato informado na nota. Queria mais detalhes sobre esta questão.

Nem o contrato da Philip Morris com a Ferrari é tão caro quando o que o governo diz que o acordo da Petrobras com a McLaren é. Várias fontes apontam que o contrato de patrocínio em si começou em 10 milhões de libras em 2018 e foi corrigido até chegar a por volta de 11,5 milhões agora. Seriam 6 anos de contrato, até 2023, então vamos considerar que seriam uns 70 milhões de libras no total. O governo fala em 163 milhões de libras, mas “esquece” de citar que também se trata de um contrato de desenvolvimento de tecnologia. Há, inclusive, óleo brasileiro sendo usado na McLaren desde o fim do ano passado, e isso custa dinheiro. Mas conversei com gente no paddock que duvida dessa cifra. “Até mesmo se eles estiverem contando logística, absolutamente tudo, o valor não bate.” 

Outra imprecisão é colocar as coisas como se fosse “uma economia de 163 milhões”. Bom, 21,5 já foram gastos com publicidade e mais outros tantos milhões com o desenvolvimento de combustível e lubrificantes. E é claro que, numa rescisão dessas, também é preciso desembolsar uma grana. Infelizmente, é uma política muito comum no Brasil, “ambidestra” inclusive, de não querer dar continuidade a projetos para não se vincular a uma administração anterior.

Seja como for, falei com o chefe da McLaren no México e ele disse com todas as letras que o contrato não tinha sido terminado, até porque a marca seguia estampada no carro. Mas também ouvi que seria uma questão de dias para que isso acontecesse. É algo que o governo vem tentando fazer desde o início do ano e parece estar perto de se concretizar.

Estratégia do GP do México e os duros longa-vida

Todos começaram a corrida com a ideia de fazer duas paradas, mas também atentos ao que, de fato, viria a acontecer na corrida, uma vez que a temperatura da pista subiu em 10 graus no domingo em relação a quando as simulações de corrida foram feitas na sexta-feira. Junte-se a isso o fato de, no sábado, as equipes não terem tido a chance de testar muito bem as mudanças feitas após o primeiro dia de atividades, pois a pista estava úmida no FP3. Seria uma prova mais de reação, com o piloto tendo um papel importante dentro do cockpit, do que de planejamento.

A Ferrari ficou mais presa ao seu planejamento – mais uma vez dando sinais de que suas simulações deixam a desejar em relação aos demais – e esqueceu de ver o que, de fato, estava acontecendo na corrida. A Scuderia reagiu à parada da Red Bull, com Alex Albon, que vinha em terceiro na corrida. O time austríaco optou por colocar pneus macios no carro do tailandês para tentar o undercut, mas cegou-se à possibilidade (que já estava muito clara para a Mercedes) de abrir a possibilidade de fazer só uma parada. 

Ou seja, crente de que a Ferrari responderia com Vettel, eles colocaram os pneus médios em Albon comprometendo-o a fazer duas paradas, mesmo vendo o ótimo ritmo de Verstappen com o composto duro. As equipes entraram na corrida dispostas a evitar o duro achando que ele seria lento demais, e Max estava provando o contrário. Caso Albon tivesse colocado o duro naquele momento, estaria na luta pelo menos de um pódio.

Já a Ferrari, acreditando que era necessário ir até a volta 30 com o primeiro jogo de pneus, nem cogitou colocar Leclerc no pneu duro, também comprometendo-se a fazer duas paradas. Do lado do monegasco, houve a mea culpa de admitir que “perguntaram sobre o estado dos pneus e eu respondi”, dando a entender que ele, Leclerc, sentiu que julgou mal a situação da borracha naquele momento. Não coincidentemente, foram os dois pilotos menos experientes do top 5 que caíram na armadilha das duas paradas.

Como a Ferrari decidiu defender a tentativa de undercut da Red Bull com o líder, isso automaticamente jogou Sebastian Vettel para uma tática de uma parada, uma vez que ele perderia a posição para Albon se parasse duas voltas depois.

A cara giro, ficava claro que o calor estava ajudando a proteger os pneus do graining da sexta-feira, e Vettel estava em posição de ganhar a corrida. A não ser por um problema: Hamilton vinha se aproximando, mesmo com um carro danificado pelo toque com Verstappen na primeira curva, e começava a ter a chance de tentar um undercut. A Mercedes, então, esperou que se abrisse um espaço para o inglês voltar sem trânsito e parou, na volta 23, e retornou à pista tão rápido que, mesmo se Vettel respondesse na volta seguinte, voltaria atrás – ouvimos no rádio como se Vettel não tivesse parado porque não quis, mas a decisão foi tomada no final das contas pela equipe também sabendo que a posição de pista estava perdida.

Aí entram as diferentes simulações das equipes. A Ferrari não acreditava que Hamilton poderia chegar até o final com o pneu duro em boas condições, e manteve Vettel na pista pelo máximo de voltas possível para ele ter a chance de atacar o inglês no final. Já a leitura da Mercedes era de que a janela para uma parada tinha se aberto na volta 19, e por isso pediu ao inglês que forçasse o ritmo. Na volta 22, ele ficou a menos de 2s de Vettel, e no final do giro seguinte, parou nos boxes.

Era um pouco cedo, sim, mas era a única chance da Mercedes ganhar a corrida. Caso Vettel parasse antes de Hamilton, ele voltaria na frente e ganharia a corrida. Depois, foi só uma questão de fazer Hamilton acreditar que dava para ir até o final mesmo com um carro cujo equilíbrio não era o mesmo por conta dos danos no assoalho, que tiravam a estabilidade da traseira nas freadas. Mas o time alemão sabia que poderia confiar em seu piloto para fazer isso. No final das contas, foi uma grande vitória tanto do piloto, quanto da equipe.

Vettel acabou parando 13 voltas depois, respondendo ao pit stop de Bottas, que naquele momento era segundo. Leclerc voltou à liderança, mas apenas por seis voltas, até fazer sua inevitável segunda parada, pois teria que usar os dois compostos. Caso tivesse colocado os duros naquela primeira parada, muito provavelmente teria ganhado a corrida, já que Verstappen veio passando o pelotão inteiro com um mesmo jogo de duros, que sobreviveu por 66 voltas.

No final das contas, fica a informação que Mario Isola já tinha passado na sexta-feira, de que o fator limitante do pneu duro era de desgaste, e não degradação. Ou seja, a perda de performance seria repentina, mas apenas no final do stint. Por conta disso, os pneus 13 voltas mais novos de Vettel não seriam suficientes para ele ser significativamente mais rápido que Hamilton, e o inglês venceria pela 83ª vez na carreira.

Na briga do segundo pelotão, uma equipe que soube ler bem a situação de pista levou a vantagem: a Racing Point chamou Sergio Perez aos boxes na volta 20 e colocou os pneus duros, provavelmente deixando a tática aberta para ver o que aconteceria no final da prova – o que a Ferrari tinha que ter feito com Leclerc. E a Renault apostou que as temperaturas mais altas favoreceriam o pneu duro e colocou Ricciardo neste composto desde o início da prova. Ele faria mais de 50 voltas sem trocar pneus e, com isso, foi superando seus oponentes para ir de 13º a oitavo. Moral da história? Não foi uma corrida fácil de ler, mas alguns estrategistas – e pilotos – justificaram seus salários no México.

Drops do GP do México do piriri ao GP Brasil

Começamos a ouvir na sexta que “fulano teve que voltar para o hotel”, “ciclano não está bem”. A comida mexicana é famosa por gerar intoxicações em turistas, mas o que aconteceu no paddock foi algo muito mais amplo do que nas etapas anteriores. A suspeita foi a festa de recepção que o circuito organizou na quinta-feira, mas também ouvi de gente que não comeu no evento e que, mesmo assim, teve que ficar no hotel. Eu nunca tive problemas no México, mesmo sem tomar qualquer tipo de precaução, mas desta vez teve até piloto sofrendo: Pierre Gasly chegou mal no sábado e ainda teve de ouvir de Helmut Marko que, se a situação piorasse, era só ele “correr de fraldas”. 

 

Mas nem o temor de ter uma intoxicação afastou o pessoal da barraquinha de tacos ou de churros, coisas que só temos no México, que acaba sendo o melhor e o pior paddock da temporada, uma vez que convida os VIPs a encher a cara.

 

Um dos assuntos nas rodinhas era o ativismo de Lewis Hamilton em relação ao meio ambiente. O inglês chegou ao México sabendo que seria questionado sobre isso, e muito mais preparado do que na entrevista que fiz com ele em Suzuka exatamente sobre esse assunto, e confesso que isso me deixou em dúvida do quão verdadeiro ele está sendo a respeito. Mas é importante um esportista, como pessoa pública, levantar essa bandeira. Foi esse o mote da matéria de Ben Hunt para o The Sun, um dos maiores jornais da Inglaterra. Estava chegando no paddock com ele em um dos dias e me impressionou o número de pessoas que vieram criticá-lo por ter ficado do lado de Hamilton.

 

O piloto, inclusive, foi agradecer ao jornalista pela matéria, algo raro, principalmente envolvendo Hamilton e sua tensa relação com os jornais ingleses. Para vocês terem uma ideia, é 1000 vezes mais fácil eu conseguir uma exclusiva com ele do que o The Sun, por exemplo.

 

O futuro de Robert Kubica parece estar ligado à Haas, como piloto de testes. O time quer investir em simulação e pode ter mais de um piloto nesta função ano que vem.

 

Surpreendeu ouvir de Cyril Abiteboul que a primeira versão do contrato para 2021 foi enviado pela Liberty Media na semana passada. Ao que parece, é a situação também das outras equipes, e acredito que tenha a ver com a publicação das regras nesta quinta-feira. Basicamente, elas serão publicadas porque é o limite em termos de prazo, mas é esperado que mudanças ainda aconteçam nos próximos meses. Muita coisa foi mexida nas últimas semanas e, ainda assim, várias equipes estão descontentes.

 

Perguntei a Cyril também sobre a revisão do investimento na F1 admitido pela montadora. Ele disse que é difícil mesmo convencer a Renault a ficar sem a chance de inovar. Pela resposta já dá para entender que tipo de pressão está sendo feita na Liberty no momento.

 

Muita gente me perguntou sobre a situação do GP do Brasil depois que publiquei a história de que as negociações estavam reabertas. Houve quem entendeu que agora é uma questão de tempo para São Paulo fechar, mas a situação não é essa. O Rio entregou uma proposta bastante robusta em maio e agora a Liberty quer saber se São Paulo tem condições de cobrir isso. No momento, não tem.

A proposta do Rio é pagar pelo menos 35 milhões de dólares por ano, dinheiro que vem de impostos, uma vez que a cidade tem uma lei que vem da época da Olimpíada que permite o uso de dinheiro público para eventos esportivos e de entretenimento de grande porte. Foi uma lei, inclusive, que visava tirar grandes eventos de SP. Carey quer o mesmo valor dos paulistanos, além da garantia de que Tamas não estará mais envolvido na promoção do evento. E na reunião que citei na matéria, acredito que ele tinha tido pela primeira vez a total clareza disso.

Então, pela ótica da Liberty, o Rio continua sendo uma opção melhor. Mas é claro que a pista primeiro precisa ser construída e, enquanto isso, eles vão negociando com São Paulo para ter mais cartas na mesa. Do lado do Rio, o estudo de impacto ambiental foi concluído e eles devem esperar as chuvas do verão para entrar no terreno. Chase não tem pressa, disse que pode esperar pelo menos até junho de 2020, pois pretende ter o calendário fechado mais cedo ano que vem. E até lá vai dar para ter um cenário melhor em relação à obra.

Podcast No Paddock da F1 com a Ju: Cobertura da F1


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Julianne Cerasoli fala sobre os bastidores da cobertura da F1. Conto sobre a minha trajetória no esporte e tiro algumas dúvidas técnicas.

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Cartas embaralhadas

Os carros da Fórmula 1 foram mais uma vez batidos pela altitude do GP do México, e o que poderia ter sido uma corrida com um final muito interessante, com quatro carros com três estratégias diferentes, acabou virando uma procissão, já que os pilotos perdiam muita aderência quando estavam a 1s5 do adversário.

As cartas que valeram, no final das contas, tinham sido jogadas bem antes de tudo isso. A Mercedes arriscou chamar Hamilton para o box na volta 23 e colocá-lo na estratégia de uma parada, contrariando o que a própria Mercedes pensava a respeito da estratégia antes da largada – Bottas disse que eles estavam projetando duas ou até três paradas antes dos termômetros subirem no domingo e diminuírem o graining sentido na sexta-feira.

Vettel não quis responder já na volta seguinte e aceitou o undercut, acreditando que seria muito difícil Hamilton levar aqueles pneus até o final. E olha que ele nem sabia que a lateral do assoalho do carro do inglês estava comprometida pelo toque com Max Verstappen logo na primeira curva.

No final das contas, o pneu duro durou uma eternidade – no caso de Max Verstappen, 66 voltas! – e Vettel estava errado. Como a outra Ferrari já tinha saído de combate pela opção de seguir com o plano A sem enxergar bem a corrida, e Verstappen apertou o botão de autodestruição na classificação, o caminho estava livre para Hamilton vencer a última corrida que ele imaginaria ganhar na temporada.

Ao pole position Leclerc, faltou a experiência para pelo menos questionar o que os outros estavam fazendo antes de responder que os pneus estavam acabando, abrindo o caminho para a Ferrari adotar a estratégia de duas paradas. São momentos como este que tornam a vida da Scuderia difícil, pois Vettel teve muitos altos e baixos nos últimos anos e Leclerc ainda precisa amadurecer.

Outros destaques da corrida foram o piloto da casa, Sergio Perez, se aproveitando de ter largado na melhor posição possível no grid no meio do pelotão, o 11º lugar, ou seja, o primeiro entre aqueles que não precisam largar com o pneu do Q2. Essa é uma regra sem sentido atualmente, pois só acentua a vantagem dos grandes. E é justamente por essa vantagem que as votações para mudar a regra nunca passam.

Daniel Ricciardo fez uma estratégia completamente diferente, aguentando o máximo de voltas possível com os pneus duros. Foi uma bela corrida de administração do australiano, que pulou de 13º no grid para oitavo na bandeirada.

Mas Ricciardo foi um dos pilotos que ficaram presos atrás de rivais, sem pressão aerodinâmica e com motor e freios superaquecendo. Não tem jeito, essa é uma sina que vem dos 2200m de altitude da Cidade do México e, embora haja o que as equipes possam fazer, simplesmente não vale a pena desenvolver um pacote só para uma prova. Parece, então, que vamos ter de nos acostumar com um espetáculo melhor fora do que dentro da pista no México.

Rapidinhas do GP do México

Escrevo estas linhas sem saber o que aconteceu depois que Max Verstappen foi chamado aos comissários a se explicar por não ter tirado o pé sob bandeira amarela na última volta da classificação, quando o carro de Valtteri Bottas estava na barreira de proteção. Seria bom, também, a FIA explicar por que não deu bandeira vermelha depois de um acidente em que a integridade da barreira estava comprometida – e também por que ela estava posicionada de tal forma que Bottas a pegou de lado no segundo impacto. Enfim, o nível especialmente da comunicação da FIA caiu muito neste ano e este sábado foi apenas mais um exemplo.

Mesmo se Verstappen não mantiver a surpreendente pole, a corrida se desenha de forma interessante. A grande prioridade dos pilotos será não ficar preso atrás de um rival, já que a altitude traz grandes problemas para a refrigeração do motor e dos freios. Então a largada deve ser agressiva e, com a falta de aderência também causada pela altitude no México, aliada ao fato dos 6 primeiros largarem com o pneu médio, promete dar muita emoção aos primeiros metros da prova.

Daí em diante, será um mergulho mais ou menos no desconhecido. A Pirelli trouxe pneus mais duros neste ano para o México de olho em evitar o graining, mas não teve muito sucesso. Todo mundo saiu reclamando muito na sexta-feira e acabou não tendo muito tempo de checar se as mudanças de acerto feitas após os treinos livres deram resultado, já que a pista estava úmida no treino livre disputado na manhã deste sábado.

Não por acaso, quando perguntei a Vettel se ele achava que alguém que larga com os médios tentaria fazer uma parada, ele disse que eles só vão descobrir na corrida. “Acho que depois de umas 10 voltas vai dar para termos uma ideia de quanto os pneus estão durando.” É possível, portanto, que alguém divida as estratégias entre os companheiros (um tenta parar só uma vez, outro cumpre a “cartilha” da Pirelli e para duas.

O que não é provável é que os 6 primeiros coloquem os pneus macios. São eles os que sofrem mais com o graining e, por conta disso, até Carlos Sainz tentou fazer o Q2 com os médios. A McLaren julga que a sorte deles é ter as Toro Rosso logo atrás. São eles que vão sofrer, com os macios no começo da corrida, o ataque de quem larga de 11º para trás.

Voltando para a parte da frente, todo mundo saiu da classificação achando que poderia ter feito a pole, não fosse um detalhe aqui e ali. Como, no México, os carros escorregam muito, só mesmo Verstappen fez uma volta limpa, ajudado pela aderência mecânica superior da Red Bull e pela menor necessidade de arrefecimento do motor Honda. Por conta disso, a Red Bull não precisa abrir tanto a carenagem, o que ajuda na eficiência aerodinâmica.

Falando sobre as especificidades deste circuito, tivemos uma aula com os engenheiros da Ferrari na sexta em que eles dividiram alguns dados interessantes: há 60% de diferença em termos de downforce entre a asa da Itália e de Singapura. E, no México, mesmo usando a asa de Singapura, o carro produz tanto downforce quanto na Itália!

Isso explica por que a classificação foi tão difícil e por que as corridas no México costumam deixar a desejar, pois é preciso muita administração de pneus, uma vez que um carro que desliza é um carro que desgasta mais os pneus. Junte-se a isso a questão do arrefecimento e fica fácil entender por que o GP do México costuma ser mais sobre defesa do que ataque. Veremos se a máxima se confirma neste domingo.

Turistando na F1 dos tacos ao brisket

Estava pensando aqui com meus botões por que tenho a impressão de que México e Budapeste são os dois GPs em que eu como melhor na temporada. Os dois têm algo em comum: são em cidades baratas, então eu posso ir em restaurantes melhores. Mas tem um fator que desempata o jogo a favor do México: a comida de chefs em restaurantes mais chiques é absolutamente sensacional. Mas o restaurante sujinho da esquina não fica muito atrás.

Eu simplesmente não consigo lembrar de comer algo ruim no México. E isso inclui insetos! Tanto, que só tirei essa foto aí depois de ter começado o prato de chapulines…

Pena que eu não me lembro dos pratos dos restaurantes que fazem uma culinária mais experimental. Geralmente pedimos sugestões para os chefs, misturamos tudo na mesa e vamos provando um pouco de cada. Só posso dizer que absolutamente tudo o que eu comi no Huset e na Casa Awolly era espetacular. Os dois restaurantes ficam no bairro Roma Norte, que é muito bom para se hospedar também. E ano passado já vi que o empresário do Alonso estava no Awolly e eles disseram que o lugar está ficando famoso no paddock, então logo os pilotos vão começar a ir lá também. O que não é exatamente boa notícia porque ele é bem pequeno!

Na linha mais popular, não é por acaso que a Casa de Toño está sempre com fila na porta. O menu não é grande, mas as quesadilas e flautas, dois dos pratos mais tradicionais do México, estão lá com seus variados recheios e são deliciosos. A comida no Mercado de Coyoacán também é altamente recomendável.

A cozinha mexicana tem ainda enchilladas, chiles rellenos, guacamole, pozole… enfim, muito mais do que tacos – não aqueles duros dos EUA, os verdadeiros! Pimenta, abacate, tomate, feijão, milho e abóbora são ingredientes básicos dessa culinária bastante colorida. 

A comida é tão boa que eu não lembro de comer muitas sobremesas. A não ser no paddock que, ano passado, tinha barraquinhas de comidas típicas, incluindo churros (que na verdade é espanhol) e um sorvete de tequila. Como não amar o México?

Churrasco à Texana

Não é fácil comer nos EUA, costumo dizer que as porções por lá não são humanas. E como faz se você foi criada para não deixar nada no prato? A sorte é que o GP dos Estados Unidos é perto do México e há muita comida mexicana, ou Tex-mex, por lá para salvar.

Ano passado descobri um restaurante chamado Guero’s que tem tacos al pastor até melhores que os originais mexicanos. Ele fica na South Congress, avenida que tem muitas boas opções de comida. E muitos food trucks também, já que eles são uma febre em Austin, que pode ser no conservador Texas, mas é um oásis com uma cultura bem boêmia, liberal e forte presença de empresas de tecnologia, o que atraiu uma juventude moderninha para lá.

Mas tem uma comida texana à qual tenho que me render: o brisket. Trata-se de um corte de peito de carne preparada lentamente como churrasco, por 4 a 7h. Já disse por aqui que parei de comer carne de vaca no fim do ano passado, menos talvez abra uma exceção. Culpa do tal brisket, que é tão macio que desfaz na boca. E o melhor que eu comi até hoje foi no restaurante EastSide Tavern, ainda que o mais famoso – pelo menos para nós da F1 – seja o Cooper’s Old Time Pit Bar-B-Que. Se quiser encontrar gente da F1 no domingo à noite, lá é uma boa. Ano passado tinha uma mesa gigante com todo o pessoal da Honda. Sim, até os japoneses se renderam ao brisket!

Por dentro da F-1 e da logística maluca das corridas

É sempre assim: saio dos circuitos cerca de 5h depois do final da corrida e fico impressionada com o que vejo pelo caminho: as garagens já estão praticamente desmontadas e colocadas em grandes caixas nas quais tudo se encaixa milimetricamente. E todo mundo coloca a mão na massa, incluindo quem trabalha servindo café e coisas do tipo. Claro que os engenheiros e chefes ficam de fora – provavelmente, a esta altura, eles e os pilotos já estão pegando seus voos. Costuma-se levar de 6 a 8h para desmontar tudo, dependendo do espaço disponível no paddock e da facilidade de acesso dos caminhões à pista. E o paddock da China, bastante amplo, é tido como o melhor.

Mas isso é só a ponta do iceberg da loucura que é a logística da Fórmula 1, que permite façanhas como desmontar o circo em Melbourne e montá-lo novamente em Manama, a mais de 12.000km de distância, em três dias.

Dependendo da corrida, os equipamentos são mandados por meio de caminhões ou por uma combinação de avião mais navios. Começando pela parte mais simples, são cerca de 300 caminhões que viajam para as etapas europeias (menos Baku, que fica geograficamente na Europa mas é considerada uma corrida “flyaway”, na linguagem da F-1, ou seja, para onde o equipamento voa ao invés de ir por terra).

Por via aérea, os equipamentos das diferentes equipes se “encontram” em dois pontos: no aeroporto de East Midlands, no centro da Inglaterra, e em Munique (para onde são enviadas as caixas de Ferrari, Toro Rosso e Alfa). A DHL é quem fica encarregada de fazer esse transporte para as corridas, mas isso sai caro: a estimativa é de que cada time transporte 50 toneladas de equipamentos por ano, ao custo de 8 milhões de dólares. 

Mas acho que a parte mais interessante é o transporte marítimo. Basicamente, as equipes compram cinco equipamentos iguais e enviam quatro para as primeiras quatro etapas com antecedência e a quinta para o Canandá. Depois, o que estava em Melbourne vai para Singapura, a carga de Xangai vai a Suzuka, de Manama vai para Sochi, de Baku, para Austin e do Canadá, para o México. Depois, de Singapura, a carga vai para o Brasil e, de Sochi, para Abu Dhabi.

Ou seja, é por conta desse transporte marítimo que é possível fazer dobradinhas como Austrália e Bahrein, Singapura e Rússia (ou Japão) e Azerbaijão e Canadá, ainda que essa última não seja muito bem vista pelas equipes. Porém, foi feita uma inversão importante para o ano que vem em relação a quando isso aconteceu, em 2016: fazendo Baku primeiro, ganha-se 8h para o transporte devido à diferença de fuso entre o Azerbaijão e Montreal.

Isso só faz sentido porque é um meio de transporte mais barato para encomendas ao mesmo tempo pesadas e não muito caras – ou seja, quando compensa comprar cinco peças diferentes do que voar com a mesma o ano todo.

Já nas caixas que são transportadas por via aérea e terrestre estarão todo o equipamento de montagem dos boxes, computadores, peças, cabos, e o carro é desmontado ao máximo e colocado no contêiner acolchoado para evitar danos. O transporte de motores, combustível e lubrificantes, além dos pneus, fica a cargo dos fornecedores. Aliás, o fato da Pirelli transportar seus pneus, que vêm da Turquia, em caminhões não climatizados é tido como um dos motivos para a falta de consistência de seu pneu, mas isso é outra história…

Caso as corridas não sejam em dois finais de semana seguidos, o equipamento volta para a fábrica, onde tudo é checado para a corrida seguinte. Mas pode acontecer de uma peça ficar pronta de última hora e as equipes terem de mandar alguém para o outro lado do mundo só para carregar a tal peça na sua bagagem. Isso é mais comum do que se imagina e, no voo de volta do Japão, cruzei com um cara de 20 anos que tinha feito isso: ele trabalha no estoque da Red Bull e entrou numa lista de espera para ser um desses “entregadores de luxo”. A equipe pagou a viagem e hotel do outro lado do mundo só para ele levar a peça.

Outra coisa que também acontece é, quando um motor quebra, ele é imediatamente levado para a fábrica para ser analisado. No caso da Honda, por exemplo, isso significa mandá-lo para Sakura, no Japão.

Tudo isso porque as equipes avaliam que o custo do transporte é compensado pelos benefícios de uma análise rápida – ou pelos 0s00001 que a tal peça nova vai dar.

Por outro lado, os times estão constantemente tentando levar menos coisas para as corridas para economizar. E por conta disso às vezes ouvimos algumas histórias até meio bizarras no paddock. O time de comunicação da Mercedes foi questionado por conta de sua impressora. Pediram que eles não levassem mais e que comprassem uma a cada GP! Não é por acaso que muita gente anda questionando se a categoria não poderia pelo menos tomar passos mínimos em relação à sustentabilidade.

Já questionei, inclusive, a chefia da FOM sobre isso, mas claramente não há muito entusiasmo em pensar no tema. O que eles gostam mesmo é de mostrar os números: ao longo de uma temporada, cada equipe transporta 600 toneladas de equipamentos por via aérea e 500 toneladas pelo mar. E os seis 747 viajam por 132 mil quilômetros, ou seja, dão a volta ao redor do mundo mais de três vezes.

O último título de Lauda, por meio ponto

No último “capítulo” da sessão Nostalgia, relembramos a primeira vez em que Niki Lauda voltou ao circuito de Nurburgring depois do acidente que quase o matou em 1976. O austríaco saiu de lá com um quarto lugar e, mesmo vendo seu rival na disputa pelo título e companheiro de McLaren, Alain Prost, vencer, manteve-se em vantagem na tabela para a prova final, em Portugal. Tudo isso, há 35 anos.

A prova marcava o retorno de Portugal ao calendário 24 anos depois da corrida disputada no Porto ter desaparecido do campeonato. E o circuito do Estoril não estava totalmente pronto quando a F-1 chegou por lá, em função das fortes chuvas nos dias anteriores à prova.

A situação do campeonato era a seguinte: com quatro pontos e meio entre Lauda e Prost, o francês precisava vencer a corrida e torcer para o companheiro não passar de terceiro para ser campeão. Se Prost fosse segundo, também levaria seu primeiro título caso Lauda não pontuasse, uma vez que os pontos eram dados aos seis primeiros na época.

Parecia tudo sob controle para Lauda, que tinha feito uma campanha muito regular, vencendo cinco corridas contra seis de Prost até então – sempre que viu a bandeirada, ele foi no mínimo quarto. Mas a disputa chegou a tomar tons dramáticos quando o austríaco se classificou apenas em 11º, enquanto o companheiro sairia em segundo, atrás do pole position Nelson Piquet – o brasileiro faria nove poles naquela temporada, em 16 corridas.

Largar atrás de Prost não era raridade para Lauda. Na temporada, isso aconteceu em 15 corridas, e era algo explicado pelo piloto pela diferença de idade entre ele e Prost – ainda que eles tenham só seis anos de diferença. “O problema”, dizia ele. “É que você freia com sua cabeça, não seu pé. E sem perceber começa a frear a um metro do muro, e não um milímetro.” Seja como for, é interessante ver Prost tendo tamanha vantagem em classificações, uma vez que ele se notabilizou por focar mais na corrida – e levaria desvantagem constantemente em relação a Ayrton Senna no final daquela década. 

Senna, inclusive, surpreendeu ao colocar a Toleman em terceiro no grid naquele dia, em um presságio do domínio que teria na corrida portuguesa do ano seguinte, em sua primeira vitória.

Prost chegou a largar melhor do que Piquet, mas foi superado pelos pilotos que vinham atrás e terminou a primeira volta em terceiro. Na nona volta, contudo, já tinha tomado a ponta, enquanto o progresso de Lauda mais atrás era bem mais lento: ele só conseguira chegar até a nona posição até aquele momento.

A escalada de Lauda não foi das mais rápidas mas, um a um, ele ia passando seus rivais, até superar Senna na volta 33 de 70 e chegar ao terceiro posto. Para ser campeão, como Prost fazia uma corrida solitária na liderança, ele teria que passar Nigel Mansell, mas a tarefa não parecia ser fácil.

Até 20 voltas para o final, Prost seria campeão, mas na volta 51 Mansell rodou devido a um problema nos freios. Lauda não estava perto o suficiente e não conseguiu superar o inglês. Contudo, os problemas pioraram e Mansell rodou de novo na volta seguinte, e só então Lauda finalmente o passou e chegou no resultado de que precisava para selar a conquista do terceiro título.

Mansell acabou abandonando, bastante irritado com sua equipe: era sua última corrida pela Lotus antes de sua primeira ida à Williams, e seu chefe Peter Warr decidiu que ele não teria os freios que escolhera.

Melhor para Lauda, que se tornou o campeão com o maior número de anos entre títulos. Quando conquistou o bi, em 1977, tinha 28 anos e, ao celebrar o tri, chegara aos 35.

F1 on demand: Por que Verstappen não é unanimidade na Holanda?

Os assinantes Credenciados do projeto do Catarse – a maioria deles, aliás, que já garantiu suas camisetas ou bonés autografados por seus pilotos favoritos! – perguntaram, e aqui vão as respostas. E, desta vez, o F1 on demand conta até com uma mãozinha lá da Holanda.

 

Cleber Humberto Balieiro: Oi Ju, voltei há pouco da Holanda e, numa pesquisa muito informal com os holandeses percebi que eles ou adoram o Verstappen ou simplesmente não gostam dele, alguns até falam mal do cara. Estranho, não?!?

Para me ajudar com essa resposta eu convidei o jornalista holandês Joe van Burik. Aqui a opinião dele:

“Primeiramente, os holandeses podem ser bem oportunistas em como eles apoiam um esportista. Quando ele ou ela vai bem, eles agem como um rebanho, mas também podem desaparecer assim que a performance cai.” Joe explicou que o apoio caiu, por exemplo, quando ele teve aquela sequência ruim no começo de 2018, e provavelmente está menor agora em comparação com julho, por exemplo.

“Em segundo lugar, a origem do Max. “Ele tem um passaporte holandês, mas é nascido e criado na Bélgica – ainda que bem perto da fronteira com a província de Limburg, no sul. Dito isso, as pessoas de Limburg tendem a ser um pouco diferentes em relação ao holandês comum, talvez tenham a cabeça menos aberta e sejam menos diretos.”

“Outro fator é que Max é do automobilismo, o que, mesmo com a história do GP da Holanda e de Zandvoort, nunca combinou com a cultura Calvinista, mesquinha e consciente em relação ao meio-ambiente que domina o debate público na Holanda. A prova disso são as questões ambientais que estão sendo levantadas a respeito da volta do GP. Isso mostra outro traço comum dos holandeses: muita gente aqui não quer que você tenha sucesso no que você faz, ainda que alguém vá querer levar os louros quando você chegar lá.”

Mesmo com todos esses fatores, Joe acredita que os ‘haters’ de Max são uma minoria no país. Pelo menos com o crescimento proeminente de publicações representadas na sala de imprensa e com toda a maré laranja invadindo cada vez mais provas, isso parece ser a realidade.

 

Kezo Manabe: A água da chuva que entra dentro do carro, como se faz?

Na verdade a água só entra no carro com ele parado, e por isso quando está chovendo na largada os times deixam um guarda-chuva no cockpit e, em casos mais extremos, montam uma tenda. Com o carro em movimento, a velocidade é tanta que muito pouca água entra, até porque ela vai seguir o fluxo aerodinâmico, assim como o ar.

 

Valdinar Gouveia: Teremos mudança novamente entre o driver 2 de Red Bull e Toro Rosso para 2020?

Vamos saber isso durante ou depois do GP do México, como Marko já avisou. Falando com o pessoal da Red Bull em off, eles estão bastante contentes com o trabalho e o feedback do Albon. Mas em situação de piloto na família Red Bull eu não coloco minha mão no fogo.

 

Kleber Jorge Com o impasse gigante que continua acerca das regras para 2021 há alguma chance de acabarem deixando do jeito que está?

Há algum ceticismo em relação a isso, mas no estágio que as coisas estão, as equipes e a FIA já fizeram muitas análises e simulações, então já não é mais uma questão de apresentar novas ideias, mas de chegar a um acordo. É diferente da situação dos motores V6, cuja estreia foi adiada porque o projeto era complexo demais e ainda estava muito verde. Uma data importante será dia 31 de outubro. Ainda é possível que tenhamos o regulamento publicado e que faltem só algumas pendências – como o que vai ser padronizado, por exemplo.

Estratégia do GP do Japão e os erros da tática de Hamilton

Será que Lewis Hamilton tinha mesmo que fazer sua segunda parada? A estratégia não teria sido uma forma da Mercedes aplicar ordens de equipe sem ter de pedir para seu campeão sair do caminho de Valtteri Bottas? Todos os números – principalmente o mais importante deles, a quantidade de borracha que faltava nos pneus do inglês, apontam que não. A única possibilidade seria tentar se segurar à frente de Sebastian Vettel e garantir a dobradinha mas, quando Hamilton parou, com 11 voltas para o fim, era mais provável que ele conseguisse usar a aderência dos pneus macios para tirar 5s e passar Vettel do que se segurar com pneus que cairiam do penhasco, na linguagem que se usa na F-1, e rapidamente se tornariam 3s por volta mais lentos. Naquele momento, ele tinha 15s de vantagem para o alemão, muito menos velocidade de reta e perderia, também, a vantagem nas curvas.

Em outras palavras, na volta 42, quando chamou Hamilton aos boxes, a Mercedes já tinha cometido dois erros com a estratégia do inglês por acreditar numa premissa que não era verdadeira e julgou que já tinha perdido a dobradinha mesmo tendo o carro mais rápido na corrida. A vitória de Bottas nunca esteve em questão.

Algo que parece ter atrapalhado o julgamento de muitos foi um gráfico que estreou justamente neste GP do Japão, mostrando a porcentagem de desgaste dos pneus. Ele tem de ser interpretado junto a algo com que nos acostumamos a ver desde a chegada dos pneus Pirelli, em 2011: a degradação destes pneus não é linear. Ou melhor, é linear até o ponto em que eles desabam do que se convencionou chamar de penhasco (a expressão usada na F1 é “to fall off the cliff”). Basicamente, usando a informação do gráfico, os engenheiros explicaram após a prova que um pneu vai de 100% a 70% na mesma velocidade que vai de 70 a cerca de 10%. 

Também é a importante a informação de que os compostos C2 e C3 (médio e macios no Japão) têm performance e duração próximas. Em Suzuka, a diferença de performance era de 0s6 e a durabilidade, praticamente a mesma. Já o duro era 1s4 mais lento que o médio.

Mas por que o GP do Japão chegou a essa situação?

Ainda no grid, entrevistei Mario Isola sobre as mudanças nas condições de pista após toda a chuva que veio com o tufão e ele apontou que teríamos uma corrida de duas paradas devido ao desgaste maior em relação à sexta-feira. Red Bull e Ferrari também largaram com isso em mente, mas a Mercedes, confiante de que a melhor aerodinâmica de seu carro poderia compensar o desgaste, estava em dúvida, e planejava usar isso para dividir suas estratégias e conseguir a dobradinha. Já à Ferrari interessava usar a posição de pista para se defender, uma vez que eles sabiam que seu desgaste de pneus seria maior, mas sua vantagem nas retas era tanta que, mesmo com o DRS aberto, a Mercedes era só cerca de 2 km/h mais rápida.

As coisas pareceram começar bem para a Mercedes quando Vettel soltou a embreagem um pouco antes das luzes se apagaram e se atrapalhou na largada, e Charles Leclerc acabou com sua corrida nos primeiros metros, também com uma largada ruim e tocando-se com Max Verstappen, tendo de trocar o bico de seu carro (após longas discussões via rádio entre ele, a equipe, e a FIA, em mais um exemplo de falta de pulso no pitwall ferrarista). Com uma grande largada, Bottas pulou para primeiro, Vettel conseguiu se manter em segundo e Hamilton perdeu terreno depois de ser seguro por três voltas por Leclerc.

Mesmo assim, o inglês conseguiu recuperar o terreno ao longo do primeiro stint, enquanto Vettel ouvia que a Ferrari seguiria com o plano A de duas paradas. A janela para isso abriria na volta 14 e, na seguinte, a Mercedes teria a primeira oportunidade real de fazer o undercut, pois Hamilton estava a menos de um segundo de Vettel. Porém, enganados de que a estratégia de uma parada poderia ser melhor para seu carro, decidiram não chamá-lo. A Ferrari não deu sopa para o azar e Vettel entrou na volta 16. Bottas naquele momento era o único carro andando em 1min34 e claramente tinha sido instruído que faria duas paradas. Logo, foi chamado na volta seguinte para cobrir qualquer chance de undercut da Ferrari, ainda que ela fosse mínima: para a estratégia de Bottas, não tinha segredo, era só copiar o que Vettel fizesse. Porém, ainda em dúvida se seu carro poderia fazer só uma parada, a Mercedes optou por deixar a estratégia de Bottas em aberto e colocou pneus médios, enquanto a Ferrari se comprometeu com duas paradas colocando os macios. Vettel estava liberado para forçar o ritmo.

Depois de perder a chance de parar antes de Vettel e usar a aderência extra do pneu para voltar na frente, cabia a Hamilton tentar levar o pneu macio até seu limite. Mas isso não deu certo: duas voltas depois, Lewis já era 3s mais lento que Bottas, e ele acabou parando apenas quatro voltas depois, na 21ª. Levando em consideração que as estimativas iniciais apontavam que quem quisesse fazer só uma parada teria de levar o pneu até a volta 27, ali já estava claro que era um erro.

Isso até Lewis viu de dentro do cockpit, quando ouviu que tinha voltado 7s atrás de Vettel e 17s atrás do líder (lembrando que no momento em que a Mercedes perdeu a chance do undercut, ele estava a menos de 1s de Vettel e a 6s de Bottas) e disse: “Estou fora da corrida agora, né? Por que não me colocaram com o duro? E agora querem que eu force, né?”

Respondendo a Lewis: sim, ele teria que cuidar dos pneus por mais de 30 voltas ao mesmo tempo em que não poderia deixar a diferença para Bottas aumentar em 4s neste mesmo período. O pneu duro era lento demais. E o jeito era reverter a estratégia para duas paradas, ou seja, ele tinha que forçar.

Depois da corrida, Hamilton disse que, “com uma orientação melhor, eu poderia ter ido até o final com aqueles pneus”. Ou seja, se não tivessem instruído que ele forçasse e tivessem permanecido 100% na estratégia de uma parada. Mesmo assim, isso não lhe daria a vitória, só abriria a chance dele se segurar na frente de Vettel.

Mas a Mercedes pediu que ele diminuísse a distância para Vettel primeiro pensando em um undercut (a Ferrari tinha deixado a porta aberta para isso porque o alemão teria que colocar o composto médio), mas Hamilton não conseguiu chegar perto tão cedo e Vettel acabou parando quando o inglês ainda estava 5s atrás.

A última cartada seria esperar os primeiros sinais de que o pneu médio de Hamilton já não estava tão rápido para ele parar e tentar usar a diferença de vida da borracha para recuperar o prejuízo. Por isso, na primeira vez em que ele foi mais lento do que Bottas, foi chamado. Voltou naquele cenário do começo do texto, com 4s6 para Vettel e 11 voltas para o fim. Não era fácil, mas era possível a equipe recuperar-se de todos os erros e conseguir a dobradinha, mas Vettel usou muito bem as qualidades da Ferrari e se manteve à frente.

Outra briga estrategicamente interessante e que acabou tendo o mesmo fim foi entre Alex Albon e Carlos Sainz. Albon ficou preso atrás do espanhol por todo o primeiro stint, antecipou bastante sua primeira parada indicando que faria duas. Como já tinha perdido a posição pelo undercut, a McLaren decidiu ficar na pista e Sainz levou o pneu macio até a volta 26. Retornou à pista muito atrás, 24s, e cruzou a linha de chegada a 6s do tailandês porque ele parou mais uma vez. O exemplo da corrida de Sainz é a tal “orientação” que Hamilton queria da Mercedes. No caso do espanhol, não foi o suficiente para ganhar a posição em um dia no qual fazer duas paradas era mesmo a melhor estratégia.

Drops do GP do Japão no olho do tufão

O alívio foi grande quando, ainda na van que faz o transporte dos jornalistas do hotel para o circuito, ficamos fazendo na sexta de manhã que as atividades do sábado estavam canceladas devido ao tufão. FIA, FOM e equipes vinham monitorando a situação desde o início da semana, mas a decisão final tinha de vir do circuito junto às autoridades locais. E ela veio junto de um trabalho rápido e eficiente para desmontar o que correria risco devido ao vento e proteger os equipamentos.

No final das contas, o tufão não passou tão forte por Suzuka – eu estava em Yokkaichi, um pouco mais ao norte, e o vento foi bem pior mais no final da tarde, mas não o suficiente para derrubar árvores ou causar outros danos do tipo. Foi mais a leste desta região que ocorreram as mortes e mais estragos.

Isso, num país extremamente preparado para desastres naturais, para se ter ideia da força do fenômeno. Algo que parecia que algumas pessoas sentadas em seus escritórios não pareciam ter noção. Ouvi de alguns jornalistas de TV europeus que pediram que eles se deslocassem para tentar gravar com os pilotos durante o tufão.

Minha turma ficou jogando o Monopoly emprestado pela Mercedes – na verdade, eles emprestaram vários jogos, mas só a partida do Monopoly durou 6h… – e para quem se animou em achar para comprar, o jogo não está à venda.

Nos bastidores, houve uma votação entre as equipes sobre as regras propostas para 2021. Lembra que era para o texto sair em outubro? Não vai. Seis times barraram as novas regras, e é preciso que pelo menos 7 estejam a favor para levá-las adiante do jeito que estão. Sem surpresas, Mercedes, Ferrari e Red Bull comandaram o levante, trazendo consigo Toro Rosso, Haas e Racing Point.

À FIA e à FOM, resta abaixar a cabeça e deixar que os engenheiros apresentem as suas soluções. Diferentemente de quando Bernie Ecclestone enfiou guela abaixo o motor V6, a fim de garantir que a Mercedes continuasse no barco, hoje as equipes não têm contrato com a F-1 para além de 2020. E o trio de ferro só assina quando conseguir o que quer: manter-se na frente.

Mas as brigas de bastidores não param por aí: perguntei a Max Verstappen se ele achava que o campeonato do ano que vem seria mais competitivo. Ele disse que esperava que a Ferrari perdesse muito o terreno. Questionei se ele queria dizer que o time tem algo de ilegal em seu carro/motor e ele só sorriu e foi embora. Mercedes e Red Bull têm certeza de que alguma coisa não bate na evolução ferrarista.

E o mesmo acontece mais atrás no grid. A Racing Point protestou o carro da Renault devido a uma suposta irregularidade no equilíbrio de freio, que estaria sendo mexido por meio de configurações pré-estabelecidas eletronicamente. Se for comprovado que isso existe, podemos ter exclusão de resultados de uma equipe que vem levando uma facada atrás da outra.

Até por conta disso, houve no paddock quem levantou a hipótese do “assobio” ter vindo de alguém que quer derrubar Abiteboul – claramente alguém pouco amado lá dentro. Mas também há a possibilidade dos fotógrafos espiões terem feito seu trabalho.

Mas a Racing Point paga um fotógrafo só para espionar o carro dos outros? Sim, como a maioria das equipes. E não é pouca grana. Só dizem as más línguas que falta talento de CIA para o empregado pela Ferrari.

No meio dessa verdadeira selva, os promotores de SP foram à Londres levar uma proposta mais alinhada com o que a FOM está lhes pedindo: um contrato mais favorável à categoria e novas caras atrás da prova. Não foi dessa vez que saiu um acordo e o futuro do GP Brasil segue em aberto. Parece que a mesa de Chase Carey tem muitas demandas antes para resolver.

Imperfeições

Quem destoou de um domingo com muitos erros foi Valtteri Bottas, se reencontrando com a vitória depois de seis meses. E pensar que, em abril, ele tinha vencido metade das provas disputadas até ali. Não só o gosto da vitória, como a sensação de estar no controle de uma corrida, estavam fazendo muita falta ao finlandês.

Voltando um pouco no tempo, na classificação, o carro que se deu melhor com o vento fechou a primeira fila, mas a vitória escapou das mãos da Ferrari quando os dois pilotos falharam nos primeiros metros: Vettel se atrapalhou com a embreagem e deu sorte de ter se movimentado dentro do limite tolerável do sensor de queima de largada, algo semelhante ao que aconteceu na Áustria com Valtteri Bottas. Ao seu lado, Leclerc também não largou bem e depois perdeu a dianteira na curva 2, atingindo Max Verstappen e efetivamente acabando com a corrida do holandês. Ele tentou seguir na pista com a asa se desmanchando, e no resumo da ópera acabou levando duas merecidas punições. Mas também é justo dizer que, depois disso, escalou o pelotão duas vezes e fez manobras agressivas numa pista em que erros são punidos com dureza.

Mas Vettel não estava totalmente fora do caminho e a Mercedes decidiu dividir suas estratégias para tentar a dobradinha. Caso tivesse mais informações, não o faria: com mais degradação que o esperado, fazer só uma parada era a estratégia mais lenta, vide o que aconteceu na disputa entre Alex Albon e Carlos Sainz (que fez outra excelente corrida) mais atrás.

Quando eles perceberam isso, já era tarde demais: Hamilton ficou lento na pista com pneus usados, parou antes do que precisava e depois foi instruído a atacar. Foi nesse momento em que sua corrida passou a ser por, no máximo, um pódio, já que seus pneus não aguentariam e a estratégia teria de ser revertida para duas paradas. Não é a primeira vez que James Vowles erra sob pressão.

E olha que não é uma pressão pelo campeonato. O sexto título por antecipação é um feito e tanto para a Mercedes, fruto de uma paixão pelo perfeccionismo. Mas, para nós, um pouco de imperfeição faz um bem danado.