Estratégia do GP de Cingapura e o gol contra (parte 2)

Foi mais ou menos assim de novo

A vantagem de performance deveria trazer tranquilidade em qualquer esporte. Dá para entender um time de futebol entrar nervoso em um clássico e errar mais que o normal. Mas não naquele jogo em casa contra um time do meio para o final da tabela. Mas foi o que aconteceu com a Ferrari no último final de semana. A tensão que existe dentro do time foi claramente vista na pista, e a vantagem que o time demonstrou ter nos treinos livres simplesmente desapareceu.

Classificar-se na pole seria fundamental em Cingapura, um daqueles circuitos em que a posição de pista é mais valiosa que o ritmo, tanto pela dificuldade em se ultrapassar, quanto pela perda de tempo gigante, de mais de 27s, no pit stop. Então a corrida sempre seria uma questão de administrar os pneus e chegar até o final. E a Ferrari sabia bem disso, pois ganhou em Cingapura com um carro mais lento em 2010, com Fernando Alonso apenas controlando a pressão do próprio Vettel por toda a prova.

Mas a classificação dos italianos foi descrita pelo próprio Vettel como “atrapalhada”. Confiantes em seu ritmo, eles foram os únicos a tentarem passar para o Q3 com os ultramacios, em um circuito em que os hipermacios eram 1s7 mais rápidos. Com o cenário apontando para uma prova em que seria difícil ultrapassar, por que não usar o mesmo pneu que todo mundo e focar só na pole? Por que arriscar largar com um pneu menos aderente, ainda mais com o fantasma da largada de 2017 ainda assombrando o time? E, por fim, por que seguir na estratégia pré-planejada mesmo vendo Hamilton sofrer para passar do Q1 com os ultras?

Mas eles conseguiram reverter a situação a tempo e, no finalzinho do Q2, passaram com os hipermacios. Mas os erros não parariam por aí. “Eu poderia apontar que a Mercedes faz uma out-lap lenta e nós precisamos de uma rápida? Não me coloquem atrás deles”, reclamou Vettel, com razão, no Q3. Desde o início do ano, vemos que a preparação de volta voadora é diferente entre os dois times, assim como a volta de apresentação. Mas a Ferrari nervosa e sem comando soltou Raikkonen atrás de Hamilton e Vettel atrás de Bottas.

Sem a preparação correta para o delicado hipermacio, faltou aderência no início da volta e Vettel ficou longe de tirar o máximo do carro, em terceiro no grid. Enquanto Verstappen e Hamilton fizeram duas das melhores voltas que vão fazer na vida.

Aliás, que fique o registro. Muito foi dito sobre a volta de Hamilton, e o onboard não mente que foi absolutamente espetacular. Mas os números mostram que Max perdeu 0s45 nas retas, muito em função de seus problemas de motor. E ficou 0s3 atrás. Já Vettel não conseguiu melhorar na segunda tentativa, como aconteceu com outros provavelmente pela forma como a pista evoluiu, já que o hipermacio é mais sensível a mudanças de temperatura e funciona melhor com o asfalto mais frio (ou seja, é o pneu com o working range mais baixo).

Com esse cenário, Vettel só venceria ou passando Verstappen e Hamilton na largada, ou se livrando o mais rápido possível do holandês, seguindo o inglês de perto e tentando o undercut.

Vettel conseguiu passar Verstappen e estava a 1s1 de Hamilton na volta 11, muito perto de quando começariam os pit stops (a previsão era entre 11 e 13, mas sem o SC), quando duas mensagens de rádio definem a prova. Hamilton é questionado sobre os pneus e indica que deve parar logo, no que parece ser uma mensagem codificada para o Hammer time. E o engenheiro de Vettel lhe passa essa informação. A resposta do alemão é “eu não acredito nele.” Depois perguntei para Vettel se lhe surpreendeu o ritmo de Hamilton no final desse stint e ele disse que não “pois ele desgastou menos os pneus andando na frente”. Então por que eles deixaram a chance do undercut passar?

Isso porque, independente das mensagens, o cronômetro mostra que Hamilton tem, sim, mais ritmo nos pneus e abre mais de 1s em duas voltas. A Ferrari, então, para Vettel e coloca os ultramacios, única chance que eles teriam de um undercut, mas o alemão sai atrás de Perez e perde mais 1s3 por conta disso e, é claro, o undercut não só não funciona, como o deixa exposto a Verstappen, uma vez que forçar demais os pneus logo de cara os destroi rapidamente, como Raikkonen descobriu em Monza.

A questão para a Ferrari é que eles jamais deveriam ter se colocado nessa situação de ataque. Assim como Monza, era uma corrida que eles só poderiam perder para si mesmos. E conseguiram.

Drops do GP de Cingapura e a implosão da Ferrari

Comentei no último texto como Vettel dá a impressão de querer resolver tudo sozinho. É algo que me chamou a atenção desde a classificação do GP da Bélgica, quando ele reclamava em línguas diferentes e gesticulava para os mecânicos não arrastarem o carro nos boxes. Até que ele desiste, como se estivesse sem forças.

Sempre seria difícil para a Ferrari se reorganizar depois da era Marchionne  existe um vazio muito grande politicamente dentro da equipe, o que vem dificultando a tomada de decisões até mesmo do ponto de vista técnico, e afastando Vettel de Maranello. Leclerc, por exemplo, foi uma derrota dele, e me faz lembrar de uma conversa que tive no fim do ano passado com Stella Bruno, uma repórter italiana com mais de 20 anos de F1. Falávamos sobre o poder de veto de Seb e ela apontou que era muito cedo para saber se ele seria ouvido na escolha de seu companheiro em 2019 porque na Ferrari as coisas mudam rápido demais. Era só ver o que tinha acontecido com Alonso.

Falando em Ferrari, ligando os pontos em Cingapura deu para ter uma ideia de qual é o plano para o futuro é relação a Mick Schumacher. De um lado, Fred Vasseur, da Sauber, dizia que o melhor para o alemão seria fazer um ano de F-2 já tendo relação com alguma equipe da F-1 e realizando algumas sessões de treinos livres. Ao seu lado na coletiva, Maurizio Arrivabene dizia que “a Ferrari não pode não deixar as portas abertas para um nome como Schumacher.”

O piloto nunca foi brilhante, mas ninguém duvida que ele vai chegar na F-1 devido ao sobrenome. E já há quem desconfie que as vitórias basicamente do nada no último fim de semana teriam relação com o fato da equipe Prema ter mudado de mãos e agora não estar exatamente dentro do regulamento. O time entrou dentro das negociações de Lawrence Stroll para assumir a Force India perdendo o mínimo possível. E nada como vender a equipe que ele comprou para alavancar a carreira do filho a um preço simbólico a Nicolas Todt. E pensar que tem gente que ainda não consegue entender como estar próximo de Todt e efetivar Leclerc era importante para a Ferrari…

O GP de Cingapura é daqueles em que não usamos carro para chegar ao circuito. E isso se estende aos pilotos. Há vários hoteis que ficam muito perto da pista, então não é exatamente um trajeto longo. Mas, como o melhor é usar os shoppings para escapar do calor da rua, é muito fácil se perder. Na sexta, eu e uma colega nos perdemos, digamos, com gosto (conseguimos andar por uns 20 minutos e voltar exatamente para onde erramos a direção da primeira vez). Mas achei que estávamos tranquilas quando cruzamos com Leclerc, seu treinador e sua assessora. Até que Charles, tão perdidos como nós, vem nos perguntar se nós sabíamos chegar no paddock. No fim das contas, chegamos!


Outra particularidade de Cingapura são os shows, e pela primeira vez, fiz o esforço de terminar o trabalho pós-FP3 correndo para ir até o outro lado da pista ver um dos meus maiores ídolos, Liam Gallagher. Foi a primeira vez que o vi na carreira solo e não sabia muito bem o que esperar da sua voz. Mas Liam estava em ótima forma e arrasou com uma versão só acompanhado de piano para Champagne Supernova. E de quebra dedicou Some Might Say “para aquele cara rápido de Stevenage”.

Para finalizar, algumas rapidinhas do mercado de pilotos: a Mercedes deve optar por Russell na Williams e Ocon como reserva do time principal. A Haas, por manter Magnussen e Grosjean. A Toro Rosso terá Daniil Kvyat de volta e provavelmente Hartley continua e a grande dúvida do paddock é em relação à segunda vaga da Sauber.

Desandou

Nas entrevistas logo após as corridas, a diferença é sempre bastante clara: as respostas de Lewis Hamilton são mais ligadas à emoção, ao instinto. Ele raramente sai do carro com a noção exata do que aconteceu a sua volta. Sebastian Vettel é completamente o oposto. É como se ele, ao mesmo tempo, tivesse disputado a prova e feito um debriefing completo na sua cabeça.

A abordagem de Hamilton teve seus altos e baixos e adaptações ao longo da carreira, e agora está lhe caindo como uma luva. Já Vettel não pode dizer o mesmo e existe a impressão no paddock de que a necessidade que o alemão está sentindo de comandar a Ferrari de dentro do cockpit é seu grande adversário nesta temporada. E é difícil isso mudar tão cedo, uma vez que é algo inerente a sua personalidade.

Ele mesmo disse após mais uma derrota inesperada nas ruas de Cingapura que a Ferrari “tem os ingredientes, mas precisamos entender qual a quantidade ideal de cada ingrediente para fazer o bolo crescer.”

Neste domingo, o bolo não cresceu, muito em função da classificação desastrosa, quando a Ferrari assumiu um risco grande demais de fazer o Q2 com os ultramacios, 1s7 mais lentos que os hipers, gerando uma tensão desnecessária. E depois jogando seus pilotos no trânsito e impedindo-os de fazer uma boa preparação. Junte a isso duas voltas magistrais de Hamilton e Verstappen em um driver’s circuit e Vettel abriu seu domingo com dois carros a sua frente em um circuito em que é difícil ultrapassar.

A deficiência de potência da Red Bull ajudou e Vettel tirou temporariamente um dos obstáculos que tinha à frente, mas sempre estaria em desvantagem por andar no ar turbulento de Hamilton, dificilmente conseguindo fazer seus pneus durarem mais. Enquanto isso, Hamilton só administrou o ritmo até a janela de pit stops abrir, executou seu hammer time e fez a Ferrari arriscar não apenas o undercut, mas também usando o pneu ultramacio para tentar controlar a corrida da frente.

Mas foi uma jogada tardia, talvez em parte pelo fato do próprio Vettel, comandando a estratégia de dentro do carro, ter duvidado da “vitalidade” dos pneus de Hamilton. Some-se a isso o trânsito que o alemão pegou com Perez, e Vettel acabou se encontrando em uma péssima posição: atrás também de Verstappen e com o pneu errado. Teve sorte que Valtteri Bottas não se encontrou em momento algum do final de semana com o carro e ainda beliscou um pódio.

Mas isso não é suficiente para minimizar o estrago: Vettel e a Ferrari permitiram que Hamilton vencesse quatro das últimas cinco provas, todas em pistas em que eles foram melhores. Ao mesmo tempo em que o inglês vive seu ápice, seu rival não parece capaz de responder. E não foram poucas as vozes em Cingapura que decretaram que a receita do bolo desandou de vez.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP de Cingapura

 

Hamilton10 a 5Bottas
Vettel12 a 3Raikkonen
Verstappen11 a 4Ricciardo
Perez5 a 10Ocon
Hulkenberg10 a 5Sainz
Stroll6 a 9Sirotkin
Gasly12 a 3Hartley
Alonso15 a 0Vandoorne
Leclerc12 a 3Ericsson
Grosjean6 a 9Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s687

Vettel x Raikkonen: 0s156

Verstappen x Ricciardo: 0s662

Perez x Ocon: 0s380

Hulkenberg x Sainz: 0s266

Sirotkin x Stroll: 0s071

Alonso x Vandoorne: 0s842

Gasly x Hartley: 0s195

Grosjean x Magnussen: 0s959

Leclerc x Ericsson: 0s294

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1: guia de sobrevivência do GP de Cingapura

Já expliquei por aqui por que o GP de Cingapura é meu favorito e se eu tivesse que fazer uma viagem bem legal e colocando a F-1 no meio, eu começaria um tour pelo sudeste asiático por lá.

O Sudoeste Asiático talvez não seja o melhor destino para quem gosta de luxo – mesmo em Cingapura, um dos lugares mais desenvolvidos da região, você até pode pagar por hotéis fantásticos, mas se quiser explorar a cidade vai ter que sair do ar condicionado. Aí o glamour acaba na hora. Mas para os viajantes mesmo, a explosão de cultura e de sabores é um deleite.

 

Compre ingresso para: zonas 1-4

O GP de Cingapura tem um esquema diferente de ingressos e, em termos de arquibancada, nenhuma se destaca por conta da visão limitada. A diferença é a experiência que você vai ter: o ingresso é dividido por zonas porque ele só dará acesso àquela(s) determinada(s). Na zona 1, você fica na região da reta dos boxes e tem as melhores vistas da cidade, incluindo acesso à roda-gigante (paga à parte, mas vale a pena). E também aos shows (o palco principal fica na zona 1 e o Padang, na 4)

Hospede-se em: Cingapura, perto do metrô

Pensando na praticidade de chegar à pista, qualquer lugar perto do metrô funciona em Cingapura. Se quiser também aproveitar para ir às compras, fique nas proximidades da Orchard Street.

Vá de: metrô

O metrô de Cingapura lhe deixa muito perto da pista e é extremamente fácil de usar. E ainda é um refúgio do calor úmido que castiga qualquer um e, dependendo da estação, a saída é em shoppings – e, mesmo que você não se empolgue com as compras, vai agradecer pelo ar condicionado.

Não perca: a comida

Experimente de tudo quando você estiver nessa parte do mundo. Seu conceito de “comida tailandesa” vai mudar, para melhor. Sim, a chance de ter uma indisposição estomacal no meio do caminho é grande, mas tem mais a ver com a água e a maneira como os alimentos são estocados do que qualquer coisa. Se comer uma pasta ou um prato local, vai dar na mesma. Então experimente!

Combine com: Vietnã

A opção mais óbvia pela localização de Cingapura e pelo clima nessa época do ano seria Bali, e talvez entre os brasileiros o destino mais popular dessa região seja a Tailândia (ainda que o fim de setembro ainda seja bem chuvoso nas ilhas mais famosas do país). Mas ouçam o conselho de quem já rodou “um pouco” pela região: existe algo especial no povo, na comida e nas paisagens do Vietnã, especialmente uma cidadezinha chamada Hoi An.

Quanto fica? O gasto com a passagem (uns 4000 reais) geralmente é compensado com o custo de vida baixo no sudeste asiático, mas esse não é o caso de Cingapura em si. Lá, vale a pena ir atrás de Airbnb para economizar e gastar menos de 1000 em hospedagem. Já o ingresso sai por 1200. Como a alimentação pode sair caro, calcule pelo menos 8000 de gastos. A boa notícia é que qualquer viagem pelas redondezas sai barato, inclusive os voos.

O que acontece no grid da F1

A experiência mais surreal dentro é estar no grid da F1, momento antes da largada. De certa forma, é como se pudéssemos entrevistas jogadores de futebol no vestiário mesmo nos últimos minutos antes de uma Champions League. Mais bizarra ainda é a presença de VIPs, que querem ser vistos ao lado dos protagonistas – e ainda bater papo! Isso, minutos antes deles entrarem nos carros para disputarem roda a roda a mais de 300km/h.

Para eles e suas equipes, contudo, o grid tem um significado completamente diferente. Afinal, é o primeiro contato com o carro na pista depois dele deixar o regime de parque fechado, no qual ficou desde a classificação. E há uma lista enorme para se certificar de que tudo está preparado para a largada, em uma contagem regressiva controlada nos segundos.

Chance de ouro antes de ir para o grid da F1

O pitlane abre 40 minutos antes da largada, dando a possibilidade para os pilotos fazerem mais de uma volta de instalação. Por conta do regime de parque fechado, não é um momento de fazer qualquer tipo de acerto, mas basicamente de resolver “pepinos” de última hora, como problemas na distribuição de energia do motor, por exemplo – algo que o bom e velho reset costuma resolver.

Para os pilotos, também é um momento importante para entender qual a aderência da pista naquele momento, e se algo mudou em relação à classificação. Saber as condições de todo o traçado é fundamental para ter uma boa primeira volta.

Em termos mecânicos, só é permitida a mudança do ângulo da asa dianteira. Mas, eletronicamente, com base no feedback do piloto e nos dados observados via telemetria, é possível alterar outras variáveis. O diferencial ou os mapas de motor que controlam o tanto de energia que é captada nas frenagens. Geralmente, os pilotos testam vários mapas durante essas voltas e cabe aos engenheiros determinar rapidamente qual a melhor configuração.

Checando o checklist do grid da F1

O trabalho segue frenético quando o piloto estaciona o carro no grid. Em provas nas quais a pista mudou significativamente ou há incertezas quanto à chuva ou estratégia, é comum ver os pilotos tendo longas conversas com seus engenheiros de pista. Mas mesmo quando os procedimentos são mais “normais”, os mecânicos logo correm para “resgatar” o carro no fim no grid portados de equipamentos de arrefecimento. E, assim que o carro para em sua posição, vários cabos e computadores são ligados aos diversos sistemas para controlar todos os parâmetros em termos de temperatura e energia.

Mesmo repetindo isso mais de 20 vezes por ano, existe um engenheiro no pitwall encarregado de conduzir o checklist pré-corrida. A ideia é checar todos os sistemas ao mesmo tempo em que o carro é mantido na menor temperatura possível para que o piloto consiga fazer os burnouts necessários para a largada sem superaquecer o motor. É por isso, também, que os carros costumam economizar nas voltas de instalação e ir para o grid o mais cedo que podem, para ter certeza de que terão tempo de esfriar o carro.

Mas nem todo o carro, claro. Os freios, especialmente dianteiros, precisam ser aquecidos. Isso é feito porque os burnouts aumentam a temperatura dos freios traseiros, e nem tanto dos dianteiros. Esse equilíbrio é conseguido com a instalação de aquecedores mesmo, e esse calor acaba se transferindo para os pneus dianteiros quando eles são colocados, algo que não acontece até os últimos minutos.

Grid da F1 é hora de espiar os rivais

E olha que os engenheiros não ficam só focados no próprio carro. Longe disso. O grid é um dos melhores momentos para espiar os rivais. É comum ver o diretor técnico de um time parado do lado do carro de um rival espiando sem tentar fingir, ao mesmo tempo em que os mecânicos tentam ficar na frente de áreas mais “delicadas”, como o assoalho. Essa coisa de “ver e ser visto” no grid, não é só para VIPs!

Mesmo com todo o controle dos checklists, imprevistos podem acontecer, como a chuva ou a detecção de algo que não está funcionando bem. E isso é fácil de ver de fora. No GP do Japão de 2017, o carro de Sebastian Vettel estava aberto com cerca de 10 minutos faltando para a largada e os mecânicos tentavam resolver o problema de vela que tinham identificado. Pela linguagem corporal, não pareciam ter conseguido. E essa é uma das inúmeras vantagens de se estar in loco. Logo no começo da prova isso se confirmou e Vettel praticamente deu adeus ao título ali.

Às vezes, é claro, o problema não é tão grave e nada tem a ver com o carro. No GP da Espanha, a organização resolveu tocar o hino espanhol e o catalão. Como é tudo cronometrado, como vocês verão a seguir, isso complicou a vida dos mecânicos encarregados em “instalar” os pilotos nos carros. Há um deles cuja função é apertar os cintos, conectar o capacete à garrafa de água/eletrolítico e posicionar o descanso de cabeça. E fazer isso na correria é algo que pode acabar com a corrida de um piloto.

Os 40 minutos antes da largada:

40min: pitlane é aberto e carros podem ir à pista.

32min: é tocado alarme de 2min para o pitlane fechar.

30min: a luz vermelha acende no final do pitlane. Quem ainda não saiu tem de largar de lá.

14min: pilotos se reúnem na frente do grid para o hino nacional. Quem não aparece na hora leva reprimenda.

10min: todas as pessoas que não são essenciais no grid têm de sair, só ficam alguns membros de equipes e pilotos, que entram em seus carros com 10 a 8min para a largada.

4min: as “pranchas” que ficam embaixo dos carros são removidas e eles ficam apoiados nos macacos.

3min: é o limite para os carros estarem com os pneus com os quais vão largar.

2min: os cobertores são retirados dos pneus e são apenas apoiados por cima deles.

1min: motores são ligados.

15s: todos os membros das equipes precisam sair do grid.

0s: a luz verde é dada para o início da volta de apresentação.

A única derrota da McLaren de 1988

A sessão nostalgia desta semana volta 30 anos no tempo para aquela que ficou marcada como a única derrota da McLaren na temporada do primeiro título de Ayrton Senna – e de quebra uma dobradinha da Ferrari pouco menos de um mês depois da morte de Enzo Ferrari em plena Monza.

Claro que a vitória ficou cercada de polêmica, e revendo os vídeos da época dá para entender bem o porquê: de uma hora para a outra, com todo esse contexto por trás, as Ferrari começam a tirar 5s por volta daquele carro que fora imbatível por toda a temporada – e continuaria a ser na parte final dela. Até que Senna, sob pressão, comete um erro.

“Senna baixou da casa de 1min33, mas as Ferrari continuam sendo mais rápidas. Alboreto virou 1min29s20”, alerta Reginaldo Leme. Para título de comparação, em um circuito que sofreu poucas alterações, hoje se vira 1min23. Voltando a 1988, com cinco voltas para o final e vendo os rivais tirarem de 3 a 5s por volta, Senna tinha 8s de vantagem para Berger.

Há quem possa perguntar: mas de onde vinha tanta pressão? A briga de Senna, claro, era com Prost, e uma vitória em uma prova a qual o francês tinha abandonado por problemas no motor Honda o colocaria em posição muito favorável para a conquista do primeiro título mundial, uma vez que obrigaria o francês a ganhar as quatro últimas etapas.

Duas voltas para o fim e a diferença estava na casa dos 4s9 e já não vinha caindo em um ritmo tão acelerado, dando a impressão de que Senna tinha controle da situação. Ou pelo menos até se tocar com Jean-Louis Schlesser, retardatário, que substituía Nigel Mansell na Williams após o inglês ter sido infectado por um dos filhos com catapora.

Schlesser estava em uma briga no mínimo estranha com Maurício Gugelmin, dividindo a primeira variante mesmo uma volta na frente do brasileiro com duas voltas para o fim, naquela que acabou sendo a única corrida do piloto famoso no rallycross na F-1.

Senna estava dando a segunda volta em Schlesser, e é bem verdade que foi otimista na manobra, rodando e indo parar em uma posição pouco favorável em cima da zebra, deixando o motor morrer e abandonando.

Vendo os vídeos da época, inclusive, é impressionante o número de retardatários, em função de um grid de 26 carros em que a diferença entre a primeira e a última filas foi de quase 8s na classificação, uma vez que era permitidos carros turbo e aspirados em um mesmo grid.

Para Senna, foi um final péssimo para um final de semana que vinha sendo brilhante, com o brasileiro bem mais rápido que Prost desde os treinos livres e liderando tranquilamente até antes do francês abandonar, a 17 voltas do fim, embora seu motor já desse sinais de que não estava 100% desde a largada.

Seria, contudo, o início de uma sequência ruim para o brasileiro no campeonato: nas provas seguintes, em Portugal e na Espanha, teria problemas com a leitura de consumo de combustível. Pela primeira vez no ano, a McLaren era ultrapassada na pista e Ayrton não passaria do sexto lugar no Estoril e do quarto em Jerez, em duas vitórias de Prost.

O título seria decidido só na penúltima prova, no Japão. E o resto é história.

Como funciona a “espionagem” das equipes da F-1

Quem leu o post sobre como são feitas as vistorias nos carros durante os finais de semana de corrida pôde ter uma ideia melhor do que aconteceu horas após a bandeirada do GP da Itália, quando a Renault entrou com um protesto e ganhou, tirando pontos da Haas. O time norte-americano divulgou que contentaria a decisão, mas nada oficial foi notificado desde então.

O caso Haas ilustra bem como funciona todo o mecanismo que controla a regularidade dos carros. Vira e mexe, especialmente quando algum torcedor quer defender sua equipe, diz que “os carros são checados em todas as corridas pela FIA, claro que são legais”. Mas isso é uma meia verdade. É como o delegado técnico Jo Bauer explicou na entrevista que norteia o tal post: as vistorias da FIA funcionam como a polícia na vida real. Existem as regras/leis, mas você não passa por checagens o tempo todo. Como isso seria humanamente impossível, prevalece – ou pelo menos deveria prevalecer – o bom senso.

Não que a FIA faça vista grossa. Se existe uma suspeita, as vistorias aleatórias estão lá para isso – e por isso digo que a afirmação dos torcedores é uma meia verdade. Ou seja, existe um sistema para coibir ilegalidades, mas ele não é, como acontece nas ruas, infalível.

Pois, bem. Voltemos à Haas. Foram interessantes os documentos divulgados pela FIA explicando o caso. A infração é milimétrica, como costumam ser aquelas ligadas às dimensões do carro: a prancha que fica logo abaixo do assoalho não poderia ter um raio menor que 50mm (com margem de erro de 2mm para mais ou para menos) quando vista de frente. O mais provável é que o carro da Haas estivesse abaixo deste limite, pois isso geraria vantagem (ínfima, é verdade) de performance.

Mas a FIA não está lá para definir o tamanho da vantagem: se está fora do regulamento, o resultado não vale. No entanto, a entidade tem certa condescendência, como vimos claramente naquela questão da queima de óleo do ano passado. Eles avisam por meio de diretivas técnicas que não estão de acordo com as soluções de algumas equipes e dão um tempo para que eles mudem o ponto em questão.

A investigação para acionar essas diretivas pode vir diretamente dos fiscais, como também de equipes rivais. Basicamente, sabendo que o time X está fazendo algo que pode ser interpretado como ilegal, o time Y questiona a FIA se ele também pode fazer isso. E é aí que o processo começa.

Então, quando essas diretivas são lançadas, é normal que os rivais já saibam quais são os alvos. E obviamente começam a ficar de olho. No caso do assoalho da Haas, a tal diretiva saiu dias antes do GP da Hungria pedindo para que os carros estivessem em ordem até depois do GP da Bélgica. A Haas não era o único alvo neste caso, mas argumentou com a FIA que não teria tempo hábil para produzir uma nova peça por conta da pausa de agosto, quando as fábricas têm de ficar fechadas por duas semanas.

A FIA entendeu a situação e permitiu que a equipe estreasse a nova peça só em Cingapura, mas deixou claro para a Haas que eles ficariam expostos a um protesto. Dito e feito. Sabendo que a atualização não tinha sido feita, coube à Renault apenas reunir as provas fotográficas e ganhar de volta a quarta colocação no Mundial de Construtores.

Estratégia do GP da Itália: Mercedes dá uma de Ferrari

Há muitas maneiras de analisar o GP da Itália. Dependendo do ponto de vista, pode-se pensar em como a Ferrari perdeu ou como a Mercedes ganhou: A Ferrari perdeu porque Kimi defendeu sua posição na largada? Por conta do toque de Vettel? Pela parada no box antecipada? Pelo acerto do carro? Pelas voltas em que Raikkonen teve de forçar o ritmo logo no começo do stint? Por ter ficado preso atrás de Bottas? E a Mercedes, ganhou porque deu o drible na Ferrari na parada? Porque usou Bottas como escudeiro? Porque cuidou melhor dos pneus? Ou porque Hamilton anda imbatível?

Provavelmente, a resposta está em um caldeirão com todos estes ingredientes. Mas existe um princípio que vem antes de tudo isso, antes mesmo da classificação: A Mercedes conseguiu bater a Ferrari quando a rival era favorita agindo exatamente como a Ferrari fez por várias vezes ano passado. Sabendo que dificilmente bateria os italianos na classificação, focou em um acerto – provavelmente mais de cambagem do que de qualquer outra coisa – voltado a fazer os pneus durarem na corrida. Retardou sua parada e se aproveitou do desgaste dos pneus de Kimi no final para vencer.

Na pista, as coisas começaram a dar errado para a Ferrari na classificação, quando ficou claro que Raikkonen não seria um escudeiro e provavelmente já tinha sido avisado de que dificilmente permanece ano que vem na Scuderia. Afinal, em um circuito no qual o vácuo é importantíssimo, a Ferrari fez um Q3 equilibrado: Vettel foi ajudado na primeira tentativa, e o finlandês, na segunda. Como a pista costuma estar melhor no final, a decisão foi estranha e o alemão disse que conversaria a portas fechadas, mas o resultado foi a pole de Kimi.

Pela agressividade de Vettel nos primeiros metros, ele não esperava que o companheiro abrisse a porta, e ainda por cima se colocou em posição muito vulnerável na curva 4. Na trajetória normal e ligeiramente à frente, não seria Hamilton quem iria aliviar, e o toque jogou Vettel para o fundo do pelotão.

Sua recuperação a partir dali já estava totalmente comprometida, pois ele tinha apenas um pneu macio novo, um carro com danos no assoalho, e acabou tendo sorte com a teimosia de Verstappen na parte final da prova para ganhar dois pontinhos a mais.

O prejuízo teria sido menor caso Raikkonen tivesse conseguido vencer, mas a disputa começou a se complicar quando Hamilton não deixava o finlandês escapar. É possível que Vettel, que geralmente tem um ritmo melhor, conseguisse, mas também é preciso frisar a inteligência do inglês de usar o vácuo para não deixar o rival escapar.

Por conta disso, assim que a janela de pit stops abriu, a Ferrari chamou Raikkonen aos boxes, uma vez que o undercut era uma possibilidade real. A parada não foi cedo demais: com o ritmo certo, era possível chegar tranquilamente ao final da corrida.

O problema é que os engenheiros pediram para Kimi forçar o ritmo mesmo depois que ele já tinha uma margem tranquila para se defender do que agora seria um overcut de Hamilton, que optou por ficar na pista por mais voltas, indicando que apostaria em ter um pneu melhor no final para atacar.

Sabe-se que forçar muito no início do stint é ruim para o pneu Pirelli. Isso faz com que a temperatura suba internamente, algo que gera bolhas. A princípio isso não é um problema em termos de performance – mesmo aparentando estar em péssimo estado, o pneu não perde desempenho inicialmente por conta de blistering – mas a chance de uma quebra brusca no final do stint aumenta consideravelmente.

O resultado foi uma margem de 5 a 6s maior do que o necessário quando Hamilton fez sua parada, algo que seria inevitavelmente dizimado pela presença de Bottas na pista, com os pneus longa-vida que a Mercedes calçava por ter focado mais na corrida. O finlandês cumpriu seu papel muito bem, fazendo a Mercedes parecer um caminhão, posicionando-se no meio das freadas, e fazendo seus pneus durarem quase 40 voltas.

Quando o finlandês fez sua parada, o cenário estava pronto para Hamilton “finalizar’ Raikkonen. Como ele mesmo disse depois, é como se o piloto fosse o último elo da engrenagem, que estava perfeita até aquele momento. E ele cumpriu seu papel, manteve a engrenagem funcionando, passou um Raikkonen fragilizado devido ao estado dos pneus e conquistou – mais uma – vitória improvável nesta temporada.

Drops do GP da Itália e Leclerc na Ferrari

O novo chefe da Ferrari, Loius Camilleri, deu o ar da graça no paddock da F-1 pela primeira vez na sexta-feira e mostrou um estilo de liderança bem diferente de seu antecessor, Sergio Marchionne. Ao invés das frases de efeito e ameaças, o novo chefe até se distanciou das decisões da equipe, colocando-o o futuro de Raikkonen mais nas mãos de Arrivabene e comparando Vettel a Cristiano Ronaldo.

 

A citação ao jogador português, aparentemente gratuita, é interessante, uma vez que comenta-se que o Grupo Fiat, por sua ligação com a Juventus, esteja bancando seu salário para usá-lo como uma espécie de embaixador da Ferrari.

 

Voltando a Raikkonen, que chegou a Monza de ótimo humor, o fato dele não ter sido confirmado neste final de semana já não foi um sinal nada bom para ele. Há quem diga que a parte técnica da equipe não está convencida de suas performances: o finlandês vem, sim, fazendo um campeonato muito melhor que os últimos, mas também é fato que o carro é mais versátil e isso o ajuda a andar bem.

 

Por conta disso, há semanas a Ferrari tenta cancelar o contrato que Leclerc tinha assinado com Sergio Marchionne. Juridicamente, pode até ser possível, mas o problema é político: será que vale a pena se desgastar com a própria família do ex-presidente e, principalmente, com os Todt – uma vez que Leclerc é empresariado por seu filho? O martelo seria batido em uma reunião do conselho nesta semana.

 

Quem também apareceu pelo paddock foram os organizadores do GP do Vietnã. Existe um enorme interesse da Heineken em ter uma corrida pelas ruas de Hanói, mas está sendo difícil entrar em acordo com as autoridades locais sobre um local para a pista e o investimento governamental. Talvez por isso a visita, que serviria praticamente para confirmar que as negociações estão avançadas para 2020, acabou com todo mundo fingindo que nenhum vietnamita passou pelo paddock.

 

Depois de toda a novela da Force India, agora as atenções se voltam para a Williams, que teve a chance de esvaziar a Force India e “melar” o negócio de Lawrence Stroll há alguns meses. Mas faltou habilidade política para Claire Williams conseguir o que queria.

 

O time agora pode ficar nas mãos dos russos. Sirotkin deve continuar e pode ter ao seu lado Mazepin, hoje piloto de testes da Renault. Seu pai é um bilionário do ramo de fertilizantes, trazendo o dinheiro do qual a Williams desesperadamente precisa. O problema é que, ao contrário do que se poderia imaginar, os dois russos não se bicam…

 

No sábado, houve um encontro dos jornalistas com Todt e Whiting. E vários pontos interessantes foram discutidos: que a F1 nunca mirou teto orçamentário, que mais de uma empresa está concorrendo para fornecer pneus a partir de 2020 (Pirelli e Hankook), que o objetivo com o novo motor é que o lift and coast acabe e até uma opinião diferente de Todt em relação a Brawn, dizendo que a F1 tem de comemorar ter quatro fornecedores de motores ao invés de esperar que mais se interessem.

 

Mas o melhor foi o todo poderoso presidente da FIA atendendo uma ligação no meio do briefing com seu aparelho vintage, que poderia ser o mesmo desde o início dos anos 2000.

A casa loro

“Fique ao lado de Lewis por toda a volta. Vamos fazer isso para nossos companheiros italianos.” A instrução dada a Valtteri Bottas na volta de retorno aos boxes após o final do GP da Itália dá a medida do tamanho da conquista da Mercedes e de Lewis Hamilton neste domingo. Mesmo depois do inglês vencer e do pódio do finlandês garantir 10 pontos a mais que a Scuderia, eles seguiam falando como encararam a prova como daquelas em que limitar os danos seria uma vitória. Não por acaso, o resultado foi tratado como muito mais do que a pontuação de ambos os campeonatos podem computar.

Mas como foi possível ganhar a prova em um circuito no qual tudo levava a crer que o ritmo da Ferrari seria imbatível? Primeiramente, há as respostas mais óbvias: Vettel colecionou mais um erro no que tem sido sua pior temporada desde 2014, e Hamilton fez, em Raikkonen, mais uma de suas manobras cirúrgicas e indefensáveis.

Mas esses dois lances não são suficientes para contar a história deste GP da Itália. O crucial foi a maneira como Raikkonen não conseguiu escapar de Hamilton em nenhum momento. Parte da resposta está no grande trabalho de Valtteri Bottas, que não só segurou o compatriota mesmo com pneus supermacios com mais de 35 voltas – e tendo seguido Verstappen de perto, ou seja, com todos os motivos para estar forçando com sua borracha, por toda a primeira parte da prova – como também ajudou a deixar os pneus do rival em péssimo estado no final.

A ajuda de Bottas foi importante em um momento crucial, quando a Mercedes viu que não conseguiria passar Raikkonen se Hamilton parasse, mantendo-o na pista tempo suficiente para criar uma diferença significativa entre os pneus no final. E essa decisão só foi tomada porque eles podiam, com Bottas, controlar o ritmo de Raikkonen.

Mas de onde veio todo aquele ritmo que permitiu a Hamilton se manter colado em Raikkonen por todo o primeiro stint? Perguntei a ele, que se disse surpreso, mas deu algumas dicas: “Os engenheiros disseram para mim que tinha de tentar ficar a no máximo 1s5 dele, falei que eles estavam malucos, que não daria para seguir outro carro de tão perto porque você perde muita aderência. Mas fiz algumas mudanças no meu volante e o carro ficou ótimo. Depois o vácuo aqui ajuda muito, então é como se ele estivesse me puxando com ele. E ele também foi cometendo pequenos erros, como na primeira chicane, e isso fazia com que eu me mantivesse na zona de DRS.”

São vários os comentários que podem ser feitos dessa declaração. Mas principalmente dá para entender a ênfase que o engenheiro de Hamilton deu ao trabalho dele no volante. Para ganhar em Monza, ele não dependia somente de erros das Ferrari, mas da perfeição dele mesmo. Dito e feito.

Raikkonen, por sua vez, acabou pagando caro pelas voltas rápidas que teve de dar no começo do stint dos pneus macios, que acabaram gerando as bolhas que comprometeram a aderência no final. Sem isso, o finlandês estava convencido de que ganharia.

Do lado da Ferrari, pode ficar a imaginação do que teria sido a corrida com Vettel largando na pole e ditando o ritmo. Mas se isso não aconteceu, ele só tem a si mesmo para culpar. Como em Baku, na França, e na Alemanha. E sua incapacidade de admitir que, em Monza, foi ele mesmo quem se colocou em situação vulnerável ao toque gera a dúvida se essa será a última vez que o alemão vai se complicar em um campeonato que tinha tudo para ter uma cara bem diferente.

A corrida, que foi uma das melhores da temporada, ainda teve muita ação do meio para o fim do pelotão, com vários carros se classificando fora de posição depois de um grid definido nos milésimos. O resultado foi a chegada, em duas corridas, da Force India ao oitavo posto entre os construtores. A próxima vítima é a Toro Rosso, que está só a dois pontos e será a próxima vítima. De forma realista, dá para chegar na McLaren, que está 24 pontos na frente. Com isso, eles recuperariam sua posição original.

Outra briga que pegou fogo em Monza é entre Renault e Haas. Os norte-americanos têm sido muito mais consistentes nas últimas provas e passaram os franceses. Mas a Renault já tinha preparado um protesto, que fez com que o carro de Grosjean fosse desclassificado do sexto lugar, invertendo novamente essas posições.

A questão foi uma diretiva técnica distribuída em julho que esclarecia a regra para as placas de referência, aquela que costumava ser a prancha de madeira que desclassificou Schumacher em 94. Os carros que não estavam em confirmidade teriam que mudar antes de Spa, mas a Haas avisou a FIA que não teria tempo hábil para fazer outro assoalho antes de Cingapura. A entidade respondeu que entedia a situação, mas deixou claro que, desta forma, a Haas estaria exposta a protestos dos rivais. Dito e feito.

P.S.: Vi que alguns comentários apontam para o excesso de críticas em relação a Vettel. Sim, todo mundo erra e o mau julgamento de Monza não é tão grave quanto Hockenheim. Mas a questão é que os erros estão acontecendo só de um lado, e isso os redimensiona.

Perguntei, aliás, a Hamilton se ele achava que tinha algum papel nos erros de seu rival. Ele foi muito político, destacou a pressão colocada sob os dois em uma disputa tão apertada. “Somos o último elo em uma engrenagem enorme, e se nós falhamos, a engrenagem toda quebra. A pressão é tanta que estamos correndo sob uma lupa, e qualquer detalhe se torna muito importante.” É difícil discordar.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Itália

Hamilton9 a 5Bottas
Vettel11 a 3Raikkonen
Verstappen10 a 4Ricciardo
Perez4 a 10Ocon
Hulkenberg9 a 5Sainz
Stroll6 a 8Sirotkin
Gasly10 a 3Hartley
Alonso14 a 0Vandoorne
Leclerc11 a 3Ericsson
Grosjean5 a 9Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s362

Raikkonen x Vettel: 0s161

Verstappen x Ricciardo: sem tempo

Ocon x Perez: 0s318

Hulkenberg x Sainz: sem tempo

Stroll x Sirotkin: 0s238

Alonso x Vandoorne: 0s235

Gasly x Hartley: 0s100

Grosjean x Magnussen: 0s430

Leclerc x Ericsson: 0s318

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Drops do GP da Bélgica e a impagável Claire Williams

O paddock da F1 voltou agitado das “férias”, com tantos movimentos no mercado de pilotos. A próxima peça que deve se encaixar é Raikkonen, que estava fora do time há dois meses, e agora tem grandes chances de renovar, muito em função de sua popularidade com o lado do marketing ferrarista. Com isso, o nome de Leclerc começou a ser associado com a Haas.

 

Essa informação vem de um jornalista que praticamente vive dentro da Sauber, mas é estranha pela maneira como Gene Haas gere seu time. A única lógica seria a vontade da Ferrari de promover Giovinazzi. A Sauber poderia, inclusive, mudar os dois pilotos, já que Fred Vasseur está de olho na dança da cadeira. Ele gosta muito de Vandoorne e vê Grosjean como melhor que Ericsson. Assim que um deles estiver no mercado, vai tentar convencer os acionistas (inclusive os suecos).

 

Outra discussão é em relação ao futuro da Force India. Lawrence Stroll quer colocar seu filho na equipe que acabou de comprar, mas isso depende de uma vaga ser assegurada para Ocon. A vontade de Toto Wolff é colocá-lo na McLaren, mas parece que o contrato de Vandoorne está bem amarrado.

 

Falando em McLaren, conversei com Gil de Ferran sobre o futuro do time. Ele deixou claro que Vandoorne e Norris não são as únicas opções e disse algo interessante: que a relação de Alonso com a McLaren está sendo negociada. Ou seja, é possível que sua associação com a equipe não continue dependendo do que ele escolher fazer ano que vem.

 

Voltando à Force India, Renault, McLaren e Williams voltaram atrás e liberaram o dinheiro da premiação para a equipe. Como tudo na F-1, claro que isso teve um preço: a continuidade do nome Force India. Por que os rivais se importariam com isso? Na prática, essa manutenção dificulta que o time se torne uma Mercedes B, já que os alemães não querem uma associação com a marca de Mallya.

 

Essa questão das equipes B tem dado o que falar nos bastidores, especialmente pela estrutura que a Ferrari acabou criando com Haas e Sauber. Na prática, eles estão sendo usados como fonte de pesquisa e desenvolvimento, que é limitado por regulamento.

 

Mas não é uma discussão simples. O projeto da Haas, que gastou muito menos que outras que entraram no esporte – e teve resultados muito melhores – indica o caminho do futuro para novos times. E se essa possibilidade for cortada a própria saúde do esporte.

 

Mas eu não poderia falar do GP da Bélgica sem citar uma das melhores noites do ano: o pub quiz da Williams, apresentado pela impagável Claire Williams e seu senso de humor – e os shots que ela obriga todo mundo a tomar pelos mais variados motivos. Houve vários momentos impagáveis. Claire “puniu” alguns jornalistas com shots e o “cantinho da travessura” por terem criticado a equipe. Mas ela não sabia onde colocar a cara quando a cadeira em que o apresentador da Sky britânica estava simplesmente quebrou do nada. Usando as pernas da cadeira como se fossem antenas, Damon Hill perguntou: “Foi Paddy Lowe quem desenhou isso aqui?”

 

Mas o melhor foi que Lawrence Stroll apareceu por lá, sem saber o que estava acontecendo. Vi o olhar de desespero do bilionário quando estávamos todos pedindo para ele tomar um shot e ele viu as opções – Sambuca, vodka Absolut e Jaggermeister – e disse “eu não vou beber ISSO!”. Mas não teve saída. Acho que foi a primeira vez que o vi sorrindo.

 

Ok, talvez isso não tenha sido o melhor, mas sim a vitória do nosso grupo. É o segundo quiz que ganho em dois GPs!

Finalmente, Ferrari

Uma hora a Ferrari e Sebastian Vettel deixariam os erros para trás e mostrariam toda a força de seu conjunto. E não haveria nada que Lewis Hamilton e a Mercedes poderiam fazer para pará-los. Essa foi a história do GP da Bélgica, e muito provavelmente também será em Monza. O time vermelho só precisa fazer a lição de casa.

Lição que quase escapou no sábado. O time decidiu dividir as estratégias quando começou a chover: os pneus de Raikkonen seriam trocados o mais rápido possível, na aposta de que a chuva pioraria. E Vettel teria o carro reabastecido para estar na pista nos momentos finais, apostando que pararia de chover. Essa operação não foi perfeita, pois o carro de Vettel foi arrastado pelos mecânicos, o que irritou o alemão, mas acabou não gerando nenhuma consequência. Pelo menos no carro: Vettel acabou se atrapalhando e não carregou direito as baterias antes da volta crucial. E foi batido por Hamilton. Já Raikkonen ficou bem irritado com a equipe por ter ficado com a estratégia pior.

Para o finlandês, foi algo definitivo: largando mais no meio do pelotão, ele sempre estaria mais exposto e acabou sendo envolvido no strike de Hulkenberg – quando Alonso atingiu a asa traseira de Ricciardo e ele acabou tocando Kimi.

No caso de Vettel, ele tinha uma chance de reparar o erro: passar Hamilton na primeira volta. O alemão ainda chegou a temer que a vitória estaria perdida novamente quando viu o Safety Car, porque agora seria Hamilton que teria a chance de passá-lo na Les Combes. Mas, assim que acelerou sua Ferrari na saída da La Source, a diferença de potência ficou clara e em mais nenhum momento ele seria ameaçado.

Tal velocidade do carro vermelho deixou Hamilton espantado. Mesmo que a Mercedes ainda seja um pouco superior em curvas de alta velocidade, abundantes em Spa, a vantagem do motor da Ferrari é tamanha que anulou completamente qualquer vantagem. Em Monza, com menos curvas e chicanes travadas, onde a Ferrari é melhor, só dá para esperar um passeio diante dos tifosi.

No mais, Nico Hulkenberg assumiu que errou feio na freada para a primeira curva e levou uma punição de 10 posições para Monza. Impossível não lembrar da batida de 2012, pela qual Grosjean pegou um gancho de um GP. Mas no documento daquela decisão, havia um detalhe que foi bizarramente levado em conta: o acidente foi com postulantes ao título.

Seja como for, o certo é que todos que forçaram para que o halo fosse adotado respiraram aliviados: imagina se a FIA tivesse voltado atrás por conta do visual dos carros e uma das grandes promessas do grid sofresse alguma lesão séria justamente por isso?

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Bélgica

Hamilton8 a 5Bottas
Vettel11 a 2Raikkonen
Verstappen9 a 4Ricciardo
Perez4 a 9Ocon
Hulkenberg8 a 5Sainz
Stroll5 a 8Sirotkin
Gasly9 a 3Hartley
Alonso13 a 0Vandoorne
Leclerc10 a 3Ericsson
Grosjean4 a 9Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: sem tempo

Vettel x Raikkonen: 3s766

Verstappen x Ricciardo: 0s170

Ocon x Perez: 0s043

Hulkenberg x Sainz: 0s344

Sirotkin x Stroll: 0s136

Alonso x Vandoorne: 0s390

Gasly x Hartley: 0s021

Grosjean x Magnussen: 0s170

Leclerc x Ericsson: 0s239

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1 entre cerveja, pasta e tradição

Já falei como estes dois GPs são bem diferentes entre si aqui e aqui. Mas fazer os dois juntos pode ser uma experiência interessante, incluindo até uma bela road trip no meio!

GP da Bélgica

Compre ingresso para: general admission ou Gold 8

Aí vai depender da sua disposição de encarar as ladeiras, longas distâncias e o clima imprevisível da floresta das Ardenhas: o general admission do GP da Bélgica dá um acesso muito bom, tem um preço bem razoável (menos de 600 reais) mas também exige muita disposição. Se for de arquibancada, escolha uma coberta e se proteja do sol, que pode ser bem forte, ou da chuva, que também não costuma vir em conta-gotas. A melhor delas é na frente da La Source, mas custa mais de 2.000 reais.

Hospede-se em: camping ou cidade próxima

Outra vez, depende da experiência: se a Áustria já é cheia de holandeses, o GP da Bélgica é completamente lotado e a opção de alugar um motorhome e ficar no camping, indo a pé para a pista, certamente será mais complicada do que no Red Bull Ring, até pelas distâncias, que serão maiores de qualquer jeito. Então uma opção mais confortável é ficar em alguma das cidades próximas.

Vá de: carro

O GP da Bélgica é um em que compensa alugar um carro. Primeiro porque, chegando do Brasil, o aeroporto mais cômodo seria de Bruxelas, que fica a 140km da pista, e depois a ida à pista sem carro exigiria a combinação trem + ônibus + caminhada e só o caminho do ônibus da estação mais próxima, de Viviers, leva 45 minutos. Mas é bom lembrar que é possível chegar lá com transporte público.

Não perca: as cervejas

Imagine fazer um tour de cervejas trapistas? Entendedores entenderão. E se não for na Bélgica, onde mais?

Combine com: qualquer direção está valendo

Pensando em uma viagem de carro, dá para esticar ao sul para Luxemburgo, ao leste para Colônia, na Alemanha, ao norte para a Holanda ou mesmo conhecer as belas cidades belgas de Bruges e Ghent.

Quanto fica? O voo para Bruxelas sai por 3.500 reais e o restante dos custos fica por conta da opção de ingresso – de 600 a 2.000 – acomodação, que não é cara por lá, pois muitos moradores alugam casas espaçosas na região por menos de 600 reais por pessoa e o aluguel do carro por cerca de 500 reais. Então dá para ver o GP da Bélgica por cerca de 6.000 reais.

GP da Itália

Compre ingresso para: Alta Velocità 6c

Já que é para ver um dos GPs mais tradicionais da temporada, que seja em um lugar onde muita coisa acontece: essa arquibancada é cara, quase 2 mil reais, mas tem a visão da primeira chicane e, de quebra, fica logo à frente do velho oval.

Hospede-se em: Milão

Pode ser difícil encontrar hospedagem em Monza, então a solução de ficar em Milão dá mais flexibilidade em termos de preço e não complica muito a logística.

Vá de: transporte público

Se a opção for mesmo ficar em Milão, as conexões de trem para Monza são frequentes e há um serviço de ônibus, por 4 euros ida e volta, da estação até a pista.

Não perca: o velho oval de Monza

Especialmente sábado e domingo os seguranças tentam impedir que se ande nessa parte histórica da F-1, mas geralmente o que sobrou do velho oval é de livre acesso ao público, uma vez que o circuito está dentro de um parque municipal. Então tente ir um pouco antes ou um pouco depois da prova e me mande vídeos tentando subir até o topo da pista, por favor!

Combine com: lagos Garda, Maggiore ou Como

Esqueça a fria Milão e vá mais ao norte, perto da fronteira com a Suíça. Todos os três lagos são belíssimos. O de Como é o mais famoso até pela facilidade de se chegar por lá de trem de Milão (e de Monza também), mas há quem diga que o Garda é o mais bonito…

Quanto fica? A passagem para Milão sai por 3.000 reais. Hospedagem e transporte, uns 1.500, ingresso 2.000. Pode ir separando uns 8.000 para curtir o GP da Itália saindo do Brasil – até porque você vai querer comer bem por lá.

O título perdido pela diplomacia

A temporada de 1958 da Fórmula 1 foi marcada por muitas fatalidades, a despedida histórica de Fangio, a primeira corrida de uma mulher, Maria Teresa de Filippis, e o que é considerado um dos resultados mais injustos da história. Mas o que talvez tenha sido a derrota mais dolorida da carreira de Stirling Moss teve muito a ver com seu próprio caráter, em um episódio que completa 60 anos nesta semana.

A curiosa história ocorreu naquele que foi o primeiro GP de Portugal de Fórmula 1, apesar do nome: VII Grande Prêmio de Portugal. Isso porque provas de carros esportivos eram realizadas desde 1950 no Porto e em Lisboa. E embora o GP de Portugal tenha permanecido no calendário até os anos 1990, o circuito da Boavista, nas ruas do Porto, só recebeu a categoria em 58 e em 60, e ficou famoso por ser uma pista de velocidades altas devido às longas retas, e de difícil ultrapassagem. Linhas de bonde, postes de iluminação e guias faziam parte do circuito.

Na luta pela pole, Stirling Moss, da Vanwall, bateu Mike Hawthorn, da Ferrari. E o primeiro piloto agenciado por Bernie Ecclestone, Stuart Lewis-Evans, completou a primeira fila no grid de largada. Em uma pista ainda molhada devido à chuva que caiu horas antes da largada, os 15 carros largaram e Moss manteve a ponta inicialmente, mas foi ultrapassado por Hawthorn ainda na primeira volta.

Moss recuperaria a ponta depois que a pista começou a secar, na oitava volta, e abriu, enquanto os freios da Ferrari de Hawthorn começavam a dar sinais de desgaste. Mas na décima volta os dois já tinham aberto quase 30s para o terceiro colocado.

Hawthorn, então, desistiu de perseguir o líder, que abriu um minuto com 25 das 50 voltas disputadas, diferença que passaria dos cinco minutos ao final da prova de pouco mais de 2h. O britânico chegou a ir aos boxes para tentar reparar sua Ferrari, mas sem sucesso. Com o tempo perdido, chegou a perder posições, mas os rivais acabaram tendo quebras.

http://www.youtube.com/watch?v=q4DYX0lp8fk

Na volta final, Moss se preparava para dar uma volta em Hawthorn, enquanto a outra Vanwall, de Lewis-Evans, estava em terceiro lugar e a poucos segundos da Ferrari. A equipe mostrou uma placa a seu piloto que indicava 5s de vantagem a Lewis-Evans e Hawthorn entendeu que se tratava da Vanwall que ele via logo atrás. Mas o carro era do líder Moss.

O eterno rival de Fangio conta que estranhou o semblante de Hawthorn quando ele conseguiu a ultrapassagem. “O velho Mike deve estar bravo por eu ter dado uma volta nele”, pensou, e devolveu a posição.

Com isso, Hawthorn acabou não recebendo a bandeirada, pois ela foi dada ao vencedor logo atrás, e seguiu andando forte, até rodar sua Ferrari. Moss, então, parou para tentar ajudar Hawthorn, que tinha deixado o motor morrer e, na confusão, o carro acabou sendo empurrado na contra-mão.

Isso fez com que os observadores da época quisessem desclassificar Hawthorn, mas Moss defendeu o rival, colocando-se como testemunha ocular e argumentando que todos tinham tirado o pé (afinal, todos tinham levado uma volta), então não houve nenhum comprometimento de segurança. A prova acabou pouco depois das 18h, mas o resultado só saiu após as 23h, confirmando Moss em primeiro, Hawthorn em segundo e Lewis-Evans em terceiro.

O GP de Portugal seria a nona de 11 etapas no campeonato, e a terceira vitória de Moss – contra apenas uma do rival. Mas a Vanwall tinha dividido os pontos entre seus três pilotos – Tony Brooks também fazia parte do time – e Moss acabou chegando à etapa final, no Marrocos, precisando vencer e torcer para Hawthorn terminar em terceiro ou abaixo disso. Para tanto, precisava da ajuda dos companheiros, que seguraram a Ferrari até terem problemas de motor – que acabaram matando Lewis-Evans devido a queimaduras. Hawthorn foi segundo, ganhou o campeonato por um ponto e morreu semanas depois em um acidente de carro.

As próximas peças do mercado de pilotos

Foto da turma de 2019 já vai ser bem diferente

 

O mês de agosto mal passou da metade e já deu algumas chacoalhadas no mercado de pilotos. Com os dois pilotos que estavam segurando todas as deciões – Ricciardo e Alonso – se posicionando, as mais peças começam a se encaixar. Mas ainda há muitas incertezas. Afinal, só 7 pilotos estão confirmados até agora.

Red Bull e Ferrari encaminhadas

Com a confirmação de Sainz na McLaren, a próxima peça no tabuleiro deve ser Pierre Gasly no lugar de Ricciardo na Red Bull. Em teoria, o espanhol era o substituto natural, mas a relação com Verstappen na época de Toro Rosso não foi das melhores – e nisso ambos concordam. A briga de vaidades chegou até aos pais na época e muito da pressão dos Sainz de fechar o empréstimo para a Renault teve a ver com a necessidade de respirar ares fora do ambiente Red Bull, controlado pelo holandês. O mesmo pensamento, aliás, ajudou na decisão do próprio Ricciardo.

Já na Ferrari houve uma calmaria nos boatos desde a morte de Marchionne. Sabe-se que ele pressiona para Raikkonen ser substituído por Leclerc, mas não era o único que pensava assim. O finlandês, por sua vez, conversou com a McLaren e parece ter ganhado terreno nas últimas semanas. De fato, faz seu melhor campeonato desde que voltou à Scuderia.

Como a McLaren influencia

Primeiramente, a confirmação de Sainz deixa claro o caminho da Red Bull, mas a McLaren também pode influenciar a dupla da Toro Rosso. O time está dificultando a liberação do projetista James Key, e Lando Norris poderia entrar como moeda de troca. No cenário atual, seguem provavelmente com Hartley, que vem ganhando moral com a Honda.

Também não passou despercebida a confirmação apenas de Sainz. A McLaren vem cobrando Vandoorne publicamente e negocia com outros pilotos, como Perez. Unindo experiência e 15 milhões de euros de patrocínio, o mexicano tem algumas opções: pode ainda ir para a Haas ou seguir na Force India.

Como Wolff influencia

Esta última hipótese depende de Toto Wolff e do tipo de acordo que ele firmar com a equipe que agora é gerida por um grupo de investidores capitaneados por Laurence Stroll. Claro que o propósito do negócio é colocar Lance em uma das vagas, mas a outra pode ir para um piloto Mercedes em troca de um desconto ou para alguém que traga dinheiro e “cancele” esse custo.

Mas a Force India, é claro, não é a única cliente Mercedes. Com a perspectiva de um orçamento bem mais enxuto ano que vem sem os Stroll e a Martini, a Williams deve tentar acordo semelhante com Toto. Pelo menos pilotos, os alemães têm: Esteban Ocon e George Russell estão aí para isso. De qualquer forma, pelo menos Sirotkin deve continuar.

O restante das vagas devem ser preenchidas depois destes passos iniciais e há mais perguntas do que respostas: se a Ferrari fechar com Kimi, vai querer Leclerc na Haas ou na Sauber? E o futuro de Vandoorne, muito bem visto justamente pelo chefe da Sauber? E Grosjean, fica ou não? Assim como era preciso esperar Ricciardo e Alonso se movimentarem, muita água deve passar por debaixo da ponte antes que o grid inteiro de 2019 seja definido.

As decepções da temporada até aqui

Enquanto teve equipe praticamente novata e piloto jovem surpreendendo, vários medalhões ficaram devendo até aqui na temporada 2018, dentro e fora do cockpit. Aí vai a lista:

 

Falhas de Vettel sob pressão

O alemão poderia muito bem estar liderando o campeonato. Na verdade, deveria, pois tem nas mãos aquele que tem sido o carro mais consistente neste ano. Mas somou três erros capitais, forçando demais uma ultrapassagem em cima de Bottas com freios e pneus frios em Baku, bateu também com o finlandês na França e, é claro, escapou sozinho quando liderava na Alemanha. É difícil prever o que teria acontecido com sua corrida em Paul Ricard, mas dá para calcular mais ou menos 35 pontos jogados fora. É importante para Vettel virar o jogo na segunda metade da temporada, uma vez que mais erros podem minar rapidamente sua posição de força dentro da Ferrari.

 

Falhas da Mercedes sob pressão

Lembro de entrevistar Toto Wolff ainda no testes e notar nele uma grande preocupação em relação à motivação de sua equipe depois de quatro anos em que eles tiveram, salvo no início de 2017, vida fácil. E parece que o temor era justificado: pela primeira vez desde os anos 1950, no GP da Áustria, a Mercedes sofreu um abandono duplo por problemas de confiabilidade, e as estratégias deixaram a desejar por várias vezes, desde o drible da Austrália até a incerteza que quase tirou de Hamilton a vitória na Alemanha.

O poço sem fundo da Williams

Falando com Felipe Massa no começo do ano, perguntei se ele tinha qualquer indicativo da queda de sua Williams nesta temporada e o piloto se mostrou muito surpreso. “Na verdade, o que eu esperava era justamente o contrário!”. Afinal, seria o primeiro projeto com a direção técnica de Paddy Lowe, mas o que se viu até aqui foi um verdadeiro desastre. O carro, além de lento, é imprevisível, e a equipe está tão perdida no desenvolvimento que vê os mesmos problemas se repetirem desde a Austrália. Pelo menos nessa primeira metade, a imagem que fica é do verdadeiro carnaval de flow-viz dos testes de Budapeste, um péssimo indicativo.

 

McLaren de motor novo

Chega até a ser cômico lembrar das declarações dos chefes da McLaren ano passado, garantindo que o GPS comprovava que seu carro estava no nível dos Red Bull em contorno de curva, especialmente em pistas como Hungaroring ou Mônaco, e que os resultados só não vinham por conta da defasagem do motor. Agora o time não apenas é o pior entre os que usam o motor Renault, como também perdeu o bom desempenho nos circuitos de baixa velocidade, com um carro que ao mesmo tempo gera muito arrasto nas retas e não gera pressão aerodinâmica nas curvas. Ou será que Gasly está certo e a dirigibilidade do motor Honda é melhor mesmo?

 

As “negociações a céu aberto” da Liberty

Os exemplos são inúmeros, mas o mais claro foi o caso do GP de Miami. Primeiro foi anunciado que ia acontecer, depois que não seria em 2019 e agora muita gente duvida que vai mesmo sair do papel – e se questiona por que anunciar algo que era apenas um projeto inicial. Isso sem falar no F1 Live, streaming que não está disponível no Brasil e que deu muita dor de cabeça no começo do ano também por ser lançado antes de estar pronto. São desgastes que vão minando a confiança no pulso dos novos donos.

As (boas) surpresas da temporada até aqui

Uma imagem à qual vamos nos acostumar em breve?

Há algumas coisas que desafiam a lógica na Fórmula 1. Como o crescimento gigantesco da Ferrari depois de uma segunda metade em que o time ficou devendo em 2017, trazendo consigo suas duas clientes. E pilotos da nova geração mostrando que o futuro da categoria está em ótimas mãos. Foram estas as surpresas da temporada até aqui.

 

Leclerc e seus cinco top 10 em 6 corridas

Havia uma grande expectativa em relação à estreia de Charles Leclerc depois do domínio absoluto na F2 ano passado. Mas surpreende a consistência do novato, ao mesmo tempo em que o crescimento da Sauber também impressiona. O time inovou em alguns conceitos de seu carro e está usando muito bem a verba extra da Ferrari via Alfa Romeo. Mas até mesmo gente de dentro da equipe credita uma parcela considerável dos resultados do time, que já tem quase quatro vezes mais pontos do que em todo o ano de 2017, a sua estrela.

 

Gasly e o quarto lugar no Bahrein

Um dos rivais de Leclerc desde o kart – e amigo fora das pistas – é outro que mostrou serviço neste ano. Gasly fez 26 dos 28 pontos da Toro Rosso neste ano, grande parte deles com o quarto lugar no GP do Bahrein. Não se trata exatamente de uma pista de alta velocidade, mas tem retas longas e, mesmo assim, o francês conseguiu o melhor resultado da Honda desde seu retorno à F1.

 

Ferrari como o carro mais consistente do ano

Quem diria que o time que foi superado na corrida de desenvolvimento ano passado daria essa volta por cima. Desde o início do ano, a Ferrari está na cola da Mercedes, mas com uma vantagem: o carro não tem pontos fortes marcantes, rende de forma linear independente do circuito, temperatura ou tipo de pneu, ao contrário do que aconteceu muitas vezes até aqui com a Mercedes. Com isso, conseguiu resultados impressionantes, especialmente com a velocidade demonstrada em Silverstone, onde levou uma lavada ano passado.

 

Haas figurinha fácil no Q3

De certa forma, faz sentido: a Ferrari cresceu neste ano e sua cliente, digamos, mais próxima, veio junto. Mas não deixa de ser surpreendente ver um time com menos de um quarto dos funcionários lutando frente a frente com a Renault em várias pistas. E não fosse por erros de Grosjean e nos pit stops, a briga se estenderia ao quarto lugar no campeonato de construtores. É um indicativo forte de que Gene Haas foi um visionário ao perceber a oportunidade que o regulamento dava para uma equipe ser competitiva logo de cara com um investimento autossustentável.

 

Audiência resistindo ao Brasil sem representantes

Na verdade, é uma surpresa para os céticos. Existe a chance do interesse dos brasileiros diminuir caso essa situação se mantenha por muitos anos, e principalmente se a Globo deixar de mostrar as corridas na TV aberta. Mas o que se tem visto até o momento são números estáveis ou com pouca variação em relação ao ano passado, o primeiro no qual houve crescimento de audiência depois de sete anos seguidos de queda. O destaque foi o GP da Alemanha, com 11,1, maior audiência da F1 desde o GP da Espanha de 2017.

Segundona de vídeo e entrevista

Do fundo do baú: acho que no meu segundo ano de F1

Deixo para vocês dois conteúdos diferentes para começar mais uma semana sem F1. Um é meu vídeo para o Boteco F1 com o testemunho de como as cinco corridas em seis semanas de junho/julho afetaram a capacidade das equipes darem o máximo de si. Engraçado que, nos comentários, teve gente preocupada com minha voz falhando e a cara de cansada, o que só comprova o que estava dizendo, pois gravei o vídeo na quarta-feira após o GP da Hungria…

E deixo também o link de uma entrevista que dei a um site inglês muito interessante focado em mulheres no automibilismo. Ao contrário da grande maioria das vezes em que esse assunto é abordado, não há nenhuma pergunta sobre machismo. Afinal, isso é óbvio em todas as áreas. O que as meninas querem saber e merecem saber é como chegamos lá.

Não coincidentemente, foi a entrevista em que me senti mais à vontade para contar minha história, cheia de desafios não por ser mulher, mas pelo pouco que passa pelo funil que eu escolhi. Afinal, que ninguém ache que é fácil estar em um grupo de menos de 100 jornalistas – e sendo a única de seu país – que acompanham a F-1 em todas as etapas.

Turistando em agosto pela Europa

Ah, o interior da Bósnia!

Coletiva de imprensa de quinta-feira no GP da Bélgica. “Olha como todo mundo está queimado! Todos com cara boa!”, dizia um também bronzeado e animado Lewis Hamilton. Alguns fãs podem reclamar do jejum de provas em agosto, mas tenham certeza que as férias de verão da F-1 são muito necessárias para quem trabalha na categoria.

Até porque é como se fosse dezembro ou janeiro para os brasileiros: é a época das férias escolares mais longas e a chance para curtir a família e o calor que costuma ser forte nesse período do ano na Europa. Ou, como no meu caso, ir atrás de barganhas em plena alta temporada.

Há quem sempre goste de voltar ao mesmo destino. Eu já prefiro explorar. Enquanto vocês estiverem lendo estas linhas, já terei visitado meu 50º país diferente, a Macedônia. Como nem minha irmã, historiadora e curiosa, sabia muito sobre o destino, vamos lá: o que posso dizer antes é que eles acabaram ficando sem saída para o mar depois da dissolução da Iugoslávia, país no qual não sei muito bem por que foram parar, pois não são eslavos, mas sim macedônios – e há uma disputa com a Grécia pelo uso desse nome, já que o povo macedônio está espalhado por lá e pelos também vizinhos Bulgária e Albânia. Tudo bem que eles estavam sob controle sérvio quando a Iugoslávia se formou, o que ajuda a entender a história – e também é uma boa pista do porquê deles usarem o alfabeto cirílico.

E não é que dá para entender o menu em romeno?

Não será minha primeira vez nessa parte do mundo. Em 2016, fiz uma das viagens mais inesperadamente incríveis da minha vida, da Romênia ao sul da Itália. Fui cruzando por terra, com trens e ônibus – e o último trecho, claro, por mar. Na Romênia, me surpreendi com Timissoara, quase na fronteira com a Sérvia. Em Belgrado, cruzei pela primeira vez com os refugiados sírios e com as marcas de uma guerra tão viva nas minhas lembranças de infância.

Mas o país que mais me encantou nesta jornada foi a Bósnia-Herzegovina. Sabia da influência muçulmana em Sarajevo, mas não esperava chegar e me sentir em Istambul. E andar alguns metros e cair, do nada, em Viena! Isso sem contar nas pessoas, incrivelmente simpáticas, até quando contavam dos horrores do período em que a cidade foi sitiada por quase 1.500 dias. E os quilométricos cemitérios não deixam esquecer que o mesmo vale que dá forma ao belíssimo pôr-do-sol foi o esconderijo perfeito para as forças sérvias.

A Bósnia não é só a capital. Passei por lugares incríveis antes de chegar a Dubrovnik, já na Croácia. O país é extremamente verde e a estrada em si já é linda. Por lá, o cartão-postal mais famoso é Mostar, mas para mim Počivati, um vilarejo medieval com forte influência otomana, é o grande destaque. Fora que dá para relaxar nas lindas cachoeiras de Kravica.

Chegando em Dubrovnik, me encontrei com as multidões de turistas do verão europeu, mas não sabia quando teria a oportunidade de voltar, era uma parada estratégica para meu próximo destino e… a cidade merece, é belíssima mesmo quando se paga caro por tudo.

E deu até para dar uma esticada até Montenegro, outro país com natureza bastante exuberante, antes de pegar o ferry para Bari, minha base para explorar a região mais incrível da Itália em que estive até agora: a Puglia. As pessoas levam a espontaneidade bem a sério por lá, no melhor dos sentidos! A comida nem se fale e as praias… para vocês terem uma ideia, estava em um ônibus quando vi uma praia tão linda que corri para o motorista e falei “vou descer aqui!”, sem saber direito onde estava.

Acho que já tinha ficado um pouco pugliese.

Bom, podia ficar horas contando as histórias desse verão, ou de quando fui na contramão dos europeus e, ao invés de praia, fui para a Escandinávia em agosto. Vai ver foi por isso que, quando Lewis disse aquilo na coletiva, certamente não se referia particularmente ao meu bronzeado, inexistente. Mas a cara certamente estava boa!

Demora, idas e voltas marcam primeiras regras da Liberty

Fazer o bolo crescer de maneira mais sustentável e igualitária, com menos regras impostas e mais diálogo. Era essa a premissa inicial da Liberty Media. Mas à medida que vamos nos aproximando da hora da verdade, em que as decisões têm de ser tomadas, a F-1 dos conchavos e do desprezo ao bem-comum volta a aparecer.

Isso principalmente no lento processo de definição do regulamento de 2021, especialmente as mudanças nos motores, que devem, em sua maior parte, ficar no papel. As diretrizes acertadas no fim do ano passado pareciam agradar a todos – um motor mais barato, barulhento e simples, com padronização de algumas peças, aumento no limite de giros e sem o complexo MGU-H.

Porém, há cerca de quatro meses começaram a ser ouvidas as primeiras vozes dissonantes, pedindo a permanência do MGU-H e, com isso, em linhas gerais a manutenção da tecnologia atual. O motivo seria simples: as montadoras temem a entrada da Porsche, com todo o seu know-how em carros híbridos e possibilidade de investimento. Temem que os gastos saiam de controle e que se torne mais difícil justificar a seus acionistas gastos exorbitantes sem a premissa de estarem desenvolvendo algo que pode ser inovador para os carros de rua.

Não por acaso, a conversa foi levada lentamente e há várias provas é clara no paddock a movimentação de Toto Wolff conversando com a Ferrari, ferraristas trocando ideia com a Renault, os franceses com a Honda, e assim por diante: não demorou para o discurso estar alinhado. Dá para tornar o motor mais barulhento e é possível padronizar peças. Mas a tecnologia tem de permanecer a mesma.

É claro que a Porsche ou qualquer outra montadora não vai querer entrar com tamanha desvantagem – basta ver o que aconteceu com a Honda por chegar na festa com um ano de atraso. Então, agora que as montadoras estão unidas, dificilmente FIA e FOM vão conseguir um motor totalmente novo como planejavam.

Até porque outro fator da equação está longe de ser resolvido: os dirigentes tentam impor um limite de gastos na ordem de 150 milhões de dólares por ano a partir do fim dos atuais contratos, que vão até 2020, mas Wolff já avisou que “isso não é realista para os times grandes”. Mais um motivo, então, para apostar em estabilidade.

O fato é que, antes de cobrar um teto, a Liberty precisa fazer a sua parte e trazer os lucros que prometeu. Por enquanto, o inchaço da estrutura gerou mais gastos do que dividendos. E neste bolo entra outro prazo que trava qualquer mudança: é preciso rever os contratos de TV para que a FOM passe a lucrar com os serviços de internet. E muitos deles se estendem além de 2020.

Por enquanto, as únicas mudanças que estão caminhando, ainda que a passos lentos, são no chassi. FIA e FOM coordenaram uma operação interessante para as regras de 2019, convidando todas as equipes a encontrarem possíveis furos no primeiro texto do regulamento e refazendo-o quantas vezes foi preciso. Tudo para evitar gastos desnecessários caso alguém descobrisse um difusor duplo da vida.

O problema é que esse processo demorou e a tendência é que as equipes com mais recursos consigam explorar melhor o texto final, ou seja, mudou o formato, mas nem tanto o resultado. Ainda que isso não seja o ideal, pelo menos foi um passo impensável há dois anos.

Eu já sabia

Deixar uma equipe com muito potencial, mas que não tem estado em posição de lutar por campeonatos nos últimos quatro anos e ir para um time em ascensão, mas que parece estar longe das vitórias com regularidade. Essa foi a decisão de Lewis Hamilton em 2012. E é o caminho escolhido por Daniel Ricciardo para o ano que vem.

Já sabemos como a história de Hamilton acabou se desenhando: quando o inglês assinou com o time, ele já se preparava para uma mudança de regulamento bastante extensa, que alteraria não só as regras, mas principalmente os ingredientes para um time ser vencedor. A partir do descongelamento dos motores, ser uma equipe de fábrica se tornou essencial e foi aí que sua McLaren ficou definitivamente para trás – em 2012, ainda que tenha ficado longe de ganhar o campeonato, o time teve muito provavelmente o melhor carro ao longo do ano – e a Mercedes passou a ser a equipe a ser batida.

Claro que Hamilton não podia prever o tamanho de seu acerto e até o próprio Ricciardo questiona isso. Perguntei recentemente ao australiano se ele se imaginava “dando uma de Lewis”, pensando no regulamento de 2020, e ele disse que o inglês “costuma dizer que mudou de equipe porque sabia que a Mercedes ia dominar, mas eu acho que foi sorte”. Mas parece ser justo apontar que aquela decisão de 2012 teve os dois ingredientes: o regulamento de 2014 colocava mais ênfase nas montadoras novamente, mas o domínio dos alemães, nas proporções que vimos, era imprevisível.

No caso de Ricciardo, também parece haver esses dois ingredientes. Os números comprovam que a Renault é a equipe que mais vem crescendo nos últimos dois anos. Quando os franceses reassumiram o controle do time que estava nas mãos da Genii, no final de 2015, ela tinha 400 funcionários e estava desatualizada. De lá para cá, o investimento foi pesado e a expectativa é de que a Renault tenha, no final deste ano, 700 funcionários, ou seja, volte a ser do tamanho de Mercedes, Ferrari ou Red Bull. As contas também vão bem: a Renault teve o primeiro ano de lucro na década em 2017, o que estimula a montadora a seguir investindo.

Ao mesmo tempo, o time ainda está longe dos líderes e sequer se firma como o melhor do segundo pelotão, enquanto aquela Mercedes com a qual Hamilton assinou já tinha vencido corrida e chegado a pódios em 2012. Não será uma diferença fácil de se tirar especialmente porque parte dela vem justamente do motor Renault.

Não foi por acaso que Ricciardo falou que esta foi “a decisão mais difícil” de sua vida.

Porque existe o exemplo de Hamilton e também existe o de Fernando Alonso, que trocou uma Ferrari desacreditada por uma McLaren esperançosa com a parceria com a Honda. No entanto, a trajetória de Ricciardo tem mais cara de Hamilton do que de Alonso, uma vez que sempre seria mais difícil para a Honda ter um motor no mesmo nível dos demais tendo começado o desenvolvimento bem depois, e foi esse o preço que a McLaren pagou por três anos.

Assim como aconteceu com o time inglês, hoje fala-se que a Honda “tem tudo para” fazer uma parceria de sucesso com a Red Bull. De fato, as Toro Rosso não têm sofrido tanto quanto a McLaren, tanto em relação à confiabilidade, quanto de potência, mas a diferença ainda existe: são Gasly e principalmente Hartley os pilotos que usaram mais motores até aqui, de longe, e repete-se o padrão da McLaren de bons resultados em pistas mais travadas, como na Hungria, ainda que a discrepância não tenha a mesma proporção.

Assim como a parceria Red Bull-Honda, a história de Renault e Ricciardo não deve ter “final feliz” tão já. Como Hamilton não buscava o título em 2013, o australiano também mira de forma realista em 2021. Lá, teremos um regulamento completamente diferente e, com uma estrutura que pode competir de igual para igual com as grandes, a Renault tem a chance de virar a nova Mercedes. E Ricciardo poderá dar uma de Hamilton e levantar a plaquinha do “eu já sabia”.

Estratégia do GP da Hungria e como a Ferrari não pôde vencer a pista de Hungaroring

A Ferrari tentou de tudo para reverter o prejuízo com o qual Sebastian Vettel acabou depois da classificação do GP da Hungria: dividiu estratégias duas vezes para tentar tirar dois carros da frente do alemão e permitir que ele usasse o caminho livre para imprimir seu ritmo superior ao de Lewis Hamilton. Mas pelas características da pista e falhas de execução, chegar em segundo foi o máximo possível.

Na classificação, Lewis Hamilton conseguiu talvez sua pole mais improvável do ano, em uma corrida em que, sob condições normais, largaria em quinto. Isso porque a Mercedes superaquecia os pneus traseiros, que não têm retas longas para “respirarem” em Hungaroring, mesmo em uma volta lançada. E isso acabou sendo benéfico com a pista molhada – além da sensibilidade acima da média do inglês para sentir onde está a aderência nestas circunstâncias.

Vettel largou com os pneus macios confiando na melhor saída da Ferrari, que evitaria que ele ficasse exposto aos rivais que vinham atrás, ao mesmo tempo em que teria a chance de, logo depois que os pilotos dos top 3 parassem, ter pista livre para fazer valer o melhor ritmo da Ferrari.

Paralelamente a isso, o plano da Scuderia envolvia usar Kimi Raikkonen para fazer o pit stop cedo e, com isso, atrair Valtteri Bottas. Assim, seriam dois carros a menos à frente de Vettel. Kimi acabou ficando encaixotado por Bottas na largada e perdeu a posição para Vettel logo no início da prova. Mas a tática de usá-lo para atrair Bottas funcionou e, na volta 15, o alemão passou a ter pista livre no momento em sua diferença em relação a Hamilton era de 8s6.

O inglês primeiramente apertou o ritmo e abriu mais 2s, mas não demorou para seus pneus começarem a sofrer. Quando ele parou, tinha 8s7.

Ali existia uma janela interessante para Vettel: os pneus macios não se desgastam tanto, e na verdade até demoravam algumas voltas para que os dianteiros entrassem na temperatura ideal. Tanto, que Hamilton não voltou andando tão mais rápido do que os ultramacios usados.

Mas Vettel não estava conseguindo adotar o ritmo esperado. Analisar após a bandeirada é bem mais fácil, mas se o alemão parasse na volta 33, antes de pegar uma sequência complicada de quatro retardatários, voltaria certamente à frente de Bottas e 6 ou 7s de Hamilton.

O problema é que a Ferrari não confiava que os ultramacios iriam durar mais da metade da prova, ainda mais com Vettel tendo de tirar a diferença na pista. Assim, tiveram que esperar correndo o risco da diferença para Bottas não ser mais suficiente. E, depois de uma combinação de duas voltas na casa de 1min24, enquanto o finlandês andava em 1min22, e um pit stop pouco menos 2s mais lento que o normal, a chance de brigar pela vitória se transformou na obrigação de conseguir um segundo lugar.

Quando Vettel se viu atrás de Bottas, mudou seu foco, como ele mesmo admitiu: logo percebeu que os pneus do finlandês ainda estavam aguentando e decidiu esperar para atacar no final. Quase deu azar do rival encher sua traseira, mal conseguindo parar sua Mercedes no lado sujo da pista e sem pneus, mas cumpriu sua meta.

No final das contas, mesmo com a má execução do domingo, o GP da Hungria deveria ter sido um passeio da Ferrari, que se complicou quando a chuva apareceu na classificação. Entretanto, o ponto mais interessante é que, quando analisamos a prova, é difícil achar um momento em que Mercedes e Ferrari se enfrentaram em iguais condições de ritmo, e isso está diretamente ligado ao fato de, com a chuva, o tipo de composto da largada ser liberado. Especialmente com três equipes tão melhores que não são penalizadas por fazer o Q2 com compostos mais duros, não seria a hora de rever essa regra?

Drops do GP da Hungria e a influência de Toto

Tive a chance de fazer em Hungaroring uma rara entrevista a Jo Bauer, delegado técnico da FIA, um alemão que não gosta muito de falar com a mídia. É a função dele e de sua equipe garantir que os carros estejam dentro da legalidade (aliás, aguardem artigo bem completo sobre isso na sessão de técnica na segunda metade do ano). Jo revelou algo interessante: “em meus 388 GPs, na Alemanha foi a primeira vez que não pesamos nenhum carro. Eles simplesmente estavam inundados por causa da chuva”.

 

A Mercedes convidou apenas as mulheres que trabalham na TV e no rádio para um jantar na quinta-feira em Budapeste. O grupo é cheio de histórias interessantes e mulheres fortes. Teve quem foi de aeromoça à TV, uma dinamarquesa que queria morar na Espanha e foi garçonete para ganhar dinheiro quando chegou no País hoje está há mais de uma década na F1. Outra planejava trabalhar alguns meses como produtora na categoria, e isso faz 16 anos. Já uma das pioneiras entre as mulheres na F-1 no início dos 90 se viu sem trabalho quando sua TV não renovou o contrato e agora é consultora na Mercedes.

 

A resenha foi longa, claro. Da dificuldade de encontrar alguém que entenda esse trabalho e ter um relacionamento sério a toda a boataria ridícula que os homens espalham sobre nós no paddock. Sobre como é complicado acertar todas as perguntas para 20 competidores com pouco tempo para reagir após as sessões, com gente falando no seu ouvido, e ainda mais a pressão extra que nós mesmas colocamos por sermos mulheres nesse mundo tão masculino.

 

O mercado de pilotos continuou em ebulição na Hungria (mas sem “aquele” boato de Alonso na Ferrari, que surgiu bem longe do paddock). Os olhos estão na Force India e as manobras estão nas mãos de Toto Wolff. O time não estava pagando a conta dos motores para a Mercedes, então o chefe interferiu, usando Esteban Ocon como moeda de troca e atraindo o dinheiro dos Stroll.

 

O francês fala como se já soubesse seu destino. Ouvi de fontes muito confiáveis que o negócio realmente está fechado com a Renault. Na tal manobra de Toto, falta conseguir colocar Sainz na McLaren.

 

Já sobre a questão Stroll/Force India, que fique bem claro que a ideia de seu pai é investir, nos moldes do negócio com a Williams. Até porque ele já estudou comprar o time e foi informado de que há várias dívidas escondidas. Nesse quadro, chamou a atenção a declaração de Sergio Perez de que “a situação é crítica, e vocês nem sabem quanto”. E logo percebemos o porquê: foi a empresa ligada a ele quem entrou com o processo, ainda que a Mercedes tenha grande interesse em resolver essa questão e também esteja por trás disso.

 

Mas a Force India, mesmo sem dinheiro, prova a cada etapa que sabe fazer e desenvolver um carro. E por isso não é só Stroll que está interessado. Os russos que financiam Mazepin também estão de olho na equipe.

 

O processo de falência tem suas consequências práticas, contudo. Pelas regras da F1, uma equipe nessa situação não recebe a premiação pela posição no campeonato. A não ser que haja um acordo de todas para revogar isso. E por enquanto não há. Renault, McLaren e Williams não assinaram documento para liberar o prêmio à Force India. São algumas dezenas de milhões de dólares, dependendo da posição final do time, que não inviabilizam sua continuidade, mas é um dinheiro a menos nas mãos dos novos donos.

Escudos e falhas

Se as três corridas durante a Copa do Mundo tinham sido boas para Sebastian Vettel, Lewis Hamilton devolveu com juros e correção monetária nos dois últimos finais de semana. Claro que o rival deu uma bela ajuda com o erro da Alemanha, mas o inglês só pôde aproveitar aquela chance porque tinha feito sua lição de casa.

Em Budapeste, a chuva acabou anulando a vantagem de ritmo da Ferrari, mas novamente a execução da prova por parte de Vettel e da equipe deixou a desejar, algo que o próprio alemão tinha claro tão logo saiu do carro. “É normal perder tempo com os retardatários nessa pista, mas acho que perdemos um pouco mais do que devíamos. E o pit stop não foi fantástico.”

Além disso, Vettel acabou destruindo seus pneus antes do que seria o ideal para fazer a estratégia de largar com o macio funcionar. O tal plano C que seu engenheiro apontou ao longo da prova seria atacar na parte final da prova com o ultramacio, mas quando ele teve de fazer a troca com 30 voltas para o fim e, ainda por cima, para lutar com Bottas, acabaram quaisquer chances de incomodar Hamilton na ponta.

Um exemplo claro do que poderia ter sido a prova de Vettel é a corrida de Ricciardo, que também largou com os macios e fez, sozinho, mais ultrapassagens que todos os pilotos conseguiram ano passado. E, mesmo andando em um ritmo alucinante, fez sua parada cinco voltas depois Vettel.

São por essas falhas aqui e ali que Vettel acabou vendo Hamilton abrir 24 pontos de vantagem. E até porque ele confia que pode “polir” suas performances, sua confiança está intacta. E, convenhamos, não seria surpresa o alemão levar as duas próximas.

Do lado de Hamilton, está difícil encontrar erros marcantes do inglês nesta temporada. E ele realmente precisa disso no momento, porque a Mercedes perdeu sua vantagem na classificação, fundamental para fazer seu carro funcionar na corrida. Não é a toa que Lewis vem falando tanto de uma tal força divina…

Força essa que encarnou em Valtteri Bottas n’este domingo. Ele pode não ter gostado da reação de Toto Wolff depois da prova, mas efetivamente foi um escudeiro fortíssimo na Hungria. Posicionou-se perfeitamente na largada para proteger o pole, adotou um ritmo mais lento para deixar Hamilton tranquilo só administrando os pneus, e impedindo que Vettel o ameaçasse. Depois, foi usado para defender a parada adiantada da Ferrari, fez duas voltas voadoras quando Vettel ia parar, ajudando na equação que travou o alemão atrás dele.

Tendo de ir até o final com pneus que tinham que fazer 55 voltas, seguiu com seu excelente trabalho até que ele não tinha nem condições de frear mais dentro da curva sem escorregar, o que gerou os toques com Vettel e Ricciardo no final.

Ricciardo que foi o nome da corrida. Para justificar isso é só dizer que ele pulou de 16º na primeira volta para quarto, em prova com poucos abandonos. Mas era Budapeste, circuito em que, ano passado, só foram feitas seis ultrapassagens.

E pensar que, depois de fazer uma corridaça, ele só falava nas entrevistas em ir embora para casa. E até ofereceu a Gasly – de brincadeira, na zona de entrevistas – que o francês pilotasse seu carro nos testes desta semana na Hungria. O piloto da Toro Rosso topou na hora, é claro.

A sensação de Ricciardo é compartilhada por quase todo mundo no paddock. Cinco corridas em seis semanas não foi fácil, e acredito que isso tenha a ver com os sobes e desces que tivemos nesse período. Mas se tem alguém realmente contente com essa pausa de agosto, é o homem do carro vermelho.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Hungria

 

Hamilton7 a 5Bottas
Vettel10 a 2Raikkonen
Verstappen8 a 4Ricciardo
Perez4 a 8Ocon
Hulkenberg7 a 5Sainz
Stroll5 a 7Sirotkin
Gasly8 a 3Hartley
Alonso12 a 0Vandoorne
Leclerc9 a 3Ericsson
Grosjean3 a 9Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s260

Vettel x Raikkonen: 0s024

Verstappen x Ricciardo: 5s264

Ocon x Perez: 0s058

Sainz x Hulkenberg: 5s442

Stroll x Sirotkin: 0s741

Alonso x Vandoorne: 0s574

Gasly x Hartley: 0s537

Magnussen x Grosjean: 0s735

Ericsson x Leclerc: 0s176

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Drops do GP da Alemanha e a silly season a todo vapor

“Estamos esperando Toto dar o primeiro passo e daí as coisas vão se movimentar. A Alemanha é um bom lugar para fazer isso não?”, dizia Christian Horner há algumas semanas, ao lado do chefe da Mercedes. Como todos esperavam que a equipe alemã apenas confirmasse as renovações de Hamilton e Bottas, era difícil imaginar que isso impactaria seriamente o mercado. Mas o fato é que ele entrou em ebulição em Hockenheim.

 

O quadro é basicamente esse: só cinco pilotos têm contrato para 2019 no momento e, ainda que a estabilidade marque os grandes, há grande movimentação no restante do grid.

 

O nome de Charles Leclerc cada vez mais ligado à Ferrari e o discurso de Kimi tem me lembrado muito o de Felipe Massa quando o brasileiro já sabia que era praticamente carta fora do baralho (“Eu deixei claro o que eu queria e está nas mãos deles, quero uma resposta não só para mim, como também para minha família”). Vettel parece querer mantê-lo, diz para a Scuderia não ter pressa com Charles, mas há muita gente dentro da equipe que discorda disso.

 

Um deles era o presidente, Sergio Marchionne. Já na manhã de sábado circulava a notícia de que sua saída prematura por questões de saúde seria anunciada em breve e procurei saber se isso afetava negativamente a ida de Leclerc à Ferrari. Ouvi que sim e que não. De qualquer forma, é uma alívio para o time, que tinha alguém com poder mas sem conhecimento de automobilismo exercendo enorme pressão.

 

Mas e se Kimi não renova com a Ferrari, é o fim de sua carreira? O chefe da Sauber, Fred Vasseur, surpreendeu o paddock quando colocou Kimi Raikkonen em sua lista para 2019. A situação parece ser a seguinte: se o finlandês aceitar ganhar o mesmo que agora, pode mesmo ir para o time, com dinheiro indiretamente da própria Ferrari via Alfa Romeo, o que faz sentido porque toda a ideia por trás da parceria é tornar a Sauber efetivamente o time da Alfa e um grande nome seria ótimo para tanto.

 

Outra história que circulou em Hockenheim é de que Ocon estaria voltando à família Renault. Ele me parece impaciente e sentindo-se pronto para uma equipe grande, já virou a casaca em uma oportunidade e iria para o time que mais cresce no momento, ainda que precise de anos ainda para lutar por vitórias. E seria essa mudança que chacoalharia todo o mercado.

 

No momento são tantos nomes ligados a tantas equipes que tem gente apontando para tudo quanto é lado para, eventualmente, acertar um ou outro. Para a Mercedes, se Ocon deixar o programa não é um grande problema, pois Russell parece pronto – bem mais que Norris.

 

Na Red Bull, a situação é mais complicada, porque Sainz fica livre no mercado dia 15 de setembro, já que não haverá lugar no time principal – e isso era a única mudança que eles podiam fazer dentro do contrato atual. Eles até tentaram oferecer outro contrato, para voltar à Toro Rosso, mas o espanhol não quis. Alonso estaria tentando mexer seus pauzinhos pelo compatriota, mas a família Sainz não tem certeza de que esse seria o caminho.

 

Depois de tentar convencer a Williams a se tornar uma espécie de Haas, Laurence Stroll agora tenta colocar seu filho na Force India, ainda que não exatamente comprando a equipe. Lá, como já explicado anteriormente, Perez tenta sair, provavelmente para o lugar de Grosjean na Haas.

 

Basicamente, os pilotos mais seguros do quarto time para trás são Magnussen e Gasly. Entre os demais, o futuro de um depende da decisão a respeito do outro. E quem parece sobrar são Hartley, Grosjean e possivelmente Vandoorne. A fase do belga está tão ruim que até a mala ele perdeu na chegada no aeroporto de Frankfurt.

 

Lendo essas linhas, parece que vamos ter uma completa revolução. Mas também não dá para menosprezar o valor da continuidade na F-1.

 

Na verdade, o mais interessante para mim é ver todos os contratos se encerrando em 2020. Mas esse é assunto para outro drops.

Montanha-russa de emoções

Lembro que há algumas semanas escrevi que esse campeonato me lembrava 2010, quando tivemos aquela sequência de corridas mornas na Espanha, Mônaco e Canadá e várias reviravoltas no campeonato. Depois de quatro etapas em cinco semanas, a situação mudou de figura – várias vezes, inclusive – como em outro campeonato, de 2008.

A luta é tão apertada entre Mercedes e Ferrari, Hamilton e Vettel, que ambos os lados estão muito propensos a erros, como vimos no caso do alemão neste domingo, e falhas, como ocorreu com o inglês no dia anterior. E as reações fortes de ambos os pilotos ao lado de seus carros parados na área de escape do circuito de Hockenheim em dias distintos só ilustra isso perfeitamente.

Era para ser uma vitória fácil para Vettel, mesmo que com seus dramas. O alemão se manteve na ponta após conquistar uma pole que deixou a Mercedes preocupada com a evolução do motor da Ferrari, e não parecia ter adversários, ainda que a caminhada até a volta 52 e os 8s de vantagem para Valtteri Bottas não tenha sido 100% tranquila.

A Ferrari dividira a estratégia de seus pilotos, colocando Kimi Raikkonen na tática de duas paradas para proteger Vettel de Lewis Hamilton, que já tinha chegado ao quinto lugar na volta 14 após forte recuperação. Com isso, quando Vettel fez sua parada, voltou atrás do finlandês, pois o ritmo dos dois, com pneus macios, era melhor. E parece que a Ferrari, pelo menos desta vez, esqueceu de ensaiar sua inversão de posições, cabível quando se tem um deles lutando pelo campeonato e ainda por cima com estratégia diversa.

A demora em fazer a inversão pode ter custado caro. É claro que a escapada de Vettel foi um erro banal dele, “uma maneira bem pouco espetacular de terminar uma corrida”, como ele mesmo definiu, mas é de se imaginar que o desgaste inicial do pneu no ar turbulento do companheiro não contribuiu negativamente.

Nesse momento, Hamilton vinha andando muito forte com o pneu ultramacio em quarto, e via na chuva sua grande oportunidade. “Meu coração acelerou quando viu os pingos, sabia que seria minha chance”, disse o inglês em entrevista emocionada no final da prova. Mal sabia ele que não teria de fazer mais nenhuma ultrapassagem para vencer: Vettel não só saiu de seu caminho como causou um Safety Car que deixaria Bottas e Raikkonen muito expostos, uma vez que ambos estavam com pneus macios já desgastados, que perderiam muita temperatura com o ritmo mais lento. Eles tinham que parar, Hamilton não – embora os estrategistas da Mercedes por pouco não tenham comido bola mais uma vez, chamando o inglês, mas logo depois desistindo. A manobra em si – cruzar a linha do pitlane – não é legal, mas os comissários determinaram que o período de SC e o fato de Hamilton ter voltado em segurança à pista foram atenuantes, e o consideraram culpado sem puni-lo com perda de tempo, ou seja, dando-lhe a reprimenda. Caso tivessem optado pela pena seguinte, de 5s, Hamilton teria perdido a prova por 0s5 para seu companheiro.

Dito isso, Bottas mais uma vez tem motivos para ficar no “e se”, depois de um pitstop lentíssimo que, pelo menos, não o fez perder a posição para Raikkonen.

Se dentro da pista os erros se somam a cada corrida, exatamente como naquele 2008, fora dela Hamilton e Vettel também travam uma batalha para demonstrar confiança. O alemão saiu da corrida caseira garantindo que não perderia o sono pela batida e dizendo-se contente com o ritmo demonstrado pela Ferrari – e ele tem lá seus motivos – enquanto Hamilton deu seu recado para quem chegou a questionar após a classificação que ele estava perdendo a cabeça: “Para quem acha isso… não estou cometendo erros. Tenho o foco total no meu sonho e, por mais difícil que ele seja, tenho que dar a volta por cima. Quando sentei do lado do meu carro no sábado, não estava chorando, mas sim pensando ‘amanhã é a oportunidade de fazer algo grandioso’.” E fez.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Alemanha

 

Hamilton6 a 5Bottas
Vettel10 a 1Raikkonen
Verstappen7 a 4Ricciardo
Perez4 a 7Ocon
Hulkenberg7 a 4Sainz
Stroll4 a 7Sirotkin
Gasly7 a 3Hartley
Alonso11 a 0Vandoorne
Leclerc9 a 2Ericsson
Grosjean3 a 8Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: sem tempo

Vettel x Raikkonen: 0s335

Verstappen x Ricciardo: sem tempo

Perez x Ocon: 0s293

Hulkenberg x Sainz: 0s132

Sirotkin x Stroll: 0s498

Alonso x Vandoorne: 0s787

Gasly x Hartley: 0s296

Magnussen x Grosjean: 0s344

Leclerc x Ericsson: 0s741

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Turistando na F-1: GP da Alemanha ao vivo

Compre ingresso para: general admission

As arquibancadas em Hockenheim são limitadas e estão basicamente no antigo estádio e na reta principal. Tendo isso em vista, e já que o general admission dá direito a ficar na parte de dentro do hairpin do estádio e é muito mais barato que os ingressos de arquibancada, essa é a melhor opção.

Hospede-se em: Heidelberg

Nem precisa de muita explicação: você estará em uma das mais belas cidades da Alemanha, que guarda ainda um quê medieval em seu centro – algo raro no país por conta das sucessivas guerras – e a 20min de carro da pista.

Vá de: transporte público

As vias ficam muito congestionadas e o estacionamento está a 20min andando da arquibancada. Ao invés desse perrengue, opte por pegar trem até Hockenheim e, de lá, haverá ônibus para o circuito.

Não perca: Museu da Mercedes

Ele fica a 1h30 da pista, não é tão perto assim. Mas é o museu da Mercedes, em Stuttgart. A cidade, aliás, também abriga o museu da Porsche. Achou muito longe? Um passeio que achei muito legal foi conhecer a cidade natal de Vettel, Heppenheim, que fica a 45min da pista. Só de sentar para tomar um chá na praça dá para entender muito sobre o tetracampeão.

Combine com: tour na Bavaria

Nuremberg, Munique e a região dos alpes, onde ficam castelos que são dois cartões-postais da Alemanha – Neuschwanstein e Hohenschwangau – não estão apenas razoavelmente perto de Hockenheim, como também no caminho para Budapeste.

Quanto fica? O melhor caminho para o GP da Alemanha é voando via Frankfurt, por 4500 reais (essa é a época cara de ir para a Europa por conta do verão). Os ingressos para GA são 600 reais e a hospedagem em Heidelberg sai em torno de 1400 para dois, então dá para calcular 8 mil de gastos.

Por dentro da F-1 e o que aconteceria se o reabastecimento voltasse

Volta e meia vemos o debate sobre o retorno do reabastecimento na Fórmula 1 aparecer. Ele foi permitido de 1994 a 2009, tendo sido tirado do regulamento por questões de segurança e gastos. Partidário da ideia, o presidente da FIA, Jean Todt, fala que os gastos seriam irrisórios, de cerca de 50 mil euros por ano. Os chefes de equipe, no entanto, falam em 1 milhão. Ainda assim, em uma categoria que luta para implementar o teto orçamentários de 150 milhões, não é muito. Mas é algo que só seria bem-vindo caso trouxesse claros benefícios para o esporte. E não é bem esse o caso.

A questão da segurança também pode ser contestada, uma vez que hoje tecnologicamente falando a F-1 poderia desenvolver sistemas mais seguros. No entanto, nada pode ser comparado com simplesmente banir o reabastecimento.

Primeiro, vamos voltar um pouco na história: Fangio venceu sua última corrida, o GP da Alemanha de 1957, fazendo um pitstop para reabastecimento. Acabou sendo uma prova emocionante, com o argentino só voltando à liderança na última volta depois de um início tranquilo. E justamente pela parada ter transformado uma vitória tranquila em uma aventura, ninguém mais tentou isso por décadas.

Isso, até Colin Chapman perceber que o reabastecimento poderia ser uma boa para os motores turbo no início dos anos 80, pois eles precisavam usar mais combustível que os aspirados. Porém, demorou para a tática dar certo por conta da péssima confiabilidade dos Brabham em 82. Foi só em 83, no GP do Brasil, que Nelson Piquet conseguiu vencer fazendo um pit stop para reabastecer. Na mesma corrida, contudo, a Williams tentou fazer o mesmo e seu carro pegou fogo. Então, na temporada seguinte, os reabastecimentos estavam proibidos por questões de segurança. Voltariam só em 94, com direito a trapaça da Benetton, cujo sistema permitia um fluxo maior que o regulamentar e resultou nas imagens impressionantes do fogo no carro de Jos Verstappen no GP da Alemanha daquele ano.

Mais velocidade, menos ultrapassagens

Mas e se o reabastecimento voltasse hoje? O lado positivo seria o ganho de velocidade: hoje os carros largam com 100kg de combustível no tanque e, quando carregam menos peso, têm de lidar com o desgaste de pneus. Com o reabastecimento, portanto, estaríamos vendo as corridas mais rápidas da história, ainda que haja dúvidas quanto a isso.

Carros mais rápidos colocam mais estresse nos pneus e também em todos os componentes, especialmente o motor. Na F-1 atual, os pneus são feitos para se degradarem e os motores, para durarem. Então fica a dúvida de quanto o reabastecimento efetivamente mudaria a cara das corridas, pois a necessidade de poupar equipamento continuaria alta.

A própria diferença de velocidade não seria assim tão grande, uma vez que a unidade de potência atual é perto de 40% mais eficiente que os antigos V8 ou V10. Com esses motores, o tanque chegava a ter 180kg. Um cálculo simples usando como parâmetro um circuito como de Barcelona, em que 10kg de combustível equivale a 0s3 por volta, leva a crer que um carro que larga com 50kg seria 1s5 mais rápido por volta do que o atual.

O grande problema trazido pelo reabastecimento, contudo, é seu efeito negativo nas ultrapassagens. Os números de 94 a 2009 são muito claros: foi a época em que as corridas tiveram menos manobras na história, sendo que a única variável que se manteve neste período foi justamente o reabastecimento. Houve mudanças nos carros, nos pneus, nos motores, e uma mistura de temporadas de domínio claro de uma equipe e anos mais competitivos em termos de performance. Mas nunca em termos de ação na pista.

Durante estes campeonatos, as grandes variáveis aconteciam quando alguma equipe arriscava largar bastante leve ou o contrário, mas, com o passar dos anos, houve uma padronização de estratégias que levou várias corridas a serem decididas nos boxes. Esse elemento continua existindo de maneira muito forte devido ao desgaste dos pneus, porém a diferença entre uma corrida decidida na estratégia de combustível e de pneus é que a segunda está muito mais nas mãos do piloto. Afinal, dependendo do desenrolar de uma corrida, ele pode economizar pneu e retardar sua parada, ou o contrário. Mas se o plano inicial era parar, digamos, na volta 14 por conta do combustível, a corrida fica muito mais na mão dos engenheiros. Não há dúvidas que as estratégias ficam mais abertas quando definidas pelos pneus e não pelo nível de combustível no tanque.

Há quem diga que o reabastecimento colocaria mais uma pimenta nas estratégias, mas provavelmente aconteceria o contrário: enquanto mudanças sutis na temperatura do asfalto, por exemplo, podem mudar a história de uma corrida, como vimos recentemente no atual campeonato, a quantidade de combustível no tanque é algo exato, então as estratégias ficariam, na verdade, mais engessadas.

Há, também, a questão do impacto que mais uma variável estratégica teria na captura de novos fãs, uma vez que tornaria o esporte ainda mais difícil de ser seguido pelo expectador não habitual. Que o diga a regra pela qual os pilotos classificavam com o nível de combustível com o qual largariam, o que serviu mais para confundir novos fãs do que efetivamente criar resultados inesperados. Sim, víamos uma Toyota ou uma Renault na primeira fila, mas aquilo não era real e rapidamente isso ficava claro.

Outro fator é do acerto e da própria filosofia dos carros. É muito mais complexo tentar fazer um carro bom em classificação e em corrida quando se tem uma diferença tão grande entre uma volta lançada e o início da prova. E isso é destacado pelo parque fechado, que limita muito as mudanças. Novamente, o reabastecimento diminuiria o efeito disso.

E tornar as corridas mais humanas e menos complicadas para novos fãs é tudo o que a F-1 vem buscando.

Um penta da F1 conquistado em julho

É interessante observar como vem crescendo o número de fãs que identificam o início dos anos 2000 como a melhor época da F-1. Talvez sempre será assim: cresci ouvindo que os grandes eram os gladiadores dos primórdios da categoria, depois vieram aqueles que falavam saudosamente dos anos 1980 e hoje, dos 2000. Há contra-argumentos em relação a todos eles para uma questão que não tem uma resposta definitiva mas, ao mesmo tempo que dá para entender por que a F-1 de cerca de 15 anos atrás desperta tanto interesse, houve momentos em que ela deixou bastante a desejar em termos de competitividade.

Os carros da primeira metade da primeira década dos anos 2000 foram os mais rápidos da categoria, pelo menos até a geração de 2017. Eles tinham visual agressivo e eram bem, bem mais barulhentos que os carros atuais – e os pilotos tinham mais respaldo da tecnologia para pilotar, com controle de tração e telemetria bilateral, ou seja, a possibilidade de configurações do carro serem alteradas pelos engenheiros com o carro na pista, o que explica por que o volante tinha menos botões. A proposta dos pneus também era outra, voltada à performance e alimentada pelo embate entre fabricantes.

É nesse caldeirão que surgiu um dos conjuntos mais dominantes da história da categoria. Com orçamento astronômico financiado em boa parte pelo dinheiro do tabaco (perda da qual a F-1 não se recuperou até hoje), testes ilimitados, pneus feitos sob medida e toda uma equipe trabalhando em uma de um piloto, Michael Schumacher conseguia o que muitos – principalmente aqueles que veneravam os gladiadores dos anos 50 – consideravam impossível: igualava os cinco títulos de Juan Manuel Fangio.

E, sim, estamos na metade da temporada de 2018 e, há 16 anos, Schumi estava já selando o penta. Foi na 11ª de 17 etapas, no GP da França, oitava vitória do alemão no campeonato. Ser campeão com seis corridas para o fim é, até hoje, um recorde, ainda que, dois anos depois, Schumi venceria mais vezes – 14 corridas contra 11 de 2002.

O penta foi conquistado justamente na França, palco do maior número de vitórias de Schumacher na carreira, oito. Mas não foi tão fácil quanto a narrativa do campeonato faria crer: a temporada de 2002 foi marcada por muitas poles de Juan Pablo Montoya, de uma Williams calçada com pneus Michelin que era muito melhor em classificação do que em corrida, e não foi diferente em Magny-Cours.

Em um circuito conhecido pela dificuldade de ultrapassagem e em uma época da F-1 que a média era perto de 15 manobras por corrida, a estratégia da Ferrari foi usar o pit stop para que Schumacher voltasse na frente. A tática, a princípio, funcionou, e Schumacher saiu logo à frente de Montoya após as paradas, porém um erro fez com que todos acreditassem que o título teria de esperar mais um pouco: o alemão tocou a linha branca na saída dos boxes e levou um drive through, voltando em terceiro lugar, atrás do colombiano e de Kimi Raikkonen, que perseguia sua primeira vitória na F-1.

Montoya, então, continuava em primeiro e segurando o pelotão, até uma segunda parada lenta o tirar da luta pela vitória, que ficaria entre Raikkonen e Schumacher. O finlandês aguentou bem a pressão do então tetracampeão na saída dos pits e parecia ter a vitória nas mãos até que escorregou no óleo deixado pelo Toyota de Allan McNish e permitiu a ultrapassagem da Ferrari.

Schumacher chegou a perguntar à equipe se teria de devolver a posição, mas a manobra foi limpa e o alemão cruzou a linha de chegada a 1s de Kimi, e mais de 30s de seu então companheiro de McLaren David Coulthard. Apenas os cinco primeiros estavam na volta do líder.

Há quem possa dizer que a era Schumacher foi muito positiva ou muito negativa para o esporte. Mas algo que particularmente sempre me atraiu na F-1 é o nível de profissionalismo. E, nestes vídeos da época, fica claro porque o conjunto Schumacher-Ferrari conquistou tanto. De Ross Brawn cobrando-se por estar falando com Michael quando o alemão estava retornando à pista, no lance que resultou o drive through, às palavras do próprio piloto reconhecendo a enorme pressão à qual ele mesmo se submeteu para ser campeão. Em pleno mês de julho.

http://www.youtube.com/watch?v=843PI0fJSWM

A mina de ouro do automobilismo virtual

Ele começou no kart, como tantos outros pilotos. E também como muitos deles acabou tendo de deixar as pistas por conta dos altos gastos com o esporte. Para continuar fazendo o que gostava, passou a participar de campeonatos virtuais, ao mesmo tempo em que trabalhava em um escritório e seguia uma vida “normal”. Até que venceu o “World’s Fastest Driver” e passou a integrar a equipe McLaren. Hoje, faz o trabalho no simulador que um tal de Fernando Alonso não gosta de fazer.

A história de Rudy van Buren aponta para um novo caminho na cara tarefa de encontrar e desenvolver talentos. E ainda abre as portas para uma democratização jamais vista no esporte.

Não é por acaso que as equipes de F1 estão dando muita atenção ao campeonato de esports, que no momento está na fase de draft, com os 40 melhores lutando para serem selecionados para as equipes que vão disputar o Pro Series Championship no segundo semestre, com direito a final durante o final de semana de corrida em Abu Dhabi, dentro do paddock. Na fase atual, eles passam por testes de reação iguais aos dos pilotos profissionais, ou seja, é clara a intenção de não apenas encontrar bons gamers, mas potenciais profissionais, que podem se envolver no esporte disputando corridas ou ajudando no desenvolvimento dos carros.

Existe o preconceito dos mais puristas a respeito da transferência do talento dos simuladores para a pista. Porém, ao invés de duvidar, as empresas do ramo estão investindo justamente para encontrar um método de testar esses pilotos virtuais e encontrar futuros campeões. Uma das empresas que aposta nisso é a Formula Medicine, na Itália, que já vem aplicando uma série de testes em pilotos de categorias de base, focando em um método empírico para identificar futuros campeões.

Outra empresa que vem investindo pesado nisso é a McLaren. Conversei recentemente com Ben Payne, diretor de esports do time, e ele fez uma comparação interessante. “Um bom jogador de Call of Duty não é necessariamente um atirador de elite. Nos simuladores de corrida a transferência entre as habilidades do game e da pista é muito maior, muito mais que em qualquer tipo de jogo.” E é justamente por isso que existe a tendência de cada vez mais se olhar para o virtual em busca de um piloto real.

Payne reconheceu que ainda há muitos desafios. “No final das contas, acabamos com 10 homens brancos na decisão do World’s Fastest Gamer, e agora estamos tentando modificar isso, tirando empecilhos como disputas acontecendo só em um determinado horário, para que pessoas possam concorrer em diferentes fusos horários. E para as mulheres estamos tentando restringir os comentários online, pois isso é um fator que as afasta das competições.”

Por outro lado, são inúmeras as vantagens. O investimento é menor do que financiar uma carreira “offline”, as fontes de receita são ampliadas com o aporte de empresas do ramo de tecnologia e jogos e o esporte tem uma chance de ouro de se democratizar. Afinal, quantas pessoas com talento não ficaram para trás por falta de investimento ou por viverem em lugares onde o automobilismo não é bem desenvolvido? Não dá para fechar os olhos para uma oportunidade como esta.

Estratégia do GP da Inglaterra e a Mercedes no contrapé

É fato que a Mercedes não gosta muito de calor, mas seria um erro colocar a vitória da Ferrari em Silverstone na conta das raras semanas de verão de verdade que vive o Reino Unido. Ao não poder controlar o ritmo por uma largada ruim do pole Lewis Hamilton, o time teve que arriscar na estratégia, mas mesmo assim não conseguiu impedir mais uma vitória de Sebastian Vettel.

Com a Red Bull um pouco mais longe do que o normal em uma pista em que hoje em dia, uma vez que várias curvas são feitas em pé embaixo, a potência do motor vale mais ainda, a luta ficou restrita a Mercedes e Ferrari. E que luta.

Avaliação antes da corrida era de que Mercedes estava desgastando menos os pneus, como foi o caso das outras vezes em que esse tipo de construção foi usado. Então a melhor chance da Ferrari seria passar os prateados na largada e controlar o ritmo na frente, sabendo que os rivais teriam que manter certa distância para preservar seus pneus, especialmente com o calor atípico em Silverstone e também pela natureza aerodinâmica gerada pelas sequências de curvas de média/alta, que fazem com que a turbulência do carro à frente seja sentida até com diferença maior do que os 3s de outros circuitos.

Foi dito e feito no primeiro stint. Bottas parecia lutar contra um escudo de força e ficou a 5s de Vettel, não conseguindo aproveitar o overcut. Pelo menos a parada foi rápida (a quinta melhor do dia, em 2s45, algo que não tem sido de praxe neste ano na Mercedes).

Mais atrás, era impressionante a facilidade de Lewis Hamilton em abrir caminho no pelotão mesmo em um circuito em que é geralmente difícil seguir um carro de perto. Depois da prova, Charlie Whiting foi perguntado sobre o efeito das três zonas de DRS e garantiu que elas não fizeram muita diferença – a não ser para causar acidentes, pois na zona adicionada neste ano cabia ao piloto desativar o dispositivo manualmente (uma vez que não se tratava de uma área de frenagem), e quem não tinha carro tão no chão, como Marcus Ericsson, acabou no muro.

O stint voador de 25 voltas de Hamilton (cinco voltas a mais que Vettel e quatro além do que Bottas conseguiu) talvez seja um indicativo de que seu companheiro poderia ter forçado mais na luta com Vettel, ou ficado mais tempo na pista, algo que mudaria a história de sua corrida. O fato é que, mais uma vez, para Bottas o GP da Inglaterra foi a narrativa do que poderia ter sido.

Quando Hamilton parou na volta 25, a prova já estava se desenhando de uma forma diferente do previsto. Caso algum dos Mercedes estivesse na ponta desde o começo, adotaria um ritmo bem lento no início para fazer apenas uma parada. Com Vettel forçando mais, começaram os estudos para entender quem teria que parar duas vezes.

Raikkonen, que fizera seu primeiro pit na volta 13 e vinha em uma briga com as Red Bull, estava comprometido a fazer duas paradas, o que acabou atraindo Ricciardo aos boxes por uma segunda vez na volta 30. Ao mesmo tempo, a equipe orientava Verstappen a cuidar dos pneus traseiros, na tentativa de ir até o final.

Até que Ericsson e seu DRS aberto geraram o primeiro Safety Car. Com a dúvida entre uma ou duas paradas, Ferrari e Red Bull resolveram chamar seus pilotos. Para a Mercedes, a decisão era mais difícil pois, ao contrário dos rivais, nem Bottas, nem Hamilton tinham pneus macios novos, então eles teriam que colocar médios, mais de 0s5 mais lentos. Chegara a hora de confiar no menor desgaste de seus pneus.

Ainda assim, ficar na pista era assumir um risco alto, pois a perda no final da prova seria bem superior a meio segundo por volta, especialmente para Bottas, mais exposto por ter pneus com quatro voltas a mais que Hamilton.

No final, isso de fato fez diferença. Bottas perdeu quase 9s em relação a Vettel nas últimas seis voltas, sinal claro de que seu pneu estava acabado. Já Hamilton perdeu 2s. Perguntei a ele se havia sentido que fora um erro não ter feito a troca no SC e o inglês disse que gostaria de sentar e rever os números, mas sentia que, se estava em quinto e terminou em segundo por não ter parado, foi o correto. Porém, é de se lembrar o quão importante foi o respiro dado pelo segundo SC. Sem ele, a queda dos pneus dos Mercedes no final teria sido mais acentuada.

Mas não é por acaso que Wolff saiu da Inglaterra falando que as largadas contam mais que a estratégia. De fato, sem conseguir manter-se à frente – e ainda mais quando se foca em um acerto mais de classificação justamente por acreditar que pode somar poles – a Mercedes corre o risco de ver os rivais ditarem um ritmo que muda a cara da prova. E, ao correr atrás do prejuízo, o time alemão percebe que, até em Silverstone e com a construção de pneu que em teoria lhe favoreceria, dá para perder neste ano.

Drops do GP da Inglaterra e o futebol em casa

O GP da Inglaterra teve um item diferente na bolsa…

A frase mais repetida das últimas semanas na Inglaterra se tornou quase um cumprimento em Silverstone. Não precisava falar bom dia, obrigado. Era só mandar um “it’s coming home” e vinha o sorriso de volta. A frase vem da música de 1996, feita na época que os ingleses sediaram a Eurocopa, que acabou voltando às paradas no país durante a Copa do Mundo. O sentido original era duplo: com a competição, o futebol voltava para casa, assim como havia a confiança de que um título internacional também voltaria.

 

É curioso estar no verdadeiro país do futebol na época de Copa, tão diferente do Brasil. Por um lado, tem a ver com um nível de confiança de que a seleção iria bem, absurdamente menor – e por motivos óbvios. E, ao invés da obrigação, a completa surpresa a cada vitória. Mas é fato que toda a “licença poética” que os brasileiros usam para escapar de quaisquer compromissos ou trabalho por um mês não existe, mesmo que a Inglaterra também seja apaixonada pela bola.

 

Estava contando a um colega dinamarquês como até os bancos e o mercado financeiro param nos jogos do Brasil. Ele se surpreendeu e disse: “com todo o respeito, mas é por coisas desse tipo que vocês são subdesenvolvidos”. Difícil discordar.

 

Mas na hora que as quartas de final coincidiram com as entrevistas logo após as entrevistas, sobrou para os franceses, que estavam bem na frente da única tela (que estava dividida ainda por cima) em que podíamos ver o jogo no cercadinho. Eles tiveram que esperar os pilotos sentados, caso contrário lá vinha reclamação.

Mas o maior telão era no centro do paddock, e tinha certamente mais de 100 pessoas vendo lá. Melhor para o pessoal da Mercedes, cujo terraço dava bem de frente para a tela. Aliás, é nessa hora que você vê que a F-1 é, na verdade, inglesa, com os “alemães” da Mercedes e os “franceses” da Renault, para ficar em dois exemplos, com os olhos grudados na tela.

 

Voltando à F-1, Brendon Hartley tem adotado uma tática bastante inteligente, usando a oportunidade que teve para estreitar suas relações com a Honda. O piloto neozelandês tem estado bem próximo dos japoneses, frequentando seu motorhome a todo momento, demonstrando interesse pelo desenvolvimento do motor. É como se soubesse que seu período na F-1 será limitado, mas sabendo que há uma carreira pela frente.

 

Falando em Honda, não há como não pensar na McLaren e na crise que o time vive. Quem acompanha a coluna já sabia que Gil de Ferran estava sendo preparado para a vaga de diretor esportivo. Conversei com ele na sexta e foi daquelas entrevistas difíceis, quando, apesar do respeito e da simpatia, o entrevistado não quer entregar muito.

 

Existe a especulação de que Gil não ficará muito tempo no cargo, que seria parte de uma transição que incluiria até mesmo Zak Brown. Isso porque os acionistas não estariam satisfeitos com as promessas do norte-americano que não passaram disso até agora.

 

Outro time inglês que está em um buraco difícil de sair, a Williams escancarou em Silverstone um problema que vem tirando o sono dos engenheiros desde o início da temporada. Algo na asa dianteira “estola” o assoalho nas curvas para a esquerda. Mas isso não acontece do outro lado, mesmo que tudo seja simétrico. O pessoal que desenha as peças culpa quem as faz e o contrário, enquanto os pilotos perdiam o controle do carro em plenas curvas de alta em Silverstone.

 

Um GP da Inglaterra não estaria completo sem a visita ao Rice Bowl, restaurante chinês que era o preferido de Senna em Towcester. Os brasileiros têm uma tradição de comer lá pelo menos uma vez durante o GP, mas o quórum atual é tão pequeno que temos nos juntado aos alemães que também batem cartão por lá. Desta vez, fui a primeira a chegar e perguntei pela mesa em nome de Michael Schmidt (aliás, para quem não conhece, um dos jornalistas mais competentes do paddock). A dona do restaurante me corrigiu. “Não, o nome dele não é Michael, é superman 2. Porque o superman 1 está lá em cima”, disse apontando para o céu.

Qui a casa loro

Quando a Mercedes trouxe a atualização de seu motor e dominou o GP da França, a impressão era de que as três corridas seguidas do período de Copa do Mundo seriam decisivas para a arrancada de Lewis Hamilton rumo ao pentacampeonato, uma vez que seria difícil a Ferrari reagir em tão pouco tempo.

Mas a briga de gigantes que tem tornado a temporada de 2018 tão fascinante e imprevisível garantiria reviravoltas. Na Áustria, apareceram as fraquezas do conjunto Mercedes que só afloraram sob pressão – do erro estratégico às quebras. Mas foi na Inglaterra que aconteceu o resultado mais significativo.

Voltemos 12 meses no tempo. Lewis Hamilton venceu tranquilo em Silverstone (mais do que isso, fez um Grand Chelem, com pole, volta mais rápida, e vitória liderando todas as voltas) e ainda impôs 37s de vantagem para a Ferrari mais próxima, de Kimi Raikkonen, em dia que Sebastian Vettel teve um furo no pneu com duas voltas para o final.

Com uma combinação de longas retas, poucas freadas fortes para ajudar na recuperação de energia e curvas de média e alta velocidades, Silverstone sempre foi o parque de diversões da Mercedes na era híbrida. Mas desta vez não foi assim.

A pole position foi suada, com Vettel só 44 milésimos atrás – em 2017, a diferença superou meio segundo – e o ritmo de corrida do alemão na ponta foi tranquilamente superior ao de Bottas antes do Safety Car (mais uma vez ele!) que chacoalhou a prova. É fato que, vindo de trás, Hamilton era mais veloz, mas, como de praxe nesta temporada, o líder sempre tende a segurar o ritmo para evitar o desgaste de pneus.

Não foi à toa que Vettel estava mais contente com o ritmo da Ferrari em Silverstone do que com a vitória em si. “We have been hammered here, literally”, disse ele, usando a expressão com o sobrenome do rival para dizer que a Ferrari fora arrasada na pista inglesa no passado recente. E celebrou a conquista “qui a casa loro”, na casa deles.

Isso é mais uma prova da evolução constante do carro da Ferrari, que ganhou novo assoalho e novo posicionamento dos espelhos em Silverstone, dentro das atualizações que chegam continuamente dos dois lados e que vão mudando a história do campeonato semana após semana.

Não é a toa, também, que Hamilton e Toto Wolff demonstraram terem acusado o golpe logo depois da corrida, insinuando que os incidentes da França entre Vettel e Bottas e deste domingo entre Lewis e Raikkonen não teriam sido coincidência. Falei com o piloto inglês poucos minutos depois e ele já tinha voltado atrás, mas a pressão para os dois lados é evidente.

Tanto, que o próprio Hamilton foi o primeiro a salientar que muitos pontos foram jogados fora nestas 10 primeiras etapas. Ele se referia ao próprio campeonato, mas também houve situações em que Vettel e a Ferrari que não aproveitaram oportunidades. E, com os italianos e a Mercedes travando um duelo técnico de tão alto nível, com uma sem deixar que a outra se sobressaia por muito tempo, a má notícia para os nervos dos postulantes ao título e a boa para nós é que será assim até o final.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Inglaterra

 

Hamilton6 a 4Bottas
Vettel9 a 1Raikkonen
Verstappen7 a 3Ricciardo
Perez3 a 7Ocon
Hulkenberg6 a 4Sainz
Stroll4 a 6Sirotkin
Gasly6 a 3Hartley
Alonso10 a 0Vandoorne
Leclerc8 a 2Ericsson
Grosjean3 a 7Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s325

Vettel x Raikkonen: 0s054

Verstappen x Ricciardo: 0s497

Ocon x Perez: 0s472

Hulkenberg x Sainz: 0s439

Sirotkin x Stroll: sem tempo

Alonso x Vandoorne: 0s909

Gasly x Hartley: sem tempo

Magnussen x Grosjean: 0s211

Leclerc x Ericsson: 0s601

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

“Energizado” por desafio na McLaren, Gil de Ferran rasga elogios a Alonso

Foi difícil arrancar alguma coisa de Gil de Ferran no primeiro dia em que o brasileiro deu entrevistas como chefe da McLaren. Tranquilo, porém escolhendo cuidadosamente cada palavra, o novo cartola do time inglês destacou que se sente preparado e, em suas palavras “energizado”. E não quer saber do rótulo de homem-forte de Zak Brown, que conhece há anos do automobilismo norte-americano, nem de Fernando Alonso, com o qual trabalhou na empreitada das 500 Milhas de Indianápolis ano passado. “Quero pensar que eu estou aqui por minha competência. E ponto”, disse ao blog em Silverstone.

Cuidadoso ao falar da situação da equipe, o novo chefe da McLaren esteve mais à vontade para falar sobre Alonso, a quem rasgou elogios, dando a entender que é importante para a equipe mantê-lo. “O meu respeito por ele como piloto cresce a cada dia e, como pessoa não tenho um ‘a’ para falar. Eu acredito que o Fernando Alonso é um dos melhores pilotos da história do automobilismo. E ponto, não precisa de mais nada. De fora, as pessoas não têm a mesma visão que eu estou tendo agora. Você vê o que o cara está fazendo e pensa ‘nossa senhora’. Em tudo, tudo. Tudo o que você pode pensar que faz um piloto bom ele é ou 9,5 ou 10 em tudo. O cara é realmente espetacular.”

Perguntei também sobre as declarações do piloto, querendo de afastar da imagem de alguém que teria uma grande influência nas decisões da equipe. Na quinta-feira, o espanhol falou insistentemente em sua entrevista coletiva que só pilota o carro e que seu poder dentro da McLaren se resumia a coisas relacionadas a isso. Para Gil, o discurso e a maneira como Alonso trabalha dentro da equipe estão alinhados.

“Ele é bem assim mesmo. Ele é importante no sentido de saber o que está falando. Quando ele fala, é melhor você prestar atenção porque ele sabe do que fala. É um piloto fantástico e tem muita experiência.”

Sobre a situação da equipe, Gil se mostrou alinhado ao discurso de Brown, falando em “olhar para dentro e entender o que está errado”, sem entrar em detalhes se vai comandar uma reestruturação total. “É claro que o carro está abaixo das expectativas. Estamos super determinados a olhar para dentro e fazer o que for necessário dentro da organização para tocar o negócio para frente.”

E, para tanto, o brasileiro se vê preparado. “Sinto-me muito mais preparado do que há 10 anos [disse, referindo-se a sua passagem pela BAR-Honda]. Hoje tenho 50 anos e sinto que todas as experiências que passei na vida me preparou de alguma forma para este momento, desde as conversas com meu pai, até os anos que passei tocando minha equipe. Desde que parei de correr, fui gestor, investidor, tudo isso fez parte da minha formação.”

E tudo isso será mesmo importante para um desafio grande que Gil de Ferran tem pela frente: a McLaren não faz um carro forte desde 2013, e não ganha um campeonato desde 2008. Hoje em dia, basicamente não há nenhum quesito em que o time se destaque – economicamente, tecnicamente ou mesmo na operação de pista (as estratégias não chamam a atenção, nem mesmo os pit stops, uma vez que o time é em média o terceiro mais lento no quesito no ano). E não é por acaso que o brasileiro começa sua jornada no comando sob os olhares atentos dos acionistas, presentes em Silverstone, onde o time se prepara para mais um fim de semana como têm sido os últimos anos: uma corrida para limitar os danos.

Por dentro da F-1 e a revolução dos pit stops da Sauber

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=STTUO1iHF94]
Todo mundo sabe que um segundo é muita coisa na Fórmula 1. E o quanto é difícil ganhar um segundo de uma hora para a outra. Mas foi o que a Sauber conseguiu nesta temporada: ganhar mais de 1s nos pit stops e ir de lanterna a uma das equipes mais rápidas do grid no quesito.

Os números são impressionantes. Ano passado, o time teve apenas em uma oportunidade – no GP da Áustria – um dos 10 pit stops mais rápidos de uma corrida. E ele não foi particularmente veloz: 3s05. Isso fez com que o time ficasse em último, com apenas um ponto, no campeonato de pit stops, algo que passa batido para a maioria dos fãs, mas que é levado muito a sério pelos mecânicos. O título do ano ficou com a Mercedes, com 472 pontos, seguido por Williams e Red Bull. A pontuação funciona da mesma forma que do campeonato de pilotos.

Um ano depois, a Sauber é a segunda no campeonato de pit stops. Por três vezes, o time foi o mais rápido e, na última corrida, fez o segundo pit stop mais veloz.

Mas como a equipe de Leclerc e Ericsson conseguiu uma mudança tão significativa em tão pouco tempo? O mecânico brasileiro Tiago Fadel, que está na Sauber desde 2014, contou ao blog.

“A gente vem de uma década de BMW em que nada funcionava. O material era antiquíssimo. Tudo arrebentava e nós tínhamos que reformar porque não havia dinheiro para comprar peças novas. Por isso estávamos sempre em último, com 1s atrás de todo mundo.

“Neste ano, tivemos a ajuda da Ferrari. Eles cederam para nós todos os mecanismos, ou seja, as porcas e as parafusadeiras. Compramos o material novo, igual o que todo mundo usa e, com isso chegamos mais perto. Com isso conseguimos tirar um segundo.”

Mas mesmo isso não seria possível para liderar a tabela de pits stops mais rápidos. Faltava investir na preparação e estudar os pontos fracos da equipe da qual Tiago faz parte como responsável por trocas de asa e acertos de flaps.

“Fomos em fevereiro para a Itália para nos prepararmos com a Fórmula Medicine. Foi uma preparação forte, mental, que nos deu a chance de chegar onde estamos chegando. A gente treina muito e descobrimos quem é melhor em cada função. Mexemos praticamente no time todo e então conseguimos chegar nos melhores. Agora sabemos que vamos colocar pelo menos um carro com certeza no top 3 em todas as corridas até o final do ano, mas nosso objetivo é colocar sempre os dois carros lá na frente, para que a gente possa ganhar o campeonato deste ano.”

De fato, a Sauber segue em evolução. No começo do ano, com os novos equipamentos, o time fazia suas melhores paradas em cerca de 2s80. Agora, está fazendo trocas consistentemente em 2s30.

Colocar os dois carros consistentemente no top 10 será fundamental para o time chegar no almejado título, uma vez que a diferença para a líder, a Red Bull, é grande. O time de Ricciardo e Verstappen tem 242 pontos. E, curiosamente, com o segundo lugar da Áustria, a Sauber acaba de passar sua “benfeitora”, a Ferrari.

Drops do GP da Áustria com saudades de casa

Isso faz muito tempo

A demora na divulgação do calendário para o ano que vem já está chamando a atenção no paddock e as teorias para a demora são, no mínimo, curiosas. Tem as partes que fazem sentido, como a pressão dos americanos para que o GP do Japão seja em abril, para juntar as provas asiáticas. Mas é improvável que isso aconteça, já eles já avisaram que a chance de ter a prova cancelada, de tanta chuva nessa época, é real.

 

A corrida da Rússia, contudo, não voltaria para a primeira parte da temporada. Já que Putin está pressionando que a prova seja parte das comemorações de seu aniversário, dia 7 de outubro. É sério.

 

Com os alemães de Hockenheim deixando claro que suas negociações são para 2020, e não para a próxima temporada, aumentou a pressão para que a prova de Miami saia do papel, já que a Liberty quer manter 21 corridas no calendário. Mas parece que, a cada semana, aparece um empecilho administrativo/legal e pode não haver tempo suficiente para fazer a corrida já em 2019. Nesse cenário, Nurburgring passa a correr por fora.

 

Acho que muitos de nós já nos pegamos inventando um calendário perfeito para a F-1, mas há quem diga que 75% das provas têm as datas fixadas por contrato.

 

O que também está tomando forma é o mercado de pilotos. A ida de Leclerc para a Ferrari parece selada, mas não a aposentadoria de Raikkonen. As conversas com a McLaren fazem sentido porque o time precisa de um campeão do mundo – está lá em seu media kit que eles têm pelo menos um campeão desde 2007 – e Kimi estaria feliz em ter mais um ano de salário alto. Ele está na mesma situação de Massa ano passado: quer ser aquele que vai decidir sobre seu futuro e está motivado para continuar correndo (ainda que já não tenha a velocidade de antes). Mas ao mesmo tempo teme acabar a carreira se arrastando no fundo do grid.

 

Falando em voltar a uma velha casa, Alonso nem está mais se esforçando para manter as aparências na McLaren, apesar de não parecer convencido a se aposentar da F-1. Ir para a Indy ou focar apenas no Endurance e nas 500 Milhas são possibilidades, mas ele não desistiu completamente do paddock. E seu empresário já sondou a Renault sobre uma possível troca com a McLaren envolvendo Sainz. O que não parece ter sido muito bem recebido pelo time de Enstone.

 

Em qualquer cenário, o fato é que Vandoorne sobra na McLaren, que precisa arrumar uma vaga para Norris antes que outro time o faça. Seu empresário tem relações na Sauber e tenta algo por lá, mas tudo depende do investimento dos suecos para manter Ericsson, uma vez que a outra vaga iria para Giovinazzi, substituto natural de Leclerc.

 

Com o programa da Red Bull vivendo época de seca e McLaren e Ferrari fazendo seus pilotos “rodarem”, abrindo vagas, será interessante ver o que a Mercedes fará com Russell. Para mim, o melhor piloto da F-2 no momento.

 

Voltando a Leclerc, conversei com o brasileiro Tiago Fadel, que trabalha com ele na Sauber, e sua opinião é clara: “Ele vai bater Vettel na Ferrari”. Veremos.

Expondo as bolhas

Quando o diretor de competições da Pirelli, Mario Isola, sentou para falar com os jornalistas em Spielberg sobre as primeiras impressões após os treinos livres do GP da Áustria, seu desânimo por não ter muito o que dizer era claro: como de costume quando são escolhidos os compostos ultra, super e macio, o delta entre eles era pequeno e não havia degradação excessiva. Ou seja, pelo menos do ponto de vista dos pneus, não havia motivos para acreditar em uma corrida com muitas alternativas.

Mas Isola deixou um ponto no ar. O asfalto em Spielberg é daqueles novos, que parecem um tapete. Na verdade, pareciam. À medida que a superfície vai “amadurecendo”, especialmente o traçado ideal e os pontos de freada vão craquelando, algo que já tinha sido observado em Paul Ricard. E era algo que poderia mudar o curso da história.

Pouco menos de 48h depois, todo aquele marasmo a respeito da nona etapa do campeonato tinha ficado para trás. Vimos ultrapassagens na parte de cima, do meio e do fim do pelotão, carros com diferentes estratégias devido a comportamentos distintos dos pneus.

Mas tudo isso só aconteceu por conta de uma quebra. Uma queda de pressão hidráulica que fez o câmbio do carro do líder Bottas travar, trazendo o Safety Car Virtual à pista na volta 18.

Era a janela para quem estava com os ultramacios, como a Ferrari. Mas também não estava muito longe da janela dos supermacios, da Red Bull e de Hamilton. Sem calcular bem a perda da parada sob VSC, a Mercedes deixou o inglês na pista e jogou contra a estratégia vencedora da temporada, de vencer da maneira mais lenta possível.

Isso porque Hamilton teria de forçar o ritmo, o que acabaria com os pneus mais cedo e não garantiria os 8s necessários para parar e voltar tranquilo na ponta. Isso, logo neste ano, em que a receita de sucesso é proteger ao máximo os pneus para parar o menor número de vezes possível.

Quando ficou claro que Hamilton já não tinha pneus para tentar abrir – na verdade, o prejuízo acabou ficando maior do que os 8s iniciais, a solução foi chamá-lo ao box e calçar os macios para tentar ir até o fim. Isso seria fácil se o inglês estivesse controlando o ritmo na ponta, mas não tentando recuperar terreno no meio do trânsito. Assim como Ricciardo, que também estava atacando Raikkonen, Hamilton acabou com seus pneus na briga com Vettel. E ambos já eram cartas fora do baralho antes de seus abandonos – Hamilton por queda de pressão de combustível e Ricciardo por um problema no escapamento.

Não que Verstappen, mesmo controlando o ritmo na ponta, não tivesse problemas com bolhas, mas o fato de estar em primeiro permitiu que ele entendesse qual a melhor forma de corrigir isso, não forçando tanto nas curvas para a direita – que colocam pressão no traseiro esquerdo – e ganhando tempo nas demais partes do circuito. Diminuindo a temperatura no pneu que estava sendo o mais afetado pelas bolhas, ele conseguiu manter um bom ritmo até o fim.

Esse não foi, contudo, o caso das Ferrari. Kimi teve sua briga com Ricciardo e Vettel, com Hamilton, e mesmo assim seus pneus macios aguentaram bem até o final.

Trata-se de uma vantagem que a Ferrari tem desde o início do ano, mas que fica escondida quando se sacrifica o ritmo de corrida para evitar um segundo pit stop. Isso só deixa claro como a Ferrari teria o campeonato na mão se conseguisse largar na frente das Mercedes. Ainda mais agora que o carro prateado gera ainda mais pressão aerodinâmica com as atualizações, e depende ainda mais de um ritmo cadenciado que esteve longe de ser a realidade do GP da Áustria.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Áustria

 

Hamilton5 a 4Bottas
Vettel8 a 1Raikkonen
Verstappen6 a 3Ricciardo
Perez3 a 6Ocon
Hulkenberg5 a 4Sainz
Stroll4 a 5Sirotkin
Gasly5 a 3Hartley
Alonso9 a 0Vandoorne
Leclerc7 a 2Ericsson
Grosjean3 a 6Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s019

Vettel x Raikkonen: 0s196

Verstappen x Ricciardo: 0s156

Ocon x Perez: 0s131

Sainz x Hulkenberg: 0s294

Stroll x Sirotkin: 0s058

Alonso x Vandoorne: 0s306

Gasly x Hartley: 0s355

Grosjean x Magnussen: 0s841

Leclerc x Ericsson: 0s511

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Direto da sala de reunião dos pilotos

Tivemos uma conversa muito interessante com Charlie Whiting aqui na Áustria sobre como os comissários decidem sobre as punições. O motivo do chamado foi a irritação da FIA com as críticas de Grosjean pela punição no GP da França, e os replays mostrados deixaram claro que o francês jogou o carro em cima do compatriota Ocon antes da primeira curva.
Mas Whiting abordou também a polêmica punição de Vettel. Disse que outros incidentes semelhantes resultam em 10s de punição, mas que toques na primeira curva sempre são analisados de maneira diferente, então isso explica os 5s. “Por motivos que acredito que estejam claros para todo mundo”, disse Whiting, referindo-se a freios e pneus mais frios e à proximidade entre os carros.
Mas o questionei sobre a possibilidade dos comissários passarem a analisar também as consequências dos toques na hora de decidir as punições e Whiting disse há a discussão se isso deve fazer parte do julgamento de uma penalidade efetivamente.
“Os comissários não olham as consequências, ainda que, no final das contas, seja algo que inconscientemente interfere. É algo que estamos discutindo porque isso poderia abrir a porta para algo que não esperamos, mas há quem possa dizer que seria senso comum. É algo que estamos discutindo no momento.”
A entrevista foi reservada a poucos jornalistas, não mais de 10, e foi feita na mesma sala onde, logo mais, os pilotos vão se reunir para sua reunião tradicional pós-treinos livres. É neste momento que os pilotos, se estiverem infelizes com alguma punição, podem reclamar diretamente com Whiting. E ele estará lá, com o mesmo sistema utilizado pelos comissários.
Foi a primeira vez que vi esse sistema. Todos os incidentes podem ser listados por corrida, por piloto, por tipo de infração e por qual foi a decisão tomada. Então fica fácil para os comissários estudarem punições anterioes para o mesmo tipo de incidente. Em cada arquivo, estão os ângulos vistos pelos comissários (no caso de Grosjean, nos foi mostrada a filmagem panorâmica da largada, que não foi usada durante a prova) e o documento da FIA com a decisão, com a explicação detalhada do porquê cada punição foi – ou não – dada.
Vendo tudo aquilo, fiquei pensando em tudo o que foi mudando na F-1 desde que cheguei por aqui, em 2011, em relação ao julgamento de punições. Whiting foi tentando prever todas as infrações no regulamento, e depois desistiu, vendo como é difícil colocar uma regra só quando há vários “campos de jogo”. Hoje, os limites são mais conversados internamente com os pilotos do que descritos nas regras. E não surpreenderia se o jugalmento das consequências também entrassem nesse bolo.

Drops do GP da França e o chocolate da McLaren

Era um desastre anunciado: é justo dizer que em algum momento todos que estiveram no GP da França ficaram presos em um engarrafamento nos arredores ou até mesmo dentro da pista. Ao longo do final de semana, a polícia local foi modificando o esquema de trânsito para dar mais fluidez, mas mesmo assim as filas eram enormes. Há apenas dois acessos principais para o circuito, de mão dupla, e foram vendidos 65 mil ingressos para o domingo – e inclusive na sexta-feira havia muito mais gente na pista do que o normal.

 

A resposta de Chase Carey ao problema foi péssima: “Pelo menos quer dizer que estamos populares”. Bom, não vão ficar por muito tempo quando se paga caro pelo ingresso para chegar até a perder atividade de pista. Isso, e também as críticas ao layout do circuito geraram a discussão se não seria melhor ir para outro lugar, até mesmo voltar para Magny Cours. A questão é que há dinheiro e interesse na França para um GP, mas nenhum autódromo que comporte a F1 atual.

 

Além de um esquema diferente para o trânsito, discutiu-se também a possibilidade de alterar a pista, que tem dezenas de configurações distintas. Quando a questão foi levantada na reunião de pilotos e o problema dos custos foi levantado, Vettel se opôs: “Eles não têm problema de dinheiro aqui se cobram 80 euros por um sanduíche no hotel da pista!”

 

Falando em Vettel, vi o momento em que ele, logo que saiu do carro, foi se explicar com Bottas. O finlandês manteve-se de capacete, só deu de ombros e basicamente deixou o alemão falando sozinho. O curioso foi que Verstappen, Hamilton e até Alonso aproveitaram a situação para alfinetar Vettel – Max foi irônico e advogou em causa própria, pedindo que a mídia passasse a pressionar Seb da mesma forma que fez com ele, Hamilton disse que ele se safou e que deveria ter recebido punição mais forte e Alonso falou aos italianos que o piloto que tomou sua vaga na Ferrari arriscou demais na primeira volta para alguém que está lutando o campeonato.

 

A coletiva dos chefes de equipe teve uma extensa discussão sobre premiar seus funcionários com um chocolate com cara de sapo. Tudo começou com uma matéria do jornalista Jonathan McEvoy, do tabloide inglês Daily Mail, sobre o clima ruim que Eric Boullier tem na McLaren, e como ele teria tentado “comprar” seus funcionários com o tal chocolate, chamado Freddo.

 

O jornalista acabou sendo banido do motorhome da McLaren por conta da matéria, mas Boullier não conseguiu escapar dos questionamentos porque estava escalado para a coletiva. O francês até tentou colocar Zak Brown no seu lugar, mas foi avisado que isso não passaria a melhor das mensagens para a imprensa.

 

O fato é que Boullier está sob intensa pressão, como já coloquei por aqui, e aumenta a especulação de que ele não chega a Spa no comando da McLaren.

 

O mercado de pilotos também está começando a se agitar – ou pelo menos o mercado de boatos. Nesta fase, é muito comum alguns jornalistas serem usados para passar as mensagens que os times querem. Tanto que veio do Bild via Marko a tal proposta da McLaren para Ricciardo, por exemplo. E na imprensa italiana também ganha força que Raikkonen está fora e Leclerc, dentro da Scuderia em 2019. Mas será que não é exatamente o que a Ferrari quer para tirar mais de seu piloto? Sempre é bom ver de onde vem e questionar as informações.

 

O que posso dizer é que Ricciardo e Horner deram a entender que a renovação está próxima. Ele falou em assinar na semana que vem ou na próxima, porque quer resolver logo. E seu chefe falou que seria muito surpreendente se ele desistisse de uma equipe com a qual está ganhando.

 

Mas a renovação seria por quanto tempo? Ricciardo é o primeiro a reconhecer que todos estão tentando dar uma de Hamilton e acertar quem vai levar vantagem em 2021. “Se bem que o Lewis diz que não, mas eu acho mesmo é que ele deu sorte”.

Na hora certa

Havia uma sensação de alívio quando Lewis Hamilton recebeu a bandeirada do GP da França. Afinal, tínhamos visto uma corrida bem mais movimentada do que era esperado, e isso não dependeu somente das provas de recuperação de Sebastian Vettel e Valtteri Bottas. Os pilotos vinham para as entrevistas empolgados porque quase todos tiveram alguma briga real em determinado momento da prova.

Menos ele, Hamilton. Como tem sido a regra neste ano, especialmente de maio para cá, a cada circuito que a F-1 visita um protagonista se destaca. Na Espanha, foi o próprio. Em Mônaco, Daniel Ricciardo. No Canadá, Sebastian Vettel e agora, novamente o inglês. E com alguns ingredientes semelhantes àquele final de semana em Barcelona, como os pneus e curvas rápidas de raio longo.

Mas ninguém na Mercedes escondia a satisfação com a atualização do motor, que acabou sendo até melhor do que inicialmente era planejado. A versão 2.0 que faria sua estreia no Canadá acabou virando a 2.1 na França, e os pilotos relataram uma melhora clara de dirigibilidade. A questão da confiabilidade, contudo, tem de ser levantada após a queda de pressão de água que fez Sergio Perez abandonar.

Do lado de Vettel, ficou a sensação de que o alemão não esteve em seus melhores dias na França. Na classificação, ele calcula que a diferença real para Hamilton tenha sido de 0s2, e não os quase 0s4 reais, uma vez que não acredita que tenha dado uma volta perfeita em nenhum momento no final de semana. E, na corrida, disse que ficou encaixotado e perdeu aderência na primeira curva, admitindo o erro que mudou a história da corrida – e que acabou saindo barato com a punição de apenas 5s, uma vez que basicamente acabou com as chances de Bottas, que visivelmente tinha dificuldade de pilotar um carro que precisou apenas de “velocidade de cruzeiro” para vencer com seu companheiro.

Fazia tempo que a F-1 não tinha uma primeira volta tão cheia de ação, e isso tem explicação. Os ultramacios e supermacios eram muito parecidos em rendimento e degradação, e por isso as equipes fizeram escolhas variadas. A única diferença entre os compostos, contudo, seria na largada, o que contribuiu para que os primeiros metros dos carros não fossem lineares. E o segundo fator é a própria pista, com a primeira volta relativamente perto da largada e com uma área de escape enorme. No final das contas, correu-se muitos riscos, carros com rendimentos diferentes acabaram se misturando e, enfim, tivemos uma corrida.

A boa notícia é que, na Áustria, o cenário tem tudo para ser parecido. Teremos os mesmos compostos, ainda que não exatamente os mesmos pneus, pois voltam os mais grossos, mas o importante é que, por toda a temporada e independentemente das condições, o ultra e o supermacio têm tido rendimento semelhante. E a primeira curva da Áustria também tem uma larga área de escape, ainda que haja mais reta desde a pole.

Em um campeonato no qual detalhes como estes podem mudar o rumo das corridas, não dá para dizer que a (segunda) virada de Hamilton é definitiva, mas o fato é que, com quatro corridas nas próximas cinco semanas, está claro que ela acontece na hora certa.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da França

 

Hamilton5 a 3Bottas
Vettel7 a 1Raikkonen
Verstappen5 a 3Ricciardo
Perez3 a 5Ocon
Hulkenberg5 a 3Sainz
Stroll3 a 5Sirotkin
Gasly5 a 3Hartley
Alonso8 a 0Vandoorne
Leclerc6 a 2Ericsson
Grosjean2 a 6Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s118

Vettel x Raikkonen: 0s657

Verstappen x Ricciardo: 0s281

Ocon x Perez: 0s379

Sainz x Hulkenberg: 0s099

Sirotkin x Stroll: 0s090

Alonso x Vandoorne: 0s186

Gasly x Hartley: 0s422

Magnussen x Grosjean: 0s038

Leclerc x Ericsson: 0s765

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Quando Jim Clark deixava a F1 de antigamente sem graça

Terceira corrida de um campeonato que já ia se desenhando como fácil para Jim Clark. Na estreia, em Mônaco, fez a pole batendo até mesmo o Mr. Mônaco Graham Hill, mas abandonou com problemas de câmbio (em uma corrida que tinha 100 voltas na época e demorava mais de 2h30!).

Na segunda etapa, na Bélgica, vencera com facilidade, e mostrara novamente sua superioridade na classificação na Holanda: Clark fez a pole position com oito décimos de vantagem.

Não que isso surpreendesse os rivais: foi justamente em Zandvoort no ano anterior que Colin Chapman apareceu com o Lotus 25, um dos melhores carros da história da F1, com o qual sua equipe dominaria os anos 1960.

Na largada, Clark manteve a ponta, com Graham Hill – que tentara usar a BRM nova, mas tivera de voltar ao carro antigo – em segundo e Bruce McLaren em terceiro apenas até a terceira volta, quando seu câmbio quebrou.

Mais atrás, quem chamava a atenção era Dan Gurney, que largou em 14º e não demorou para alcançar o pelotão da frente, mesmo tendo perdido todos os treinos por um problema no carro, chegando a emprestar o bólido do companheiro – e chefe de equipe – Brabham para se classificar.

A corrida chegou a ter bastante ação do segundo para trás: Hill foi ultrapassado por Jack Brabham e depois recuperou a posição depois do acelerador do carro do australiano ter ficado travado e ele ir parar na areia, e John Surtees teve uma briga particular com Gurney até a volta 63, quando o britânico cometeu um erro.

Hill parecia estar tranquilo em segundo quando teve um problema de superaquecimento, fez reparos nos boxes, e ainda teve tempo de se recuperar, chegando a voltar ao segundo posto antes de seu motor quebrar. Assim, Clark recebeu a bandeirada em primeiro, seguido por Gurney e Surtees.

Dos 19 carros que largaram, nove completaram, sendo que só um por acidente. Mas que seja dado um desconto para as máquinas da época: a prova foi mais longa do que hoje em dia, com 335km no total. Mesmo sendo muito mais veloz que os rivais, Clark completou as 80 voltas em 2h08min.

Era o segundo grand chelem da carreira do escocês, algo que se tornaria comum entre 63 e 65. E, de quebra, a Lotus colocou uma volta até mesmo no segundo colocado, em um ano no qual Clark seria campeão pela primeira vez com sete vitórias, contra apenas duas de Hill e uma de Surtees, com a Ferrari, estabelecendo um recorde que duraria mais de 20 anos.

Apenas em 1984 Alain Prost igualou as sete vitórias em uma temporada e, em 1988, Ayrton Senna chegaria a oito e finalmente bateria Clark, ainda que a média do escocês fosse superior, ao vencer 70% das provas disputadas na temporada, contra 50% de Senna no que também foi seu primeiro título mundial.

Estratégia do GP do Canadá e como a Ferrari ganhou na ‘casa’ da Mercedes

Na sexta-feira depois dos treinos livres, o cenário era de um GP do Canadá completamente aberto, com vantagem para a estratégia de duas paradas, dando preferência aos hipermacios – justamente os pneus dos quais o time que tinha tido o melhor ritmo nas simulações de corrida, a Mercedes, queria fugir a todo custo. Como terminou sendo uma prova monótona, e com a Ferrari na frente?

Primeiro, algumas considerações sobre os pneus. Na sexta-feira, o supermacio era 0s5 mais lento que o ultramacio que, por sua vez, era 1s1 mais lento que o hiper. Mas o mais significativo era que o comportamento dos compostos rosa e roxos era bem distinto, dificultando o acerto: com o hiper, os traseiros logo tinham graining por conta dos vários trechos de tração do circuito Gilles Villeneuve; com o ultra, a traseira entrava na temperatura ideal e dava muita aderência, “jogando o carro para frente” e desgastando mais os dianteiros. Ou seja, seria difícil acertar o carro e a pilotagem para ambos ao mesmo tempo.

O ideal, portanto, seria esquecer a história das duas paradas e tentar fazer o Q2 com o ultramacio, fugindo do hiper na corrida. As únicas equipes que tinham ritmo para tanto, claro, eram Mercedes, Ferrari e Red Bull. As duas primeiras seguiram a cartilha. A terceira, sabendo que dificilmente conseguiria um lugar nas duas primeiras filas, muito em função do (ainda) deficitário modo de classificação do motor Renault, e teria que atacar no começo da prova, e apostando no seu bom trato com os hiper, optou pelo pneu rosa.

Enquanto isso, na briga entre Mercedes e Ferrari, o time italiano foi se encontrando ao longo do final de semana, algo muito comum nas últimas duas temporadas e que tem a ver com a boa compreensão da evolução da pista, algo fundamental em Montreal, circuito que não é usado no decorrer do ano.

Isso tornou a briga pela pole muito difícil para a Mercedes, que já tinha dois fatores jogando contra: a falta de atualização e o excesso de quilometragem de seus motores e o superaquecimento dos pneus hipermacios. Junte a isso o pássaro que entrou no duto de freio do carro de Hamilton – aquela fritada do hairpin já foi suficiente para lhe custar a pole – e temos Vettel em uma merecida pole, Bottas em segundo e Verstappen conseguindo mais do que a Red Bull imaginava em terceiro.

No domingo, com condições climáticas similares aos dias anteriores – uma queda de temperatura favoreceria o hipermacio, mas ela não veio – só havia um fator que poderia movimentar a prova: se Verstappen e Ricciardo conseguissem usar a aderência adicional para ganhar posição de pista logo de cara.

Isso não aconteceu, e a partir daí se tornou mais uma corrida de administração de combustível e unidade de potência do que de estratégia e pneus. Até porque ultrapassar se mostrou muito mais difícil do que o esperado, mesmo com três zonas de DRS. São três os fatores: perda de pressão aerodinâmica no tráfego, superaquecimento de freios, cada vez mais complexos, e dos próprios pneus. Isso gerou mais uma “não-corrida” e desestimulou a tradicional briga entre pilotos com uma e duas paradas em Montreal, pois desta vez não valia a pena parar duas vezes e ficar preso atrás de outro carro.

A única tática que funcionou foi o undercut, o que só evidencia a dificuldade de ultrapassar, pois quer dizer que o carro quem vem atrás tem mais ritmo e, mesmo potencialmente desgastando mais os pneus no trânsito, consegue usá-lo para passar no box. Foi o que aconteceu na briga entre Hamilton e Ricciardo (ajudado pelo erro do inglês), Hulkenberg e Ocon e Alonso, que depois abandonou, e Leclerc. Basicamente as trocas de posição após a primeira volta foram ou pilotos passando Sirotkin, ou Perez se recuperando da parada antecipada, ou por meio de undercut.

Talvez a única decisão estratégica que poderia ter sido diferente é em relação a Raikkonen, que passou algumas voltas na janela de undercut de Hamilton, mas a Ferrari optou por mantê-lo na pista e ele acabou perdendo essa vantagem. Isso foi entre as voltas 24 e 30 – o finlandês parou na 32 – mas a diferença nunca foi clara o bastante para que ele realmente voltasse à frente. Contudo, sabendo que os supermacios aguentariam sem problemas até o fim, valeria a pena arriscar antecipar o pit stop de Kimi.

Voltando à administração, chamou a atenção a declaração de Valtteri Bottas de que sua Mercedes chegou no limite de combustível, enquanto Vettel demonstrou todas as vezes que o finlandês apertou o passo que tinha ritmo sobrando. Mas isso pode ter a ver com o descompasso das atualizações. O que a Mercedes tem de ficar de olho é em seu rendimento com pneus mais macios: em uma temporada que cada vez mais se desenha para ser ditada pela posição de pista, e não durabilidade dos pneus ou estratégias mirabolantes, largar na frente se tornou mais importante do que nunca.

Drops do GP do Canadá e o futuro da F1

20180607_152336Duas perguntas: A, a Mercedes entrou em contato com você? B, a Ferrari entrou em contato com você? E Daniel Ricciardo sorri e diz. “A, talvez. B, talvez.”

Não há dúvidas de que o valor de mercado do piloto australiano aumentou significativamente neste início de temporada, mas apostar hoje em uma ida a uma destas duas equipes seria bem ousado. Na Mercedes, é bom lembrar que Wolff ainda leva uma parcela dos contratos de Bottas, e na Ferrari há a questão se Vettel poderia barrar Ricciardo – ou mesmo se Ricciardo dividiria o time italiano com o alemão da mesma forma que Raikkonen o faz.

Há, é claro, opções mais ousadas, como a Renault, equipe que mais vem crescendo nos últimos 18 meses na F-1, ou a McLaren, com Fernando Alonso cada vez dando mais a impressão de que cansou de esperar uma melhora do time e vai atrás mesmo é da sua tríplice coroa.

Falando nela, há quem diga no paddock que, se ele vencer Le Mans, não vai aceitar nada que não lhe dê a chance de tentar a vitória nas 500 Milhas em 2019. Não é a toa que Zak Brown disse em Montreal. “Não sei o que ele vai querer fazer ano que vem, mas tenho certeza de que será com a McLaren.”

O time não esconde que está estudando entrar na Indy, e oficialmente esse é um dos motivos pelos quais Gil de Ferran foi contratado como uma espécie de conselheiro. Nos bastidores, contudo, o nome dele já surge como um possível substituto de Eric Boullier, que para muita gente no paddock já está fazendo hora extra no cargo.

Mas voltando a Ricciardo, qualquer movimento vai ter que esperar algo maior que está acontecendo nos bastidores: a definição do regulamento de motores de 2021. Até porque outra definição, do fornecimento da Red Bull para 2019, está  atrelada a isso.

A Honda já deixou explícito que quer manter o MGU-H no regulamento, e se isso não acontecer pode muito bem sair da categoria ao final de 2020. A Mercedes também se colocou a favor da continuidade do MGU-H, mas ainda não há consenso e, em Montreal, deu para ver uma série de reuniões entre os chefões.

O problema da Red Bull é que existe a possibilidade de que não haja uma definição até o fim do mês, como as montadoras prometeram à FIA, e as negociações podem se estender por meses. Ou seja, por mais tempo do que o time gostaria para ou apostar na Honda, ou seguir com a Renault. Essa, sim, garantida por contrato para além de 2020.

E esse não é o único foco de tensão no paddock. As TVs à cabo, especialmente a Sky inglesa, cujo contrato fechado até 2024 vale quase 5 bilhões de reais, não estão gostando nada do aumento de conteúdo gratuito produzido pela FOM. O centro da discórdia é o programa ao vivo do Twitter, que teve 2.5 milhões de views em Mônaco, 50 vezes (!) o previsto inicialmente. Mais da metade desses views aconteceram durante a transmissão, ou seja, durante o pós-show da Sky, que é paga e tem audiência total na Inglaterra de cerca de 600mil espectadores por corrida.

Trata-se de um choque de cultura na maneira como a Liberty pensa em lucrar com a F1: disponibilizando o máximo de conteúdo grátis possível e cobrando pelos extras, revertendo a tendência de levar a F-1 à TV a cabo. O paddock club agora é controlado por uma empresa norte-americana, outro passo que muitos consideram um erro, além da flexibilização das taxas para receber as corridas. Basicamente, eles estão desconstruindo todo o mecanismo de receita de Ecclestone apostando nas plataformas online. Visão ou ingenuidade? A velha-guarda da F1 tem a resposta na ponta da língua.

Já vimos esse filme

Parece até um repeteco de 2010, com uma alternância de rendimento entre as equipes e várias ocasiões em que a competição é tão apertada que mesmo os grandes não conseguem maximizar seus resultados, seja por falhas das equipes ou de seus pilotos. Parece até um repeteco de 2010, com um campeonato cheio de alternativas e várias corridas em que não muita coisa acontece.

Se em Mônaco já tinha se acendido o sinal amarelo em relação à não-disputa que a atual geração de carros proporciona, em Montreal isso ficou escancarado. A corrida tinha tudo para ser agitada, com seis carros andando em um ritmo bastante parecido nas simulações de corrida, uma pista com várias retas e, inclusive, três zonas de DRS, os pneus que se degradam mais na escala da Pirelli, e estratégias diferentes nos três primeiros.

Mas o que poderia movimentar a corrida acabou não acontecendo. Valtteri Bottas teve todo o sangue frio do mundo para dividir as duas primeiras curvas com Max Verstappen, se manteve à frente e basicamente matou, ali, a corrida, pois a Red Bull precisava ganhar posição de pista para fazer sua tática de largar com os hipermacios funcionar.  

A partir daí só Ricciardo conseguiu usar as dificuldades com a PU e o erro de Hamilton na saída do box para ganhar uma posição. Até mesmo o décimo lugar de Charles Leclerc dependeu do toque entre Sainz e Perez. O top 10 foi basicamente definido no sábado.

Não que todas as corridas deste ano tenham sido assim, e basta lembrar do grande final do GP da China, mas também é verdade que, em última análise, toda a emoção que tivemos na pista nesta temporada esteve ligada a um Safety Car. Em relação aos carros, não há o que se possa fazer – e o regulamento de 2019 já tenta mudar o problema da turbulência. A esperança é que as escolhas de compostos da Pirelli para a segunda metade da temporada ajude, uma vez que, a partir da Hungria, a tendência é que a maioria das corridas tenham um “salto” de compostos (por exemplo, ultramacio, macio, médio). Isso só não foi feito até agora porque as decisões até aqui já tinham sido tomadas antes da temporada começar.

Esse dado, inclusive, está aí só para nos lembrar que o campeonato só acabou de passar do primeiro terço, e a liderança do campeonato já trocou de mãos duas vezes. Depois da segunda corrida, Vettel abriu 17 pontos. Depois da quinta, era Hamilton quem tinha 17 pontos de vantagem. E agora o alemão está na frente novamente.

Por quantas vezes não terminamos uma corrida pensando que toda essa alternância tinha chegado ao fim? No Canadá, a Ferrari deu a impressão de ter dado um passo importante em seu motor em relação à eficiência de seu motor, pois, nas entrevistas após a prova, ficou claro que o ritmo de Vettel foi o que mais impressionou. Uma vez que a avaliação desde a sexta-feira era de que a Mercedes era o time que lidava melhor com os pneus – não os hipermacios, claro! – essa diferença foi creditada à menor necessidade de poupar combustível, uma vez que Bottas chegou ao fim no limite.

A eficiência do motor é um dos fatores que vão piorando ao longo de seu ciclo de vida, mas a Mercedes garantiu que uma de suas grandes armas é justamente o fato deles terem conseguido minimizar todas as perdas relacionadas à quilometragem. Tanto, que quando os pilotos eram questionados se a maior diferença seria a falta de atualização ou o excesso de quilômetros no motor, os pilotos sempre elegiam o segundo, mas garantiam que não seria mais do que cerca de dois décimos. Não é por acaso, portanto, que Wolff cobrou uma reação de seu time que, não pela primeira vez no ano, deixou de maximizar um resultado em uma pista na qual deveria dominar.

Falando em motores, a Renault parece ter dado um passo, com Verstappen ficando a pouco mais de dois décimos da pole, mas também é fato que a tração da Red Bull é um ponto muito forte do carro e o trato com os hipermacios, também, então é melhor esperar por outras pistas. Ou esperar por outro update, como prefere Verstappen. De fato, a desvantagem era grande e a realidade da Red Bull segue sendo apostar em uma estratégia diferente para recuperar posição de pista, pois sabe que vai classificar um pouco mais atrás, ou esperar algum ingrediente como o SC (ou uma pista como Hungaroring). E por isso não dá para colocar Ricciardo como candidato ao título.

Já do lado da Honda, os ganhos foram claros. É só olhar a classificação de Hartley, com motor novo, e de Gasly, com o velho. Ver uma grande atualização funcionar não foi algo comum nos primeiros anos dos japoneses na F-1, e não há motivos para que isso não se torne a regra.

Falando em motores, eles serão importantes novamente em duas semanas, na França. Mas depois dessa corrida em que o rei de Montreal Hamilton não passou de quinto e a Ferrari, quem diria, adotou o modo econômico, mas nesse campeonato tão 2010, é melhor deixar as previsões de lado e curtir a viagem.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP do Canadá

 

Hamilton4 a 3Bottas
Vettel6 a 1Raikkonen
Verstappen4 a 3Ricciardo
Perez3 a 4Ocon
Hulkenberg5 a 2Sainz
Stroll3 a 4Sirotkin
Gasly4 a 3Hartley
Alonso7 a 0Vandoorne
Leclerc5 a 2Ericsson
Grosjean2 a 5Magnussen

Diferenças de hoje:

Bottas x Hamilton: 0s139

Vettel x Raikkonen: 0s331

Ricciardo x Verstappen: 0s179

Ocon x Perez: 0s587

Hulkenberg x Sainz: 0s195

Stroll x Sirotkin: 0s053

Alonso x Vandoorne: 0s011

Hartley x Gasly: 0s540

Grosjean x Magnussen: sem tempo

Leclerc x Ericsson: 1s648

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Por dentro da F-1 e das diferenças com o seu motor

Muito se fala sobre a transferência de tecnologia da Fórmula 1 para os carros de rua – e também muito se questiona a respeito. Isso porque essa transferência dificilmente é direta e muitas vezes a pesquisa e desenvolvimento para algo que talvez nem seja usado nas ruas acaba saindo bastante caro.

A atual unidade de potência é um exemplo disso. Sua parte mais complicada e cujo desenvolvimento é mais aberto é o MGU-H, unidade de recuperação de energia calorífica. Pelas regras, a recuperação e uso dessa energia é ilimitada, enquanto o MGU-K tem recuperação limitada a 2MJ/volta e uso de 4MJ/volta.

Desde que essas regras foram estabelecidas, a Mercedes calcula que o volume de conhecimento sobre a termoeficiência do motor evoluiu mais que em 100 anos de indústria automobilística. Porém, nem tudo o que foi compreendido tem utilidade para os carros de rua.

Para entender essas diferenças, aí vão as principais diferenças entre o motor de um Fórmula 1 e mesmo aqueles que equipam superesportivos:

Para economizar peso/espaço, os carros de F-1 não têm motor de arranque e precisam ser ligados externamente. (Ok, existe método de acioná-lo usando o MGU-K, mas isso certamente não simplifica as coisas!). Além disso, o motor tem de ser pré-aquecido por água a cerca de 80ºC para ser ligado, uma vez que as tolerâncias em termos de materiais são tão mínimas que afetaria o funcionamento dos pistões. Afinal, sem essa dilatação térmica, o esforço entre os dentes das engrenagens seria demasiadamente alto.

Isso nos leva ao segundo ponto, o arrefecimento. É óbvio a qualquer um que observe um carro de F-1 que ele tem muito mais entradas de ar que um carro comum. Se a unidade de potência da categoria fosse instalada em um carro de passeio somente com as entradas frontais, ele se superaqueceria. Fora que a posição dos radiadores – apontando para baixo e nas laterais – ajuda a diminuir o arrasto aerodinâmico.

Outro problema óbvio seria reabastecer seu carro equipado com motor de F-1. O combustível não é tão diferente do usado nos carros de rua, mas o controle de resíduos é infinitamente mais restrito. Não que os motores de competição sejam mais fracos, mas sim são projetados para trabalharem sob um estresse muito alto, o que nos leva ao próximo tópico.

Que tal se seu carro gastasse 100 quilos de combustível (algo em torno de 125l) em uma hora? E se ele perdesse 5% de rendimento depois de andar por duas horas no calor e umidade?

Esses números são diretamente relacionados ao nível alto de rendimento que os motores de F-1 atingem. A pressão interna de um cilindro, por exemplo, pode chegar a 1500psi por segundo. Já os pistões vão subir e descer 200 vezes por segundo, suportando uma carga que chega perto de 10.000 vezes a força da gravidade.

Basicamente, a única vantagem de ter um motor de F-1 em seu carro é que ele seria mais leve. O peso mínimo da unidade de potência é de 145kg e mesmo os carros de maior performance têm motores de cerca de 170kg. Mas o lado bom para por aí.

Os limites nos quais um motor de F-1 trabalha são tão tênues que os fornecedores encontraram vários desafios simplesmente para fazer suas unidades de potência durarem por seis corridas. Tudo precisou ser feito com materiais mais resistentes, mas ao mesmo tempo ganhando o menor peso possível. Mas isso já é assunto para outro post.

O professor de Fittipaldi

“Minha idade? 76.000 quilômetros”, disse certa vez Chico Landi, considerado o grande pioneiro do automobilismo brasileiro e cuja morte completa 29 anos nesta semana. Contemporâneo de nomes como Nuvolari e Fangio, é ele quem é citado por Emerson Fittipaldi quando o bicampeão é questionado sobre seu pioneirismo. “Eu só segui o Seu Chico.”

O primeiro contato do filho de italiano com ítalo-brasileira foi nas ruas do bairro de Santana, em São Paulo, assistindo a corridas de carroceiros. Com a morte do pai, ainda adolescente, começou a trabalhar como mecânico, e sua habilidade em consertar carros acabou lhe dando fama nos rachas que eram disputados na cidade paulistana no final dos anos 1920.

Em 1928, Chico Landi comprou um Chevrolet 28, conhecido como “Cabeça de Cavalo”, carro com o qual diz ter aprendido a pilotar. Mas sua primeira corrida oficial foi no chamado “trampolim do diabo”, na Gávea, em 1934. Landi liderava quando abandonou e só venceria a primeira corrida no ano seguinte.

Foi para a Europa somente em 1947, inicialmente, a princípio para assistir ao primeiro GP de Bari, mas acabou correndo em impressionando ao bater os italianos Luigi Villoresi e Achille Varzi, que competiam com carros Maserati, iguais ao seu, e eram dois dos melhores pilotos da época, ao lado de Fangio, Ascari e Farina.

Seu grande momento no automobilismo europeu, contudo, seria no ano seguinte, GP de Bari 1948, quando venceu de forma tão inesperada que os organizadores improvisaram “O Guarani” ao invés do hino brasileiro. Na volta ao Brasil, mais problemas: os italianos não queriam deixá-lo passar com o troféu na alfândega e Landi precisou de intervenção do consulado brasileiro.

Foram oito anos de Europa e há quem diga que a única diferença de Landi e Fangio foi o grande incentivo financeiro dado ao piloto pelo governo argentino, embora o brasileiro fosse mais velho e tenha tido seu auge justamente durante os anos de Segunda Guerra e reestruturação da Europa. A Landi, cabia carregar ele mesmo a bandeira brasileira em sua mala para garantir que ela fosse hasteada nas corridas.

Já perto dos 50 anos quando a história da F-1 começou, Landi acabou disputando apenas seis provas na categoria entre 1951 e 1953, além do GP da Argentina de 1956, quando conquistou seu único ponto pelo quarto lugar – na verdade, 1,5 no carro dividido com Gerino Gerini.

Curiosamente, um dos carros com que Landi correu na F-1 era verde-amarelo, mas não se tratava de uma equipe essencialmente brasileira: eram três Maserati correndo sob o nome de Escuderia Bandeirantes, e as cores foram definidas pelos organizadores, que identificavam os carros de acordo com a nacionalidade dos inscritos. O time inscreveu-se apenas em quatro GPs, e teve como melhor resultado o 8º lugar no GP da Itália de 1953.

Porém, mais do que marcas em si, o que fica de Landi é sua paixão pelas corridas, que o levou até a construir, nos anos 1960, carros de corrida totalmente brasileiros com configuração de F-1, ainda que o projeto não o tenha levado à categoria. O primeiro deles, Landi-Bianco F1, teve vida curta, de um ano, após a morte de Celso Lara Barberis quando o pilotava nos 500km de Interlagos de 1963.

Em uma época na qual o Brasil era importador de petróleo e sofria com a falta do produto por conta da guerra, Landi chegou a vencer provas pilotando carros movidos a etanol, de fabricação nacional, e ficou conhecido como o rei do gasogênio, uma vez que sua empresa fabricou o que seria a fonte de combustível muito usada neste período como substituto da gasolina. E também venceu corridas com carros movidos a carvão vegetal.

Não por acaso, deixou de correr apenas aos 66 anos, em 1974. Nos últimos anos de vida, assumiu a direção do Autódromo de Interlagos com a missão de levar a corrida de F-1 a São Paulo, mas morreu em 7 de junho de 1989, menos de um ano antes do retorno da prova à capital paulista. De certa forma, porém, ele estava por lá: após a morte por infarto, suas cinzas foram espalhadas pelo autódromo.

Estratégia do GP de Mônaco e o que poderia ter mudado a prova

A tática de Gasly mostra o que poderia ter sido o final do GP de Mônaco

“Suponho que o ritmo foi lento porque os outros estavam economizando pneus, enquanto meu ritmo era lento porque eu estava com menos potência e cuidando dos freios”. Essa explicação de Daniel Ricciardo não apenas dá um belo panorama do GP de Mônaco, como também enfatiza o tamanho da vantagem da Red Bull em ritmo de corrida e de classificação no Principado. Parte disso tem a ver com o circuito, mas o australiano também afirmou acreditar que ninguém se entendeu melhor com os pneus hipermacios do que eles. E o composto vai aparecer de novo na próxima etapa, em Montreal.

Em Mônaco, a diferença foi gigantesca: ficar sem o MGU-K, como aconteceu com Ricciardo, não apenas significa ter 160cv a menos de potência, como também compromete os freios, que ficam sem a ajuda do torque do sistema. Para combater uma possível – e quase real – falha total de freios, Ricciardo jogou o equilíbrio de freios em 6 a 7%, segundo ele mesmo, para os dianteiros (os pilotos não costumam mexer em mais de 2% ao longo de uma corrida), correu com 1ª a sexta marchas e mudou sua pilotagem. E ainda assim a equipe calcula que seu déficit tenha sido de 2s por volta.

Nem assim foi suficiente para que Vettel atacasse. O alemão explicou ter optado por preservar os pneus e chegar em segundo do que atacar e arriscar sofrer no final da prova.

Mônaco nunca é uma prova em que os pneus são um problema, pelas curvas não colocarem muita energia neles e pelo asfalto liso. Mas a Pirelli tentou mudar isso neste ano, fabricando um composto de altíssima aderência e degradação, o hipermacio. O objetivo era que os pilotos precisassem de dois pit stops para completar a prova.

Porém, como Mônaco é Mônaco e a posição de pista é fundamental, a opção foi por adotar um ritmo bem mais lento e só parar uma vez. Isso, mesmo com um carro muito mais lento liderando o pelotão. Prova da lentidão é a diferença para o “melhor do resto”, Esteban Ocon: 23s. Em Barcelona, aquele que ocupou essa posição, Kevin Magnussen, ficou a mais de 80s do vencedor.

Outro dado interessante: mesmo antes dos problemas no MGU-K começarem, Ricciardo já estava bem mais lento do que poderia, andando na casa de 1min17, 7s acima da pole. Três deles vêm do peso do combustível e 2s do modo de motor mais conservador para a corrida. Então ele já andava 2s mais lento do que poderia só para levar os hipermacios até perto da volta 20. Não é a toa que os pilotos reclamaram que não houve corrida em Mônaco!

Mesmo naquele momento, não havia o que os rivais pudessem fazer, por conta do graining, especialmente nas Mercedes. O carro mais longo e que já vem, desde o início da temporada, sofrendo com os compostos mais macios – lembrando que o time chegou a tentar fugir dos hipermacios na classificação – e o quadro foi até pior em Mônaco devido às características da pista.

Mas e com Ricciardo com problemas, seria possível mudar a estratégia e a cara da corrida? Em teoria, qualquer um dos quatro primeiros parasse com, digamos, 20 voltas para o fim e colocasse os hipermacios “pagaria” sua parada em quatro voltas, sendo naturalmente 5s por volta mais rápido. Mas seria o suficiente para passar quem não tivesse parado? É essa a aposta que os estrategistas não quiseram fazer em uma pista como Mônaco.

Por outro lado, a sorte de Ricciardo é que seu problema começou depois das paradas. Caso Vettel não tivesse feito o pitstop e, com isso, estivesse na ponta, ganharia a corrida. É o que indica a boa tática da Toro Rosso, que manteve Pierre Gasly na pista por 37 voltas com o hipermacio, fazendo com que ele tivesse pista livre em momentos-chave para passar Sainz e Perez com o overcut e estar em posição de herdar a posição de Alonso quando o espanhol teve uma quebra, terminando em uma ótima sétima posição.

Os compostos serão os mesmos para a próxima etapa, no Canadá, mas o cenário muda totalmente por ser uma pista em que dá para ultrapassar. E também pela indicação da  Mercedes, que ao selecionar apenas cinco hipermacios, mostrou que vai fugir deles na corrida.

Drops do GP de Mônaco e as picuinhas da F1

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 Pexels.com

A chegada do avião ao aeroporto de Nice é uma das mais bonita – talvez a melhor – da temporada. Você vai vendo as praias e o mar incrivelmente turquesa, vai chegando cada vez mais perto até pousar do ladinho do mar. Depois, no caminho a Mônaco, de ônibus e principalmente de trem, a cada fim de túnel começa um paraíso diferente.

 

Mas não dessa vez. O tempo estava (bem) feio na chegada, ainda na terça-feira, e voltou a piorar na segunda. Então esse GP de Mônaco acabou ficando mais com o gostinho de outra marca registrada da prova: de ser um GP estilo Forest Gump.

 

Os fotógrafos, claro, têm números muito mais impressionantes. Mas até a jornalista aqui andou quase 77km a pé durante o GP e subiu o equivalente a 174 andares, seja em escadas mesmo ou nas ladeiras do Principado.

 

Já tinha me programado ir para a McLaren para saber mais sobre o papel de Gil de Ferran na equipe quando soube que a filha dele estava namorando Vandoorne. Então lá fui eu, acredito que apenas pela segunda ou terceira vez, para a coletiva do belga, que é daqueles pilotos que não costumam dar declarações lá muito interessantes. Coitado, ele não esperava a pergunta e ficou roxo.

 

Com Gil, tinha acertado uma entrevista, que foi barrada com a McLaren. Querem esperar que ele entenda melhor a filosofia do time – ou seja, o que pode falar – para conversar com a imprensa.

 

Continuando com os brasileiros, Sette Camara saiu do circuito ainda durante a segunda corrida da F-2, muito irritado com a maneira como foi tratado pelos médicos. Depois de ter sido vetado para a primeira corrida devido a uma luxação no pulso, consequência de uma batida na classificação, ele sequer chegou a ser examinado antes da prova 2, mesmo sentindo-se totalmente apto a correr. O lado bom é que pelo menos ele tem um mês até a próxima corrida, na França.

 

É impressionante nos bastidores da F-1 como coisas que não vão mudar o preço do dólar tomam proporções maiores do que deveriam. Em Mônaco, de um lado o pessoal da FOM estava irritadíssimo porque especialmente a mídia inglesa falava no retorno das grid girls – e falo mais sobre isso adiante – e, do outro lado, a FIA se revoltava com o site oficial (ou seja, com a FOM) pela cobertura questionando a legalidade do motor da Ferrari.

 

Isso porque a FIA estava tentando manter tudo debaixo dos panos, sendo inclusive curiosa a forma como o conglomerado que controla Motorsport.com e Autosport tratou o assunto. No final das contas, a federação acabou dizendo que o motor estava ok em Mônaco – e é claro que estava! – mas sem explicar como se chegou até ali.

 

Sobre as grid girls, a questão da FIA era que, pela acepção do termo, grid girls seguram placas com números e bandeiras dos pilotos. E no caso de Mônaco era uma ação publicitária em que isso não aconteceria. O fato é que homens e mulheres estavam no grid com plaquinhas com frases supostamente de fãs. Foi uma boa forma de dar visibilidade à marca e até eu fui puxada pelos modelos brasileiros que estavam no carro de Hamilton para tirar foto e entrar na brincadeira. Mas o difícil é achar essas contas que estavam citadas nas placas…

 

Falando em show, pela segunda vez o Twitter da F1 fez uma transmissão ao vivo, com entrevistas após a corrida. As visualizações superaram 1.4 milhão, muito mais do que o próprio Twitter esperava. Os americanos acreditavam que a categoria ficaria no mesmo patamar do programa feito de forma semelhante na NBA, que tem média de 600 mil espectadores. Para a FOM, perfeito. Já as TVs fechadas que pagam milhões em direitos e têm como uma das armas o conteúdo pós-corrida, não foi uma ideia muito popular.

 

Falando em FOM, uma fofoca engraçada. A F1 agora tem uma pessoa encarregada de selecionar digital influencers para ir ao paddock e ajudar na promoção da categoria especialmente entre o público mais jovem. Isso pode ser fácil em alguns lugares, mas é preciso conhecer um pouco da cultura. Pois bem. Em Baku, a primeira gafe: algumas mulheres foram selecionadas por terem muitos seguidores. No final, descobriu-se que eram prostitutas, e não influencers.

 

Voltando às corridas, Mario Isola, da Pirelli, falava sobre a escolha de pneus para o GP da Hungria e perguntei se eles estavam esperando Mônaco para decidir se daria para usar os hipermacios lá. A resposta foi franca: “Não, não saiu ainda porque esqueci de mandar o email”. Atrasos à parte, a boa notícia é que, na segunda metade do ano, as escolhas de compostos devem ter saltos, ou seja, algo como: médio, macio, ultramacio.

 

Personagem do final de semana, Verstappen surpreendeu com a firmeza em não reconhecer os erros neste ano – somente China e Mônaco foram culpa dele, pela sua conta. Mas seu olhar perdido logo após a coletiva lotada mostrava mais um menino perdido e pressionado do que o piloto que respondia firmemente instantes antes. No domingo, o semblante mudou, as respostas ficaram mais maduras. Mas esse foi exatamente o mesmo filme que vi depois do GP da China.

“Correndo” nas ruas de Mônaco

É fato que o GP de Mônaco historicamente é ganho até com facilidade com apenas uma parada no box. Mas não deixou de chamar a atenção o fato de, mais uma vez, os pilotos terem corrido com o “freio de mão puxado” para fazer a melhor estratégia na pista funcionar. No caso de Mônaco, esse sempre foi o caso porque se “a” pista em que a posição de pista ganha vantagem em relação a qualquer outra tática. Mas o que estamos vendo é que, em que pese a competitividade do campeonato, o que nos fez ter resultados até aleatórios na temporada até aqui, os carros atuais fazem brotar aqui e ali cada vez mais Mônacos, mesmo com os pneus mais macios que a Pirelli já fez.

Esse está longe de ser um problema novo, mas em 2011 o combo DRS e pneus de alta degradação pareceu ter dado uma nova cara às corridas. A Ferrari, com Alonso, chegou a ganhar uma corrida com quatro paradas no box, em uma performance alucinante do espanhol. Porém, especialmente após as alterações de 2017, esse tipo de tática passou a ser impossível porque simplesmente é preciso uma diferença abismal para sequer tentar uma ultrapassagem.

Sabendo disso, a Pirelli tornou seus pneus mais macios e criou o hipermacio, o que em teoria significa dois degraus acima em termos de degradação em relação ao ultramacio do ano passado. E o que aconteceu? Mais uma vez valeu mais a pena andar devagar e sempre do que efetivamente disputar uma corrida em Mônaco.

Não por acaso, Hamilton saiu do carro dizendo que, se estivesse no sofá de casa, estaria dormindo. Isso não aconteceu por conta de uma excelente pilotagem de Daniel Ricciardo, que superou uma perda significativa de motor de maneira tão brilhante que Vettel sequer chegou a pressioná-lo. O australiano falou que perdeu o MGU-K. Se foi esse mesmo o caso, ele tinha uma desvantagem de cerca de 160 cavalos para Vettel e também não podia usar a oitava marcha para não danificar o motor. Ou seja, no único ponto de ultrapassagem do circuito, estava exposto, mas conseguia se garantir focando no trecho entre o Cassino e a Portier.

Existe, contudo, o outro lado da história. Vettel disse que desistiu de tentar qualquer coisa porque, caso contrário, temia que os pneus ficassem num estado muito ruim. E isso basicamente acabou com suas opções de vitória.

Quem também evitou um sono coletivo foi Max Verstappen, mais pela expectativa gerada do que pelo que ele mesmo conseguiu fazer na pista. No início, passou de maneira limpa os rivais mais lentos e depois passou grande parte da corrida andando no mesmo ritmo de Alonso e tentando levar os pneus ultramacios ao maior número de voltas possível antes de colocar os hipermacios para atacar no fim. Ou seja, estava sendo bem mais lento do que poderia porque ser rápido não adianta quando não se tem posição de pista em Mônaco.

Em mais um final de semana sólido, Pierre Gasly conseguiu fazer os hipermacios – aqueles que deveriam derreter em pouco tempo – durarem até a volta 43: perguntei como e ele disse “boa pergunta”, mas creio que já temos a resposta. É porque ele pilotou bem mais devagar do que poderia.

Isso surpreende em Mônaco? Não. A grande empolgação do Principado é o limite tênue entre ser um Ricciardo e ser um Verstappen: o próprio Gasly disse que tocou a mesma barreira que o holandês na classificação, mas conseguiu se safar. Mas é uma tendência que nem mesmo os pneus chiclete puderam resolver.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP de Mônaco

 

Hamilton4 a 2Bottas
Vettel5 a 1Raikkonen
Verstappen4 a 2Ricciardo
Perez3 a 3Ocon
Hulkenberg4 a 2Sainz
Stroll2 a 4Sirotkin
Gasly4 a 2Hartley
Alonso6 a 0Vandoorne
Leclerc4 a 2Ericsson
Grosjean2 a 4Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s209

Vettel x Raikkonen: 0s227

Verstappen x Ricciardo: sem tempo

Ocon x Perez: 0s093

Sainz x Hulkenberg: 0s125

Sirotkin x Stroll: 0s526

Alonso x Vandoorne: 0s171

Gasly x Hartley: 0s238

Grosjean x Magnussen: 0s463

Leclerc x Ericsson: 0s436

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.

Por dentro da F-1 e o desafio logístico de Mônaco

Era para ser um pitstop de rotina para Daniel Ricciardo, líder do GP de Mônaco de 2016. A pista já dava claros sinais de que estava seca e o australiano trocaria seus pneus intermediários pelos supermacios. O problema é que eles não estavam lá, a parada foi demorada, e Ricciardo voltou à pista vendo o carro de Lewis Hamilton passar na sua frente para vencer.

Erros de pitstop acontecem em qualquer corrida, certo? Mas aquela falha da Red Bull pode ser colocada no saco das “coisas de Mônaco”. Neste caso, coisas que só acontecem com a logística maluca de Mônaco. Os mecânicos estavam preparados para colocar os pneus macios, mas os estrategistas decidiram de última hora que o supermacio deveria ser usado. Isso não seria um problema em qualquer outro circuito, porque os jogos de pneus disponíveis para a corrida ficam na garagem, mas não em Mônaco. Lá, os pneus ficam na parte de trás da garagem e apenas são trazidos para a parte da frente, onde são feitos os pit stops, perto das paradas. Os estrategistas tinham esquecido que Mônaco é Mônaco.

Imagine um país que tem 0s4km/2 a mais que o Parque do Ibirapuera e possui uma população de 38 mil habitantes de repente ver 200 mil pessoas chegarem para uma corrida de carros que, em si, já vai ocupar espaço por natureza. A montagem da pista começa apenas seis semanas antes do evento, e consiste na colocação de 1200 toneladas em arquibancadas, 1000 toneladas para a construção da região dos pits, 20.000 metros quadrados de fios, 3000 pneus para os muros de proteção e quase 34km de guard rails. Esse material chega por trens e mais de 500 trailers, vindos de galpões na França e na Itália. Sabe quantos engenheiros fazem a instalação? 50. Só do lado do Automóvel Clube de Mônaco são mais de 2000 pessoas trabalhando no GP.

Pois bem. Aí chegam as equipe, seus trailers e materiais. A maioria traz os motorhomes, que ficam em um apertado paddock. A Red Bull se instala em um iate gigantesco. A parte “em terra” é tão apertada que os pilotos estacionam as scooters que costumam usar no Principado na parte de fora, ou seja, têm de passar pelos fãs para chegar a elas. E nós jornalistas também, pois Mônaco é uma das poucas provas em que trabalhamos fora do paddock.

Você atravessa uma ponte daquelas de patrocínio e chega no pitlane. Os boxes têm dois andares graças a uma reforma de 2004, mas ainda assim o espaço é reduzido. No andar de baixo, ficam os carros e o equipamento mais básico possível. Todo o restante vai para o andar de cima, inclusive o “pitwall”. E é comum ver empilhadeiras fazendo “entregas” para a parte de cima pela janela mesmo. Os motores, por exemplo, são montados no andar de cima.

O aperto é tanto que é normal as equipes levarem menos peças de reposição para Mônaco. E isso mesmo com a possibilidade maior de acidentes. Os mecânicos também têm de se virar com menos ferramentas do que o normal.

E quem vai ao GP pode ver esse aperto todo de perto por conta de outra particularidade do GP de Mônaco: mesmo com muita atividade de pista, uma vez que é um final de semana que tem outras categorias além da F-1, trata-se do único circuito que é aberto durante o final de semana de corrida. Como os treinos livres acontecem, excepcionalmente, na quinta-feira, no dia seguinte, inclusive, todo o circuito é reaberto ao tráfego normal de carros. Nos demais dias, são poucos os carros que passam pela parte do porto, mas o restante está totalmente liberado.

Isso também exige um esforço logístico. As vias são fechadas às 6h da manhã de quinta-feira para a instalação das últimas barreiras, e são reabertas às 19h. Isso acontece todos os dias (a não ser na sexta, quando as vias ficam totalmente abertas. Depois da corrida, a liberação acontece ainda mais cedo, às 18h. Ao mesmo tempo, começa o trabalho de desmontagem de todo o aparato, feito de madrugada. Em três semanas, não há mais sinal de que houve um GP ali.

Um recorde de Senna que segue em pé


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Nada parecia estar do lado de Ayrton Senna antes da largada daquele GP de Mônaco de 23 de maio de 1993. Nem mesmo seu estado de espírito.

Senna sofreu um forte acidente na Ste Devote, ainda na sexta-feira, depois de passar por uma ondulação e perder o controle da McLaren. “Achei que me machucaria feio, que perderia minhas pernas”, disse o brasileiro na ocasião. E ainda teve outra batida, bem mais leve, no sábado na saída do túnel pelo mesmo motivo, o que Ayrton sentar pensativo ao lado da pista depois de ficar com o terceiro lugar no grid, a quase um segundo do pole Prost e atrás também de Schumacher.

Mas, no domingo, tudo deu certo para o brasileiro.

Prost ficou para trás logo no começo, devido à punição por uma largada queimada que gerou muita discussão na época e sobre a qual não se chegou a um consenso. Sem todos os sensores existentes hoje – e que ainda assim deixaram dúvidas com Bottas ano passado na Áustria – ficou registrado nas matérias da época que “se Prost queimou, foi por muito pouco”. A punição saiu cara para o francês, que deixou o motor morrer duas vezes ao cumprir o stop and go e perdeu tempo suficiente para voltar uma volta atrás e perder e qualquer chance de pódio mesmo que sua Williams fosse o melhor carro disparado.

Ainda assim foi o francês quem entreteve a torcida, passando boa parte do pelotão, ainda que a superioridade da Williams tenha ficado clara no resultado final: Prost foi o único com uma volta atrás, ou seja, não a recuperou, enquanto quem vinha atrás levou duas voltas do líder.

Líder este que era um Schumacher tranquilo até a volta 32, quando já tinha mais de 10s de vantagem. Atrás dele, Senna disse depois da corrida que estava andando mais lento do que podia, preservando os pneus e esperando para atacar no final, mas mesmo antes da metade da prova o alemão da Benetton teve um problema hidráulico que acabou comprometendo seu câmbio e motor, e abandonou.

Daí em diante ficou fácil para Senna, que colocou mais de 50 segundos em Damon Hill, companheiro de Prost que, curiosamente, acabou a prova logo atrás do piloto brasileiro.

É interessante que os relatos da época dão conta de que não se criou uma expectativa exagerada diante da possibilidade de Senna conquistar sua quinta vitória seguida em Mônaco ou a sexta na carreira, superando a marca de Graham Hill, tamanho o déficit da McLaren em 1993, embora Senna tivesse vencido nos dilúvios de Interlagos e Donington. Desta vez, o braço não contou tanto quanto nas outras vitórias históricas daquele que considero o melhor ano do piloto brasileiro, mas fica a lembrança pela marca histórica que ainda não foi atingida de seis vitórias no Principado. No atual grid, só Alonso, Hamilton e Vettel ganharam a prova, os três em duas ocasiões cada.

PS.: Algo que me chamou a atenção nos vídeos da corrida é a lentidão dos carros especialmente onde eles mais me impressionam hoje em Mônaco, nos S da piscina. Se não me engano, o traçado mudou um pouco por questões de segurança e se tornou mesmo mais veloz, mas fui checar: em duas corridas sem chuva, Vettel venceu sendo oito minutos mais rápido em 2017, com o mesmo número de voltas e também apenas uma parada nos boxes, sem reabastecimento.

Estratégia do GP da Espanha e mais sobre o motor “bombado” da Ferrari

O post é de estratégia e vamos falar muito dos pneus, mas ao que parece não foi esse o motivo do domínio da Mercedes no GP da Espanha. A FIA teria descoberto um conector extra no MGU-K no motor da Ferrari, achou uma bateria a mais, não teve uma resposta convincente do que seria e teria mandado parar com isso, uma vez que a inspeção no MGU-K principal já tinha constatado que ele trabalhava no limite de 2MJ por volta.

Era a informação sobre essa engenhoca que Lorenzo Sassi, que foi da Ferrari para a Mercedes, teria passado aos alemães. A tal bateria extra daria algo em torno de 0s270 por volta – mais em classificação e em situações cruciais da corrida, como largada, in e outlaps ou ultrapassagens. A Mercedes nega essa teoria, diz que seu GPS mostra que os motores estavam iguais e que a diferença ficou nas curvas de baixa. Porém, se a tendência da Espanha continuar, teremos a confirmação de que foi essa mesmo a história.

Com ou sem bateria extra o final de semana na Espanha já foi complicado o suficiente por conta dos pneus. A combinação das características do circuito, temperatura e o pneu com superfície mais fina fez com que se tornasse difícil extrair rendimento do supermacio, pois os dianteiros começavam a volta frios e os traseiros a terminavam muito quentes. Isso, em uma volta lançada. Nos stints longos, havia muitas bolhas nesse composto.

Então a decisão de se livrar do supermacio para a corrida foi fácil, tornando o GP da Espanha uma prova de, teoricamente, uma parada, ainda que as temperaturas causassem incertezas a respeito de quão fácil isso seria.

No final das contas, acabou ficando no limite entre uma e duas. A Red Bull foi para a prova com um ritmo de corrida um pouco superior, mas dependia muito da largada: seus pilotos acabaram se mantendo em quinto e sexto e foram claramente limitados pelo ritmo de Raikkonen.

Mas como se pode dizer isso se eles nunca chegaram a tentar uma manobra? Barcelona é um dos circuitos em que o efeito do ar turbulento é mais sentido, e se um carro se mantém por várias voltas a 1s5 do outro, quer dizer que tem mais ritmo, pois a turbulência lá começa a afetar o rendimento com mais de 3s entre os carros!

O mesmo aconteceu com Bottas em relação a Vettel. O finlandês teve mais um final de semana de “e se”, depois de perder a pole por 40 milésimos e se ver exposto à curva 2 na largada. Depois do primeiro stint todo atrás da Ferrari, o máximo que podia almejar era o segundo lugar.

Outra prova de que o ritmo de Bottas era forte foi a parada antecipada de Vettel que, ao contrário de Raikkonen, que ia mais lento, fez bolhas em seus pneus. A parada aconteceu na fronteira entre as estratégias de uma ou duas paradas, o que explica a espionagem que vimos do engenheiro da Mercedes no box ferrarista: seria uma tática ou uma necessidade?

Os alemães, então, decidiram jogar em duas frentes: Hamilton estenderia seu stint e faria uma parada, enquanto Bottas aproveitaria que Vettel voltou atrás de uma Haas, faria duas voltas voadoras e tentaria o undercut mesmo colocando os médios, mais difíceis de aquecer. E daí para frente seria uma questão de defender a posição de pista, algo fundamental em Barcelona, aguentando até o final. Teria dado certo, mas a parada do finlandês foi lenta e ele voltou logo atrás.

A corrida acabou tendo alguns dramas em termos de tráfego (Vettel com Magnussen e depois Hamilton com Verstappen) que só ilustram como é quase impossível passar em Barcelona. Mas o único drama da parte final foi a indecisão da Mercedes sobre a duração dos pneus de Bottas. Porém, seria uma questão dele se segurar na pista após Vettel fazer sua segunda e inevitável parada. Novamente, posição de pista é o que conta em Barcelona.

A Ferrari ainda deixou o alemão ao máximo na pista esperando um SC ou VSC e conseguiu isso quando Ocon parou com o motor quebrado. Poderia ter sido o suficiente para perder apenas a posição para Bottas, mas a inlap de Vettel não foi boa devido ao trânsito e ele também errou suas marcas a hora da parada, atrasando o trabalho da Ferrari. Foram detalhes que acabaram tirando-o do pódio.

O desgaste de pneus de Vettel tem motivos para preocupar a Ferrari. O próprio alemão já voltou atrás, na entrevista que deu nos testes, que isso tenha algo a ver com a mudança feita nos compostos para Espanha, França e Inglaterra por conta das curvas rápidas mais longas: além dele, só Perez, Hartley e Sirotkin tiveram de fazer a segunda parada.

Outro fator que chamou a atenção foi o domínio da Haas de Magnussen na ponta do segundo pelotão, justamente em uma corrida na qual a Renault trouxe várias novidades para o carro. E, também, usando um motor Ferrari…

Drops do GP da Espanha com Alonso no WEC e a pressão da Mercedes

Hamilton quando soube do GP em Miami: Uhu!! Hamilton quando viu o circuito proposto: Meh…

A história do GP de Miami empolgou os pilotos, mas foi curioso perguntar a Sergio Perez se ele achava que mais uma prova na região seria boa para o México e ele olhar incrédulo: “Mas isso realmente vai acontecer?” Mesmo depois de responder, ele não continha a empolgação. “Então vamos nos livrar de Baku?” Perguntei por que ele gostaria disso, já que tem dois pódios lá. “Não que eu queira, é o que ouvi.”

 

Mas não, pelo menos para o ano que vem o GP está garantido e deve voltar a sua data original. Mas onde entra Miami? Fala-se que em Outubro mesmo, até em finais de semana seguidos com Austin. Se esse for o caso, é difícil pensar que a corrida em COTA vai durar muito tempo. Ainda mais com as negociações com New Jersey reabertas.

 

Há várias teorias sobre como o calendário ficará, mas esse está longe de ser o maior problema. Os organizadores do GP da Alemanha em Hockenheim e também de Silverstone estiveram em Barcelona para discutir a extensão de seus contratos basicamente com o mesmo pedido: dividir os lucros ao invés de pagar uma taxa para receber os GPs, a fim de “retirar o risco de prejuízo”. No caso dos alemães, que pelo menos neste ano estão empolgados com o boost de ter Vettel bem e Verstappen sozinho trazendo pelo menos ⅙ do público, o acordo acaba em 2018. Na Inglaterra, são só duas corridas garantidas.

 

Reduzir drasticamente o dinheiro ganho com as taxas teria um grande impacto no dinheiro que movimenta a F-1. Atualmente, a soma é superior a meio bilhão de dólares. O total dividido pelos promotores e times é de 1.8 bi.

 

A boa notícia para os organizadores europeus é que eles são os primeiros a admitir que, diferentemente da era Ecclestone, pelo menos agora eles sentem que há abertura para conversar. Mas nem todos estão contentes. Há quem veja um foco exagerado no business.

 

Bottas garantiu que esqueceu rápido do desastre de Baku, mas talvez a ressaca tenha sido pior que a decepção. Ou pelo menos foi para quem teve de tomar shot atrás de shot com ele no domingo no Azerbaijão.

 

Quem chegou sorridente em Barcelona foi Fernando Alonso. Conversei com pessoas que estiveram em Spa no WEC e têm boas conexões com a Toyota e a avaliação era sempre a mesma: ele não é o mais rápido entre os pilotos da equipe ainda, mas o nível que mostrou e o quanto vem trabalhando tem impressionado a todos.

 

Isso, até mesmo entre os colegas de F-1, que não acreditaram quando ele pegou carona no jatinho de volta de Baku, pegou o carro em Genebra e dirigiu por horas madrugada a dentro para a fábrica da Toyota em Colônia, na Alemanha. No dia seguinte passou horas dirigindo novamente, no simulador. Para Le Mans, contudo, não chega como favorito. Tem um certo Koba guiando mais que ele.

 

Voltando ao paddock da F-1, foi intensa a movimentação do pessoal da Liberty Media dentro do hospitality da Mercedes por todo o final de semana. O motivo é a desconfiança dos alemães de que o motor ferrarista é ilegal, o que teria a ver com a forma como eles usam o sistema de MGU-H, algo que expliquei por aqui. A FIA não quer fazer estardalhaço sobre o tema, mas os times estão pressionando-os a enviar alguma clarificação oficial até antes de Mônaco. Caso contrário, vai ter protesto.

Em sintonia com Barcelona

São vários os motivos que levam a Fórmula 1 todo ano para o Circuito da Catalunha para os testes de pré-temporada. Um deles é o clima, ainda que neste ano ele não tenha ajudado tanto assim, mas o principal é o traçado. Afinal, o palco do GP da Espanha tem curvas longas de alta velocidade, que testam a aerodinâmica do carro, de médias e lentas no final da volta, em que a parte mecânica também é colocada à prova.

Uma vitória acachapante na Espanha como a da Mercedes neste domingo, portanto, só pode significar que os alemães agora têm o melhor carro do grid.

A não ser que isso também tenha acontecido durante os testes e não tenha se confirmado nas provas seguintes.

Até as condições climáticas em Barcelona eram parecidas com a segunda semana de testes, com temperaturas por volta de 15 graus, quando a maioria das simulações de corrida foram feitas, o que explica por que Bottas e Hamilton logo se apressaram em fazer a comparação. “Quando saímos daqui no inverno achávamos que tínhamos uma vantagem considerável e não foi o que aconteceu”, disse o inglês.

Mas há também outra linha de pensamento. Mesmo antes da corrida, a Ferrari deixou claro seu descontentamento com a mudança que a Pirelli fez nos pneus para algumas etapas, começando na Espanha. Os italianos fortaleceram a “parede” do pneu para evitar a formação de bolhas em circuitos que colocam muita energia nos pneus. Até aí não há problema algum, a não ser que essas bolhas apareceram apenas nos carros de Mercedes e Red Bull durante os testes.

Nenhum desses fatores, contudo, tira os méritos de Hamilton, que foi se encontrando ao longo do final de semana para chegar a um estágio de sintonia com o carro que ele ainda não tinha tido neste ano. Na sexta-feira, ele estava atrás de Bottas, mas na hora da verdade acabou colocando 20 segundos no companheiro. O ritmo do finlandês foi comprometido inicialmente por Vettel, mas só aumentou depois que o alemão saiu de sua frente. Bottas e todo o grid sabem muito bem que, quando Hamilton está se sentindo bem com o carro, é quase impossível batê-lo.

Enquanto isso, Vettel perdeu mais pontos, agora não por culpa sua, mas pelo desgaste surpreendente dos pneus da Ferrari. Parar duas vezes e colocar os médios não foi uma estratégia mirabolante e, sim, uma necessidade. Seria algo relacionado ao composto especial da Pirelli para Barcelona ou à pista em si? Resta ao tetracampeão esperar que sim.

Verstappen, por sua vez, teve a corrida tranquila que precisava para começar a colocar as coisas novamente no lugar. Foi mais rápido que Ricciardo o tempo todo e lucrou com os problemas ferraristas.

É fato que houve um momento em que Ricciardo disse à Red Bull que estava mais rápido, tentando forçar uma inversão de posições. Ele estava 1s5 atrás, o que demonstra um ritmo efetivamente mais forte em Barcelona, mas Verstappen também estava na mesma distância de Raikkonen, apagado neste final de semana.

Mas como assim “ele estava 1s5 atrás, o que demonstra um ritmo efetivamente mais forte em Barcelona”? A explicação sobre as mudanças de regras de 2019 neste final de semana deu números para a dificuldade atual de se fazer ultrapassagens na F-1: quando o carro está a 3s de um rival, já perde pressão aerodinâmica de forma significativa em uma pista com curvas longas como o Circuito da Catalunha. E a ideia do novo regulamento é diminuir esse efeito para 1s.

Enquanto 2019 não vem, não vai ter jeito: por mais que o grid esteja muito competitivo (em duas partes, é verdade, com os três melhores carros a milhas de distância do restante), haverá pistas em que as corridas serão procissões.

Confira o placar entre companheiros e as diferenças na classificação do GP da Espanha

Hamilton3 a 2Bottas
Vettel4 a 1Raikkonen
Verstappen4 a 1Ricciardo
Perez3 a 2Ocon
Hulkenberg4 a 1Sainz
Stroll2 a 3Sirotkin
Gasly3 a 2Hartley
Alonso5 a 0Vandoorne
Leclerc3 a 2Ericsson
Grosjean1 a 4Magnussen

Diferenças de hoje:

Hamilton x Bottas: 0s040

Vettel x Raikkonen: 0s310

Verstappen x Ricciardo: 0s002

Ocon x Perez: 0s402

Sainz x Hulkenberg: 0s443

Sirotkin x Stroll: 0s530

Alonso x Vandoorne: 0s223

Gasly x Hartley: sem tempo

Magnussen x Grosjean: 0s159

Leclerc x Ericsson: 0s832

As diferenças são calculadas nas sessões em que o companheiro com classificação pior é eliminado e os placares contabilizam o resultado do treino, e não a posição de largada, que pode ser alterada devido a punições.