Turistando na F-1 e o pato de Silverstone

Não vou tentar soar otimista: o GP da Inglaterra costuma estar nas listas dos piores da temporada para quem trabalha na F-1 – e para mim está no top 4 junto com Brasil, Bahrein e Hockenheim. No meio do nada e com poucas opções de acomodação e restaurantes, pode ser empolgante no início por conta de toda sua tradição, mas rapidamente se torna enfadonho. O cenário sem graça de um antigo aeroporto militar também não ajuda, assim como a pista, que perdeu muito de seu charme após as mudanças feitas nos últimos anos.

Para piorar, há o clima, que parece mudar a cada cinco minutos, dando a impressão de que você sempre escolheu a roupa errada. E não vale falar que a Inglaterra em geral é assim: Silverstone é definitivamente pior que Londres nesse sentido.

Mas também não vou mentir que os torcedores parecem curtir bastante. Assim como na Áustria, há muitos acampamentos, com um bônus de poder se hospedar em Londres e contratar ônibus para ir e voltar todos os dias com comodidade, além da possibilidade de pegar um trem até Milton Keynes. Isso talvez melhore a experiência como um todo.

O que também parece animar a torcida são as atividades na fanzone, incluindo shows – neste ano, a principal atração é o Travis e, se tudo correr como planejado, como fã de Britpop, não vou faltar nessa!

Fora do GP, não há grandes atrativos na região, cercada por cidades industriais como a própria Milton Keynes, fábricas de equipes, como Force India, McLaren e Mercedes, e pequenos vilarejos. Em um deles, Towcester, está o restaurante preferido de Ayrton Senna na região, o Rice Bowl. Não me pergunte o porquê.

Muito em função disso, jantar pelo menos uma vez lá se tornou tradição, não apenas entre os brasileiros. Mas posso confessar algo? Eita pato seco! Melhor mesmo uma Guinness ao som dos clássicos do rock inglês. Mas isso não precisa ser em Silverstone, né?

RAIO-X:

Preços: gastar em libras já pesou mais, mas ainda é um problema. O custo depende de seu planejamento, pois os hoteis perto são raridade, mas há a possibilidade de ficar em cidades maiores que tenham transporte para a pista, ou então alugar um carro. Os ingressos são salgados: o general admission chega perto dos 1000 reais, mas há pacotes para famílias.

Melhor época: Não aconselharia ninguém a se deslocar até Silverstone se não for para ver alguma corrida, a não ser que esteja em alguma cidade próxima. Em termos de clima, o ano inteiro basicamente tudo pode acontecer. Inclusive ao longo de um mesmo dia.

Por que vale a pena? Pela tradição, atividades extra-pista e para ver de perto como os ingleses celebram o automobilismo.

Drops do GP da Áustria com direito a tornado

Não é a cena que você quer ver da janela do aeroporto

Vocês lembram do bar instalado no meio do paddock em Barcelona? A farra não se repetiu nas etapas seguintes, mas voltou com um update em Spielberg, prova sempre muito bem organizada pela Red Bull – os campings, aliás, estavam organizadíssimos neste ano: queijos, presuntos e patês especiais feitos com os ingredientes mais usados na região, a semente e o óleo de abóbora.

Falando nos campings, deu para ver que a arquibancada ficou laranja no domingo, com 10 mil holandeses indo apoiar Max Verstappen. Mas o homem mais famoso do país também passou por lá – ainda que não tenha ido para o grid, para a minha decepção: o DJ Armin van Buuren, que deve ter tido alguma de suas músicas tocadas nas barracas, das quais muita música eletrônica holandesa ecoava mesmo no domingo à noite.

Domingo à noite em que o circuito foi encharcado pela chuva que insistiu em só ficar na ameaça na corrida. Bom, ainda bem que foi assim porque foi chuva daquelas que causariam bandeira vermelha e horas de indefinição e SC.

Para completar, escrevo estas linhas ainda no aeroporto em Viena, onde um tornado atrasou os voos. O meu ficou voando por perto até ter de se revertido para Budapeste para reabastecimento. O atraso foi de quase 4h. E cheguei 3h da manhã da terça em casa.

Voltando ao fim de semana de corrida, a coletiva de quinta-feira não foi a única em que rivais ficaram cara a cara. Quer dizer, rivais que deveriam estar trabalhando juntos e têm de aparentar uma boa relação. E no meio deles, o homem que pode mudar essa relação: eram Hasegawa, Wolff e Boullier. Em determinado momento, a pergunta que não quer calar teve de ser feita. “E o rumor de que a McLaren terá motores Mercedes ano que vem?” Boullier negou, Hasegawa disse que a opção não é sua e Wolff só sorriu e disse que “se não é opção deles, não é minha também.”

Já estamos quase na metade da temporada e o líder da GP2, quer dizer, da F-2, ainda não internalizou a mudança no nome da categoria. Para o desespero de sua assessora de imprensa, pulando agitada em um canto tentando chamar a atenção de Charles Leclerc, o piloto passou sua entrevista inteira chamando sua categoria pelo nome errado. “Podemos editar todas as vezes que falei GP2?”, pediu o francês com o sorriso amarelo.

Ao lado dele estava um nervoso Sergio Sette Camara, pela primeira vez na entrevista do top 3 após a classificação na Áustria. Depois conversei com o brasileiro e soube o porquê. Pouco antes de entrar para a coletiva, o mineiro soubera que seu motor estava ‘cortando’ no final do treino por um problema, que poderia ser uma falha de pressão e, por conseguinte, seu carro não teria gasolina suficiente para a amostragem. Horas depois, o temor do piloto se confirmou e o que poderia ter sido seu primeiro grande final de semana na F-2 acabou em mais uma decepção.

A bruxa estava à solta para os brasileiros mesmo: na GP3, Bruno Baptista literalmente levantou voo na zebra e teve uma aterrissagem tão forte que precisou abandonar a prova. Com fortes dores, o piloto foi checado no hospital, mas nenhuma lesão foi constatada. Falei com ele algumas horas depois e ele disse que “ainda está doendo muito, mas o problema é que pode ter quebrado o chassi”. Prioridades de piloto, né?

Fora das pistas, o GP da Áustria é muito legal por dois ‘eventos’: um é o pub quiz promovido pela Williams, em que equipes de cinco jornalistas respondem perguntas de vários assuntos, em uma noite muito divertida comandada por Claire Williams, que gosta de distribuir shots (principalmente o de vodca com chilli) para quem se comportar mal – e ela sempre inventa um motivo para dizer que alguém merece um shot. Minha equipe ficou em segundo lugar e foi uma das únicas que acertou que um tatu fora o mascote da Copa de 2014. Fácil para a única equipe que contava com uma brasileira? E para lembrar como é tatu em inglês??

Outro jogo divertido é coisa do Ico, que fez a primeira das três corridas em que estará fazendo dupla dinâmica comigo na reportagem do Grupo Bandeirantes de Rádio. É um jogo de tabuleiro de F-1, em que você tem de usar bem seus freios, pneus e combustível em um circuito. E assim são as noites na casa da montanha sem TV ou internet….

Copo meio cheio

Nas entrevistas logo após o GP da Áustria, os jornalistas ingleses tentavam, em vão, arrancar alguma resposta positiva de Lewis Hamilton para a próxima etapa, que será na casa do tricampeão. Porém, ao ver o rival Sebastian Vettel abrir 20 pontos na liderança do campeonato e por acreditar que poderia ter superado Daniel Ricciardo na corrida e conquistado pelo menos um pódio, Hamilton apenas murmurava que sua fase atual não é das mais positivas.

De fato, foi apenas nas últimas duas corridas que Hamilton perdeu oito dos 20 pontos que tem de desvantagem e, em ambas, a Mercedes demonstrou um ritmo mais forte. Por motivos que figuram a seu controle, o piloto não conseguiu capitalizar – em Baku, por uma falha na colocação de seu descanso de capacete e, na Áustria, depois de uma punição por troca de câmbio.

E o cenário imediato não é dos melhores. A prova de Silverstone, já no próximo final de semana, talvez não seja o melhor palco para a recuperação, dependendo muito da temperatura no clima sempre incerto na Inglaterra, ainda que o verão britânico tenha sido mais quente e menos chuvoso que o normal até aqui. Uma pista com curvas mais velozes em teoria favorece a Mercedes, mas o asfalto abrasivo poderia jogar a favor da Ferrari. E, como a etapa seguinte é na Hungria, onde seria surpresa não ver Vettel na frente, lembrando do desempenho ferrarista em Mônaco, é compreensível que Hamilton entenda a importância destes pontos que foram desperdiçados. Porém, é cedo demais para jogar a toalha, ainda mais com Vettel já usando seu quarto turbocompressor com mais de metade da temporada pela frente.

O prejuízo só não foi maior porque Hamilton tem em Valtteri Bottas um companheiro forte, que conseguiu se manter à frente de Sebastian Vettel mesmo com pneus cheios de bolhas, depois de ter arriscado e dado sorte na largada, tentando adivinhar quando as luzes se apagariam e por muito pouco não se dando mal com isso. Foi curiosa a explicação do piloto após a prova, dizendo que esse tipo de largada funciona sempre melhor nos treinos do que nas corridas “porque na hora H seu cérebro faz você ser mais conservador”. E bem quando estava na pole position, a mente finlandesa não quis saber de ligar o modo econômico!

De certa forma era esperado que Bottas superasse Hamilton na Áustria, um dos poucos circuitos em que o inglês nunca se encontrou. Mas a troca de câmbio do inglês acabou provocando uma situação interessante: enquanto Hamilton tem 20 pontos de desvantagem para Vettel, apenas 15 separam os dois pilotos da Mercedes. E, como bem lembrou o tricampeão em Spielberg, o finlandês ainda teve um abandono no caminho.

Com este cenário, a situação pode ser vista de duas formas: por um lado, Bottas ajudou Hamilton ao impedir que Vettel conseguisse a pontuação máxima. Mas ao mesmo tempo, foi uma resposta do finlandês a todas as sugestões de que seu papel na corrida seria adotar um ritmo lento para permitir que o companheiro pelo menos se aproximasse da ponta.

Alheio às questões que vêm tirando pontos de Hamilton, Vettel pode ter tido o lapso de Baku, mas vem liderando muito em função de muita consistência. Consistência, aliás, que também vem sendo a marca do campeonato de Daniel Ricciardo, em seu quinto pódio seguido, enquanto o companheiro Max Verstappen abandonou cinco das últimas sete provas, com dois acidentes nos quais não teve culpa e três quebras.

Mais atrás, impressionou a performance da Haas por todo o final de semana, ainda que as coisas não tenham começado muito bem: o time testou um novo sistema de refrigeração nos treinos livres e, nos 40 minutos em que fiquei na beirada da curva 3, vi os dois escaparem pelo menos umas três vezes!

Enquanto a Force India não teve o ritmo que se esperava, a Williams sofreu um verdadeiro blackout, que não parece relacionado com o pacote de novidades que o time trouxe à Áustria. O problema era apenas com pneus novos e pouca gasolina, ou seja, em configuração de classificação, o que explica o rendimento bem diferente na corrida, mas é claro que é algo que preocupa.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Áustria

Hamilton5 a 4Bottas
Ricciardo4 a 5Verstappen
Massa8 a 1Stroll
Raikkonen2 a 7Vettel
Alonso8 a 0Vandoorne
Perez8 a 1Ocon
Kvyat4 a 5Sainz
Hulkenberg9 a 0Palmer
Wehrlein5 a 2Ericsson
Grosjean5 a 4Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s173

Ricciardo x Verstappen: 0s087

Massa x Stroll: 0s074

Vettel x Raikkonen: 0s486

Alonso x Vandoorne: 0s158

Perez x Ocon: 0s115

Sainz x Kvyat: 0s340

Hulkenberg x Palmer: 0s171

Grosjean x Magnussen: sem tempo

Ericsson x Wehrlein: 0s403

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1 e no ar puro das montanhas

Essa era a vista da janela da casa em que ficamos no meu primeiro GP da Áustria, em 2015

Um dos momentos de que mais gosto na temporada é a chegada ao palco do GP da Áustria. Ou melhor, este é um dos momentos de que meus sentidos mais gostam, das imagens exuberantes das montanhas, que já começam a aparecer desde a estrada em nosso caminho de cerca de 3h de Vienna até os arredores de Spielberg (também é possível voar até Graz, que fica a meia hora do circuito, mas não há muitas opções e, é claro, os voos são mais caros) e o inconfundível frescor da floresta. Frescor que se sente na pele e no olfato.

Este é o clima idílico que cerca o GP austríaco. Os hotéis são raridade – quase todos, inclusive, de propriedade do dono da Red Bull – e uma boa solução é se hospedar em casas. Sabe aquelas casas de montanha em que seu vizinho mais próximo é uma vaca ou, na melhor das hipóteses, você se vê em um vilarejo de umas quatro ruas e um restaurante? É bem por aí.

Por conta de tudo isso, o que muitos fazem é estacionar seus motorhomes na área dedicada a eles ao lado da pista (ao lado mesmo!) e passar quatro dias entre os mimos que a Red Bull oferece, como shows e alimentação variada. Além de encher a cara e fazer churrasco – esqueça a picanha, estamos na terra do schnitzel! – o dia todo. Nem precisa falar, após toda essa introdução, que o lugar tem sido invadido pelos holandeses, é claro!

Mas a região da Estíria é bem mais do que o GP. Mesmo não sendo uma região tão famosa como destino turístico como a de Salzburg ou Innsbruck, oferece o mesmo tipo de entretenimento: estações de esqui no inverno e trilhas de trekking no verão, com direito a hospedagem barata em casinhas de madeira no topo das montanhas, que servem como base para quem parte para aventuras mais longas.

Tudo isso com preços convidativos. Mesmo para o final de semana de GP (que não é tão popular por lá quanto a MotoGP, verdade seja dita) essa região da Áustria é uma bela pedida de turismo diferente na Europa, especialmente para os amantes da natureza e para quem busca tranquilidade. A única barreira pode ser o idioma, pois poucos falam mais do que algumas palavras em inglês por lá. Nada que um google tradutor não resolva.

RAIO-X:

Preços: Baratos. O melhor é voar para Viena e alugar um carro – é possível chegar de trem até Spielberg, mas a locomoção a partir daí com transporte público é difícil. Uma casa para uma família mesmo em época de GP vai sair em torno de 200 para cada. É uma das hospedagens mais baratas do campeonato. Os ingressos não são caros – o general admission para os três dias custa 385 reais.

Melhor época: Depende do gosto, pois no inverno as estações de esqui estão abertas e, no verão, o clima é agradável. O final de semana mais agitado é no meio de agosto, na MotoGP.

Por que vale a pena? É um daqueles GPs ‘roots’ da Fórmula 1, com a chance de acampar, curtir a natureza, e ainda ver uma corrida.

Más notícias para a Ferrari

Muito tem se falado na janela de temperatura de pneus nesta temporada, mas tudo indica que o fato da Mercedes ter melhorado neste aspecto não explica totalmente por que Hamilton e Bottas tiveram uma diferença tão considerável para a Ferrari na classificação do GP do Azerbaijão.

A Federação Internacional de Automobilismo respondeu, por meio de uma diretiva técnica, a um questionamento da Red Bull sobre a permissão do uso de óleo no processo de combustão. Tais questionamentos são uma das formas das equipes acusarem rivais de estarem fora do regulamento sem protestar os resultados, pois a partir do momento que a diretiva é publicada, ou seja, que o esclarecimento fica público, fecha-se a brecha que o rival está tentando aproveitar.

A primeira diretiva técnica foi publicada ainda durante os testes de pré-temporada, mas a Red Bull insistia que havia algo de errado com alguns rivais. Depois do GP do Canadá, foram encontradas anomalias no combustível de determinados carros, então uma nova TD foi encaminhada aos times, com os seguintes dizeres.

“Gostaríamos de relembrar que, como foi dito em várias reuniões e enfatizado na TD/004-17, consideramos o uso de óleo como combustível proibido pelo Regulamento Técnico. Para que não haja dúvida, o único combustível que pode ser usado para combustão é gasolina, e as únicas características permitidas desta gasolina estão claramente determinadas pelo Artigo 19 do Regulamento Técnico. Mesmo que o Regulamento técnico não especifique diretamente as características do óleo usado na F-1, consideramos que qualquer tentativa de usar outros componentes ou substâncias no óleo para melhorar a combustão como uma violação ao Regulamento Técnico.”

LEIA MAIS: Por que o combustível virou protagonista?

Em outras palavras, podem usar o que quiserem nos lubrificantes, mas deixem eles longe do processo de combustão. E havia uma fornecedora, a Ferrari, que não estava fazendo isso. Pelo menos até essa lacuna fechar-se antes de Baku.

O processo seria o seguinte: em pistões estavam colocados de maneira que deixavam o óleo longe da câmara de combustão, mas não tão longe assim: quando o piloto tirava o pé do acelerador, o vácuo criado sugava esse oléo. Isso serve para lubrificar e esfriar a câmara de combustão, ao mesmo tempo que permite o uso de uma mistura mais agressiva de combustível quando é necessário ter mais potência por um curto período de tempo, ou seja, na classificação. E, na corrida, isso também ajuda na economia de combustível.

Isso, contudo, não explica sozinho o 1s de diferença. Um dos motivos que fizeram os Mercedes usarem melhor os pneus em Baku tem a ver com a própria característica do circuito. A reta é Baku é longa demais para que os sistemas híbridos funcionem o tempo todo, então a maior eficiência da Mercedes nesse quesito pode ser sentida, pois o de-rate custa mais a aparecer.

Isso não dá apenas mais velocidade de reta, mas também influencia na escolha do acerto, pois Ferrari e Red Bull se viram obrigadas a usar asas mais baixas, o que acaba melhorando a performance nas retas, mas tirando downforce, o que implica negativamente no aquecimento de pneus.

Na Inglaterra, a Ferrari deve estrear novas partes em seu motor – tudo menos o MGU-H e o turbocompressor – e veremos se a atualização já vem com um novo jeitinho para voltar a encostar na Mercedes.

Credencial do GP do Azerbaijão, quer dizer, GP da Treta

É claro que o papo meu e de Luis Fernando Ramos foi longo após o intenso GP do Azerbaijão, com impressões e muita informação de bastidor. Ouça e compartilhe com os amigos!

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(Des)Estratégia do GP do Azerbaijão

Quem diria que ele agradeceria por isso…

O vencedor largou em décimo. O terceiro, saiu em oitavo. E o segundo chegou a estar no fundo do pelotão. O pódio do GP do Azerbaijão esteve entre os mais inesperados de todos os tempos da F-1, e a estratégia teve pouco a ver com isso, em uma corrida em que aconteceu um pouco de tudo, até momentos bizarros como um descanso de capacete não ser bem fixado, um assento rachar e até um tetracampeão do mundo perder a cabeça.

Mas houve alguns momentos pontuais que ajudaram Ricciardo, Bottas e Stroll a se sobressair. E mais uma vez os pneus foram essenciais para os momentos de emoção, ainda que não da maneira que estamos acostumados.

Tive uma discussão (não no sentido de briga, por favor!) com Livio Oricchio ainda no sábado: ele acha um absurdo que os pneus sejam tão imprevisíveis, eu acho desejável. Isso, porque ele está olhando do ponto de vista de engenharia. E eu do entretenimento.

Pois, bem. Os pneus tiveram grande participação em uma corrida que está sendo considerada uma das melhores dos últimos anos. E foi uma corrida de deixar qualquer engenheiro de cabelo em pé!

Primeiramente, a Pirelli levou compostos duros demais para Baku. Segundo, a transição que parece ser a mais complicada é justamente entre supermacios e macios. Ou seja, é praticamente impossível fazer um carro funcionar com os dois, especialmente com diferenças grandes de temperatura de pista, como acontece no Azerbaijão devido à largada às 17h.

Então simplesmente não existia um acerto perfeito, algo amplificado pelas relargadas, com pneus fora da janela de temperatura, e em um circuito de poucas áreas de escape. Além disso, há a questão da linha de SC ser muito adiantada, obrigando o líder a diminuir muito o ritmo para não correr o risco de ultrapassar o carro de segurança antes do permitido. Isso deixa o pelotão muito colado nas relargadas, um problema que já tinha sido notado na GP2 ano passado, mas que foi interpretado como “esse povo da GP2 é maluco”. Junte a tudo isso um vácuo poderoso em 2.3km de pé embaixo na reta e… caos.

A vitória de Ricciardo tem muito a ver com os problemas enfrentados basicamente por todos que iam a sua frente, com exceção de Stroll: Hamilton com o head rest, Vettel com o stop and go, Bottas e Raikkonen com o toque na primeira volta, Verstappen e Massa com quebras e a dupla da Force India também com o toque. É claro que a “questão Stroll” foi resolvida com uma ultrapassagem na relargada, mas isso e o bom ritmo adotado depois foram facilitados pelo acidente no Q3. Afinal, isso significou que o australiano tinha dois jogos de supermacios novos, ao contrário dos rivais diretos, pneus que inicialmente ficariam na garagem, mas acabaram sendo usados devido à bandeira vermelha.

Não que Stroll não tenha nenhum mérito, pois se manteve longe dos problemas em uma prova recheada deles, ainda que a equipe tenha protegido-o de forma inteligente ao não fazê-lo esperar atrás de Massa em um pitlane movimentado no primeiro SC. Ele parou sozinho e ainda não perdeu posições.

O mesmo SC foi fundamental para a recuperação de Bottas, único carro que não estava na volta do líder. Mas a sequência de voltas atrás do SC e a relargada de fato só com mais de um terço da corrida tendo sido disputada deu menos tempo para ele se recuperar vindo do fundo do pelotão. E mais pela velocidade da Mercedes, sua habilidade em ficar longe dos problemas mesmo obrigado a arriscar e os infortúnios dos rivais, e menos por estratégia, o finlandês por umas quatro ou cinco voltas não ganha uma corrida que até Alonso em determinado momento achou que poderia vencer.

Drops do GP do Azerbaijão e a Cinderella

A missão mais complicada dos mecânicos da Renault no domingo

O domingo do GP do Azerbaijão já tinha mesmo cara de que não seria um dia normal desde cedo. Quem acompanhou a transmissão pelo Grupo Bandeirantes de Rádio já sabe da história. Tinha comentado com um amigo que minha sandália mais confortável estava com o salto descolando e ele falou para eu procurar um tal de Geoff na Renault quando eu chegasse no circuito. Fui recebida com um: “Você é a moça do sapato? Vem comigo. Não há nada que não possamos consertar.”

Lógico que, em se tratando de F-1 nada é feito “nas coxas”. E primeiro o grupo de três mecânicos destacados para a missão de colar o salto queria que eu o deixasse por alguns minutos com eles. Como isso não era uma opção, arranjaram uma cadeira, ao lado dos “restos mortais” da carenagem do motor de Palmer, que tinha estourado no sábado, e com o chão forrado com plástico bolha para a “Cinderella” não sujar o pé.

Depois de brincarem com o tamanho de minha sandália 34, os mecânicos avaliaram o estrago e começaram a usar um sem-número de produtos para fazer um trabalho impecável. E em menos de 10 minutos eu estava perambulando novamente pelo paddock com meu sapato novinho em folha. Por que demorou tanto? Bom, a grande preocupação deles era que a cola não vazasse e eu acabasse pisando nela. Afinal, a super glue cola até fibra de carbono!

É curioso perceber como os pilotos passam por verdadeiras transformações ao longo do final de semana. E o troféu 8 ou 80 de Baku foi, como de costume, para Fernando Alonso. Como eu poderia descrever? Na entrevista de quinta-feira, o espanhol parecia um Darth Vader sem máscara. Ele estava sentado do meu lado e eu podia ouvir sua respiração tensa, todo o corpo retraído e não sei como os óculos aguentaram o tranco sendo massacrados por 10 minutos de entrevista. A causa não foi nenhuma pergunta, ele chegou assim.

Depois da corrida, até quando respondia que sentia raiva por não poder aproveitar uma oportunidade como uma corrida maluca daquelas, ele sorria. Toda a tensão tinha sido substituída por uma satisfação tão grande que a impressão é de, a qualquer momento, ele sairia correndo para contar qual a novidade que o fez mudar da noite para o dia. E certamente não foram os dois pontinhos de Baku.

Muito se falou da reunião mais pública impossível de seu empresário com Abiteboul e Prost na Renault, mas é de se lembrar que Abad também representa Carlos Sainz, que quer sair da Toro Rosso. Talvez a alegria de Alonso esteja mais relacionada ao encontro de Briatore com Lauda e Wolff.

Outro que mudou da água para o vinho, mas de uma hora para a outra mesmo, foi Lewis Hamilton. O inglês chegou bem animado para Baku, mas fechou a cara quando ouviu pergunta sobre o show da ex-namorada Nicole Scherzinger no circuito. “Nem sei quem vai tocar”, garantiu.

Falando em reações em entrevistas, o que deu em Sebastian Vettel? Estava no primeiro grupo que abordou o alemão após a prova e ele repetidamente tentava fingir que não tinha levado seu carro em direção ao de Hamilton no lance atrás do Safety Car. “Você está falando do primeiro toque?”, perguntava, deixando os jornalistas um tanto atônitos. E depois falava sem parar sobre outros assuntos para evitar mais questionamentos.

E Felipe Massa tem a quem culpar pelo incrível azar que teve em Baku. E isso não sou eu quem está falando, hein! O repórter da Globo Guilherme Pereira começou neste ano a revezar com Mariana Becker nas coberturas da F-1 e estava no Azerbaijão. E o jornalista, que é a simpatia em pessoa, falou que eu podia jogar a culpa nele: “Sempre fui um cara de muita sorte, coisas incríveis aconteceram na minha vida. Mas sempre que eu estou na cobertura, o Brasil vai mal.” Não sei se lembro da lista toda, mas tem o Mundial de Vôlei de 2014, o Mundial de Handball logo depois e também na Olimpíada. E, sim, o Gui estava na Rússia, Espanha e Canadá! Pelo menos Felipe tem um respiro agora na Áustria e na Inglaterra porque a Mariana estará de volta…

Acidente de percurso

Escrevo estas linhas, confesso, na correria, esperando o avião para me mandar deste país que “adoro”. Escrevo correndo também porque o tempo ficou curto depois de uma corrida em que aconteceu um pouco de tudo, até uma manobra indefensável de Sebastian Vettel para cima de Lewis Hamilton, que pode ter mudado o rumo do campeonato.

Claro que todos têm o direito de ficar de cabeça quente, mas estou com Damon Hill (e isso não é normal) quando ele diz que “um tetracampeão do mundo tem que saber controlar melhor esse tipo de situação”. Mesmo se Hamilton tivesse enfiado o pé no freio para causar uma batida, o que não aconteceu, caberia ao alemão esperar que os comissários resolvessem a situação. Ao fazer justiça com as próprias mãos, perdeu completamente a razão e a compostura.

Porém, mais impressionante que o toque proposital em si, foi a reação de Vettel, e seria estranho se o alemão mantiver essa postura depois que a poeira baixar. Ele simplesmente ignorou sua própria reação e ficou insistentemente voltando ao ato inicial que, para ele, parece justificar qualquer tipo de atitude por parte dele.

Esse não é o Vettel que conhecemos e essa não é a disputa limpa que se desenhava entre os dois. Tanto, que no paddock começou a circular a tese de que a Ferrari e o próprio alemão sentiram o golpe do Canadá e do que vinha se desenhando como outra derrota em Baku. Enquanto em Montreal a corrida da equipe italiana foi comprometida, o ritmo inferior ficou mascarado. Neste domingo, não deu para esconder.

A esperança ferrarista é uma atualização no motor, que deve chegar na próxima etapa, na Áustria. Não por acaso, Vettel disse após a corrida que “o ritmo era bom, só perdíamos um pouco na reta”.  Por conta de um problema que teve ainda no terceiro treino livre, o líder do campeonato correu com uma unidade de potência “frankenstein”: a maior parte era da primeira unidade de potência, que já tinha quase 4.000km rodados, juntando com o terceiro MGU-H e turbocompressor. É o terceiro porque tanto Vettel, quanto Raikkonen, só podem usar a terceira e quarta unidades destes dois itens, os de número 1 e 2 não são seguros do ponto de vista de confiabilidade.

Na Áustria, o plano da Ferrari é atualizar tudo, menos o turbocompressor e o MGU-H, evitando, assim, uma punição. Mas será praticamente impossível que isso não ocorra ao longo do ano, dando mais um motivo para Vettel sentir-se ameaçado.

Porém, tudo isso são conjunturas e uma briga tão apertada ainda promete ter várias reviravoltas nas 12 provas que vêm pela frente. O que temos agora é Vettel com uma liderança considerável, de 14 pontos, tendo salvado bem duas corridas em que poderia ter tido um prejuízo muito maior. Só não fez um grande favor, em Baku, a sua reputação.

Falando em reputação, alguns pilotos ganharam pontos importantes neste domingo. Daniel Ricciardo, seja pela obra do destino ou não, mais uma vez foi quem trouxe o resultado para a Red Bull, recuperando-se da batida na classificação e aproveitando-se do abandono de Verstappen. Valtteri Bottas fez uma corrida sensacional, bem, pelo menos depois da segunda volta, em uma recuperação mais difícil do que a de Vettel há duas semanas, que só começou na verdade após o reinício da prova, com quase um terço das voltas disputadas. E Lance Stroll, o que dizer? Em uma pista em que muitos erraram, logo quem vinha errando mais na temporada teve um final de semana absolutamente irrepreensível. Assim como o próprio Vettel, veremos qual Stroll aparece para correr daqui a duas semanas na Áustria.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP do Azerbaijão

Hamilton5 a 3Bottas
Ricciardo3 a 5Verstappen
Massa7 a 1Stroll
Raikkonen2 a 6Vettel
Alonso7 a 0Vandoorne
Perez7 a 1Ocon
Kvyat4 a 4Sainz
Hulkenberg8 a 0Palmer
Wehrlein5 a 1Ericsson
Grosjean4 a 4Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s434

Verstappen x Ricciardo: 1s535

Stroll x Massa: 0s045

Raikkonen x Vettel: 0s148

Alonso x Vandoorne: 0s696

Perez x Ocon: 0s075

Kvyat x Sainz: 0s161

Hulkenberg x Palmer: sem tempo

Magnussen x Grosjean: 0s439

Wehrlein x Ericsson: 0s478

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1: a Baku verdadeira ou da TV?

Sabe aquele carimbo de passaporte que faz o policial te olhar torto na imigração? É do Azerbaijão. Isso não por qualquer conflito no qual o país possa estar envolvido, mas por estranheza mesmo: o que alguém em sã consciência vai fazer lá?

Para a F-1, a resposta é fácil: trata-se de um dos países mais corruptos do mundo, cujos comandantes pensam alto. O projeto inicial do circuito, inclusive, previa a construção de uma ilha artificial no Mar Cáspio, nos moldes de Dubai. Provavelmente desistiram quando viram o tamanho da conta que tinham de pagar a Bernie só para estarem no calendário.

É estranho você chegar tão longe e se ver tão perto de casa por conta dessa ganância dos governantes e de uma realidade tão diferente nas ruas – pelo menos aquelas que não estão maquiadas para a F-1. Uma colega definiu Baku como o filho bastardo entre o Bahrein e Sochi e, de fato, trata-se de uma cultura com um pé no Oriente Médio, mas que identifico mais com a Turquia, e muita influência russa.

Tudo, é claro, depende da Baku que você consegue ver. Pilotos e equipes amaram a cidade porque os organizadores se certificaram de que amariam, criando uma redoma perfeita: trânsito fechado deste um aeroporto moderno até a parte mais bonita da cidade, e por lá todos ficaram, perto do circuito, entre a orla do mar e a parte mais antiga, lojas de grife e ruas fechadas para pedestres que muito se assemelham às de capitais europeias. Tudo isso com muito sol e muito, mas muito vento, algo que até se tornou o apelido da cidade.

Pena que até mesmo alguns dos prédios ao redor do circuito estejam cobertos por tapumes com fotos de fachadas, ou seja, a maquiagem chega até à zona que seria a melhor da cidade. E a duas quadras dali, o cenário já começa a mudar. É onde, inclusive, os curiosos locais, vestidos de maneira bem simples, se amontoavam ano passado tentando ver uma brechinha da pista, se equilibrando nas guias das ruas.

A parte “para turista ver” é, de fato, interessante. Trata-se de um lugar que foi habitado desde a pré-história e chegou a ser ocupado pelo Império Romano, mas tem mais influências persas e iranianas em seu centro antigo, que é considerado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Mas após a guerra entre os persas e os russos no século XIX, Baku ficou com o país do norte. Algumas décadas depois o petróleo, que até hoje é a base da economia do país, foi descoberto, atraindo outros povos europeus para a região. Estava explicado o caldeirão que formou a capital do Azerbaijão, que abriga 25% da população.

Dito isso, também é verdade que não é nada fácil encontrar boas rotas de voos para lá que tenham também bons preços e horários, e os hoteis, pelo segundo ano consecutivo, têm tentado cancelar as reservas feitas antecipadamente porque, um mês antes, percebem que elas coincidem com a data da corrida. Para completar o pacote, devo dizer que estar no Azerbaijão é uma das piores experiências que já tive, como mulher, viajando sozinha por esse mundão. Ao lado da Turquia.

Se nada disso te abala, é melhor correr: os preços neste ano já subiram em relação à estreia da F-1 no país. Então talvez seja a hora de correr para ter aquele carimbo de torcer o nariz de agente de imigração.

RAIO-X:

Preços: A passagem pesa e a hospedagem já foi melhor, mas os preços de Baku compensam a diferença. E eles fazem de tudo para garantir a freguesia (escrevo isso lembrando de um karaokê russo de péssimo gosto em que fomos parar porque uma placa dizia que tinha double. Perguntamos até que horas ia e a resposta foi “para vocês, a noite toda!”)

Melhor época: Pode ficar bem frio em Baku, então a melhor época para visitar é no Verão, em que a máxima fica perto dos 30ºC e a mínima, dos 20ºC. Mas dá para pensar em um “verão estendido”, entre abril e setembro.

Por que vale a pena? Gosta de destinos menos convencionais e quer ser tratado como rei pagando razoavelmente pouco?

Por dentro da F-1 e como formar um grid

Grid definitivo só às 13h do domingo, 1h antes da corrida

Não faz muito tempo: no GP de Mônaco, recebo uma mensagem da redação do UOL perguntando sobre como ficaria o grid após duas punições aos pilotos da McLaren. Isso era especialmente importante porque mexia com a posição de Lewis Hamilton e uma grande publicação brasileira tinha cravado que ele largaria à frente do que aparecia na minha matéria. Quando pensei no tamanho da explicação para falar que eu estava certa, só pedi para confiarem em mim. E confiaram.

Não raro acontecem verdadeiras reuniões entre os jornalistas na sala de imprensa para tentar definir um grid, até porque nós temos de escrever e a FIA só libera o grid oficial horas antes da corrida. Isso tem uma explicação lógica: existe um prazo para que os times informem quaisquer quebras do regime de parque fechado e, antes disso, não tem grid confirmado.

Mas é claro que dá para se ter uma ideia. Quando estas tais ‘reuniões’ acontecem, sempre aparecem alguns munidos dos relatórios técnicos distribuídos durante o final de semana. E é essa a chave para definir um grid – e o motivo pelo qual Hamilton se classificou em 14º e largou em 13º, mesmo com dois pilotos punidos a sua frente.

Naquele caso, Stoffel Vandoorne, que se classificara em décimo, perdera três posições por uma batida na corrida anterior. E Jenson Button largaria no fim do grid por trocar uma unidade de potência inteira (e mais adiante explico os meandros deste tipo de punição e o que mudou neste ano). Como a pena de três posições de Vandoorne era de uma data anterior à de Button, ela foi calculada antes, jogando o belga de décimo para 13º – ou seja, sem dar posição a Hamilton. Já a pena de Button, posterior e de mais posições, daria uma posição a Lewis.

Muitas vezes, não é tão simples assim: quando um piloto comunica à FIA, por exemplo, que vai trocar, digamos, o turbo. E depois de horas comunica a troca do MGU-H, as penas têm de ser contadas em duas “prestações” e, se houver outro piloto também punido, é preciso verificar o horário para determinar a ordem destas prestações.

Mas isso realmente acontece? Neste momento do campeonato nem tanto, mas no final do ano passado, era comum ter um grupinho quebrando a cabeça com uma pilha de comunicados da FIA na mesa.

Neste ano, com apenas quatro unidades de potência disponíveis, o cenário promete ser o mesmo. E uma equipe que deve estar no centro destas dúvidas é a Ferrari, “pendurada” com ambos os pilotos.

Entendendo as punições de motores

Já falei aqui nesta coluna que muitas vezes tratamos um assunto por alto na Fórmula 1 devido a sua complexidade e meu exemplo foi justamente a “troca de motor”. Primeiro, claro, porque não chama motor, e segundo porque não é sempre que uma equipe realmente troca o motor inteiro.

A unidade de potência tem seis componentes – turbocompressor (TC), central eletrônica (CE), motor de combustão (ICE), MGU-H, MGU-K e central de armazenamento de energia (ES). A regra diz que, quando o piloto usa a quinta unidade de qualquer um deles, perde 10 posições no grid. E a quinta unidade dos demais elementos gera uma punição de mais cinco posições.

Caso ele chegue na sexta unidade, novamente independentemente de qual componente, novamente perde 10 posições e assim sucessivamente.

Foi desta maneira que surgiram aquelas punições da McLaren, que viraram até motivo de piada: sabendo que largariam do fundo do grid, eles trocavam logo dois ou até três motores por final de semana, criando um “estoque” para as provas seguintes. Ano passado, inclusive, até Lewis Hamilton se beneficiou disso no GP da Bélgica.

A farra, contudo, acabou neste ano, em mais um fator que pode complicar a vida da Ferrari – e de quem tem o dever de dar a informação correta sobre o grid de largada – daqui em diante.

Para finalizar, outro tipo de punição que gera dúvidas é de câmbio. Ele tem de durar por seis provas consecutivas (e por isso é diferente dos componentes dos motores, que podem ser trocados livremente, desde que dentro da cota de 4 por ano para cada um deles).

Mas existe um porém: nesta regra, quando se fala em “evento” (“um piloto não pode usar mais do que uma uma caixa de câmbio durante seis eventos consecutivos”) apenas FP3, classificação e corrida entram na conta. É por isso que às vezes vemos um câmbio sendo substituído na sexta-feira sem punição, pois o original retornou ao carro no sábado. Outra chance de trocar o câmbio sem punição é após um abandono na corrida anterior – e daí vêm aquelas paradas estranhas faltando algumas voltas para o fim daqueles que estão fora da zona de pontos.

Detalhes da regra:

  • Se mais do que um piloto não fizer tempo no Q2 ou Q3, eles serão organizados da seguinte forma: quem iniciou uma volta lançada; quem não iniciou uma volta lançada; quem não saiu dos pits.
  • Depois que o grid for estabelecido, as penalidades serão aplicadas na ordem em que as irregularidades foram cometidas. Se, depois da classificação, um ou mais pilotos receberem penas dos artigos 23.3 (unidades de potência) ou 23.5 (câmbio), a preferência será dada para aquele cujo time informou o delegado técnico primeiro.

Sergio Perez, ordens de equipe e a Ferrari

Um caso antigo

É difícil esquecer da estreia de Sergio Perez, pontuando e depois sendo desclassificado pela Sauber depois de ser o único piloto a fazer apenas uma parada enquanto todos sofriam naquela que foi a estreia dos Pirelli, no GP da Austrália de 2011. De lá para cá, o mexicano passou por vários altos e baixos, chegou a ir para time grande, e sempre tem seu nome envolvido em uma transferência para a Ferrari que foi dada por várias vezes como certa, mas nunca chegou perto de se concretizar.

Mais de seis anos depois daquela estreia marcante, Perez se vê novamente em voga na mídia e no paddock. E, como tem sido de praxe de lá para cá, dividindo opiniões.

Efetivamente, a atitude do piloto durante o GP do Canadá privou a Force India de uma possibilidade real de pódio. Por cinco vezes, ele foi instruído a deixar o companheiro Esteban Ocon, que tinha pneus 13 voltas mais novos e estava mais rápido, passar, para que o francês tentasse superar o terceiro colocado Daniel Ricciardo, que também tinha pneus mais usados (14 voltas a mais que Ocon). Foi dito ao mexicano, inclusive, que as posições voltariam a ser invertidas caso a manobra não se concretizasse.

É o tipo de postura que pode conquistar alguns fãs, mas que não é nem um pouco bem visto no paddock. Não é uma situação em que a equipe está tentando favorecer outro piloto mas, sim, está tentando maximizar seu resultado como um todo, aproveitando uma grande oportunidade de capitalizar em um dia ruim para Williams e Toro Rosso, seus rivais diretos.

É o tipo de postura, no entanto, que não surpreende vinda de Perez. Nos últimos anos, o mexicano tentou convencer o paddock de que os erros internos que o tiraram da McLaren foram fruto da juventude, mas ainda que, dentro da pista, ele efetivamente se mostre mais maduro – mesmo continuando com seus lapsos, como em Mônaco – fora dela continua sendo um osso duro de roer.

Tanto, que o episódio de Montreal teve reações imediatas. Antes da corrida, o chefe da Ferrari perguntara a um jornalista de confiança sobre qual sua opinião sobre Perez. A resposta foi “fique de olho no companheiro dele”. Após a prova, Arrivabene se aproximou do colega e disse: “mas você sabe das coisas, hein!”

Ocon realmente fez uma corrida excelente, e ainda manteve uma postura bastante profissional mesmo sentindo que tinha perdido a chance do primeiro pódio na carreira. Não estava nada feliz, é claro, mas esteve longe de declarar a guerra que li em algumas manchetes por aí (estas sendo resultado de frases fora de contexto e de não estar lá cara a cara com os protagonistas).

No resumo da ópera, Ocon foi tudo o que uma equipe de F-1 quer, e Perez alimentou sua má fama. Dentro da Force India, entretanto, ele não terá problemas: se há uma coisa que o episódio mostrou, é que o investimento mexicano ali dentro é forte.

Mas e seu futuro? Antes do Canadá, as pessoas ligadas a Checo, que costumam lançar boatos a toda hora para inflar as “ações” do piloto, tinham começado uma ofensiva forte para colocá-lo na Ferrari – ainda que da Alemanha venha um suposto retorno de Rosberg e de certos setores da imprensa italiana, a renovação de Raikkonen – e pode ter certeza de que veremos seu nome “praticamente garantido” em times grandes, “o preferido” das equipes do meio pelotão. Afinal, quando o assunto é Perez, algumas coisas não mudam mesmo.

Credencial do GP do Canadá: Fim dos problemas para a Mercedes?

Teve até papo sobre a Islândia no Credencial dessa semana, sempre com o parceiro de transmissões na Band, Luis Fernando Ramos. E por que Baku é meu GP “preferido” do ano.

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Estratégia do GP do Canadá e as chances perdidas

O GP do Canadá acabou sendo a redenção de Lewis Hamilton após o péssimo sábado que comprometeu sua corrida em Mônaco. O inglês não apenas viu o rival Sebastian Vettel ser apenas o quarto colocado, na primeira corrida em que ficou fora do top 2 no ano, como também chegou 20s à frente do próprio companheiro Valtteri Bottas.

O ritmo de Hamilton foi forte, mas é inegável que a largada definiu boa parte do que seria a corrida. Bottas e Max Verstappen foram bastante agressivos na primeira freada, com o finlandês fritando seus pneus e comprometendo todo o seu primeiro stint – ele chegou a brincar dizendo que tinha “de consultar um dentista” depois da prova devido às vibrações do carro – e o holandês espremendo Vettel, no que danificou a asa dianteira e o assoalho da Ferrari.

Isso já teria trazido um prejuízo para o alemão, que só aumentou porque o time italiano não conseguia ver na telemetria o dano na asa devido ao Safety Car em decorrência do strike de Carlos Sainz em Felipe Massa – e faltou olhar o carro, como a Red Bull fez na decisão de 2012 e salvou o campeonato de Vettel. Assim, o piloto só parou depois que a corrida voltou a ter bandeira verde, perdendo muito mais tempo. Como Raikkonen também teve seu ritmo limitado, pelas duas Red Bull e por Perez, o caminho estava aberto para as Mercedes em uma tarde em que o time alemão pareceu, verdade seja dita, também ter mais ritmo.

A Ferrari chegou a tentar uma estratégia agressiva, parando Raikkonen ainda na volta 17 para tentar o undercut nos carros que vinham imediatamente à frente, mas Red Bull e Force India responderam rápido e neutralizaram a manobra, que significou que o finlandês acabou parando novamente na parte final da corrida em outra tentativa de lhe dar chances de escalar o pelotão, desta vez usando a aderência dos pneus novos, mas um problema de brake by wire limitou uma tarde em que tudo deu errado para a Ferrari.

Enquanto na frente uma quebra de Verstappen facilitava ainda mais a vida da Mercedes, uma vez que Bottas estava com dificuldades com os pneus (a equipe, inclusive, temia que eles estourassem) e tinha de parar o mais rápido possível – o que explica por que a opção foi pelos macios para o finlandês e supermacios para Hamilton, que pôde fazer uma estratégia mais “normal”. Para completar, o pneu macio acabou sendo mais lento do que as simulações, feitas com a pista menos quente, demonstravam, explicando a grande diferença entre os dois pilotos da Mercedes.

Como Ricciardo foi outro que optou pelos macios, isso abriu a chance da Force India conquistar o primeiro pódio do ano. Mas primeiramente decisões estratégicas, e no final da prova a resistência de Perez em inverter as posições com Ocon – e sobre isso prometo um texto na segunda-feira – fizeram o time perder uma grande oportunidade.

Lembremos que Perez antecipou sua parada para cobrir Raikkonen, e a Force India optou por deixar Ocon mais tempo na pista para dividir as estratégias e se colocar na melhor situação possível, o que foi uma ótima tática, coroada por um excelente trabalho do piloto francês, que teve um ótimo ritmo nas 13 voltas a mais que permaneceu na pista.

Com isso, também, Ocon chegou em cima de Perez andando 0s6 mais rápido a 30 voltas do final, quando o mexicano já estava limitado por Ricciardo, mas sem conseguir pressionar o suficiente para tentar uma ultrapassagem.

A opção do time acabou sendo pedir que Perez desse a chance de Ocon tentar passar Ricciardo, pedido repetido 5 vezes e ignorado. Mas a escolha poderia ter sido outra: se tivessem parado Perez, abriria duas frentes de ataque, uma com Ocon, e outra com o próprio mexicano na parte final da prova.

Ironicamente, foi com este veneno que o time acabou perdendo posições, mesmo com Vettel tendo resistido inicialmente à proposta da Ferrari de adotar a mesma estratégia de Raikkonen e parar. Foram algumas voltas que custaram caro ao alemão, que passou a voar depois que colocou os ultramacios, a 21 voltas do final. Ainda mais para quem terminou a apenas 0s6 do pódio em um dia de limitação de danos.

Drops do GP do Canadá (com direito a conversa sobre maquiagem)

  • Quem pensa que só porque estávamos no Canadá as críticas a Lance Stroll ficaram mais leves, está completamente enganado. O público canadense, que segue a F-1 de perto, adotou uma postura bastante forte em relação a seu piloto de casa. Em um evento, já tradicional em Montreal, em que o repórter da TV norte-americana Will Buxton responde a perguntas de fãs e distribui itens como bonés e camisetas autografadas, surgiu a questão: quem vai bater primeiro? Em uníssono, os fãs mesmos responderam: Stroll!
  • Fazendo um parênteses sobre o canadense, cujo dinheiro compra basicamente tudo, em Montreal teve até torcida ‘organizada’, com bandeiras sendo distribuídas em pontos estratégicos da pista com o pedido de que fossem agitadas quando o piloto passava para gerar boas fotos.
  • Sempre gosto de ir a este evento para conversar com estes fãs, que têm um conhecimento bem acima da média. Desta vez conheci um torcedor do Alaska, de origem grega, que estava indo para sua primeira corrida. Ferrarista, fez até uma bandeira em que substituía o Cavalinho Rampante pelo símbolo de seu estado. Ele contou que o primeiro carro que passou por sua frente foi justamente a Ferrari de Kimi Raikkonen. “Sou um homem feito, e chorei”. Ele estava tão feliz que pagou um drink para quem estivesse por perto.
  • O GP do Canadá é um dos queridinhos da temporada, mas certamente isso não tem nada a ver com as instalações. Um dos dilemas é tomar ou não bastante água: primeiro porque, para pegar uma garrafa, precisa sair do paddock; e depois passar a frequentar com mais assiduidade o banheiro de container. Ele é limpinho e tem até música ambiente para disfarçar, mas continua sendo um container.
  • Na chegada, não tem como os pilotos fugirem dos fãs, uma vez que só há uma ponte. Mas foi curioso ver como Sebastian Vettel passou completamente anônimo com sua bicicleta em meio ao público na quinta-feira. E mesmo com a camiseta da Ferrari e tudo mais!
  • Um dos assuntos do paddock foi o real motivo de Robert Kubica ter feito um extenso teste com a Renault na semana passada. Há quem diga que existe um plano, ainda não 100% definido: de voltar para fazer uma sessão de treinos livres em Monza, algo como uma casa espiritual do piloto, que morou muitos anos na Itália e é muito identificado com o país, para servir de encerramento para uma carreira interrompida de forma abrupta após acidente de rali no começo de 2011.
  • As equipes ficam em tendas, em uma estrutura removível, pois o circuito só e usado como tal uma vez por ano. E elas são equipadas com sistemas bem fortes de ar condicionado, como descobriram os pilotos da Red Bull.
  • E deu para ver bem as diferentes personalidades. Estava bem frio dentro do escritório da equipe quando Daniel Ricciardo chegou para a entrevista. “Está frio aqui, não, gente? Não dá para desligar? Preciso mesmo usar o microfone?”, disse com seu habitual sorriso. A assessora diz que sim e ele brinca, respondendo a primeira pergunta inclinando-se em direção ao microfone, com as mãos no bolso. Desligam o ar condicionado.
  • Após alguns minutos, volta a ficar calor e o ar e ligado novamente. Chega Max Verstappen, que solta um “brrrr” e olha feio para a direção do equipamento. E dá a entrevista normalmente,
  • Lembram do artigo sobre a questão das entrevistas e sua qualidade? Recebi neste final de semana a nova diretriz da FOM: um repórter por mídia e “tentar manter em três perguntas no máximo, preferencialmente duas”.
  • Falando em entrevistas, tive um papo bem legal com a Ruth Buscombe, estrategista da Sauber que já destaquei por aqui. E, sim, falamos de maquiagem e o “desafio de engenharia” de acertar o rímel nos dois olhos no menor tempo possível.

A reação de Hamilton

Em primeira análise, Lewis Hamilton fez valer seu retrospecto para vencer em um circuito praticamente desenhado para um piloto especializado em tirar tudo do carro nas freadas como ele. Mas a vitória neste domingo representou mais do que isso: ela foi construída com uma importante pole position no sábado, fruto de uma mudança de procedimento que aponta para uma melhor compreensão do comportamento dos pneus em uma volta lançada por parte da Mercedes.

Não é segredo que os altos e baixos do rendimento do W08 especialmente com os pneus ultramacios é o grande desafio da equipe na briga direta com a Ferrari nesta temporada, algo que teve um capítulo dramático há duas semanas em Mônaco, quando Hamilton sequer conseguiu passar para a última parte da classificação, com o carro dançando para um lado e para o outro.

Pois Montreal também tem um asfalto com pouca aderência e novamente os ultramacios seriam utilizados. Durante o classificatório, a Mercedes observou superaquecimento desta vez, mudou seu procedimento de aquecimento ao longo da sessão, e Hamilton fez sua parte na pista com uma volta sensacional.

Daí em diante, como o ritmo de corrida com o ultramacio não era um grande drama, era uma questão de manter a posição na largada e evitar o undercut, o que não acabou sendo necessário porque, pela primeira vez no ano, Vettel não teve uma corrida limpa. O próprio alemão acredita que sua obrigação era ter sido terceiro, tamanha a vantagem teórica da Ferrari sobre a Red Bull, mas sabemos que o alemão é perfeccionista: para quem fez um pit stop no pior momento possível, depois que o Safety Car tinha acabado de voltar aos boxes – uma vez que a Ferrari só percebeu que a asa estava danificada tarde demais – o estrago acabou sendo bem controlado. Tanto, que na briga direta dos tropeços, Hamilton só conseguiu escalar até a sétima posição em Mônaco, e ainda teve outro apagão em Sochi.

A volta por cima da Mercedes gera uma grande expectativa para a próxima etapa, em Baku. Novamente, um asfalto liso – mais liso, inclusive, que Montreal – e os pneus ultramacios. De quebra, em uma pista em que Hamilton demonstrou dificuldade em se adaptar ano passado. Antes do final de semana em Montreal começar, seria mais uma chance de Vettel abrir vantagem – assim como na Áustria, pelos mesmos motivos. Agora, Lewis e a Mercedes demonstram que não será tão simples assim.

No mais, vale o registro: vi gente da velha guarda chorar com a maneira como Hamilton recebeu o capacete de Senna, na bela homenagem prestada no sábado. “É como se ele tivesse de volta”, ouvi no paddock.

Foi um dos momentos especiais de mais um final de semana em que a F-1 parece se amar mais. A cada pequena ação, nas brechas abertas pelo grupo Liberty Media, como na corrida de barcos que tinha sido deixada para trás nos últimos anos e que voltou com direito a Ross Brawn e Sean Bratches chefiando seus próprios barquinhos, ou na liberação do vídeo da reunião dos pilotos, a categoria parece se lembrar que não é tão chata como ela mesma tentou se convencer nos últimos anos.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP do Canadá

Hamilton4 a 3Bottas
Ricciardo3 a 4Verstappen
Massa7 a 0Stroll
Raikkonen1 a 6Vettel
Alonso6 a 0Vandoorne
Perez6 a 1Ocon
Kvyat3 a 4Sainz
Hulkenberg7 a 0Palmer
Wehrlein4 a 1Ericsson
Grosjean4 a 3Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s718

Verstappen x Ricciardo: 0s154

Massa x Stroll: 0s774

Vettel x Raikkonen: 0s463

Alonso x Vandoorne: 0s513

Perez x Ocon: 0s117

Kvyat x Sainz: 0s066

Hulkenberg x Palmer: 0s887

Grosjean x Magnussen: 0s538

Ericsson x Wehrlein: 0s315

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1: Por que Montreal está entre os melhores destinos da temporada

Estava pensando em como começaria o texto sobre Montreal e pensei em dizer que o mundo da Fórmula 1 não se importa em ter o pior paddock do ano – o que deve melhorar em breve – e cruzar o oceano no meio do que seria a temporada europeia para visitar a cidade canadense. E me lembrei que escrevi uma matéria para o UOL há alguns anos justamente com o mesmo mote! De fato, não é a toa que o GP do Canadá entrou na minha lista dos melhores para assistir ao vivo da temporada.

A questão é que não dá para explicar como é Montreal sem ir mais para o lado subjetivo. O que é especial sobre este cantinho do mundo não tem a ver com nenhum monumento ou prédio importante. É a vibração de uma cidade que pulsa criatividade, juventude e dinamismo, ao mesmo tempo em que respeita suas raízes.

Essa, pelo menos, é a impressão de quem visita a cidade nos meses mais quentes. Já ouvi várias vezes “volte aqui no inverno para você ver como é” e dá para imaginar a melancolia tomando conta só ao observar a grossura das portas dos metrôs e dos vidros das janelas. Mas talvez seja por esse “período de incubação” que tudo fique mais especial quando o clima dá uma trégua.

Mas o que toda essa poesia em forma de cidade significa de concreto? Significa que você vai encontrar artistas de rua incríveis, festivais que misturam diversas artes e sabores de graça, aconchegantes cafés – milhares deles – e bares alternativos. Ao lado deles estarão construções com arquitetura clássica disputando espaço com arranha-céus, em uma daquelas paisagens específicas desta parte da América do Norte, e uma arquitetura de vanguarda funcional e bastante interessante, capitaneada pelo famoso Habitat 67.

Mas a cidade também tem suas belezas naturais, sendo a mais óbvia as margens do Rio Laurence e os parques que, assim como as pessoas, parecem vibrar por terem deixado os dias mais frios para trás. E nada melhor que um fim de tarde do topo do Mount Royal para dividir com os locais – os esportistas, que subiram até lá correndo ou pedalando, ou aqueles que preferiram economizar no esforço – um pouco deste frescor característico de Montreal.

 

RAIO-X

Preços: Montreal não é das cidades mais baratas que você vai visitar na América do Norte, mas também não é absurdamente caro. Você vai gastar cerca de 150 dólares por dia.

Ingressos: Os preços são bons. O mais barato para os três dias sai por 320. Um lugar no famoso fica por volta de 480 reais.

Melhor época: o Verão é o mais indicado, mesmo correndo o risco de encarar muita chuva. Na época do GP, no final da Primavera, pode acontecer mais ou menos de tudo – tempestades, um vento cortante e sol. Às vezes até ao mesmo tempo.

Por que vale a pena? É daquelas cidades que vivem o GP, do jeito que o Liberty Media quer: você certamente terá muito mais a fazer do que apenas ir ao circuito.

O porquê dos carros mais pesados

Um dos assuntos que roubou a cena nas primeiras etapas da temporada foi a dificuldade da Mercedes em conseguir chegar perto do peso mínimo de 728kg, chegando a fazer com que Lewis Hamilton dispensasse sua garrafa de hidratação, que pesa cerca de 1kg.

CONTEÚDO ATUALIZADO NESTE POST

A questão do peso da Mercedes não é que o carro está acima do limite mínimo, mas que eles não conseguem ficar abaixo o suficiente para jogar da melhor forma possível com os lastros, ajudando no equilíbrio do carro e gerando melhores tempos de volta e menor desgaste de pneus, por exemplo. Mas isso também expõe algo que é apontado por muitos – pelo próprio Hamilton, inclusive, como um ponto falho dos carros atuais: mesmo que a potência esteja perto dos 1000cv, de que adianta tudo isso com um equipamento tão pesado?

Os carros atuais têm largura e pneus com dimensões comparáveis aos carros de 1991, por exemplo, mas são pelo menos 150kg mais pesados – isso sem falar que o motor atual é o V6 1500cc, enquanto o de 1991 era o V12 3500cc. De onde vem toda essa diferença?

Segurança

A primeira imposição de peso mínimo na F-1 foi adotada em 1961 e era de 450kg. Afinal, nos anos anteriores, várias fatalidades haviam marcado o esporte: apenas em 1958, morreram Peter Collins, Luigi Musso e Stewart Lewis-Evans, em tempos nos quais até colunas de direção tinham furos para economizar peso.

As reclamações acerca da restrição também datam da mesma época: Colin Chapman, que nunca se preocupou muito com a segurança, argumentava que um carro mais pesado era mais difícil de parar e, com isso, mais perigoso.

Mas os pedidos do projetista não foram ouvidos. Pelo contrário, o peso mínimo seguiu subindo juntamente com a adoção de medidas para aumentar a segurança dos carros e chegou perto de 600kg no início dos anos 1980, mas deixou abaixou novamente na era turbo, quando voltaram aos 500kg.

As mortes de Senna e Ratzenberger em 1994, contudo, foram fundamentais para que uma série de medidas fosse adotada e o peso mínimo voltasse aos 600kg, algo que se manteve até 2009, quando começou uma sucessão de aumentos relacionados ao uso de energias renováveis e outras mudanças no regulamento até que chegamos aos carros mais pesados da história da F-1 em 2017.

Tanto, que Hamilton defendia ano passado que a mudança de regulamento simplesmente voltasse a diminuir o peso dos carros, e não aumentar sua velocidade por meio da aerodinâmica. O inglês queria ter de volta os primeiros carros com que competiu, em 2007 e 2008. “Eles só precisam tornar os carros mais leve. Eles são super pesados. Eles eram ótimos com 600kg, bons e ágeis. Isso é melhor para os pneus, eles não estouravam antes. Quanto mais pesado o carro, mais força os pneus recebem, então será pior para eles.”

Reabastecimento e energias renováveis

A mudança proposta por Hamilton, contudo, depende de muitas mudanças para realmente acontecer. O peso mínimo começou a aumentar em 2009 por causa do KERS – aumento que não foi suficiente, fazendo com que a maioria das equipes desistisse da tecnologia, que era bem mais ‘desajeitada’ do que hoje – e em 2010 pela necessidade de tanques maiores devido ao fim do reabastecimento, ainda que o combustível em si não entre na conta.

O terceiro aumento foi em 2011, agora para garantir que todos usassem o Kers. Aí já estávamos em 640kg e chegaram a 642kg em 2013 devido a um aumento no peso dos pneus.

Mas o grande salto foi em 2014, quando as unidades de potência atuais começaram a ser usadas. Para acomodar as baterias e todo o sistema de arrefecimento necessário para os V6 turbo híbridos, o peso mínimo passou para 691kg.

O ganho sem precedentes na história de termoeficiência foram fazendo, de 2014 para cá, que as atuais unidades de potência ganhem cavalos, chegando perto dos 1000cv – e sejam superiores neste quesito em relação aos V8, cujo desenvolvimento estava congelado por questões financeiras e cuja potência ficava perto dos 750cv. Com isso, mesmo sendo mais pesados, os carros atuais são mais velozes.

Trata-se de um caminho aparentemente sem volta, tanto pela ótica da segurança – ainda mais com saídas como o shield sendo estudadas, o que deve aumentar ainda mais esse limite mínimo – quanto pelo uso da F-1 como plataforma ‘verde’. Mas vale o exercício de imaginação: como seriam carros do meio dos anos 1980, com motores de 1500cv e limite de 565kg, com a tecnologia e aerodinâmica de hoje?

O pulo do gato da Ferrari – e de Vettel

Foram várias as mudanças pelas quais a F-1 passou de 2016 para cá, com alterações no perfil aerodinâmico e nas dimensões dos carros e pneus, passando pela maior liberdade no desenvolvimento de motores. Mas, a julgar pelo que estas seis primeiras etapas da temporada demonstraram, é a compreensão de um detalhe que vem fazendo a diferença a favor da Ferrari e de Sebastian Vettel.

O time italiano aproveitou como ninguém uma oportunidade que não havia nos anos anteriores: participar do desenvolvimento dos compostos.

Depois de muita pressão e de alguns tropeços nos anos anteriores, a Pirelli conseguiu organizar um calendário extenso de testes para produzir os pneus para esta temporada, usando carros ‘híbridos’, com as dimensões que seriam usadas em 2017, de Ferrari, Mercedes e Red Bull. O time italiano foi quem mais levou a sério essa função, assim como o próprio Vettel, que várias vezes foi à fábrica da Pirelli e fazia questão de, ele mesmo, conduzir os testes, enquanto, nas outras equipes, eram os pilotos de testes quem tinham essa função.

Apesar destes testes terem sido feitos às cegas, sem as equipes ou os pilotos saberem qual composto estava sendo testado ou se havia alguma mudança de uma sessão para a outra, é claro que especialmente o piloto conseguia sentir as diferenças e, a partir daí, ia construindo seu conhecimento.

E o que temos visto nesta temporada? Uma Ferrari que anda bem com todos os compostos e em todas as condições de temperatura e asfalto, conseguindo especialmente driblar um problema que vem atrapalhando os demais, a recuperação de temperatura durante as provas. E uma Mercedes cheia de altos e baixos que nem ela mesma sabe explicar.

Foi interessante uma declaração de Wolff durante o GP de Mônaco, dizendo que a equipe ainda não viu ambos os carros trabalharem na mesma zona de temperatura ao mesmo tempo durante uma corrida, o que é particularmente curioso uma vez que os chefes da Mercedes garantem que não há grandes diferenças de acerto entre seus pilotos.

De fato, ora vemos Bottas tendo dificuldades, ora Hamilton. O inglês, que testou muito pouco com os novos pneus ano passado e sempre defendeu que era inútil fazê-lo, identifica que seu problema está diretamente ligado aos asfaltos mais lisos, o que explica as quedas bruscas na Rússia e em Mônaco, dois circuitos completamente diferentes. Com Baku e Áustria pela frente já em junho, melhor o inglês e sua equipe conseguirem uma solução logo, pois, por enquanto, é a aplicação ‘schumacheriana’ de Vettel que está se sobressaindo.

Credencial do GP de Mônaco e muito mais

O Credencial pós-GP de Mônaco tem tudo sobre o climão na Ferrari, os desafios de Hamilton nas próximas etapas e até o restaurante favorito do Luis Fernando Ramos na próxima etapa, no Canadá. E adivinhem onde vou dar uma passadinha antes de chegar em Montreal?

Ouçam, divirtam-se, comentem, compartilhem!

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Estratégia do GP de Mônaco e Raikkonen fora do ‘script’

O primeiro objetivo de uma equipe de Fórmula 1 é vencer o campeonato de construtores e, com a dobradinha garantida em Mônaco, a Ferrari estava marcando pontos importantes para isso. Porém, seu segundo objetivo, de ganhar o mundial de pilotos, tinha um entrave: era o piloto errado que estava na ponta.

A intervenção estratégica para se certificar que Vettel tivesse condições de tomar a primeira posição de Raikkonen é totalmente lógica. Mas sempre traz suas consequências e a reação do finlandês após a prova deixou claro que ele não gostou nada de ter perdido o que seria sua primeira vitória desde março de 2013 e a segunda em Mônaco.

Na Red Bull, o mesmo aconteceu: Daniel Ricciardo estava atrás e ganhou a melhor estratégia, lembrando que a equipe errou e lhe tirou uma vitória praticamente certa no Principado ano passado e que, após a classificação no sábado, o australiano cobrou fortemente o time por achar que tinha sido prejudicado. Após a bandeirada, quem estava furioso – a ponto de demorar mais de meia hora para ir às entrevistas, quando normalmente eles fazem isso logo que saem do carro – era Max Verstappen.

Tanto na Ferrari, quanto na Red Bull, o cenário foi o mesmo: o carro que estava na frente na pista – Raikkonen e Verstappen – fez o pitstop primeiro e acabou perdendo a posição por conta disso. E as equipes sabiam que esse seria o caso, uma vez que a diferença de rendimento entre o ultramacio e o supermacio era de 0s5 e não havia diferenças significativas de durabilidade. Além disso, por todo o final de semana os carros tiveram de fazer duas voltas de preparação para aquecer os pneus. Quem parasse primeiro, portanto, tanto não teria a vantagem da aderência superior do pneu novo, quanto sofreria nas primeiras voltas.

Ou seja, havia uma janela muito grande nas 78 voltas em que não o ritmo de pneu, mas a pista estar livre ou não, ditaria o ritmo. Em Mônaco, a posição de pista é fundamental: tudo o que você quer evitar taticamente é ficar preso atrás de carros mais lentos.

Não surpreendentemente, foi este o princípio usado para definir a tática de Hamilton, que conseguiu ganhar posições por ter pista livre quando aqueles que estavam à frente começaram a parar e ele pôde impor seu ritmo normal.

Porém, voltando à Ferrari, depois das paradas de Bottas e de Verstappen, Ricciardo começara a voar e a equipe entendeu que isso colocaria a posição de Vettel e, consequentemente, a dobradinha, em risco. Neste momento da prova, em torno da volta 30, Raikkonen tinha diminuído o ritmo, mas deu a entender nas entrevistas que não tinha nenhuma dificuldade com os pneus ou algo do tipo, estava apenas administrando.

Ao invés de pedir para Kimi acelerar, a decisão foi chamá-lo ao box, mesmo colocando-o no tráfego, atrás de Button e Wehrlein na pista, e liberar Vettel para usar o ritmo superior dos ultramacios. Foi uma jogada que garantiu ao mesmo tempo a dobradinha e que o postulante real ao título de pilotos voltasse em primeiro ao parar cinco voltas depois do companheiro.

Desde a pole de Kimi, começou a especulação de como a Ferrari faria a inversão, uma vez que ela seria necessária para o campeonato, e é provável que os cenários tenham sido apontados para os pilotos no briefing. Tudo deu certo, menos a reação negativa do finlandês após a bandeirada. Por conta dessa ‘falha de script’, causou estranheza essa queda de rendimento de Raikkonen e há quem acredite que ele foi informado de que seria dada a chance de Vettel fazer o overcut e tentou estragar a tática ‘empurrando-o’ para cima dos rivais.

A reação de Kimi após a corrida foi repetir que não era ele quem tinha que explicar o fato de ter parado primeiro e será interessante ver como isso se desenvolve nas próximas corridas, pois até aqui o finlandês não estivera perto o suficiente para ameaçar a pontuação de Vettel.

Do outro lado desta briga, Lewis Hamilton, mesmo tendo sido claramente batido por Valtteri Bottas – que, aliás, fez a melhor volta de classificação do sábado em Mônaco, considerando o carro difícil que tinha em mãos – começou a pressionar sua equipe dizendo que “a Ferrari já escolheu seu primeiro piloto”. Na Mercedes, houve, inclusive neste ano, interferências, mas elas acontecem quando o resultado do time está em perigo. Em uma situação como esta, de dobradinha garantida, eles sempre resistiram em interferir – e há pouco menos de um ano criaram as tais “regras de conduta”, basicamente limitando brigas entre seus pilotos para priorizar totalmente o mundial de construtores. Mas isso foi nos tempos de domínio. E agora?

Drops do GP de Mônaco: entre luxo e ladeiras

– O GP de Mônaco costuma ser uma etapa controversa no paddock da F-1. Há quem ama, há quem odeia. O amor vem por todos os motivos óbvios que vocês veem pela TV. Chegar para trabalhar em um escritório desses faz o dia de qualquer um. Mas Mônaco tem duas coisas que não ajudam em nada: a proximidade do público muitas vezes obriga quem está trabalhando a abrir caminho à força e as ladeiras para chegar até o local de hospedagem – quase ninguém aluga carro e os próprios pilotos usam motos para se locomover – ajudam na sensação de que os dias em Monte Carlo são longuíssimos. A prova está na imagem aí em cima: esse é o resumo da minha quarta-feira captado por meu Fitbit.

  • Você sabe que está em Mônaco quando anda pelo paddock e é quase atropelada por Felipinho e três amigos. Para o filho de Massa, é mais uma tarde comum, passeando por seu ‘quintal’ após ir à escola, que fica no mesmo prédio em que está localizada a sala de imprensa.
  • Foi lá, inclusive, que Rosberg estudou. E mesmo durante a semana de GP, quando chega o horário das crianças saírem da escola, a rua é fechada para que os pais busquem seus filhos com tranquilidade. Para quem ficou curioso/a: sim, Massa busca o próprio filho na escola.
  • Ao lado das crianças correndo estava o barco do pai de Lance Stroll e seus cerca de 200 convidados. Se estavam todos hospedados por lá, não sei, mas lugar não faltava no iate que era o segundo maior do porto de Mônaco deste ano. Isso porque Laurence Stroll não levou – na verdade provavelmente não pôde levar – seu maior barco, com oito andares, para o Principado. Mas o melhor é o nome do barco que estava em Mônaco: Faith. Piada pronta?
  • Começam a surgir os boatos de que o GP da França não voltará ano que vem. Aparentemente, o contrato ainda não foi assinado e o circuito, que é de propriedade de Bernie Ecclestone, está longe de estar pronto. Por outro lado, existe uma grande vontade do Liberty Media de aumentar o calendário: a conversa de 25 GPs já em 2018 é séria, além de uma nova forma, mais “setorizada” de organizar as provas por continente. A ideia é acabar com, por exemplo, corridas seguidas em lugares tão distantes como Mônaco, Canadá e Baku.
  • A coletiva de imprensa de Lewis Hamilton teve um momento impagável. Lewis respondia sobre a expectativa para o GP do Canadá quando sua convidada, a esquiadora Lindsay Vonn, foi embora do motorhome da Mercedes. Ele mandou um tchau de longe e falou aos jornalistas: “É a Lindsay Vonn, pessoal”. E claramente se desconcentrou completamente. “Do que estávamos falando?” Pneus, Lewis. Pneus.
  • O clima foi bem diferente com Valtteri Bottas. Geralmente solícito, o finlandês aparentava estar muito mais cansado do que o normal. Será que a moda de correr sem hidratação pegou também do outro lado da Mercedes?
  • Bottas não quis responder uma pergunta minha no cercadinho, algo muito incomum no caso dele. Mas não para quem vem merecendo o troféu limão nesta temporada: Nico Hulkenberg. O alemão anda com uma empáfia que nem os campeões do mundo carregam consigo.

Ferrari dá o seu recado

A primeira dobradinha da Ferrari desde 2010, que também é a primeira vitória em Mônaco desde 2001, veio carregada de significados. Ao dar a Sebastian Vettel a oportunidade de superar Kimi Raikkonen mesmo com o finlandês tendo largado na pole position e tendo liderado a primeira parte da prova, o time italiano deixa claro que vai trabalhar para que seu primeiro piloto tenha chances de maximizar seus resultados e ficar em uma posição privilegiada na briga direta com Lewis Hamilton, da Mercedes.

Não que Vettel não tenha feito por merecer a vitória no Principado: o alemão teve um ritmo muito forte, com pneus usados, nas voltas entre a parada de Raikkonen e a sua, a exemplo do que Daniel Ricciardo fez em relação a Valtteri Bottas e Max Verstappen. Mas não é a primeira vez que retardar a parada é a melhor estratégia, e é difícil imaginar que a Ferrari não sabia disso quando decidiu adotar essa tática com o tetracampeão. Tanto, que Kimi Raikkonen não escondeu sua frustração mesmo após ter conquistado, com o segundo lugar, seu melhor resultado na temporada.

A conduta é, também, um recado à Mercedes, que tem sido mais resistente a colocar Valtteri Bottas em um papel de segundo piloto. Em Mônaco, Hamilton dispensou a ajuda do finlandês e disse ser possível que, ao longo da temporada, ele próprio possa trabalhar em função de Bottas para maximizar as chances da equipe levar o título de construtores.

No Principado, o inglês esteve longe de se colocar em posição de receber qualquer tipo de ajuda, perdido com o rendimento dos pneus na classificação. Mas com a Ferrari deixando claro como vai jogar o jogo, pode ser a hora de rever esses conceitos.

Mas o time alemão tem ainda outros desafios pela frente. Mesmo depois das mudanças que fizeram no carro na Espanha e da maior compreensão em relação aos pneus no teste do Bahrein, os altos e baixos no rendimento dos dois pilotos continuam – e parecem sem explicação. Na classificação em Mônaco, por exemplo, os chefes garantiram que os acertos dos dois carros estavam iguais. E os resultados foram muito diferentes. E é justamente pelas corridas em que se perdeu com os pneus, na Rússia e no Principado (dois circuitos bastante diferentes, mas com asfaltos mais lisos) que Hamilton se vê com uma desvantagem importante no campeonato.

O inglês já admitiu após a corrida de Mônaco que lhe resta torcer para que os problemas com o turbo da Ferrari atrapalhem os italianos daqui em diante. Atitude de quem sabe que as coisas já não estão tão sob seu controle como nos últimos anos.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP de Mônaco

Hamilton3 a 3Bottas
Ricciardo3 a 3Verstappen
Massa6 a 0Stroll
Raikkonen1 a 5Vettel
Button0 a 1Vandoorne
Perez5 a 1Ocon
Kvyat2 a 4Sainz
Hulkenberg6 a 0Palmer
Wehrlein4 a 0Ericsson
Grosjean3 a 3Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 1s205

Verstappen x Ricciardo: 0s502

Massa x Stroll: 1s097

Vettel x Raikkonen: 0s043

Button x Vandoorne: sem tempo

Perez x Ocon: 0s571

Sainz x Kvyat: 0s

Hulkenberg x Palmer: 0s909

Magnussen x Grosjean: 0s756

Wehrlein x Ericsson: 0s117

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1: Ah, o glamour de Mônaco!

“Ah, que glamuroso é o GP de Mônaco!” É meu pensamento toda vez que saio do circuito lá pelas 21h, morrendo de fome, abrindo caminho pela Rascasse cheia de gente bêbada querendo aparecer, com o sapato grudando no chão pela mistura de pista emborrachada e bebida caída no chão, e sabendo que falam algumas ladeiras até chegar em casa.

Mas eu sei que o cansaço causa efeitos colaterais como este. É legal, sim, estar em Mônaco. Talvez não glamuroso se você não tem muita bala na agulha, mas é legal. Um dos pontos altos da temporada é poder olhar aqueles prédios, curvas e cantinhos que você cansou de ver há décadas na TV por seu próprio ângulo. Quando os carros passam, a sensação de velocidade é maior no circuito de média mais baixa do que em qualquer outra pista – pelo menos é o que seu corpo sente. E pequenas diferenças de estilos de pilotagem ficam gigantes. Acho que especialmente no caso de Hamilton, você vai pensar duas vezes antes de criticar um piloto depois de ver o que eles fazem em Mônaco.

Mas como chegar lá? É tão caro assim? Claro que há várias maneiras de curtir o GP de Mônaco. Mesmo não estando lá. Há quem se divirta muito andando ou dirigindo na cidade nas semanas anteriores, quando a pista já está montada. Ainda no esquema mais barato, é perfeitamente possível hospedar-se nas cidades próximas (Nice é a maior) e ir de trem em meia hora.

Dá para ficar em hotéis em Mônaco na época de GP, claro, mas a não ser que haja uma programação com muita antecedência você vai pagar em uma semana o que muita gente não ganha em um ano.

Os ingressos também são um caso especial com vários tipos de pacotes – para um dia, três dias, ou só sábado e domingo – e, quanto mais na parte de cima você fica, mais barato (ou menos caro) é.

Há alguns anos, fui ver um treino livre da La Rocher, onde o acesso é liberado às quintas e cobra-se em torno de 60 euros – pouco mais de 200 reais – para o sábado ou o domingo. Há inconvenientes, claro, como ter de chegar cedo porque a “arquibancada” é um rochedo bem íngreme e não há muito espaço. E, se chover… Se quiser encarar e madrugar, a vista é ótima. Mas meu lugar preferido na pista é nas piscinas, onde os ingressos para o final de semana podem chegar a 760 euros (mais de 2650 reais).

Toda a região tem vista incríveis e muitos lugares a visitar em qualquer época. No verão, o destaque é o litoral, claro, e no inverno, as estações de esqui. Tudo incrivelmente perto. Mas Mônaco em si não tem muitos atrativos fora do GP – e o que eles chamam de praia não é exatamente o lugar confortável para passar o dia como fazemos no Brasil.

Quem gosta de pedalar tem as trilhas mais duras das montanhas e mais fáceis na orla, que vão até a Itália. Quem gosta de comer está feito, especialmente com disposição para abrir a carteira. E quem gosta de vinho…

RAIO-X

Preços: salgados. Para começar, a cerveja long neck é 8 a 10 euros, perto de 30 reais.

Ingressos: de 54 euros para sentar no barranco (no sábado) a quase 800 para a parte com melhor visão nas piscinas (nos três dias)

Melhor época: no GP. Pode não estar tão quente e chover, mas é quando o Principado ganha um ar especial.

Por que vale a pena? Precisa responder?

Por dentro da F-1: Adaptado para Mônaco

Aguenta, suspensão!

Quando se fala no GP de Mônaco, o primeiro pensamento que vem à mente é o desafio que o circuito representa aos pilotos. Mas não são apenas eles que “mostram serviço” nas ruas do Principado. Os engenheiros também têm muito trabalho para adaptar o carro ao circuito mais lento e travado do campeonato.

Volante turbinado

Talvez a mudança mais famosa no carro para o GP de Mônaco seja no ângulo da direção, que tem de ser modificado caso contrário um carro de Fórmula 1 simplesmente não conseguiria contornar a curva Loews, mesmo ela sendo feita a 50km/h!

Assim, o ângulo da direção, que geralmente gira em torno de 14º chega a 20º apenas para uma prova.

Mas o que nem todo mundo sabe é por que os carros já não saem “de fábrica” com a direção já preparada para esta curva: isso porque um ângulo maior também significa compromissos estruturais na suspensão, além de um sistema de direção maior e mais pesado, por isso as equipes optam por ter esse custo/trabalho a mais apenas em uma prova.

Suspensões

Isso nos leva ao segundo quesito importantíssimo para um carro andar bem em Mônaco: adaptar as suspensões. Para que a direção trabalhe em um ângulo maior, é preciso diminuir o braço da suspensão para evitar que ele toque o aro do pneu. Mas as mudanças não param por aí.

Há quem diga que você não está pilotando rápido o suficiente em Mônaco se não estiver encostando nos muros. E os carros estão preparados para isso: uma das principais alterações nos carros em Mônaco é o uso de suspensões mais macias.

Mas não é simplesmente uma questão de salvar a pele dos pilotos caso eles exagerem na dose: uma suspensão mais macia é algo positivo em pistas cujo asfalto é liso e também ajuda a melhorar a aderência mecânica, fundamental em Mônaco devido às curvas lentas.

Além disso, suspensões e molas mais maleáveis permitem que os pilotos ataquem mais as zebras. E é por isso também que os carros andam um pouco mais altos que o normal.

Sem ar

Em Mônaco também são utilizados dutos de freio maiores, não só pela força das freadas, mas principalmente pela falta de retas para refrigerar. O mesmo acontece com as entradas de ar dos radiadores, que têm de ser maiores tanto pela falta de retas, quanto por um motivo curioso: as asas acabam ficando tão grandes no Principado, cheias de cascatas para melhorar o efeito aerodinâmico, que isso interfere negativamente no fluxo de ar nesta região.

Aerodinâmica

E assim chegamos ao último e mais visível item de todos. Os carros usam as maiores asas possíveis, uma vez que a pista é tão lenta que não existe tamanha preocupação com o comprometimento pressão aerodinâmica x arrasto.

Isso leva a um dado curioso: o homem mais rápido de Mônaco em sessões oficiais foi Pascal Wehrlein, com a Manor, chegando a 297.9km/h na classificação do ano passado, mostrando toda a deficiência aerodinâmica do carro – e indicando que o time provavelmente não tinha dinheiro para fazer um pacote específico para Mônaco.

Ser rápido na reta no Principado é o pior dos sinais, porque significa que o carro está sem arrasto e gera menos pressão aerodinâmica. Tanto, que além de usarem sua configuração máxima – algo que só se repete em Cingapura e no México, devido à altitude – as equipes com maior orçamento costumam levar asas específicas para a pista monegasca, adicionando lâminas na asa dianteira, monkey seats maiores e todos os penduricalhos aerodinâmicos aos quais têm direito.

Ah, mas um piloto bom de braço ajuda também!

Muito tempo. Nem tanto conteúdo

22 Eles só sorriem pra pergunta boa, claro

Tudo partiu de uma conversa com o repórter da Globo Guilherme Pereira durante a sempre longa espera no cercadinho, a zona de entrevistas de TVs e rádios, no domingo na Espanha: vindo do futebol, o colega, que fazia sua segunda prova, estava impressionado com o tempo o qual os pilotos ficam à disposição da mídia durante um final de semana de GP.

Fora eventos de patrocinadores, os pilotos basicamente têm 8 dias de trabalho com a mídia por mês, contando a média de dois GPs por mês. E, de fato, o acesso da imprensa é infinitamente maior que o de jogadores badalados na Europa e mesmo no Brasil, onde eles são mais blindados. Após conversas com colegas e de juntar com meus dados aproximados e os exatos da Williams, cheguei à conclusão de que um piloto fala, em média, por seis vezes mais tempo com a imprensa por mês que um jogador de futebol. Os detalhes estão na matéria publicada no último sábado no UOL Esporte.

E nem vou entrar no mérito da chance incrível que temos de falar com os pilotos no grid.

Claro que há alguns adendos a se fazer. A quantidade de mídia presente no paddock se assemelha mais a uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada do que a uma partida do Campeonato Brasileiro. E, a exemplo destes eventos, são vários idiomas a serem contemplados. É claro que eu na Rádio Bandeirantes ou a Globo não vamos usar Felipe Massa falando em inglês – e esses pilotos cuja língua-mãe não é o inglês costumam ficar um pouco mais sobrecarregados. Outro fator é o número gigante de emissoras de TV, todas elas com contratos caríssimos para ter direito ao uso da imagem. E todas querendo exclusividade no cercadinho.

Não é por acaso que todas as mudanças feitas pela equipes e pela própria F-1 ultimamente visam agradar às TVs: cada vez mais os times resumem ou extinguem sessões para a mídia impressa, enquanto a coletiva de imprensa oficial de quinta-feira – que é transmitida pela TV, tornando seu conteúdo praticamente inútil para a mídia impressa, para a qual ela seria direcionada – está sendo dividida em duas e, enquanto metade dos pilotos escalados fala na oficial, adivinhem com que o restante está falando de forma mais exclusiva?

Isso, porém, não tem ajudado em nada o conteúdo. Imagine que você é Fernando Alonso e acabou de fazer um teste na Indy. Na coletiva, vão lhe perguntar sobre isso. No cercadinho, você vai parar em 10 a 15 TVs e cada uma delas vai querer saber disso. E, no caso da McLaren, há ainda uma outra coletiva para a mídia impressa. E um vai querer uma resposta mais interessante para a mesma coisa. Não vão ter.

Outro problema decorrente dessa necessidade de agradar as TVs durante quatro dias seguidos de atividades – e ter muitas delas para agradar – é que uma grande parcela das opiniões que ficam rodando a mídia por dias foram colhidas assim que os pilotos saíram do carro, no calor do momento, sem qualquer análise posterior. Isso é diferente na maioria das sessões de mídia impressa – não no caso da Ferrari, que leva os pilotos do cercadinho direto para estas entrevistas, então as aspas costumam ser bastante cruas – mas a tal política de agradar as TVs vem fazendo com que os assessores de imprensa cortem o tempo de trabalho de mídia de seus pilotos justamente por estas sessões. Os pilotos da Red Bull e da Williams, por exemplo, não falam com os jornalistas de impresso, que não podem entrar no cercadinho, após a corrida.

Não é por acaso que, mesmo com este acesso que parece gigantesco, há muita reclamação. Dos pilotos, cansados de ouvir as mesmas perguntas, e dos jornalistas, cansados de ouvir as mesmas respostas. Mais um problema criado pela Era Bernie e seu apetite feroz por contratos de TV.

Podcast Credencial e a nova F-1

Já virou tradição: quinta-feira pós-GP é dia de Credencial, que nesta edição de gala conta com a presença de Gabriel Lima, do Motorsport.com brasileiro, reeditando o trio que fez vários programas na época de TotalRace. E, como essa temporada está realmente dando o que falar dentro e fora das pistas, é claro que acabamos nos empolgando com o papo!

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Estratégia do GP da Espanha e o triunfo das novas regras

O GP da Espanha marcou o triunfo das novas regras no circuito para o qual, pode-se dizer, elas foram feitas. Afinal, era em Barcelona que a meta de 5s em relação à pole de 2015 teria de ser batido e, de quebra, ganhamos uma corrida pé embaixo com duas paradas, exatamente como nas previsões.

Já sabemos pelas etapas anteriores que não será sempre assim, pois a F-1 não é como um campeonato de futebol, com cada jogo disputado sempre dentro de variáveis mais estáveis, e justamente uma viagem nos meandros desta batalha estratégica e de pilotagem nos mostra o nível de complexidade deste esporte.

Voltando à classificação, o aumento significativo da velocidade em uma volta lançada já vinha sendo observado desde a pré-temporada. E, mesmo com uma volta que esteve bem longe de ser perfeita, Lewis Hamilton bateu a meta de abaixar em 5s a pole position do ano retrasado, sendo 5s532 melhor do que Nico Rosberg fora em 2015.

Mas o que realmente chamou a atenção na Espanha foi a capacidade dos pilotos adotarem um ritmo forte durante a corrida. A melhor volta da prova, também de Hamilton, foi um pouco mais lenta que a melhor de cinco anos atrás, mas com uma diferença marcante: foi feita na parte final da corrida, depois de 28 voltas com o mesmo jogo de pneus, mostrando que ele teve de forçar o ritmo o tempo todo e só conseguiu o melhor giro quando o nível de combustível era mais baixo.

Nos anos anteriores, a alta degradação trouxe mais ultrapassagens, mas também significou que, logo depois de suas paradas nos boxes, os pilotos tivessem de começar a dosar o ritmo, focando apenas em não destruir seus pneus até o final da prova.

O fato de Hamilton ter que forçar o tempo todo, e até acabar o GP bem mais cansado do que de costume, também tem outro motivo: para vencer na Espanha, o inglês teve que superar uma Ferrari mais rápida e com Sebastian Vettel em uma performance bastante forte.

Com isso, a corrida foi decidida em detalhes – e até decisões que pareceram erros em um primeiro momento fazem sentido em uma corrida bastante complexa do ponto de vista estratégico.

 

A cartada da Ferrari

Antes da largada, a Pirelli falava em três paradas como o caminho mais rápido, mas isso dependia do tráfego e do ritmo com o pneu médio. E o ritmo da Mercedes com o composto de faixa branca fora pior que o da Ferrari na sexta-feira. Por isso, quando os alemães começaram a pedir que Hamilton aumentasse o ritmo na volta 12 e Vettel, líder, pegava tráfego e via a diferença cair para 1s8, o risco de um undercut era iminente e a Ferrari o chamou aos boxes.

O único caminho para Hamilton, portanto, seria continuar na pista e entrar na janela de duas paradas, parando lá pela 20ª volta, o que não foi nada fácil para o inglês, visivelmente sofrendo com os pneus. Com isso, Lewis perdeu muito tempo no stint inicial e a corrida parecia estar nas mãos de Vettel.

Isso até que Hamilton parou e o piloto alemão se viu logo atrás de Valtteri Bottas. Foram apenas quatro voltas, mas o suficiente para o líder do campeonato perder pelo menos 4s, basicamente um terço da vantagem que tinha construído. Isso daria margem de manobra para a Mercedes logo depois mas, naquele momento, a Ferrari continuava em vantagem, até porque o segundo stint de Vettel fora muito bom, o rendimento do pneu médio não se mostrara tão desastroso assim em outros carros e seria possível reverter sua estratégia de volta para duas paradas.

 

A virada da Mercedes

Até que surgiu o SC Virtual com mais de 30 voltas para o fim. E uma decisão complexa para tomar. No caso da Ferrari, seria mais óbvio parar Vettel e colocar os médios. Mas e se eles não se aquecessem, como vimos inúmeras vezes neste ano?

Além disso, a diferença entre uma parada normal e uma com SC Virtual em Barcelona é de 9s, exatamente a vantagem que Vettel tinha, e, diferentemente de um SC normal, é impossível saber quando o Virtual vai terminar.

A Mercedes, por sua vez, ficou esperando a Ferrari parar para responder. Isso não aconteceu e eles arriscaram o último instante para parar Hamilton, perdendo um pouco de tempo porque o VSC acabou assim que ele entrou nos pits, mas sem o risco de perder com o aquecimento dos pneus.

Depois de perder sua oportunidade (e vamos lembrar que a dúvida só aconteceu devido ao tempo perdido atrás de Bottas), à Ferrari, restou reagir e parar Vettel na volta seguinte. Foi então que entrou em ação o fator Hamilton: a estratégia não teria sido suficiente não fosse uma volta espetacular de Hamilton no retorno à pista: seus setores 2 (30s792) e 3 (28s367) foram tão fortes que são comparáveis aos carros que entraram no top 10 na classificação. E isso com combustível para cerca de 30 voltas ainda no carro.

Foi por conta disso que ele e Vettel dividiram a primeira curva e o inglês esteve próximo o suficiente para ultrapassar o rival poucas voltas depois. Além disso, naquele ponto, também fez diferença o fato da Mercedes ter optado por colocar os médios no meio da prova, enquanto a Ferrari usou-o no final.

Vettel está certo quando diz que deveria ter ganho o GP da Espanha, mas não é daquelas provas em que dá para crucificar a estratégia da Ferrari. Afinal, foi uma série de fatores – incluindo o trabalho dos dois pilotos da Mercedes – que deu a vitória a Hamilton.

Drops do GP da Espanha

  • Você vai ler em todos os cantos como a Liberty Media estreou uma série de novidades voltadas aos fãs durante o GP da Espanha, mas o que fez sucesso no paddock mesmo foi o bar montado entre os motorhomes das equipes. Como a identidade visual apontava a promoção da versão sem álcool da Heineken, muitos desconfiaram. Mas logo alguns começaram a sair meio trôpegos de lá e foi confirmados: temos um bar de verdade no paddock!
  • Como se não bastasse essa novidade, o GP da Espanha é tradicionalmente marcado por eventos, com uma espécie de clima de volta à escola pelo início oficial da temporada europeia. E todos já sabem que quinta-feira tem tapas na Mercedes, sexta-feira é a abertura oficial do terraço Martini na Williams e tem evento da Rolex no Paddock Club e sexta-feira é dia de beliscar e beber na Red Bull.
  • Os repórteres até que tentaram, mas Roscoe não se mostrou animado em atacar nenhum piloto quando acompanhou o dono Hamilton nas entrevistas do cercadinho na quinta-feira. Mas bem que Verstappen levou um susto quando um colega francês interrompeu uma entrevista sua imitando um latido. Provavelmente achou que sua canela estava em perigo.
  • Percebendo que o cachorro é extremamente manso, os jornalistas então tentaram alguma “declaração”. Só conseguiram lambidas nos microfones.
  • Falando em microfones, a F-1 pode perder um cinegrafista, que estava se oferecendo à Globo porque está louco para morar no Brasil depois que se apaixonou por uma brasileira quando estava trabalhando nas Olimpíadas. Será que consegue?
  • Outro apaixonado por uma brasileira é Daniil Kvyat. E Kelly Piquet é daquelas que marca em cima: vai buscar o namorado logo que ele sai do carro, ainda no cercadinho.
  • Vou começar a criar uma escala de calor para os GPs. Como costuma acontecer na Espanha, não me perguntem por que, a diferença de temperatura no sol e na sombra é gigante. E pude comprovar isso quando, depois da corrida, ainda tinha pedaços de borracha grudados no solado do sapato, vindos do grid.
  • Vamos agora para Mônaco e o quase vencedor do ano passado já avisou: vai ignorar qualquer pedido da equipe para parar no box. “O pneu vai durar, então o plano é ir até o final sem paradas nos boxes! Talvez eles tenham dó de mim no final e me deixem ganhar”.

Nível lá em cima

Não há dúvidas de que a volta de uma luta direta entre pilotos de equipes diferentes é a grande notícia da temporada de 2017 da Fórmula 1. E não poderia haver notícia melhor do que essa. Mas havia um risco considerável de que isso virasse apenas momentâneo a partir do GP da Espanha. Isso porque havia certa desconfiança em relação ao poderio de desenvolvimento da Ferrari, cuja equipe técnica é composta por engenheiros pouco experientes. Para piorar, a Mercedes chegou a Barcelona com um carro claramente bastante modificado, e com soluções bastante ousadas.

Mas tanto a classificação, quando Hamilton e Vettel ficaram separados por apenas 51 milésimos, quanto a corrida, disputada nos detalhes até o final, mostraram que não há motivos para se preocupar: a disputa pelo título promete ser palmo a palmo. E com os dois pilotando em altíssimo nível.

Afinal, há quanto tempo não ouvíamos os pilotos ofegantes como Hamilton estava em Barcelona? Nas entrevistas após a prova, os sinais de cansaço tinham ido embora, mas o próprio piloto reconheceu que, há tempos, não tinha que suar tanto para ganhar uma corrida. Depois de perder a primeira posição na largada, Lewis foi colocado na seguinte posição pela Mercedes: vamos mudar sua estratégia para te dar chances de retomar a ponta, mas você vai ter que trabalhar duro, primeiro acelerando com os pneus médios, que vinham sendo uma caixinha de surpresas, e depois tendo que superar Vettel na pista.

E o inglês cumpriu o plano com perfeição, com destaque para a volta incrível de retorno aos boxes após a última parada. Não é qualquer coisa ter batido um Vettel que pareceu mais inteiro com a Ferrari pela maior parte da prova, e ainda mais também pilotando em alto nível e fazendo um trabalho irrepreensível até aqui pela Ferrrari. Inclusive, o que foi aquela pedalada para cima de Bottas?

Mas é aí que chegamos àquele que pode ser chamado de protagonista de luxo da prova. Vettel vinha andando em um ritmo alucinante, na casa de 1min24, até chegar no finlandês, que ainda não havia feito sua parada e andava em 1min27. Foram apenas quatro voltas atrás de Bottas, que defendia muito bem o lado de dentro da curva 1, mas elas custaram cerca de 9s para o piloto da Ferrari. Não precisa nem dizer que isso fez muita falta quando o alemão se viu dividindo a primeira curva com Hamilton na saída de sua última parada.

Enquanto isso, Raikkonen teve outro final de semana de altos e baixos, brigando com o acerto do carro. Curiosamente, o mesmo Bottas que já tirou pontos importantes de Hamilton, também lhe deu uma vantagem estratégica na luta com Vettel. E essa dinâmica promete ser tão interessante de acompanhar dentro das pistas quanto a já ferrenha luta do desenvolvimento fora delas.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Espanha

Hamilton3 a 2Bottas
Ricciardo3 a 2Verstappen
Massa5 a 0Stroll
Raikkonen0 a 5Vettel
Alonso5 a 0Vandoorne
Perez4 a 1Ocon
Kvyat2 a 3Sainz
Hulkenberg5 a 0Palmer
Wehrlein3 a 0Ericsson
Grosjean2 a 3Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s232

Verstappen x Ricciardo: 0s469

Massa x Stroll: 0s273

Vettel x Raikkonen: 0s239

Alonso x Vandoorne: 0s517

Perez x Ocon: 0s203

Sainz x Kvyat: 0s195

Hulkenberg x Palmer: 0s310

Magnussen x Grosjean: 0s120

Wehrlein x Ericsson: 0s005

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1 e a personalidade forte de Barcelona

Não, não é o GP de Barcelona. Ainda que a pista tenha um bom acesso via trem direto do centro da capital catalã e via autoestrada, Montmeló fica a 35km de distância e tem poucos atrativos. Como qualquer cidadezinha pacata do interior espanhol, fica absolutamente parada na hora da siesta e está longe de ter um ritmo frenético antes ou depois disso.

A região em si é bonita, bem mais verde que o centro e o sul da Espanha, com os Pirineus no fundo e a praia logo ali. Praia artificial, com areia ‘emprestada’ da África, mas cumpre bem seu papel. E é mais que bem-vinda nos dias quentes do Mediterrâneo. Sem praia e sem montanha, mas encantadora por sua herança arquitetônica, o destaque dos arredores desta parte da Catalunha fica por conta de Girona, que, inclusive, faz seu famoso festival de flores na mesma época do GP.

Porém, mesmo que a pista não seja efetivamente em Barcelona, ela está logo ali para ser desfrutada. Tanto, que já consegui encaixar até uma semifinal de Champions League (com direito a show de gala de Messi, contra o Bayern de Munique em 2015) com um final de semana de corrida.

Barcelona talvez seja a cidade de personalidade mais forte dentre as grandes da Europa, vibrante, ousada em suas formas e cores – e um pouco marrenta também, se é que uma cidade pode ser marrenta. Bacana demais para ser bacana, atrai tanto os jovens em busca de balada em noites que parecem não acabar nunca, como também não tão jovens sedentos por cultura, que está não apenas nos museus, mas sim nos prédios e em cada cantinho despretensioso dentro e fora da rota turística. De Fórmula 1, contudo, não espere ver muito durante o final de semana de corrida: os catalães gostam mesmo é das motos e mesmo a Alonsomania não foi tão forte por lá, muito em função da origem do piloto.

Os preços são bem convidativos para os padrões europeus, ainda que a cidade tenha fama de cara entre os espanhóis. E com um sistema de transporte bem integrado – turistas costumam se apegar ao metrô pela comodidade, mas o sistema de ônibus é muito bem sinalizado – completa o pacote.

Não foi  por acaso que, tendo a liberdade de me basear em qualquer lugar para a temporada europeia – ok, não qualquer lugar, porque quem cobre F-1 precisa de um bom aeroporto por perto! – o encantador bairro de Gracia, injustamente esquecido pelos turistas, que preferem se amontoar no gótico, foi o cantinho que chamei de meu em 2016. Hora de voltar para casa então!

RAIO-X

Preços: barato para o padrão europeu. Dá para gastar 350 reais por dia com hospedagem sem grandes economias. Brasileiros não precisam de visto.

Ingressos: os mais baratos para os três dias saem por 450 reais e chegam a 1.700.

Melhor época: faz bastante calor no verão e a época mais chuvosa é no final do ano. Isso faz com que maio/junho sejam os meses mais agradáveis.

Por que vale a pena ir no GP? É a chance de visitar uma cidade incrível, mesmo que falte um pouco de clima para a corrida em si

Desenvolvimento de motores não está liberado

O regulamento da Fórmula 1 é tão complicado que, muitas vezes, os jornalistas – e até mesmo os pilotos e representantes das equipes, durante as entrevistas – se sentem obrigados a simplificar as coisas e, com isso, a precisão fica prejudicada.

Como não é todo mundo que acompanha o esporte querendo saber de cada detalhe, isso acaba sendo um mal necessário por um lado e útil para não afugentar uma maioria que, por exemplo, não quer saber se Stoffel Vandoorne vai sofrer uma punição porque utilizou a quinta unidade de seu MGU-H. Para estas pessoas, que são a grande maioria, você pode falar que a punição é pela troca do motor, o que é impreciso, mas serve para explicar a perda de posições.

Dito isso, este post visa explicar por que a chamada liberação do desenvolvimento dos motores para esta temporada não é exatamente uma liberação do desenvolvimento dos motores.

O projeto inicial dos V6 turbo híbridos visava ao mesmo tempo colocar a F-1 na vanguarda da tecnologias exploradas pelas montadoras, a fim de atraí-las de volta (o que é questionável mas, neste caso, vamos simplificar!) com o menor custo possível. Por isso, foi determinada uma série de restrições ao desenvolvimento desde o início do projeto. As fichas de desenvolvimento só valeriam de uma temporada para a outra, ou seja, pela primeira regra, os motores ficariam congelados durante o campeonato (o que aconteceu em 2014) e as áreas de congelamento geral iriam aumentando até que se chegasse a praticamente um congelamento total em 2018.

O grande risco do regulamento inicial acabou se tornando realidade e a Mercedes fez um trabalho tão superior aos demais que, caso o plano seguisse adiante, a competitividade do campeonato ficaria seriamente prejudicada. Foi então que começaram a surgir as regras que relaxavam o desenvolvimento até chegarmos ao acordo costurado por Bernie Ecclestone para a “liberação” atual.

Dentro deste acordo, ficou acertado que caberia à FIA avaliar todos os motores após três etapas disputadas em 2017 e classificá-los usando como base o Circuito da Catalunha: se o rendimento entre o melhor e o pior não ficasse ao equivalente a uma margem de 0s3 em uma volta em Barcelona, seria liberada uma intervenção. Pois, bem. A FIA fez suas análises e apenas a Honda estaria fora disso – a Red Bull não concorda, mas isso é outra história, lembrando que, se a Renault não tivesse recebido permissão para furar o congelamento dos motores em 2008, é bem provável que eles não fossem tetracampeões hoje – mas o plano do que será feito para garantir a paridade prevista no acordo dos fornecedores ainda não foi fechado.

Confira quais são as restrições ao desenvolvimento dos motores:

  • O MGU-K não pode pesar menos de 7kg
  • O MGU-H não pode pesar menos de 4kg
  • Há limites, também, para o peso dos pistões (300g), bielas (300g) e virabrequim (5300g)
  • As dimensões dos rolamentos do virabrequim também foram limitadas
  • Taxa de compressão dos cilindros não pode ser maior que 18.0
  • Camadas de ouro, platina, rutênio, irídio e rénio não podem ser mais grossas do que 0s035mm.

Mas não é curioso que o acordo preveja paridade ao mesmo tempo em que o desenvolvimento é “liberado”? Na verdade, foram adotadas algumas restrições que acabam limitando o poder de crescimento de quem já tem um motor potente, ou seja, é difícil para Mercedes e Ferrari crescer muito daqui em diante.

Ao mesmo tempo, com a queda de cinco para quatro unidades de potência a serem usadas por ano – e ano que vem serão apenas três – o foco das fornecedoras agora é mais nas melhorias focando a confiabilidade de suas peças.

Mas o tal desenvolvimento liberado, isso não combina muito com a F-1.

A chave do GP da Espanha

O GP da Espanha está chegando e, com ele, tradicionalmente, a promessa de grandes atualizações nos carros. Porém, se há um tema que tem tirado o sono de pilotos e engenheiros é algo que não tem nada a ver com asas novas ou pontos de downforce: são os pneus, que têm se mostrado bem mais complicados do que se previa.

Com a nova construção usada a partir deste ano, eles se tornaram mais duráveis. Porém, ao mesmo tempo, como a degradação termal virou coisa do passado, isso também significa que as velhas técnicas para colocar ou tirar temperatura deles tiveram de ser revistas. Ou melhor, estão sendo revistas, pois, após quatro etapas, nenhuma equipe ou piloto pode dizer que compreende totalmente o comportamento dos cinco compostos.

Os mais complicados são o médio e o duro. E ambos serão usados neste final de semana em Barcelona.

Já vimos alguns exemplos fortes de efeitos de quedas bruscas de temperatura no pneu, como com Felipe Massa na China e Daniel Ricciardo no Bahrein, ambos tendo suas corridas destruídas nas voltas logo após um período de Safety Car. Porém, a dificuldade também é sentida fortemente na classificação e as equipes têm tentado entender qual a melhor maneira de preparar a volta rápida – e essa compreensão é a grande explicação para a Ferrari ter se dado bem na Rússia, por exemplo.

Tanto, que há quem diga que a resistência de Lewis Hamilton em participar dos testes dos pneus ao longo do ano passado já esteja custando caro ao inglês na luta direta com Sebastian Vettel, que fazia questão de estar na pista o máximo de tempo possível nas sessões conduzidas pela Pirelli. Como tais treinos foram feitos às escuras para as equipes, se há alguém além do fornecedor que ganhou muito com eles é o piloto.

Hamilton se mostra convicto de que as ausências de 2016 não foram importantes. “Acho testes até mais inúteis do que isso aqui”, disse o inglês durante sua entrevista coletiva em Sochi. Porém, sua equipe parece estar entre os times que mais sofrem com os pneus, ao lado da Renault, indo mais para o lado do superaquecimento. E a Force India é um exemplo de carro que pende para a demora em colocar os pneus na janela correta.

Além disso, o aquecimento não é uniforme e, na maioria das pistas, os dianteiros podem estar frios e os traseiros, até superaquecidos. O resultado disso é perda de estabilidade, fritadas, e queda de rendimento.

O que complica a situação é que, devido ao novo regulamento, as equipes têm de aprender sobre os pneus ao mesmo tempo em que descobrem como tirar mais desempenho dos próprios carros. Felipe Massa, por exemplo, acredita que há meio segundo em sua Williams apenas entendendo melhor o acerto e a forma ideal de trabalhar os pneus – e isso é muito mais que qualquer asa ou assoalho pode trazer.

Podcast Credencial e o efeito Bottas

Acredito que teve quem notou a ausência ao longo desta semana, mas a temporada teve a primeira baixa: meu pobre notebook. Mas isso não impediu que eu e Luis Fernando Ramos gravássemos a edição do Credencial pós GP da Rússia, claro! Enquanto vou me familiarizando com as novas posições dos acentos por aqui, fiquem com esse papo – que era para ser curtinho, mas acabou rendendo…

Só para lembrar, estamos sempre com programas novos a cada semana pós GP no Soundcloud e no TuneIn.

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Estratégia do GP da Rússia: fora da caixinha

Em 2014, Nico Rosberg errou completamente a freada da curva 2 na primeira volta, acabou com seus pneus, trocou para um composto mais duro e foi até o final sem grandes problemas de degradação. Há outros fatores envolvidos nesta equação, mas não é tão difícil entender, portanto, como a F-1 assistiu a sua quarta prova na história sem uma ultrapassagem sequer em Sochi no último final de semana.

Mais do que isso, a prova acabou sem grandes chances também para os estrategistas. O pneu macio era duro demais para Sochi mesmo com o inesperado calor do domingo, e todos os carros conseguiriam fazer uma parada tranquilamente. Além disso, o fato da grande maioria largar com os ultramacios diminuía em muito a chance de undercuts, devido à dificuldade de aquecimento do pneu supermacio somada à  falta de degradação, conjunto que tirava a vantagem de quem antecipava a troca.

Mas não foi só pelos pneus que faltou emoção à corrida de Sochi: trata-se de um circuito em que é preciso economizar mais combustível – ainda mais neste ano, em que os pilotos ficam por mais tempo com o pé embaixo – e, dependendo do carro, há chance de superaquecimento quando se anda muito próximo de um rival, muito em função dos muros próximos e freadas fortes, como Lewis Hamilton descobriu logo de cara.

Ou seja, era todo um cenário para que a largada fosse fundamental, e Valtteri Bottas aproveitou isso com maestria. Aliás, o finlandês tem feito boas largadas em um ano no qual os próprios pilotos dizem que é preciso muito mais sensibilidade na embreagem e esse certamente será um fator importante na temporada, especialmente pois vimos novamente que a disputa entre Ferrari e Mercedes foi decidida nos detalhes.

Mas os detalhes desta vez foram em relação ao acerto e à consequente interação com os compostos – é interessante como a Ferrari conseguiu explorar melhor o ultramacio – fazendo apenas uma volta de aquecimento e ainda assim sendo mais rápida que a Mercedes na classificação – como tendo um ritmo superior com o supermacio na prova, permitindo que Vettel tentasse pressionar Bottas no final.

Porém, em termos estratégicos, não havia muito o que a Ferrari poderia ter feito. Primeiro porque o stint inicial de Bottas foi excelente, não permitindo que Vettel se aproximasse de maneira perigosa – e, nesse caso, o único perigo seria aproveitar-se de algum momento em que o finlandês encontrasse tráfego para tentar antecipar a parada. No final das contas, tentar ficar mais tempo na pista era a única saída, mas ainda assim a chance de ser suficiente para o alemão recuperar a posição era mínima.

Enquanto os líderes fizeram marcação homem a homem em Sochi, mais uma vez, a estrategista da Sauber Ruth Buscombe, que já brilhou na Haas ano passado, pensou fora da caixinha e colocou ambos os carros para começar com os supermacios, aproveitando tanto o ritmo com o ultramacio nas voltas finais, em que os carros ficam mais espalhados, mas principalmente esperando um Safety Car no começo, o que já virou tradição em Sochi devido à complicada segunda curva. Não deu outra e os pilotos ganharam um pit stop de graça. As estratégias da Sauber, aliás, têm estado entre as melhores desde o início do ano. Porém, sem ritmo, não há milagre que ninguém do pitwall – ou atrás do volante – possa fazer.

Drops do GP da Rússia

  • A Rússia é dos países que pagam mais caro para receber a Fórmula 1, algo em torno dos 40 milhões de dólares por ano. Certa vez, inclusive, um colega russo me disse que, por aqui, não se sabe valorizar dinheiro. Só se pergunta: ‘Quanto preciso pagar para ter isso?’ e o negócio está feito. Mas parece que o presidente Putin começou a sentir que a conta está salgada demais.
  • Putin teria avisado apenas em fevereiro que o governo russo não colocaria mais a mão no bolso pelo GP, ou seja, os organizadores locais tinham que se virar. E uma das soluções foi cancelar todas as reservas de um hotel bem localizado e grande por ter herdado os prédios da vila olímpica e aumentar os preços de última hora.
  • Passando por um dos dois controles de raio-x para entrar no circuito, algo que está longe de ser comum ao longo do campeonato, lembrei de uma história boa de Sochi: um fotógrafo tinha há meses uma rede chamada CIA Spy em seu notebook e sequer lembrou disso quando foi à Rússia. Acabou interrogado por agentes, que ficaram andando pela sala de imprensa por dois dias rastreando de onde vinha o sinal.https://www.instagram.com/p/BTWyf0lgXhM/?taken-by=massafelipe19
  • Sochi é uma das corridas em que os pilotos que moram em Mônaco alugam um avião, devido às conexões complicadas do aeroporto de Nice à cidade russa. Aliás, um dos motivos que fizeram os pilotos lamentarem a aposentadoria de Rosberg foi porque era ele quem organizava esses voos. Mas isso acabou não sendo um problema.
  • No voo lá estava Max Verstappen com sua inseparável maleta com o PlayStation, o que animou a viagem de Daniel Ricciardo e Felipe Massa. Estaria o trio brincando com simuladores de corrida? Nada disso: a favorito é Fifa.
  • Kimi Raikkonen apareceu com uma nova tatuagem no antebraço em Sochi, com o rosto de seu filho. Ficou no mínimo uma composição interessante com o antigo tribal com a palavra Iceman que ele tem no mesmo braço. Sinal dos tempos?
  • E Alonso, sempre ele: os próprios pilotos estão notando como o espanhol não vem fazendo muito esforço para terminar as corridas nesta temporada. As ‘técnicas avançadas’ de autossabotagem vão desde destruir o assoalho do carro de propósito jogando a McLaren nas zebras até ignorar os pedidos de economizar combustível. Haja 500 Milhas para acalmar a fera.

(O fim das) verdades absolutas

No final das contas, a Mercedes venceu o GP da Rússia pela quarta vez seguida e segue reinando em um circuito no qual deitou e rolou nos últimos anos. Mas foi por pontos, em mais um sinal forte de que a Ferrari não está para brincadeira em 2017.

Talvez o mais importante tenha sido a demonstração de força da Scuderia na classificação, ao fechar a primeira fila. E a boa notícia é que Kimi Raikkonen se sentiu melhor com o carro e agora parece capaz de somar os pontos importantes para o time buscar seu primeiro título de construtores desde 2008. Sabe-se que o modo de classificação do motor usado pela Mercedes é um dos pontos mais fortes do time desde a introdução dos motores V6 turbo híbridos, então uma derrota no sábado, mesmo que por margem pequena, é bastante significativa. Para se ter uma ideia, é apenas a terceira vez que os motores Mercedes são batidos em classificação desde 2014 – e a primeira em um circuito de potência.  

Na corrida, aconteceu uma tendência interessante e ao mesmo tempo difícil de explicar: com 40ºC de temperatura de pista, a Mercedes – pelo menos com Bottas, pois Hamilton esteve perdido – foi melhor com os ultramacios, enquanto a Ferrari se comportou melhor com os supermacios. Acreditava-se que o segredo da Scuderia seria tratar melhor dos compostos mais macios, especialmente no calor, mas é mais uma verdade absoluta, junto da superioridade da Mercedes em classificação, que cai por terra em 2017.

A janela de temperatura menor que nos últimos anos é diretamente relacionada a estas duas verdades, e há quem acredite que entender os compostos e suas particularidades será até mais importante que a corrida pelo desenvolvimento.

Sochi mostrou, ainda, como os pneus são importantes para o espetáculo. Quase sem degradação devido ao asfalto liso, os pilotos puderam forçar até o final e isso tem seu lado positivo, pois aumenta a chance de erros e tem feito com que os melhores se sobressaiam. Porém, ao mesmo tempo, se houve alguma ultrapassagem real na quarta etapa do campeonato, ninguém viu.

Verdades à parte, é impossível não salientar o progresso de Valtteri Bottas. Até mesmo Lewis Hamilton já identificou em Sochi que o finlandês “trabalha muito duro” e o ex-Williams já tem médias superiores no embate com o inglês que Nico Rosberg tinha, pelo menos em classificação. É claro que não se pode esperar que Valtteri supere Lewis em todas as corridas daqui em diante, até porque o inglês teve um final de semana bem atípico, em que não se encontrou com o carro em momento algum, mas a curva ascendente do finlandês nestas quatro etapas indica que o tricampeão terá mais do que Vettel com quem se preocupar.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Rússia

Hamilton2 a 2Bottas
Ricciardo3 a 1Verstappen
Massa4 a 0Stroll
Raikkonen0 a 4Vettel
Alonso4 a 0Vandoorne
Perez3 a 1Ocon
Kvyat2 a 2Sainz
Hulkenberg4 a 0Palmer
Wehrlein2 a 0Ericsson
Grosjean2 a 2Magnussen

Diferenças de hoje:

Bottas x Hamilton: 0s478

Ricciardo x Verstappen: 0s256

Massa x Stroll: 0s915

Vettel x Raikkonen: 0s059

Alonso x Vandoorne: 0s717

Ocon x Perez: 0s093

Sainz x Kvyat: 0s020

Hulkenberg x Palmer: 0s955

Magnussen x Grosjean: 1s212

Wehrlein x Ericsson: 0s175

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1: A Riviera dos russos

Pegue a Riviera Francesa e a adapte à Rússia. Essa talvez seja a melhor definição para o lugar que sedia o GP da Rússia de Fórmula 1 neste final de semana. Digo lugar porque a cidade do circuito na verdade é Adler, do lado de Sochi, palco dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 e hoje uma cidade com ares de fantasma, com prédios sem uso após a competição.

Adler faz parte da tal riviera – e realmente os russos têm tentado emplacar esse título, ainda que seja uma comparação um tanto injusta – mas é Sochi o destino mais famoso da região. Alguns elementos estão lá: uma orla cheia de restaurantes, baladas que funcionam especialmente no verão, um pôr do sol bonito no Mar Negro e até as águas são quentes, especialmente para nós, acostumados ao oceano. O clima de praia só é atrapalhado pela falta de… praias, uma vez que o terreno tem pedras. Tanto, que durante o verão é comum os russos importarem areia de outros lugares.

Pode não parecer um destino dos mais atrativos, mas o lugar fica lotado no auge do verão, em julho e agosto, basicamente por ser a melhor opção dentro do vasto território russo. E, se a praia não agrada, nos arredores existem várias trilhas com cachoeiras, um famoso vale chamado Agura, de onde há quem diga que é possível enxergar a Turquia, lá do outro lado do Mar Negro, se o tempo ajudar – e, de fato, a capital turca é a cidade mais famosa nas proximidades, ainda que o Mar Negro ainda tenha a búlgara Varna e a ucraniana Odessa como destinos turísticos conhecidos (ou pelo menos para aqueles que, como eu, já se aventuraram no ‘turismo europeu barato e com cara de tudo menos de Europa’). Os picos de Krasnaya Polyana, que também receberam os Jogos de Inverno, são outra atração que fica nas proximidades e é uma boa pedida para quem gosta de curtir a natureza – inclusive no inverno, um dos mais amenos da Rússia, em que o lugar se torna uma pista de esqui.

Se nada disso parece muito a Rússia da qual nos acostumamos a ouvir falar, há pelo menos uma foto que você pode tirar para provar que está por lá: Sochi preserva um mural de mosaico gigante de Lenin, imponente, entre árvores e arbustos no meio de uma praça, que é considerado um dos marcos da cidade.

Agora, se a ideia é casar Sochi com uma viagem a outros destinos do país – como, aliás, fiz neste ano – é necessária uma dose de preparação, pois as distâncias são bastante grandes. A cidade está a mais de 1600km de Moscou, ou a 2h20 de voo. E de lá a São Petersburgo são mais 4h de trem rápido. Mas os experientes em território russo dizem que a melhor parte do país do ponto de vista turístico é a quase 5000km (!) dali, na região que vai do Lago Baikal, considerado o mais fundo do mundo, à cidade de Novosibirsk, ao norte da fronteira com a Mongólia. Quem se aventura?

 

RAIO-X

Preços: barato. Cerca de 200 reais por dia incluindo hospedagem. E brasileiros não precisam de visto.

Ingressos: os mais baratos para os três dias saem por 300 reais e chegam a 1.650.

Melhor época: No verão, quando as temperaturas raramente passam dos 25ºC e chove pouco. Na época do GP a temperatura é mais amena.

Por que vale a pena para ir ao GP? Não é um destino para iniciantes, tudo é um pouco complicado. Mas a combinação vodca e um lugar diferente anima?

Por dentro da F-1: Os limites das disputas por posição

Depois de muito chororô e até de um pódio que demorou horas para ser confirmado – na verdade, mudado – no México ano passado, a Fórmula 1 promete aliviar as punições aos pilotos nesta temporada. Porém, ao alterar o texto da regra, também abre a porta para ainda mais subjetividade em seu cumprimento.

Antes de sair reclamando por aí que fulano não foi punido ou que há exagero em alguma penalização, é bom entender o que diz o texto da regra:

REGRAS DE PILOTAGEM

  • Artigo 27.1 do regulamento esportivo: O piloto deve pilotar o carro sozinho e sem ajudas.
  • Artigo 27.2 do regulamento esportivo: Os pilotos devem observar as prescrições do código a respeito do comportamento nos circuitos o tempo todo.
  • Artigo 27.3 do regulamento esportivo: Os pilotos devem se esforçar razoavelmente para usar a pista o tempo todo e não podem sair dela deliberadamente e sem uma justificativa.
  • É considerado que o piloto deixou a pista se nenhuma parte de seu carro continua em contato com ela e, para que não haja dúvida, as linhas brancas que definem a pista são consideradas parte delas, mas as zebras, não.
  • Se um carro deixar a pista, o piloto deve voltar. Contudo, isso só pode ser feito quando for seguro e sem que ganhe-se uma vantagem duradoura. Cabe ao diretor de pista determinar se o piloto terá a oportunidade de devolver qualquer vantagem que tenha tido deixando a pista.
  • Artigo 27.4 do regulamento esportivo: “Em momento algum um carro pode ser pilotado de forma desnecessariamente lenta, errática ou de maneira que possa ser potencialmente perigosa para outros pilotos ou qualquer outra pessoa.”
  • Artigo 38.2 do regulamento esportivo: “A não ser que seja claro para os comissários que um piloto foi totalmente ou predominantemente culpado por um incidente, nenhuma punição deve ser dada.”
  • Um ponto muito importante e que sempre traz confusão é a tal “vantagem duradoura”. Muitos pilotos escaparam de punição recentemente por conta disso, tirando um pouco o pé depois de passarem reto em chicanes. E eu poderia citar aqui Hamilton no México, mas ali o inglês escapou mais por ser a primeira curva da corrida, em que os comissários costumam fazer vista grossa. Sim, subjetividades!

A tal “vantagem duradoura” continua valendo, mas a tentativa de colocar na regra limites mais literais para a defesa de posição, o que acabou ficando conhecido como “regra Verstappen”, acabou:

O que SAIU da regra neste ano, a chamada regra Verstappen:

Artigo 27.5 do regulamento esportivo: “Está proibida qualquer manobra a fim de impedir outros pilotos, como qualquer mudança anormal de direção. Qualquer exceção às manobras previstas no artigo 27.6, qualquer mudança de direção em freada que resulte na necessidade do outro carro ter uma ação evasiva será considerada anormal e deverá ser punida.”

O fim da chamada regra Verstappen demonstra que a FIA entende que foi um pouco longe demais em sua abordagem “preto no branco” das regras. Há alguns anos, os textos eram menos específicos e havia mais interpretação. Porém, ao longo do tempo, mais detalhes foram sendo colocados nas regras e elas passaram a ser aplicadas de uma maneira mais lógica.

Isso fazia sentido no papel, pois buscava eliminar a subjetividade das punições, mas não foi o que aconteceu na prática. Pesos e medidas diferentes continuaram sendo aplicados e as regras mais descritivas só serviram para aumentar o número de investigações e punições.

Voltando atrás, a FIA dá espaço novamente para subjetividades e reconhece que é muito difícil escrever um texto que compreenda todos os tipos de manobras em diversas situações e circuitos distintos.

Mas isso não quer dizer que a choradeira vai acabar. Ao explicar o afrouxamento das regras, Whiting disse:

“Antes, sempre que um piloto se movia na zona de freada, era investigado. Agora, temos uma regra simples que diz que, efetivamente, se um piloto faz algum movimento errático, diminui demais a velocidade ou se comporta de uma maneira que possa colocar o rival em risco, ele será investigado. A regra é muito mais ampla”.

Ampla e interpretativa. Ou seja, não vai demorar para alguém – o próprio Verstappen é um forte candidato – testar até onde vai essa nova leniência dos comissários.

Olhar estrangeiro: por que os finlandeses são tão bons?

Vou trazer nesta coluna ao longo do ano papos que tive no paddock explorando a visão de profissionais de outros países sobre diferentes aspectos da F-1. Espero que vocês curtam!

Quatro títulos mundiais, quatro vencedores de GPs e agora cinco donos de poles positions. Entre eles, 46 vitórias, 49 poles, 75 voltas mais rápidas e 170 pódios. A média é alta para um país que, desde sua primeira participação em 1974, teve apenas nove pilotos no total, vindos de uma população de 5,5 milhões de pessoas. Mas, afinal, por que os finlandeses são tão rápidos?

Há várias teorias. Heikki Kovalainen certa vez aludiu a uma espécie de tradição de guiar carros o mais rápido possível como regra geral – e começar cedo, nas estradas quase sempre desertas ou por caminhos na zona rural. E há quem diga que é tudo porque tais estradas estão quase sempre escorregadias por conta da neve e da chuva.

Mas também é verdade que o kart é bem mais popular na Finlândia do que em outros países. E não o kart de competição, mas uma brincadeira para as crianças. Para quem quiser levar a prática adiante, existe uma estrutura não muito cara para a realidade local, permitindo que famílias entusiastas das corridas, como era a família Raikkonen, com o pai e dois filhos correndo com os próprios recursos, consigam se manter competindo.

De quantidade se tira qualidade e o fato do kartismo estar tão presente já seria um motivo forte para responder à questão. Ainda mais se tratando de um país que está na Europa – o que diminui os custos de uma carreira nos carros de fórmula em comparação com o Brasil, por exemplo – e da realidade econômica favorável, com um PIB per capita de 50.000/ano. Além disso, trata-se de uma economia bem distribuída, em que a diferença entre os mais ricos e mais pobres é menor do que em outros lugares.

Porém, há quem refute tudo isso: das ruas escorregadias à situação cultural e econômica favorável. Conversei longamente com Heikki Kulta, principal referência do jornalismo finlandês de Fórmula 1 e que está na categoria desde o início dos anos 1990, tendo feito seu nome por ser ao grande especialista do país na época de Mika Hakkinen. O simpático Heikki tinha outra explicação para o sucesso dos pilotos de seu país: a resignação.

O jornalista contou que J.J. Lehto certa vez ridicularizou a teoria de que as estradas escorregadias geravam grandes pilotos. “Se fosse assim, minha vó seria a melhor piloto do mundo!”. Andar de carro comum no gelo, de fato, não faz você ser melhor em um fórmula em condições normais. Mas, sim, faz você ser melhor conduzindo um carro no gelo!

Seria o jeito de pensar finlandês que os tornaria tão bons no automobilismo. Nas várias vezes em que abordou o assunto com gente do meio, Heikki conta que teve respostas similares. “Desde as categorias de base, os engenheiros falam que, quando algo de errado acontece com pilotos de outros países, eles geralmente culpam o carro, arrumam desculpas. Os finlandeses apenas ouvem o retorno da equipe e tentam melhorar.”

Eles mesmos se consideram perseverantes, perfeccionistas e egoístas, trio de características que explica a frieza que passam de fora, mas que acaba sendo importantíssimo no esporte de alto rendimento (faço um parênteses aqui para relembrar um momento memorável da coletiva do sábado no Bahrein, quando Vettel pergunta a Bottas se há tradução para “exciting” no finlandês e a resposta é “não exatamente”). Junte-se a isso a fome de aprendizado e a atenção aos detalhes e dá para entender melhor porque um país cuja população é mais de 36 vezes menor do que a do Brasil é o único que tem dois pilotos entre as melhores equipes do grid.

Podcast Credencial – GP do Bahrein

O Credencial sobre o GP do Bahrein – e já projetando a corrida da Rússia, que será realizada dia 30 de abril – tem tudo sobre o duelo Ferrari x Mercedes, a tal polêmica entre Verstappen e Massa e muito mais. Confira mais esse papo meu com o companheiro de transmissão no Grupo Bandeirantes, Luis Fernando Ramos.

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Estratégia do GP do Bahrein: entre erros e ousadia

De um lado, uma aposta inicial que poderia ter dado muito errado, mas que foi inicialmente salva por falhas do adversário e depois por um ritmo superior. Do outro, uma equipe que teve de rever algumas vezes seus planos durante a prova e, mesmo assim, chegou em segundo e terceiro lugares. O GP do Bahrein levou Mercedes e Ferrari ao limite. E nos deu uma corrida cheia de alternativas estratégicas – e comprovando a teoria de que, quando a Pirelli conseguir levar compostos que se degradam mais, a tendência é a corrida ser boa.

Na segunda corrida disputada com clima mais quente e na qual foram usados os pneus supermacios, a Ferrari levou, muito em função de sua velocidade. No entanto, de pouco adianta esse ritmo superior se houver uma Mercedes na frente, atrapalhando o ritmo, como Vettel descobriu na primeira parte da prova. Sem conseguir ultrapassar muito em função da velocidade de reta superior da Mercedes, a Scuderia teve de ousar na estratégia, chamando o alemão cedo para sua primeira parada, o que só aconteceu porque o time estava seguro de que a degradação seria pior no domingo, mesmo com as temperaturas mais baixas, e seriam necessárias duas paradas.

O pior cenário possível quando se faz esse tipo de aposta aconteceu, com o Safety Car logo depois, que em teoria daria um pit stop “de graça” para a Mercedes. As paradas, contudo, foram lentas: um problema no equipamento não apenas atrasou o pit de Bottas, como também significou que a pressão de seus pneus estaria mais alta do que o desejável no segundo stint, atrapalhando seu ritmo e causando uma reação em cadeia.

Logo atrás, Hamilton exagerou na hora de desacelerar para entrar no pitlane, a fim de não ficar muito tempo esperando a parada do companheiro, e não só foi punido por isso como fez uma parada bastante lenta – mais até que aquela em que pagaria a punição de 5s.

Isso anulou o efeito benéfico que o Safety Car poderia ter na estratégia da Mercedes, àquela altura comprometida pela aposta ferrarista, e Vettel tomou a ponta. Com ar limpo, pôde imprimir seu ritmo em um segundo stint que acabou sendo decisivo para sua vitória.

A essa altura, a Mercedes dividiu suas estratégias e ficou claro que o carro não funcionava bem com os supermacios. Com isso, Hamilton sentia estar mais rápido que Bottas e passou a pedir uma interferência da equipe. Foram 10 voltas até que isso acontecesse, o que gerou uma perda de 4s para o inglês.

Já sabendo que a Mercedes estava mais forte com os macios, a equipe teve de rever a estratégia de Lewis no final, usando um jogo usado. Mesmo assim, seu ritmo foi forte e ele conseguiu tirar 13s da vantagem de Vettel nas últimas voltas.

Então há quem possa fazer as contas e pensar: pit stop lento no SC + 5s de punição + 4s perdidos atrás de Bottas + 13s descontados no final significam que Hamilton ganharia fácil? Não é o que as últimas seis voltas de Vettel sugerem: caso necessário, o alemão tinha ritmo para brigar.

Ao mesmo tempo, isso significa que a Ferrari tem melhor ritmo de corrida e vai ganhar todas? Também não é assim. Por um lado, o que foi visto no Bahrein e em certa medida na Austrália tem a ver com a temperatura do asfalto em conjunto com a utilização dos supermacios, que acabam mais rápido nas Mercedes. Mas o que parece ser o mais importante nesta disputa, que no momento é bastante igualada, é a posição de pista. E, pelo menos pelo que vimos até aqui, a Mercedes vai lutar por ela por meio da vantagem que ainda tem em classificação, enquanto a Ferrari vai contra-atacar com ousadia aos domingos.

Drops do GP do Bahrein

  • A quarta-feira antes de um GP, especialmente nas dobradinhas (corridas em finais de semana seguidos) são um dia tradicional de deslocamento para os jornalistas e uma chance de dar uma respirada depois de muitos dias de trabalho intenso. Então dá para entender por que a frase “Alonso arruinou minha quarta-feira” foi repetida algumas vezes.
  • Por um bom motivo, claro. A notícia é incrível. Mas imagine o ânimo de um competente colega que tinha a história quase toda apurada, sentindo-se quase pronto para dar o furo. Na quarta, a McLaren soltou um release para alguns membros da mídia inglesa solicitando um embargo, prática comum no jornalismo: assim todos dão a notícia na mesma hora. Mas um jornalista da BBC quebrou o acordo de cavalheiros e deu a nota antes de todos – e antes também que ele mesmo embarcasse para o Bahrein e perdesse o prazo do embargo.
  • Mas o paddock não é cego e não é a toa que o primeiro colega em questão, aquele que tinha as informações que ninguém mais tinha, Chris Medland, está ganhando espaço.
  • Muitos perguntaram sobre o sumiço de Felipe Nasr. Ao que parece, quem cuida de sua carreira tem cometido os mesmos erros que o tiraram do grid da Fórmula 1 neste ano, perdendo o timing de algumas oportunidades, como na LMP2. Antes disso, também houve negociações com a Fórmula E. Mas, por enquanto, nada.
  • A fase de Bottas parecia que iria de mal a pior na quinta-feira. Enquanto falava com os jornalistas sobre o erro na China, sua coletiva teve várias interrupções. Livio Oricchio entra, liga seu gravador e uma mensagem inesperada faz todos caírem na risada: “Seu nível de bateria está… alto”. Depois, mais gargalhadas vêm de dentro do escritório da equipe. Um engenheiro entra achando que a sala está vazia e leva um susto. Ninguém ignora a sequência, mas Bottas se mantém impassível. 
  • Dizem que os finlandeses não expressam muito suas emoções, mas o contraste do semblante de Bottas entre o sábado e o domingo foi marcante.
  • No Bahrein, a organização oferece uma grande área de refeições, algo raro na temporada. E é coletivo, para todas as categorias, então não é raro almoçar ao lado de um piloto com o macacão na cintura do seu lado. Mas não de F-1, claro.
  • Falando em categorias de acesso, achando que estava fora de qualquer competição, Coletti descuidou da dieta e programou férias em todos os finais de semana de corrida porque não suportaria ver as provas de fora. Mas fechou por mais uma temporada na F-2. O que mais doeu foi deixar a folga em Barbados com a namorada, marcada para coincidir com o GP de Mônaco.
  • E, para finalizar, fica uma dica para Fernando Alonso: sabe como começou a campanha de Alex Rossi para estrear com vitória nas 500 Milhas de Indianápolis? Com um porre homérico durante o GP da Rússia, próxima etapa do campeonato da Fórmula 1.

Vitória real

Mais de uma equipe com chance real de vencer, lutas pelas primeiras posições, surpresas. O GP do Bahrein teve um pouco de tudo o que os fãs da Fórmula 1 vinham pedindo. E isso em uma pista que não está entre as que permitem mais ultrapassagens, ainda que tenha sido palco de algumas provas interessantes nos últimos anos.

Isso quer dizer que vai ser sempre assim? Infelizmente, não. Além do fator pista – e o calendário tem na sequência três delas em que as corridas não costumam ser das mais animadas (na Rússia pelo asfalto liso demais, na Espanha pelas curvas de alta e em Mônaco porque não há espaço para muita coisa) – o ritmo lento de Valtteri Bottas no início da prova não só deixou o pelotão mais unido, como também fez com que cada um escolhesse um caminho em termos de estratégia. E como vimos várias vezes nos últimos anos, a variedade de escolhas estratégicas sempre gera bons pegas, porque coloca pilotos com compostos diferentes ou com pneus com mais ou menos voltas dadas.

Porém, independentemente de táticas, o que chamou a atenção foi o ritmo da Ferrari. E nem precisou fazer tanto calor assim. Nos treinos livres, a pista chegou facilmente aos 40ºC, mas na corrida não passou de 30ºC. Perguntei a Hamilton se isso preocupava, pois o calor nem foi tão forte e Vettel claramente teve ritmo superior, e ele se esquivou. “30ºC também é um asfalto quente”. De fato, é, mas é nessa faixa que a maioria das provas do ano serão disputadas. E não com a temperatura da China.

Um tanto perdida com a estratégia, como costuma ser de praxe quando é atacada, a Mercedes ainda teve o problema das pressões erradas no pneu de Bottas no segundo stint, obrigando a uma ordem de equipe que, olhando em retrospecto – e é sempre mais fácil tirar qualquer conclusão depois que a corrida acaba – se tivesse vindo um pouco antes, talvez desse chances de Hamilton lutar, de fato, pela vitória.

Esse talvez tem nome e sobrenome. Durante toda a prova, Vettel pareceu ter um ritmo um pouco melhor que as Mercedes, e isso com ambos os compostos. Depois da corrida da China, era visível a satisfação do piloto alemão, mesmo com o segundo lugar. O motivo é simples: se em Xangai, onde clima e pista teoricamente não favoreciam, ele conseguiu andar próximo de Hamilton, isso só pode querer dizer que a Ferrari está na briga.

Não vai demorar muito para todo mundo focar no GP da Espanha, onde devem chegar os primeiros grandes pacotes aerodinâmicos das equipes. E é aí que um campeonato decisivo, o do desenvolvimento, vai começar de vez.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP do Bahrein

Hamilton2 a 1Bottas
Ricciardo2 a 1Verstappen
Massa3 a 0Stroll
Raikkonen0 a 3Vettel
Alonso3 a 0Vandoorne
Perez2 a 1Ocon
Kvyat2 a 1Sainz
Hulkenberg3 a 0Palmer
Wehrlein1 a 0Ericsson
Grosjean2 a 1Magnussen

Diferenças de hoje:

Bottas x Hamilton: 0s023

Ricciardo x Verstappen: 0s142

Massa x Stroll: 0s491

Vettel x Raikkonen: 0s320

Alonso x Vandoorne: 0s

Ocon x Perez: 0s554

Kvyat x Sainz: 0s587

Hulkenberg x Palmer: 1s232

Grosjean x Magnussen: 1s233

Wehrlein x Ericsson: 0s548

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1: E o país que a F-1 colocou no mapa

Aviso: Esta foto oficial está bem tratada. O Bahrein é bem mais bege que isso

Bandeiras vermelhas e brancas minuciosamente distribuídas para formar um ‘jardim’ no deserto. Aposto que é esta a imagem que muitos têm ao lembrar do primeiro GP que a Fórmula 1 disputou em meio à areia.

Lá, a categoria é recebida com muita hospitalidade pelo lado poderoso do país, uma vez que a prova é a grande chance de uma nação de pouco menos de 1.3 milhões de habitantes e 765 km2 aparecer para o mundo. Ao mesmo tempo, foi a oportunidade nos últimos anos da maioria xiita mostrar seu descontentamento com um reinado focado nos mais ricos e com pouca liberdade. Apesar da situação ter piorado em 2011, provocando inclusive o cancelamento da prova, relatórios de entidades de direitos humanos continuam apontando a constante tortura e morte dos opositores.

Em que pese os problemas sociais, o Bahrein tem grande preocupação em encontrar atividades econômicas lucrativas fora do petróleo e, por conta disso, foi uma das primeiras nações da região a investir no turismo. Dizem eles que estão na terra do Jardim do Éden, mas o fato é que trata-se de uma ilha habitada desde pelo menos 3000 AC, sob o nome de civilização Dilmun. Há resquícios destes tempos no Museu Nacional, mas talvez o mais curioso marco para nós brasileiros seja o Forte, considerado patrimônio da Unesco e herança da ocupação portuguesa que durou 80 anos no século XVI.

Os tradicionais mercados árabes, em que a negociação é cultivada como uma arte, não poderiam faltar, e nos últimos anos a cozinha – internacional, e não a barenita – tem ganhado espaço junto com a chegada de estrangeiros. Nada exatamente que empolgue tanto assim os turistas. A não ser, é claro, os fãs de um alaranjado e gigantesco pôr do sol no deserto.

O que esperar

Preços: razoáveis. A hospedagem pressiona um pouco o valor, mas o gasto fica em torno de 400 reais por dia incluindo acomodação. Brasileiros precisam de visto.

Ingressos: os mais baratos para os três dias saem por 560 reais e chegam a 1.300.

Melhor época: melhor não se aventurar no deserto no verão, certo? O melhor período para visitar o país é no inverno, de dezembro a março. No GP, em abril, a média das máximas ainda não é tão alta, chegando a 30ºC.

Por que vale a pena ir no GP? Se estiver afim de uma Abu Dhabi sem grife.

Por dentro da F-1: Em busca do pit stop perfeito

“Nós estávamos o ano inteiro ao lado do pit da Red Bull, e eles vibram bastante quando fazem uma boa parada. Ficávamos ouvindo e querendo fazer melhor”. O testemunho de um dos membros do time campeão absoluto dos pit stops ano passado, a Williams, dá a medida do nível de competitividade e entrega exigidos naqueles 3s de ação.

O trabalho feito pela equipe inglesa para passar de uma das piores equipes de box para a campeã mostra bem o esforço necessário para estabelecer o novo recorde, com o 1s92 na parada de Felipe Massa no GP de Baku em 2016. Absolutamente todos os procedimentos, preparação física e especialmente equipamentos usados para soltar e prender as rodas foram extensamente revisados.

Quando vemos uma parada ruim, uma porca que não solta ou algo do tipo, o primeiro reflexo é implicar o fator humano, mas muitas vezes a explicação é bem mais complexa, como vimos naquele caso do ‘sumiço’ dos pneus de Ricciardo em Mônaco: houve uma mudança de planos de última hora que não levou em consideração o procedimento mais lento dos boxes no Principado e o composto desejado não chegou a tempo ao pitlane.

Quanto mais se estuda sobre esse procedimento tão rápido, mais se percebe o número de coisas que podem dar errado e o altíssimo nível em que tudo é feito, fruto de horas de pesquisa no desenvolvimento de equipamentos e no treino dos mecânicos que, apenas durante os finais de semana de corrida, fazendo centenas de treinos. Principalmente após o fim do reabastecimento, em 2010, o pit stop se tornou uma verdadeira obsessão das equipes, que filmam o procedimento em detalhes – e espionam as soluções dos rivais.

Antes do GP

O trabalho dos pit stops durante um GP começa bem antes da corrida, com a instalação de pequenas placas no pitlane com as cores e nomes de cada equipe. Elas estão bem antes dos boxes em si e servem para que o mecânico responsável por liberar o carro saiba se há espaço para o piloto voltar sem ser punido por um unsafe release, quando os comissários entendem que ele retornou muito próximo de um rival. Se este rival estiver entre a placa e o box do carro parado, o mecânico espera até que ele passe.

Vários ensaios são realizados ao longo do final de semana, com as equipes instalando suas marcações para orientar os mecânicos e, principalmente, os pilotos. Mas isso ocorre com o carro desligado. É durante os treinos livres que os ensaios continuam com os pilotos emborrachando a área de pit nesse processo.

Os mecânicos

Na hora da verdade, cada um dos, geralmente, 18 mecânicos tem uma função específica. O carro é guiado para o box certo pelo mecânico que fica na sua frente e será o responsável por liberá-lo.

Ao parar, o carro é levantado primeiro pela frente e depois pela traseira, uma vez que o mecânico com o macaco tem de correr para sua posição após o carro parar. Três mecânicos estão envolvidos na troca de cada pneu (um tira, um coloca e o outro controla a pistola). Os demais mecânicos fazem ajustes na asa, limpam as entradas de ar, a viseira do piloto ou, como tem sido muito comum, seguram o carro pelo santantônio para que ele balance menos, aumentando a precisão dos mecânicos.

Há, ainda, o pessoal do plano B: sempre há alguém com outro macaco por perto caso o principal quebre e os responsáveis por ligar o carro, uma vez que os F-1 não possuem ignição.

Com todos os pneus trocados, o responsável pelo sinal luminoso dá o ok e lá se foram… míseros 2s. Hoje em dia, uma parada acima de 2s5 já não deixa os times campeões no quesito satisfeitos.

O equipamento

Uma fonte constante de atenção entre as equipes é nas pistolas e porcas. A busca por precisão e rapidez na retirada e colocação dos pneus é fundamental para o tempo total de pit stop, e os últimos anos têm sido palco de muitas inovações neste sentido.

A grande chave é minimizar ao máximo e tempo em que a pistola precisa estar acionada para ambos os processos, o que fez com que as porcas se tornassem objetos bastante diferentes do que vemos nos carros de rua. Tanto, que hoje a da Ferrari precisa de menos de três voltas para estar presa, tudo em função de seu desenho, em conjunto com o da pistola em si. Não é de se estranhar, portanto, que cada porca seja utilizada apenas uma vez, para garantir sua confiabilidade.

Ainda vemos os mecânicos levantando a mão, indicando que o pneu foi colocado. Porém, este é um backup, pois o verdadeiro sistema que controla a liberação do carro é formado por luzes. O mecânico assinala por meio de um botão na pistola que efetuou a troca e, quando as quatro luzes estão ligadas, o responsável pela liberação ativa o sinal verde para o piloto.

Porém, não há tempo suficiente para o mecânico perceber se a roda realmente está presa. Com isso, é comum a sinalização do mecânico vir depois que o carro foi liberado. E segundos preciosos são perdidos.

O macaco também foi fonte de intensa pesquisa nos últimos anos. A busca era permitir a maior mobilidade possível do mecânico, para que o piloto não tivesse de esperá-lo sair para retomar a aceleração. Com isso, hoje o responsável pelo macaco espera o piloto de frente mas, assim que sobe o carro, vai para o lado do box, soltando o carro por meio de uma alavanca posicionada onde ele segura o objeto.

Para ganhar tempo, tal mecânico coloca o carro no chão quando vê que aqueles cuja responsabilidade é colocar o pneu já ativaram suas pistolas. Ou seja, isso acontece antes mesmo da troca estar feita e um carro no chão não significa que o processo acabou.

Ao receber os sinais luminosos de que todos os pneus estão colocados, o antigo ‘homem do pirulito’, como ficou conhecido aquele mecânico que segurava as antigas placas, observa se algum carro está dentro daquele perímetro demarcado pela placa da equipe no pitlane antes de soltar o botão que deixa o sinal verde para o piloto acelerar.

O piloto

Ao cruzar a linha de entrada do pitlane, o piloto aperta o limitador de velocidade, eletronicamente programado para limitar a velocidade. Depois, visualiza seu lollipop man indicando a localização dos boxes.

Chegando lá, tem um trabalho importante: acertar as marcas, indicadas na dianteira por mecânicos usando luvas e placas com cores bastante chamativa. É importantíssimo que o piloto pare no lugar exato para que o mecânico responsável pela pistola, que já está praticamente ajoelhado, tenha de se mover o mínimo possível.

Assim que o piloto para, ele segura o carro no freio e aperta o botão do neutro (ponto morto) para poder sair novamente. Assim que vê a luz verde, acelera e, ao final do pit, desativa o limitador.

Para esta temporada, o desafio ‘engordou’. Especificamente, 2kg no pneu traseiro e 1,5kg no dianteiro. E podem ter certeza de que as equipes têm usado estas primeiras etapas para adequar seus procedimentos a isso.

Drops do GP da China

Essa legenda não foi uma das melhores coisas do final de semana?

  • O paddock gigantesco e as bases das equipes, escondidas em meio a arbustos em um verdadeiro labirinto, devem agradar bastante quem quer esconder seus segredos na China. Sem brincadeira: você enxerga onde está o escritório da Williams, por exemplo, mas como não tem um barco para cruzar até lá, tem de adivinhar a rota para chegar ao destino.
  • Bom para a Sauber, equipe que está dando o que falar nestas primeiras etapas. Lembra da saga da foto oficial da temporada, em que Wehrlein foi o escolhido e Giovinazzi ficou de fora? Bem, o chefe de imprensa da Sauber achou por bem que o italiano estivesse na foto, até que foi alertado pelo chefe de imprensa da FIA que isso poderia “não passar uma boa imagem”.
  • O fato é que muitos começam a duvidar da história de Wehrlein não estar em condições físicas de correr. O alemão foi parar na Sauber em uma negociação que envolveria uma mudança do motor Ferrari para o Mercedes ano que vem, mas desde então o time suíço já admitiu que também vem negociando com a Honda.
  • Outra linha de pensamento sugere que a pressão de manter Giovinazzi vem da Ferrari, insatisfeita com o rendimento de Kimi Raikkonen. Veremos o que acontece nos próximos capítulos.
  • Falando em interesses e negociações, ouvi uma boa de um colega após a sexta-feira terminar com Lance Stroll em terceiro. Afinal, caso nenhuma outra sessão pudesse ser disputada, o canadense largaria nesta posição na corrida. “O papai vai comprar os heliportos e mandar fechar tudo”.
  • A mentalidade da família é bem assim mesmo. Não pude deixar de ouvir uma conversa em que Lance contava a membros de seu staff que queria comprar um tubarão. “Um pequeno custa uns 300 mil, não é caro”. Ok, então!
  • Continuando no tema Williams, foi curioso ver a mudança na postura de Felipe Massa entre a quinta-feira, quando destacou que o time não tinha andado com pista molhada, ao contrário dos rivais, e na sexta-feira, quando adotou o discurso de “é o mesmo para todo mundo”. Afinal, foi devido a um acidente de Stroll que o carro não foi à pista no dia de testes com chuva artificial.
  • Sempre ouvi de colegas que ‘não ia ninguém’ ao GP da China. Talvez tenha ficado essa impressão nos primeiros anos, pois havia 100mil lugares nas arquibancadas e tudo parecia mesmo muito vazio. Mas, ao longo dos anos, o metrô chegou à porta do circuito e, com preços acessíveis, o público está longe de ser um fracasso: neste final de semana, a prova atraiu 145 mil nos três dias. É mais, por exemplo, que o GP do Brasil.
  • Os preços camaradas ficaram mesmo reservados aos torcedores. Aos jornalistas e fotógrafos, coube pagar por volta de 500 reais (basicamente o preço de um ingresso para ver a corrida da reta dos boxes) para usar a internet, que é de graça na grande maioria dos circuitos. Mais uma vez, os chineses conseguiram superar o Brasil.
  • Foi minha primeira visita à China e, claro, várias coisas chamaram a atenção. Mas nada como um vídeo mostrado à exaustão no metrô no qual Shanghai aparecia como uma cidade moderna, vibrante, com pessoas muito felizes e, logo depois, tinha início uma série de desenhos de bons modos no transporte público – que, aliás, não são seguidos ainda – incluindo um item fundamental: não usar crocs!

Ferrari é real. E as disputas, também

Ainda bem que o GP do Bahrein já será no próximo final de semana, pois o que vimos em Xangai neste domingo deve ter deixado uma pulga atrás da orelha da Mercedes. Afinal, mesmo em um circuito com curvas mais longas e rápidas, e temperaturas 20ºC abaixo do que tivemos no GP da Austrália, o ritmo de Sebastian Vettel com pista livre não ficou devendo tanto quanto o próprio time alemão esperava.

A briga só não foi mais intensa pela aposta da Ferrari de parar cedo, o que muito provavelmente daria certo caso não houvesse um Safety Car. É possível questionar se a possibilidade de algum acidente naquelas primeiras voltas não era grande demais para correr tal risco, mas a Ferrari resolver assumir o risco.

Apenas no tempo em que ficou atrás de Kimi Raikkonen, Vettel perdeu cerca de 6s5 em relação a Hamilton. E adivinhe qual a distância entre os dois no final da prova?

Com essa performance forte em um circuito e sob condições que favorecem a Mercedes em teoria, não é de se estranhar o sorriso de Vettel após cada sessão. E, já no final de semana que vem, o jogo provavelmente se inverte, no travado e quente circuito do Bahrein.

Talento

É curioso como alguns padrões se repetem quando a aderência da pista diminui consideravelmente, algo que ocorreu na China com o combo temperatura e chuva: ao mesmo tempo em que um piloto que sabe ser bom nestas condições, mas acaba se dando mal por querer abraçar o mundo – leia-se Hulkenberg – outros instantaneamente começam a se destacar. Max Verstappen passou nada menos que nove carros na primeira volta, encontrando aderência onde ninguém mais encontrava, e Fernando Alonso deu um jeito de colocar a McLaren dentro do top 10.

Mas quem mais impressionou foi Carlos Sainz, que bancou largar com os supermacios quando o asfalto estava bem molhado. É claro que o espanhol sofreu no começo e teve sorte em não abandonar, mas era uma estratégia a longo prazo. E acabou dando certo.

Números interessantes

A pista da China costuma proporcionar corridas movimentadas, tanto pela longa reta, quanto por curvas longas que permitem várias linhas. E, mesmo com um regulamento, digamos, antiultrapassagem, foram 54 manobras, mas o número que salta aos olhos dá conta de que apenas dez delas foram realizadas com a ajuda do DRS.

A moral da história é que um piloto pode passar 10, 15 voltas travado atrás de outro e não conseguir passar. Mas podemos ter certeza de que, quando acontece, é bonito de se ver.

Por isso, também, mal da para esperar essa corrida no Bahrein.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da China

Hamilton2 a 0Bottas
Ricciardo1 a 1Verstappen
Massa2 a 0Stroll
Raikkonen0 a 2Vettel
Alonso2 a 0Vandoorne
Perez2 a 0Ocon
Kvyat1 a 1Sainz
Hulkenberg2 a 0Palmer
Giovinazzi0 a 2Ericsson
Grosjean1 a 1Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s187

Ricciardo x Verstappen: 1s392

Massa x Stroll: 0s713

Vettel x Raikkonen: 0s276

Alonso x Vandoorne: 0s574

Perez x Ocon: 0s839

Kvyat x Sainz: 0s116

Hulkenberg x Palmer: 0s826

Magnussen x Grosjean: 0s281

Ericsson x Giovinazzi: sem tempo

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1: A China francesa e futurista

A Fórmula 1 foi testemunha ocular do progresso gigantesco que a China teve desde 2004, quando o circuito de Xangai foi construído em uma área afastada da cidade e que já há alguns anos, foi engolida por ela, contando até com uma linha de metrô.

A metrópole pode ter crescido, mas o interesse dos chineses, que têm entre seus esportes mais populares o tênis de mesa e o badminton e acompanham de perto as ligas de futebol europeias e a NBA, pela Fórmula 1 não acompanhou o mesmo ritmo. Em uma cidade de quase 15 milhões de pessoas, os organizadores têm dificuldade em atrair espectadores e até algumas construções que, inicialmente, eram arquibancadas, hoje fazem parte da decoração do exterior da pista. Tanto, que alguns ingressos (apenas para a sexta-feira) custam menos de 40 reais!

Com isso, é de se entender que a movimentação na cidade em decorrência da corrida é nula. Porém, para quem visita a metrópole, há muito com o que se surpreender. Quem diria, por exemplo, que Xangai possui uma das coleções mais ricas de art deco do mundo, com direito a influência chinesa no estilo?

Além dos prédios construídos sob forte influência dos ocidentais que foram ao país nas primeiras décadas do século XX, especialmente franceses, que operavam uma área da cidade até 1943. Já no Yùyuán Garden é possível encontrar um pouco de tudo, de lojas de chá a comida de rua – outro ponto alto da cidade – mercados e um templo taonista. Além de, é claro, magnólias, as flores que simbolizam a cidade.

Ao mesmo tempo, Xangai foi ganhando nos últimos anos um skyline cheio de prédios modernos, incluindo a segunda torre do mundo. Não é por acaso também que os próprios chineses chamam quem mora por lá que “capitalistazinhos”, dada a grande quantidade de shoppings e artigos de luxo. Até por conta disso e por ser uma cidade muito mais nova do que Pequim, ela tem menos camadas e não conta tanto da história do país, mas é uma boa porta de entrada.

RAIO-X

Preços: razoáveis. Com 300 reais por dia incluindo hospedagem dá para turistar sem excessos.

Ingressos: os mais baratos para os três dias saem por 195 reais e chegam a 1.410. Brasileiros precisam de visto, no valor de 130 reais para uma entrada.

Melhor época: como o verão é muito úmido e o inverno, muito frio, outono e primavera são considerados os melhores meses. E o GP cai justamente durante a primavera.

Por que vale a pena ir no GP? Para começar a conhecer a China e, de quebra, pagar relativamente pouco pelo ingresso para uma prova que costuma ser agitada.

Por dentro da F-1: Por que combustível virou protagonista?

A realidade é totalmente diferente da era do V8, quando o desenvolvimento dos combustíveis era congelado e sua influência na performance era mínima. Já durante o primeiro ano dos V6, o ganho foi de 4% em média, correspondendo a algo em torno de 30 cavalos. Apesar da velocidade destes ganhos tenha diminuído ao longo do tempo, mesmo na parceria mais afinada, entre a Petronas e a Mercedes, vimos o time estreando uma nova especificação de unidade de potência na segunda metade do ano passado justamente para absorver ganhos vindos do lubrificante.

Para 2017, contudo, o cenário é um pouco diferente e a grande qualidade que os fornecedores é a precisão. Afinal, agora há uma limitação de cinco tipos de combustível a serem usados ao longo do ano, sendo apenas dois por final de semana. Até 2016, não havia limitações. A medida foi tomada para frear os gastos na área, o que era uma preocupação quando o sistema de fichas de desenvolvimento foi abolido.

As diferentes composições eram usadas pelas equipes para lidar com dois tipos de variáveis: a adaptação aos requisitos de cada circuito e aos engine modes usados na classificação e na corrida. A restrição desta temporada, portanto, deve significar um salto menor do sábado para o domingo – algo importante no domínio da Mercedes nos últimos três anos – e colocar pressão nas fornecedoras com menos experiência, que têm menos chance de errar.

Vale lembrar que McLaren e Renault passaram a trabalhar com a BP/Castrol neste ano e podem sofrer com a mudança. A Red Bull também mudou, passando da Total para a  Exxon/Mobil, mas deve sentir menos devido à experiência longa da parceira com a própria McLaren. A Mobil, por sinal, era vista como a fornecedora mais fraca até 2015, mas investiu pesado e teve papel importante na melhora do motor Honda ao longo do ano passado. Já Ferrari e Mercedes têm parcerias duradouras com Shell e Petronas, respectivamente.

Diferentemente do passado, quando os tanques precisavam ser lavados com combustível normal após as corridas para não corroerem, devido às substâncias usadas durante as corridas, as regras hoje permitem quantidades mínimas de aditivos. Isso acontece para manter o interesse das fabricantes em investir no esporte e faz do combustível o elo mais direto entre a tecnologia desenvolvida na F-1 e utilizada nas ruas.

Não que a diferença entre os fornecedores seja gigante. Como sempre na F-1, estamos falando de detalhes que fazem muita diferença. A composição do combustível é, a grosso modo, 99% igual à que temos nos carros de rua e é, portanto, naquele 1% que mora o segredo.

Mas a grande diferença entre os fornecedores não está no combustível e, sim, nos óleos lubrificantes, que ganharam enorme importância de 2014 para cá, uma vez que agem diretamente na durabilidade das peças. A busca não é apenas limitar as quebras, mas manter tudo funcionando como se estivesse novo por mais tempo. Para este ano, a preocupação é maior porque, com o aumento das forças que agem sobre o carro nas curvas decorrente da velocidade maior, cresce também o esforço das peças e a importância de uma boa lubrificação, uma vez que o objetivo dos fabricantes é reduzir o atrito entre as peças sob alta pressão. Para isso, são usadas composições diferentes para o motor, o câmbio e a parte hidráulica.

O que o regulamento diz:

  • Os carros não podem usar mais do que 105kg de combustível por GP e o fluxo não pode ultrapassar 100kg/hora.
  • O combustível não pode ser colocado ou removido durante a corrida. Fora isso, o reabastecimento deve ser feito dentro das garagens, a um fluxo de 0.8 litros por segundo.
  • Cada mistura deve ser analisada pela FIA para a aprovação de suas propriedades físicas e composição. Essa amostra serve como uma impressão digital, com a qual os combustíveis usados durante as corridas são comparados constantemente.
  • Os tanques de combustível também são controlados, sendo provenientes de companhias que tenham o aval da FIA. Eles têm de ser instalados diretamente atrás do piloto e à frente do motor e também precisam ser revestidos do mesmo material que garante a segurança da célula de sobrevivência.

Três perguntas antes de crucificar a F-1 em 2017

Cansamos de ouvir que Albert Park não é um circuito dos mais representativos para entender como uma temporada vai se desenrolar – e vale lembrar que, há 12 meses, a Ferrari só não venceu o GP da Austrália por um erro estratégico – mas a Fórmula 1 já recebeu uma chuva de críticas após uma prova de estreia morna em termos de disputas na pista, apesar de toda a expectativa gerada pelo ritmo verdadeiramente forte mostrado pela Scuderia. Porém, a verdade é que Melbourne deixou mais perguntas do que respostas.

As corridas poderão ser ‘consertadas’?

Alguns pontos deixaram a desejar na Austrália: a falta de ultrapassagens, o engessamento das estratégias e o abismo entre grandes e médias. Mas isso não significa que será assim ao longo do campeonato. Como os carros atuais naturalmente geram mais arrasto por serem mais largos, é esperado que o DRS tenha um efeito maior do que nos últimos anos, podendo superar os 20km/h. Isso quer dizer que as ultrapassagens serão ainda mais fáceis do que antes? Não, pois o efeito da degradação, que também gerava diferenças muito expressivas entre os carros, caiu drasticamente. Mas quer dizer que os números baixíssimos da Austrália, pista na qual as retas são curtas demais para o DRS fazer efeito, não serão regra.

Outra solução está nas mãos da Pirelli, que pode começar, a partir da Espanha, a escolher compostos mais macios para provocar variáveis estratégicas.

Como vai ser a disputa entre Mercedes e Ferrari?

Vimos na Austrália que a Mercedes usou seu poderoso modo de motor de classificação, arma que ninguém conseguiu replicar até agora, para garantir a pole, enquanto quem teve o melhor ritmo, especialmente com os ultramacios, foi a Ferrari.

De fato, a Mercedes parece ser um carro que gera maior pressão aerodinâmica, o que torna o carro rápido em curva, mas também aumenta o gasto de pneu e resulta em mais arrasto na reta, motivo pelo qual o time estava usando menos asa que a Scuderia em Melbourne. Pela mesma razão, o W08 parece mais sensível ao calor.

A aposta de Hamilton é que seu carro se dê melhor nas pistas de alta e no frio, enquanto a Ferrari será superior em circuitos mais travados e no calor. Se a Mercedes levar na China e a Scuderia, no Bahrein, a teoria começará a fazer sentido. Isso sem esquecer, é claro, do desenvolvimento, que começará a ser mais sentido na Espanha.

Como uma equipe pequena pode aparecer?

Foi impressionante o abismo entre os carros da ponta e o meio do pelotão. “Vencedor” da prova B, Felipe Massa levou 1s por volta do último da corrida A, Max Verstappen. Isso mostra como os pneus de alta degradação ajudavam a mascarar o efeito que as discrepâncias de investimento do grid tinham no desempenho.

Como dito acima, um dos paliativos que a Pirelli pode utilizar para melhorar as disputas é levar compostos mais macios, mas a diferença é grande demais para que isso torne possível que uma equipe média tenha resultados como os pódios de Sergio Perez ano passado.

Uma solução seria largar com um pneu que aguente muitas voltas e tentar segurar o pelotão para que o segundo carro da equipe se beneficie enquanto os demais perdem tempo. A outra possibilidade é apostar em uma boa largada para ter o mesmo efeito. Nesse sentido, chamou a atenção a boa largada da Williams com ambos os carros na Austrália, mesmo com um espaço pequeno para a primeira curva. Com a reta longa da China, até mesmo um detalhe como esse pode mudar a história da prova.

Podcast Credencial – GP da Austrália e o que vem por aí

As quintas-feiras pós-GP no blog serão reservadas ao podcast Credencial, que faço junto com Luis Fernando Ramos. Nessa edição, tudo sobre o GP da Austrália e o que esperar para as próximas etapas.

Estou curiosa para saber se vocês concordam ou não com minha opinião sobre a reação de Lewis Hamilton ao desenrolar da prova em Melbourne. Ouçam e compartilhem!

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Estratégia do GP da Austrália – e o jeito 2017 de pensar a corrida

Vamos deixar de lado um pouco a queda gigantesca – e esperada – no número de ultrapassagens do GP da Austrália entre 2016 e 2017. Cinco manobras foram feitas neste ano, contra 37 da prova da temporada passada. O circuito de Albert Park, sobretudo pela falta de retas longas, sempre foi palco de provas travadas e dependeu muito de Safety Cars, que não aconteceram no último domingo, para ter emoção e nada impede que, com pequenas revisões, como o aumento das zonas de DRS e a escolha de compostos mais macios por parte da Pirelli, esse cenário possa ser atenuado daqui em diante.

A informação que fica do final de semana em Melbourne é o que vai transformar a estratégia neste ano – leitura que, na primeira prova do ano, foi mais bem feita pela Ferrari do que pela Mercedes – é a seguinte: ao longo de um stint (sequência de voltas entre uma parada e outra), os tempos subiram em meio segundo, enquanto, até o ano passado, podiam piorar em até 4s.

Isso explica por que a estratégia em 2017 será virada de ponta-cabeça. E também elucida por que, pensando com a cabeça de 2016, a Mercedes perdeu a corrida.

De 2011 a 2016, com os Pirelli de alta degradação, o chamado undercut (parar antes do rival e usar a aderência extra nas primeiras voltas para emergir na frente) foi o caminho perseguido pelos estrategistas. Agora, a palavra de ordem é posição de pista.

Como a degradação é muito menor, a diferença de velocidade entre um carro no final ou no começo de seu stint é pequena demais para garantir a ultrapassagem. Assim, os estrategistas têm de observar se seu piloto voltará no tráfego antes de fazer a parada.

Foi esse cuidado que a equipe Mercedes não tomou quando recebeu o retorno de Lewis Hamilton via rádio de que seus pneus tinham acabado. Como Sebastian Vettel conseguira manter uma distância de cerca de 2s antes da parada, o inglês estava exposto à ameaça ferrarista. Com a cabeça de 2016, o time o chamou ao box e esperou que ele tivesse performance suficiente para superar Verstappen e se manter na frente. Com a cabeça de 2017, a Ferrari esperou ele perder tempo atrás do holandês e tomou a ponta.

A questão é que, dificuldade de ultrapassar devido à turbulência à parte, o ritmo de Verstappen com os ultramacios usados não era tão diferente. Ele vinha sendo 1s por volta mais lento mesmo com pneus mais velhos e isso não é suficiente para garantir uma ultrapassagem simples na F-1, o que nos faz voltar àquele número do início, dos 4s de offset de performance entre o começo e o fim do stint, que acabou com a adoção dos pneus duráveis que os pilotos tanto pediram.

Mais atrás no pelotão, houve outros exemplos de como as estratégias podem ser usadas neste ano. Presa por um Fernando Alonso bem mais lento, a Force India, com Esteban Ocon, tentou o undercut e, mesmo parando na volta seguinte, o espanhol conseguiu se defender e voltar à frente. Já no caso do outro carro da equipe, Sergio Perez fez a mesma estratégia, mas conseguiu passar Carlos Sainz usando as dificuldades do espanhol em aquecer os pneus. A equipe, assim como a Mercedes, deve ter aprendido que, com os carros de 2017 e especialmente os pneus, o undercut deve virar coisa do passado.

Drops do GP da Austrália

 

Vencido o jet lag (ou a maior parte dele), o GP da Austrália trouxe consigo o clima de volta às aulas na Fórmula 1. Mas o clima não era tão amistoso quando se poderia imaginar. Confira algumas curiosidades do que rolou em Melbourne.

  • A transferência de poder do grupo de Ecclestone para o Liberty Media não parece ter sido dos mais tranquilos e há várias pendências que ainda estão no ar. A sensação geral é de que a parte técnica está em boas mãos com Ross Brawn, mas a parte comercial deve enfrentar muitas turbulências pela ingenuidade como algumas questões estão sendo tratadas por gente que não é do meio.
  • Uma equipe que teve muito mais cobertura do que o normal foi a Force India e foi curioso ver, em um mundo assumidamente machista, como as brincadeiras em relação à cor do carro são liberadas. Mas com uma coisa eu devo concordar com um colega dinamarquês que, vendo os carros na beirada da pista, disse: “Agora os carros estão com cores tão distintas que não precisa ser mulher para diferenciá-los.”
  • Aliás, por falar na nova cor, o chefe Bob Fernley entrou de cabeça na história e foi de calça rosa para a corrida.
  • David Coulthard foi um amigo da onça enquanto conduzia uma entrevista dos pilotos diante dos fãs no circuito: pediu para que todos mostrassem a última foto que tinham tirado no celular. Vandoorne tinha uma selfie dentro de sua McLaren, Alonso um amanhecer, Massa uma imagem mandada por Felipinho e Kimi… preferiu dizer que não tinha levado o celular.
  • A organização do GP da Austrália é bem caprichada, com várias atividades para quem vai ao circuito. Digamos que nem é preciso entender de corrida para se divertir no evento, ainda que os organizadores tenham ido um pouco longe demais com isso ao colocar uma foto de Luigi Fagioli na arquibancada com o nome de Juan Manuel Fangio.
  • Entre os itens vendidos no circuito, o que chamou a atenção foi o sapato de Daniel Ricciardo, adaptado a um souvenir comum na Austrália, uma espécie de proteção para latas de um material similar ao neoprene. Mas o próprio piloto perdeu a chance de patentear o produto, vendido pela loja oficial do circuito a 15 dólares (35 reais). Os porta-copos normais saíam por 10.
  • Não chegou a surpreender o fato de Pascal Wehrlein ter desistido de correr no GP da Austrália. O alemão estava parecendo um robô andando no paddock.
  • A saída do piloto significou a estreia de Antonio Giovinazzi, que também não estava na melhor de suas formas, uma vez que viajou para a Austrália sem preocupações com a adaptação ao fuso ou com a alimentação, e foi para a prova tendo como seu stint mais longo em carros de 2017 apenas 10 voltas. Mas foi o suficiente para criar um furor com os jornalistas italianos, que queriam vê-lo na foto oficial da temporada. Contudo, prevaleceu a vontade da Sauber, de colocar Pascal. “Vamos colar a foto do Antonio em cima”, me garantiu um jornalista italiano.
  • A geração de imagens e gráficos da corrida foi bastante criticada. Apesar dos profissionais da FOM serem os mesmos da era Ecclestone, a nova tecnologia 4D, pedido do Channel 4 britânico, tem dado trabalho para os técnicos.
  • Lewis Hamilton teve uma reação paz e amor à derrota na Austrália, mas a expectativa da assessora de imprensa da Mercedes era bem diferente: “Achava que vinha o apocalipse esperando por mim!”

Com há 10 anos

Nos últimos anos, não tivemos um campeonato além da disputa interna da Mercedes, mas tivemos grandes corridas, na maioria das vezes do terceiro em diante. Agora, os primeiros sinais dão conta de que podemos ter um grande campeonato, mas as grandes corridas viraram algo do passado.

A maior competitividade em termos de briga por vitórias era um pedido constante dos fãs, que se diziam cansados das ultrapassagens facilitadas pelo DRS e especialmente a degradação dos pneus. Os pilotos também não estavam contentes com carros pouco ágeis, que eles sentiam não pilotar, apenas cuidar para que chegassem ao final com os pneus inteiros e combustível suficiente.

A nova Fórmula 1 que estreou em Melbourne contempla esses dois pedidos, mas mais uma vez demonstra que o aumento da pressão aerodinâmica e a menor degradação de pneus age negativamente nas disputas por posição. Tanto, que quando falei para Sergio Perez que ele fizera a melhor manobra da corrida, ele não pensou duas vezes: “Então deve ter sido uma corrida muito chata!”

Sim e não. As posições por todo o pelotão estiveram consolidadas desde a metade. Porém, lá na frente, tivemos uma batalha direta entre carros que têm características diferentes, algo que pode gerar muita emoção nas 19 etapas que vêm pela frente.

É claro que existe uma grande dúvida sobre a capacidade da Ferrari se desenvolver, em função da descontinuidade de seu corpo técnico, mas o cenário atual aponta para a batalha entre um carro mais curto e que lida ligeiramente melhor com os pneus contra outro que tende a superaquecer mais a borracha, mas é mais longo e rápido em curvas de alta velocidade.

Isso nos remete às últimas temporadas de 2000, o que não é um mau sinal. 2007, 2008 e 2010 foram campeonatos incríveis com corridas chatas, enquanto a tendência se inverteu – com exceção de 2012 – dali em diante. Resta saber se a própria Fórmula 1 vai se acostumar com a nova realidade.

Do lado da Ferrari, além da melhora do carro em si, a vitória de Melbourne com uma boa jogada estratégica significa a redenção após o erro de 12 meses atrás. O time entendeu bem essa nova realidade e viu que os tempos de antecipar a parada para usar o rendimento dos pneus novos ficou para trás. Como nos velhos tempos de seu domínio com Michael Schumacher, a posição de pista voltou a ser a grande busca dos estrategistas.

Na Mercedes, talvez por esta ser a primeira corrida do ano, ficou uma mea culpa dos dois lados. Hamilton diz que pediu para parar e a equipe atendeu sem se atentar ao perigo dele ficar preso no tráfego. No final, fica a avaliação positiva do inglês de que o importante é estar na frente mesmo depois de uma grande mudança de regras. E de fato isso impressiona.

Como também impressiona o abismo dos três primeiros com a Williams – ou melhor, com Massa – e do brasileiro com o resto.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Austrália

Hamilton1 a 0Bottas
Ricciardo0 a 1Verstappen
Massa1 a 0Stroll
Raikkonen0 a 1Vettel
Alonso1 a 0Vandoorne
Perez1 a 0Ocon
Kvyat0 a 1Sainz
Hulkenberg1 a 0Palmer
Giovinazzi0 a 1Ericsson
Grosjean1 a 0Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s293

Ricciardo x Verstappen: sem tempo

Massa x Stroll: 2s044

Vettel x Raikkonen: 0s577

Alonso x Vandoorne: 0s

Perez x Ocon: 0s487

Sainz x Kvyat: 0s025

Hulkenberg x Palmer: 3s269

Grosjean x Magnussen: 0s986

Ericsson x Giovinazzi: 0s236

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1: Melbourne veste a camisa

A série de posts da sessão “Turistando na F-1”, que começou com a lista dos melhores GPs para assistir ao vivo estará presente por toda a temporada, trazendo um pouco dos destinos pelos quais a categoria passa. E, aproveitando que estão todos com as baterias carregadas após quase quatro meses sem corridas, o ano começa com uma longa viagem para um dos destinos prediletos de muitos no paddock.

Melbourne tem uma vocação esportiva – para grandes eventos, claro. Tanto, que já foi eleita a capital esportiva do mundo em quatro oportunidade nos últimos 10 anos, recebendo, além da F-1, o Aberto da Austrália, a Moto GP, o Tour Down Under, de ciclismo, e o Boxing Day Test, de críquete. Isso, mesmo que o maior esporte do país seja outro, o futebol australiano.

E todos estes esportes tomam conta da cidade quando desembarcam. Literalmente. A Federation Square, no coração de Melbourne, se transforma a cada evento, tomando a forma de um capacete no final de semana da Fórmula 1 e oferecendo desde produtos até uma viagem à história da categoria. Não coincidentemente, trata-se de uma das provas mais consolidadas e que reúne um dos maiores públicos do ano, por volta de 250 mil por final de semana.

É claro que a prova enfrenta resistência, tanto dos ambientalistas, por ser realizada dentro de um parque importante da cidade, quanto questionamentos de setores do governo que não veem com bons olhos o uso do dinheiro público para financiar o evento. Ainda assim, os australianos em geral têm um bom motivo para sorrir de orelha a orelha: Daniel Ricciardo, que surgiu logo que Webber abriu a brecha.

Fora a corrida em si, Melbourne tem sua verve cultural, com vários festivais grátis, seu jeitão de cidade de praia e uma ponta hipster. É aquele tipo de cidade que pode se tornar uma experiência cara, certamente – e a Austrália nunca foi conhecida por ser um destino barato – mas também agrada quem busca um clima mais low key, como em St. Kilda, que fica do lado do circuito. Um colega australiano que mora lá definiu como “a Austin da Austrália” e outra comparação comum é com São Francisco. Dá para sentir o clima?

Para os turistas, o preço da hospedagem assusta. Enquanto o custo de vida de São Paulo é classificado como 159 – em uma escala liderada por Zurique, com 300 – Melbourne fica com 219. Sydney não fica nem um pouco atrás, mas é outro destino comum naquela região, ainda que há quem goste de Costa Oeste, onde fica Perth, justamente a terra de Ricciardo. Se todo mundo lá for tão legal quanto ele, é mesmo uma boa pedida!

RAIO-X

Preços: salgados: Dá para gastar facilmente 400 a 500 reais por dia incluindo hospedagem, especialmente quando a cidade recebe seus grandes eventos. Brasileiros precisam de visto.

Ingressos: de 470 reais a 1500 (para os fãs de Nelson Piquet, que podem ficar na arquibancada com o nome do piloto. Detalhe: a de Ricciardo tem o mesmo preço)

Melhor época: a cidade é conhecida pelo clima meio louco, então no verão você pode pegar um calor infernal ou muita chuva, mas o bom é que o inverno é ameno, entre 5 e 15ºC. Janeiro e fevereiro têm os melhores climas.

Por que vale a pena ir no GP? Quando Chase Carey fala que quer 21 Super Bowls, digamos que Melbourne é uma das provas que chegam parte disso no atual calendário.

Por dentro da F-1: com que composto de pneu eu vou?

Sim, virou textão. Mas vai mudar sua perspectiva sobre as estratégias

A temporada está prestes a começar e a ansiedade é grande para ver os primeiros carros na pista nos treinos livres. Até que eles saem dos boxes, passar a dar voltas com tempos altos e você não sabe muito bem o que pensar. Como eu entendo quem está bem e quem não está? Dá para comparar companheiros? Tem alguém escondendo o jogo?

Um dos conhecimentos muito úteis para compreender tudo isso é o funcionamento da alocação de pneus durante o final de semana e sua interferência no final de semana – principalmente nos treinos livres.

Para 2017, as regras serão mantidas: a Pirelli tem até 9 semanas antes dos GPs europeus e 15 antes dos fora do Velho Continente para informar as equipes sobre os compostos que disponibilizará. Os times, por sua vez, devem informar à FIA quais suas escolhas até 8 semanas antes das provas europeias e 14 das demais.

Como os pneus serão bastante diferentes neste ano, ficou decidido que, excepcionalmente, a Pirelli definiria a alocação para as cinco primeiras etapas (dois jogos do composto mais duro disponível, quatro do médio e sete do macio), tirando uma variável que foi importante para dar emoção no início de 2016.

Assim, todos os pilotos começam o ano com:

  • Austrália: 7 ultramacios; 4 supermacios; 2 macios
  • China: 7 supermacios; 4 macios; 2 médios
  • Bahrein: 7 supermacios; 4 macios; 2 médios
  • Rússia: 7 ultramacios; 4 supermacios; 2 macios

A partir de Mônaco, contudo, as equipes terão três compostos de pneus de pista seca à disposição e poderá escolher como será a divisão entre os 13 jogos usados por cada carro. Além disso, cada piloto tem à disposição quatro jogos de intermediários e três de pneus de chuva.

A escolha dos compostos, contudo, não é totalmente livre, e é aí que entra sua importância para a estratégia do final de semana.

  • A Pirelli escolhe dois jogos de uso obrigatório em cada corrida, que podem ou não ser de compostos diferentes, e outro jogo que só pode ser utilizado no Q3 (e que é sempre do composto mais macio). O restante é totalmente livre.

O fato das equipes terem de devolver determinados compostos após cada sessão acaba ditando quais serão utilizados em cada uma delas. Estas são as devoluções, controlada por um sistema de código de barras em cada um dos pneus:

  • Um jogo após os primeiros 40min do FP1
  • Um jogo ao final do FP1
  • Dois jogos ao final do FP2 (a não ser que ambas as sessões sejam declaradas em pista molhada)
  • Dois jogos ao final do FP3

Na classificação, as regras dizem que o jogo com o qual os 10 primeiros fizeram suas melhores marcas no Q2 obrigatoriamente serão aqueles com os quais eles largarão. E que obrigatoriamente todos devem usar pelo menos um jogo do composto mais macio no Q3. Isso existe para obrigar todos a irem à pista. Após a classificação, esse jogo é devolvido.

Na corrida, todos os carros devem usar pelo menos dois compostos diferentes e um dos compostos que a Pirelli estabeleceu como obrigatórios em corridas no seco. Com isso, mesmo com os pneus mais duráveis neste ano, é mantida a obrigação de pelo menos um pit stop e nada impede que três compostos diferentes sejam utilizados.

Caso um piloto use um jogo de pneus fora das regras, ele não pode completar mais de três voltas antes de trocá-los. Caso isso ocorra, será punido.

Como tudo isso influencia o final de semana?

A adoção da escolha livre (ou praticamente livre, como vimos acima) dos compostos a partir do ano passado, a preparação dos pilotos ao longo do final de semana ganhou muitas variáveis. Antes, todos usavam apenas os pneus duros no FP1, depois usavam um jogo de cada no FP2 e repetiam o procedimento no FP3. Assim, para a classificação, tinham três jogos de duros e três de macios.

Agora, a estratégia começa muito antes, já na escolha do número de jogos de cada composto. Para tanto, é avaliado o histórico da adaptação do carro a cada pista e as equipes também levam em conta seus objetivos x características de seu equipamento e piloto.

Por exemplo: um conjunto que conserva bem os pneus (Sergio Perez + Force India) e que calcula ficar entre a 6ª e 12ª posições no grid, em uma prova na qual a alocação é de supermacio, macio e médio, o que é o mais comum. O normal é que sua alocação tenha menos compostos supermacios em relação aos rivais (o suficiente para fazer simulações de classificação no FP2 e FP3, além do Q1 e Q2) e mais macios/médios. É o caso quando vemos que o piloto escolheu 5  supermacios nesse exemplo.

Na outra escala, um conjunto que aposta em lutar pelas primeiras posições no grid e andar com a cara para o vento, podendo optar por uma estratégia de mais paradas, e tem pilotos agressivos com os pneus, como é o caso da Red Bull, normalmente vai optar por uma alocação com mais macios e supermacios. Se o piloto tem mais de 5 supermacios, é porque a expectativa inicial é de guardar pelo menos um jogo para a corrida. Nesse caso, o mais comum é ficar com apenas um médio seguindo o exemplo, pois ele entra na cota obrigatória da Pirelli.

As escolhas mais moderadas, contudo, são as preferidas. Mas sempre com a predominância dos supermacios –  ainda seguindo o exemplo – justamente porque eles serão utilizados para as simulações de classificação e nas três fases de definição do grid pela maioria dos pilotos.

Assim, mesmo com o aumento das variáveis das regras de 2016, costumamos ver a repetição de alguns cenários:

  • FP1: quando a equipe está fazendo comparações de novidades no carro, é importante manter pelo menos o mesmo composto. E devemos ver muito isso em 2017 devido ao ritmo acelerado de desenvolvimento dos novos carros, E quando o foco é mais na preparação da corrida, vemos os dois compostos mais duros. Por geralmente a temperatura estar mais amena pela manhã, quase nunca vemos os mais macios em ação. Também por isso, não é um treino representativo em termos de tempos.
  • FP2: treino mais representativo do final de semana por ser realizado na hora da prova e da classificação. Não coincidentemente, no final da primeira hora, momento em que seria disputado o Q3, as simulações de corrida param e se faz uma volta lançada com os compostos mais macios. Depois, normalmente os pilotos se dividem dentro da mesma equipe para fazer simulações com tanque bastante cheio e podemos ver quem tem a esperança de entrar no Q3 (e que espera, assim, largar com os compostos mais macios) e quem não.
  • FP3: treino em que é feita a comprovação de mudanças de sexta para sábado e as últimas simulações de corrida e classificação, ainda que o horário (das 11h ao meio-dia) faça com que ele não seja tão representativo.
  • Antes da classificação e também antes da corrida, a Pirelli divulga quais os pneus usados por cada piloto, o que dá uma ideia de como será a estratégia, ainda que não dê para saber qual o nível de desgaste da borracha já utilizada.

Ficou alguma dúvida ou há algo da técnica ou das regras que gera alguma curiosidade? Ao longo do ano, sempre na semana anterior aos GPs, vou trazer um tema diferente.

Tem temporada começando nesta semana. E podcast no ar

Para começar a semana que terá os carros da Fórmula 1 pela primeira vez medindo forças pra valer nesta temporada, que tal uma análise do que vimos até agora nos testes comigo e com Luis Fernando Ramos? Não deixem de dar seus pitacos também!

Durante a temporada, os podcasts irão ao ar na semana seguinte a cada GP, no Soundcloud (link abaixo)e agora também no TuneIn, que pode ser baixado no celular (IOS e Android).

Enquanto vocês curtem o programa que gravamos no final da semana passada, estarei a caminho do outro lado do mundo para acompanhar de perto essa nova fase da F-1. E fica valendo o convite para ouvir o programa Pole Position, na Rádio Bandeirantes, todo sábado das 13h às 14h.

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O que esperar da F-1 em 2017: Ferrari

O que fez em 2016: perdeu terreno em relação a 2015, não desenvolveu bem o carro, cometeu erros de estratégia

O que muda para 2017: projeto ousado e motor mais forte

Meta: brigar com a Mercedes pelo título

“É como se eles estivessem andando em um tabuleiro”, definiu Niki Lauda. “Eles estão blefando, podem ser bem mais rápidos do que vimos nos testes”, aposta Lewis Hamilton. Mesmo deixando os tempos de volta de lado, a impressão geral de quem observou os carros na pista no Circuito da Catalunha é a mesma: a Ferrari vem forte em 2017.

Caso a expectativa se confirme, será um dos casos mais difíceis de explicar dos últimos tempos. Tudo ao redor do time de Maranello apontava para um ano de caos, a começar pelo comando autoritário de Marchionne e pela falta de conhecimento técnico tanto do presidente, quanto do chefe da equipe, Maurizio Arrivabene. Este, por sinal, respirando por aparelhos no cargo após uma série de indisposições com Sebastian Vettel, que, por sua vez, sequer pensava iniciar conversas de renovação.

Entre os engenheiros, também não havia grandes motivos para otimismo: a equipe responsável pelo SF70-H é marcada pela inexperiência, que vai desde o diretor técnico, ligado aos motores, até o chefe de aerodinâmica, vindo diretamente das competições de GT. Falou-se na contribuição de Rory Byrne, mas não é de hoje que o homem que projetou as máquinas imbatíveis do início dos anos 2000 vem prestando consultoria em Maranello.

E não é que, mesmo com tudo isso, a Ferrari um carro interessante e pode se dar bem?

Após o time italiano surpreender com um projeto criativo, algo que não se via há tempos na Ferrari, ficou mais claro que foi a equipe comandada pelo ex-diretor técnico James Allison que criou o modelo conceitualmente. Questões pessoais e desentendimentos em relação à gestão tiraram o britânico de Maranello – e o levaram para a Mercedes, o que tem tudo para ser uma perda que será sentida ao longo do ano.

Problemas à parte, com um sistema complexo de ranhuras tanto na parte de baixo do bico, quanto ao longo ao assoalho, além do sidepod cheio de minientradas de ar que encontrou uma brecha para driblar a indesejável angulação determinada pelo novo regulamento, o SF70-H colocou a Scuderia na vanguarda.

No entanto, os pilotos ainda se queixam do comportamento do carro nas curvas de baixa velocidade, onde a aderência mecânica fala alto. Provavelmente, essa deficiência está ligada à dificuldade da equipe reproduzir o que a Mercedes tem feito com suas suspensões e pode ser o ponto que falta para que o time volte ao caminho que começou a ser trilhado em 2015 e seja aquele que vai desafiar os tricampeões mundiais, além da inexperiência da equipe que vai desenvolver essa máquina.

Pelo menos em termos de pilotos a Ferrari parece estar bem servida. Vettel se mostrou contente com seu “carro aspirina, que resolve tudo” – e um Vettel contente com o equilíbrio do carro é um Vettel veloz.

Mas quem deve sentir mais diferença, diretamente em função das novas regras, é Kimi Raikkonen. Com um carro que gera mais pressão aerodinâmica, o finlandês pode retomar seu estilo de pilotagem, freando e começando a virar ao mesmo tempo. Até o ano passado, Kimi se sentia obrigado a esperar o carro se equilibrar e perdia tempo precioso com isso. Tal como Felipe Massa, tudo indica que o campeão de 2007 vai se sentir praticamente 10 anos mais novo em pleno 2017.

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